Cap. X – O Despertar de Um Novo Dia.
Sábado, nove horas da manhã. Os raios de Sol já preenchiam o solo grego há algum tempo, mas somente agora Anne se dera conta deles. Não, ela não queria abrir os olhos e muito menos se levantar, pois sabia que teria um pai e uma viagem que não queria pela frente.
- Bon jour, Anne.
- Bon jour.
- Não vai se levantar? Em duas horas estamos indo a França.
- Tive um sonho tão bom que não gostaria de me levantar. – disse ao se sentar.
- Ah é? E sobre o que era?
- Era sobre...
Emudeceu quando olhou para a mesa entre as duas poltronas: seu olhar se fixou no buquê de lindas rosas brancas envoltas em um delicado papel azul celeste. Saiu apressada em direção ao ramalhete, ao passo que Domenique, mais uma vez, ficava sem entender.
- Não foi... Não foi um sonho! – disse emocionada ao pegar o buquê.
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- Ai, Shurinha, to preocupado!
- Até eu to! Sempre achei dor de amor coisa de gente fresca, mas olha como o Kamus tá!
Os dois olhavam, por trás de uma das pilastras da Casa de Aquário, Kamus, que não saia da mesma posição há horas. Desde que tinha voltado de onde eles não sabiam, mas tinham certeza que foi um lugar impactante o suficiente para deixá-lo ali, perdido.
O cavaleiro em questão estava jogado em seu sofá, de uma forma que nenhum outro jamais tinha visto. Não ele, o sempre impecável de postura perfeita. Olhava para o teto, ou assim supunham, já que ele tinha a cabeça tombada para trás, olhando para cima.
- Ah, me corta o coração vê-lo assim.
- Culpa dele, Dido. Quem manda ser tão cabeça dura? Ele poderia ter tornado tudo mais fácil... Eu vou chamar o Miro. Ele tem que dar um jeito! – disse Shura preocupado.
- Não existe "jeito" para esse tipo de coisa, bobinho. – respondeu olhando o capricorniano. – Mas pode deixar que eu vou atrás do Mimi! Vê se você consegue fazer ele se distrair.
- Porra, sempre sou o bobo da corte!
Cada um dos dois cavaleiros foi para uma direção: Afrodite desceu as escadas e Shura foi de encontro ao dourado, enquanto pensava em como "quebrar o gelo" naquela situação totalmente incômoda, complicada e nova para ele, afinal ele nunca foi tão próximo do vizinho a esse ponto – o de "tomar" o lugar de Miro.
- Kamus? – chamou pelas suas costas.
- Ah, oi, Shura. – disse se mantendo na mesma posição.
- Sabe o que é? – respondeu com um sorriso amarelo, buscando uma piada dentro de si. – É que você tá derretendo todo o gelo da Sibéria desse jeito.
- Hum... Quem sabe assim não me afogo?
- Kamus, sério. – olhou cara a cara, preocupado. – Ce não tá pensando em fazer nenhuma besteira, tá?
- A maior besteira eu já fiz... – disse com os olhos vidrados em uma foto.
- Escuta, Kamus...
- Ela é linda, né? – comentou o interrompendo.
- Ahn? – respondeu surpreso. – Anne? E como!
- Essa foto... Eu não consegui jogar ela fora com as outras. Essa eu guardei... Porque esse sorriso, Shura, - disse entregando a foto para o capricorniano. – já me fez ficar feliz só em vê-lo nos dias que eu estava mais triste ou bravo.
Shura observou a foto, antiga. Anne estava bem mais nova, assim como Kamus, que tinha os cabelos bem mais curtos que atualmente. O rapaz envolvia a garota com os braços em torno de sua cintura, e essa sorria com as bochechas coradas e um sorriso espontâneo, abraçando os braços do então namorado, e o capricorniano então reparou, ao fundo da foto, a torre Eiffel. O capricorniano imaginou mil coisas, tentando refazer a cena em sua cabeça, mas não conseguiu. Aquele sorriso havia o desconcertado de tal forma que ele não conseguia responder mais nada. Até porque Kamus sorria com uma sinceridade, e uma felicidade que ele mesmo nunca tinha visto.
- Mesmo quando eu tava nervoso com tudo, com nossos pais, com o mundo... Ela sempre sorria e perguntava o que a gente ia fazer depois da aula. Um sorriso tão bonito que rezei pro tempo levá-lo pra longe de mim, mas ele não conseguiu...
- Kamus, olha... – disse o capricorniano sem jeito, tentando devolver a foto.
Ambos silenciaram. Miro e Afrodite se aproximavam lentamente, em direção dos dois ali presentes. Se fosse a outra ocasião, estariam rindo da cara consternada de Shura, mas naquele momento a expressão séria tomava conta de todos os presentes, enquanto Kamus parecia desabafar o que os anos deixaram escondidos dentro do seu gélido coração.
- Todos esses anos como cavaleiro, além de treinar a técnica do gelo, criei dentro de mim uma barreira, pra me isolar do resto, tentar esquecer a França e tudo o que ela me lembrava, mas... Eu não me esqueci...
- Então vai atrás dela, Kamus! – disse Miro se fazendo presente pela primeira vez na conversa.
- Não posso. – e então meneou a cabeça. – Ela precisa ir.
- E por quê?
- É o melhor pra ela, se afastar daqui e dos perigos que o Santuário pode lhe oferecer...
- Kaka, o Santuário não pode lhe fazer mal algum. – interveio Afrodite. – Você já escolheu o futuro de vocês uma vez, a deixe fazer essa escolha agora.
Kamus pela primeira vez olhou para os amigos, buscando a verdade em suas falas. Ou talvez coragem de fazer o que tinha vontade, depois de anos de atitudes pensadas e nenhum impulso. Será que era hora de fazer isso? Será que conseguiria?
Ela ainda te ama, seu cabeçudo! Até eu sei disso. – riu Shura divertido.
A que horas ela vai embora? – perguntou Miro.
Não sei... Só sei que é pela manhã. – olhou para o relógio. – Ela já deve ter ido embora...
Acredito que não. Vamos ligar e descobrir! – respondeu um Miro entusiasmado. – Levanta, cara, vamos lá!
O Escorpiano puxava o amigo com tal força que parecia que o braço de Kamus ia se soltar a qualquer momento, até chegarem ao telefone, ligarem para o hotel e perguntar sobre a garota. Miro sabia dos sentimentos da prima, e agora que ele sabia realmente os do melhor amigo, era hora de mudar. De dizer a verdade, e tentar ser feliz.
Dois adolescentes... – suspirou Afrodite.
Dois idiotas, isso sim. – resmungou Shura. – Qualquer um pode perceber que...
Ela tá lá! – interrompeu Miro. – Ela ainda não saiu do hotel!
Demorou, vamos logo pra lá! - se empolgou Shura também.
Ai que tudoooo! – disse um Afrodite deslumbrado.
Pára de viadagem, Dido. – disse Shura sério.
Pronto, Kamus?
A resposta foi um aceno de cabeça positivo.
Saíram os quatro dourados da Décima Primeira casa, rumo ao hotel, depois de encontrarem Giancarlo na Quarta, que também quis ir. Em principio, Miro relutou, não queria que o italiano os acompanhasse; a verdade era que tinha muito ciúme dele com a prima, mas quando ele firmou a idéia, não teve quem o fizesse desistir. E assim os cinco partiram.
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Anne, acorde!
A garota sequer parecia ouvir o que Domenique falava; estava abraçada com as flores que havia ganhado na noite anterior, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Era tudo tão confuso... Como o mesmo Kamus que lhe tratou tão mal e que lhe abandonou pode ter feito àquela surpresa tão linda?
Já se passou uma hora desde que se levantou, e ainda não tem nada pronto.
Não tenho mais nada o que arrumar... – disse distante. – Já me troquei, e tenho as malas prontas.
Mas não desceu para ver seu pai, ou tomar café.
Tenho duas horas ao lado de papai e não tenho fome alguma.
Por que tanto carinho por essas flores?
Porque amo rosas brancas... E gosto de ganhar flores. – sorriu. – Elas não são lindas?
Ah, sim, são belíssimas, mas quem as...
Três batidas na porta interromperam a pergunta da dama de companhia, para o alívio da garota. Olivier, o mesmo segurança da noite anterior, abriu a porta e entrou no quarto, após o "Pode entrar" dito por Anne.
Com licença, senhoritas, o Sr. Cambeaux pediu para que a chamasse, Domenique.
Ah, sim. Ele está em seus aposentos?
O guarda costas consentiu com a cabeça, e a mulher saiu apressada, afinal o presidente não era tão paciente assim. O rapaz então olhou Anne, que sorria feliz olhando as flores, e se aproximou, contente pelo fato de ela estar daquela forma a qual ele amava.
Você o deixou entrar, não foi? – perguntou a garota.
Sim, senhorita. Achei que ele podia lhe fazer algum bem...
Sim... – olhou para ele com os olhos marejados. – Obrigada. De todo meu coração.
E o rapaz novamente consentiu com a cabeça enquanto a garota abraçava o buquê e chorava. Ambos sabiam que, uma vez decidido, Claude Cambeaux não volta atrás, ainda mais se soubesse pelos motivos que a filha queria ficar. Por um lado, Anne pensou ser bom, pois assim esqueceria tudo. Mas por que seu coração ainda doía?
Domenique voltou apressada, como de costume.
Anne, partiremos em 30 minutos. Seu pai pediu para descermos as malas e irmos.
Certo...
Não gostaria que providenciasse um vaso?
Não precisa, elas irão agüentar. – E então disse para si mesma: – "Elas foram dadas pelo mestre do gelo...".
O mensageiro chegou com o carrinho de bagagens para levar as três malas de Anne mais as duas de Domenique. A garota enxugou as lágrimas e pegou dentro de sua bolsa um espelho para ver como estava, e constatou que estava melhor por fora do que por dentro. Ajeitou os cabelos e então se levantou, levando consigo as flores e um aparente sorriso.
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Os cinco rapazes, depois de pouco tempo, chegaram ao luxuoso hotel,chamando a atenção de alguns presentes quando estavam ainda na porta. O Sol estava forte, e a linda vista do Egeu dava jus ao nome do hotel; realmente parecia o paraíso. Mais alguns passos adiante e as portas automáticas se abriram, revelando um elegante saguão, ricamente decorado, ostentando a sua classe inegável. Naquele momento, os olhos de Afrodite brilharam, como se fosse os de uma criança.
Que lugar mais lindo!
Dido, olha a viadagem... – repreendeu Shura.
Cazzo! Como ela consegue ficar num lugar desses? – perguntou Giancarlo indignado.
É você ainda não viu a casa dela... – disse Miro.
E como é? – perguntou Afrodite maravilhado.
Parece um Castelo. Muito cheio de objetos de arte, ordens e frescura. – e fez uma careta.
Os olhos de Kamus procuravam Anne desesperadamente; ele sequer estava ouvindo alguma palavra. Todos falavam e falavam, enquanto o aquariano permanecia quieto e observador. O grupo chamou a atenção de um dos funcionários do hotel, não só pela movimentação excessiva, mas pelas roupas discrepantes que utilizavam, e ele foi prontamente ao auxílio dos demais.
Posso ajudá-los?
Sim, – respondeu Miro prontamente. – estamos procurando por Anne Cambeaux.
Desculpem-me, senhores, mas tenho ordens para não dar informações sobre a Srta. Cambeaux.
Mas ele é primo dela! – disse Shura indignado.
Sinto muito, as ordens são expressas...
Não pode dar informações nem para o noivo dela? – disse Kamus apressado.
Noivo? – assustou-se o mensageiro. – Bom, e quem é o senhor?
Kamyu Troirègnes, filho do Primeiro Ministro francês.
Shura, Afrodite e Giancarlo olharam Kamus totalmente surpresos. Anos que se conheciam, e ele jamais tinha dito o próprio nome, muito menos o sobrenome. Miro apenas olhou de canto de olho, sem esboçar reação alguma, afinal já sabia daquele "segredo". Kamus, por si só, já estava surpreso por revelar sua identidade, e ainda mais do modo como falou, como se tivesse orgulho, quando era justamente o oposto.
Oh, Sr. Troirègnes. – respondeu prontamente o funcionário. – Um momento, por favor.
O rapaz saiu e o silêncio permaneceu entre os cinco dourados. Ninguém comentava ou perguntava nada; todos eles tinham um segredo guardado a sete chaves, e sabiam que aquele era somente um dos muitos que Kamus guardava. Verdade dos fatos é que não gostavam de falar do que tinham deixado para trás; as lembranças podiam ser, por vezes, dolorosas demais. Todos se olhavam, como se seus olhos pudessem falar por eles e como se concordassem com tudo o que o outro sentia, mesmo sem que nada tivesse sido falado.
Será que ela já foi? – perguntou Afrodite quebrando o silêncio.
Acho que não... Espero que não... – desabafou Miro.
Sr Troirègnes, o Sr. e a Srta. Cambeaux estão...
Ali – apontou Shura pra o elevador.
O presidente, vestido em um elegante terno cinza escuro, que contradizia o Sol que iluminava a cidade, foi o primeiro a descer, seguido de Domenique, e então Anne. A garota usava um vestido tomara-que-caia branco com estampas de delicadas flores azuis celestes, que combinavam com a bolsa, os sapatos e o buquê que carregava. Um sorriso tímido estampava seu rosto, enquanto o presidente apresentava uma expressão séria. Anne e o pai eram bem parecidos, não havia como negar que eram pai e filha.
O pai dela é bonitão! – comentou Afrodite.
Ah, Dido, cala boca! – respondeu Carlo.
Eles caminhavam rumo à porta; não haviam visto o grupo que estava formado ali. Kamus e Miro se adiantaram um passo à frente, com o intuito de interceptar o grupo francês, enquanto os outros permaneciam mais atrás e o mensageiro voltava ao seu trabalho.
Oh mon dieu! – parou Anne subitamente, esbarrando no segurança.
O que aconteceu, senhorita? – perguntou o segurança assustado.
TROISREGNES! – gritou o presidente.
O grito do presidente havia respondido a pergunta do guarda-costas. Kamus era o segredo de Anne e Olivier, e ambos conheciam bem o comportamento, o temperamento e, acima de tudo, o ódio do presidente por aquela família. O empregado permaneceu imóvel, ao passo que Anne engolia a seco, temendo pela próxima reação do pai, que se apressou para ir de encontro ao francês e seu grupo. Ficaram bem próximos, a uma distancia de 3 metros, aproximadamente.
Bom dia, senhor Cambeaux. – iniciou cordialmente Kamus.
E isso então o levou para o passado, e novamente se sentiu o adolescente de Paris. A formalidade que os filhos tratavam os pais dos amigos, tanto da parte de Anne e Kamus como de Estelle, era algo que incomodava. A história havia se complicado ainda mais depois que Claude descobriu que a filha e o garoto eram namorados e ele havia a abandonado sem sequer dizer adeus, e piorou depois da morte da mãe dela.
Anne foi atrás do pai apressadamente; temia pelo pior. Domenique tentou impedi-la, mas a garota apenas lhe deu o buquê e ela parou. Cada um dos quatro seguranças também se apressou, e os cavaleiros se puseram na defensiva. Miro deu um sorriso tímido de quem já esperava por problemas, e então cumprimentou o tio.
Olá , tio Claude.
Miro? – se assustou. – Desde quando mora em Athenas?
Hum... – pensou. – Há algum tempo.
Papai, por favor... – disse ao se aproximar, segurando seu braço.
Anne! – disse ao se desvencilhar. – Foi por isso que demorou, não foi? Por causa deles?
Não totalmente...
E esse grupo? É a gangue dele? – perguntou para a filha.
Não fale assim dos meus amigos!
Seguranças!
Os homens de terno se colocaram dois passos à frente, rumo ao grupo. Os cavaleiros se puseram em alerta, Afrodite parecia indignado e Giancarlo já amava a idéia do combate, enquanto Shura pensava se tudo aquilo era mesmo necessário e até que ponto foi uma boa idéia irem todos para resolver os problemas de Kamus.
Não se atrevam a dar mais nenhum passo.
As palavras saíram da boca de Anne como uma ordem ameaçadora, pelo tom que usava. Os quatro homens de terno pararam imediatamente, não gostavam e dificilmente contrariavam as ordens da garota, que nunca usava tom tão grosseiro como aquele. Ela estava ficando realmente brava com o assunto.
Sr. Cambeaux, eu só quero conversar com Anne...
Nem pensar! Você não vai falar nada com a minha filha, seu covarde imundo!
As razoes pela quais sai da França não lhe dizem respeito – fitou-o sério.
Saiu? Você fugiu! Tinha que ser um Troirègnes!
Papai, por favor... – suplicou Anne.
Pois saiba que nossas vidas mudaram totalmente depois que você se foi. Perdi minha filha e você matou minha mulher!
O que matou a mamãe foi essa briga estúpida entre você e o pai dele! – interveio Anne às lagrimas.
Kamus se culpou por cada uma daquelas palavras. Sempre teve um carinho muito grande por Diana, assim como Anne teve por Sophie, sua mãe. Ele não sabia o que responder. Não sabia nem se havia o que responder, afinal, nenhuma daquelas palavras era falsa. Talvez não tivesse matado a mãe de Anne, pelo menos não diretamente, mas ele era um covarde por ter saído como saiu, e ainda fazer muito mal para a pessoa que mais amava no mundo. Será que ele conseguiria se redimir agora, cinco anos depois?
Bom, vamos acalmar os ânimos... – disse um despojado Miro, tentando aparentar tranqüilidade. – Atirar palavras não vai mudar nada.
Giancarlo já havia cruzado os braços, irritado. Odiava o fato de não entender nada do que conversavam e discutiam, pois o faziam em um idioma que ele não entendia nada além de ofensas. Shura, o mais despreocupado de todos, já tinha se sentado no sofá e apenas olhava. Isso quando não era distraído por uma ou outra mulher bonita que passava. Já Afrodite, o mais sensível de todos, olhava toda aquela cena comovido, como se estivesse lendo um romance ou vendo um filme romântico, esperando pelo próximo capítulo.
Porra, até quando eles vão falar essa língua de viado?
Carlo, olha o respeito com os outros! – repreendeu Afrodite.
Pero que si, pero que no. – debochou Shura.
Fazer biquinho para falar, que coisa mais gay. – e então soltou em italiano. – Tem que ser homem, como italiano.
Quem vê até pensa... – soltou Afrodite em sueco.
Dois bobos! - riu Shura, ainda falando espanhol.
E então deu-se início ali uma discussão sem fundamento e em três idiomas totalmente diferentes, dos quais eles mal entendiam xingamentos, especialmente da parte italiana, enquanto Miro ia tentar falar com o tio, com o intuito de apaziguar tudo e de resolver todas as pendências uma vez por todos. Amava a prima e se entendia razoavelmente bem com o tio, mas não podia deixar o melhor amigo sem apoio. Ainda mais depois de ele finalmente ter se aberto.
Ora, titio, vamos. Deixa os dois se resolverem logo, ou isso vai trazer mais sofrimento pra todo mundo...
Anne respirou fundo e foi em direção a Kamus, que vinha ao seu encontro. Os dois se olhavam nos olhos e permaneciam mudos, alguns passos pareciam quilômetros. Aquela parecia à primeira vez, o primeiro encontro. Os corações batiam fortes e eles não sabiam o que dizer um para o outro, embora muito tivesse a ser dito. A garota resolveu começar pelo agradecimento
Obrigada pelas flores, elas são lindas.
Que bom que gostou.
Os dois novamente se calaram e a única voz ouvida no recinto foi "Até que enfim eles tão falando grego!", dita pelo canceriano, antes de ser repreendido novamente por Afrodite, enquanto o espanhol ria da sagacidade de Anne ao conversar em um idioma que o pai não entendia praticamente nada, e logo não saberia do que conversavam.
Kamus tinha reconquistado o coração dela, ou pelo menos assim pensou. Ela podia ter se recusado a sequer falar com ele, ou achar que a noite anterior foi um devaneio, mas não. Ela estava ali, pura e inocente bem a sua frente, e agora ele podia consertar as coisas. Voltar de como não deviam ter saído. Fazer com que ela soubesse o quanto era especial...
Anne, eu sei que perdi muita coisa, mas eu não quero perder mais nada...
Kamyu, não...
Eu sei que não sou mais o mesmo, que duvidei de você, que falei coisas que não deveria... – tocou o rosto da garota.
Por favor... – pediu se rendendo.
Sei também que tô longe de ser o cara perfeito pra você, e que você merece coisa melhor... – aproximou seu rosto.
Eu...
Anne, você é tudo que tenho de bom, a pessoa que mais preciso na minha vida... – disse com um sorriso sincero.
Kamyu... – disse já com os olhos cheios de lágrimas.
Eu posso te dar mil motivos pra ir embora. – sussurrou. – Mas só tenho um pra fazer você ficar.
Não...
Eu te amo, Anne. E nunca amei, amo ou vou amar alguém que não seja você...
Ela tentou refutar, mas acabaram se rendendo em um beijo apaixonado e emocionado. Anne chorava, Kamus sentia-se libertado, Miro sorria enquanto via o tio ficar vermelho de raiva e indignação e o trio do outro lado também sorria, aprovando a cena, como se fosse um final feliz que os dois finalmente mereciam – algo inacreditável até mesmo para o italiano que foi contra desde o princípio.
O casal então voltou à realidade, depois de um beijo que os fez viajar anos atrás em uma distante cidade francesa...
Anne, fica comigo, é tudo que te peço.
Kamyu... – se soltou dele. – Não posso.
E por que não? – perguntou incrédulo.
Porque... – disse chorando mais. – Não há espaço pra mim na sua nova vida... Você tem uma nova casa em um novo país, tem muitas responsabilidades...
Eu largo tudo! – disse sem pensar. – Eu largo tudo por você.
Os Cavaleiros olharam incrédulos tamanha impulsividade, Shura até mesmo se levantou, como se assim pudesse ouvir melhor o que ele dizia. Nenhum deles parecia acreditar naquelas palavras, provindas daquele que por tantos anos foi o mestre do gelo.
Nossas vidas já são tão cheias de arrependimentos... Não posso pedir isso pra você. – e chorava cada vez mais. – O nosso amor é francês...
Anne, não, por favor.
Me desculpa! – disse desabafando. – Eu vou te amar, toujours... Cuide-se, Kamyu, eu te amo!
Então se apressou até ele, envolveu seu rosto com as suas delicadas mãos e lhe deu um curto beijo antes de sair correndo pela porta, sozinha, entre lágrimas e soluços, e sem olhar para trás, ou se arrependeria. Não se despediu, não falou nada, simplesmente saiu. O pai, Domenique, Olivier e o séqüito de seguranças a seguiram logo depois, e quando Miro pensou em ir falar com a prima, a mão de Afrodite o impediu. Era inútil, e seria ainda mais doloroso.
O aquariano permaneceu parado. Os cavaleiros o cercaram, consternados, a espera do que ele faria e Miro, seu melhor amigo, o abraçou. E pela primeira vez em sua vida, Kamus chorou. Os demais tentaram consolá-lo, cada um a sua maneira, mas não havia como; o destino tinha separado aquele casal outra vez. E então resolveram ir embora.
Anne entrou no carro, chorando copiosamente. Abriu sua bolsa, e então tirou um colar, que abraçou com força enquanto chorava cada vez mais, a ponto de soluçar. Domenique chegou com as flores e o pai entrou logo em seguida. Não gostavam de ver a garota daquela forma. Ninguém falou nada. E então foram embora.
N/A: Obaaaa
Mais um capítulo no ar D
E com drama!
É um dos meus favoritos, porque imagino a carinha do Kamus e a dor da Anne...
Obrigada a todos pelas reviews, to amando muito!
E obrigada aos que somente lêem e não postam, fico feliz do mesmo jeito!
Ao contrário do que parece, esse ainda não é o final!
Ahahaha eu não seria tão malvada a ponto de terminar uma fic assim, ne?
Enfim, o que será que acontecerá agora?
Anne voltou para a França e os dourados para o Santuário.
Últimos episódios a caminho!
Beijos e muito obrigada D
