Chapter X

O tempo se alongou, marcado pelas batidas da música e pela respiração intensa de Jensen. O loiro tentava ter certeza do que ouvira. Os olhos verdes saltavam do relógio em suas mãos para os olhos de Michael, que brilhavam com a expectativa.

- Mike... – Jensen sussurrou, a voz momentaneamente perdida. – Puxa, Eu não sei o que dizer. Não sei mesmo.

- Jen, - o mais velho tomou-lhe as mãos entre as dele – eu quero você. Mas quero fazer do jeito certo.

- Do jeito certo? – o loiro estava incerto, ainda sem compreender realmente a proposta.

- Eu sou um cara sério Jen. – Michael respondeu, segurando firmemente as mãos do outro. – E eu gostei muito de você, do que nós tivemos durante esse mês juntos. Eu quero dar mais um passo, Jensen.

O loiro passou a língua pelos lábios, nervoso. As vozes de Sebastian e de Jared ressoaram, zombeteiras, falando de propostas de casamento. Bom, para ele era quase aquilo. Ou será que estaria exagerando? Afinal de contas, ele também estava contente com que tinha com Michael, ele o fazia sentir-se bem. Gostava da presença dele, dos beijos, dos abraços, dos momentos mais quentes... Então, por que não dar aquele passo? Assumir que era mais do que apenas encontros descompromissados?

Ao mesmo tempo não sabia se realmente se sentia confortável com o rótulo "namoro". Quer dizer, nunca tinha sido namorado de alguém. Ainda mais de alguém como Michael. Ainda não conseguia entender porque Sebastian o tinha apresentado àquele moreno tão intenso que às vezes o deixava perdido. De alguma forma, ainda sentia que eles eram de mundos completamente diferentes, de que seria impossível pertencer completamente a ele.

- Michael, eu... eu não sei, você me pegou de surpresa. – respondeu, tentando medir as palavras. – Quer dizer, é claro que eu gosto de você, que adorei os nossos momentos, mas... Estou confuso. Eu nunca tive um namorado, e você... você parece demais para mim. – admitiu, baixando os olhos.

- Não diga isso. – Michael falou, tocando o queixo do loiro para erguer seu rosto. – Se eu te pedi em namoro, é porque vejo em você alguém que eu quero, que é diferente. Pode me dar qualquer razão para me dizer um não, menos esta.

Jensen encarou os olhos firmes e decididos por um momento. A determinação de Michael era sem dúvida algo que o impressionava. E tinha que admitir que era bom saber que ela estava voltada para ele. Seu ego agradecia e ficava feliz.

- Não estou dizendo não. – falou, por fim. – Eu só... preciso de um tempo.

Michael sorriu e acariciou a maçã do rosto do loiro.

- Você tem todo o tempo do mundo. – disse, aproximando-se e beijando-o suavemente. – Como eu disse antes, não quero forçar nada com você, Jen. Apenas pense no que eu falei, sobre como eu quero você em minha vida. De verdade.

Jensen deixou que ele o envolvesse em seus braços quentes e ficou ali, respirando o cheiro bom que ele tinha. Michael era gentil, apesar de sua ousadia. Podia estar sendo muito bobo, podia estar deixando a chance perfeita escapar. Mas simplesmente não conseguia responder naquele momento. Tempo, precisava de tempo, só isso.

- É melhor eu te levar para casa. – Michael disse, depois de passarem um longo momento abraçados. – Sua mãe vai ficar preocupada. – acrescentou, em um tom leve.

- Ela já deve estar quase ligando pra polícia. – Jensen falou, com um risinho.

Eles se olharam por um instante, antes de Michael se levantar para apanhar o casaco e as chaves do carro. Jensen continuou sentado, com a caixa do relógio nas mãos.

- Mike. – o loiro chamou, quando o outro vestia o casaco cinza-chumbo. – Eu não posso aceitar. – disse, levantando-se e estendendo a caixa na direção do moreno.

- Jensen... – Rosenbaum começou, mas Jensen interrompeu.

- Não, Mike, é sério. – falou, convicto. – É um presente lindo, e eu sei que você escolheu com carinho e comprou com o seu dinheiro, mas é demais. Quer dizer, quando é que vou poder usá-lo? Levam meu braço antes de eu dizer "assalto" se pisar com ele no metrô e não duvido que na escola também.

Michael suspirou e voltou até onde Jensen estava, levando o casaco do loiro.

- Tudo bem. – disse, conformado, tirando a caixa das mãos do outro. – Talvez eu tenha me excedido um pouco. – acrescentou, dando a volta para vestir Jensen. – Talvez você tenha notado que eu tenho essa tendência.

Jensen riu. Tudo em Michael parecia ser exuberante. Mas não era algo forçado ou afetado. Era natural e Jensen não conseguia enxergá-lo de outra maneira que não aquela.

- Mas quando eu vi o relógio não resisti à visão de você com ele. – continuou, abraçando-o por trás, juntando bem os corpos. – Também em um terno de corte italiano, feito sob medida... – acrescentou, falando junto ao ouvido do loiro. – Com uma gravata combinando com a camisa de linho e as abotoaduras de ouro branco... – beijou o pescoço de Jensen, arrepiando os pequenos pêlos da região. – Tão sexy, tão charmoso... Tão irresistível.

Jensen sentiu-se derreter com o calor das palavras e o corpo amolecer quando foi virado de repente, logo antes dos lábios do outro tomarem os seus avidamente. Passou os braços pelo pescoço de Michael para não cair e se entregar ao beijo, ao roçar dos corpos – terrivelmente excitante, ainda que por cima de toda aquela roupa.

A intensa vibração no bolso de Jensen, acompanhada de um clássico toque de telefone, interrompeu o momento tórrido. Michael se afastou um pouco para deixar o loiro atender a ligação.

- Oi, mãe. – Jensen disse, com um pouco de culpa na voz. Donna Ackles disse alguma coisa do outro lado. – Eu já estou voltando, mãe. Estamos saindo agora... Eu sei, mãe, o tempo passou rápido demais, foi só isso... Mike conhece os caminhos, mãe, vai ficar tudo bem. Logo, logo estamos aí. Beijo.

- Vamos logo, antes que meu relacionamento com minha talvez sogra fique negativo demais. – Michael brincou dando outro beijo, mais comportado, no loiro e puxando-o pela mão.

J & M

Misha olhou no relógio e suspirou pesadamente. Mais dez minutos de tortura. No palco elevado do auditório da escola, o palestrante falava em tom monocórdio sobre um tema que o moreno nem se lembrava mais qual era. Perguntou-se se era assim que seus alunos se sentiam em sua aula... Não, ele precisava ser melhor professor do que aquilo.

Puxou o celular do bolso e sentiu-se ligeiramente culpado. Mas ao seu lado Julian roncava de tempos em tempos e na fileira de trás Danneel e Genevieve falavam do último escândalo das Kardashians. Teclou até encontrar a caixa de mensagens de texto. A última era de Danielle, acertando os últimos detalhes para a ceia de Natal – que como de tradição aconteceria na casa do professor. Desceu até chegar a uma que tinha recebido uma semana antes.

"E aí, Mish? Já está nevando por aí? Aqui está um sol de rachar, embora a noite faça frio. Acredita que quase não chego a tempo das bodas? Um acidente na rodovia perto de Miami*, fiquei horas preso no engarrafamento. Mas consegui chegar. Aposto que você está se divertindo a beça no curso... Dê um abraço na Gamble por mim! Bom, de qualquer forma, ótimas férias. Vejo você em janeiro ;-D"

Misha releu a as palavras, como havia feito com certa freqüência nos últimos dias. Quando recebera a mensagem, respondera logo, comentando como o curso estava "maravilhoso" e dizendo que quando Mark voltasse o torturaria até ele entregar qual era o segredo da diretora que ele usara como chantagem. Desde que entreouvira a conversa das colegas na sala dos professores, não conseguia parar de pensar em Mark, por mais que tentasse.

Não partilhara aquilo com ninguém, nem mesmo com Beaver. Talvez porque tivesse medo do que fosse ouvir do amigo. Talvez porque falar com outra pessoa significaria dizer que tinha sido afetado pela insinuação de que era apaixonado por Mark e vice-versa. Sim, porque era aquilo que o incomodava, definitivamente. A conversa com a Sra. Novak tinha lhe ajudado a deixar de lado o fato de que comentavam sua vida pessoal nos corredores. Mas agora se via de frente com a questão principal: o quanto de verdade havia naquilo?

"Nada", disse a si mesmo. Mas ainda assim escolheu aleatoriamente uma das mensagens carinhosas que Elizabeth, a irmã mais nova, sempre lhe mandava e encaminho. Para Mark. "Não é nada demais", pensou "só um gesto que qualquer amigo faz". Quando o aparelho enviou o sms, o palestrante indicou o final de seu discurso e aplausos começaram esparsamente pelo auditório – aumentando à medida que os professores percebiam que tinha acabado. Misha acompanhou-os, com uma empolgação que tinha mais a ver com seu alívio do que com o brilhantismo da palestra.

Depois que a diretora dispensou oficialmente o corpo docente, informando que haveria uma pausa para os feriados e que o curso continuaria a partir de Janeiro (Julian, Steven, e Mark Sheppard gemeram e fizeram caretas), Misha recolheu suas coisas e saiu apressadamente, sem falar com ninguém. Não estava com muita vontade de interagir com os colegas ultimamente.

No estacionamento, levíssimos flocos brancos enchiam o ar, tão pequenos que derretiam antes mesmo de chegar ao chão. Ainda não havia nevado propriamente dito, mas não demoraria muito. O moreno foi logo para o carro, precisava passar no supermercado antes de voltar para casa. Sorriu quando deu a partida no carro. Danielle chegaria no final de semana, trazendo seus sobrinhos.

Adorava seus sobrinhos. Fazia tempo que não os via, agora que a irmã mais velha tinha se mudado para o Wyoming*. A última vez tinha sido precisamente há um ano, no último Natal. Maise devia ter crescido bastante, e West estaria mais travesso do que nunca. Thomas, o filho de Sasha, não viria. Passaria as festividades com a mãe e o padrasto. Mas tinha mais contato com o sobrinho mais velho, porque eles moravam em Boston, a apenas algumas horas de carro.

Dirigiu com mais prudência que de costume pelas ruas molhadas e cobertas com uma fina geada. Repassou mentalmente o que já tinha feito dos preparativos para receber a família: a fantasia de Papai Noel já tinha sido lavada e estava pendurada no guarda-roupa; os presentes das crianças embrulhados; os quartos de hóspedes preparados. A única coisa restante mesmo era abastecer a dispensa com os itens que Danielle – a cozinheira da família – tinha lhe passado.

Misha gostava muito do Natal. Sempre gostara, desde pequeno, mas agora aquela época tinha um sabor especial. Era a época em que a velha casa em Ridgewood ganhava mais vida, em que as reminiscências eram trocadas com os irmãos, com aquele gosto agridoce de boa nostalgia. As crianças correndo e rindo também era algo muito agradável. Enquanto estacionava, pegou-se pensando se algum dia teria um filho.

"Matt com certeza iria querer uma criança.", pensou, apanhando a lista de compras. Sim, volta e meia ele insinuava isso. E ele seria um bom pai. Quanto a si mesmo, o moreno não tinha certeza se teria talento para a paternidade. Quer dizer, ser professor era em certo grau uma responsabilidade por várias crianças, mas ser pai mesmo era completamente diferente. Bom, tinha seus sobrinhos para babar e corujar, talvez fosse o suficiente. De qualquer forma, não via a mínima possibilidade daquilo acontecer, pelo menos não nas atuais conjecturas de sua vida.

A música ambiente do supermercado acabou distraindo-o daqueles pensamentos e, quando deu por si, estava cantarolando Let It Snow junto com o instrumental que ecoava na loja. Riu de si mesmo e empurrou o carrinho já cheio na direção dos caixas. Enquanto estava na fila, conferiu o relógio. Ainda era cedo. Teria tempo de arrumar tudo antes de sair para o B&S. Nem tinha ido ao restaurante na última semana, por causa do curso, e aquela seria a última noite de funcionamento antes do recesso de Natal – Jim nunca abria no período entre o Natal e o Ano Novo. Se não aparecesse, nem gostava de imaginar o que o amigo faria.

Quando finalmente saiu para o estacionamento frio, olhou de relance para o céu, carregado de pesadas nuvens cinza-escuro. O vento soprava mais forte e os flocos de neve pareciam mais pesados, alguns conseguindo chegar ao chão sem derreter.

- Bem... – murmurou para si mesmo, guardando as compras no porta-malas – Let it snow, let it snow, let it snow...

J & M

Jensen chegou animado ao restaurante. Afinal de contas, aquele era o último dia de trabalho antes de pouco mais de uma (ele esperava) longa semana de folga. Quando o Sr. Beaver comentara sobre o recesso – que os outros funcionários obviamente já conheciam – sentiu que poderia dar um beijo na careca lustrosa no topo da cabeça do patrão. Claro que toda essa alegria traduziu-se em apenas um sorriso muito largo.

Também estava feliz porque sua mãe estava feliz. Donna sempre ficava mais alegre perto do Natal. Era a época favorita de Joshua, ela dizia, e de alguma forma aquilo fazia bem para ela. Quando saíra de casa, ela estava atarefada terminando de colocar mais enfeites na casa e pensando no que faria para a ceia. Bom, o Sr. Beaver merecia outro beijo pela generosa cesta que dera a cada um dos empregados do B&S também. Duvidava de que sua mãe pudesse fazer uma ceia propriamente dita sem a cesta.

O loiro passou pelos colegas de trabalho e foi para o vestiário, colocar o uniforme. Cantava alguma coisa qualquer, mas parou de repente ao ver Sebastian apoiado no lavatório, de cabeça baixa. Ele ergueu a cabeça ao ouvir o barulho da porta se fechando, olhando Jensen pelo reflexo do espelho.

- E aí, Jenny Boy? – disse, mas sua voz estava longe de ter o tom trigueiro de sempre. Jensen notou que os olhos turquesa estavam brilhantes e irrequietos.

- Sebastian. – Jensen disse, parado. – Está... está tudo bem? – arriscou perguntar.

Sebastian abriu a torneira e molhou o rosto com a água que deveria estar bastante gelada, antes de se virar.

- Está tudo ótimo. – falou, secando-se com o avental. – Por que não estaria?

Essa era uma pergunta que Jensen não tinha como responder. Depois de um segundo, o loiro avançou alguns passos até o banco junto à parede cheia de ganchos para roupas e colocou a mochila ali. Abriu-a e tirou seu uniforme, observado pelos olhos turquesa. Definitivamente algo estava errado. Se não estivesse, já teria sido bombardeado pela pergunta que agora era obrigado a ouvir todos os dias: "já disse 'sim' ao Mike?".

Bom, a resposta para essa pergunta era "não". Na verdade, o único contato que tinha tido com... com o seu pretendente a namorado na última semana tinha sido uma ligação dele, avisando que havia chegado bem em Aspen. Tinham conversado um pouco, normalmente. Mas Mike tinha dito que deixaria Jensen com ele mesmo naquelas semanas longe, para que ele pudesse pensar em sua proposta. E era o que ele tinha feito – embora ainda estivesse tão perdido quanto no momento em que ouvir a pergunta da boca de Michael.

- Ok, o que está acontecendo, Seb? – perguntou, depois de já estar vestido. – Acho que conheço você o suficiente para saber que algo não está certo.

Sebastian trocou a perna onde estivera apoiando o peso do corpo e cruzou os braços. Quando falou, sua voz estava carregada de um tom agressivo que Jensen nunca tinha escutado.

- E se não estiver, porque eu deveria dizer a você? – perguntou.

O mais novo piscou os olhos, muito surpreso. Estava começando a ficar preocupado, agora.

- Por que somos amigos? – devolveu. – Pelo menos era isso que eu pensava.

A expressão do mais velho contraiu-se com as palavras e ele virou-se novamente para o espelho, olhando para o lavatório logo abaixo. O silêncio arrastou-se tensamente, antes de ele dar um suspiro pesado. Voltou-se para Jensen, parecendo desarmado.

- Desculpe, Jenny Boy. – disse, a voz aguda bem mais grave. Você tem razão. Hoje eu não estou bem.

- Seb... – Jensen falou, quase chocado com o estado do colega. Sebastian era energia pura, era difícil acreditar que ele pudesse não estar bem. – Eu perguntei porque fiquei preocupado. Nunca te vi assim. Mas se você não quiser falar, tudo bem. – sabia como era aquilo, não querer falar sobre alguma coisa. Era assim com o acidente do irmão.

Sebastian calou-se, ponderando o que acabara de ouvir. Em silêncio, foi até o banco e largou-se nele. Fez um sinal para Jensen sentar-se ao seu lado.

- Você sabe que eu briguei com meu pai, não sabe? – perguntou.

- Michael me contou, por alto. – Jensen respondeu, balançando a cabeça.

- E por isso eu saí de casa. – o loiro mais velho continuou. – Mas minha família não é só o meu pai. Eu tenho duas irmãs. – um pequeno sorriso perpassou o rosto dele, quando lembrou-se das irmãs. – Claire e Maggie. São mais novas que eu. A Claire hoje tem treze anos, mas tinha só oito quando eu fui embora. E hoje ela me mandou uma mensagem, não sei como, ninguém lá em casa tem o meu número.

- Se ela for como você, isso não é coisa impossível. – Jensen comentou e o outro deu um risinho.

- Isso pode ser verdade. – disse, encostando a cabeça na parede. – Ela disse que tem saudades. Que Maggie também tem. E a mamãe.

- E... e o seu pai? – o loiro mais novo perguntou, depois que Sebastian se calou.

- Ela não o mencionou. – ele respondeu. – Mas se conheço aquele velho mesquinho, ele deve estar dando vivas até hoje. Não é com isso que eu me importo, Jensen. Tenho saudades das minhas irmãs. Até minha mãe, mesmo com as excentricidades dela, que ela paga com o dinheiro do pai.

Jensen encarou os próprios pés. Pensou na sua própria casa. Não duvidava de que, se resolvesse sair de casa, seu pai também desse vivas. Por isso sabia que, por mais que Sebastian dissesse que não era o importante, aquilo o machucava. Porque ele conhecia o que era a rejeição. Conhecia bem demais, conhecia a pior forma dela.

- Por que... por que você não vai visitá-las? – voltou a questionar. – Quer dizer, não precisa ir ver o seu pai. Pode ver suas irmãs.

- Não posso, Jensen. – Sebastian respondeu. – Jurei não pisar mais naquela casa e as meninas não vão a lugar algum sem que ele saiba. E aposto que vou colocá-las em problemas se tentar me encontrar com elas fora da mansão. Não quero isso.

- Compreendo. – Sim, ele compreendia. – E... Seb, por que brigou com seu pai?

- Ele nunca me aceitou do jeito que eu sou. – os olhos turquesa e esmeralda se encontraram. – Meu pai sempre tentou me moldar para ser o que ele queria: seu primogênito e herdeiro, um gênio dos negócios, futuro presidente do conglomerado que ele passou a vida inteira construindo. Mas eu nunca me deixei controlar. Não é algo que tenha nascido comigo. Não gostava dos eventos que ele organizava, dos amigos que queria que eu fizesse, da carreira que ele queria para mim. E, naturalmente, quando cheguei à adolescência comecei a envergonhá-lo. Los Angeles nunca mais terá festas como as minhas, Jenny Boy. – Jensen riu e teve certeza de que era verdade. – E havia, claro, a minha sexualidade. Minha falta de rótulos para ela, na verdade. Era demais para o meu velho pai. Quando descobri que ele queria me colocar num colégio interno – mesmo faltando só dois anos para terminar o Ensino Médio – o enfrentei e disse que estava indo embora. Simples assim. O velho nem colocou empecilhos. Claro, devia estar contente por se livrar de mim. Podia tentar a sorte com uma das meninas. Maggie sempre foi muito inteligente e dócil...

O mais velho parou e olhou para o teto, inspirando profundamente. Jensen sentiu que ele não contava aquela história para muitas pessoas. Algum lugar dentro dele encheu-se de gratidão por ele ter partilhado aquilo.

- Gostaria de ser como você. – disse, sendo sincero. – Ter sua coragem.

Sebastian o encarou com olhos mais profundos do que sua leviandade habitual jamais tinham mostrado. Havia neles tristeza, mas também um brilho cheio de força.

- Eu sou um espírito de fogo, Jenny. – disse, e sorriu. – Tenho um leão dentro de mim. Mas coragem é algo que pode despertar mais lentamente. E a sua parece estar ganhando força, meu amigo.

Jensen absorveu as palavras por um momento, antes de dizer:

- Talvez deva pedi-la ao Papai Noel esse ano.

- Quem sabe? – o loiro mais velho riu. – Nunca se sabe quando aquele velho filho da mãe resolve vir de verdade. Eu queria pedir um Natal com as meninas, na realidade. Claire disse que queria muito isso.

Vinda não sabia de onde, uma súbita ideia ocorreu a Jensen.

- Ei, Seb... – disse, lentamente. – Onde vai passar o Natal, falando nisso?

- Não sei. – o outro disse, melancólico. – Em casa, em uma festa qualquer... Por quê?

- Quer ir lá para casa? – o mais novo perguntou. – Quer dizer, vai ser bastante simples, mas minha mãe sempre se empolga muito. E se tivermos sorte meu pai não vai aparecer.

Sebastian abriu um enorme sorriso, com muito mais calor e muito menos sarcasmo do que os que brotavam em seu rosto pontiagudo.

- Pode apostar que eu quero, Jenny Boy. – respondeu, estendendo a mão. – Está combinado!

Jensen ficou contente e apertou de volta a mão do colega, do amigo.

- Agora vamos indo, antes que o Beaver apareça e corte os nossos bônus de Natal! – disse, puxando Sebastian para que ele ficasse de pé.

Juntos, os dois loiros deixaram o vestiário, com Sebastian finalmente perguntando:

- E aí, já disse "sim" ao Mike?

J & M

Depois de lidar com a Sra. Novak, Misha organizou a dispensa e subiu para o andar superior. Conferiu mais uma vez se estava tudo em ordem nos quartos e foi para o seu. A suíte principal que por anos fora dos pais e agora era sua estava um tanto desorganizada – os milhares de panfletos do curso de inverno espalhados por todos os lados. O professor expirou pesadamente e foi até o banheiro, ligar a torneira da antiga banheira. Raramente usava-a, mas hoje queria esse luxo.

Enquanto a água quente caía, fazendo um barulho agradável e fazendo subir nuvens de vapor que lentamente se esgueiravam pela porta aberta do banheiro, o moreno tratou de juntar a papelada toda e colocá-la organizada em uma das gavetas da escrivaninha. Ao abri-la, sentiu o perfume dos envelopes do admirador secreto. Toda aquela questão com Mark o tinha afastado um pouco daquele mistério, mas às vezes ainda se sentia intrigado por aquelas cartas, por aqueles poemas.

Mas agora não era hora de se preocupar com aquilo. Fechou a gaveta e ligou o som na estante a um canto. Apanhou uma cueca no guarda-roupa, despiu-se e entrou no banheiro, deixando a porta entreaberta para ouvir melhor a música. Colocou alguns sais de banho, provou a temperatura da banheira e entrou, arfando quando água quente tocou a pele, relaxando os músculos. Deitou-se e deixou a música e água fazerem seu trabalho.

Aos poucos o cansaço e o estresse do final de semestre, do curso de inverno, dos preparativos para o Natal foram sumindo. Ficou ali, escutando os acordes da música erudita crescerem e diminuírem. Era uma coletânea de Vivaldi; seu pai era um grande fã e passara o gosto para ele. Deixou-se perder nas boas lembranças da infância e da adolescência. Era uma saudade boa, daquelas que de vez em quando nos abraçam. Pensou em Matt, mas dessa vez também era bom. Agora tinha certeza de que tinha vivido tudo o que podia com ele e que, de onde estivesse, ele estaria desejando que seguisse em frente.

Seguir em frente... Ele tinha tentado, algumas vezes. Mas agora sentia que seria diferente. Tinha uma nova disposição, um novo pensamento. Abriria mais os olhos às oportunidades. Ao pensar nisso, pensou em Mark e uma onda gelada espalhou-se por seu corpo, contrastando com a água quente. Talvez fosse uma oportunidade. E precisava finalmente admitir que ficara balançado por ela. Quer dizer, Mark era um cara bonito, inteligente, divertido. Não podia negar que gostava muito da companhia dele. Seu medo era estar se enganando e talvez estragar a amizade que tinham. Mas e se Genevieve e Danneel e todos os que falavam deles estivessem certos?

Mas não podia fazer nada sobre aquilo agora. Talvez conversar com Jim ajudasse. E quando Mark voltasse... bem, quando ele voltasse poderia observar melhor. Sim, era o que faria. Por ora, queria aproveitar seu banho.

A água já tinha esfriando bastante quando o professor se levantou e enrolou-se na toalha. Lá fora, a noite já estava bem escura, embora ainda não fosse tarde. Enxugou-se e vestiu-se, colocando calças de linho azul marinho e uma camisa social branca. Por cima, um blazer da mesma cor da calça e o sobretudo cor de creme para se proteger do frio lá fora. Antes de descer, pegou a caixa embrulhada de verde e colocou no bolso interno do sobretudo, sorrindo.

J & M

Jensen ficou contente de ter seguido o conselho da mãe e levado o gorro. A neve finalmente estava caindo de verdade e ele ainda tinha que andar duas quadras até a estação do metrô. Uma proteção a mais contra o toque gelado dos cristais de gelo era muito bem, vinda.

- Jen, eu sinto mesmo não poder te dar uma carona... – Sebastian disse, a porta do vestiário. – É que eu realmente não posso me atrasar.

- Tudo bem, Seb. – o loiro mais novo disse. – Um pouco de neve não vai me congelar. Vai cuidar dos seus negócios escusos, vai. – acrescentou, com uma risada.

Sebastian deu uma piscadela marota e fechou a porta. Jensen balançou a cabeça e jogou a mochila nas costas. Era bom ver o amigo sendo ele mesmo de novo. No geral, aquele dia tinha sido melhor do que poderia prever. O movimento no restaurante estava muito tranquilo, e o Sr. Beaver resolvera encerrar o expediente mais cedo. E o Sr. Collins reaparecera. Era estranho quando ele não vinha nos dias habituais, parecia que faltava alguma coisa no B & S.

Naquela noite, era sua responsabilidade conferir se estava tudo em ordem antes de ir embora. Portanto, fez a ronda pelo salão, checando se as portas estavam trancadas, as mesas arrumadas, etc. Já estava indo para a saída dos funcionários quando a porta do escritório do Sr. Beaver se abriu e ele e o Sr. Collins saíram, rindo.

- Está fazendo o quê aqui ainda, moleque? – Beaver perguntou, sorrindo.

- Minha vez de conferir as coisas, senhor. – Jensen respondeu, sério.

- Espero que tenha conferido direito! – Jim disse, em tom de brincadeira.

- Claro que ele conferiu. – Misha interveio. – Ele é um dos meus melhores alunos e o melhor garçom desse lugar.

Jensen sentiu o rosto esquentar e o calor aumentar por baixo de toda aquela roupa de frio. Deu um risinho sem graça, mas encarou o professor.

- Não é para tanto, Sr. Collins. – disse, usando o tratamento formal pela presença do Sr. Beaver. – Chad é bem melhor do que eu.

- Mas não é ele que sabe o que eu quero dizer com "o de sempre", nem que eu prefiro o suco de laranja sem açúcar, não é? – o professor retrucou.

Dessa vez o loiro baixou os olhos e não soube o que responder.

- Vamos parar com essa rasgação de seda, antes que meu funcionário fique mal acostumado e relaxe no serviço! – Jim interveio, e riu.

- Ah, seu velho rabugento! – Misha rebateu. – É Natal, deixe de ser ranzinza!

- Não vou te responder quem é ranzinza por respeito ao Jensen aqui.

Jensen ainda olhava para baixo, completamente perdido no meio daquele diálogo. Sabia da amizade do patrão e do professor, mas nunca os vira conversando assim, tão a vontade. Além do mais, ainda não estava tão acostumado a receber elogios.

- Hm, eu preciso ir. – disse aos dois mais velhos. – Senão vou perder o trem.

- Você vai para casa de trem nessa nevasca? – Misha perguntou.

- Bom, é. – Jensen respondeu. – A estação não é longe e o ponto do ônibus que eu pego depois é bem ao lado da outra estação e...

- Não, não. – o moreno o interrompeu. – Não vou deixar você sair nesse tempo. Eu levo você pra casa.

- Não, Sr. Collins. – Jensen protestou. – São só algumas quadras até a estação, não tem necessidade.

- Jensen, a coisa está bem feia lá fora. – Beaver argumentou. – Eu mesmo te levaria, mas a patroa exigiu minha presença em casa mais cedo hoje. Não sei porque ela tem que organizar uma ceia tão enorme e precisa me incluir nisso.

O garoto torceu as mãos. De fato, a ideia de andar na nevasca não era muito agradável, mas ele não queria dar trabalho. Sabia que Misha teria que fazer um desvio enorme apenas para levá-lo em casa. E também... bom... também não era qualquer pessoa que estaria lhe dando carona. Quer dizer, ele ainda era o Sr. Collins. Estava entre a cruz e a espada, porque recusar poderia soar indelicado de sua parte.

- Tudo... tudo bem, então. – disse, dando-se por vencido.

Misha sorriu e apertou o ombro do rapaz.

- Melhor irmos andando, então. – falou. – Antes que o tempo piore. Jimmy, espero te ver antes do ano novo. De qualquer forma, feliz Natal! Dê um beijo na Sam e me diga se ela gostou do broche.

- Feliz Natal também, amigo! – Jim respondeu, dando um abraço no amigo. – Mande meus cumprimentos para seus irmãos também. E obrigado pela caneta. Muito bonita.

- Por nada, Jimmy. Você é um velho chato, mas por algum motivo eu gosto de você.

Beaver bufou, mas riu. Jensen observou enquanto ele trancava o escritório e os três se dirigiram a saída dos fundos.

- Até mais para vocês. – Jim disse, indo na direção do próprio carro. – Feliz Natal e Ano Novo, Jensen.

- Para o senhor também, Sr. Beaver. – o loiro respondeu. – Muito obrigado. Por tudo.

- Não tem que me agradecer, garoto. – Jim disse, sério. – Você fez por merecer.

Os pesados flocos de neve derreteram no rosto subitamente aquecido do loiro, enquanto Beaver se virava e entrava no carro. Em silêncio, ele seguiu o professor até o outro carro restante, do outro lado do pequeno estacionamento. Não pôde negar que foi um alívio entrar e sair do vento cortante e tirar o excesso de neve acumulado no gorro.

- Bom, não é um porsche como o daquele garoto que vem buscar você de vez em quando, mas quebra o galho. – Misha gracejou, quando Jensen se acomodou.

- Nesse tempo, o importante é ter um teto, um motor e quatro rodas. – o loiro respondeu, depois de um risinho um pouco constrangido.

- Isso é verdade. – o professor concordou, dando a partida. – Mas um pouco de estilo não faz mal.

- Estilo é definitivamente a marca do Mike... – Jensen comentou, mais para si mesmo, mas ainda assim em voz alta. – Mas seu carro não é nada mal, professor. – acrescentou, depois de perceber o que tinha dito.

Mas Misha riu alto enquanto manobrava cuidadosamente pelo chão escorregadio.

- Mike é o nome dele, hein? – disse, olhando de esguelha para o loiro. – Não faz mal em admitir que ele sabe impressionar. Eu reparei nisso das vezes que o vi.

Jensen baixou os olhos, sem saber o que responder. Não era segredo para ninguém que estava saindo com Michael, mas era engraçado saber que o seu professor tinha reparado. Misha quase sempre ia embora antes do fim do expediente, quando Mike chegava, mas às vezes ficava até mais tarde ou Mike vinha mais cedo. Mas eles nunca tinham se falado – embora Jensen tivesse comentado que o moreno era seu professor.

- Ele parece ser um cara legal. – Misha voltou a falar, entrando no tráfego pouco intenso da rua.

- Ele é. Ele é sim. – o loiro confirmou.

- Vocês estão, ah... juntos? – o professor perguntou.

Dessa vez o loiro engasgou e teve um breve ataque de tosse. Não sabia para onde olhar.

- Ah, me desculpe, Jensen. – Misha disse, visivelmente constrangido. – Eu não deveria ter perguntado. Não é da minha conta, não é?

- Não, é que... é que...

- Jensen, me desculpe mesmo. – o mais velho disse. – É só que eu fiquei... curioso. Quer dizer, estamos em Nova York, mas ainda assim achei interessante ver vocês dois. E também você, na escola.

- N-na escola? Como assim, professor?

- Eu digo... – Misha parecia procurar as palavras certas. – Você não esconde de ninguém sua orientação. Isso é corajoso. Eu só fui me assumir quando estava na faculdade.

- Ah, isso. – o loiro respirou com mais intensidade, tentando reassumir a calma. – Eu não sei se foi coragem. Na minha escola antiga ninguém sabia. Acho que nem eu mesmo sabia direito. Mas quando nos mudamos para cá estava tudo tão confuso, que admitir pelo menos isso me fez bem, eu acho. E aqui é bem diferente do Texas.

- Isso é verdade. – o professor concordou. – Mas mesmo assim, nunca é fácil. E você parece lidar bem com isso. Seus amigos também.

- Eu tive sorte com isso. – Jensen sorriu. – Meu primeiro amigo foi o Jay, e como ele é grandão ninguém mexia comigo. Depois os outros caras se acostumaram, eu fiz mais amigos.

Misha riu de leve, parando o carro em um semáforo.

- Talvez as coisas tivessem sido diferentes se eu tivesse um amigo como o Jared na escola também. – disse. – Mas eu era da turma dos nerds, então o sofrimento era inevitável.

Jensen não conseguiu evitar um sorriso. Era engraçado imaginar Misha, seu professor, sofrendo bullying na escola. Mas, pensando bem, ele deveria mesmo ser do tipo nerd. Como ele seria, caso Jared não tivesse praticamente o arrastado para o time de basquete.

- Mas é bem legal que o senhor, quer dizer, você também não faça segredo, professor. – o loiro disse. – Dependendo do lugar isso pode ser um problema.

- Ah, e já foi. – Misha disse. – No começo várias escolas me rejeitaram. Eu quase desisti de dar aulas. Mas aquele velho do Jimmy não me deixou fazer isso. Demorou algum tempo, mas consegui me firmar em uma escola. Depois as coisas foram ficando mais fáceis. Mas ainda tem muito pai que torce o nariz e reclama com o conselho da escola.

Jensen balançou a cabeça, em reprovação. Collins era o melhor professor que já tivera, independentemente de qualquer sentimento que pudesse nutrir por ele. O silêncio aos poucos foi crescendo, interrompido apenas pelo murmurar suave dos pneus do carro contra o asfalto e o limpador do pára-brisa indo e voltando, empurrando o excesso de neve do vidro. Misha estendeu então estendeu a mão para o painel e ligou o som.

Uma voz masculina impostada, acompanhada de instrumentos metálicos e em cadência leve encheu o carro. Jensen franziu a testa, surpreso. Parecia ser uma música antiga, daquelas de filmes dos anos trinta, quarenta.

- Ah, desculpe por isso. – Misha disse, depois de notar a reação de seu aluno. – Não lembrava que era esse cd que estava aí. Eu posso colocar em uma rádio mais, ah, jovem.

- Não. – Jensen disse, antes que o dedo do professor tocasse o som novamente. – Eu gosto desse tipo de música. Essa voz... não me é estranha. É...

- Michael Bublé. – o moreno disse, ao mesmo tempo em que o loiro e os dois riram. – Sério que você conhece Michael Bublé, Jensen? – Misha perguntou, abismado.

- Ah, não conheço propriamente dito. – Jensen respondeu. – Minha mãe costumava ouvir alguns álbuns dele, no Texas. Eu gosto da voz dele.

- Uau, alguém com menos de vinte anos que gosta de Michael Bublé... – Misha disse, seguido de um assobio. – Isso é uma coisa que não se vê todo dia.

O loiro sorriu. Não podia negar que era verdade. Jared sempre torcia o nariz para alguns de seus gostos – não só musicais.

- Eu não sabia que ele tinha gravado um cd de Natal. – Jensen observou, enquanto o cantor soltava a última nota de Holly Jolly Christmas.

- Ah, todos eles fazem isso, cedo ou tarde. – Misha disse. – Mas nem todos conseguem fazer coisas boas.

- Com certeza. – o mais novo concordou.

Os dois ficaram em silêncio, apreciando a música. Jensen sorriu da versão de Santa Baby, que Misha acompanhou, tentando cantar com a mesma impostação de voz. Os quilômetros até a casa do loiro foram ficando para trás entre as canções natalinas – pontuadas por comentários aqui e ali e comentários sobre como ambos gostavam daquela época do ano.

- Pra mim hoje o Natal é uma forma de voltar à infância. – o professor disse, sério. – Um jeito de reconectar a família.

A expressão de Jensen ficou carregada por um instante, mas ele logo conseguiu suavizá-la.

- Eu... eu fico contente porque minha mãe sempre se anima mais. – falou, olhando o painel do carro.

Misha observou o garoto atentamente, percebendo que talvez aquele fosse um assunto no qual ele não quisesse tocar. Continuou dirigindo, deixando a música preencher o silêncio.

- Você vai ter que me guiar agora. – disse, quando entraram na vizinhança de Flatbush.

O loiro foi indicando as ruas para o professor e não demorou muito até estacionarem na frente da casa enfeitada com pisca-piscas e visgos. Lá fora a intensidade da nevasca tinha diminuído, mas ainda ventava muito.

- Muito... muito obrigado, Misha. – Jensen disse, pegando a mochila que tinha colocado no chão do carro.

- Não foi nada, Jensen. – o professor sorriu. – Na verdade, eu gostei muito da nossa conversa.

- Eu, hm... eu também. – o loiro admitiu.

- Bom, sempre que seu namorado não puder te trazer em casa de porsche... estou às ordens. – o moreno gracejou e Jensen quase engasgou novamente, mas engoliu o acesso de tosse.

- Ele não é meu... namorado. – as palavras saíram de sua boca antes que pudesse entender o motivo de tê-las dito.

- Oh, entendi. – Misha disse, ficando ligeiramente corado. – É como vocês dizem hoje, um lance? Um "peguete"?

- Não, não é isso. – Jensen não sabia explicar porquê estava se justificando. Quer dizer, não era como se ele precisasse de aprovação, era? – Na verdade ele me pediu em namoro, mas eu não respondi ainda.

- Bom, não faça nada precipitado. – o professor disse. – Mas, se quiser o meu conselho, não pondere demais também. Às vezes é preciso correr riscos na vida. A oportunidade pode sumir mais rápido do que se possa imaginar. E então a gente fica, como se diz, chupando dedo.

As palavras pairaram no ar por um instante, enquanto Jensen e o próprio Misha as absorviam.

- Eu... eu acho que eu preciso ir. – o loiro disse, finalmente. – Obrigado novamente. – acrescentou, com um sorriso tímido.

- Novamente, não foi nada. – o moreno respondeu. – Feliz Natal, Jensen.

- Feliz Natal, Misha. – Jensen retribuiu, e abriu a porta. O vento fez correr um arrepio por suas costas enquanto andava com o máximo de rapidez possível na direção da entrada, a cabeça girando e repassando tudo o que havia se passado naquele carro.

- E feliz Ano Novo! – Misha gritou, o rosto na janela, quando o loiro chegou à porta.

- Feliz... Ano Novo. – Jensen disse de volta, mas sem ter certeza de ele ter escutado.

J & M

Jensen só conseguiu deixar um pouco de lado a carona com Misha na véspera de Natal, dois dias depois. Não conseguia decidir se tinha sido bom ou ruim. A melhor conclusão a que tinha chegado era que tinha sido diferente. Teria partilhado com Jared, mas o amigo e a família tinham ido para Austin, para passar as festas com o restante dos Padalecki.

No dia vinte e quatro, porém, tinha muitas coisas para se ocupar e não pensar no assunto. Como sempre, iria ajudar a mãe a preparar tudo para a ceia. Quando acordou, Donna já havia começado a trabalhar, mas o garoto logo tratou de descascar batatas, picar cebolas e o que mais fosse preciso para o preparo dos pratos do jantar. Depois, havia a limpeza da casa – que precisava ser mais apurada ainda, já que haveria um convidado.

Mackenzie também ajudava, ou melhor, brincava de ajudar. O pai tinha saído de casa cedo, sem dizer para onde ia. Era melhor assim. Quando anoiteceu, o loiro estava um pouco cansado, mas definitivamente satisfeito.

- Você vai à igreja conosco, filho? – Donna perguntou, quando ele subia para tomar um banho.

- Ah, eu acho que não, mãe. – Jensen respondeu. – Prefiro ficar em casa para receber o Seb.

- Tudo bem, Jen. – ela respondeu, embora com um pouco de desapontamento.

O loiro subiu as escadas, lembrando de como eram os natais em Dallas. Todos iam à missa na igreja do bairro: a mãe, o pai, Mack, ele... e Joshua. Tudo parecia tão perfeito, naquela época. Jensen dispersou os pensamentos debaixo do chuveiro. Aqueles dias nunca voltariam. Ficar no presente e aproveitar o que até agora estava sendo um Natal muito bom era o melhor a fazer.

A mãe e a irmã ainda estava na igreja quando a campainha tocou, algumas horas depois. Jensen deu uma última conferida no peru assando no forno antes de ir atender. O rapaz louro de olhos turquesa abriu um grande sorriso ao vê-lo.

- Feliz Natal, Jenny Boy! – Sebastian falou, abrindo os braços.

- Feliz Natal pra você também, Seb. – Jensen respondeu. – Vamos, entre.

- Eu trouxe algo para a ceia. – o loiro mais velho disse, mostrando a garrafa de vinho em suas mãos. – Espero que um Pinot Noir combine com o que a sua mãe fez.

- Claro que vai. – disse o mais novo, embora não entendesse nada de vinhos.

- Trouxe isso também, para sua irmã. – Sebastian falou, enquanto Jensen pegava a garrafa, e mostrou um embrulho rosa claro, com um bonito laço vermelho. – É um livro.

- Oh, Seb, não precisava. – disse Jensen.

- Mas eu trouxe assim mesmo. – Sebastian gracejou.

Jensen revirou os olhos e pegou o presente, colocando-o sob a árvore de Natal modesta, a um canto da sala.

- Vem comigo, Seb. – disse, indo para a cozinha. – Mamãe e Mack ainda estão na igreja, e eu preciso tomar conta do peru.

- Uhum... – o mais velho disse, em tom jocoso e riu.

- Você não vale nada, Seb! – Jensen riu junto.

Os dois amigos ficaram na cozinha, jogando um pouco de conversa fora enquanto esperavam o assado ficar pronto e as mulheres voltarem da igreja. Sebastian era Sebastian de novo e boa parte do assunto foram as brincadeiras e comentários sagazes do rapaz de ascendência francesa. Jensen nem sabia quanto tempo tinha se passado quando ouviu o barulho vindo da sala.

- Devem ser elas. – disse, levantando-se. – Vamos lá.

Sebastian seguiu-o.

- Mãe, Mack, esse é o... – a frase morreu nos lábios do loiro quando viu quem estava parado na sala, lutando para manter o equilíbrio.

Os olhos de Alan Ackles estavam irrequietos, vermelhos e embotados, por isso demoraram a fixar-se no filho e no amigo parado logo atrás dele. As roupas do homem estavam completamente desalinhadas, o cabelo despenteado e mesmo estando do outro lado do cômodo dava para sentir o cheiro de álcool.

Jensen sentiu o corpo gelar e o coração escorregar na direção do estômago. Não conseguiu fazer nada a não ser encarar o pai.

- Então... – Alan começou a dizer numa voz pastosa, a língua tropeçando nas palavras. – Você é o cara que anda comendo o viadinho do meu filho?


Nota da Anarco: Finalmente! Achei que Misha nunca começaria a prestar atenção e a interagir com o Jen. O problema é que Mike já andou conquistando alguns leitores, assim como conquistou a sua beta (paixão antiga sempre deixa marcas. uuahsuasha), Misha precisa se apressar! Quanto ao final do capítulo... Cara, que tenso. Jensen arriscou muito ao convidar o Seb. =/

Nota do CassBoy: Pois é! Misha tem que ganhar terreno. Afinal, time que não faz, leva! O #TeamMike tá ganhando adeptos! Mas ainda tem muita neve pra cair XD Vamos ver o que os próximos capítulos trazem! E quanto ao "evil" Papa Ackles... Corram pras colinas!


PS1: Pra quem não conhece o Michael Bublé, EU RECOMENDO! Ele, além de ser lindo, tem uma voz maravilhosa. O álbum citado na fic se chama "Chistmas". Seguem links das músicas citadas (inclusive a que o Misha cantarola no supermercado):

Let It Snow: htt*p:/w*ww.y*outube.c*om/watch?v=tbVUQT3QSEY

Santa Baby: ht*tp:/ww*w.y*outube.c*om/watch?v=lbbFpzly3eo

Holly Jolly Christmas: ht*tp:/w*ww.y*outube.c*om/watch?v=e2YjOSrqUUU

PS2: Para a Linda do review anônimo. Depois do Primeiro Amor está em hiatus indefinido. Não estava dando conta de escrever essa estória e aquela, então dei preferência a esta, que por ora flui mais facilmente. Mas não me esqueci de DPA (nem a AnarcoGirl, que sempre me puxa a orelha, hahaha), sempre tento progredir nos próximos capítulos, mas tá difícil, viu?