Capítulo 10 – Mancha de crueldade.

Não conseguia tirar de sua mente tudo o que ocorrera naquela noite. Por mais que tentasse esquecer, o ocorrido voltava sempre a lhe assombrar a memória... Como um flash interminável. Não conseguiria dormir aquela noite, ele sabia. Resolvera, então, ficar em contato com a natureza, como se ela lhe pudesse acalmar ou até mesmo aconselhar. Sentia-se perdido em meio às suas incessantes perguntas. Muitos porquês sem resposta aparente rondavam-lhe a cabeça. Ele apenas não entendia...

- Anna... Por quê? A imagem da itako com um espírito assassino não lhe saia da mente. Não conseguia entender porque a garota tentara matar a doce Midori. E nem tampouco porque não a odiava por isso. Na verdade, Yoh ainda não identificara seus verdadeiros sentimentos por detrás daquela ação da jovem de cabelos dourados. Estava totalmente confuso. Não sabia se devia odiá-la ou se deveria tentar entendê-la... E, nem ao menos conseguia compreender mais os seus sentimentos por Midori.

Midori. O anjo que ele sempre esperara. O anjo de seus sonhos, assim ele julgava. O sentimento que deveria ter por ela se denominava amor. Porém, será que deveras sentia amor por aquele anjo? Sua mente realmente estava dando voltas e voltas. Não sabia mais identificar se sentia amor pelo anjo. As ações de Anna deixaram-lhe dúvidas. Sentimentos contrastantes vinham-lhe à tona quando pensava naquelas duas mulheres. O que ele deveria sentir por Anna era ódio ou raiva. Mas, o que ele sentia era um certo medo. Medo de perdê-la. E ele não sabia o significado desse medo. Por Midori, deveria querer protegê-la, estar perto dela. Mas, ele se encontrava afastado...

- O que está acontecendo comigo! Yoh levava suas mãos à sua cabeça, procurando afastar aqueles pensamentos tão contraditórios.


Anna ouvira com atenção toda a trágica história de um amor proibido, que mesmo enfrentando toda uma escassez de compreensão conseguira produzir fruto. Uma bela história de amor, apesar de ser tão triste. Dois seres viveram uma relação proibida e conseguiram resistir aos obstáculos da intolerância até o fim. O verdadeiro amor é aquele que consegue resistir a todos os invernos carregando, ainda assim, a essência da primavera. "Como uma história tão linda pode gerar tanta intolerância e destruição?".

- ... Uma história trágica que dura mais de mil anos. Quem irá parar esse ciclo de destruição? Anna indaga a si própria, mas olhava fixamente para Hao, como se quisesse fazê-lo entender...

- Eu não procuro por vingança. Eu procuro por justiça! Afirma o onmyouji.

- Justiça não se obtém à base de destruição. Justiça se constrói! Torna a itako.

- Isso é relativo, Anna. Você sabe muito bem que cada um tem o seu próprio senso de justiça...

- Hao... O desejo de sua mãe não é essa sua justiça. O verdadeiro desejo dela é a sua felicidade. E... Todos esses anos você não conseguiu encontrá-la...

- Anna... Alguém tem que pará-lo.

- Eu irei pará-lo. Diz Anna.

- Não conseguirá sozinha. Torna Hao.

- Eu tenho em mim algo que ele quer! Ele terá que vir pessoalmente buscar. E ele virá. Será quando eu irei terminar de uma vez com isso! Não me importam as conseqüências.

Hao observa a itako, em silêncio. Olhava-a suavemente. Seu olhar continha um certo brilho de decepção. Porém, era uma decepção para com consigo mesmo. Todos esses anos ele vinha procurando respostas às suas perguntas. Muitas delas ele conseguiu encontrar naquele dia...

--- Flashback ---

Era uma noite de inverno. Nevava em Osorezan. Um pequeno garotinho com uma longa capa encontrava-se parado em meio à neve, estava escondido em cima de uma árvore para não ser notado. Estava vigiando uma pessoa. Havia sentido sinal de perigo perto dela e fora verificar se tudo ocorreria bem. Protegeria aquela pessoa se fosse preciso. A cena que tinha visto lhe surpreendera em todos os sentidos. Os seus sonhos agora começavam a lhe fazer sentido...

- Então... Essas criaturas existem de verdade... Aqueles sonhos... Mamãe... Ia refletindo até a aparição de mais duas criaturas, que, de início, não lhe despertaram muita atenção, mas com o surgimento de outra criatura alada, dessa vez negra, toda a sua atenção se voltara para aquelas criaturas místicas e seu sangue começara a ferver de ódio com o que sucedera... O anjo negro era o centro de muitos de seus sonhos e pesadelos... Sua mãe sempre estava presente em todos eles, como se ela quisesse lhe mostrar a verdadeira face daquela criatura negra.

Hao havia presenciado a sentença do pequeno anjo branco, uma criatura que possuía um coração tão puro, uma expressão tão serena e um poder tão misterioso. Seu ódio pela criatura alada negra crescera ainda mais dada a punição àquele ser de aura tão doce. Sentira vontade de proteger aquele pequeno anjo. Abraçar-lhe em seu corpo para lhe dar conforto, porém sabia que não poderia fazê-lo. Não poderia revelar a sua presença. Ainda havia muitas perguntas sem resposta. Teria que montar as peças que faltavam naquele quebra-cabeça. Decidira, então, proteger de longe o pequeno anjo misterioso.

--- Fim do flashback ---

Anna olha-o surpresa. Ele vira tudo. Tudo o que gerara os trágicos acontecimentos de sua vida como humana. Ele sabia de toda a história e decidira protegê-la pelas sombras. Enquanto ela própria se esquecera de toda essa história. Guardara em algum lugar de sua alma que fosse inacessível a fim de diminuir o sofrimento. Era fraca demais para agüentar. Só agora que se considerava apta a combater o seu passado é que conseguira reaver suas memórias esquecidas.

­- ... Então... Você presenciou tudo? Ela pergunta, mesmo que já soubesse a resposta.

- Foi o que me permitiu entender os meus sonhos. Sonhava com minha mãe e com aquele anjo negro. Minha mãe sempre tentava me revelar seus segredos, mas sempre a sombra daquela criatura a impedia. Aquela criatura coberta por uma mancha de crueldade...

- Foi por isso que você decidiu me proteger? Para que eu pudesse lhe ajudar a encaixar as peças do quebra-cabeça que faltavam? Torna a perguntar a itako.

- Não. Eu decidi te proteger porque você me lembra, de certo modo, a minha mãe. Responde Hao. "Uma criatura angelical. Uma essência tão pura e bondosa. Um coração tão alvo. Um olhar misterioso, doce e tão triste. Uma aura que me atraiu desde a primeira vez. Eu decidi te proteger porque eu me apaixonei por você naquele dia... Essa é a verdade. Que eu nunca poderei lhe revelar...".

- Em tão pouco tempo... Conseguiu reunir tanta informação. Você faz jus a seu título de supremo onmyouji! Afirma Anna.

- Foram todos sonhos. Em meus sonhos eu consegui ver toda uma história. A minha mãe quis me revelar a verdade. Mas, por detrás dessa verdade há algo muito maior. Algo que ela não pôde me revelar. Algo que eu ainda não consegui encontrar. Eu só sei que nós precisamos detê-lo. Deter aquela mancha de crueldade...