X: Reencontro

Quando saiu da última aula naquela tarde, Milo ainda estava com o humor tão péssimo quanto no dia anterior. Era sempre assim quando voltava de casa e em dois dias ele sabia que estaria recuperado.

Passou pela biblioteca imaginando se deveria se juntar aos outros alunos que estavam enterrando as caras nos livros para garantir boas notas finais ou evitarem de ser reprovados por um triz. Ele estava com notas pendentes em duas matérias e já estavam as vésperas da formatura. O pai o mataria se ele reprovasse no último ano e Milo não evitou de achar isso divertido. Seria um presentão de Natal para seu adorado pai.

Seguiu direto, afastando logo a idéia de entrar na biblioteca. Tudo que desejava era ir para seu quarto e descansar. O amigo que dividia o quarto com ele fora para a casa dos pais no último fim de semana e dissera que só voltaria para a formatura. Havia fechado todas as matérias sem contratempos. Milo o achava um nerd, mas eram ótimos amigos. O dormitório sempre parecia solitário sem ele e a pilha de livros em que estava sempre afundado.

Saiu do prédio da faculdade com destino à república e surpreendeu-se ao ver que começara a nevar. Estava mesmo muito frio naqueles dias, mas a meteorologia não previra nada além de chuvas. Bem, ele nunca botara muita fé naquelas previsões mesmo. Enrolou o cachecol no pescoço e apressou o passo. Mais do que nunca queria se enfiar embaixo das cobertas e não sair de lá até que fosse necessário. Chegou a recusar o convite de uma garota com quem saíra há algumas semanas para ir até uma lanchonete nos arredores da universidade. Não estava com humor para nada disso, só queria deitar e dormir por longas horas.

Para piorar seu humor, o elevador do dormitório estava em manutenção e ele teve de subir uns sete lances de degraus para chegar no andar de seu quarto, que era o penúltimo do prédio. Quando chegou no corredor do sexto andar, que estava vazio, viu que uma pessoa estava parada diante da porta de seu quarto e como estava de costas para ele, não conseguiu ver quem era. Indagou-se quem seria e torceu para que fosse alguém procurando seu colega de quarto. Não estava com humor para receber ninguém, especialmente se fosse alguém da organização da formatura. Ele nem tinha certeza se ia passar, por que raios iria se preocupar com a colação de grau tão cedo?

Quando se aproximou mais, viu os cabelos vermelhos que escapavam da toca preta e estavam um pouco escondidos pelo cachecol e estacou. Tinha um sério problema com pessoas ruivas e daquela vez não foi diferente. A esperança de que fosse Camus tomou conta dele e ele não pôde se mover. Enquanto aquela pessoa não se virasse e ele pudesse constatar que sua esperança fora em vão, não ia conseguir sair do lugar.

Foi assomado de uma raiva repentina, que se mesclou ao péssimo humor. Duvidava que Camus passasse por isso, onde quer que estivesse. Ele não devia ter nenhuma trava com pessoas loiras. Mas Milo estava paralisado por ver cabelos vermelhos e se sentiu idiota e com raiva de si mesmo e de Camus. Quatro anos e parecia que as coisas só pioravam!

Tentou dar um passo e teve a impressão de que tropeçaria nas próprias pernas. Dois passos e ele sentiu que os pés não suportariam mais seu peso e cederiam. Parou novamente e esperou impacientemente que a pessoa se voltasse para ele e aquela ânsia infundada que o paralisava passasse.

A espera pareceu durar uma eternidade, mas por fim a pessoa se virou na direção dele e o paralisou de vez. Devia estar sofrendo uma tremenda alucinação, pois aquele a sua frente não mudara quase nada e sem dúvidas era Camus.

oOo

Fora uma espera que parecera longa demais até que a pessoa atendesse do outro lado da linha. Conseguir o número dos Hadjidakis com a telefonista já lhe custara longos minutos. Camus nem percebera que segurava o fone com força, enquanto pensava no que diria quando atendessem. Teria de inventar alguma desculpa, a menos que fosse Milo quem atendesse.

No fim das contas, fora mais fácil do que imaginara. Quando perguntara pelo loiro, a empregada respondera que ele estava na faculdade, antes mesmo de perguntar da parte de quem era. Quando ela o fez, ele disse que era um amigo que já havia se formado e desligou rapidamente, dizendo que o localizaria na universidade.

Então ele conseguira, afinal. Entrara para a faculdade. Camus sentiu-se feliz com a notícia e aliviado por poder encontrar Milo longe da vigilância dos pais dele. Informou-se no aeroporto mesmo como chegar no campus – torcia para que estivesse certo quando a universidade em que Milo estava. - e pegou um táxi para lá. Ao chegar no local, foi ainda mais fácil descobrir que o grego realmente estudava lá e onde ficava o dormitório onde ele vivia.

Caminhou decidido para lá; viera até Londres numa decisão repentina e não ia sair dali enquanto não solucionasse aquele assunto pendente. Já se passara tempo demais e agora ninguém poderia intrometer-se em algo que só dizia respeito aos dois.

Enquanto esperava, diante do quarto que haviam lhe dito ser o de Milo, ele sentia-se mais nervoso do que jamais estivera em sua vida e parecia difícil controlar. O semblante estava calmo, mas ele sentia as mãos suarem. Quando desistiu de esperar e resolveu ir embora, voltou-se e foi tomado de surpresa.

Lá estava Milo, parado e ambos se encararam com absoluto pasmo.

oOo

- Oi, Camus. - disse Milo, depois de conseguir finalmente dar passos seguros e se aproximar da porta, puxando uma chave do bolso e abrindo-a.

Camus respondeu ao cumprimento com um aceno de cabeça. Uma espécie de desapontamento lhe ocorrera ao ouvir as palavras saírem secamente dos lábios de Milo. Esperara que as coisas estivessem como há quatro anos atrás? Realmente, um tipo de ilusão idiota do qual ele se arrependeu imediatamente.

Ao abrir a porta, Milo deu passagem e disse:

- Quer entrar?

Não parecia um convite, apenas uma obrigação. Por mais que sentisse vontade de se atirar nos braços do ruivo, Milo estava mantendo seu orgulho em primeiro plano, sem mesmo saber o por quê. Um pequeno pedaço em seu íntimo sentia raiva de Camus por aparecer daquele jeito, sem aviso e abalar ainda mais suas estruturas.

Camus adentrou o quarto e Milo fez o mesmo, fechando a porta atrás de si. Foi só então que se deu conta da pequena mala e do embrulho que o francês carregava. Camus deixou a bagagem em um canto do chão e esticou o embrulho para Milo, que o pegou e fez sinal para que o ruivo se sentasse, o que ele prontamente fez.

O quarto era pequeno e bagunçado, cheio de livros, cadernos, roupas e outras coisas espalhadas. Havia uma pequena porta do lado oposto da cama, que deveria ser do banheiro e alguns poucos móveis, como uma espécie de escrivaninha e um armário que tomava quase metade do cômodo.

Camus se sentara em uma das camas, que estava perfeitamente arrumada. A outra estava desfeita e parecia que quem dormia nela acordara e saíra apressadamente, sem ter tempo de arrumá-la.

Milo estava abrindo o embrulho, já imaginando que se tratava de algum dos quadros de Camus, mas sem ter idéia de porque ele lhe dera. Quando deparou-se com o próprio retrato, não conteve um sorriso. Seu mau humor pareceu sumir num instante.

- Pela primeira vez, terei de dizer que é horrível. Você não tinha um modelo mais bonito não? - olhou para o ruivo e sorriu.

- Infelizmente, foi o melhor que encontrei na época. - respondeu no mesmo tom.

Durante alguns minutos, Milo ficou fitando o quadro, tendo certeza de que fora o que Camus escondera dele. Só desviou o olhar quando Camus quebrou o silêncio.

- Milo...

- Ahn?

- Você cresceu.

Camus percebia uma maturidade nele que parecia até engraçada. Aos dezenove anos, Milo ainda era uma criança, mas aos vinte e três ele desabrochara e o ar sensual se acentuara ao ponto de tornar-se irresistível. O francês não era nenhum pouco imune a isso e nem deixou de notar a mudança.

- É, você também. - retrucou Milo, olhando-o fixamente.

A atmosfera entre eles mudou totalmente. A tensão se dissipou e deu lugar a ânsia. Quatro anos e eles estavam ali, diante um do outro novamente. Havia tanta coisa para ser dita, mas enquanto se olhavam eles sabiam que teriam muito tempo para isso e que a urgência de seus corpos era maior que tudo.

Dominado por essa sensação, Milo deixou o quadro sobre a escrivaninha, tirando o cachecol úmido da neve e deixando-o ali também. Se aproximou de Camus de forma sutil e parou diante dele, fitando-o diretamente nos olhos azuis que amava tanto. O olhar que trocavam traduzia a necessidade crescente que pulsava em ambos. Camus apoiou as mãos na cintura de Milo e ergueu o rosto para ele, esperando que se aproximasse. Quando ele o fez, num instante os lábios dos dois se reencontraram e eles puderam mergulhar naquele beijo carregado de saudades, desejo e de uma paixão irrefreável.

As frases trocadas passaram a ser entrecortadas e nem sempre concluídas. Os movimentos das mãos eram rápidos em despir e lentos em acariciar; tornavam-se mais ousados na mesma medida em que os sons que saíam de seus lábios se tornavam mais urgentes e sem sentido. As bocas buscavam-se com necessidade, embalando em contatos profundos que cortavam o ar e só se afastavam quando almejavam explorar cada centímetro de pele, deixando um rastro úmido e enrubescido. Apesar do aquecedor, o cômodo estava frio e suas respirações alteradas formavam uma névoa no ar. Os corpos em contato não sentiam a temperatura baixa, pelo contrário, ferviam, quentes e excitados.

Mergulhado naquelas sensações incontroláveis, que pediam por mais sem nunca parecerem ser satisfeitas, Camus abriu os lábios para dizer palavras que nunca havia dito para Milo antes. E não era apenas por estar tão envolvido na intensidade do prazer que os dominava que ele ia dizê-las. A mente estava concentrada no que o corpo pedia, mas tinha ciência do que se passava no coração. Foi ao sentir aquela boca ávida explorar seu pescoço, arrepiando-o com a respiração quente, ao mesmo tempo que as próprias mãos contornavam cada pedacinho do corpo forte e ardente sob o seu que ele deixou as palavras escaparem, ainda que em sua língua natal.

- Je t'aime, Milo. - elas saíram num sussurro sensual e desesperado e dando-se conta de que não haviam produzido tanto efeito no loiro, que delirava sentindo os toques cada vez mais íntimos, ele as repetiu, no próprio idioma do alvo delas. - S'agapw, mon cher.

A mistura dos idiomas e a forma com que a frase foi pronunciada produziu um efeito melhor que o esperado. Pareceram flutuar no ar, ecoando no pequeno quarto frio. Elas arrancaram Milo do torpor delicioso em que se encontrava, fazendo-o fitar Camus como se estivesse ouvindo demais.

- O que você disse? - perguntou com a voz rouca e baixa.

Camus afundou o rosto na curva do pescoço dele e murmurrou, com a voz carregada de sotaque como nunca antes:

- Eu disse que amo você, Milo.

E antes que o grego tivesse chance de responder, sentiu a mão hábil proporcionando-lhe um prazer indescritível. Ele só conseguia fazer aqueles gemidos dançarem pelo cômodo, saindo ritmicamente de seus lábios molhados e desejar que o corpo do ruivo se fundisse ao seu, causando quanta dor fosse necessária e quanto prazer pudesse.

Mas no fundo de sua mente ressoavam aquelas palavras que ouvira pela primeira vez. Camus o amava e dessa vez, a certeza vinha das próprias palavras dele.

E pouco tempo depois disso, eles voltavam a unir-se, redescobrindo após quatro anos a sensação insubstituível de terem seus corpos, almas, pensamentos e corações fazendo parte de uma mesma unidade por uma pequena fração de tempo, mas suficiente para os fazer sentir como se houvesse durado uma eternidade. Quando esse momento chegou, Milo pôde responder num gemido alto que também amava Camus. Sempre o amara e amava ainda mais agora.

Quando a magia do momento foi se dissipando, devagar e eles sentiram que era tempo de verbalizar tudo o que haviam guardado até então, Milo deu o pontapé inicial.

- Eu queria ter ido com você. Por que não me deu chance de protestar, de dizer o que eu pensava a respeito? Por que você decidiu tudo sozinho?

- Você não poderia ter ido comigo, sejamos realistas. Nós não somos mais crianças e sabemos que não teria sido um mar de rosas. Não foi melhor, no fim das contas? Veja, você está completando a faculdade, isto é bom.

- É, mas não foram os melhores quatro anos da minha vida. Você poderia ao menos ter ligado, escrito, sei lá.

- ...

- Camus...

- Sim?

- Naquele dia... meu pai fez algo, não fez?

- ...

- Foi por isso que você decidiu ir embora, não foi?

Camus suspirou e desviou o olhar daqueles azuis que o encaravam. Para que lembrar daquilo tudo? Para que se magoar com lembranças?

- Eu tenho certeza de que ele fez algo. Me diz o que foi!

- Meu pai descobriu e me mandou embora. Foi isso.

- Aposto que o meu pai quem contou para ele! Você queria ir embora, Camus?

- Não.

Ficaram um tempo em silêncio. Milo bocejou. Era tão bom sentir aquele cansaço tomar conta dele, sentir o sono chamando-o e poder estar nos braços daquele ruivo que ele amava tanto. Poucas coisas a respeito do passado importavam agora. Ele queria adormecer e saber ao acordar que não fora uma ilusão.

- Camus...?

- Hum?

- Por que você voltou?

Dessa vez, não havia como escapar do olhar desafiador. Milo estava com os braços cruzados sobre o peito nu de Camus e olhava bem fixo para ele, buscando a resposta no fundo daquelas lagoas azuis. Ao contemplar o grego, a resposta estava clara para ele. Envolveu o loiro num abraço, antes de responder:

- Porque eu cansei de fazer os anjos chorarem.

Owari

N/A: Akane! Espero que tenha gostado e não se importe por eu ter me empolgado e feito uma fic um pouco er... grande (risos)! Escrevi a fic com muito carinho e dedicação, na verdade fiquei tão viciada em escrevê-la que quando terminei deu até um vazio xD Torço para que tenha curtido bastante! Beijinhos!