Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam



Agradecimentos:Guida-chan, Maho Malfoy, Dark Wolf 03 (*saltitante*), karoruyue, muito obrigada pelos comentários! De verdade, espero que gostem de mais esse capítulo.



Campo de Treinamento

Capítulo 8: Cartas e Artes Marciais

"Isso é... desumano!" Quatre se lamentou. Era sexta de manhã e eles encaravam desanimados o café da manhã.

"É por isso que chamando de 'cadeia', Quat," Duo brincou. "Se a comida fosse boa, seria um hotel."

"Mas é a terceira vez seguida que temos mingau pra comer. É tão difícil fazer ovos, panquecas ou omeletes?"

"Talvez as galinhas estão de greve," Duo sugeriu. "Aqui... deixa eu te mostrar como deixar essa porcaria comestível." Ele se inclinou, pegando punhados de manteiga e os misturando no mingau. "Ah... e um pouco de açúcar..." Jogou os cristais por cima. "Açúcar mascavo seria ainda melhor..."

"Maxwell, o que está fazendo?" Heero perguntou. "Você descaracterizou todos os aspectos saudáveis do mingau."

"Não tem nada de prejudicial em sabor, Yuy. Olhe e aprenda." Duo despejou uma generosa quantidade de leite em cima. "Pronto, Quat. Experimente."

Quatre pegou uma colherada de mingau amanteigado, doce e líquido, e comeu. Seus olhos azuis claros se arregalaram. "Ei... já é uma melhora."

"Viu só?" Duo abriu um largo sorriso, lançando um olhar desafiador para o líder. "Quer que eu arrume o seu também?"

"Só se quiser descobrir se existe vida após a morte," Heero respondeu com a expressão totalmente séria.

Duo parou, pendendo a cabeça para o lado e fixando os olhos índigo no outro rapaz. "Isso foi uma piada, Heero? Você acabou de fazer uma piada?" perguntou fingindo assombro.

"Não."

"Oh, eu acho que fez!" Duo insistiu, com um sorriso ainda maior. "E também acho que nosso líder está aprendendo a relaxar um pouco."

"Nem morto," Trowa falou em tom amorfo, sem tirar os olhos de sua tigela com seu mingau gosmento, o qual ele comia obstinadamente.

Os internos acabavam suas refeições quando Tenente Mikan entrou com uma sacola. "Correspondência!"

O recém-chegado andou pelas fileiras de mesas, lendo os nomes e entregando as cartas. Ao alcançar a mesa dos rapazes do time Wing, remexeu a sacola. "Tem um monte para vocês."

Duo se entretinha fazendo pequenas esculturas com o resto do mingau de Quatre, quando várias cartas se esparramaram na mesa ao lado de sua vasilha. "Ooo! Pra mim?" comemorou, pegando-as. "Vamos ver... Hilde, Hilde, Hilde, Howard e Hilde!" Bebeu o resto do leite em seu copo para ler tudo antes das classes.

Quatre recebeu um monte de cartas de suas várias irmãs e Trowa ganhou uma também.

Então, vários envelopes rosa recaíram na frente de Heero.

Duo tentou conter o riso, quase cuspindo o leite. "R-r-rosa!" zombou, engasgando e tossindo. "Yuy, quem mandou...?" Acabou-se num acesso de tosse.

Quatre bateu nas costas do amigo, um sorriso em seu rosto angelical. "Uau, Heero, essas são realmente... chocantes!"

Duo teve outra convulsão, batendo o punho na mesa sem conseguir se conter.

Heero fulminou o outro com um olhar irritado, levantando-se e recolhendo suas cartas. Passou por detrás da cadeira do jovem de trança, batendo bem forte nas costas do outro algumas vezes. "Dá um tempo, Maxwell!" rosnou. "Não é tão engraçado."

Duo soltou um xingamento quando sentiu as pancadas forçar o ar de seus pulmões. Arfando para recuperar o fôlego, encarou o líder. "É, é sim!"

O japonês foi até a saída, pausando para jogar as cartas no lixo no caminho.

Duo trocou um olhar com Quatre.

"Nem pense nisso!" o loiro avisou.

"Tarde demais," o rapaz de trança sorriu malicioso.

"Bem, não faça," Quatre replicou. "Isso é... ilegal."

"O quê? Tirar coisas da lata de lixo?" Duo ridicularizou. "Como pode ser crime?" Caramba, em L2, metade da comida que sustentava as crianças de rua vinha de lixeiras e lixões.

"Abrir correspondência alheia é!"

"Mas não é mais correspondência... é lixo!"

"Isso é um detalhe."

Duo se levantou e espreguiçou, pegando suas próprias cartas. "Vamos, Quat... me ajuda a saquear a lata de lixo."

"Não!"

O jovem de trança já saltitava em direção as lixeiras perto da porta. Mas quando se aproximou delas, Trowa calmamente passou, despejando metade de seu mingau na pilha rosa.

"Awww, Trowa!" Duo gemeu, observando derrotado a bagunça nojenta.

O rapaz de cabelos castanho-avermelhados continuou caminhando com um sorriso sacana no rosto.

Quatre se aproximou, seguindo o exemplo do mais alto e esvaziando sua vasilha na lata. "Se deu mal, Duo." Balançou a cabeça. "Meio asqueroso aí. Eu não tocaria nisso nem com luva."

Duo lhe mostrou um sorriso destemido. "E com uma colher?" Pegou o dito utensílio de plástico e raspou a sujeira do envelope o suficiente para ler o endereço borrado. Seus olhos se arregalaram e soltou um longo assovio, jogou a colher na lixeira e seguiu Quatre para fora.

"Ei, Quat... aposto que se soubesse quem escreveu as cartas estaria tão curioso quanto eu para saber o que está nelas."

"Estão destruídas, Duo. Deixa quieto."

"Relena Peacecraft."

Quatre parou de supetão. "Heero conhece Relena Peacecraft?" perguntou espantado.

"Já que ela escreveu um monte de cartas pra ele, é bem provável," Duo notou. "Agora não está arrependido de você e Trowa terem destruído as evidências antes de podermos ler?"

"Não!" o loiro reforçou firmemente.

Duo pareceu um pouco desapontado, arrastando-se ao lado do amigo fazendo bico.

Quatre o olhou de esguelha longamente e suspirou. "Então, quem são Howard e Hilde?" perguntou alegremente, tentando animar o outro.

"...um cara para quem eu trabalhei e uma amiga."

"Oh?" Quatre ergueu uma sobrancelha.

"Quê?"

"Que tipo de amiga é essa Hilde?" perguntou provocativamente.

Duo gargalhou. "Quatre, ela é como uma irmã pra mim."

"Ceeerto...," falou lentamente. "Uma irmã que escreve, tipo, todo dia? Não eram quase todas as suas cartas dela?"

Duo rodou os olhos. "Hum, Quat... tenho um bafão pra você, colega." Inclinou-se perto e falou baixo, mesmo sabendo que falava o óbvio. "Sou gay, e Hilde sabe."

"Oh." Quatre continuou o passo em silêncio e Duo começou a mexer nervosamente nas cartas em suas mãos.

"É tudo o que tem a dizer: 'oh'?"

"Hum..."

"Ah, agora 'ta melhor!" Duo comentou sarcástico. "Desculpa por dizer," murmurou franzindo o cenho. "Não achei que te incomodaria."

"Não, não é isso..."

"Esquece," respondeu abrupto. "Já entendi. Mas só pra constar, não queria te deixar desconfortável. Além do mais, você não faz meu tipo!" dobrou seus envelopes e os enfiou no bolso com uma expressão teimosa, rosto abaixado, andando um pouco mais rápido para chegar ao alojamento vários passos na frente.

Quatre suspirou, percebendo que sua reação magoara Duo, mas incerto de como proceder para se redimir. Assustara-se demais com a revelação casual para simplesmente responder: 'eita, eu também, que coincidência!'. Sempre aprendera na vida, na escola, no reformatório, a não ser aberto sobre sua homossexualidade. Toda vez reagiam negativamente. Portanto não lhe ocorreu em ser instantaneamente sincero com o amigo. E agora...

Entrou para ver Duo sentado em seu beliche, lendo as cartas com um franzir pensativo na testa, dando-lhe um ar sério no rosto geralmente alegre. Não era um bom momento para abordá-lo. Suspirando novamente, o loiro sentou-se em seu próprio colchão e deixou suas cartas em cima de seu baú.

"Não vai lê-las?" Trowa perguntou olhando de cima de sua cama.

"Agora não," Quatre deu de ombros. Olhou para Duo de novo e se levantou. "Acho que vou dar uma volta."

"Não sozinho," Heero automaticamente completou, erguendo o rosto do computador. "Maxwell..."

"Estou lendo cartas, Yuy." As palavras surgiram cortantes e frias.

"Barton?"

"Claro."

Trowa pulou de seu beliche, lançando um olhar inquisidor para Duo antes de se juntar com Quatre.

O loiro liderou o caminho, mãos nos bolsos, pensativo.

"Está bem?" Trowa perguntou, indo em direção a pista de corrida e, uma vez lá, caminhando em círculos nela.

"'Tô sim," Quatre respondeu indiferente. Não gostava de ter um clima ruim entre ele e um de seus amigos mais próximos no campo de treinamento. "Só... estou cansado, eu acho."

"É, todos nós estamos." Trowa comentou. "Eles pegam pesado com a gente, né?" Flexionou os ombros, estremecendo.

Quatre o assistiu com o rosto contraído, esfregando seu próprio ombro em reflexo. "Lesionou um músculo?"

"Não. Um tempo atrás me machuquei numa queda... no circo," Trowa explicou. "Demorou um tempão para me recuperar." Seus olhos verdes eram distantes. "Um tempão e um monte de remédios," falou com uma careta. "Acho que meu ombro não está acostumado com tanto esforço."

"Deveria ver a médica. Talvez ela possa te dar alguma coisa."

"Não." Trowa balançou a cabeça. "As receitas comuns nunca me ajudaram em nada." O que ele não mencionou foi o fato de uma de suas prisões ter sido por comprar drogas ilegais para aliviar a dor. Não era algo para se orgulhar e não queria ninguém mais sabendo disso. "Vou ficar bem," falou, percebendo a inquietação de Quatre. "Estou acostumado em compensar para não piorar."

"Se ficar pior, deveria pelo menos contar para Heero. Talvez ele consiga pedir para o capitão Chang te dar alguns dias de folga do exercício matinal."

Trowa deu um raro sorriso. "Certo. O ilustre capitão Chang admitindo minha fraqueza? Até parece."

"Ele tem muitas expectativas de nós..." falaram ao mesmo tempo, rindo do comentário feito pelo oficial em discurso antes da chamada.

Quatre sorriu contente para o rapaz de cabelos castanho-avermelhados. "Obrigado por vir comigo, Trowa."

"Agora quer me contar por que não o Maxwell?" o mais alto perguntou, lançando um olhar perceptivo para seu colega.

"Acho que... ele está um pouco desapontado comigo," Quatre admitiu. "Acho que falei algo errado."

"Mesmo?" Trowa ergueu uma sobrancelha. "Pensei que ele tivesse casca grossa. Quer dizer que realmente pode ferir seus sentimentos?"

"Bem, definitivamente se pode irritá-lo," Quatre deu de ombros.

Trowa riu novamente e o loiro se virou para encará-lo.

"Quê?"

"Você riu duas vezes em, sei lá, menos de cinco minutos." Quatre balançou a cabeça. "É..."

"Chocante?" perguntou irônico.

"Legal," Quatre corrigiu, respondendo com um cálido sorriso próprio.

Trowa sorriu também, repentinamente abaixando a cabeça para as franjas cobrirem o rosto, escondendo seu rubor. "Obrigado."

Caminharam por um tempo em silêncio.

"Me fale do circo," Quatre pediu de repente.

Trowa balançou a cabeça levemente. "Droga, não falo tanto assim há anos, Quatre. Não terei mais voz se falar mais."

Quatre riu, imaginando Duo dizer que ninguém notaria a diferença. "Vamos. Me entretenha ou vou te alegrar até a morte com histórias das minhas vinte e nove irmãs e da Corporação Maganac que protege minha família."

Trowa o contemplou duvidoso. "Sua história parece muito mais interessante," insistiu. "Você primeiro."

Andaram e conversaram até a hora da aula de artes marciais e se dirigiram diretamente para lá, encontrando seus companheiros no ginásio.

"Onde estavam?" Heero quis saber de imediato.

"Andando," Quatre fez pouco caso, desviando sua atenção para quem estava além dele; Duo tinha o rosto virado de propósito. Suspirou, o rapaz de trança ainda não esfriara a cabeça.

O quarteto sentou-se na arquibancada e esperou.

Tenente Li era o instrutor e estava de conferência com seus ajudantes do outro lado do tatame, então parecia ter alguns minutos livres.

Duo sentou-se de modo que Heero e Trowa estavam entre ele e Quatre, e se ocupou em olhar a sua volta. Quando seu olhar encontrou o de Austin, os olhos verdes o encaravam de volta. Fulminou com o olhar o rapaz abusado, inconscientemente encostando-se a Heero.

"Maxwell... pare de se remexer," Heero pediu com severidade.

"Não estou me remexendo." Duo tentou se distrair. "Mas, caramba, que assento duro."

Tenente Li ouviu o comentário e se aproximou sorrindo para o jovem. "Cansado de sentar? Venha cá, Maxwell... você e... Pritchard podem demonstrar o primeiro movimento."

Duo ficou tenso, olhando de esguelha para Heero que deu de ombros discretamente. O rapaz de trança se forçou para ir até o tatame.

Austin, com ar convencido, postou-se de frente ao adversário, um sorriso arrogante nos lábios.

"É isso aí... se fizeram os deveres de ontem, tenho certeza de que poderão demonstrar como dar uma chave de braço por trás. Maxwell, você é a vítima e Pritchard será o atacante." O tenente fez o movimento para Austin copiar: um braço ao redor do pescoço de Duo e outro se enrolando em seu braço esquerdo, deixando apenas um braço livre para o defensor. "Assim, Pritchard. Agora, você tenta."

Austin sorriu, rodeando Duo, este ficou ainda mais tenso. "Relaxe, Maxwell. Não vai doer nada," falou baixo.

Duo engoliu uma resposta, o olhar naturalmente encontrando Heero enquanto Austin jogava um braço ao redor de seu pescoço. O rapaz maior envolveu o braço esquerdo de Duo com o seu próprio e o puxou, as costas do de trança grudadas em seu peito. O tenente Li explicava o ataque e a defesa para os alunos. Estavam tão perto que o rosto de Austin estava quase ao lado do de Duo, os lábios praticamente encostando na orelha do mais baixo. "É assim que gosta, gracinha?" Austin sussurrou. Deslizou um dedo pelo pescoço pálido, do outro lado para os outros não conseguirem ver.

Os olhos índigo se arregalaram e no segundo seguinte, seu cotovelo encontrou o estômago de Austin, fazendo o rapaz tropeçar para trás, ofegando. Antes de conseguir se recuperar, Duo se virou e lhe deu um soco, jogando-o na parede acolchoada. Pressionou o braço contra o pescoço de Austin, prendendo-o ali.

"Da próxima vez que relar a mão em mim...!"

"Maxwell!" a voz do Tenente Li interrompeu a algazarra enquanto dois soldados agarravam Duo, tirando-o de perto do outro rapaz. "O que diabos foi isso?" Li exigia explicação, indo com passos determinados até o jovem que libertava seus braços e voltava para a arquibancada.

O rapaz de trança baixou a cabeça, olhando para o tatame. "Eu... perdi a calma, só isso," murmurou.

"Perdeu a calma?" ecoou o oficial. Seu olhar passeou de Austin para Duo, a testa franziu quando viu o sangue escorrer do nariz do de olhos verdes. "Você deveria demonstrar uma simples técnica, Maxwell... não atacar um recruta."

"Sim, senhor," respondeu rangendo os dentes. Duo não ergueu o rosto. "Deixei me levar."

"Lavará pratos até o Capitão te liberar," o tenente ordenou friamente. "E quanto ao resto da classe, vão fazer abdominais." Gesticulou para um canto do ginásio e Duo obedeceu.

"Austin... vá para a enfermaria e peça gelo para a Doutora Po colocar nesse nariz."

"Sim, senhor."

O tenente Li olhou longamente para Heero. "Espere uma conferência com Capitão Chang sobre isso, Yuy. Ele espera que tenha melhor controle sobre seu time."

Heero assentiu. "Sim senhor."

"Certo, acabou o espetáculo," encerrou o tenente, voltando a aula. "Próximos... Jacobs e Strom. E quero ver bom senso, garotos! Isso é prática, não um coliseu!"

Quatre deslizou ao lado do líder, uma expressão preocupada. "Sabe que deve ter uma razão para Duo ter feito o que fez," falou baixo.

"Eu sei," Heero respondeu com compostura. Sabia mesmo. Tinha ciência do time de Austin ter incomodado Duo e Quatre em pelo menos duas ocasiões, além da provocação na fila na noite anterior. Mas também sabia que o tenente não acharia essa uma desculpa aceitável para a explosão do companheiro. "Vou arrancar a verdade de Duo mais tarde," completou.

Quatre espantou-se. Não se lembrava de ouvir Heero usar o primeiro nome de Duo antes.

"O quê?"

"Nada."

Como esperado, logo após a aula, o tenente mandou Duo começar sua punição. Heero e os outros tinham outras classes, as quais os mantiveram ocupados até o almoço. Mas assim que chegaram ao refeitório, procuraram pelo companheiro.

Heero foi quem o encontrou na cozinha, sentado num canto. O jovem de olhos azuis conteve uma risada vendo o de trança descascando batatas. Era um cenário muito clichê.

Duo ergueu o rosto notando a chegada do líder. "Algo engraçado?" perguntou seco, escolhendo outra batata.

Heero sentia-se dividido pela frustração das conseqüências do descontrole de Duo e pela satisfação da expressão patética na bela face arredondada. Optou por uma aproximação austera.

"O que diabos foi aquilo?" reclamou, apontando o polegar sobre o ombro como se indicando o problema no ginásio.

Duo olhou para cima, parando com a batata, olhos índigo sombrios. "O que você tem a ver com isso?" perguntou sério.

"Quero saber por que quase quebrou o nariz de Austin. Sei que o time dele andava sendo insolente com você, mas isso não é desculpa para..."

"Ele me tocou, ta?" Duo rebateu, evitando o olhar do líder como se para conferir se estavam mesmo sozinhos.

Heero pareceu confuso. "Ele tinha... vocês estavam demonstrando uma técnica de agarre."

Duo se levantou, deixando a faca e a batata de lado. "Você não entende, Yuy. Ele me tocou." Circundou, até ficar atrás de Heero, praticamente na mesma posição de Austin anteriormente. Agarrou o líder com a mesma técnica demonstrada e se aproximou até os lábios estarem contra a orelha de Heero. Duo deslizou um dedo pelo pescoço do outro, do pé do ouvido até a clavícula. "Ele. Me. Tocou. Assim," sussurrou, sua respiração contra o rosto de Heero.

O líder não se moveu, parcialmente magnetizado pelos braços ao seu redor e o hálito quente contra sua pele. Estavam tão juntos que podia sentir as batidas do coração de Duo contra suas costas. "Eu... Eu... não sabia," conseguiu gaguejar.

"Agora sabe," respondeu, tão débil e desalentado quanto Heero. Duo se afastou, sentindo falta do calor do líder no mesmo momento, e retornou para seu assento voltando ao seu trabalho. Mas suas mãos tremiam tanto que não se atreveu a pegar na faca ou na batata. Ao invés disso, limpou as mãos num pano de prato e colocou-as no colo. "Por isso... me descontrolei," Duo confessou cabisbaixo.

"Vou reportar para o capitão que Austin passou da linha."

"Não!" Duo protestou efusivamente. "Quer que nosso comandante metido a machão me chame de garotinha assustada?" Encarou os olhos azuis implorando. "Você sabe que ele não vai perdoar, Yuy. Vai dizer alguma cretinice sobre como se eu fosse um soldado e fosse pego, deveria esperar pelo pior, e se perder a calma cada vez que alguém me tocar de modo estranho não vou estar equilibrado o suficiente para me defender numa briga!"

Heero precisava admitir, aquilo tudo soava como coisas a serem ditas por Wufei. Mas ainda não queria que o comportamento impróprio de Austin saísse sem punição.

Como se lendo seus pensamentos, Duo aprumou-se decidido. "Já descontei pelo que Austin fez, Yuy. E não ligo de ser castigado por isso. Deixa pra lá."

Heero assentiu. "Tudo bem, Maxwell." Virou-se para ir embora, ainda com a sensação do corpo do companheiro pressionado contra o seu e o calor do dedo deslizando em seu pescoço. Estremeceu levemente com a lembrança da respiração em sua orelha.

"Ei, Yuy."

"Quê?" olhou por sobre o ombro.

"Acha que morreria se me chamasse de 'Duo' de vez em quando?"

Deu de ombros. "Talvez... Duo." Ele perdeu o sorriso brilhante, porém desejoso do rapaz de trança quando partiu.

"Deus, queria tanto que ele fosse gay," Duo murmurou, enterrando o rosto no pano de prato.

Quando Heero voltou para o refeitório, encontrou Chang conversando com Trowa e Quatre. Estufando o peito, foi até a mesa.

Wufei o encarou quando se aproximou. "Acredito que tenha conversado com Maxwell."

"Sim senhor."

"Bom. Acompanhe-me até meu escritório, preciso conversar com você."

Heero trocou um olhar com seus companheiros, deu de ombros levemente e seguiu o chinês.

Tão logo fechou a porta, Wufei se virou para seu amigo de infância. "Sei da versão do tenente Li sobre o incidente desta manhã. Quero a sua."

"Maxwell e Pritchard deviam demonstrar uma técnica. Quando Pritchard o segurou, Maxwell o cotovelou no estômago, lhe deu um soco e o jogou contra a parede."

"Por quê?"

"De acordo com Maxwell, ele perdeu a cabeça por um momento."

Wufei apontou vagamente para uma pasta em cima da mesa. "Maxwell tem um histórico de violência física."

"Olhe para ele, Chang. Sinceramente te surpreende ele ter que se provar toda hora?" Heero percebeu parecer estar protegendo Duo, e tentou recuperar sua objetividade anterior. "Entretanto, não era exatamente um caso de autodefesa." Não exatamente.

"Aparentemente não..." Wufei se moveu para sentar em sua mesa e voltou-se para Heero. "No primeiro dia de obstáculos, encontrei o time de Pritchard com Maxwell perto do refeitório." Um leve sorriso cruzou seu rosto. "Parecia mais um bando de lobos encurralando uma presa."

"Maxwell mencionou isso para mim," Heero não se alterou. "Mas não foi específico."

"Eles se dispersaram quando cheguei," o capitão continuou. "Maxwell não fez nenhuma denúncia."

"Você sabe como é nesses lugares, Wufei."

"Na verdade não. Estou acostumado com soldados num quartel... não presidiários tentando criar uma cadeia alimentar," Wufei admitiu. "Mas andei estudando bem o assunto e estou disposto a conceder que Maxwell possa ter alguma justificativa pelo que fez... Talvez." Fixou os olhos negros no amigo. "Deixarei essa decisão para você. Seria perfeitamente dentro do regulamente mandar Maxwell para L2 agora mesmo. Tecnicamente, ele atacou outro recruta."

A testa de Heero se enrugou enquanto pensava no assunto.

"Não seja sentimental, Yuy. Maxwell não seria." O chinês lançou um olhar sábio para o amigo. "Ele é duro na queda, aquele garoto de rua. Não deixe a aparência delicada te enganar."

Heero assentiu. "Eu sei. Ele é muito mais do que os olhos podem ver."

"Pode ser, mas ele é um componente do seu time ou um empecilho?"

"Nesse momento?" Heero perguntou com um leve sorriso de canto.

Wufei balançou a cabeça, soltando um sorriso próprio. "Tenho a impressão de que você não quer mandá-lo embora ainda."

"Ainda não," Heero decidiu, sentindo uma onda de alívio. Não tinha noção do quanto não queria a partida de Duo até tomar a decisão de não fazê-lo.

"Espero que ele atinja as expectativas que você tem nele."

"Tenho?" Heero argüiu genuinamente surpreso.

O sorriso de Wufei tornou-se cálido. "Com todo o seu exterior durão, Yuy, você sempre teve um grande coração."

Heero então abriu um raro e genuíno sorriso. "Me rendeu amigos como você, Wufei."

O capitão apontou para a porta. "Pode ir. Vou pedir para o pessoal da cozinha segurar Maxwell até depois da limpeza da janta e mandá-lo de volta para o alojamento antes do toque de recolher."

"Obrigado," Heero agradeceu com uma leve vênia ao invés de bater continência, antes de se retirar.


A punição de Duo durou por toda a tarde e durante o jantar. Às oito e meia, ainda estava lavando pratos com a supervisão de um cozinheiro rabugento.

"Então, convencido de que o trabalho na cozinha é real?" uma voz soou da porta.

Duo se endireitou para ver o Capitão Chang recostado no batente com um sorriso muito satisfeito. "É..." tirou as mãos da água com sabão e se virou para estar mais ou menos de prontidão. "Quero dizer, sim senhor," consertou de má vontade com um tom sarcástico.

O capitão olhou para o cozinheiro. "Vá para a cama, Mitch. Eu assumo daqui."

"Sim senhor." O cozinheiro sorriu para Duo pela primeira vez no dia todo. "Você foi bem, garoto." Bateu nas costas do jovem de trança antes de tirar o avental e sair.

Duo observou desconfortável o capitão, esperando o sermão de sua vida... ou uma passagem para sua colônia natal.

Wufei lhe lançou um pano de prato. "Você tem um problema com o recruta Pritchard, Maxwell?" perguntou o oficial, olhos negros atravessando o rapaz.

"Apenas... personalidades incompatíveis." Respondeu vagamente, secando as mãos.

"Ah..." Chang diminui a distância entre os dois. "O dia da primeira corrida de obstáculos... Estavam tendo um problema de personalidades?"

"Olha, senhor..." Duo suspirou. "Sei que estava errado em acertá-lo. Quando ele colocou o braço no meu pescoço daquele jeito, perdi a cabeça." Tinha um olhar sincero no rosto. "Pareceu muito real, se é que me entende."

"Não sou ingênuo, Maxwell. Sei o que quer dizer." Ergueu uma sobrancelha.

"É, eu sei. Essa é a parte onde você diz como não tenho vocação para ser soldado."

"Por que não gosta de estar numa posição impotente?"

Duo assentiu.

"Ninguém gosta de estar nessa posição, Maxwell," respondeu o soldado. "E mesmo não podendo concordar com você machucando outro recruta, também não posso condenar a eficiência da técnica a qual você usou. Você, de fato, livrou-se do agarre de seu captor."

"Eu perdi a calma," Duo retrucou irritado.

O capitão Chang concordou. "Pois é. E quebrou pelo menos duas regras do campo de treinamento e provavelmente uma ou duas leis."

Duo o encarou duramente, conformismo estampado em seu rosto. "Vai me mandar para L2, não é?"

O capitão o analisou por algum tempo. "Ainda não, Maxwell. Volte para seu alojamento."

Os olhos índigo se alargaram. "Sério?"

"Não brinco, Maxwell. Dê o fora daqui," Wufei falou fazendo cara feia. Voltou-se para a porta, mas parou. "E agradeça Yuy."

"Pelo quê?" perguntou desconfiado.

"Deixei que ele tomasse a decisão." O capitão se fora antes de Duo poder dizer qualquer outra coisa. O rapaz de trança largou o pano no balcão suspirando pesadamente e dirigiu-se para a saída.

Já estava escuro quando se aproximou do quarto, melancolicamente examinando suas mãos enrugadas. "Se não ver um prato sujo enquanto viver ainda vai ser pouco," resmungou, abrindo a porta para ver seus companheiros se aprontando para dormir. Bem, dois estavam... Heero se ocupava digitando no laptop.

"Querida, cheguei!" Duo bocejou.

"Ótimo. Aqui está a matéria da aula de armas e táticas," Heero lhe estendeu vários papéis.

Duo os pegou, jogando-os em seu baú no caminho. "Vou ler de manhã."

"Essa noite, Maxwell," o líder pediu com firmeza.

Duo olhou para o japonês procurando algum traço do cara legal que o chamara pelo primeiro nome na cozinha. É... pelo jeito a lua de mel já era. "Estou cansado," reclamou, um tom de choramingo na voz.

Heero virou-se para ele com um olhar frio. "Meu coração sangra por você, Maxwell. Leia as porcarias dos papéis em quinze minutos ou prometo, você vai aprender a ter medo do escuro."

Duo parou, piscando. "Cacildes, Yuy! Você está ficando bem criativo nas ameaças."

"Lembre-se disso depois que as luzes se apagarem," ele complementou, voltando-se para a tela.

Duo o encarou por um momento, suas idéias vagando num sonho prazeroso sobre estar no escuro com Heero Yuy. Então o rapaz de cabelos compridos, com esforço, desviou a atenção para os papéis em seu baú. "Ta," murmurou, desamarrando e tirando as botas, e também as roupas para ficar apenas com uma camiseta e bermuda como pijama, antes de pegar a matéria. "Vou ler esta noite, mas sob protesto."

Escalou sua cama, enfiando-se debaixo das cobertas e se ajeitando no travesseiro para conseguir ver o conteúdo dos papéis.

"Duo?" Quatre ficou ao lado de seu beliche, olhos azuis esverdeados preocupados. "Você está bem?"

Duo bufou amargamente. "Bem, Quatre... pelo menos não estou a caminho de L2." Virou-se para a nuca de Heero. "O capitão disse que devo ser grato a Yuy por isso."

Heero ergueu o rosto genuinamente surpreso. "O que ele quis dizer?"

"Ele disse que a decisão de eu ficar ou não era sua." Duo examinou cuidadosamente o líder. "Quase soou como se você quisesse que eu ficasse."

"É verdade," a resposta foi simples, e Heero voltou para o computador.

"Por quê?" o tom de Duo era questionador e ao mesmo tempo provocativo.

Heero cessou o digitar. "Porque você diminuiu seu tempo na pista pela metade em três dias," deu de ombros, retornando para o seu trabalho.

"É isso?" Duo persistiu.

"Hn."

"A única razão por não ter me mandado para a prisão é porque consigo escalar uma corda rápido?"

"-e rastejar sob arame farpado."

Os papéis de Duo voaram e atingiram a cabeça de Heero. "Eu te odeio, Yuy." Duo se virou no colchão, enrolando-se mais na coberta. "Vou dormir."

Heero pegou as folhas espalhadas, jogando-as no baú do dono. Sorriu para Quatre, enquanto este caia em sua cama, pronto para se entregar ao sono.

Continua...