Harry Potter e o Herói de Mil Faces
Capítulo 9: As horas


"Não acho que duas pessoas podem ser mais felizes do que fomos"
Do bilhete suicida de Virginia Wolf


-Como é possível viajar pra lua-de-mel com quatro malas e voltar com dez, já que não comprei nada? – Hermione exclamou, olhando pra área desastrosa em que tinha se transformado seu quarto.

Laura deu de ombros, separando a roupa em pilhas pra lavar. –É sempre assim – ela disse. –Você sai de casa e suas coisas frutificam e multiplicam enquanto estão longe de suas outras coisas.

Hermione suspirou. –Nunca vou arrumar isso tudo.

-Claro que vai. – Laura balançou a cabeça. –Sabe, está em casa há uma hora e já está perdendo a eerHxpressão relaxada, feliz de férias que tinha quando passou pela porta.

-Eu sei, dá pra sentir isso saindo de mim. Não quero que saia! – Hermione resmungou, se jogando na cama no meio de suas coisas e das de Harry. –Não consigo evitar de pensar sobre a enorme pilha de papéis que vai estar na minha mesa na segunda.

-Então, quanto tempo vou ter que esperar por um relatório completo de suas viagem?

-Estou cansada demais. Além disso, levaria horas pra te contar tudo.

-Então me dê só as manchetes.

-Ah, não sei por onde começar – ela suspirou. –Vimos lugares maravilhosos, ficamos tomando sol e não nos preocupamos com nada e comemos comidas deliciosas... Foi um paraíso.

-Não era isso que queria saber. Me dê as manchetes boas.

-Você é um monstro louco por sexo, sabia disso?

-Não tenho escolha! Das duas mulheres aqui, qual das duas tem uma vida sexual? Pronto, viu?! Tenho que viver indiretamente, através de você.

Hermione virou e apoiou o queixo sobre as mãos, sorrindo pra sua amiga. –Minhas explorações no quarto são superlativas demais pra serem compartilhadas. Não seria justo com ninguém que tivesse tantas expectativas irreais.

Laura deu língua pra ela. –Ótimo, seja assim.

Hermione pulou. –Ah, deixe isso tudo aí. Vamos tomar um vinho e sentar no jardim de inverno e fingir que é verão.

-Pode guiar o caminho.

As duas mulheres saíram do Cloister e desceram as escadas, pensando em sangria. Quando chegaram ao foyer, alguém bateu à porta.

Pra surpresa de Hermione, quando ela abriu a porta havia um carteiro lá. Ela tentou lembrar se alguma vez receberam correio trouxa ali na casa e não tinha recordação disso. Os pais dela sabiam como usar uma coruja. –Oi – ela disse, se perguntando porque ele bateu e simplesmente não deixou o que tinha pra entregar.

-Entrega registrada para Harry Potter – ele disse.

-Ah, lamento, mas ele não está aqui agora – Hermione disse.

-Sra. Potter, então?

Hermione franziu a testa. –Bem, ela morreu muito tempo atrás, não tem... – Laura deu um riso de chacota atrás dela e Hermione parou, seu rosto corando. –Ah, certo. Sim, claro. Quer dizer... hã.. Eu sou a sra. Potter.

-Assine aqui, por favor – o carteiro disse, segurando o pacote e uma prancheta. Hermione pegou e assinou seu nome. O carteiro aquiesceu, sorriu e voltou para seu pequeno caminhão.

Hermione virou da porta. –Não fale nada – ela disse pra Laura, que cobria a boca com a mão. –O que é isso? – ela tirou o papel que embrulhava o pacote e olhou pra ele, surpresa. –Não acredito.

-O que é? – Laura perguntou, se aproximando.

Hermione virou o pacote em suas mão. –É de Petúnia Dursley.

Laura olhou pra ela, chocada. –Está brincando.

-Bem, é o que diz.

-Abre!

Hermione abriu a caixa e retirou um globo de cristal preso em um suporte de prata. Era um globo de neve, um muito caro. Dentro estava uma pequena, linda miniatura da cidade de esmeraldas do mágico de Oz.

O queixo de Laura caiu. –Ah, minha nossa, isso é lindo!

Hermione abriu um pequeno bilhete que estava no pacote. –Querido Harry, - ela leu. –Vi nos jornais que se casou recentemente. Não vou perguntar por que escolheu nos excluir desse evento depois de temos te criado com toda nossa bondade... ou talvez eu não tenha que perguntar. Mesmo assim, mando essa lembrança para você. Pertenceu a sua mãe, é uma das poucas coisas dela que ainda tenho. Foi um presente de casamento de nossa avó. Pensei que pudesse querer dar a sua nova esposa. Talvez um dia possa conhecê-la. Sinceramente, Tia Petúnia.

-Ah, Deus – Laura disse baixo.

Hermione fungou. –Queria que ele não tivesse me convencido a não convidá-los!

-Era o que ele queria, querida.

-Talvez Petúnia esteja se sentindo culpada pela forma que o tratou. Talvez esteja tentando se desculpar – ela deu de ombros. –Qualquer que seja a razão, Harry vai ficar feliz em ter isso se era da mãe dele – ela colocou o presente cuidadosamente na mesa do corredor e foram pra cozinha.

-Então, ainda se acostumando com a mudança de nome, hein? – Laura disse, pegando a garrafa de vinho.

Hermione serviu, um pouco envergonhada. –Me sinto uma boba. Ainda não fui chamada muito por sra Potter.

-Gosto de Granger. Combina mais com Hermione – ela levaram suas bebidas até o jardim de inverno e se esticaram nas cadeiras. –É muito importante que os nomes de uma pessoa soem bem juntos. Potter fica bem com Harry, mas nem tanto com Hermione.

-Concordo. Prefiro Hermione Granger, mas admito que quando penso em meu nome como "Hermione Potter" sinto um arrepio.

-Por que?

-Acho que é... uma lembrança. Faz parecer real. Que sou, você sabe, casada com ele.

-Bem, eu nunca vou mudar meu nome. Sempre gostei de como meu nome soa. Laura Chant. – ela falou, balançando a mão no ritmo de uma valsa de três sílabas.

-É bem lírico. Flui naturalmente – Hermione disse, fazendo um gesto de fluir com a mão livre.

-Não consigo me imaginar com outro sobrenome. Quer dizer, sério mesmo. Laura Weasley? Não parece nada certo.

Hermione levantou as sobrancelhas, mas não disse nada. Ela olhou para Laura, que repousa a cabeça na cadeira e não parecia perceber o que dissera. Hermione limpou a garganta. –Não quer dizer... Carlisle?

Laura olhou pra ela. –Hein? – ela de repente arregalou os olhos. –Merda, o que eu disse?

-Você falou Weasley, querida.

Laura cobriu os olhos com as mãos. –Ah, mega-merda.

Hermione sorriu, apesar de sua mente estar correndo. O que exatamente estava se passando aqui durante a ausência deles? –Então... quer me falar sobre isso?

Laura parecia estar tentando se curvar em uma bolinha. –Estou tão envergonhada.

-Não fique com vergonha! O que está acontecendo? Tem algo acontecendo? Com George?

Laura sentou direito e olhou pra Hermione com os olhos arregalados. –Não! Com o George não!

O queixo de Hermione caiu e foi a vez dela de sentar direito. –Com Rony? Algo está acontecendo entre você e Rony?

Laura balançou a cabeça que sim. –Não está com raiva de mim, não é? Quer dizer... Não achei que...

Hermione a interrompeu. –Não, não estou com raiva, estou apenas surpresa! Achei que vocês não se dessem muito bem.

-Não nos dávamos, mas... é complicado. Ele disse muitas coisas pra mim sobre Sorry que me chatearam, principalmente porque eram verdadeiras. Não sei o que fazer!

-Vocês dois estão... Mas e quanto ao Sorry? Ainda está...

-Eu não sei! – Laura lamentou. –Ah, Hermione, estou tão feliz que tenha voltado. Preciso falar sobre isso, muito.

-Então fale!

-Ainda não terminei com Sorry, não oficialmente. Na noite do natal, depois que vocês saíram, percebi que estava sendo hostil com Rony porque ele via a verdade sobre mim e Sorry e porque ele me chamou a atenção pra ela. Ele não me deixou negar como todo mundo faz. – ela desviou os olhos, um rubor tímido aparecendo em seu rosto. –Fui para o quarto dele. Estava me sentindo vulnerável e sozinha...

-Ah, nossa – Hermione falou –Vocês não fizeram, ou fizeram?

-Não, mas só por causa dele. Ele é maravilhoso – ela disse, a voz dela engasgando um pouco. –Nós nos beijamos, mas ele não foi além disso, apesar de eu querer. Ele disse que não seria o outro cara, e enquanto Sorry for uma questão, seremos apenas amigos. Então somos... mais ou menos.

-Mais ou menos?

-Bem, começou como um aconchego. Na primeira noite, fiquei lá e ele apenas leu pra mim. Já leu o que ele escreve? É incrível! – Hermione deixou os ombros caírem um pouco, porque ela pedira pra ler os escritos de Rony, mas ele negara. –Comecei a ir ao quarto dele quase toda noite. Por um tempo, ele apenas lia pra mim e então começamos a conversar, e então foi ficando cada vez mais pessoal. Sinto como se pudesse dizer qualquer coisa a ele – Laura sorriu e seus olhos brilharam com uma expressão que Hermione conhecia muito bem. –Por algumas semanas, estamos... bem, acho que tecnicamente estamos dormindo juntos. Mas sem o sexo. Apenas na mesma cama. É tão maravilhoso ter alguém ali de manhã quando acordo e ele me abraça e está sempre presente... Nunca tive alguém na minha vida que estivesse ali de verdade, alguém que não estivesse me abraçando e olhando por cima de meu ombro aonde vai depois – ela parou, passando a mãos pelos olhos. –Mas ainda estou sendo desonesta com Sorry.

-Ah, esquece o Sorry! – Hermione falou firme, liberando toda sua frustração com o homem, que ela sempre mantivera guardada pelo bem de Laura. –Tudo o que ele pode fazer é te mandar uma coruja por mês! Você merece tão mais de um relacionamento, merece alguém que esteja comprometido, alguém que vai te colocar em primeiro lugar!

Laura a encarou, um pouco surpresa com a veemência de Hermione. –Nossa, Hermione... Há quanto tempo espera pra me dizer isso?

-Tempo demais, e não sou a única. Sempre quis respeitar o que você queria, mas nunca entendi como pode ficar nesse relacionamento quando claramente não estava ganhando nada com ele.

-É complicado. Sorry e eu somos ligados de uma forma que não posso explicar de verdade.

-E sempre estarão ligados. Isso não te obriga a ficar presa a ele a vida inteira. Um relacionamento deve dar apoio e felicidade e companhia, não é uma coisa que tenha que agendar seis meses antes.

Laura suspirou. –Está certa. Só é difícil. Rony está me pressionando a escrever pra Sorry e pedir que venha aqui pra gente conversar sobre isso, cara a cara.

-Acho que é uma boa idéia.

Laura olhou pra Hermione com uma hesitação no olhar. –E se ele não vier?

Hermione deu de ombros – Então é a resposta que precisa, não é?

A porta da frente se abriu e fechou de novo. Provavelmente era Harry, que fora até a Toca deixar algumas lembranças e pegar Rony. Hermione levantou e foi até o foyer. –Oi! – Rony exclamou, avançando para abraçá-la. –Bem-vinda ao lar.

Ela o beijou na bochecha. –Obrigada. É bom estar em casa.

Ele arqueou uma sobrancelha. –Mesmo?

Ela suspirou. –Não, na verdade não. Se as coisas fossem como eu queria, ficaria naquele navio para sempre, mas tenho certeza que ficaria chato depois de um tempo. – ela o abraçou de novo sorrindo para Harry por cima do ombro dele. Ele piscou pra ela. –Sentiu nossa falta?

-Muito, mas devo dizer que é bom poder caminhar livremente pela casa sem medo de interromper algum evento sórdido.

Hermione riu, indo até Harry e passando um braço pela cintura dele. –Bem, somos um casal de velhos casados agora. Não deve mais haver eventos sórdidos.

Harry fez uma careta. –Nunca concordei com isso!

-Pssiu, querido – ela disse baixo. –Só teremos que ser mais discretos.

-Ah, - ele falou. –Tudo bem então.

Ela viu o globo de neve na mesa do corredor e lembrou do presente surpresa de Petúnia. –Ah, um presente chegou pra você – ela disse, esticando o braço para pegar. –Olha isso, não é lindo?

Harry pegou o globo de neve e virou em suas mãos. –Sim, é bonito. Quem me mandou isso, então? – ele balançou e pequenos flocos verdes se espalharam pela Cidade de Esmeralda. Ele colocou na mesa para que pudessem observar a miniatura de uma tempestade de neve.

-É de sua tia Petúnia.

Harry olhou pra ela. –Sério, de quem é?

-Sério, é de sua tia Petúnia! Ela leu nos jornais que estávamos casando e quis que ficasse com isso, era de sua mãe. Ela disse que foi um presente de casamento da avó delas.

-A avó delas? – Harry disse, franzindo a testa. –Mas... – ele se interrompeu, ficou reto e começou a recuar. –Hermione... A avó de minha mãe morreu quando ela tinha quatorze anos.

Todos os olhos viraram para o globo de neve. –Harry... – Hermione começou, um frio se espalhando a partir de seu estômago.

-Todo mundo pra fora. Agora – Harry disse.

A mente de Hermione ainda tentava acompanhar; ela podia prever o terror que estava prestes a sentir subindo como um foguete por sua espinha. Com certeza não pode começar tão rápido assim, ela pensou. Só estamos em casa há uma hora!

Ela sentiu a mão de Harry segurar seu braço, sua mão apertando com força, doendo. O ar se transformara em água, e era um esforço muito grande se mover através dele enquanto ele a arrastava até a porta. Ela viu em sua visão periférica Laura empurrando Rony na frente dela.

A luz do dia inundou seus olhos quando eles continuaram se mexendo em câmera lenta até o pórtico e depois na grama. Ela ainda nem tivera tempo de sentir medo quando explodiu.

Ela não chegou a ver a explosão, apenas sentiu; uma onda de magia pressionando como um foguete para fora da casa. Parecia que tinha sido atingida por uma bola de ferro nas costas. Os pés dela deixaram o chão e então ouviu um grito rouco e um murro e tosse e então o estouro cristalino de dezenas de janelas. De repente um manto de dor envolveu seu lado direito e algo que não pertencia a seu corpo estava lá.

Quando ela atingiu o chão, o que era simplesmente uma dor horrível se tornou uma agonia cegante que tomou toda sua consciência. A visão dela ficou branca com a sensação e sua garganta lutou para gritar alto o suficiente para se equipara com sua dor, mas nada saiu de sua boca. Ela viu através do olhar borrado a fumaça negra passando no céu e ouviu as lambidas das chamas. Ela pensou ter ouvido a voz de Harry chamando seu nome, em algum lugar... ele parecia muito distante.

-Harry – Ela falou arranhado. Não podia se mexer. Ele estava gritando o nome dela agora e ela ouviu passos. Queria dizer mais alguma coisa, mas antes que pudesse pensar no que, um pesado manto de escuridão caiu do céu sobre ela; estava grudada no chão e afundava nele; em suas profundezas onde nenhum som ou visão ou dor podia seguí-la.


Quando Rony acordou, a primeira coisa que fez foi cobrir os olhos com as mãos, na esperança de que pudesse apagar as últimas imagens que chegaram até eles, quando essas imagens pareciam não querer nada mais além de voltar em cores.

Ele relembrara a parte da frente inteira da casa se abrir numa explosão e ser envolvida por chamas, até que Laura cambaleou de pé e apagou o fogo com sua varinha. Ele sentiu as mãos delas sobre ele e ela dizia algo que ele não entendia... parecia haver algo errado com suas pernas, elas estavam dormentes e insensíveis.

Pior de tudo, ele ouvira o grito angustiado de Harry e olhara, inútil e chocado pelo terror, enquanto ele estava sentado na grama e puxou Hermione para seu colo. Ela estava inconsciente, mas a imagem que Rony esperava poder um dia apagar de sua mente era do ferro da varanda de meio metro de comprimento que estava claramente atravessando o abdome dela, a frente do corpo dela manchada com o sangue vermelho que inundava as mãos de Harry e pingava sobre o chão. Ele sentiu Laura tremendo quando ela alisou seu rosto, dizendo que ele ficaria bem. Ele queria ir até Harry, mas não conseguia se mover, tudo o que podia fazer era ficar ali como um pedaço de carne inútil e olhar enquanto seu melhor amigo gritava palavras incoerentes, apertando a forma de sua mulher há dois meses, que possivelmente estava morrendo em seus braços.

Em algum momento, ele ficara inconsciente. Não tinha certeza de como chegara ali... onde quer que "ali" fosse. Alguém deve ter pedido ajuda, ele não lembrava. Deve ter sido Laura, certamente não fora Harry. Quanto tempo eles esperaram nos escombros até que a ajuda chegasse? Chegara rápido suficiente para ajudar Hermione? Ela parecia gravemente ferida.

Com certeza ela não podia estar morta. O universo não podia ser tão cruel... e se fosse, ele não queria mais fazer parte dele.

A porta abriu e uma enfermeira entrou, seguida por Laura. Ela parecia bem, exceto por uma mancha roxa em sua testa. Ela se apressou até o lado dele e o abraçou. –Você vai ficar bem – ela disse, em parte para si mesma. –Foi ferido, mas está bem agora.

-Hermione? – ele perguntou, se apoiando nela e se preparando para as piores notícias.

Laura recuou, os olhos cheios de lágrimas e seu queixo começou a tremer. Rony gelou. –Eles... estão trabalhando nela agora. Não tem certeza se... ela.. não sabem se podem salvá-la.

Eles se encararam por um momento e Rony viu o quanto era ruim pelos olhos dela. Ela sentou na beira da cama dele, que esticou a mão pra ela e quando as lágrimas dele escorreram, ficou feliz dela não poder ver seu rosto.


Não deixaram que saíssem da cama por mais uma hora, não até que o médico tivesse checado suas coluna, que aparentemente quebrara e fora consertada. As pernas dele estavam normais agora e obedeciam a seu comando, apesar de na hora de levantar, elas parecerem meio bambas. –Não deveria estar de pé – sua mãe lhe deu uma bronca, apoiando seu braço. Ela chegara um pouco depois dele ter acordado, e graças a deus estava calma e não histérica, o que era surpreendente, mas um enorme alívio.

-Tenho que vê-lo – Rony disse. –Tenho que ficar com ele.

-Ele tem gente suficiente com ele. Você se machucou também.

-Estou bem. Vamos.

Ela e Laura o guiaram pelos corredores até um quarto de espera privativo. A cena que o recebeu foi uma digna de seus piores pesadelos.

O quarto estava cheio. Ele viu os outros moradores da casa, todos pálidos e distantes. Ele viu seus irmãos e seu pai. Viu Napoleon, que parecia perdido no pensamento em quem pudesse ter sua vingança, alguém cujo pescoço pudesse torcer. Ele viu Remo e Diz, sentados próximos e de mãos dadas tão forte que os dedos de Diz estavam brancos.

Harry estava sentado no sofá central. Estava inclinado para frente com os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça repousando sobre as mãos. Sirius estava ao lado dele, a cabeça curvada, uma das mãos apertando o ombro de Harry. Os pais de Hermione estavam sentados do outro lado de Harry, a face sem expressão devido ao choque, se apoiando um no outro.

Rony viu seus irmãos virem em sua direção, mas ele balançou a cabeça pra eles, esperando que compreendessem. Eles aquiesceram e recuaram. –Harry? – ele chamou.

Harry levantou os olhos e Rony ficou chocado com a aparência dele. Estava tão pálido que Rony achava que podia ver as veias azuis em suas bochechas e seus olhos estavam inundados com medo e exaustão. Ele sorriu ao ver Rony e então levantou e avançou. –Você está bem? Me disseram que você estava descansando.

-Estou bem, sem problemas. – Ele esticou o braço e colocou a mão sobre o ombro de Harry. –Harry... eu... – ele não sabia como continuar, ou o que queria dizer.

Harry balançou a cabeça, como se concordasse com o que quer que Rony não tivesse dito. –É... eu... estou...- ele não podia continuar. Engoliu seco e sua cabeça começou a balançar em sua própria negação do que não queria contemplar.

Rony colocou os braços em volta de Harry no momento em que seus soluços ultrapassaram a camada de estoicismo. Ele o abraçou com força e fez sons de conforto sem sentido enquanto o peito de Harry se contraía e tremia sob suas mãos. Ele viu Sirius secando os olhos e Claire inclinando sua cabeça sobre o ombro de Doug, fechando os olhos para o som de desespero de seu genro. As lágrimas de Harry quebravam a fachada de calma de todos. Gina chorava baixo. Justino apoiara a cabeça nas mãos. Napoleon ficou de pé num canto, se apoiando com uma mão na parede, a cabeça abaixada e seus ombros caídos.

Rony sentiu a mão de Laura em suas costas e ficou grata por ela. Ele poderia precisar de um apoio pra ele próprio se ia ficar com Harry durante o tempo todo, e estava determinado a ficar, não importando quanto tempo demorasse ou quanto ficasse horrível.


As horas passavam sem nenhuma notícia. Rony descobriu que estavam no hospital do Corpo Policial, e não numa instituição do Ministério como pensara. Soube que Hermione recebia tratamento de vários medibruxos famosos e que Sukesh cuidava pessoalmente do caso dela. Soube que ela já fora ressuscitada duas vezes na mesa de operação. Todas as informações vieram de Remo, sussurradas baixinho entre os amigos e familiares que esperavam , todos tomando cuidado para que Harry não ouvisse.

Rony tomara lugar no sofá em frente a Harry, Laura a seu lado e sua mãe do outro lado. Harry ficou apenas sentado, olhando para o nada, seus olhos vazios. Em um momento, ele virou para Sirius e quase falou, mas as palavras pareceram morrer em sua garganta. Sirius balançara a cabeça como se entendesse e Harry se inclinou para trás e deixou sua cabeça cair sobre o ombro do padrinho. Sirius o abraçou com gentileza, encontrando o olhar preocupado de Rony por cima da cabeça de Harry.

Em um momento, já no fim da tarde, Harry levantou e saiu da sala sem dizer nada. Ninguém mais parecia saber se deviam segui-lo ou não, mas Rony não hesitou.

Ele o encontrou de pé olhando por uma janela no fim do corredor, olhando o sol se pôr lá fora. Parou ao lado dele, sem ter certeza do que dizer. Ele esticou a mão e pegou a mão dele; Harry apertou seus dedos imediatamente, um suspiro longo e temoroso lhe escapando. –O que tenho que fazer, Rony? – ele sussurrou.

Rony franziu a testa. –Pra que?

-Pra quem devo implorar que me leve no lugar dela? Tem que haver alguém que possa consertar isso, se eu soubesse a quem posso pedir.

-Ela vai ficar bem. Ela é forte – parecia tão forçado até aos ouvidos de Rony, mas era tudo que podia pensar em dizer.

-Não importa o quanto sejamos fortes, o mal sempre é mais forte – Harry disse. –É mais forte porque não se importa com quem ele machuca. A gente agoniza por tudo. Eles simplesmente fazem, e que se danem as conseqüências.

-Harry... Por que... quem você acha que...

-Não posso pensar nisso agora.

-Claro que não – mas se ele conhecia Harry, já estava pensando sobre o que deveria ser feito em seguida, e quem pagaria por ferir Hermione... Porque alguém tinha que pagar, e pagar caro.

Harry não falou novamente. Rony ficou apenas ali olhando o rosto dele e segurando sua mão, na esperança que sua mera presença pudesse lhe dar algum conforto, porque Merlin sabia que ele não estava fazendo muito mais pra ajudar. A cabeça de Harry caiu um pouco e Rony viu seus lábios se curvarem naquela contorção involuntária de tristeza que se recusa a parar depois que começa. Lágrimas escorriam sob suas pálpebras e deixavam rastros brilhantes em suas bochechas.

Rony soltou a mão de Harry e colocou os braços em sua volta, sentindo as lágrimas pinicando em seus próprios olhos. A garganta se fechando enquanto a verdade de que Hermione poderia morrer de repente se tornou real. Ele percebeu que desde que acordara, estivera pensando em como os ferimentos dela estavam afetando Harry e como Harry ficaria destruído caso o pior acontecesse... Mas a idéia de Hermione morrer também lhe afetava, independente de Harry. Ele a amava por si só, e o medo de perdê-la agora tomava conta de seu peito como um ser vivo, engolindo-o até que tivesse medo que sua pele não pudesse mais conter esse medo. –Por favor – ele disse num sussurro rouco, sem saber a quem se dirigia. –Por favor, por favor, permita que ela fique bem.

Eles ficaram ali ao lado da janela enquanto o sol se punha, se apoiando um no outro. Harry não falava, apenas olhava para o céu escurecendo enquanto as lágrimas deslizavam silenciosas e constantes por seu rosto. Rony não chorava, apenas deixou que seus olhos fechassem e ficou repetindo seu pedido várias vezes em sua mente, pensando que talvez se dissesse o suficiente, se desejasse o suficiente, ela viveria.


Remo ficou olhando enquanto Rony seguia Harry para fora da sala. Depois que eles saíram, levantou, puxando Diz consigo. Silenciosamente, foi até o canto onde Napoleon estava de costas para todos. –Então? – ele sussurrou.

Napoleon virou, sua expressão distante e sem vida.-Então o que?

-Já contou a ele?

Napoleon o olhou como se não merecesse nenhum respeito. –Sim, Remo, por que esse é o momento que escolheria contar a meu chefe que não só temos 200 pessoas desaparecidas e não temos idéia do que fazer sobre isso, mas também apenas o fato da gente saber disso pode ter custado a vida de sua esposa.

Remo abriu a boca para responder, mas Diz levantou a mão. –Não devíamos falar disso aqui – ela olhou em volta - Venham – eles saíram da sala de espera; ninguém pareceu notar. Diz os guiou pelo corredor até que encontraram um quarto vazio.

Quando entraram, voltaram ao assunto de imediato. –Você realmente acha que este ataque está ligado a nosso projeto? – Remo disse.

Napoleon arregalou os olhos. –Você duvida mesmo?

-Sim, duvido. Que propósito teriam em explodir a casa de Harry, talvez com ele junto? Ele nem sabe de nossos resultados ainda, e esse ataque foi feito cedo demais depois de seu retorno que quem o encomendou deve saber que ele ainda não teve tempo de saber dos resultados.

-Você acha que ele era o alvo, e não ela?

-Bem, Harry disse que o pacote estava endereçado a ele. Saberemos mais quando examinarmos o dispositivo.

-Já o encontraram?

-Ainda procurando nos escombros. Quem quer que tenha feito, deve saber sobre os tipos de proteção que colocamos na casa. Nada hostil pode entrar sozinho. O único meio para colocar a bomba lá dentro seria um residente aceitar por vontade própria. Por isso o esquema de entrega.

-Já sabemos que Allegra conhece os feitiços. Lembra que quando ela apareceu lá no verão passado?

Remo franziu a testa. –Você suspeita de Allegra?

-Parceiro, você está ignorando todas as conclusões obvias.

-Acho altamente improvável que ela seja responsável por isso.

-Por que?

-Ela nunca mataria Harry assim... À distância. Se ela decidisse matá-lo, faria cara a cara, para que pudesse vê-lo morrer. Sua animosidade com Harry é pessoal, você sabe disso. Isso... isso seria completamente insatisfatório pra ela.

-Talvez ela tenha decidido que eficiência é melhor que sentimento.

Remo ainda balançava a cabeça. –Acho que temos que olhar além das conclusões óbvias aqui, Napoleon. Quem quer que tenha feito isso queria simplesmente se livrar dele sem se preocupar com o quanto ele sabia ou quais eram seus planos, ou quanto já descobrimos. Quase como se ele fosse apenas um incomodo, e não o alvo principal.

-Talvez ele não seja o alvo – Diz disse. –Ou talvez... talvez haja um motivo para esse ataque que não estejamos vendo.


Allegra estava sentada em sua mesa há duas horas, olhando para a lista de ordens que escrevia. Não escrevera nenhuma palavra. Parara de ver o pergaminho diante de si; ela não sentia mais a pena entre seus dedos. A tinta em seu interior tinha secado há muito tempo.

Não levantou os olhos quando a porta abriu, ou quando ele sentou diante de sua mesa e colocou os pés sobre ela com um suspiro satisfeito. –Não foi um dia de trabalho ruim – ele finalmente disse.

Allegra colocou a pena de lado, com cuidado, e dobrou as mãos sobre a mesa. –Por que? – perguntou.

-Por que, o que?

-Você tentou matá-lo hoje. Sem me dizer. Por que?

-Por que não?

Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, as palavras certas lhe abandonando. –Não sei como dizer isso, Julian.

-Então deixe que eu digo. Você estava sentada aqui em sua mesa, olhando essa lista inacabada de ordens, tentando descobrir exatamente o que meus planos envolvem. Você também está se perguntando por que eu deixei você com algumas presunções sobre meus motivos, presunções que você acabou de perceber são totalmente incorretas.

-Presunções, sim. Por exemplo, que Harry era uma parte importante de seu plano.

O Mestre sorriu. –O que te faz pensar que não é?

-Porque tentou acabar com ele como se fosse um mosquito. Estava simplesmente tirando ele do caminho. Não ia trazê-lo até aqui e interrogá-lo ou tentar fazer com que fizesse alguma coisa, ia? Só queria que... ele não existisse mais.

-Bem, ele sempre foi um incomodo maldito.

Allegra balançou a cabeça. –Devia ter me dito. Podia ter te avisado.

-Me avisado? O que?

-Você fez um cálculo muito errado. Não o matou, mas soube que pode tê-la matado. Se tiver matado, então "incomodo" não vai ser nem o começo da descrição do que ele vai ser pra você e pra qualquer que seja o plano que está escondendo de mim.

A expressão super confiante do Mestre vacilou um pouco. Ela ficou feliz em ver isso. –Não posso negar que as ações de hoje não saíram exatamente como planejado, mas talvez tenha sido melhor assim.

-Como assim?

-Se tivermos muita sorte, ela morrerá e não vou ter que me importar com outro plano para me livrar dele. Ele virá até mim. A vítima com entrega em domicílio – ele sorriu. –às vezes eu amo esse trabalho.

-Ele vai vir atrás de você, quer ela morra quer não. O fato dela ter se ferido desse jeito é o suficiente.

-Ótimo. Viu, não pode ficar choramingando quando seu plano não sai exatamente do jeito que queria. Tem que ver o lado bom das coisas. Olhar a vida da sua forma não faz bem, querida. Um erro é apenas uma oportunidade disfarçada.

Ela deu um sorriso cínico, levantando pra sair. –Vou mandar bordar isso em um travesseiro, um sentimento tão sábio.

-É algo que vale a pena lembrar. – ele levantou a mão quando ela passou. Ela parou, sem olhar pra ele, mantendo os olhos firmes à sua frente. –Mas não é por isso tudo que está chateada comigo.

-Por que, então?

-Só esta com raiva porque tomei uma atitude contra ele sozinho. Esse é seu maior defeito, Allegra. Permitiu que sua rivalidade com Potter fosse dominada por emoções. Não o vê como um obstáculo para o que quer alcançar, o vê como um inimigo pessoal e tem questões igualmente pessoais em derrubá-lo. Eu me intrometi nesse ciclo e fui em frente sem te consultar.

Quando ela falou novamente, foi entre os dentes cerrados. –Passei grande parte de dez anos lutando contra o homem, Julian. Não mereço ser excluída agora.

Ele a puxou um passo mais perto. –Mas esse não é nem o motivo real – ele a puxou pra baixo, para seu colo, sua mão segurando os cabelos dela enquanto falava diretamente em seu ouvido. –A verdadeira razão é que em algum lugar aí dentro, você não o quer ver morto de verdade.

Allegra deu um pulo e sem pensar puxou o braço de vez e deu um tapa no rosto dele o mais forte que pode. A cabeça dele virou para o lado e quando virou de volta, ele estava sorrindo. –Como pensei – ele falou. –Imagino o que tenho que fazer para tirá-lo de sua mente... – ele disse, levantando.

Uma sensação estranha soprou pelo coração de Allegra... Medo. Ele estava entre Allegra e a porta. Ela nunca enfrentara nenhuma pessoa, homem ou mulher, que achasse que não podia superar mágica ou fisicamente. Era uma sensação desconcertante se encontrar acuada por alguém em quem não podia confiar.

Finalmente, ela simplesmente andou em direção à porta como se não tivesse notado o brilho predatório nos olhos dele, com a esperança que se fizesse barulho enquanto passava pelo cemitério o fantasma não a incomodasse.

Poderia ter funcionado nos fantasmas, mas não com o Mestre.

Ele se moveu mais rápido do que ela poderia ver. De repente ela foi atingida por trás, e então o teto e chão trocavam de lugar e então ela estava no chão e ele prendia seus pulsos acima de sua cabeça. Ela o olhou nos olhos, tão parecidos com o do pai... mas então ela empurrou esse pensamento de lado assim que chegou em sua mente. Ela não queria ter Harry nem de longe em sua mente enquanto suportava o que estava prestes a acontecer.

Ele queria vê-la vacilar. Ele queria vê-la sem poder. Queria uma reação. Ela não podia lutar contra ele, então o mínimo que podia fazer era negá-lo do que queria.

Quando ele rasgou as roupas dela, ela olhou para o teto. Quando ele afastou as pernas dela, contou os morros da textura da parede de seu escritório. Quando ele a penetrou, ela apertou os punhos e o queixo e seu corpo inteiro e fez planos. Quando ele gozou, gemendo e ofegando com o rosto contra o pescoço dela, ela mal notou, pois não estava ali de verdade.

E quando ele a deixou ali, murmurando palavras condescendes em seu ouvido e dando tapinhas em sua pele nua como em um animal de estimação, ela ficou onde estava mesmo depois que ele se fora. Ela ficou ali no chão e fez planos e não se levantou até que soubesse exatamente o que devia fazer.


Era quase meia noite quando a porta da sala de espera abriu e Sukesh entrou, vestido com a roupa cirúrgica azul. Harry levantou devagar, procrastinação em seu rosto. A aparência de Sukesh não inspirava confiança; ele parecia cansado e derrotado. Ah, Deus. Rony pensou. Não vou agüentar ouvir. Sua mente correu à frente de Sukesh; imaginando como ficaria a expressão de Harry ao ouvir. Lamento tanto, Harry... fizemos tudo o que podíamos... os ferimentos dela eram profundos demais... ela não sofreu...

Sukesh foi até Harry e colocou a mão sobre o braço dele. –Sukesh – Harry sussurrou. –O que... por favor, me diga.

Um pequeno sorriso se curvou nos lábios do médico. –Ela vai ficar bem, Harry.

Rony levantou devagar, suas pernas parecendo bambas de novo. Harry piscava, surpreso. –O que? – sussurrou. –O que? – Rony podia ver pelo choque no rosto de Harry que ele já tinha se conformado em sair dessa sala como um viúvo. Ele foi até o lado de Harry e colocou uma mão no ombro dele.

Sukesh balançou a cabeça que sim. –Foi um dia difícil, um procedimento longo, mas... ela vai se recuperar.

A respiração de Harry ficou engasgada no peito e ele colocou a mão sobre sua boca. Sukesh sorriu e recuou. Rony segurou Harry e o abraçou, o alívio forte demais pra ser expressado. Ele sentiu o amigo ainda tenso com a surpresa, e então ele relaxou e um soluço explodiu de dentro dele. Ele abraçou Rony em retorno e então todos na sala estavam de pé, se abraçando e chorando e o ar se encheu de palavras e exclamações que todos estiveram muito ansiosos pra dizer antes disso.

Harry abraçou Doug e Claire e Sirius e então recobrou sua serenidade e virou para Sukesh. –Sukesh, não posso te agradecer o suficiente. Não sei o que dizer.

-Só estou feliz da gente ter conseguido salvá-la. – Sukesh falou. Harry segurou a mão dele entre as suas e a balançou.

-Não foi só a ela que salvou – ele disse, secando os olhos. –Posso vê-la? Onde ela está?

Sukesh suspirou. –Temo que não possa permitir que ninguém a veja por enquanto. Ela está sendo observada cuidadosamente. Teremos tempos difíceis; devemos ter cuidado. Ela está na nossa câmara de recuperação e os outros médicos estão com ela, então não se preocupe. – ele encarou Harry com um olhar severo. –Mas ela vai precisar de você mais tarde, então sugiro fortemente que vá pra algum lugar seguro e confortável. Coma alguma coisa e durma um pouco. Não há nada que possa fazer por ela ficando aqui, mas se não cuidar de si mesmo, pode tornar as coisas mais difíceis pra vocês dois. Diga que entendeu o que disse.

Harry acenou com a cabeça. –Entendi.

-Mando uma bolha se alguma coisa mudar, e no minuto que puder vê-la, eu te aviso. Agora, se me dão licença, preciso voltar.

-Obrigado, Sukesh – Harry disse de novo. Sukesh apenas balançou a cabeça, a própria exaustão evidente, e saiu da sala. Harry virou para seus amigos e enfrentou outra rodada de abraços animados e comentários aliviados.

Rony o deixou com o resto do pessoal e sentou ao lado de Laura, que chorava baixo num lenço. Ele colocou os braços em volta dela e a puxou mais pra perto. –Desculpe, te negligenciei.

Ela deu um tapa no ombro dele. –Ah, sou a menor de suas preocupações, seu louco. Estou bem, não perca nenhum segundo se preocupando comigo agora – ela olhou pra ele com lágrimas nos olhos. –Graças a Deus ela está bem... Não sei o que faria se. Não sei o que ele faria.

Rony balançou a cabeça, apertando o queixo. Agora que não ia acontecer de verdade, ele podia se permitir contemplar o que poderia ter acontecido se ela morresse. –Ele seguiria em frente, de alguma forma. O resto de nós teria esse trabalho. Mas acho que ele nunca se recuperaria de verdade.

-Eu sei – ela disse, concordando. Ela recuou e olhou pra ele, sorrindo. –Olha só pra gente. Preocupados com eles. Onde está o amor pra gente? A gente quase morreu também!

Ele sorriu de volta. –Quases só contam em jogos de ferraduras e armas nucleares*, minha querida.


Harry olhou em volta na sala. Todos começavam a relaxar, ir atrás de algo para comer, sorrindo. Alguns discutiam quem deveria ficar e quem deveria ir pra casa e voltar mais tarde. Doug e Claire brigavam de verdade por isso.

Ele se sentia como um pano de chão depois de muitas lavagens. Não poderia haver mais nada dentro dele, não depois desse dia infinito. Ele não tinha idéia de que horas eram, só que já era noite. Ele caiu de volta no sofá e deixou sua cabeça cair pra trás, de modo que ficou olhando o teto. Sua mão direita girava sua aliança várias e várias vezes no dedo até que começou a sentir a pele um pouco irritada.

Sua mente ficava tentando levá-lo de volta para jardim da frente da casa antes da ajuda ter chegado... Ele resistia a essa cena o máximo que podia, mas era tão persistente. Ele nunca se sentira dessa forma em sua vida. Tinha perdido milhares de anos de evolução, ficando reduzido a uma criatura não-verbal de reações cruas. Primeiro a explosão. Ele vira Rony voar e aterrissar com as costas num ângulo estranho. Vira Laura ser jogada no chão como uma boneca de pano. Sentiu quando ele próprio atingiu o chão, abalado, mas sem ferimentos... e então ele sentou e viu Hermione caída ali, o sangue já se espalhando sobre ela, um barra metálica claramente atravessada por ela.

Por um momento, ele sinceramente achou que tivesse ficado inconsciente e estava alucinando. Desde que Allegra o enganara, fazendo-o acreditar que ela estava morta, ele tinha pesadelos recorrentes de Hermione apunhalada ou esfaqueada de uma forma horrível... talvez estivesse revivendo seu medo em seu inconsciente. Mas era muito real, o cheiro de fumaça, seus olhos ardendo, a dor em seu peito por ter o ar tirado dos pulmões.

Ele não fora ele mesmo enquanto ficava sentado ali no chão e tentava abraçá-la sem machucá-la mais. Ele não sabia o que dissera ou fizera ou gritara ou parecera. Ele não lembrava. Laura apagando o fogo, ele quase não recordava o time de resposta da DI chegando. Ele lembrava de Lupin puxando-o pra trás enquanto os medibruxos aparatavam Hermione, ele vagamente lembrava de ter chegado ali no hospital e ser examinado. Sua primeira lembrança clara era de entrar nessa sala de espera e encontrar Napoleon ali, de ver o choque no rosto do amigo e do horror e raiva que se abateram sobre ele quando começou a absorver o que acontecera.

Mas agora tudo acabara. Nada mais importava enquanto ele esperava por notícias dela. O tempo não passara, nenhuma outra pessoa existia, nenhum pensamento passava por sua cabeça. Agora que ela fora poupada, ele podia ouvir pensamentos mais racionais começando a borbulhar novamente como uma vitrola ligada com a agulha sobre o disco, pulando de um ritmo lento para uma cacofonia furiosa.

Meu Deus, Laura e Rony poderiam ter morrido também. Rony se machucou... certo, ele parece bem. Laura esta com uma mancha roxa no rosto. Estou machucado? Nem sei. Me sinto bem. Aha não, a casa... A casa explodiu. Onde vamos morar? Onde os outros vão morar? Talvez eu possa... não consigo nem pensar nisso agora. Quem, e por que? Estavam atrás de mim? Se isso aconteceu por minha causa... idiota, claro que foi.

Esse pensamento fez com que parasse. Quase fiz com que minha mulher morresse.

Ele piscou e balançou a cabeça. Ele queria desesperadamente se culpar, como sempre, mas depois de tanto tempo fazendo isso, começava a aprender que esse caminho levava a um beco sem saída. Além disso, quando acordasse, Hermione lhe daria uma senhora bronca se descobrisse que mais uma vez ele se julgava responsável por tudo. Ela dizia que era o ego dele, e ele começava a imaginar se ela não estava certa. As vidas deles estavam em perigo e ela sabia... e ainda assim escolhera estar com ele. Ela ficara diante de todo mundo e proclamou que o amava e que o aceitava como dela, e tudo junto que isso representava. Não sei o que fiz pra merecer tal devoção, pensou, mas vou aceitar e não vou questionar.

Um caminho mais produtivo a tomar era o que o levaria a quem quer que tenha feito isso. Ele deu um pequeno sorriso, mas não foi um sorriso feliz ou aliviado. Um sorriso perigoso. O sorriso de um homem contemplando maneiras muito criativas de ter uma vingança.

Ele suspirou e levantou. Napoleon, Remo e Diz estavam sentados juntos no outro lado do quarto, conversando sérios. Eles pararam quando ele se aproximou.

-Boas noticias, Harry – Napoleon disse.

-Foram sim. E agora acho que e hora de mais noticias.

-Não vai descansar um pouco como Sukesh disse?

Harry levantou uma sobrancelha. –Esta brincando? Se acha que posso ir tirar um cochilo em algum lugar, esta maluco. Não, acho que não. Tenho uma idéia melhor. Vamos voltar para DI e você vai me dizer exatamente o que aconteceu aqui enquanto eu estava longe.


O silêncio no escritório de Harry era daqueles que você só escuta quando está do lado de fora da sala do diretor, esperando pra ser chamado... Não que Napoleon tivesse qualquer experiência desse tipo.

Ele, Remo e Diz estavam sentados numa fileira na frente da mesa de Harry. Ele estava em pé, de costas pra eles, olhando através da janela com uma mão apoiada na parede. Ele não falou nada nos últimos minutos, não desde que Napoleon terminara de contar sobre os resultados do projeto.

Não podia saber o que Harry estava pensando ou sentindo. Ele absorvera toda a informação e olhara para lista e então virou para olhar através da janela e não dissera mais nada.

Napoleon estremeceu ao pensar no estado em Harry deveria estar no momento. Ele não conseguia nem imaginar. Doze horas atrás, estava em sua lua-de-mel, pelo amor de deus. Ele voltara pra casa feliz e cheio de boas lembranças de seu tempo com Hermione. Em uma hora, sua casa explodiu, seu melhor amigo quase ficou paralítico e sua esposa atravessada por uma barra de ferro e ficara à beira da morte. Agora ele descobria que a responsabilidade de encontrar e resgatar mais de 200 reféns e derrotar aquele que os levara caíra bem no seu colo.

Ele fez uma anotação mental de fazer um estoque de poção de dor de cabeça.

Eles esperaram. Esperaram por uma resposta dele. Napoleon não podia falar pelos outros, mas estava com grandes esperanças de que Harry virasse e dissesse exatamente o que eles fariam, exatamente como iriam encontrar esses reféns e como deixariam o Mestre furioso com tudo isso. Ele queria que Harry pensasse uns minutos e chegasse ao plano perfeito, para que pudessem esquematizar tudo e executá-lo. Ele não queria nada além de poder dizer "Vamos conseguir" e seguir aonde quer que Harry os levasse.

A resposta de Harry, quando chegou, não foi nada do que ele esperava.

Num minuto, ele estava ali olhando pela janela. No momento seguinte, ele virou de vez, pegou um peso de papel de sua mesa e num movimento só o jogou contra parede onde ele se quebrou em mil pedaços. Todos os três pularam de pé e ele viu pelo canto de olho a mão de Diz subindo até sua garganta. Harry ficou ali parado, as mãos no quadril, cerrando os dentes. –E temos certeza disso? – ele disse, sua voz tão baixa e calculada que era quase difícil acreditar que ele acabara de jogar uma coisa.

-Ah, sim – Napoleon disse. –Fizemos alguns testes amostrais com o Oráculo verdadeiro. Sukesh exumou um dos corpos e confirmou nossos achados.

-Já terminaram os testes?

-Sim, terminamos anteontem.

Harry pegou a lista. –Então essa é a lista completa de quem está sumido?

-Bem, acho que não temos como ter certeza – Napoleon disse, olhando para seus colegas. –Testamos todas as covas, mas nem todos enterram os seus em cemitérios.

Harry concordou. –Acho que podemos cruzar as informações dessa lista com os talismãs no Hall dos Nomes. Isso nos daria uma lista completamente correta de todos que estão perdidos, mas vai dar trabalho. Vou procurar algumas soluções – ele disse sentou na sua cadeira, olhando para lista. Napoleon reconhecia a expressão em seu rosto. Como ele, estava lendo esses nomes e imaginando suas vidas e seus cativeiros, há semanas, Harry começava a fazer o mesmo.

Alguns momentos se passaram. –Harry? – Napoleon chamou.

Harry levantou os olhos. –O que?

-Bem... O que fazemos?

Harry suspirou. –Não sei, Jones. Realmente não sei. – ele passou uma mão pelo cabelo. –Isso está tão além meus piores medos que nem consigo assimilar tudo. – ele olhou para Napoleon. – Você já sabia disso no natal, não foi?

-Sim. Uma parte.

-E não me contou.

Napoleon suspirou. –Não precisava ouvir, não na época. Estava em lua de mel, e tínhamos tudo sob controle.

Harry olhou para cada um deles. –Só posso imaginar o que vocês três passaram durante esse projeto. Tiveram que continuar com suas vidas normalmente com esse grande segredo pairando sobre vocês o tempo todo.

-Não foi nada fácil – Diz disse baixo. –Fizemos o nosso melhor.

-Tenho certeza que sim. – ele colocou a lista na mesa. –Nosso primeiro passo tem que ser conseguir uma lista completa de quem está desaparecido. Pra isso, precisamos descobrir algumas coisas. Até que ano vão esses desaparecimentos?

-O mais antigo que encontramos ainda é o de Rony. Estávamos nos perguntando se ele poderia ter sido um teste, pra ver se realmente daria certo. Faz algum sentido... se pode forjar a morte do melhor amigo de Harry Potter bem embaixo do nariz de Alvo Dumbledore então você pode confiar em sua habilidade.

-Então vamos usar esse ano como nosso marco inicial. Vou precisar que vocês compilem os registros de morte começando em primeiro de janeiro de 1997. Vamos precisar dos nomes de todas pessoas mágicas que morreram nos últimos doze anos. A Federação mantém um registro centralizado das mortes, mas terão que ir pelo Ministério para conseguir acesso. Remo, pode levar Diz e cuidar disso?

-Pode deixar.

-Tenho outro trabalho pra Napoleon – ele olhou para Remo e Diz. –Dispensados. – eles levantaram e saíram. Harry sentou na cadeira Remo acabara de vagar, virando para encarar seu vice. Ele não disse nada por um momento. Napoleon o olhou; sua cabeça estava um pouco inclinada, sua mão direita mexendo incansavelmente em seu anel de casamento.

-O que foi, chefe?

-Preciso que descubra o que aconteceu na minha casa hoje – Harry disse baixo. –Assuma o controle da investigação do ataque. Acho que as Forças de Execução da Lei tem a jurisdição no momento, mas quero você nisso.

-Claro.

-Não acho que esse ataque tenha sido pelo nosso projeto, ou por nada que tenha sido descoberto.

-Estávamos discutindo sobre isso hoje e não achamos que foi por isso também. Eu achei, a principio, felizmente a cabeça fria prevaleceu.

Harry aquiesceu. –Parece que eu era o alvo – ele ficou em silêncio e Napoleon sabia que estava contemplando a própria culpa pelos ferimentos de Hermione.

-Não se acabe por isso, chefe – Napoleon disse.

Harry balançou a cabeça, engolindo seco. –Se alguém pode entender, esse alguém é você.

-É – Napoleon murmurou. –Hei, se você quiser, não tenho problema nenhum em te culpar.

Harry sorriu. –Talvez. Vou me sentir menos culpado se souber que alguém está me culpando. – ele levantou os olhos para seu vice. – Você está bem? Quer dizer... deve ter sido um dia difícil pra você também.

Napoleon balançou a cabeça que sim. –Estou bem. Obrigado por perguntar.

-Bem, você me conhece. Lido com minhas frustrações e autoflagelação me engajando em comportamentos preocupados e de auto-sacrifício.

Napoleon riu. –Cuidado, parceiro. Só está casado há dois meses. Não quer ficar tão parecido assim com sua esposa tão cedo no jogo.

Harry não sorriu em resposta. –Teria sorte se pudesse ser mais parecido com ela.


Ao final da primeira semana, Allegra já sabia que não adiantava fingir que estava dormindo. Ele simplesmente a acordava. Sabia que não adiantava usar roupas pra ir dormir. Ele simplesmente as rasgava. Ela sabia que não adiantava lutar contra ele. Tinha forças que não vinham de seus músculos. Ele só permitia que ela visse uma pequena parte de seus poderes, e ela era mulher suficiente pra admitir que ele a aterrorizava. Pela primeira vez em sua vida, ela se sentia impotente.

Por enquanto.

Ela não tinha ilusões em relação aos motivos dele. Ela não significava nada pra ele, e ele queria que soubesse disso. Ela não era significante. Ela não tinha controle. Ela não tinha influencia nem mandava em suas próprias tropas.

Então ela permitiu que ele continuasse a acreditar que ele a subjugara, que a conquistara. Seria ótimo se pudesse fazê-lo se sentir seguro de seu domínio sobre a mente dela, que era, é claro, a única coisa que ele nunca poderia controlar.

Todas as noites, ela deitava na cama e esperava por ele. Ele vinha quando queria. Às vezes brincava com ela, às vezes bancava o sedutor. Às vezes a tomava selvagem, como se fosse um objeto. Às vezes era gentil, carinhoso até. Não havia padrão. Tudo que ela podia fazer era seguir com a maré. Ela inclusive respondia, pouco ou muito, a depender do que sentia que ele queria. Melhor deixar que ele pensasse que sua vitória sobre ela estava completa. Melhor se fingir de mulher subjugada. Ele não era um homem, mal era humano. Ele não tinha idéia do que estava dentro dela, e se pensava que a conhecia, ela seguiria deixando que pensasse assim.

Todos sabiam o que ele estava fazendo com ela. Ele não conseguia manter isso em segredo. Aqueles capangas que sempre quiseram a posição dela olhavam-na com desdém e diversão. Aqueles que lhe eram leais a olhavam com pena, e para o Mestre com fúria... Não que se atrevessem a se opor a ele. Era esses olhares que ela precisava, esses olhares que faziam quase valer a pena ser vítima do mostro ao qual ela deu a luz. Ela precisava saber quem ainda estava com ela e quem estava com ele. Era uma informação que poderia usar.

Mas não era a hora.

Agora era hora de suportar, e ela iria suportar. Todas as noites, ela o suportava, ao seu lado, em cima dela, dentro dela. Era obsceno e ainda assim inevitável. De certa forma, estava quase agradecida. Ao menos agora ela sabia qual era sua posição, e ela podia reagir.

E não se engane, ela com certeza ia reagir. Ela pensava em sua resposta enquanto olhava para o teto, suas pernas em volta da cintura dele enquanto ele fazia o que queria com ele. Ninguém fode comigo, ela pensou, apertando o queixo. Nem mesmo meu próprio filho... E você vai se arrepender profundamente. Isso é uma promessa.

Espere até seu pai saber disso.


Quando Harry voltou ao hospital, a sala de espera não estava mais tão cheia quanto na noite anterior. Doug e Claire estavam lá, aparentemente tinham chegado a algum acordo na discussão sobre quem ficaria ali. Sarah Forester se juntara a eles, e pulou e o abraçou quando ele entrou. –Ah, Harry, eu lamento tanto – ela disse, um pouco rouca.

-Vai ficar tudo bem – ele disse, abraçando-a também. –Ela está bem.

Sarah balançou a cabeça, assoando o nariz em um lenço, fazendo o barulho de um cervo selvagem. –Não vou fingir que sei o que se passa em seu mundo, mas... Isso é normal? Isso vai continuar acontecendo? – agora os olhos dela tinham um traço de acusação, a mesma acusação que ele esperava ver na expressão de outros, mas não vira.

Ele suspirou. –Queria poder dizer não. Queria dizer que ela sempre estará segura.

Ela mordeu o lábio. –Eu amo Hermione. E o único motivo de eu não estar em cima de você com duas pedras na mão é porque você também a ama. Mas isso não aconteceu a ela por causa dela, e você sabe disso. – Harry não disse nada. –Acho que saber disso já é o suficiente, não preciso dizer mais nada não é?

-É, já é ruim o suficiente.

Ela sorriu e apertou a mão dele. –Ela vai ficar bem – ela retomou o seu lugar ao lado de Claire.

Harry procurou por Rony. Ele o viu em um sofá encostado na parede, sentado com Laura. Ela tinha as pernas enroladas sob si e sua cabeça apoiada no ombro dele, uma das mãos repousando sobre o joelho dele. Ele tinha o braço em volta dela.

Harry piscou. Perdi alguma coisa? Pensou. Mas também, talvez não tivesse perdido. Ele estava em casa há uma hora quando o mundo desabou. Rony não dissera nada sobre Laura quando o encontrou na Toca. Uma parte de sua mente agora reprisava os eventos desde a explosão e ele percebeu que eles estavam bem próximos durante o tempo todo, mas ele estava muito distraído pra notar.

Rony o viu olhando e deu um pequeno aceno. Harry levantou a sobrancelha e Rony levantou para se juntar a ele, deixando Laura no sofá. –O que está acontecendo? – Rony perguntou.

-Só... umas coisas do trabalho. Sukesh apareceu por aqui?

-Não desde que você saiu.

Harry olhou para Laura. –Talvez eu deva te perguntar o que está acontecendo.

Rony suspirou. –Bem que eu queria saber, parceiro.

-Vocês pareciam bem confortáveis ali.

-Confortáveis, claro. Estamos em um maldito limbo, isso sim.

-E quanto a Sorry?

-Esse que é o limbo.

-Ah.

-É, na noite de natal as coisas meio que começaram a acontecer, mas eu disse que não queria entrar nisso até que a coisa com Sorry estivesse resolvida.

-Olha se não é o cavalheiro perfeito.

-Gosto de pensar que sim. Enfim... Nem sei o que ela fez disso. Estou tentando não ser muito insistente.

-Então o que?

-A gente só conversa. E lê. E... Bem, não vou mentir pra você, ficou um pouco físico.

Harry levantou um pouco a sobrancelha. –Vocês... você sabe... chegaram lá?

-Não! Ah, não. Mas ela passa quase todas as noites em meu quarto. Nada aconteceu. É só... bem confortável, como você disse.

Harry balançou a cabeça. –Você está andando em uma linha muito fina, meu amigo.

Rony passou a mão pelo cabelo dele. –Estou tão confuso, parceiro. Não sei o que fazer. Eu acho que posso... – ele suspirou e então diminuiu a voz para um sussurro. –Acho que eu talvez esteja apaixonado por ela.

-Mesmo?

-Bem, como é que eu sei? Não sei nada sobre isso!

-Você simplesmente sabe. Não é uma ciência exata.

-Ciência exata eu agüento. Isso é mais difícil. Não quero me enfiar num grande triângulo amoroso, mas tem horas que mal posso agüentar a vontade de simplesmente agarrar ela e... – ele expirou entre os dentes. –E não vamos esquecer que passei doze anos sozinho. Já tem um tempo, você sabe?

Harry sorriu. –Eu sei.

-Não quero estragar tudo.

-Então não estrague.

-Olha quem ta falando, o sr. Bem-casado. É fácil pra você ser legal e todo sábio. Nós, meros mortais temos um pouco mais de dificuldade com o "felizes para sempre".

Harry ficou sério. –Se você não notou, o felizes para sempre não está indo tão bem pra mim hoje também.

Rony ficou sem graça. –Desculpe, Harry. Isso foi muito insensível de minha parte.

-Tudo bem. Ouça, se você e Laura acham que pode ter algo entre vocês, estou feliz. Eu amo Laura, nós dois amamos. Ela é ótima. Acho que ela pode ser exatamente o que você precisa.

Um sorriso incerto tocou os cantos da boca de Rony. –Acho isso também.

-Mas acho que você fez certo em querer a coisa com Sorry esclarecida antes de pular nisso.

-É. Estou tentando. – ele apertou o ombro de Harry e se juntou novamente a Laura no sofá.

Harry já ia se acomodar para lamentar quando a porta se abriu e Sukesh entrou, parecendo mais descansado que na noite anterior. Todos imediatamente se concentraram nele, todas conversas cessando.

Ele sorriu. –Posso deixar que vejam Hermione agora – ele disse - mas só uma visita de cada vez, por favor.

Claire pulou de pé e foi em direção à porta. Harry trocou um olhar confuso com Doug. Se ela achava que ia entrar primeiro, ia ter uma grande surpresa. –Claire – Harry disse, levantando a mão. –Aonde você vai?

-Preciso ver minha garotinha – ela disse, a voz um pouco trêmula.

-Você vai ver. Eu vou primeiro.

Os olhos dela correram rapidamente pra ele. –Ela precisa de mim e eu tenho que vê-la!

-Eu sei, e você vai vê-la, prometo.

-Eu sou a mãe dela, Harry!

-Eu sei disso, Claire, mas eu sou o marido dela, lembra? Venho buscar você daqui a pouco, certo? – ele se obrigou a manter sua decisão, mas não queria brigar com ela. Ele entendia a necessidade dela de ver Hermione, e queria que ela tivesse a chance... mas, droga, ele ia ver ela primeiro.

Ele viu Claire querendo discutir, mas também percebeu que ela estava errada. O queixo dela tremeu.-Certo – ela finalmente disse baixo. –Por favor, se apresse.

Harry seguiu Sukesh pra fora da sala, seu estômago gelando. Ele queria correr na frente dele, mas ao mesmo tempo não queria ver o que o esperava. Ele imaginou como ela estava fisicamente, como estaria mal. Como estaria o ferimento? Ela estava acordada? Ela estava com dor? Ele não sabia se podia suportar isso.

Sukesh o levou para a ala de "Cuidados Intensivos" ele parou do lado de fora da porta e virou para Harry. –Ela está dormindo. Pode ser que acorde, não tenho certeza. Se acordar, é um bom sinal, mas não deixe que fale muito ou que se agite. No momento, ela está sendo mantida por vários feitiços para que seu corpo possa se curar e eles podem ser facilmente interrompidos.

-Posso... – Harry parou e limpou a garganta. –Posso tocar nela?

-Sim, você pode segurar a mão dela se quiser. Não se assuste com a aparência dela. Lembre o que ela passou – Harry aquiesceu dormente. Sukesh abriu a porta e ficou de lado.

Harry parou na porta, congelando os passos. Ele podia sentir Sukesh observando e ele queria ser o Grande e Forte Herói quer devia ser. Ele queria chegar ao lado da cama dela sem hesitar ou tropeçar ou cambalear. Ele queria ser tudo o que todos esperavam.

Se fosse tão simples. Era o resto do mundo que achava que ele era o Grande e Forte Herói. Dentro de sua própria mente, ele era apenas Harry. O Harry que ele sabia que era apenas um homem com alguma habilidade mágica, que ainda não se sentia merecedor de quase tudo e que ainda não acreditava que a mulher que sempre amou, realmente o amava também. Apenas um homem que estava com tanto medo da vida sem ela que isso o mantinha acordado durante noites. Apenas um homem que teve seu pior pesadelo quase se realizando e que agora tinha que lidar com as desagradáveis conseqüências disso.

-Você está bem? – Sukesh perguntou baixo.

Harry percebeu que estava ali parado há um tempo. Ele respirou fundo. –Se ela está, eu estou.

Ele entrou no quarto e se aproximou da cama dela, um nó dolorido subindo por sua garganta. O quarto de Hermione era privado e silencioso, a cama no centro, as luzes baixas. Suspenso sobre sua cama estava um grande frasco de vidro em forma de lágrima invertida, que estava cheio de uma poção cor âmbar. O liquido fluía constantemente da ponta do frasco e caia sobre o rosto de Hermione, vaporizando assim que tocava nela, envolvendo sua boca e nariz com qualquer que fosse seu efeito terapêutico. Um largo talismã cobre estava montado sobre a cabeça dela, frascos em sua frente girando em diferentes direções e velocidades.

Ela estava quieta em um sono tranqüilo, sua cabeça levemente elevada. O rosto dela estava virado para o lado, as mãos dobradas sobre a barriga. A pele dela estava muito pálida e seu cabelo estava preso e trançado pelas enfermeiras para não atrapalhar. A coberta estava na altura do peito, mas Harry podia ver o feitiço para curar seu ferimento brilhando laranja em sua barriga apesar do tecido cobrir.

Ele sentou no banco que Sukesh deixara ao lado da cama dela. –Hermione? – ele sussurrou, se inclinando mais pra perto. Ele esticou a mão e segurou a dela. A pele estava fria, os dedos mole quando ele os apertou. –Sou eu – ele levantou a mão para seu rosto e pressionou os lábios contra os dedos dela, segurando-os ali por um longo momento. –Você esta bem – ele disse, as palavras abafadas pela mão dela. Ele parecia não poder soltar a mão dela ou mesmo abaixá-la da frente de seu rosto. Ele a segurou ali e acariciou o antebraço dela com sua outra mão. –Você esta bem – ele repetiu. Queria poder pensar em outra coisa melhor a dizer a ela, algo profundo e cheio de significado e que a inspirasse a se recuperar logo, mas estar ali sentado já era demais, sentindo seu pulso em seus dedos e não tinha força mental suficiente pra dar um discurso que tocasse o coração.

Ele se inclinou mais pra perto e olhou o rosto dela. Ele passara uma parte significante de sua vida olhando pra esse rosto e ainda assim ele não sentia como se tivesse apreciado por completo. Ele podia passar o resto de sua vida olhando pra ele e nunca veria tudo. O rosto dela era tão variável de acordo com seu humor e expressão que agora, completamente solto e relaxado, quase não parecia ela. Não era o rosto de Hermione sem aquele pequeno arco na sobrancelha quando ela lhe dizia poucas e boas ou aquela curva em seus lábios quando ela estava flertando ou aquela linha em sua testa quando estava concentrada. Ele colocou a mão na sobrancelha dela, colocando para trás um pequeno cacho que pertencia a seu cabelo. Ele sentiu lágrimas em seus olhos, mas não queria chorar, não com ela. Ela podia sentir isso de alguma forma e achar que estava desesperançada, condenada. Então ele sentou ali e ficou olhando o peito dela levantando e descendo num ritmo constante.

Talvez tivesse falado palavras que vieram na cabeça. Ele pode ter dito que lamentava. Talvez tivesse falado que a ama e que todas as outras pessoas que a amavam estava ali e mal podiam esperar para vê-la. Ele pode ter dito que encontraria que fez isso e o faria pagar.

Ou talvez ele simplesmente tenha segurado a mão dela e esperado pra falar quando ela pudesse responder.


Rony retornou à sala de espera com uma sacola cheia de sanduíches e encontrou os amigos que moravam na casa juntos em um canto, numa conversa séria. Laura o chamou até eles.

-Alguma novidade? – ele perguntou.

-Harry ainda está com ela. Acho que Claire está começando a ficar impaciente. – Laura disse, fazendo uma careta.

-Maldição, ela pode esperar – Rony disse. –Desculpe por falar isso.

-Está desculpado.

-O que está havendo? – ele perguntou, olhando a expressão de todos.

Justino limpou a garganta. –Só estávamos falando que... bem, em algum momento vamos ter que falar da casa.

Rony aquiesceu. –Acho que sim. Onde vocês dormiram ontem? – ele e Laura não tinham saído do hospital.

-Fiquei na casa de Stephen. Jorge foi pra Toca. Cho ficou na casa da irmã. Não sei o que Napoleon fez. – Napoleon não estava por ali. Rony supôs que estivesse na DI.

-Ele ficou aqui a noite inteira com a gente.

-Bem, eu não vi o estrago. Foi muito ruim?

Rony e Laura se olharam. –É ruim – Rony disse. – A parte do meio toda foi completamente explodida.

Jorge suspirou. –Nossa. Tem conserto?

-Tenho certeza que sim, mas vai levar tempo. Vamos ter que resolver onde ficaremos enquanto isso.

-Não vão ter que se preocupar com isso – veio uma nova voz. Rony olhou e viu que Gina tinha se juntado a eles. –Draco está oferecendo todos os quartos em Glyn Cynwyd. Vocês podem ficar lá.

Rony ficou sem palavras. –Está brincando.

-Não, claro que não. Tem espaço suficiente.

-Mas, Gina... Pode ser um tempão! Meses até!

-Ele sabe – ela sorriu. Rony suspeitava que ela estava se sentindo orgulhosa da generosidade do namorado. Rony tentou, mas não conseguiu, achar a solução perfeita para que não precisassem morar na casa de Draco. A única opção que via era todos ficarem na Toca e ele não podia pedir que seus pais aceitassem sete convidados pelo que podia ser um longo tempo... e seriam oito, assim que Hermione recebesse alta. Glyn Cynwyd tinha o contra de um dono com o qual ele se sentia desconfortável, mas era ideal em todos os outros aspectos.

-Bem... diga que agradecemos a oferta – Rony disse.

A porta da sala de espera abriu e Harry entrou. Rony olhou sua expressão, procurando pistas do estado do amigo, mas ele simplesmente parecia exausto. Ele sabia que Harry não tinha descansado nada desde a explosão. Ele e Laura ao menos tinham dormido um pouco no sofá, mas Harry estava sempre ou sentado ali ou no trabalho desde que chegaram no dia anterior. Ele viu quando Harry foi até Claire. Eles falaram baixo uns segundos e então Claire saiu apressada até o quarto, Doug a seguindo.

Harry os viu sentados num canto se juntou a eles. –Reunião da casa? – perguntou.

-Estávamos falando em onde vamos ficar enquanto a casa é consertada. Hm. Draco ofereceu lugar pra todos nós em Glyn Cynwyd pelo tempo que precisarmos – Rony disse, esperando que Harry pudesse perceber a gratidão pelo gesto bem como seu desgosto involuntário com isso.

-Ah – Harry disse, assegurando apenas com uma sílaba que entendeu tudo. –Bem, isso é muito legal da parte dele, mas não vai ser necessário.

Os outros trocaram olhares. –Acho que é necessário – Justino disse. –Não podemos ficar na nossa casa se o estrago foi como Rony descreveu.

-Então acho que vamos ter que ir até lá e dar uma olhada – Harry disse. –É hora de vocês olharem os estragos com seus próprios olhos.


Rony ficou um pouco separado dos outros enquanto eles estavam no pátio da frente e olhavam as ruínas da casa. A maior parte das janelas da frente tinha explodido, e afiados pedaços de vidro enchiam a grama e o caminho da entrada. Boa parte da grande escadaria da frente tinha sumido; pedaços dela estavam espalhados pelos escombros. O domo de vidro do jardim de inverno caíra pra dentro e torre sul tinha desabado em cima do que sobrara do foyer.

Laura estava chorando, segurando o lenço contra seus lábios. Os olhos de Jorge estavam tão abertos quanto possível enquanto olhava para os estragos. Lágrimas escorriam dos olhos de Justino, mas ele permaneceu em silêncio.

-Por Deus, - Jorge finalmente disse. –Olha essa bagunça.

-Nunca vamos conseguir consertar isso – Justino disse. –É perda total. É melhor a gente se mudar e nos considerarmos sortudos por ninguém ter morrido.

-Ninguém vai se mudar – Harry disse, vindo dos fundos, onde ele estivera olhando e lamentando.

-Harry, abre seus olhos. A casa está arruinada. Vamos contabilizar as perdas e ligar pra empresa de seguro, certo?

Harry hesitou por um momento, de pé na frente do grupo, as mãos nos bolsos. –Acho que não me ouviu, Justino. Ninguém tem que se mudar.

Justino ia protestar novamente, mas Rony o interrompeu com um gesto, seus olhos concentrados na expressão de Harry. –Harry, o que está pegando?

Harry olhava para casa com uma expressão estranha no rosto. –Rony, venha cá. – ele disse esticando a mão. Rony se aproximou. –Fique na minha frente. –Rony estava confuso, mas não questionou. Desde que voltara, ele descobrira que Harry às vezes falava de um jeito que não fazer o que ele estava dizendo de alguma forma violaria a sincronia do universo. Isso era novo, ele nunca falara assim antes. Deve ter sido algo que conquistou com a maturidade.

Rony parou na frente de Harry, um pouco para o lado. Harry esticou os braços e colocou as mãos nos ombros de Rony, apertando os dedos sobre eles com cuidado, deliberado. Ele sentiu Harry dar um passo, ficando logo atrás dele. –Agora – ele disse com a voz baixa. –Quero que olhe bem para casa. E pense em como ela era. Não tem que tentar lembrar de todos os detalhes. Só o que lhe vier a mente.

-Certo – Rony disse. Ele olhou para casa que já tinha começado a parecer um lar para ele. Apertava seu coração vê-la desse jeito. Não tinha idéia do que Harry estava planejando... algum tipo de catarse? Uma forma de todo mundo superar isso para que pudessem se mudar pra outro lugar? O que quer que fosse, ele fez o que foi pedido. Pensou na casa, que ele conheceu muito bem durante a execução de seu fatídico Plano.

Ele sentiu os dedos de Harry apertando seus ombros. Ele olhou em volta e viu que Harry não olhava para casa, mas para o chão.

Por algum tempo, nada aconteceu.

Rony ficou olhando a fachada destruída e ele ficou ciente que podia sentir uma sutil vibração nos dedos de Harry. E então a vibração não estava apenas em seus ombros... Podia sentir em seus pés.

A vibração virou um zumbido. Os outros se aproximavam deles com cuidado, sem ter certeza do que fazer ou dizer. Rony podia ver pela expressão deles que também sentiam a vibração.

Eles ficaram olhando pra casa, esperando que algo acontecesse, pois claramente algo ia acontecer. O aperto de Harry nos ombros de Rony se tornava doloroso, mas ele não se mexeu. Ele não ousou.

Mais tarde, ele seria duramente pressionado para contar o que acontecera ali na frente da casa. O tremor continuou e ficava cada vez mais intenso. E então... tudo aconteceu de repente.

A casa se reconstruiu.

Verdade, era tudo que ele conseguia dizer. Como acontecera, ele não conseguia descrever com palavras que fizessem justiça ao milagre que acabara de testemunhar. Ele ficou ali e observou; seu cérebro quase se negava a acreditar no que via. Ele viu a pedra e a madeira voando no ar. Ele viu as janelas derreterem e se reconstruírem. Ele viu os móveis danificados crescerem de novo e se recolocarem em seus lugares. Parecia que um feroz ciclone caíra sobre a casa, mas estava consertando e não destruindo.

As marcas de queimado ficaram menores até sumirem, a madeira queimada mudou por uma nova a partir do nada e estava inteira novamente. Com um toque musical, o domo do jardim de inverno inchou para cima e o sol brilhou sobre sua superfície inteira, curada.

E então acabou. Como se nada tivesse acontecido. A casa estava ali intocada e inteira. Rony virou e olhou para Harry, maravilhado. Harry largou seus ombros e levantou a cabeça, um suspiro lhe escapando dos lábios e um leve aperto em seu queixo eram os únicos sinais da grande quantidade de magia que ele conseguira.

-Uau – Justino disse e ninguém comentou o quanto isso era pouco pra expressar a sensação.

Rony esticou a mão e a colocou sobre o braço de Harry. –Você está bem?

Ele fez que sim. –Estou. Vamos dar uma olhada, certo?

Ele guiou o grupo até o foyer. Era exatamente o mesmo, das fotos na mesa do hall até o pôster em tamanho natural de Harry, Rony e Hermione que Laura colocara nas boas vindas de Rony. Eles ficaram ali olhando maravilhados a mansão curada.

-Harry, isso foi... não sei por onde começar – Rony falou.

Harry suspirou. –Não tinha certeza se eu ia conseguir. É muito grande.

-Nunca vi nada assim – Jorge disse e ele parecia chocado.

-Estive praticando – Harry disse, um pequeno sorriso aparecendo nos lábios. –Se não posso consertar Hermione, ao menos posso consertar a casa para que ela possa voltar.


Quando Harry e Rony voltaram ao hospital, Claire estava na sala de espera sozinha. Doug devia estar com Hermione lá dentro. Os olhos de Claire estavam vermelhos e ela segurava um lenço. Ela levantou quando entraram; a expressão em seu rosto não era nada reconfortante. Harry parou assim que entrou na sala.-Está tudo bem, Claire?

-Ah, sim – ela respondeu. –Por que não estaria? Minha filha está inconsciente numa cama de hospital depois de explodirem sua casa e uma barra gigante de metal atravessar seu corpo! – Harry abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. –Deus! – Claire gritou, apertando os punhos. –Por que, Harry? Por que tinha que ser você? Por que ela tinha que amar apenas você? Por que não podia ter encontrado um bruxo bom, normal, que ninguém odiasse, alguém seguro que nunca a magoaria, alguém sem inimigos pra explodir sua casa? – as palavras dela saiam cada vez mais rápidas e engasgadas com as lágrimas agora. Rony se perguntou quanto tempo ela manteve isso tudo preso na garganta. –Eu disse a mim mesma que ficaria tudo bem. Disse a mim mesma que nada aconteceria, mas vai acontecer, não é? E vai continuar acontecendo! Ela nunca estará a salvo, nunca vai ter uma vida normal! – Rony olhou a expressão de Harry. Ele olhava para sogra, o rosto vazio com o choque. Enquanto ela falava, Harry apertou o queixo e seus olhos lacrimejaram. –Pelo amor de Deus, Harry! – Claire gritou. A essa altura, todos na sala olhavam esse diálogo. –Como pode deixar isso acontecer? Você fica dizendo que a ama. Se a ama mesmo, por que deixou que isso acontecesse?

Harry balançou a cabeça. –Eu não podia... me pegou de surpresa...

-Não, não a explosão! Por que deixou que ela casasse com você? Por que deixou que ela ficasse perto de você? – Claire avançou até ele, apontando um dedo acusador, a mão tremendo e sua face toda se contorcendo. –Se realmente a amava devia ter ficado o mais longe possível dela. Devia ter deixando que encontrasse outra pessoa. Devia querer que ela tivesse uma vida normal, uma vida segura! – Rony se intrometeu e puxou Claire pra longe.

-Pare, Claire – ele disse. –Não acha que ele já não se sente mal o suficiente? Olha pra ele, isso o está matando!

-Está matando ele? – Claire disse. –Engraçado, ele parece bem saudável pra mim! Podemos falar sobre como isso o está matando quando ele estiver à beira da morte em um hospital! – ela chorou no ombro de Rony.

-Claire – Harry finalmente conseguiu dizer. –Você realmente me odeia? Sinceramente.

Ela respirou fundo, tremendo e o encarou. –Não – ela disse. –Mas odeio que esteja com ela. Devo parecer horrível pra você, mas... ela é minha garotinha. Só quero que ela esteja feliz e segura. Ela pode ser feliz com você, mas nunca estará segura. Como pode deixar que ela fique em perigo? Não se importa?

Rony viu raiva aparecer nos olhos de Harry pela primeira vez. Ele de um passo mais perto. –Claire, nunca sugira que não me importo com Hermione ou com o que acontece com ela. Isso é tudo com que me preocupo, entendeu? E se quer saber como deixei isso acontecer, eu te digo. Eu não queria que isso acontecesse. Eu tentei evitar. Tentei me afastar, pra que ela ficasse segura.

Claire olhou pra ele de queixo caído. –Por que não conseguiu? O que te impediu?

-Ela me impediu. Ela não deixou, simplesmente. E agora é tarde demais. Estamos presos um ao outro. E se acha que é fácil pra mim, olhar pra ela e saber que o que sou a coloca em perigo, você deve pensar que sou um canalha de coração frio.

Claire se encolheu. – Não acho.

-Ótimo. Olhe, entendo que seja difícil pra você aceitar isso, mas Hermione é uma adulta. Você e eu não somos os únicos a ver o perigo, ela também vê. Ela me escolheu assim mesmo. Eu não pude impedir. Nunca consegui fazer com que mudasse de idéia em nada, ela decidiu por si só. Ela pode ser tão teimosa.

-É, ela pode mesmo – Claire disse, um pequeno sorriso aparecendo em seus lábios.

Harry colocou uma mão sobre o ombro dela. –Você e eu somos mais parecidos do que somos diferentes, Claire. Nós dois a amamos e nós dois queremos que ela fique segura. Sei que se sente impotente, e às vezes eu também... mas não estou sem ação. Não sei se te faz se sentir melhor, mas luto todos os dias para derrotar as pessoas que podem nos machucar e ela também. Não estamos sentados de braços cruzados esperando até uma tragédia caia sobre nós, sabe.

Ela concordou. Era claro para Rony que ela queria muito achar que tudo ficaria bem. –Eu sei.

-E ela... – os lábios de Harry começaram a tremer um pouco. –Ela vai ficar bem.

-Por enquanto – Claire disse, encarando Harry.

-É só o que temos. É só o que todos nós temos.

Ela suspirou. –È só que é tão difícil.

-É, nem me fale.

Ela sorriu pra ele, um pouco vacilante. –Acho... talvez eu tenha um pouco de inveja de você, Harry. Ao menos você pode lutar. Pode ser ativo e fazer algo pra protegê-la. Tudo que posso fazer é sentar em casa e pular quando o telefone toca e ter pesadelos nos quais meu bebe morre e eu não fiz nada pra impedir – ela secou os olhos.

-Tem uma coisa que pode fazer por Hermione, Claire. Você pode apoiar as decisões que ela tomou para vida dela. Pode ficar feliz dela ter um lar e um ótimo trabalho e amigos que se importam com ela e um marido que ela ama e que faria qualquer coisa pra fazê-la feliz. Você pode deixar mais fácil pra ela fazer o que tem que fazer, sabendo que sua família a apóia, em qualquer circunstância.

O sorriso de Claire se alargou um pouco e ela balançou a cabeça que sim. –Posso fazer isso.

-Ótimo. – Harry abriu os braços. –Paz?

Ela hesitou e então o abraçou. –Paz – ela recuou. – Você sabe... não tem que me chamar de Claire, Harry.

-E como devo te chamar?

-Que tal "mãe"?

Harry pareceu tocado, mas em conflito. Rony sabia sem precisar de explicações que Harry podia se sentir um pouco desconfortável em chamar alguém por esse nome, mas ele apreciava o gesto. Ele concordou. –Acho que gostaria disso.


A primeira sensação que veio à mente de Hermione foi que ela estava com frio. Onde quer que ali fosse, estava frio. Seus braços estavam descobertos e havia um vento de algum lugar.

Seus olhos não queriam abrir. Onde estou? Ela se perguntou. Conseguiu dar um tipo de gemido e finalmente abriu suas pálpebras. –Harry? – ela se ouviu falar rouca.

Sua mãe estava inclinada sobre ela, os olhos brilhando. –Querida, é a mamãe! Ah, graças a Deus... pode me ver?

-Eu te vejo, mãe... Onde está Harry? – e com essas três palavras, o conhecimento do que acontecera a si voltou de vez para sua mente. A explosão, a dor, as chamas, a escuridão. Seus olhos se arregalaram um pouco. –Ele está machucado? Mãe, por favor me diga... ele está morto?

A mãe dela rapidamente balançou a cabeça que não, acariciando suas bochechas. –Ah, não, querida, ele não está machucado. Vou chamá-lo pra você. – ela olhou por cima do ombro e falou com alguém que Hermione não conseguia ver. –Vá buscar Harry, Hermione está chamando por ele – ela virou para Hermione. –Como se sente? Consegue se mexer?

Hermione não tinha certeza. Tentou fazer uma rápida checagem física. Claramente estava num quarto de hospital; podia ver os talismãs e poções pingando suspensos sobre sua cabeça. Ela deve ter se machucado, provavelmente com gravidade, dado o grau de ansiedade de sua mãe. Ela não sentia nenhuma dor, mas seu corpo parecia tenso e fraco, como se tivesse dormido profundamente e não tivesse se mexido e seus músculos esquecessem como se mexer. –Acho que estou bem – ela disse. –Quanto tempo fiquei aqui?

-Três dias – a mãe dela disse. –O acidente... foi na segunda de tarde. Já é noite de quinta. – ela sentou numa cadeira junto a cama. –Tenho certeza que Harry estará aqui logo, querida. Ele quase não saiu de seu lado, finalmente o convencemos a ir pra casa dormir um pouco.

-Mas ele não se machucou?

-Não. Só ficou doente de preocupação por você.

-E quanto a Rony e Laura?

-Laura não se machucou, mas Rony quebrou a coluna. Mas já o consertaram, novinho em folha.

Antes que Hermione pudesse responder a isso, Harry apareceu na porta de seu quarto. O coração dela pulou só de vê-lo, apesar dele parecer horrível. Tinha olheiras sob os olhos e estava pálido e abatido. Ele deu um largo sorriso ao vê-la acordada e se apressou até seu lado. A mãe dela recuou pra dar espaço a ele, e então saiu do quarto pra dar privacidade. –Hermione – ele murmurou, segurando a mão dela e se inclinando pra mais perto. Lágrimas apareceram nos olhos dela ao ver as emoções tão expostas dele.

-Hei – ela sussurrou, sorrindo. –Não te conheço de algum lugar?

Ele beijou a mão dele. –Talvez. Não nos vimos num baile uma vez?

-Tenho certeza. Uma garota nunca esquece esses olhos.

Ele manteve a mão dela contra seu peito, a outra mão acariciando a testa dela. –É bom ver seus olhos de novo. – ele olhou pra ela. –Está se sentindo bem?

-Não tenho certeza. O que aconteceu comigo?

Ele hesitou. –O quanto se lembra?

-Eu lembro... do globo de neve. Explodiu. Lembro de uma dor horrível e... acho que algo me acertou. Ouvi você me chamar, e então mais nada.

Ele segurou a mão dela entre as suas. –Uma parte do corrimão da varanda atravessou você. Bem aqui. – ele disse, tocando o estomago dela.

Ela estremeceu, uma lembrança daquele metal atravessando seu corpo passando por sua mente. –Ah.

-É – ele suspirou. –Sei que já passamos perto da morte antes, mas... você realmente quase morreu dessa vez. Sem exageros.

-Eu acredito – ela puxou a mão, sua fraqueza fazendo com a mão tremesse no ar, e então a colocou sobre a bochecha dele. –Você está bem?

-Estou agora. Não se preocupe comigo, ou com ninguém. Só relaxe e melhore. Vai estar cem por cento logo, logo.

Ela viu a própria mão sobre a bochecha dele. –Ah, não!

Ele franziu a testa. –que foi?

-Minha aliança... onde está minha aliança? – ela levantou a mão e a colocou na frente do próprio rosto. Seu dedo anelar estava vazio.

-Ah – Harry disse, relaxando. –Eles tiraram tudo antes de sua cirurgia – ele levantou a própria mão e ela viu a aliança no dedo mindinho dele. –Sukesh me entregou. Aqui, pode colocar de novo. – ele tirou a aliança e recolocou no dedo dela. –Pronto.

A idéia de estar deitada ali se recuperando sem sua aliança deixou Hermione ansiosa e um tanto supersticiosa de uma forma inquieta. –Ah, por que eles tiveram que tirar? – ela disse franzindo a testa. –É tão pequena, não pode ter atrapalhado.

Harry balançou a cabeça. –Não é importante.

-É importante sim! Prometi nunca tirar!

-Não, você prometeu estar comigo pra sempre, pro melhor e pro pior. Não quebrou essa promessa, não é mesmo? – ele disse, provocando.

-Bem, não...

-São apenas símbolos – ele disse, tocando a aliança dela e depois a dele. –O que é importante é o que eles representam.

Ela fez uma careta. –Acho que sim. Mesmo assim... ainda não gosto do fato de estar aqui por três dias sem usá-la. – ela suspirou. –Acho que estou sendo boba.

Harry deu um sorriso de partir o coração. –Obrigado.

Ela franziu a testa. –Pelo que?

-Por estar viva. Por ser você. Por ser minha.


Laura encontrou Rony no quarto dele, escrevendo em sua escrivaninha. Ele não levantou os olhos quando ela entrou; ela sabia pela postura inclinada dos ombros dele que estava concentrado no que quer que estivesse escrevendo. Ela parou atrás dele e colocou as mãos sobre seus ombros. Ele deu um pequeno pulo, mas então relaxou quando percebeu que era ela.

-Quando voltou pra casa? – ele perguntou.

-Mais ou menos uma hora. – Rony voltara mais cedo para casa, pra tirar um cochilo; ela foi até seu escritório pra tentar trabalhar um pouco. Só ver o tamanho da pilha de papéis sobre sua mesa quando chegou lá, quase foi suficiente para deixar tudo pra lá.

-Por que não veio me dar um oi?

-Tinha que cuidar de uma coisa importante – ela se inclinou sobre o ombro dele e largou uma carta selada sobre sua mesa.

Rony a pegou. Estava endereçada a Sorenson Carlisle. Ele virou o pescoço e olhou pra ela. –Isso é o que eu acho que é?

Laura suspirou. Ele achava que era uma carta para Sorry, pedindo que ele viesse falar com ela para que eles determinassem o que raios estava acontecendo no relacionamento deles? Se achava isso, então sim, era. Ele achava que era a série mais difícil de palavras que já saiu de sua pena, e que escrever isso custara uma quantidade de significante de lágrimas e agonia? Era isso também. –Escrevi pra ele – foi tudo que ela disse. Não precisava explicar para Rony todo subtexto emocional atrás dessas três palavras; ele já entendia.

Rony balançou a cabeça que sim e colocou a carta na mesa. –Fico feliz.

-Desculpe ter adiado por tanto tempo.

-Não é algo fácil de se fazer. Tinha que esperar seu tempo. Ter certeza que era certo. Deu a ele dez anos de sua vida. Não é muito pedir que passe um mês pensando no que quer fazer depois.

Laura colocou a mão sob o queixo dele e inclinou a cabeça dele para cima. –É muito a pedir pra você.

Ele sorriu. –Não se preocupe comigo.

-Sempre diz isso. Pra todo mundo. Rony, você merece que se preocupem com você, tanto quanto eu ou Harry ou Hermione ou Napoleon ou qualquer outro. Talvez você mereça ainda mais. Passou por muita coisa.

-Não, não passei. Não passei por nada, esse é o problema. Vivi doze anos sem passar por absolutamente nada, e tenho medo de não estar preparado pras coisas que as pessoas enfrentam todos os dias.

-Está se saindo bem até agora.

-Obrigado.

-Eu eu me preocupo com você sim. Não porque acho que você precisa ou porque acho que não pode cuidar das coisas, mas por que gosto. É isso que as pessoas fazem quando gostam... elas se preocupam. – ela deixou os braços caírem até os ombros dele e o abraçou, colocando a bochecha contra a dele.

-É isso que elas fazem?

Ela sorriu. –Bem, sim... E outras coisas também. – ela sentiu o sorriso que Rony deu como resposta ao ouvir essa resposta de duplo sentido e sentiu o peito dele balançar com os risos.

Imagino se devo beijá-lo. Ela pensou, mas antes que a conclusão desse pensamento chegasse a sua mente, eles já estavam se beijando. Ela não sabia quem virara a cabeça primeiro, mas de repente ela estava inclinada sobre ele, e a mão dele estava em sua nuca e os lábios dele estavam um pouco secos, mas nossa, ele estava cheiroso. Como lareiras ou o campo ou pinheiros ou a combinação de tudo isso.

Eles não se beijavam desde a noite de natal, quando as coisas começaram a ficar diferentes entre eles. Por um acordo mútuo, eles se abraçavam, faziam carinho um no outro, davam as mãos, já deitaram juntos na cama, mas foi aí que parou. Nenhum dos dois fez nenhuma tentativa até outras áreas mais sensíveis. Foi tudo muito... casto.

Isso não era tão casto. Mas era, no entanto, um ângulo estranho. Laura recuou e deu a volta na cadeira, mas quando ela fez isso, ele levantou e deu um passo para trás. –Não devemos - ele disse.

Laura queria protestar... de verdade, ela queria se jogar nele, mas não o fez. –Eu sei. Não vim aqui para isso. Não sei o que aconteceu.

-A gente se deixou levar um pouco – ele disse baixo.

-Certo – ela ficou ali olhando para o chão, os braços cruzados sobre o peito.

-Eu quero você – ela o ouviu sussurrar. Ela levantou os olhos, mas ele não olhava para ela. –Costumava ter vergonha do quanto eu te quero, mas não estou agora.

Laura suspirou. –Também te quero – agora ele olhou pra ela. –E não devíamos ter vergonha se sentimos isso. Devíamos sentir vergonha se fizéssemos alguma coisa enquanto eu não estou livre. Estava certo sobre isso. Eu só... faz muito tempo que não tenho ninguém com quem contar, alguém quem eu gostasse e quisesse ficar de uma forma intima.

Ele deu um sorriso sarcástico . –Já faz um tempo pra mim também.

Ela riu. –Claro que faz.

Ele pegou a carta. –Acho que tudo que nos resta a fazer é ver o quanto você está livre – ele a encarou. –Devo levar isso pra bandeja do correio coruja?

Ela foi até ele e pegou a carta. –Não, eu vou fazer isso – ela foi até a porta e então hesitou. –Sabe... não é só uma coisa física – ela olhou pra ele e se perguntou se realmente ia dizer a ele. Era cruel? Verdadeiro? –Acho... acho... acho...

Ele levantou a mão. –Não. Não diga isso, ainda não – ele deve ter visto a expressão dela porque se apressou em mudar a declaração. –Não que não fosse amar ouvir isso ou que não fosse dizer também. Mas é que... não é a hora. Mande essa carta. Ajeite as coisas. Não pode andar pra frente se ainda está olhando para trás.

Ela concordou, o coração ainda na boca, e saiu do quarto.


-Posso te perguntar uma coisa? – Sarah disse, colocando os cotovelos sobre a cama de Hermione.

-Claro – Hermione disse, folheando uma das revistas que Sarah trouxera pra ela.

Sarah se remexeu um pouco. –É pessoal.

Hermione revirou os olhos. –Você estava comigo quando menstruei pela primeira vez, Sarah. Não temos segredos.

-Bem... certo. – ela respirou fundo. –Como as pessoas mágicas lidam com controle de natalidade?

Hermione a encarou, uma sobrancelha levantada. –Tenho uma estranha sensação que essa pergunta tem algum significado pessoal.

-Claro que você sabe que... bem, Napoleon e eu estamos...

-Se encontrando?

-Não tenho certeza se é assim que chamaria.

-Hm... Transando um com o outro.

-Mais perto. Enfim, eu sempre o faço usar camisinha. Ele jura que não é necessário, mas sou uma garota segura. Então, qual é a verdade mesmo?

Hermione suspirou. –Bem, tem várias maneiras de lidar com isso. Depende de sua... acho que seu estado na vida. Há feitiços e encantamentos que pode usar a depender do caso. No momento, logo antes ou logo depois. Há varias escolhas. Jovens, as pessoas que estão solteiras, geralmente usam um desses.

-Claro.

-Mas quando fica mais velho, tem algumas poções que duram um mês ou mais que você pode tomar. Algumas delas te protegem de outras coisas além de gravidez. Agora, você é uma trouxa, mas tem várias coisas que Napoleon pode fazer pra te proteger. Ou você pode continuar a pedir que ele use camisinha. Tenho certeza que não o machuca.

-Posso... pedir que façam alguma coisa comigo? Me enfeitiçar, ou qualquer que seja o nome disso.

-Isso é ilegal. Quem quer que fizesse isso, poderia ir pra cadeia.

Sarah fez uma careta. –Acho que esta opção está descartada então – ela suspirou. –O que você usa?

Hermione sorriu. –É meio que... Bem, os bruxos têm uma tradição quanto a isso. É parte de seu relacionamento.

-Como assim?

-Quando você está em um relacionamento e não quer engravidar, vai a seu médico e pede que lhe enfeitice com um encanto contraceptivo permanente. Os dois fazem isso. Não são feitiços que você possa colocar em você mesmo, alguém treinado tem que fazê-lo. Depois de feitos, são para sempre.

-Pra sempre?

-Até que vocês decidam que estão prontos pra começar uma família.

-E então o que?

Hermione sorriu. –Bem, este é um momento muito significante para o casal. Virou uma ocasião especial para celebrar, como um aniversário de casamento ou até mesmo a renovação de votos. Entenda, os feitiços tem que ser feitos por profissionais, mas tirá-los não é tão difícil. Então quando um casal decide ter uma criança, tipicamente eles fazem uma viagem de fim de semana. Eles conversam, fazem jantares especiais, vão dançar ou o que quer que gostem de fazer juntos... e então quando estão prontos, vão para o quarto e acendem velas e fazem massagem um no outro ou algo assim e então eles tiram suas varinhas e cada um retira o feitiço contraceptivo do outro.

-E então eles fazem amor como doninhas loucas?

Hermione sorriu. –Sim, depois fazem amor como doninhas loucas.

Sarah sorria sonhadora. –Isso é tão romântico. É tão melhor do que como fazemos, o que se resume apenas a jogar a pílula fora e continuar a vida.

-A indústria hoteleira teve um pouco de influência nessa tradição. Há resorts e hotéis especializados em pacotes do "fim de semana do Feitiço" – é assim que chamamos – para casais que estão prontos a ter filhos. As pessoas várias vezes dão presentes de boa sorte antes do casal viajar; às vezes fazem festa antes de ir ou logo quando voltam. Tem muitas tradições diferentes a depender de sua cultura e de onde você cresceu.

-Acha que você e arry devem ir em um desses finais de semana logo?

Hermione riu. –Talvez um dia.

-Não por enquanto, hein?

-Não, ainda não. Não tenho certeza se quero ter filhos, nem ele. Ainda estamos nos acostumando a estarmos casados – ela colocou a revista de lado. –Mas prefiro ouvir mais de Napoleon. Há quanto tempo isso está acontecendo?

-Desde o casamento?

-E? Você gosta dele?

-Claro, eu gosto dele. Não desse jeito, necessariamente.

-Então vocês estão apenas... quais são os termos?

-Amigos com benefícios?

-É o suficiente.

-Isso aí então, somos amigos com benefícios.

Hermione suspirou. –Que pena. Fico esperando que ele ache alguém.

-Eu não contaria com isso. Você é difícil de substituir.

Hermione abanou a mão, dispersando a idéia. –Ele não gosta mais de mim.

-Isso é o que você pensa – Sarah levantou. –Bem, não quero tomar muito do seu tempo.

-Sim, como pode ver estou completamente ocupada.

-Quando vão deixar que vá pra casa?

-Não até segunda. Sinceramente, estou bem. Ainda estou muito fraca, mas... só queria estar em casa, em minha cama. – ela sorriu para Sarah. –Obrigada pela visita.

Sarah beijou a testa dela. –Sem problema. Te vejo amanhã.


Diz largou uma grossa pasta na mesa de Harry. –Bem, aqui está. Registro completo das mortes dos últimos doze anos.

Harry piscou. –Nossa.

-Eu cubro seu "nossa" e acrescento um "inferno maldito" – Napoleon resmungou. –O que vamos fazer com isso?

-Acho que posso usar pra compilar uma lista completa dos desaparecidos. O talismã do nome se auto-destrói quando o bruxo que representa morre. Se eu for até o Hall dos Nomes, devo conseguir cruzar as informações da lista com os talismãs ativos.

-Ah – Remo disse, finalmente compreendendo. –Então alguém cujo nome estiver neste registro de morte e ainda tiver talismã...

-Não está morto de verdade – Harry completou.

Napoleon estava franzindo a testa – Por que não teriam notado que as pessoas que supostamente estão mortas ainda têm o talismã?

-Você tem idéia de quantos talismãs existem e quanta atividade acontece com eles? Cruzar referencia entre registros de morte e o talismã não e algo que eles fazem nunca. Ninguém teve motivo para checar ate agora.

-Não vai conseguir fazer isso sem ser percebido – Remo falou.

-Eu sei – Harry suspirou. –Vou ter que colocar Sirius por dentro disso. Ele e o único que pode me dar acesso ao Hall dos Nomes. – ele sentou ali e olhou para pasta, mas não a abriu. Ele olhou para seu time base. –Vou colocar isso em votação, vamos lá?

-Você é o agente no comando aqui, Harry – Diz falou – Não precisa nossa permissão para conduzir essa investigação.

-Talvez, mas vocês três colocaram a vida em jogo por esse projeto e não vou tomar nenhuma decisão maior ou proceder sem ao menos ouvir a opinião de vocês. – ele suspirou. –Tem uma coisa que preciso para dirigir esse projeto efetivamente. Uma pessoa na verdade.

-Você quer dizer a Hermione – Napoleon falou.

Harry balançou a cabeça que não. –Quero contar a Rony.

Os outros três agentes se entreolharam. –Rony? Ele não é um agente.

-Não, não é.

- Por que ele?

-Porque ele pode nos ajudar. A lista de nomes... só vai ficar mais longa e mais complicada. Se não entendermos essas pessoas por completo, suas vidas e o que quer que seja que tenham em comum, então qualquer plano que criemos não será melhor que a força bruta... e se vamos confrontar Allegra e o Mestre, precisamos muito mais que força bruta. – Harry hesitou. –Sei que vocês três não tem a visão completa disso, mas creio que Rony é a pessoa que precisamos. Napoleon, Diz, vocês não o conheciam antes e Remo, você não o conhecia tão bem. O que quer que ele tenha passado, isso o mudou. Ele tem uma mente extraordinária para detalhes, e tem a paciência e profundidade de pegar nossa lista de nomes e encontrar o que precisamos pra ir adiante – Harry sorriu pra si mesmo. –Às vezes fico zonzo ao pensar que cheguei a um lugar no universo onde Hermione é minha parceira no combate mão a mão e Rony está na biblioteca.

-Não quer contar a Hermione, então?

Harry ficou em silêncio por um momento. –Não quero que ela trabalhe nisso. Ela tem várias semanas de recuperação pela frente, e me aconselharam que ela não seja recolocada em atividade até que esse período esteja completo – ele levantou os olhos para os outros. –Vou contar a ela porque ela precisa saber, e a quero no nosso time... Mas não até que tenha se recuperado.

-Ela não vai conseguir ficar afastada assim que souber, Harry. Sabe disso.

Ele sorriu. –Sim, claro que sei. Mas isso é assunto meu.

Napoleon estava andando de um lado para o outro no canto da sala. –Não gosto disso. Sinto que estamos perdendo tempo valioso. A cada minuto que atrasamos é outro minuto que a vida deles está cativa. Ele pode estar planejando levar mais alguém. Ele já pode ter feito isso!

-O que quer que faça? – Harry disse. –Marchar com as varinhas a postos, e exigir que sejam soltos? – Napoleon não disse nada. –Não, acho que não. Cada minuto que passamos na preparação aumenta nossa chance de uma ofensiva bem-sucedida.

-Ele sabe que estamos de olho nele. Ele pode estar matando gente agora. Ele pode estar abortando o plano todo, qualquer que seja.

-Duvido disso. Se ele passou doze ou mais anos arrumando isso, não vai abandonar tão rápido. É mais provável que ele venha até nós. – Harry abaixou os olhos para mesa. –Ele já fez isso – ele disse baixo – E eu não vou esquecer.


Harry fechou a porta do quarto de Hermione no hospital atrás de si. Ela estava sentada na cama, seus cabelos cacheados sobre o ombro e Harry achou que ela era a coisa mais linda que ele já vira. Rony estava sentado do outro lado da cama, olhando a expressão de Harry.

Harry ficou sentado ao lado da cama dela e tomou sua mão. –Desculpe por todo esse mistério – ele disse.

-Tem algo a nos dizer? – Hermione perguntou.

-Sim, tenho. Não tem uma forma melhor de falar isso, então vou ser o mais breve possível. – ele respirou fundo. O nível de segredo em volta desse projeto é muito alto e é vital que vocês dois entendam isso.

-Tem certeza que eu posso ouvir isso? – Rony perguntou, franzindo a testa.

-Você pode sim. E preciso que ouça isso.

-Certo então.

-Entendemos sua preocupação com segurança – Hermione falou. –Continue.

Harry concordou. –Certo. Última chance de pular fora. – nenhum dos dois falou, apenas ficaram olhando pra ele, com expressões ansiosas. – Certo.

Ele levantou e foi até a janela. –A forma e as circunstâncias do aprisionamento de Rony nos levou a formular algumas teorias que decidimos testar. Enquanto estávamos viajando, Napoleon conduziu uma longa série de testes instruídos por mim. – ele virou e os encarou. –Descobrimos que você não foi a única pessoa que o Mestre raptou, Rony. Outras mortes foram falsificadas, pessoas cujos túmulos contêm corpos falsos como o seu.

Hermione e Rony se entreolharam, o alarme aparecendo em suas expressões. –Quantos? – Rony perguntou.

-Até agora, descobrimos mais de duzentos.

Hermione respirou chocada. Rony apenas olhou para o chão, os olhos arregalados. –Ah, meu Deus – ela disse. – Duzentas?

-No mínimo. Ainda estamos trabalhando para ter a lista completa.

-Por que? Porque levou tantos?

-Meu amor, essa é a pergunta de cinqüenta mil galeões.

-E onde ele os mantem? Há quanto tempo?

-Parece que Rony foi o primeiro, o mais recente que encontramos foi há alguns meses. – ele respondia a resposta de Hermione, mas seus olhos estavam concentrados na nuca de Rony. Ele ainda estava com a cabeça inclinada. Harry achava que se parasse para escutar, ouviria as engrenagens do cérebro de Rony trabalhando. –Rony – ele disse.

Rony levantou os olhos pra ele. –Sim?

-Quanto disso você já tinha suposto?

-O que te faz pensar que supus alguma coisa?

-Não disse nenhuma palavra. Sabia tudo o que eu já sabia, e sei como sua mente funciona.

Rony levantou e deu alguns passos sem rumo. –Tenho minhas suspeitas. Sempre pensei em como foi fácil pra eles me pegarem e me manter preso e como deve ter sido tentador fazer isso com alguma outra pessoa, talvez alguém mais significante. Se conseguiram me levar, por que não Dumbledore? O Ministro da Magia? Por que não você, Harry?

-Parece que não tentaram nenhum nome grande. Não reconheço ninguém na lista.

-Não importa quem sabia o que e quando. – Hermione falou. –O que interessa é o que vamos fazer sobre isso.

Ele sentou na beira da cama. –Você não vai fazer nada sobre isso. Não está em atividade por pelo menos algumas semanas.

Ela o encarou. –Harry, não posso ficar aqui sentada sem fazer nada!

-Você pode se curar e se cuidar.

A face dela ganhou um ar de reprodução. –Por que me contou se não quer que eu ajude?

-Te contei porque preciso que saiba. Por mim. – ele balançou a cabeça. –Hermione, isso é... é quase alem de mim. Pela primeira vez em minha carreira sinto como se algo fosse demais pra mim. Esse plano está acontecendo há mais tempo do que meu tempo como agente, por mais tempo do que sou um bruxo maior de idade. Meu adversário é alguém sobre quem sei muito pouco além do fato dele parecer conseguir controlar Allegra e não posso imaginar ninguém capaz disso. Ela tem medo dele e isso me faz ter o dobro de cuidado. – ele segurou a mão dela entre as suas. –Ele já nos atacou. Ele quase tirou você de mim, e isso me aterroriza. Não sei como vou derrotá-lo e se tenho alguma chance, então... preciso de seu apoio e cooperação. – ele olhou para Rony, que estava de pé ao lado de seu ombro. –Preciso de vocês dois. Preciso de meus melhores amigos.

-Estamos aqui com você. – Rony disse. –Nunca duvide disso.

Harry concentrou o olhar no rosto de Hermione. –Vou precisar de sua ajuda nesse projeto, não tenha duvidas... mas não é agora. Por favor, Hermione. Até que esteja liberada para suas atividades, quero que fique longe de qualquer envolvimento. Se te pedir pra fazer isso, como um favor pessoal, você vai fazer?

Ela suspirou, considerando, e então levantou a mão e acariciou sua bochecha. –Sim, vou fazer. Vou ficar longe. Mas tenho medo por você, Harry. Eu não era o alvo desse ataque, era você. Você acha que o mestre vai dizer "droga, não deu certo de novo" e continuar a vida?

-Sim, acho que talvez faça isso. Não acho que eu seja tão importante pra ele, na verdade.

Ela franziu a testa. –Como pode dizer isso? Você é... bem, você é seu arqui-inimigo, não é?

-Não tenho tanta certeza. Sim, ele tentou me matar. E como? Ele me mandou uma carta-bomba. É assim que se livra de um incomodo, não de seu arqui-rival. Se ele estivesse realmente preocupado com meu envolvimento, se seu plano tem algo comigo... bem, ele teria tentado me capturar pra que pudesse me interrogar ou torturar ou Merlin sabe o que mais. Tenho certeza que ele está preocupado com o que posso fazer para interrompê-lo, mas claramente ele não me considera uma ameaça maior. Ele não está se concentrando em mim. É alguma outra coisas... nós só não sabemos o que.

Hermione balançou a cabeça. –Estou tão confusa.

-Bem, não está sozinha.

-Quando podemos completar a lista? – Rony perguntou. –Estou ansioso para trabalhar nisso.

-Se você puder ir comigo, podemos ir falar com Sirius.

-Estou pronto! Vamos lá!

Harry aquiesceu. –Pode... me dar um minuto primeiro?

Rony sorriu, olhando de um para o outro. –Só vou pegar minha capa e dizer a Laura o que está acontecendo... em termos muito vagos, claro.

Depois que ele saiu, Harry se encontrou perdido. Ele pediu um tempo a sós para que pudesse falar com Hermione em particular, mas agora ele não sabia o que queria dizer. Talvez fosse porque tinha muito o que dizer e não sabia como começar.

Então ele ficou sentado na beira da cama dela, olhando pra ela. Ela não falou nada também, mas diferente dele, parecia que simplesmente ficar ali sentada em silêncio era o que ela queria mais fazer. Ela esticou a mão e o tocou de novo, seus dedos se movendo sobre suas sobrancelhas, suas bochechas, seu queixo. Harry fez o mesmo, a rispidez masculina das mãos dele parecendo um insulto no rosto dela. A maciez da pele dela nunca falhava em surpreendê-lo, não importava quantas vezes ele a tocasse. Ela ainda estava pálida e tinha perdido alguns quilos, mas os olhos dela estavam brilhantes e ela sorria. Como ela pode sorrir? Não está com medo? Como ela pode ser tão forte quando eu sou tão frágil?

Harry desviou os olhos antes que ela pudesse ver as lágrimas neles. Ele levantou as pernas e se esticou ao lado dela na cama do hospital; ela o puxou contra seus braços e puxou a cabeça dela contra seu ombro. –Estou bem – ela disse devagar, deliberadamente. –E eles não podem me levar porque não vou te deixar.

Ele então conseguiu responder sua própria pergunta. Nesse momento, ela é mais forte porque eu estou mais frágil.

Ela não disse nada enquanto ele soluçava contra o peito dela, grandes ondas de choro descontrolado que ele não tinha que censurar, não na frente dela. Ela não ofereceu nenhuma palavra de conforto, nenhuma declaração banal de paz eterna e que tudo estava certo; tudo o que ofereceu foi seu próprio amor, implícito e entendido. Ela o abraçou e acariciou seu cabelo e Harry podia ter incertezas, ele podia ser fraco, ele podia se sentir pequeno. Ele podia deixar O Garoto que Sobreviveu na porta, porque ela estava ali, ele podia ficar com medo e confuso. Ele podia ser apenas Harry, aqui nesse lugar de segurança, aqui nos braços de sua esposa.


Rony estava tão ocupado olhando à sua volta que ele já se esbarrara em três pessoas e duas paredes. –Olhe por onde anda, parceiro – Harry disse, sorrindo.

-Eu só... Isso não é o que eu esperava – ele disse.

-E o que raios você esperava?

-Não sei! Mármore preto brilhante, talvez... pessoas de capaz preto se esgueirando pelas sombras.

-Sinistro.

-Então... Todo mundo trabalha aqui?

-Não, só as pessoas que são agentes da DI trabalham aqui – Harry disse com um sorriso sarcástico.

-E em que ponto você se tornou um engraçadinho insuportável?

-Alguém tinha que tomar seu lugar, não é mesmo?

-O que eu quis perguntar era se tinha algum outro prédio ou coisa assim.

-Acho que todos que você conhece trabalham nesse prédio.

-Onde é a sala de Hermione.

-Não tenho certeza.

Rony franziu a testa. –Por que não?

-Bem, dentro dos prédios, as portas mudam de posição. As salas trocam de lugar por questão de segurança. Por isso que temos essas coisas. – Harry disse, indicando sua Bolha. –Eles sabem o caminho e nos guiam por onde vamos. Nem posso te dizer onde é meu próprio escritório no momento. A única coisa que permanece igual é que a sala de Napoleon é sempre do lado da minha. É o que acontece com todos chefes de departamento e seus vices. Então quando preciso culpar alguém, ele é muito útil.

-Culpar alguém? Deve estar falando de mim. – Napoleon falou, aparecendo atrás deles.

-Por estranho que seja, estávamos.

-Bem-vindo à Grande Misteriosa Divisão de Inteligência, amigo – ele disse, dando um tapinha nas costas de Rony. –Como está Hermione? – ele perguntou a Harry.

- Ela está bem. Vai poder voltar pra casa amanhã. Mas vai precisar de ajuda, não pode andar sozinha por mais uma semana.

-E quando ela vai poder voltar ao trabalho? Esse lugar está caindo aos pedaços sem ela.

-Duas semanas, segundo Sukesh, dependendo de como o sistema nervoso dela se recupere.

-Vamos nos reunir em sua sala?

-E aqui estamos – Harry disse enquanto sua Bolha dava a volta numa esquina. Remo e Diz esperavam do lado de fora. Harry olhou rapidamente em volta e abriu a porta. Ele começava a ficar consciente que as pessoas se perguntariam por que os quatro ficavam sempre se reunindo o tempo todo, então se ninguém os visse entrando na sala dele, melhor.

-Quais são as novas do Hall de Nomes? – Rony perguntou assim que a porta se fechou atrás deles. –Quando podemos ir? – ele estava impaciente para começar sua tarefa. No dia anterior, quando ele e Harry foram procurar Sirius sobre o acesso, ele não sabia ao certo qual seria o protocolo para permitir pessoal não autorizado no Hall.

-Bem, acabei de falar com Sirius e infelizmente eu e você não temos permissão pra entrar no Hall. Entretanto, ele pode cruzar as referencias pra nós, na verdade, ele provavelmente está fazendo isso agora. Prometeu me dar uma lista completa perto do fim do dia.

-Ótimo – Rony disse, olhando para os outro em sua volta. –Se eu vou entrar a fundo nessa lista e encontrar um padrão, vou precisar de algumas coisas.

- É só dizer o que.

-Preciso de dados biográficos completos de todos desaparecidos, o quanto puder. Nada pode ser considerado insignificante... se o padrão fosse óbvio, já teria sido encontrado, o menor dos detalhes pode fazer a diferença.

-E se não houver padrão?

-Ah, existe um. Mesmo a seleção aleatória pode ser um padrão em si, mas é muito improvável que essas vitimas sejam selecionadas ao acaso. A duração e complexidade desse plano, qualquer que seja, indica que o Mestre é muito organizado e muito paciente. Se ele quisesse fazer uma seleção aleatória de 200 pessoas não teria levado doze anos para escolhê-las. Não, existe um padrão, é só uma questão de ser um que a gente possa discernir. Se aceitarmos que essas pessoas não foram selecionadas ao acaso, então foram escolhidas porque tinham uma utilidade especifica pra ele. A questão então se torna, qual é essa utilidade? O quê nessas pessoas as fez útil para o Mestre? O que elas têm que ele precisa? – ele passou a mão pelos cabelos. –Também temos que considerar que ele deixou pelo menos um prisioneiro escapar.

-Ele não deixou você escapar, amigo. A gente foi lá e pegou você – Napoleon falou.

-Se ele realmente quisesse me manter, teria me mantido. Ele não fez nenhum esforço real pra me pegar de volta.

-A gente imaginou se você seria um protótipo. Com certeza sua morte foi uma das mais difíceis de armar. Você estava numa área de alta segurança, era jovem e saudável, e era uma vitima bem guardada.

-Já imaginei o mesmo – ele olhou para Harry. –Já falou com Bob sobre isso?

-Eu ainda não, mas eles já.

-Nós o interrogamos assim que descobrimos da existência de outras vitimas – Remo disse. –Ele insistiu que não tinha idéia que havia outros prisioneiros e eu acredito nele.

-É improvável que ele tenha algum acesso a informações de segurança, considerando que foi designado como meu carcereiro num tipo de exílio. – Rony falou.

A conversa foi interrompida por uma Bolha aparecendo ao lado da cabeça de Harry, -Chefe Potter? Tem uma coruja da Chancelaria.

-Deve ser a lista – Harry falou. –Mande pra cá – ele disse para Bolha.

Depois de um momento, um pergaminho enrolado pareceu na bandeja na mesa de Harry. Ele pegou, respirou fundo e desenrolou. Uma pequena nota de Sirius voou e Harry a olhou rápido, balançando a cabeça que sim. –Sirius disse que encontrou mais de vinte prisioneiros a mais, mas também retirou oito nomes de nossa lista original.

Remo suspirou. Rony olhou em volta, confuso. –O que isso sig... – ele parou ao perceber as implicações. –Ah. Oito morreram no cativeiro.

-Isso nos dá um total de 235 – o silencio se abateu enquanto consideravam esse número.

Remo levantou e pegou a lista nova. –Vamos fazer uma cópia da lista e começar. Temos que conseguir informações da vida completas até amanhã a noite, Rony. Pra onde devemos mandar?

Harry e Rony trocaram um olhar. –Mande pra casa – Harry disse. –É segura. – ele olhou pra Napoleon. –Você instalou novos talismãs de segurança, não foi?

-Com certeza, patrão.

-E quanto aos outros da casa? – Remo disse. –Não vão suspeitar?

-Podemos dizer que Rony está trabalhando em algo sensível. Eles não vão bisbilhotar.

Rony suspirou. –E o que todos vocês vão fazer enquanto estarei enterrados sob pilhas de papel?

Diz levantou e parou ao lado de Remo na porta. –Não podemos esperar que encontrem o padrão. Mesmo se existir algum, não há garantias que vai nos ajudar a encontrar ou que nos dará alguma informação útil. Temos que continuar a tentar encontrar uma forma de saber onde estão os prisioneiros e libertá-los.

-Acho que o mestre sabe que estamos atrás dele? – Rony perguntou.

-Sem dúvida – Harry falou. –A grande pergunta é o quanto ele acha que somos uma ameaça.


Harry parou no longo caminho que levava até a casa, esperando a reaçãdo a reaççairalongo caminho que levava at de saber onde estao em beça de Harry, -Chefe Potter? o dela.

Hermione, sentada no lugar do passageiro, respirou findo e esticou as mãos. –Ah, meu Deus! A casa! Está boa como nova!

-Eu te disse – ele falou, sorrindo.

-Uau! Eu não acredito! Estava... Ficou totalmente destruída!

-Ficou mesmo – ele parou perto da porta da frente. Hermione ainda estava de queixo caído, olhando pelo pára-brisa a fachada recuperada da casa. Harry saiu e foi para o lado dela. Ela estava com a porta aberta e os braços esticados na direção dele, mas seus olhos ainda estavam nac asa.

-Não dá nem pra dizer aconteceu alguma coisa!

Harry colocou um braço em volta da cintura dela e a ajudou a sair do carro. Ela alegremente deixou o pé descer até chão, segurando a outra mão dele com força. Eles avançaram devagar. A expressão de Hermione era de extrema concentração. –Você está bem? – ele murmurou.

-Aham – ela disse, pressionando os lábios com força. –Estou tentando fazer minhas pernas se mexerem melhor com minha pura força de vontade. Não tenho certeza se minha pura força de vontade é suficiente.

-Sukesh disse que leva tempo.

-Odeio me sentir como uma inválida.

-Não se subestime. Hermione olhou em volta novamente, balançando a cabeça. –Não acredito que fez isso – ela olhou para ele. –Você vem praticando mais do que me conta.

-Bem, todas sessões pra praticar são muito parecidas. Não tem muito o que contar.

-Com quem você pratica? Quer dizer, não existem outros Mages. Quem é qualificado pra te ensinar?

Geralmente pratico com Lefty. Ele não é Mage, mas sabe muito sobre eles. Mas você está certa, ninguém pode me ensinar como ser um. Na maior parte do tempo, eu apenas faço experimentos e pratico fazendo coisas – eles estavam caminhando até as escadas.

-Onde estão todos? – Hermione perguntou, olhando em volta.

-Pedi que todos dessem um tempo até hoje a noite. Não tinha certeza de como você ia se sentir, não queria que você fosse sufocada por um monte de gente. Rony está aqui. Ele está trancado na biblioteca. Remo e Diz trouxeram pra ele a primeira remessa de arquivos biográficos sobre os prisioneiros hoje de manhã.

-Ele está fazendo algum progresso?

-Não perguntei. Na verdade, nem o vi desde hoje de manhã. Ele veio me pediu pra arrumar um computador. – ele olhou pra ela. –Quer ir vê-lo?

Ela balançou a cabeça que não e Harry podia ver o quanto ela estava exausta e não queria dizer. –Não quero perturbá-lo.

-Venha aqui então, vamos te colocar na cama.

Hermione parou na base da escada e olhou para cima, uma expressão de dúvida no rosto. –Harry... acho que não agüento subir as escadas.

Harry sorriu e esticou os braços. Hermione colocou um braço em volta do ombro dele; ele se curvou e a levantou. –Sem problemas – ele disse, começando a subir.

Hermione colocou uma mão no ombro dele. –È tão bom ter um marido tão grande e forte.

-Nem tão forte. Estou usando magia pra te deixar mais leve – ele andou pelo hall do segundo andar.

-Não suporto estar assim tão fraca. Por que é só minha perna? Meus braços estão bem.

-Sukesh disse que o ferro acertou sua medula espinhal na região lombar. Os nervos que controlam suas pernas foram danificados. Eles consertaram, mas ele disse que levaria tempo até que curassem totalmente.

-Ele disse que eu não ficaria com nenhuma seqüela permanente, mas é difícil acreditar no momento. Minhas pernas parecem borracha.

-Elas vão ficar melhor – Harry chegara a porta do Cloister. Ele beijou a testa de Hermione. –Bem vinda ao lar, querida.

-Ah, é tão bom estar de volta. Estou morrendo de vontade de comer a comida de Jorge.

Ele a colocou e arrumou na cama, esperando que ela notasse o que ele fizera. Quando se aproximaram, ele sentiu a confusão dela.

-Harry, o que é isso tudo? – ela perguntou, apontado as caixas ao lado da cama.

-Pra você, é claro. Você não vai poder ficar se movimento na próxima semana e eu não queria que ficasse entediada, então peguei algumas coisas pra ajudar a passar o tempo. Aqui, comprei essa mesinha para que possa escrever ou ler na cama ou em sua cadeira favorita – ele disse, apontando para a pequena mesinha de madeira. –Achei alguns dos livros que você ainda não leu e os trouxe e comprei uma tonelada de lã para seu casaco. Claro, se ainda quiser alguma coisa, só precisa pedir.

Hermione sorriu. –Olha só pra você, tão orgulhoso de si mesmo – ela o abraçou. –Obrigada, querido. Isso é maravilhoso. Não vou me sentir como uma dama vitoriana.

Ele o abraçou em resposta. –Pensei em redecorar o quarto inteiro, como tínhamos conversado, mas vários homens casados me certificaram que fazer qualquer redecoração sem consultar a esposa é um testamento de sabotagem ao casamento.

Hermione riu. –Não posso falar pelas outras esposas, mas acho que ficaria feliz em ter tudo pronto sem ter que organizar ou acabar com tinta no cabelo.

-Não se preocupe. Quando a gente redecorar, só vai levar meia hora. Benefício de ter um marido Mage.

-Um de muitos benefícios. –Hermione disse, seu sorrindo diminuindo um pouco.

-Vamos lá, deve deitar – Harry disse. Era um afirmação do cansaço dela, o fato dela não protestar. Ela sentou e Harry levantou as pernas para o colchão. –Você está sentindo dor?

Ela esfregou a barriga. –Meu estômago dói um pouco. Às vezes sinto dor em volta da área do ferimento.

Harry se ajoelhou ao lado dela e levantou seu suéter um pouco. Ele se inclinou e pressionou os lábios contra o abdome sem marcas. –Aqui – ele disse, virando a cabeça para que sua bochecha repousasse sobre a sua pele quente. Ela estava sorrindo um pouco para ele, passando os dedos nos cabelos dele. –Melhor?

Ela fez que sim. –Muito melhor.


Hermione parou de pé diante da casa. Ela a encobria, muito mais alta do que ela lembrava. Os andares superiores estavam pegando fogo, a fumaça negra escurecendo o céu e virando o dia em noite.

Ela viu Harry no foyer. A porta da frente estava escancarada e ela podia ver a fumaça passando por ele, mas ele simplesmente continuava parado. –Harry! – ela gritou. –Venha cá, a casa está pegando fogo!

-Atravessou você - ele disse. Estava sussurrando, mas ela o entendia perfeitamente.

A água passava pelos pés de Hermione. Cobria seus tornozelos e depois sua canela e então já passava de sua cintura. Começou a correr com fitas de sangue, brilhantes e vivas, revirando dentro da corrente que empurrava suas roupas e ameaçava derrubá-la.

Ela abriu a boca, mas no lugar de sua voz, uma flecha afiada saiu de sua boca. Ela olhou pra si e viu que seu corpo fora atingido em vários lugares. –Me atravessou – ela disse em volta da flecha que ainda estava em seu pescoço. –Me atravessou...

Hermione acordou de repente, molhada de suor, o fim de seu grito ainda permanecendo no ar. Ela sentiu Harry sentar a seu lado. –Me atravessou! – ela disse, quase sem saber o que estava falando. –Me atravessou! – ela disse, apertando a barriga com os dois braços.

Harry a sentou e abraçou. –Shh... você está bem. Foi só um pesadelo.

Ela o apertou, tremendo e muito assustada. –Me atravessou, - ela soluçou. Sabia o que estava falando agora, mas parecia incapaz de falar qualquer outra coisa.

-Eu sei – Harry murmurou no ouvido dela –Mas acabou agora. Você está bem.

Hermione queria poder dizer algo engraçado ou auto-depreciante para apagar a força de sua reação a este pesadelo, mas sua mente estava branca a não ser pelo puro terror que ainda pairava. Tudo o que podia fazer era se agarrar a Harry como se sua vida dependesse disso, o que neste momento era o que parecia. Os braços dele eram fortes ao redor dela, seu calor se espalhava por ela e espantava o frio do medo que envolvia seu coração. A memória visceral da barra de ferro atravessando sua carne macia era muito forte, logo abaixo do nível consciente de sua mente e seu pesadelo a lembrou abruptamente disso em sua mente consciente. A sensação era tão potente que ela tinha que se assegurar toda hora que não havia um pedaço de metal afiado penetrando seu corpo. –Harry... eu, eu... lamento tanto – ela começou.

-Shush – ele disse, beijando a bochecha dela e vagarosamente acariciando suas costas. –Não se desculpe. Passou por algo terrível. Está a salvo agora – ele disse, Hermione começou a relaxar. –Nunca vou deixar nada de mal te acontecer, prometo.

Ela sabia que essa promessa era absurda. Ele não um deus, não era possível prometer que nada aconteceria a ela... Ainda assim ela acreditava completamente nele, porque sabia que se algo ruim acontecesse a ela, seria apesar de tudo que ele faria pra impedir. Ele nunca simplesmente deixaria que algo ruim acontecesse.

-Foi tão horrível – ela respirou contra o ombro dele.

-Sei que deve ter sido – ela recuou um pouco, ainda ficando envolvida nos braços dele. Ela balançou a cabeça que sim, secando os olhos. –Foi bem horrível pra mim, também, e pra todos que te ama. E isso é muita gente.

Ela deu um pequeno sorriso. –Estou feliz de ter ficado em casa. Graças a deus que você pode consertar tudo. Não tenho certeza se suportaria ficar em um lugar estranho depois disso tudo.

-Ótimo, foi por isso mesmo que consertei. Queria que seu lugar seguro estivesse aqui pra você.

Ela olhou pra ele. –esse é meu lugar seguro – ela disse, acariciando os braços dele.

Ele se inclinou e a beijou, devagar, sem pressa. Ele recuou e suspirou, olhando em seus olhos com tamanha intensidade que ela não poderia desviar o olhar nem se quisesse. –Eu te amo tanto, Hermione – ele disse baixo. –Não me canso de dizer, nunca consigo pensar numa forma de dizer que seja suficiente.

-Você está dizendo perfeitamente. – ela falou.

Ele esfregou os braços dela onde os arrepios começavam a sumir. –Está melhor? Pesadelo esquecido?

Ela fez que sim. –Com sono agora – Harry deitou novamente, mantendo um braço em volta dos ombros dela, de forma que ela pudesse apoiar a cabeça em seu peito.

-Volte a dormir – ele sussurrou. –E tenha sonhos felizes.

Ela suspirou. –Talvez eu sonhe com o peitoral de Napoleon.

Harry riu. –Bruxa má.

-Hei, você casou comigo.


Harry não foi para o trabalho no dia seguinte. Ele sabia que devia ter ido, mas não conseguiu se forçar a deixar Hermione. As pernas dela estavam doloridas e ela se sentia fraca e febril na maior parte do tempo. Ele passou a maior parte do dia levando chá para ela e enchendo o saco de Sukesh com corujas perguntando como ele poderia deixá-la mais confortável.

Ela tirou um cochilo durante a tarde, para seu alivio. As olheiras sob os olhos dela eram uma lembrança alarmante de sua fadiga, e sua cura não era ajudada pelo fato dela ficar insistindo em ir além do que Sukesh recomendava. Mais cedo, ele entrara no quarto e a viu andando sobre as pernas cambaleantes, voltando do banheiro. –Era pra me chamar quando precisasse ir a algum lugar! – ele bronqueou, se apressando pro lado dela, ajudando a voltar até a cama.

-Não preciso de ajuda pra fazer xixi! – ela falou irritada.

-Precisa sim! Você sofreu um trauma terrível, não pode aceitar isso?

-Você não é minha babá, sou uma adulta!

-Então aja como uma adulta e reconheça que precisa de ajuda. Por isso que estou aqui, sabe.

Ela suspirou enquanto voltava para cama. –Eu sei. Eu lamento, só está tentando me ajudar. Mas odeio precisar disso. – ela fez becinho e cruzou os braços.

Ele sorriu para ela. –Hei, você passou a vida inteira sendo a supermulher. Tira uma folga.

Ela tirou e logo depois caiu no sono. Harry saiu até a varanda do conservatório pra tomar um ar fresco. Estava um calor fora de estação para janeiro, mas ainda frio o suficiente pra dar energias.

Enquanto estava ali sentado, pensando se entrava pra pegar um casaco, ouviu o barulho distinto das asas de uma coruja, um som que conhecia em qualquer lugar... só que não havia nenhum coruja. Ele levantou os braços e sentiu as garras de uma coruja invisível. –Reversio – murmurou e a coruja apareceu no ar. Ele pegou a carta de suas pernas. –Profundus – e a coruja desapareceu novamente. Ele sentiu as garras apertar de novo e então soltar quando a coruja bateu as asas e então nada.

Ele olhou para carta. A letra de Argo. Ele queria mesmo marcar uma reunião com ela para que pudesse discutir o progresso tanto no projeto quanto na identificação do traidor; talvez ela tenha sido mais rápida.

24 de janeiro de 2009,

Harry,

Lamento por mandar uma coruja de segurança, mas você conhece os motivos. Estamos no meio da noite e ainda estou pensando sobre nosso projeto. Sei que tem as coisas sob controle, mas gostaria de receber uma atualização, se não for comprometer sua segurança. Se precisar, podemos nos reunir em segredo, mas gostaria de não me esgueirar mais que o necessário. Se tiver mais informações sobre o Mestre, por favor, se prepare para me passá-las. Se tiver qualquer novidade sobre o outro projeto, também gostaria de saber.

Se ainda não disse, lamento muito por Hermione, e estou tranqüila e mais do que aliviada e que ela vai ficar muito bem. Queria poder dar algum tempo livre para você, mas eu tenho certeza que sabe que é impossível no momento.

Ansiosamente esperando para ouvir seu relatório completo, como geralmente é.

Atenciosamente,

Argo

P.S.: por favor, queime esta carta depois de ler.

Harry balançou a cabeça que sim. Ele falaria com Argo no dia seguinte no escritório e marcaria uma hora para conversarem. Ele franziu a testa. Por que ela queria que queimasse a carta? Era um tanto melodramático. Ah, bem. Não vai machucar. Ele levantou uma mão. –Incendio. – ele falou. Uma chama apareceu em seu indicador e passou para o papel.

Só que ela não queimou.

Harry olhava sem acreditar enquanto as chamas rapidamente envolviam o pergaminho, dando a volta por ele numa camada de fogo azul e dourado. O fogo sumiu, deixando a nota sem nenhum estrago.

Harry deu um pulo e olhou para a escrita de Argo, confuso. Deve ter sido enfeitiçada... mas por que?

A resposta apareceu pra ele praticamente junto com a pergunta. O fogo fizera alguma coisa ao pergaminho, mas não foi o que ele esperava.

As palavras ainda estavam ali, mas agora algumas letras brilhavam laranja. Ele segurou a carta mais perto dos olhos e olhou as linhas com cuidado.

24 de janeiro de 2009,

Harry,

Lamento por mandar uma coruja de segurança, mas você conhece os motivos. Estamos no meio da noite e ainda estou pensando sobre nosso projeto. Sei que tem as coisas sob controle, mas gostaria de receber uma atualização, se não for comprometer sua segurança. Se precisar, podemos nos reunir em segredo, mas gostaria de não me esgueirar mais que o necessário. Se tiver mais informações sobre o Mestre, por favor, se prepare para me passa-las. Se tiver qualquer novidade sobre o outro projeto, também gostaria de saber.

Se ainda não disse, lamento muito por Hermione, e estou tranqüila e mais do que aliviada e que ela vai fica rmuito bem. Queria poder dar algum tempo livre para você, mas eu tenho certeza que sabe que é impossível no momento.

Ansiosamente esperando para ouvir seu relatório completo, como geralmente é.

Atenciosamente,

Argo

P.S.: por favor, queime esta carta depois de ler.

Seu estômago revirou. Havia uma mensagem escondida nas palavras de Argo... se é que foi ela mesma quem escreveu a carta, o que começava a duvidar.

Seus olhos passaram pela carta, olhando as que estavam brilhando e lendo a mensagem que de fato fora mandada.

Harry sentou rapidamente, um tremo frio subindo por sua espinha. Ele segurou a carta preocupado, muito surpreso por este contato inesperado de seu inimigo.

Enfim, ele colocou a carta de lado. –Bolha – ele disse. –Argo.

Depois de um momento, a voz da diretora o respondeu. –Sim, Harry?

-Argo, você me mandou um bilhete através de uma coruja segura?

-Sim, e aparentemente você não tem nenhuma preocupação com segurança se está me perguntando isso através de uma Bolha aberta.

-Ah.. claro. Desculpe. Deixe pra lá. Falo com você amanhã.

-Certo – a bolha dele desapareceu e ele ficou com mais perguntas. Allegra não falsificara o bilhete, realmente era de Argo. Claro que era que podia ser feito, ele percebeu. A segurança em volta da casa ficara significantemente mais forte. A carta teria que ser de alguém verdadeiramente amigo para conseguir permissão de entrar no terreno sem ativar nenhum alarme.

Isso significava que ela interceptara e enfeitiçara a carta para revelar sua própria mensagem, que ela teve que construir usando as palavras que Argo já tinha escrito no pergaminho. Isso não era nada fácil, interceptar uma coruja segura, mas ele não julgava estar além das habilidades dela.

Não importava como ela fizera, entretanto. Ele só ponderava os métodos dela para que pudesse evitar a pergunta maior. Por que ela estava pedindo uma reunião com ele e mais importante... ele deveria aceitar?


Rony olhava para a carta, perplexo. –Já contou a Hermione?

-Não – Harry disse rápido. –E nem vou contar. Ela ia fazer uma tempestade de soubesse que estou pensando em encontrar com Allegra.

-Então está pensando em ir.

-Acho que eu devo ir. Ela menciona informações importantes sobre o Mestre. Acho que é possível que ela já tenha perdido a paciência com ele e queira ver sua derrota.

-Sabe que pode ser uma armadilha.

-Claro, mas olhe quanto trabalho ela teve pra mandar essa mensagem escondida, não só dos mocinhos, mas também dos bandidos da história. E ela teve que se certificar que eu receberia. Enfeitiçar essa carta não deve ter sido fácil, mas ela passou por isso tudo pra colocar "lamento muito por Hermione", quando não era necessário.

-Obviamente ela quer que confie nela. Você confia?

-Absolutamente não... mas acho que tenho que arriscar.

Rony franziu a testa. –Ela especifica a hora, mas não o lugar.

Harry esfregou a parte de trás do pescoço. –Sei onde quer que a gente se encontre. O mesmo lugar que nos encontrávamos quando ainda tínhamos um caso, um aluno e uma instrutora namorando em segredo.

-E onde é?

Harry suspirou e olhou Rony nos olhos, imaginando se devia contar a ele.


Harry andava nervoso de um lado para o outro, com medo como sempre de ficar muito tempo ali e ou não a encontrar ou ser pego. Estava frio essa noite e ele estava em volta de sua capa mais quente, mesmo assim, seus pés estavam ficando dormentes.

Ele a sentiu se aproximar antes de vê-la. Ele nunca sabia como isso funcionava, só que era assim. Ele virou e procurou pelo céu negro, avistando o pequeno ponto que ficava maior enquanto se aproximava. Seus cabelos negros voavam atrás dela como uma bandeira enquanto ela avançava até ele. Ela pousou e desceu da vassouras antes que seus pés tocassem o chão de pedras. Ela correu até os braços abertos dele e ela colocou a linha em sua boca antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. –Desculpe por ter demorado tanto – ela murmurou entre os beijos. –Não queria sair correndo da Divisão, fica feio.

Harry mal a ouvia, ele estava muito distraído pela sensação da bunda dela sob sua mão e seus seios pressionados contra seu peito, mesmo que através de várias camadas de roupas. Ela era a primeira mulher que ele conhecia no sentido bíblico; ele às vezes não acreditava que ela deixava que ele deitasse em sua cama, uma mulher como ela podia ter quem quisesse. –Não podemos ficar nos encontrando aqui – ele sussurrou, beijando o caminho pelo pescoço dela e na esperança, como sempre, que estivesse fazendo isso certo. Ele sempre se sentia como um atrapalhado garoto do ensino médio quando estava com ela. Ainda assim, a única vez que ela reclamara até hoje foi quando ele parou.

-É seguro, é longe de tudo.

Hogwarts! – ele exclamou, olhando em volta para torres em volta deles. Havia um longo caminho de pedras em cima do topo do teto do Salão Principal; no inicio, parecia tão dramático e saído de um filme de romance gótico. Agora ele se sentia simplesmente exposto.

-Como se alguém fosse vir dar uma caminhada no meio da noite. Vamos lá, vamos para Hogsmeade. Consegui o mesmo quarto que a última vez. Estive excitada o dia inteiro e mal posso esperar pra trepar com você até que peça misericórdia.

Harry a pegou e apertou os lábios contra os dela novamente, surpreendendo até a si mesmo com o rosnado selvagem que saiu da própria da garganta. Ele sentiu quando ela sorriu e deu uma risada da força dele e então sentiu a mão dela se esgueirando pela frente das calças dele. –Vamos lá – ele disse.

-Vamos ter que ser rápidos. Não tem planos com Ela hoje? – ela perguntou.

Harry recuou, um pouco irritado. Sempre que ela mencionava Hermione, a voz sempre tinha um toque desagradável de sarcasmo. –Tinha, mas eles se desfizeram. O namorado dela ligou, ele volta de viagem um dia antes para que ela possa sair com ele e não comigo.

-Ah, coitadinho. Abandonado como um lixo só pra que ela possa dar uma.

Harry estreitou os olhos. –Queria que não falasse assim dela.

Allegra passou um dedo pelos lábios dele. –Assim como?

-Como se tivesse ciúmes.

-Deveria ter?

-Qual é. Ela é apenas Hermione. Apenas uma amiga. Você é... – ele puxou os quadris dela com força contra os dele. –Você é maravilhosa.

Ela sorriu e sorriso sarcástico deixou seus lábios, substituído por um doce sorriso bem diferente do normal. Allegra era muitas coisas que o fascinavam, mas doce não era uma delas. –Posso te mostrar o quanto sou maravilhosa – ela ronronou, e então sem avisos se ajoelhou na frente dele. Já tinha aberto as calças dele antes mesmo dele poder formular um protesto.

Harry sabia que devia parar. Isso era simplesmente... errado, de alguma forma; infelizmente, antes que ele pudesse reunir forças pra dizer qualquer coisa, sua mente estava além de qualquer pensamento racional.


A reunião deles desta noite já começou diferente de todas as outras por um detalhe importante... Ela já estava lá quando ele chegou. No passado, era sempre ele quem ficava esperando por ela.

Ela levantou e o encarou enquanto ele pousava no telhado, desobrigado do vôo por usar uma vassoura. Ela parecia muito aliviada. –Estava com medo de você não vir – ela disse.

-Bem, eu vim.

Ela concordou. –Temos que conversar.

-Sobre o que?

-O Mestre.

-Certo – Harry esperou. Ela não disse nada. –Já que não sei nadinha sobre ele, você vai ter que começar.

Allegra tirou os cabelos do rosto e Harry viu que ela parecia vulnerável pela primeira vez desde que se conheceram. –Tem uma coisa que precisa saber sobre ele, Harry.

-Certo, pode esperar um pouco – ele disse, levantando uma mão. –Primeiro, preciso saber porque você de repente resolveu contar o que quer que vá contar. Não somos amigos, lembra? Não trocamos informações, não cuidamos um do outro. Então, por que?

-Porque – ela disse entre os dentes cerrados. –Ele me transformou em algo que não reconheço. Ele me tornou alguém que meu antigo eu esmagaria como um inseto. E ele vai pagar por isso.

-Não posso imaginar ninguém te transformando em uma serva sem poderes.

-Você não o conhece. Por isso estou aqui. Você vai enfrentá-lo em algum momento e é melhor estar preparado, porque ele está. Ele sabe tudo a seu respeito, é bom que você saiba algumas coisas sobre ele.

-De você? Porque devo confiar no que quer que você me diga?

-Porque seu Bisbilhoscópio não está dizendo pra não confiar – ela falou.

Harry sorriu e tirou o bisbilhoscópio do bolso. –Como sabia?

-Você sempre leva essa maldita coisa em situações incertas, Harry. Previsível. – ela andou de um lado para o outro algumas vezes. –Como... está sua esposa?

Harry hesitou – ela está bem, obrigada. Está em casa há quase uma semana agora.

-Aquilo não foi trabalho meu.

-Nunca pensei que fosse.

-Ótimo. Fico feliz que não me ache capaz de um método de assassinato tão distante, impessoal e impreciso.

-Claro que não. Se você me matasse, esperaria uma lamina pelo coração e um ou dois golpes muito bem escolhidos.

-Naturalmente.

Um silêncio desconfortável se abateu. Harry não sabia se ela estava igualmente inclinada as lembranças, mas parecia que ele não podia evitar de lembrar alguns encontros nada formais que tiveram nesse teto. –O que ele fez com você? – ele se ouviu dizer. O que, de fato. Ela parecia distraída e desconfortável, sem falar em ansiosa. Ele quase não reconhecia a Allegra que conhecia na mulher diante dele.

-Não é importante. Mas resumindo, ele deixou bem claro que sou insignificante pra ele. Se ele ganhar, não terei posição melhor que um capanga qualquer nesse novo mundo dele. Recuso a ser marginalizada, me entendeu?

-Então... deixa eu esclarecer as coisas. Você quer me ajudar a derrotar o Mestre porque ele não te deixar ser má o suficiente? E em que isso me ajuda? Eu o derroto e você toma o lugar dele de novo. Frigideira ou forno, qual a diferença?

-Confie em mim, você não quer nada do que ele planejou. Eu posso ser sua inimiga, mas o Mestre é algo muito pior. Aquele homem é... ele não é estável. Ele é realmente perigoso.

-E você é um coelhinho branco fofo, vestida de couro preto sintético?

-Droga, Harry, isso não é sobre mim! Quer minha ajuda ou não?

Harry suspirou. Não tinha muita escolha.-Me conte o que veio aqui dizer.

Ela se encolheu um pouco. –Certo, então. Vamos sentar. – ela apontou para a borda da torre. Harry sentou, permanecendo em alerta. Ela virou na direção dele, puxando as pernas pra cima. –Eu... a coisa é que... – ela parou e desviou o olhar. –Droga, não sei como começar.

-Diz de uma vez.

Ela olhou diretamente pra ele. –Harry, o Mestre é seu filho. Ele é nosso filho.

Harry piscou. Ele esperou. Ela ainda estava olhando pra ele.

O vento estava bem alto lá em cima. Estava mais alto do que ele lembrava estar apenas alguns momentos antes. Era o vento ou o sangue em seus ouvidos? De repente, ele não sentia mais um friozinho como na hora que ele chegara.

Ele é nosso filho.

De todas as coisas que ele imaginou que ela pudesse dizer, essa estava tão lá embaixo na lista que nem era digna de consideração. Ela estava sentada ali sem dizer mais nada, como se esperasse alguma resposta. Ela estava maluca? Ela realmente acreditava nisso? O que ele estava pensando ao vir pra essa reunião?

Falando nisso, o que estava fazendo com que ficasse? Ele levantou e começou a ir embora. –Onde está indo? – ela perguntou, seguindo-o.

-Embora.

-Por que?

-Você tem mesmo que me perguntar depois de inventar uma historia tão maluca quanto essa que acabou de me contar?

-É verdade.

-Claro! – ele disse, dando uma risada. –Pode dizer que é pegadinha! – ele começou a virar novamente, mas ela segurou seu braço e o fez virar pra ela. A intensidade do olhar dela o prendeu no lugar como um inseto num quadro.

-Harry, me escute. Quando eu te deixei, estava grávida, mas não sabia. Eu carreguei essa criança, nossa criança, mas pensava que ele tinha morrido no parto. Eu vi seu corpo. Mas como você e eu sabemos que algumas pessoas são muito boas em falsificar a morte de outras. – ela olhava nos olhos dele com tanta veemência que Harry foi pego de surpresa. –O bebê foi tirado de mim e trocado por uma duplicada, que eu enterrei e por qual fiquei de luto, porque era minha criança e sua também. Ele foi levado por... Bem, não tenho muita certeza disso. Foi levado por uma entidade que vive fora de nossa linha do tempo e criado por ele e pelos Eternos. Você sabe sobre os Eternos, não é?

Harry concordou. –Sim – ele disse através de lábios dormentes. –Até demais.

-Ele viveu com eles, num lugar onde o tempo não passa. Ele cresceu e se tornou um homem. Ele aprendeu a controlar seus poderes.

-Que poderes?

-Os mesmos que você tem, Harry... Claro que deve saber que sou meio Mage. Você é um Mage completo, bem como nosso filho. – Harry puxou o braço da mão dela e deu as costas a ela. Não queria mais ouvir, podia começar a acreditar. Ela continuou falando. –Eles o levaram, do mesmo jeito que te levaram. Eles deixaram que amadurecesse e se tornasse uma força poderosa... e quando a hora chegou, eles escolheram o momento certo na minha linha do tempo para que ele entrasse em contato comigo e me desse instruções. Eu o obedeci e você também obedeceria. Você não o conhece, ele é elementar, é colossal – ela deu a volta e parou diante dele. –Harry, eu não sabia quem ele era até alguns meses atrás. Ele nunca nem mesmo tinha mostrado o rosto pra mim... Mas ele parece com você. Tem seus olhos. – a cabeça de Harry balançava de um lado para o outro em uma negação silenciosa que ele ainda não conseguia articular. –Ele é mais poderoso do que você pode imaginar. Você só começou a arranhar a superfície de seus poderes Mage. Ele passou quase cinqüenta anos vivendo com eles e usando os poderes, são como uma segunda pele pra ele. Nenhum de nós é páreo pra ele, não separados.

Harry não podia mais ouvir. Ele não tinha palavras fortes o suficiente pra expressar sua negação de cada palavra que ela falara, então ele simplesmente deu o murro mais forte que conseguiu nela. Se não podia encontrar as palavras pra negar suas mentiras, podia ao menos puni-la por fazê-lo ouvir isso. Ela tomou o golpe e o retribuiu, seu punho acertando o estômago com força suficiente para fazê-lo dobrar. Ela o segurou pelos cabelos e puxou a cabeça para cima. –Droga, Harry, me escute! Ele é nosso filho! Sei que não quer acreditar, mas é a verdade!

-É uma mentira suja! – ele gritou. –Acha que sou idiota? Realmente achou que essa história iria me enganar? Você não podia engravidar, nós dois estávamos sob feitiços contraceptivos!

Ela balançou a cabeça. –Os Eternos queriam que eu concebesse, Harry. Eles arranjaram isso. Alguns feiticinhos não poderiam impedi-los. Eles queriam produzir um Mage que pudessem criar e treinar desde criança. Eles não conseguiram pegar você, então pegaram ele. Você era humano demais pra ser o Encarnado deles, então fizeram um. Eles nos acasalaram como animais! – ela gritou, seu nojo evidente em sua voz. –Eles levaram nosso filho e o transformaram em um... em um... nessa coisa que ele é!

-Mas ele... não pode... – Harry não tinha mais argumentos. Agora era apenas uma questão dele acreditar ou não nela. Não acreditava, claro. Não com sua mente racional, que tinha uma questão emocional significante com a desonestidade dela. Seu corpo, no entanto, estava bem à frente dele. Ele continuou curvado, sua respiração ainda saindo engasgada. Ele se sentia tonto. Allegra segurou o braço dele e o levou até a parede, empurrando-o sentado.

-Sente, tente respirar mais devagar – ela comandou, empurrando a cabeça dele pra baixo, entre os joelhos dele. –Sei como se sente. Quando descobri, eu desmaiei de verdade, como uma dama vitoriana. Me senti tão idiota. – Harry não respondeu, estava incapaz de falar. –Sei que não quer acreditar em mim. Não estou inventando isso. Pode me dar veritaserum, pode me deixar roxa de porrada, mas vou dizer a mesma coisa. Acha que me deixa feliz o fato dele ser minha cria? Acha que eu queria carregar seu filho? Isso também não era parte de meu plano, sabia.

Finalmente Harry conseguiu se endireitar e olhar pra ela. Ela era a campeã da mentira e ele sabia... Mas se isso era uma mentira, era uma mentira na qual ela acreditava. –Você... você sabe.. confirmou isso?

Ela suspirou. –Ah, sim. Usei um feitiço de Paternidade. Exumei e testei o corpo do que eu achava ser meu bebê. Ele é meu filho, o que significa que é seu filho. Não dormi com mais ninguém alem de você enquanto estava disfarçada.

-Mas ele... quantos anos ele tem?

-Tem 48. mas eu te disse como...

-Eu sei, entendi. Só que... – ele levantou e se afastou alguns passos, olhando parar os campos da escola, o lugar que o tornara quem era. Agora esse lugar poderia vê-lo se dividir, bem aqui em seu telhado.

O Mestre era seu filho. Ele tentou encaixar isso. Eu tenho um filho. Seu próprio ser negava sua verdade, ainda assim... ele tinha que verificar isso. Independentemente. Ele precisava saber, e não podia esperar.

Ele virou de frente para Allegra e levantou uma mão. –Accio talismã do nome – ele disse. Ela aquiesceu. –Vai levar um minuto – ele disse.

-Ótimo. Sim, por favor, cheque. Não posso ficar aqui tentando de convencer a noite inteira.

Ele esperou. Um talismã do nome de um bruxo gravava os maiores eventos de sua vida. O nascimento de uma criança com certeza estava qualificado.

Dentro de dois minutos, seu talismã flutuava no ar diante dele. Ele esticou a mão e o segurou em sua mão direita. –Me diga sobre minha vida – ele disse para o talismã.

O talismã brilhou e começou a falar, em sua própria voz.

Você nasceu em 31 de julho de 1980. Foi aceito em Hogwarts em 31 de julho de 1991. deixou a escola em 12 de junho de 1998. Tornou-se agente da inteligência em 23 de maio de 1999. seu filho, Julian James Potter, nasceu de Allegra Blackburn-Dwyer em 17 de setembro de 2002. Você se casou em 15 de novembro de 2008 com Hermione Jane Granger;

O talismã ficou em silêncio.

Harry olhou Allegra nos olhos. Ela levantara e parara diante dele enquanto o talismã recitava sua vida. Harry o largou e ele ficou no ar e então saiu voando para se juntar aos outros talismãs no Hall dos Nomes. –Julian? – ele disse, baixo.

-Gosto do nome Julian.

Ele concordou. –Eu também. – Harry deixou que seus olhos se fecharem e ele caiu de joelhos sobre o parapeito de pedra. Ele se sentia tão frio e sem vida quanto a pedra sobre a qual ele se ajoelhava. Hermione, sua mente sussurrou. Como é que vou te contar isso?

Allegra sentou na pedra ao lado dele. –Não queria acreditar também. Mas é verdade.

-Por que me contou agora? – ele sussurrou.

-Porque se eu não contasse, ele contaria. Ele esperaria pelo momento que fosse te causar a distração mais inconveniente. Ele usaria como uma arma contra você. É melhor ficar preparado antes de enfrentá-lo. Isso significa saber o que ele é e quem ele é.

-Ele é um Mage. Como posso derrotá-lo? Como posso ter esperança de ser páreo contra ele?

-Nisso eu não posso te ajudar – ela suspirou. –Mas se aceitar meu conselho... ele pode usar o fato de sua filiação para te machucar de outra forma se você não tiver cuidado.

-Não se preocupe, vou contar a ela antes que ele tenha qualquer chance. – ele suspirou. –Vou contar a ela assim que voltarmos à casa.

-Ótimo. Se ele puder destruir seu casamento, nada mais lhe daria tanto prazer.

Harry levantou se afastou alguns passos, desejando uma máquina do tempo ou uma cápsula de cianeto ou qualquer coisa que permitisse que ele não soubesse disso, qualquer coisa que ajudasse a isso não ser verdade. –Ainda não entendo porque se voltou contra ele.

Ele a ouviu se levantar atrás dele. –O que um dia foi meu, ele tomou. Ele tomou o Círculo, tomou meus seguidores, tomou tudo que era meu. Ele está tomando a mim e nunca pensei que alguém pudesse fazer isso.

Ele aquiesceu, dormente. –Sim. Então é vingança, não é?

-Não, isso é auto-preservação. – ela hesitou. –Ele está me fodendo.

Harry virou pra ela, simples horror ultrapassando a enorme pilha de emoções indesejáveis que passavam por sua cabeça. –O que?

-Ele está me fodendo. Todas as noites. Começou umas semanas atrás. Ele... se forçou pra cima de mim.

Harry fechou os olhos. –Meu Deus.

-Ele não liga para sexo. Ele apenas quer me controlar. Ele quer me ver indefesa. Deixei que pensasse que já estou. – ela levantou o queixo. – Eu nunca estou indefesa. Não importa o que ele faça comigo. Ele nunca me possuirá.

Ele apenas balançou a cabeça que não. –E esse... esse monstro... ele é nosso filho?

-Fomos apenas os doadores do DNA, Harry. O que quer que ele seja, nós não o fizemos. – ela avançou e parou ao lado dele. –Mas talvez dependa de você desfazê-lo.

Harry se afastou, indo na direção da beirada do telhado e do grande espaço aberto ali. Não havia mais nada a ser dito... porém ele ainda tinha uma pergunta. –Por que você foi para meu casamento? – ele perguntou baixo. –Você foi e apenas... assistiu. Por que?

O silencio se prolongou o suficiente pra ele se perguntar se ela o ouvira. Finalmente, ela falou. –Eu não sei.

-Você foi pra causar problemas?

-Não.

-Por que, então?

Ele não virou e ela continuou onde estava. –Acho que eu apenas queria ver.

-Isso não é motivo.

-É tudo que eu tenho – ela hesitou. –Você quer mesmo saber por que? Certo. Fui porque eu te odeio, sempre te odiei. Tinha que sentar lá e ver você se casando com ela e pensar em te odiar. Todo mundo lá te amava, e simplesmente era demais. Não podia deixar você se casar com ela sem ao menos haver pelo menos uma pessoa que te odeie tanto quanto eu presente. – a voz dela abaixou um pouco. –Não tem idéia do quanto te odeio. Nunca se esqueça disso, não importa o que aconteça, não importa o que eu diga ou o que eu me obrigue a fazer. Se eu te ajudo, se eu confio em você... não esqueça que sempre te odiarei.

Inesperadamente, Harry sentiu um nó na garganta. Ele reuniu sua coragem e virou... mas ela tinha desaparecido.


Harry achava que se ela não dissesse alguma coisa logo, ele ia vomitar por puro nervosismo.

Ele contara à sua mulher a verdade sobre o Mestre. Ele voltara de seu encontro com Allegra e acordou Hermione imediatamente. Ele não queria que mais nenhum tempo se passasse antes que lhe contasse. Ele queria que esse período durante o qual tinha que suportar esse conhecimento sozinho fosse o mais curto possível.

Ele surpreendeu a si mesmo com clareza das palavras que saiam de sua boca. Ele não desmoronou, não ficou emotivo. Simplesmente a presenteou com a mesma informação que Allegra lhe passara.

Quase se sentiu acanhado de estar tão composto. Não devia se sentir envergonhado? Ele não devia se sentir horrível, como se tivesse traído a mulher que amava? Não devia implorar pelo perdão dela?

Mas também... Pelo que ele deveria ser perdoado? Do que devia se envergonhar? Isso acontecera sem nenhuma culpa dele. Usara proteção durante seu relacionamento com Allegra como um adulto responsável. Não sabia que ela ficara grávida, apesar das precauções, nem do destino da criança. O que a criança se tornara também não tinha o dedo dele. Não traíra sua esposa. Não escondeu isso dela.

E mesmo assim... O fato da existência do Mestre seria distúrbio demais pra os dois. Não importava como ele acabou existindo, ele existia. Era uma força a ser reconhecida, muito mais do que Harry podia imaginar.

Ela ficou ali sentada, olhando para ele.

-Hermione? – ele sussurrou. –Diga alguma coisa, por favor.

-Tem certeza disso? – ela perguntou, sua voz baixa e equilibrada. –Tem certeza que é verdade?

-Sim. A maior certeza possível. – ele contou o que Talismã do nome lhe dissera.

Ela fechou os olhos e levantou, indo até a janela. Ela ficou ali de pé com os braços em volta da barriga, o luar esfriando seu perfil com sua luz brilhante. Ele ficou olhando as próprias mãos cruzadas e esperou. –Sabe – ela finalmente disse depois de um longo silêncio. –Me pergunto se nossa lua-de-mel valeu a pena. O universo está pedindo um preço cármico muito alto por aqueles dois meses de felicidade que tivemos. Primeiro a explosão, depois o projeto e agora isso. – ela deu um risinho sem humor. –Acho que preferia um fim de semana em um motel em Sheffield se isso significasse um pouco de paz em nossa vida de casados.

Havia uma coisa que ele precisava saber antes que mais um segundo passasse. –Está com raiva de mim?

Ela virou e olhou para ele, uma expressão de dar pena passando por seu rosto. –De você? Não, por que estaria? Você não sabia. Não queria que isso acontecesse. Você veio e me disse assim que descobriu. Com raiva de você? – ela balançou a cabeça que não. –Queria que fosse simples assim. – ele levantou e parou ao lado dela, esticando os braços na direção dela, mas ela se afastou um pouco. –Por favor, ainda não. – ela sussurrou. –Me de um momento, só pra pensar. – Harry recuou, vendo as lágrimas não derramadas nos olhos dela. –Como está suportando? – ela perguntou, olhando em seus olhos. –Ele é seu filho, afinal – ela colocou na palavra "seu" uma ênfase sutil que não passou despercebida por ele.

-Eu... eu não sei. Estou dormente. Acho que a ficha ainda não caiu.

Ela aquiesceu. –Então deixa eu dizer o que eu estou sentindo.

-Certo – ele disse, um pouco hesitante.

-Não sei como reagir, Harry. Não sei o que pensar sobre quem o Mestre é. Ela diz que ele é seu filho. Certo, então. Como isso nos afeta? – ela olhou para ele. –A resposta, objetivamente, é que não afeta. Ele não é seu filho em nenhum aspecto significante do termo. Você não o criou, não o conhece e ele não te conhece. Ele é o mesmo bastardo terrível, não importa de quem ele seja filho e sua existência não afeta nosso relacionamento ou nenhuma família que a gente possa vir a ter no futuro. Certo?

Harry concordou – Certo – ele disse, triste, esperando o resto do pensamento.

-O fato dele parecer a maldade personificada não é reflexo da qualidade do seu DNA. Acho que ele puxou à mãe.

Ele ficou olhando a expressão dela enquanto falava. Ela não olhava pra ele, e sim pra fora da janela. Os seus braços ainda estavam em volta do corpo como se estivesse se segurando.

-Então a conclusão à que devemos chegar é que pra gente isso não significa nada – ela completou, a voz apressada e quase um sussurro.

Harry suspirou. –Acho que sim.

Agora ela virou pra encará-lo e ela viu nos olhos dela o quanto ela não estava calma. Ela vagarosamente escorregou pela parede até que estava sentada no chão, os joelhos puxados contra o peito. –Então por que sinto como se significasse tudo? – ela disse, a voz tremendo. –Por que, Harry?

Ele curvou a cabeça, desejando ter uma resposta adequada pra ela. Ela estava certa, tanto em sua análise racional quanto em sua resposta mais emocional.

ela. – Hermione disse. –Isso não é sobre o Mestre, mas sobre ela. Ela sempre encontra uma forma de fazer a gente morrer um pouquinho um pelo outro, Harry. – ela começava a chorar um pouco agora, sua voz ficando trêmula de uma forma que não precisaria de muito pra se transformar em soluços. –Não tem idéia do que ela tirou de mim agora.

Ele franziu a testa. –O que?

Hermione ficou de pé e voltou para janela, colocando as mãos no peitoril. –É uma coisa de mulher, tenho certeza que não pensou nisso. Mas agora... não importa o que aconteça no futuro, não importa o tipo de família que a gente decida se tornar... – ela não completou, secando os olhos rapidamente. –Agora, nunca poderei te dar seu primogênito. – Harry engoliu seco, uma dor que quase o fez engasgar subindo em seu peito. – ela tirou isso de mim. – ele a viu fechando os punhos. –Ela tem uma parte de você que eu nunca poderei tocar! – ela gritou, batendo no peitoril na última palavra. –Ela foi sua primeira e agora ela é a mãe de seu primeiro filho. O que isso deixa pra mim?

Ele foi até ela e a segurou pelos braços. –Tudo – ele disse, sua voz apertada. –O que ela tem é insignificante, está me ouvindo? Ela pode ter sido minha primeira, mas você vai ser minha última. E não me diga que não entendo o que isso significa! Nunca imaginei que teria um filho que não te tivesse como mãe! Acha que ia querer isso? Nem em um milhão de anos! Aquele... o que quer que ele seja... ele pode ter meu sangue, mas é um estranho. Ele não é meu filho. Eu... eu me recuso a chamá-lo assim. – ele esticou as mãos e segurou o rosto dela entre elas. –Um dia, eu e você talvez tenhamos um garotinho nosso. Ele vai te chamar de mãe e me chamar de pai. Vamos ler historinhas pra ele dormir e ele vai nos chamar quando tiver um pesadelo e ele irá para Hogwarts e nos escrever corujas contando sobre todas aventuras que está tendo. Ele é meu filho e é o único digno da palavra. Chamar o Mestre pelo mesmo termo é um insulto a este garotinho. – ele a olhou nos olhos. –Ninguém pode ser meu filho, não se não for seu também. Você vai dar a luz a meu primogênito um dia. O Mestre é apenas um impostor.

Hermione fungou. –Vai ter tanta certeza assim quando o enfrentar e ver seus próprios olhos no rosto dele? Eu terei? Ela virou e se afastou alguns passos. –Você terá que enfrentá-lo. Provavelmente mais breve do que pensamos. Você talvez tenha que matá-lo. Você vai conseguir fazer isso, sabendo quem ele é?

-Se eu tiver que matá-lo, será porque ele me forçou. Não vou hesitar.

Ela balançou a cabeça. –Eu te conheço, Harry. Não vai conseguir tirar isso de sua cabeça. Vai começar a pensar que deve ter alguma coisa sua nele, alguma coisa boa que você talvez consiga despertar. Vai imaginar se está matando aquela parte de você que ele deve ter enterrado há muitos anos. Você vai hesitar. E ele vai te matar primeiro.

-Não. Ele não vai. Porque estou preparado agora. Por isso Allegra queria que eu soubesse.

Hermione deu um risinho sarcástico. –Sim, porque ela é totalmente contra você ficar para sempre no escuro. Não confio nela e fico impressionada de você parecer confiar.

-Também não confio nela, mas confio no que ela me disse. E ela não está me dando avisos porque quer me ajudar. O inimigo do seu inimigo é seu amigo.

-O Mestre é inimigo dela?

-Ah, sim. Ele provavelmente não a classificaria dessa forma, mas ela sim. Ela sabe o que vem pela frente e sabe que ele apenas a está usando até que possa executar qualquer que seja o plano que está tramando. – Harry hesitou. –Por que estamos falando dela?

-Porque é mais fácil que ficar imaginando o que isso fará com a gente.

-Eu te digo o que fará: nada – ele disse, enfático. –Nós sabemos agora, e podemos lidar com isso juntos.

Ela virou pra ele. –Tenho medo do que vem depois.

-O que tem depois?

-Isso não vai ser o fim dessa história. Vai ter mais. Isso é apenas o começo. Eu sei que teremos horrores piores em nosso futuro, provavelmente em um futuro próximo. Eu sei que está vindo... talvez seja tarde demais pra parar tudo isso agora. É melhor a gente se segurar com força, Harry. Se a gente se soltar um do outro, ficaremos perdidos.

Harry esticou os braços na direção dela, que deu três longos passos pra ficar em seus braços. Ele a envolveu e encontrou os lábios dela no meio do caminho, grata que ela não mantinha uma distância mínima de segurança.

Mas nem trinta segundos se passaram até ele começar a ficar alarmado. Os beijos dela tinham um quê de desesperados, nervosos. Ela quase o machucava. Ela o empurrou de costas na direção da cama, as lágrimas dela molhando os rostos dos dois. Gritos engolidos viam da garganta dela enquanto puxava as roupas dele. –Hermione... espera... hei, calma aí – ele murmurou.

-Fique quieto – ela sibilou. –Vamos lá, Harry. Faça amor comigo. Não fazemos sexo desde a explosão. Estou bem, estou melhor... quero você. – ela o empurrou de costas e ele viu que o rosto dela estava vermelho e seus olhos inchados. Ela estava com a varinha na mão agora... quando ela pegou? Isso tudo estava acontecendo muito rápido. –Vamos tirar nossos feitiços hoje – ela disse, sua voz com traços de um pânico urgente. –Vamos fazer um bebê. Agora mesmo – ela disse, atropelando as palavras umas nas outras. Harry quase não teve tempo para processar o que ela estava sugerindo antes dela tirar as calças dele e puxar a própria camisola por cima da cabeça. –Não precisamos mais esperar. O que importa? Faça um filho em mim, hoje. – agora ele mal conseguia ouvir as palavras dela, a voz dela estava um pouco ofegante, quase um grito. –Deixe que eu recupere isso – ela gritou. –Me devolva.

Harry sentou e a segurou quieta. –Hermione, pare!

Ela lutava com os botões da blusa dele. –Parar o que? Isso não está certo? Temos que fazer isso! Não precisamos tirar um fim de semana pra viajar, vamos acabar logo com isso. Vamos fazer esse garotinho, nosso garotinho! – ele estava empurrando as mãos para longe, mas ela ficava cada vez mais insistente. Finalmente ela parou de tentar tirar a roupa dele e começou a bater em seu peito. –Nosso filho, nosso filho! – ela gritou. –Você não quer ele? Não pode ver? Maldito você, você fez com ela, faça comigo!

Ele agarrou os punhos dela e os segurou quietos contra seu peito enquanto o rosto dela se transformava com os soluços e ela desabou nos braços dele. Harry não conseguia mais agüentar tudo isso, ele também começou a derramar as próprias lágrimas. Ele apertou os punhos nos cabelos dela e a segurou, o rosto dele contra a testa dela. –Deus, Hermione, eu lamento tanto – ele chorou. Eles caíram de volta na cama juntos. Ele simplesmente continuou repetindo várias e várias vezes, apesar de não ter certeza dela estar ouvindo nada do que ele dizia. Os dedos dela apertavam a camisa dele e as lágrimas dela molhavam seu peito enquanto ele pedia desculpas até que as palavras perdessem o sentido. Era verdade que nada disso era culpa dele, mas não era por isso que ele pedia desculpas. Ele lamentava por ela estar passando por isso, ele lamentava ter conhecido Allegra, ele lamentava ter uma cicatriz e um talento que o marcavam e roubavam dela até a menor chance de uma vida normal e principalmente, ele lamentava amá-la tanto que não podia deixá-la ir.

Depois de um tempo, as lágrimas acabaram e eles ficaram deitados, abraçados na cama, ofegantes com o "depois" de tudo, em silêncio.

A bochecha de Hermione repousava no peito dele, que ela deixara parcialmente descoberto em suas tentativas de tirar sua roupa, os braços dela em volta da cintura dele. Ele enrolava e desenrolava uma mecha do cabelo dela em volta de seu dedo e o cheiro doce dos cabelos dela preenchia seu nariz, o calor macio do corpo dela pressionado contra ele o levando a um lugar muito mais calmo.

Ele não sabia quanto tempo ficaram ali, mas a lua subiu significantemente através da janela enquanto deixavam o silêncio curá-los. Depois de um tempo, ela se apoiou nos cotovelos e olhou para ele, sua expressão difícil de ler. Ela pegou a varinha e então, deliberadamente, colocou de lado, em seu criado mudo. Ela voltou para ele, se inclinou e o beijou gentilmente. Ele retribuiu ao beijo, deixando que ela comandasse o ritmo. Ela moveu a boca até o queixo e pescoço dele e então seu peito, seus lábios quentes fazendo com que ele se arrepiasse. Ele a tomou em seus braços e virou, de modo que ficassem deitados se encarando, braços e pernas embaralhados. Esse era seu lugar preferido no mundo. Ele amava a sensação das pernas dela misturadas com as suas e as mãos dela passando por sua pele.

Harry não conseguia parar de pedir desculpas, mas ele parou de falar isso. No lugar, seu lamento passava de sua pele para dela, enquanto movia suas mãos e lábios por seu corpo, indo e vindo, seu pesar fluía em ondas de sua respiração para dentro dos pulmões dela enquanto se beijavam, seu lamento foi carregado no seu corpo enquanto se juntava ao dela e então ele não era mais o lamento dele, mas sim deles.

E então nada mais era nem dele ou dela, tudo era deles. O movimento deles, a respiração deles, o coração deles, as palavras não ditas deles. Ele ouvia seus murmúrios, seus sussurros, e então ele ouviu "eu te amo" e não importava quem tinha dito, apenas que era o sentimento deles e nem precisava mais ser dito porque era mais poderoso simplesmente sentido em suas almas. Quando o fim veio, foi com o prazer e liberação deles, e quando o sono os tomou, os segurou pelo conforto e segurança e os levou ate o lugar onde poderiam encontrar seus sonhos.


Rony Weasley não conseguiria dormir nem pra salvar a própria vida.

Eram quatro horas da manhã, maldição, e ele ainda estava bem acordado. Ele sabia porque e isso não era alívio nenhum. Ele estava deitado acordado ali porque estava deitado ali sozinho.

Laura não estava aqui. Estava numa viagem de um dia para Paris e não voltaria até a noite seguinte. Era a primeira noite sozinho desde que começaram o estranho hábito noturno de abraços platônicos e ele se sentia extraordinariamente solitário, mais do que se sentiu trancado em sua prisão por mais de vinte anos. Ele sentia falta do calor dela, sentia falta do sussurro gentil de sua respiração. Ele não queria dormir de verdade porque não queria acordar e perceber que ela não estava ali. As manhãs não eram divertidas se ela não estava ali pra dar um sorriso sonolento para ele e se aninhar mais em seus braços, quente e sussurrar um sonolento "bom dia" contra seu pescoço.

Ele suspirou e sentou, olhando em volta para o quarto escuro.

Havia uma figura encapuzada em uma das janelas de seu quarto.

Rony tomou um susto e pulou da cama, se escondendo atrás da cama e colocando suas vestes pela cabeça. Eu vi mesmo isso? Ele se perguntou. Devagar, olhou por cima da cama... a janela estava vazia.

Mas ele tinha visto mesmo. Não estava maluco e não tivera uma alucinação induzida por falta de sono. Ele vira o que ele vira.

Ele ouviu a voz de Harry em sua cabeça. Se vir qualquer coisa suspeita pela casa, deve procurar a mim ou a Hermione imediatamente. Não importa nada mais.

Rony levantou e saiu correndo do quarto, arrumando as vestes enquanto ia. Correu ainda mais rápido subindo as escadas do Cloister, se dando apenas um momento para ter esperanças de não interromper nada.

Felizmente, não interrompeu. Os dois estavam dormindo. Ele hesitou quando chegou no pé da cama, olhando pra eles. Apesar da urgência da situação, ele não podia evitar de sentir levemente derretido com a vista. Harry estava deitado de costas, a cabeça virada para janelas. Hermione estava deitada de bruços com a cabeça virada para o outro lado, mas seu braço estava jogado por cima do peito dele e o braço dele repousava sobre o dela, como se quisesse segurá-la ali enquanto dormiam.

Rony foi até o lado de Harry. –Harry – sibilou. Sem resposta. –Harry! – ele disse um pouco mais alto.

Os olhos de Harry se abriram de repente e seu corpo todo pulou na cama. –O.. o que O QUE? – ele gritou. Seus olhos entraram em foco e ele viu Rony ali. –Rony? – Hermione estava sentada ao lado dele... Rony teve uma rápida visão de seus seios nus antes dela puxar o lençol. –O que aconteceu?

-Hã... Desculpe acordar vocês, mas acabei de ver alguém de capuz do lado de fora da janela de meu quarto. – ele não precisava lembrar que isso ficava ainda mais bizarro pelo fato de sua janela ficar a 10 metros do chão.

Rony ficou impressionado com a rapidez da resposta deles. Eles não pararam pra perguntar se ele tinha certeza, se ele poderia estar sonhando, eles não pararam pra conferir ou decidir o que fazer. Sem nem olhar um para o outro, sem parecer se preocupar que os dois estavam completamente nus e colocaram suas vestes. Hermione pegou sua varinha. –Eu fico com a casa – ela disse.

-Vou lá pra fora – Harry respondeu. Ele olhou pra Rony. –Você, fique com Hermione. Não saia do lado dela, entendeu?

-Entendi – ele viu quando Harry abriu uma das janelas do Cloister e sem parar colocou as pernas pra fora e pulou. Rony colocou a cabeça pra fora e viu Harry pousar no chão ao lado da casa e então começar a fazer sua ronda em volta da ala oeste, se mantendo próximo à parede.

-Venha – Hermione falou, gesticulando para ele. Ele a seguiu de perto enquanto deixava o Cloister, a varinha em punho. Os passos dela eram rápidos, porém calculados. Rony simplesmente tentava acompanhar. Eles alcançaram o saguão do segundo andar e ela hesitou. Mesmo Rony podia ver que era uma área difícil de se cobrir... grande e cheia de entradas e cantos.

Eles ficaram próximos à parede norte. Enquanto se aproximavam do corredor da ala oeste, Hermione ficou tensa e se virou. Ela colocou um dedo contra os lábios e esperou. Um segundo depois uma figura escura emergiu do corredor. Hermione segurou seu braço e o puxou para frente e então o jogou de costas e se ajoelhou por cima dele, com o joelho empurrando seu peito, a varinha pressionando sua garganta.

-Oi, Hermione – a figura disse. A voz era distinta, grave e baixa.

Ela deu um longo suspiro e levantou para surpresa de Rony. –Pelo bom Deus. Sabe, não é muito inteligente entrar escondido na casa dos outros logo antes do amanhecer, vestido como um maldito dementador.

O bruxo encapuzado ficava de pé. –Sempre me visto assim.

Nesse momento, Harry entrou apressado no quarto. –Achei uma janela aberta ali... – ele parou. –Ah, vejo que achou nosso visitante.

-Apenas eu.

-Mesmo – Harry revirou os olhos. –Rony, este é Sabian. Meu melhor agente.

-Fico lisonjeado.

-Não deixe que isso suba para cabeça.

Rony ficou olhando para o visitante, fascinado. Sua capa e capuz lhe cobriam completamente. Nenhum traço de seu rosto ou pescoço podiam ser vistos, era como se o capuz possuísse algum tipo de vazio em que nenhuma luz pudesse penetrar. Ele usava longas luvas e botas então nenhuma parte dele era exposta.

-O que raios está fazendo aqui às quatro da manhã? – Harry perguntou, cruzando os braços. –Estava tendo um ótimo sonho com a copa do mundo de quadribol.

-Desculpe interromper, mas não tive escolha. Tenho importantes assuntos de extrema urgência pra discutir com você.

-Não pode esperar até o sol nascer?

-Receio que não.

-Bem, o que é?

Rony mais sentiu do que viu Sabian dar um olhar hesitante na direção dele e de Hermione, antes de continuar. –Harry, acredito que encontrei nosso traidor.


NT1: * Quases só contam em jogos de ferraduras e armas nucleares (original: Almost' only counts in horseshoes and nuclear weapons). provérbio americano que faz referência a um jogo de ferradura, no qual a proximidade do alvo também conta pontos e ao fato de precisão com armas nucleares não ser tão necessário, já que vai destruir uma área grande. Nesses casos, o "quase" tem o mesmo resultado que o acerto. (destaquei essa expressão porque não conhecia e achei interessante =p )

NT2.: quatro meses depois, cá estou eu com atualização. Eu fico até sem graça de pedir desculpas pela demora, mas estou com sérios problemas pra administrar meu tempo livre (leia-se viciei em alguns seriados e jogos que não me permitem fazer mais nada, nem traduzir XD). Não vou nem tentar estimar quando vou atualizar de novo... Só digo que não vou parar a tradução no meio, quanto a isso podem ter certeza (vai demorar, mas vai sair até o capítulo e o resumo onde Lori parou).

Falando desse capítulo, eu gosto muito dele. Principalmente a cena que Harry conta a Hermione sobre o Mestre. Não sei se a tradução ficou tão boa, mas no original passa um desespero e uma angústia tão grandes... muito bem escrito mesmo. Sobre a tradução, os erros mais uma vez são todos meus. Até ia mandar betar, mas houve um pequeno problema técnico e preferi só dar uma corrigida e postar assim mesmo. Peço que relevem qualquer absurdo. Comentando...

Lelymarques: o tamanho dos capítulos acaba atrasando um pouco... trabalho dá, mas eu gosto e me distrai. Demorei tanto que agora você já deve poder ler, né não? XD
Monique: bom... nem sei o que dizer aqui...capítulo de presente de formatura! (nem vale de presente, você já tinha lido rs).. E pode me cobrar a próxima atualização...
Lin Argabash: Não demorei meio século... ta mais pra um século e meio, né? A autora não voltou atrás... Parou mesmo no capítulo 13 e completou com as idéias que tinha para os acontecimentos da fic. Uma pena mesmo.
Shammy: Espero que tenha gostado desse capítulo também. E falando como viciada em gre'ys: faltam 9 dias pra nova temporada rsss.
Paty Granger: mais uma vez voltei (eu demoro tanto que cada atualização é uma volta depois de um sumiço). Se alguém tinha duvida sobre a dificuldade de ser Harry... esse capítulo tirou, concorda?
Mah GP.: não tenho nem o que dizer, além de agradecer os parabéns. Tomara que tenha achado tão bom quanto o anterior. E acho difícil Lori voltar pra terminar, mas realmente... até eu chegar lá ela tem tempo... dá pra ter alguma esperança ainda.
Carlos bert.: espero que dessa vez a demora não tenha te feito desistir da fic. Como leitora, acho péssimo quando o autor demora tanto assim. Sei bem como vocês se sentem...
Eric Góes: oi, Eric. Deve ter levado mais um susto agora... bom, Lori realmente terminou a fic somente com um resumo com os planos e idéias dela (que eu ainda nem li, pra falar a verdade... Acho que uma parte de mim ainda não aceitou isso completamente). Agora só se ela voltar atrás e tiver uma vontade súbita de fazer as coisas da melhor forma...
Maria Crsitina Fassarella: desculpe por tantos dias sem atualização. Mas antes tarde do que mais tarde... quanto ao fim da fic, pense que pelo menos ela teve a consideração de dizer mais ou menos o que aconteceria. Melhor do que deixar a gente totalmente no ar... bjs
JéèH G. Potter: vou postar o resumo sim, pretendo terminar tudo relacionado com a fic. O fanfiction não permite passar endereço de email nem sites... ele cortou o seu MSN. Se quiser me adicionar, eh fran_brito [arroba] Hotmail [ponto] (com as devidas modificações, claro)
Mi: demorei, mas cheguei...
Rina-dono
: A fic foi escrita até o capítulo 12. Depois disso, Lori (a autora) começou e postou o capítulo 13 e depois de mais de dois ano parada nesse capítulo, decidiu que não dava mais pra continuar e então postou um resumo com as idéias que tinha pro futuro da fic e revelando tudo que faltou revelar. Infelizmente, não atualizo com freqüência, mas apesar de demorar, vou traduzir a fic toda. Bjos.

NT3.: É isso aí pessoal. Não vou me atrever a fazer previsões sobre o próximo capítulo. Tem quase 60 páginas. Não é dos maiores dessa fic, mas ainda assim é um capítulo grande (e capítulos grande são chatinhos. Até pra dar uma olhada na formatação do capítulo demora. Pra carregar demora. Tudo demora rs. Mas enfim, ele vai sair quando vocês menos esperarem. Não desistam ainda. Só lembrando, todos os erros são meus, não mandei pra ninguém betar (pra variar) por questão de tempo. Bjos a todos que ainda passam por aqui pra ler.