Obrigada aos leitores pelos reviews recebidos. Fico feliz que estejam gostando da fanfic!


Yamamoto

"O azul ou o vermelho?"

A pergunta nunca chegou aos ouvidos do Guardião da Chuva dos Vongola. As palavras permaneceram voando ao redor de sua mente, e a pessoa à sua frente o olhava com certa curiosidade e preocupação. Entretanto, embora encarasse a jovem mulher, tudo o que o moreno via era...

"Você está ouvindo, Takeshi?" Yurika agitou a mão. "Eu perguntei sua opinião sobre os sapatos."

Foram necessários alguns segundos para que Yamamoto voltasse à realidade e se lembrasse que estava dentro de um shopping, mais precisamente uma loja de sapatos. Como ele havia chegado até ali era um verdadeiro mistério.

"O azul." A resposta saiu mecânica, mas ele se forçou a sorrir para parecer mais convincente. O truque pareceu funcionar, pois a jovem mulher retribuiu o sorriso e segurou os sapatos enquanto seus olhos brilhavam. "Você se importaria se eu esperasse do lado de fora? Está muito abafado aqui dentro."

"Isso pode demorar um pouco, desculpe." Yurika corou e sorriu ao receber um terno beijo no alto de sua cabeça.

O Guardião da Chuva deixou a loja e afrouxou a gravata em seu pescoço. Respirar havia se tornado uma tarefa difícil nos últimos dias. Sua atenção também parecia não ser a mesma, e uma parte dele se sentia mal em deixar a namorada sozinha na loja, mas, verdade fosse dita, permanecer ao lado de Yurika havia se tornado estranhamente complicado. Eu não consigo esquecer o que ele disse. A menção daquelas palavras o fez passar a mão pelos cabelos, colocando-as na cintura logo em seguida. Seu corpo virou-se e ele viu a jovem mulher através do vidro da loja, e seus lábios automaticamente se repuxaram em um meio sorriso. Eles estavam juntos há dois anos e até cinco dias atrás ele achou que viveria uma vida pacata e sem muitas aventuras. Eu até já havia escolhido o anel. Mais alguns meses de trabalho e eu teria dinheiro suficiente para pedi-la em casamento durante uma viagem à França. Isso, claro, antes de seu melhor amigo lhe dizer com todas as letras que estava apaixonado... por ele.

Por que a pessoa que eu sempre amei é você, Yamamoto. As palavras de Gokudera não deixaram sua mente um segundo sequer depois de ouvi-las. O moreno se lembrava exatamente da cena, como se a estivesse vivendo novamente. Naquela tarde, ele havia ido ao escritório do Guardião da Tempestade para chamá-lo para almoçarem juntos. Aquele era um hábito criado após anos de amizade, mas ao encontrar a sala vazia, ele esperou sua companhia por alguns minutos, indo visitá-lo novamente algum tempo depois. Porém, havia algo diferente no homem de cabelos prateados quando ele retornou, e Yamamoto notou isso assim que seu amigo entrou no escritório. O Braço Direito exibia um meio sorriso e um ar tranquilo. Aquilo o deixou levemente desconfortável, e automaticamente a imagem do homem que ele havia encontrado no corredor do apartamento de Gokudera surgiu em sua mente. Quando ele me disse que gostava de homens aquilo não me surpreendeu. Mas ao pensar que ele tinha estado com aquele homem há poucos minutos, isso sim me incomodou. A pergunta deixou seus lábios de maneira estrangeira e ele tinha plena consciência de que invadia o espaço pessoal de outra pessoa. "Você o ama?" Aquilo foi descuidado. Eu não estava pensando...

Entretanto, o Guardião da Chuva jamais esperou ouvir aquela resposta.

"Por que a pessoa que eu sempre amei é você, Yamamoto." Dita com uma voz baixa e olhos honestos. Os pensamentos do moreno pararam e ele encarou o homem de cabelos prateados sem saber o que deveria fazer. Seus olhos não conseguiram piscar, seus lábios não proferiram palavra alguma. Era simplesmente inacreditável.

"Eu estive apaixonado por você durante muitos anos, Yamamoto." O Braço Direito do Décimo complementou ao vê-lo tão sem reação. "Mas não me leve a mal, eu sei o meu lugar e em momento algum eu esperei qualquer forma de reciprocidade. Eu estou feliz por você estar pensando seriamente sobre seu futuro com Yurika, então não deixe que isso te afete."

Ele disse isso de maneira tão trivial, como se fosse possível não ficar afetado ao ouvir aquele tipo de coisa. Foi preciso algum tempo até que Yamamoto conseguisse falar alguma coisa, e tudo o que deixou seus lábios foi um breve "Entendo..." Tolo, você não entendeu nada. O Guardião da Chuva balançou a cabeça, tentando esquecer aquilo tudo. Depois daquela estranha conversa os dois amigos se encontraram apenas depois de três dias, mas dessa vez ao lado de um terceiro elemento. Chrome pareceu feliz em vê-lo no grupo, mesmo a garota não demonstrando absolutamente quase nada. Os três conversaram durante uma tarde inteira, repassando informações e tentando encontrar um buraco em toda aquela história. Quando a reunião terminou, o moreno ficou responsável por falar com Hibari no dia seguinte, e apesar de receber uma missão tão importante, Yamamoto passou aquela noite basicamente em claro, tentando entender como alguém como o Guardião da Tempestade pudesse gostar de alguém como ele.

Não faz sentido. Eu não sou nada demais. E por que ele não disse nada? Todos esses anos... O Guardião da Chuva recordava-se das vezes que conversou com o homem de cabelos prateados durante todos aqueles anos. As namoradas que teve, os problemas... o Braço Direito do Décimo sempre esteve a par de sua vida amorosa, e aquilo o deixava ainda mais incomodado. Se ele sentia isso, por que me ajudou? Eram sempre dele os conselhos para que eu conversasse com as garotas. Aliás, foi basicamente por culpa dele que eu conheci Yurika. Os dois se conheceram na época do colégio, mas o moreno só foi tomar coragem para convidá-la para sair dois anos depois e apenas porque Gokudera insistiu, e muito para, que ele fizesse isso. Soa muito cruel imaginá-lo me ajudando depois que soube dos seus sentimentos.

Um longo suspiro cruzou os lábios de Yamamoto, coincidindo com o aparelho celular vibrando no bolso traseiro de sua calça. De nada adiantaria perder tempo com aquele tipo de pensamento, ele sabia disso melhor do que ninguém. O visor do celular mostrou o nome de Hibari e por um momento o Guardião da Chuva juntou as sobrancelhas, incrédulo.

"Alô...?"

"Yamamoto Takeshi?" A voz do outro lado definitivamente não era a do Guardião da Nuvem.

"Sim, quem fala?"

"Kusakabe Tetsuya. Eu falo do templo Namimori. Permita-me atrapalhá-lo por alguns segundos."

"C-Certo." O moreno coçou a nuca, sem graça. Ele nunca sabia como lidar com pessoas que eram muito educadas. Seu jeito simples sempre acabava deixando-o levemente constrangido.

"Eu gostaria que você visitasse o templo quando estivesse com algum tempo livre em mãos. Existe alguém que precisa ser levado para casa, mas ele ainda não está em condições de ir sozinho."

O meio sorriso desapareceu dos lábios de Yamamoto e suas sobrancelhas se juntaram. Havia algo errado ali e ele podia sentir aquilo com cada fibra de seu corpo. "O que aconteceu?"

"Kyou-sama teve um pequeno desentendimento com o Guardião da Tempestade dos Vongola. Ele está bem e fora de perigo, mas ainda não recobrou os sentidos e acredito que não seja seguro deixá-lo ir para casa nesse estado."

"Não o deixe sair do templo, eu estou indo para ai neste momento." O Guardião da Chuva respondeu no mesmo instante. Sua voz saiu séria e seu sangue tornou-se quente. Ele se lembrava da maneira como havia sido tratado por Hibari quando o visitou há poucos dias, mas o desdém e arrogância daquele homem nunca o surpreenderam. Porém, naquele momento, ele desejou não encontrar o Guardião da Nuvem ou não saberia como as coisas terminariam. "Como ele está?"

"Alguns arranhões e um hematoma do lado direito do rosto. Ele sobreviverá." A voz de Kusakabe não mudou. Era o mesmo tom sério e educado. "Eu estarei esperando, Yamamoto Takeshi e obrigado pelo seu tempo.

A ligação foi encerrada e o moreno guardou o aparelho celular no bolso, passando a mão nos cabelos e dando meia volta, pronto para seguir direto até o templo. Entretanto, antes que pudesse dar o primeiro passo, dois olhos negros o encaravam com curiosidade, e pela primeira vez desde que saiu da loja de sapatos Yamamoto lembrou-se de que não estava no shopping à passeio. Yurika...

"O que houve? Você está pálido, Takeshi." A jovem mulher esticou a mão para tocá-lo, mas o Guardião da Chuva esquivou-se do toque.

"D-Desculpe." O moreno corou. Seu corpo moveu-se para trás sem que ele percebesse. "Você já escolheu o sapato?"

"Sim." Yurika tornou-se séria. "Aconteceu alguma coisa? Você não parece bem? É algo relacionado ao trabalho?"

Sim e não. "Sim," a resposta soou estranha aos seus lábios, "algo surgiu e eu preciso resolver, mas vou deixá-la em sua casa antes. Vamos?"

"Eu estou bem." A mulher sorriu. "Eu posso pegar um táxi, não se preocupe. Vá resolver o que é preciso e depois conversaremos."

"Não, eu posso tranquilamente levá-la em casa."

"Não, não pode." Yurika sorriu timidamente. "Você está tremendo, Takeshi, e está bravo e eu posso ver claramente em seus olhos que você quer ir embora."

O Guardião da Chuva não havia percebido que tremia até aquele momento, assim como não notará que estava incrivelmente sério. Eu devo tê-la assustado. "Eu sinto muito, Yurika."

"Não sinta, eu ficarei bem, de verdade."

"Eu irei visitá-la à noite, está bem?"

"Eu estarei esperando."

O moreno depositou um segundo beijo no alto da cabeça da moça e afastou-se. Seus passos começaram como uma caminhada rápida, mas tranquila, porém, em determinado momento ele estava praticamente correndo, chegando ao estacionamento e entrando no carro com pressa. O que eu estou fazendo? O veículo deixou o shopping e ganhou a rua, e Yamamoto pensou rapidamente qual seria o caminho mais curto até o templo. O local não ficava longe, mas as ruas eram grudadas e cheias de sinais. A escolha surgiu antes que ele virasse a primeira esquina e o Guardião da Chuva fez menção de afrouxar um pouco mais a gravata até decidir tirá-la de vez de seu pescoço. O acessório foi colocado no banco do passageiro e, ao encará-la completamente estática, o moreno lembrou-se de quantas vezes Gokudera não esteve ali ao seu lado, reclamando e fazendo comentários levemente arrogantes e ácidos, mas que apenas escondiam sua personalidade reservada. Eu nunca desconfiei de nada. Ele nunca demonstrou absolutamente nada.

Era difícil aceitar aquele tipo de situação. E o fator principal não era por serem dois homens, por mais incrível que aquilo parecesse. Aquilo soaria absurdo, mas Yamamoto realmente não se importava com aquele tipo de coisa. As pessoas eram livres para amarem quem quisessem, aquela sempre fora sua opinião. A dúvida que habitou sua mente naqueles cinco dias foi saber dos sentimentos de alguém que sempre foi seu melhor amigo e que jamais havia demonstrado o menor interesse em sua pessoa. Ele costumava me detestar e deixava isso bem claro. Quando foi que aconteceu? Pensar parecia ser a única coisa que mantinha a raiva longe, e pensar foi o que ele fez. Por cerca de dez minutos o Guardião da Chuva se martirizou com lembranças, tentando encontrar o menor sinal de interesse por parte do homem de cabelos prateados. O carro foi estacionado em frente à grande escadaria do templo e o moreno subiu os degraus com pressa. O jardim bem cuidado, o Sol, o céu azul... nada disso entrou no campo de visão de Yamamoto naquele momento. Tudo o que ele pensava era o que encontraria ao chegar ao templo e, principalmente, como encararia o Braço Direito do Décimo.

Kusakabe o esperava na varanda. O Braço Direito de Hibari fez uma polida reverência e o guiou através de um longo corredor mal-iluminado, até a parte reservada para os quartos de hóspedes. "Kyou-sama não se encontra na casa, o que eu acredito ser benéfico."

Você não faz ideia. O Guardião da Chuva juntou as sobrancelhas, caminhando com certa pressa. Havia diversas portas de madeira em ambos os lados e todas decoradas com papéis de arroz, formando imagens de cerejeiras, rosas e pássaros. Kusakabe caminhou até o fim do corredor, parando em frente a uma porta do lado esquerdo e arrastando-a. O moreno sentiu a garganta seca e o coração apertado, imaginando que encontraria Gokudera desfalecido sobre um futon, completamente abatido.

A realidade, porém, foi bem diferente. O Guardião da Tempestade estava em pé e acabava de colocar o terno. Havia uma marca vermelha em um dos lados de seu rosto, mas ele parecia bem.

"Eu disse que não era necessário. Eu me sinto bem e posso chegar em casa sozinho." O homem de cabelos prateados não encarou Yamamoto. Seus olhos e palavras foram direcionados a Kusakabe.

"Peço que me perdoe, mas fiz o que achei mais seguro." O Braço Direito não pareceu arrependido.

Gokudera então lançou o primeiro olhar na direção do Guardião da Chuva. Os olhos se encontraram, mas o Braço Direito do Décimo não demonstrou nada, apenas agradeceu baixo. O moreno engoliu seco e se sentiu idiota. O que ele esperava? Ou melhor, o que ele estava esperando acontecer? O Guardião da Tempestade aproximou-se, mas antes de ir virou o rosto e encarou Kusakabe:

"Diga ao seu chefe que eu falei sério e retornarei, mas da próxima vez eu não permitirei que ele me atinja novamente."

"Obrigado por se preocupar com Kyou-sama." O Braço Direito fez uma polida reverência.

Não houve resposta. O homem de cabelos prateados seguiu pelo corredor e Yamamoto foi atrás, ambos sem trocarem nenhuma palavra ou comentário. Os barulhos dos passos tocando o piso de madeira ecoavam por praticamente todos os lados. O Guardião da Chuva estava um pouco atrás, então seus olhos vagaram para a pessoa à sua frente, encarando aquelas costas. Até aquele momento nada estava diferente. O Braço Direito parecia o mesmo, a pele pálida, os cabelos prateados um pouco abaixo das orelhas, o jeito sério e firme de andar, os passos longos e decididos... ele era a mesma pessoa. Então, o que havia mudado? Por que agora parecia tão difícil caminhar ao lado daquele homem?

"Nós teremos trabalho com Hibari." Foi Gokudera quem quebrou o silêncio, e isso só aconteceu quando eles atingiram a longa escadaria. "E eu tenho um mau pressentimento quanto a isso."

"O que houve? Você disse que era apenas uma visita."

"Diga... quando vir aqui é somente uma visita?" O Guardião da Tempestade parecia levemente irritado. "Hibari é completamente desequilibrado, mas eu tive minha parcela de culpa e não posso dizer que a surra não tenha sido merecida. Ele teve sorte de me pegar desprevenido."

"O que você disse a ele?" Yamamoto girou a chave para destravar o carro. Eles haviam descido e ele não notara.

"A verdade." O Braço Direito abriu a porta do passageiro e entrou no veículo. "Nada mais do que a verdade."

"Podemos passar em alguma farmácia." Assim que se sentou no banco do motorista o Guardião da Chuva encarou a mancha vermelha na bochecha do homem ao seu lado. "Isso ai vai ficar feio."

A mão que se ergueu e tocou o rosto do homem de cabelos prateados moveu-se sem que ele percebesse. Quando notou, seus dedos tocavam a pele branca de Gokudera, sentindo a temperatura daquela região. O gesto, porém, não pareceu surpreender sua companhia. Yamamoto retirou a mão no instante em que percebeu o que havia feito, mas o Guardião da Tempestade não pareceu ter notado ou se importado. Eu sou o único consciente aqui. Ele age como sempre agiu. O que eu estou fazendo?

"Eu ficarei bem." O Braço Direito de Tsuna respondeu displicente. "Me deixe em casa e eu ficarei bem."

"C-Certo."

Nunca uma viagem de carro entre eles passou tão constrangedora quanto aquela. As mãos do moreno estiveram ao volante o tempo todo, seus olhos nas ruas, mas sua mente e atenção estavam fixas no homem sentado à esquerda¹. Gokudera olhava para o seu lado da janela e parecia pensar em alguma coisa, provavelmente a briga que teve com Hibari. Yamamoto estava curioso para saber exatamente o que havia acontecido, mas sabia melhor do que ninguém que seria indelicadeza naquele momento, além de que aquilo significaria iniciar uma conversa, e o Guardião da Chuva não sabia se conseguiria isso.

O veículo foi estacionado em frente ao edifício em que o homem de cabelos prateados morava. O moreno fez menção de sair e acompanhá-lo, mas o Braço Direito do Décimo fez sinal para que ele continuasse dentro do carro.

"Eu estou bem; não precisa se dar ao trabalho." O Guardião da Tempestade abaixou-se, e então sua cabeça foi a única parte visível através da janela. "Obrigado pela carona e depois conversaremos sobre o que houve."

A despedida entre eles foi um breve aceno, mas Yamamoto permaneceu no mesmo lugar até que Gokudera começasse a subir as escadas. O carro então seguiu pela rua e o Guardião da Chuva conseguiu respirar naturalmente. A conversa que tivera com Yurika no shopping retornou à sua mente, mas o moreno sabia que não estava em condições de encontrar a namorada. Desde a tarde que soube dos sentimentos do Braço Direito do Décimo Yamamoto se sentia levemente incomodado quando estava na companhia da jovem mulher. O veículo virou à esquerda e o Guardião da Chuva seguiu em direção à sua casa. Um pouco de trabalho braçal no restaurante de seu pai talvez trouxesse a paz de espírito que ele tanto precisava.

x

Gokudera gritou, espumou de raiva e teria explodido o escritório se fosse possível. A mesa havia sido revirada, a estante estava ao chão e uma das poltronas havia sido reduzida a pó. O moreno estava ao seu lado e o segurava pelo braço, sem saber o que dizer, recebendo em troca um olhar carregado de pura raiva. Do outro lado do cômodo Chrome observava a cena com a mesma expressão branca e não parecia incomodada com o ataque de fúria do Guardião da Tempestade.

"Não temos tempo para isso. Você vai falar com o homem ou eu irei?" A Guardiã da Névoa lembrava muito uma boneca de porcelana. Pele clara, um bonito vestido negro, longos cabelos escuros e apenas um olho visível.

"Eu irei!" O homem de cabelos prateados respondeu entre os dentes. "Não vou correr o risco de ter outra parte do plano arruinada."

"Eu não arruinarei o plano. Eu não sou Hibari Kyouya." Chrome fez uma discreta reverência antes de abrir a porta e sair.

"Você precisa se acalmar, Gokudera." Yamamoto ainda tinha a mão ao redor do braço do Guardião da Tempestade.

"Não me diga o que fazer, idiota!" O Braço Direito do Décimo se afastou, caminhando até o centro do escritório e começando a andar de um lado para o outro enquanto acendia um cigarro de maneira trêmula.

Aquela notícia não poderia ter sido comunicada em pior momento. Naquela manhã, ao chegar ao edifício que servia como escritório, o Guardião da Chuva estranhou ver um carro diferente no estacionamento. Seus passos o levavam tranquilamente pelo corredor, quando a voz alta de Gokudera chegou aos seus ouvidos e ele entrou na sala do homem de cabelos prateados sem nem ao menos pedir permissão. Chrome estava no local e o Guardião da Tempestade lançou um olhar sério para seu novo visitante. Em poucos segundos o moreno soube o que havia acontecido: Tsuna sabia, e aquela informação havia sido compartilhada por Hibari. Por longos minutos o Braço Direito do Décimo explodiu com palavras e ameaças. Sua raiva era quase palpável.

"Talvez você devesse deixar Chrome cuidar disso, Gokudera." O Guardião da Chuva não sabia direito o que deveria dizer. Embora compartilhasse da opinião do homem de cabelos prateados, ele também sabia que a próxima etapa era importante e não poderia ser realizada por alguém de cabeça quente.

"Eu estarei bem. Não irei hoje. É melhor que eu nem saia daqui hoje ou sou capaz de ir direto para o templo ensinar aquele arrogante a cuidar dos próprios assuntos." Gokudera virou-se. Seu rosto estava vermelho de raiva. "Eu disse a ele. Eu disse que ele deveria ficar quieto. O Jyuudaime não merecia saber de nada. Nós estamos cuidando do assunto. Por que ele tinha que se meter?"

É assunto do Hibari também. O moreno pensou, mas nada disse. Em momentos como aquele ele não sabia exatamente o que dizer, e dadas as circunstâncias em que ambos se encontravam, Yamamoto sabia menos ainda como deveria reagir. Gokudera não se importa. Ele não age de maneira diferente e não cobra nada. Eu simplesmente não sei mais como agir perto dele. Aquela constatação o acertou em cheio na noite anterior quando ele se pegou olhando algumas fotografias antigas enquanto procurava uma revista antiga sobre baseball. As fotos tiradas no Ensino Médio pareciam felizes e cheias de prospectos para um brilhante futuro. Em uma das fotos ele estava ao lado de Yurika, enquanto o Guardião da Tempestade sorria animadamente junto de Tsuna. Naquela e nas outras fotografias não havia sinal de tristeza ou um olhar diferente. O homem de cabelos prateados nunca havia dito ou feito nada que o levasse a pensar em segundas intenções. Entretanto, a confissão foi real. O Guardião da Chuva viu a seriedade nos olhos do Braço Direito do Décimo. Então, o que ele deveria fazer? Haveria alguma conversa entre eles? Algo que definisse o que aconteceria em seguida?

"Gokudera..." A voz do moreno saiu baixa e uma de suas mãos fechou-se em forma de punho.

"O quê?" O Guardião da Tempestade parou de andar e se virou para o homem que estava atrás de sua mesa.

"Eu não sei o que fazer." A sinceridade o fez sentir-se novamente como um garoto. O momento era péssimo, ele sabia, mas o moreno também sabia que não conseguiria ficar mais um dia vivendo aquela angústia.

"Nem eu." O homem de cabelos prateados deu de ombros. "O Jyuudaime não veio trabalhar nesses dias e eu não sei se devo visitá-lo para explicar a situação. De qualquer forma eu não acho que ele vá me receber e convenhamos, ele está cer–"

"Eu falo com relação a nós."

Yamamoto não era o tipo de pessoa que interrompia as outras. Ele gostava de ouvir o que as pessoas tinham a dizer, prestando atenção aos detalhes únicos de cada ser humano. Porém, ao notar que o Braço Direito do Décimo não havia entendido suas palavras, e ao invés de responder diretamente ele havia começado a falar de Tsuna, o Guardião da Chuva se sentiu incomodado, quase frustrado. Não é sobre Tsuna. É sobre mim, é sobre você... é sobre nós.

"Não existe nós." Gokudera respondeu depois de alguns segundos. Sua expressão tornou-se séria e o moreno notou que ele havia ficado levemente surpreso. "E eu não sei do que você está falando."

"Sim, sabe." Yamamoto juntou as sobrancelhas. O que era aquilo? Então um dia ele ouvia uma confissão extremamente importante e no outro era como se nada tivesse acontecido? "Eu preciso saber o que acontece agora."

O Guardião da Tempestade o olhou, suspirou e apagou o cigarro no cinzeiro portátil que estava dentro de seu terno. Aquela atitude desinteressada e a maneira como ele não parecia se importar fez o Guardião da Chuva se sentir nada mais do que um tolo.

"Ficamos como sempre estivemos, Yamamoto." O homem de cabelos prateados respondeu com o tom de voz normal. Sua expressão havia se suavizado. "Eu não disse aquilo esperando uma resposta, eu apenas... disse. Você não precisa se sentir pressionado a me dar uma resposta, não é necessário." O Braço Direito do Décimo encarou o chão brevemente. "Eu estou feliz por você e Yurika, de verdade, e não deixe que o que eu disse atrapalhe a nossa missão. Se depois disso você quiser desfazer a nossa amizade eu não o impedirei, mas saiba que eu nunca tive esperanças que você correspondesse aos meus sentimentos e, para ser sincero, eu já não sinto o mesmo. Eu te amei, sim, mas a vida continua e eu um dia deixarei de amá-lo por completo, então não se preocupe, pois este não é um problema seu. Meus sentimentos por você são completamente indefesos e eu não espero nada de você, acredite."

Seria difícil definir qual sentimento o apossou ao ouvir aquelas palavras. A princípio o moreno se sentiu aliviado por ter tirado aquilo tudo de seu peito. Ele passou noites pensando em como lidar com aquela situação, e saber que um peso havia sido levantado de suas costas era reconfortante. Todavia, quando Gokudera deu de ombros e disse que iria até a copa tomar café, Yamamoto se sentiu incomodado com a parte sobre amores esquecidos e a total falta de desapego por parte daquele homem. O escritório pareceu maior e o Guardião da Chuva recostou-se à mesa e cruzou os braços. Daquela janela era possível enxergar uma parte de Namimori, e ela estava coberta por belas árvores de cerejeira, exatamente como o entorno do colégio que ele costumava estudar.

O moreno suspirou e retornou alguns anos em sua memória, lembrando-se do dia em que havia dito ao Guardião da Tempestade sobre sua primeira namorada. Ele era totalmente inexperiente e a garota havia se confessado ao final de um dos treinos de baseball. O homem de cabelos prateados – naquela época um garoto de quinze anos – o havia olhado com os dois olhos arregalados, mas depois sorriu e ralhou com ele dizendo que a garota merecia coisa melhor. Naquele momento Yamamoto pensou como o Braço Direito do Décimo havia se sentido. E naquele instante também ele se sentiu uma pessoa cruel, não por Gokudera ser um homem assim como ele, mas porque o Guardião da Chuva se colocou no lugar do amigo, e ninguém merecia passar por aquele tipo de situação. Naquele dia, quando eu lhe chamei para conversar, o que passou por sua mente, Gokudera? E quando eu falei sobre a garota, como você se sentiu?

O moreno passou a mão direita pelos curtos cabelos negros e sentiu o estômago girar. Ele não se lembrava do rosto da garota, mas se recordava muito bem da expressão surpresa no rosto do Guardião da Tempestade, imaginando quanto sofrimento não havia levado àquele homem durante todos esses anos.

x

Tomozaku Nori era um dos maiores mafiosos de Namimori e o motivo pelo qual ele ainda continuava na ativa era porque Hibari Kyouya fazia bom uso de suas habilidades. Yamamoto não fazia ideia de quem fosse Tomozaku, mas quando Gokudera ouviu de Chrome que o Guardião da Nuvem não havia conseguido nenhuma informação daquele grupo, um brilho diferente pintou seus olhos verdes e ele respondeu prontamente que conversaria novamente com o Chefe da Família. Depois de ter um acesso de raiva que durou praticamente o dia inteiro, o homem de cabelos prateados seguiu para casa e disse que se encontraria com o mafioso no dia seguinte. O Guardião da Chuva se prontificou a acompanhá-lo, achando que não era seguro deixá-lo ir sozinho. As respostas do Braço Direito do Décimo foram os mesmos: "Eu não sou uma criança, idiota!", "Eu sei me virar sozinho, idiota!" e a clássica: "Faça o que quiser, idiota." E ele fez, ou melhor, faria.

No dia seguinte, o moreno estava pontualmente às 14hs no escritório dos Vongola. Gokudera o esperava no estacionamento, e pela ruga entre suas sobrancelhas ele ainda estava irritado com o assunto referente à Tsuna.

"Eu posso dirigir." Yamamoto arriscou uma conversa assim que entraram no carro. Qualquer coisa que melhorasse o humor de sua companhia seria bem-vinda.

"Não o meu carro." O Guardião da Tempestade deu partida no veículo e lançou um olhar irônico. "Você veio precavido."

"Cuidado nunca é demais."

O Guardião da Chuva apertou a bainha em suas mãos. A espada estava entre suas pernas e, apesar de não se sentir inclinado a passear para cima e para baixo armado, o moreno não era tão tolo e ingênuo para pisar em território inimigo completamente desarmado. Seus olhos castanhos miraram o homem ao seu lado e ele não precisou perguntar para saber que, embora houvesse feito aquele comentário inicial, o homem de cabelos prateados também estava cheio de fogos de artifício. "Quem é esse homem? Eu nunca ouvi falar dele."

"Ele é o Chefão dessa área." O Braço Direito do Décimo diminuiu a velocidade ao ver a luz amarela surgir no semáforo. "Eu nunca o vi pessoalmente."

"Mas você sabe quem ele é, não?"

"Todo mundo sabe quem ele é."

"Eu não sabia."

"Isso porque você é um idiota."

O comentário foi seguido por um meio sorriso e Yamamoto não conseguiu não fazer o mesmo. Há alguns dias ele não se sentia tão à vontade, e ter o antigo Gokudera de volta era reconfortante. Os pensamentos estranhos e confusos não o atrapalharam mais depois da conversa que tiveram no dia anterior, e o Guardião da Chuva se sentia tranquilo. A missão para aquela tarde seria simples: eles perguntariam, eles pressionariam e eles iriam embora. Qualquer informação que pudesse ser compartilhada sobre os Moretti seria recebida de braços abertos.

O local marcado para o encontro seria em um caríssimo quarto de hotel. O lugar ficava afastado do centro e foi preciso quase vinte minutos até que o alto e brilhante edifício surgisse em seu campo de visão. O moreno ergueu os olhos quando o veículo foi estacionado, imaginando quanto não custaria uma diária em um lugar como aquele. Havia alguns homens espalhados na calçada, e um deles aproximou-se do carro, fazendo sinal para que eles seguissem à direita, na direção do estacionamento.

"Não faça nada desnecessário e não diga nada que eu fosse achar idiota, entendeu?" O Guardião da Tempestade disse baixo, antes de sair do veículo.

Yamamoto não teve tempo de responder, então apenas riu baixo com o comentário. O mesmo homem que havia feito sinal na entrada do hotel os esperava próximo ao elevador do subsolo.

"O senhor os espera." O homem vestia uma calça jeans e uma camiseta simples e passaria despercebido em qualquer lugar. "Acredito que vocês estejam desarmados como foi combinado."

O homem de cabelos prateados não respondeu e o Guardião da Chuva não entendeu, pois a bainha da Shigure Kintoki estava bem visível em suas costas.

O edifício possuía mais de quarenta andares, mas o translado passou mais rápido do que o moreno esperava. Em nenhum momento o elevador parou para receber outras pessoas, abrindo-se apenas ao atingir o último andar, o topo. A porta se abriu e mostrou uma bela e decorada sala. Logo de cara o que chamou a atenção de Yamamoto foram as cores vivas: vermelho e dourado cobriam praticamente tudo, do tapete felpudo aos quadros na parede. Dos vasos de flores às poltronas de veludo. O cômodo parecia ter saído de um dos quadros ocidentais da Renascença e novamente o Guardião da Chuva se perguntou quanto custaria permanecer ali.

"Por aqui."

O mafioso com as vestes casuais apontou para a direita e foi para a direita que eles seguiram. Enquanto adentrava àquele mundo novo e totalmente diferente, os olhos do moreno estavam também alertas. Sua mão apertou a alça da bainha com um pouco mais de força, e ele estava preparado para qualquer movimento súbito. Daquele cômodo para o próximo eram necessários alguns passos, além de atravessar um pequeno corredor. Da sala cara e dourada eles passaram então para um outro lugar completamente fora da realidade. O novo cômodo provavelmente servia como escritório, ou Yamamoto assim pensou. O lugar era tão largo quanto o primeiro, mas ali a decoração era um pouco menos chamativa e um pouco mais séria. O vermelho e o dourado deram lugar ao preto e branco, e o cômodo possuía uma larga mesa de madeira, três cadeiras, seis poltronas e dois largos sofás. E ali, sentado em uma das poltronas, ao lado de uma mesinha de chá, estava Tomozaku Nori.

"Senhores."

O homem que recebia o título de mafioso mais poderoso de Namimori certamente mereceria aquele nome, pelo menos se fosse julgado fisicamente. Tomozaku era alto, quase tão alto quanto o próprio Guardião da Chuva. Sua pele era branca e seus cabelos curtos, mas perfeitamente penteados. Ele era japonês, então seus olhos eram negros, mas grandes e possuíam um brilho diferente. Não existia barba ou bigode em seu rosto e ele vestia um belo conjunto social negro. Não havia acessórios como aneis ou colares, mas seus sapatos eram caros. Entretanto, a presença daquele homem era pesada e Yamamoto sentia que ele era perigoso. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram e instintivamente seu corpo se projetou um pouco à frente, deixando Gokudera atrás.

"Por favor, sentem-se." Tomozaku apontou para o sofá em frente à sua poltrona.

"Obrigado."

O Guardião da Tempestade foi o primeiro a se sentar e somente naquele momento o moreno notou que ele não parecia incomodado. A expressão no rosto do homem de cabelos prateados era a mesma, e ele se sentou e se acomodou sem parecer intimidado.

"Primeiramente eu gostaria de agradecer a visita e dizer o quanto estou honrado por receber dois Guardiões dos Vongola. Há muito tempo eu venho tentado entrar em contato com a Família."

"Eu gostaria de dizer o mesmo, mas não posso." A resposta do homem de cabelos prateados fez Yamamoto virar o rosto e olhá-lo surpreso. Não havia nenhuma expressão diferente. Os olhos verdes fitavam o mafioso sentado à frente, mas, exceto isso, o Braço Direito do Décimo parecia perfeitamente normal. "Você sabe por que estamos aqui, então pouparia trabalho se nos dissesse tudo o que sabe sobre os Moretti. Eu quero saber o que você não disse a Hibari Kyouya."

A sinceridade por trás daquelas palavras pareceu surpreender até mesmo Tomozaku. O homem abriu um sorriso largo, deixando a mostra duas fileiras de perfeitos dentes brancos, para, em seguida, soltar uma sonora e prazerosa gargalhada. Quando os segundos de graça passaram, os olhos do homem pousaram em Gokudera com extrema curiosidade e o Guardião da Chuva mexeu-se incomodado no confortável local em que estava sentado. Ele não havia gostado daquele olhar.

"Você é mais interessante do que os botados dizem, Guardião da Tempestade dos Vongola." Tomozaku sorriu. "E eu realmente tenho bastante a dizer, mas não acredito que este seja o local e o momento propícios para certos assuntos. Aparentemente Hibari Kyouya não me deu motivos reais para compartilhar o que eu sei."

"Diga a hora e local. Nós estaremos lá." O moreno respondeu antes que o homem de cabelos prateados pudesse ter a chance de fazê-lo. Algo naquela conversa o deixou inquieto e intimamente ele não conseguia ignorar o tom de voz e os olhares que aquele homem lançava para sua companhia. Asco fazia com que seu estômago girasse.

Tomozaku não se dignou a olhar Yamamoto. Seus olhos não saíram um segundo sequer da figura do Guardião da Tempestade, e após alguns segundos do mais puro silêncio, o mafioso mais poderoso de Namimori inclinou-se um pouco, o suficiente para que sua mão pousasse delicadamente, mas de maneira possessiva, sobre a perna do Braço Direito do Décimo.

"O que acha de conversarmos sobre isso hoje à noite, Gokudera Hayato? Eu diria, talvez, em um jantar?"

O quê? Yamamoto virou maquinalmente a cabeça na direção de Gokudera. Ele havia ouvido direito? Aquela criatura havia acabado de fazer um convite totalmente suspeito e cheio de segundas, terceiras e quartas intenções? Ali, bem na sua frente, e justamente para alguém tão orgulhoso quanto o Guardião da Tempestade?

"Por que não? Se teremos um jantar significa que você tem muito a dizer, então eu aceito."

O Guardião da Chuva abaixou os olhos, encarando as próprias mãos. Ele não ousava manter o olhar em Gokudera, muito menos encarar Tomozaku. Seus ouvidos captaram o horário combinado para o jantar e quando o homem de cabelos prateados ficou em pé, ele fez o mesmo. O restante de conversa que eles tiveram naquele local passou direto pelo moreno. Ele não ouvia, ele não falava, ele não sentia.

Yamamoto nunca soube dizer como caminhou até o elevador, como cruzou o estacionamento do hotel e como entrou novamente naquele carro. Seus passos foram automáticos, seu corpo moveu-se, mas ele não estava ali. Não houve nada dentro de sua cabeça ou seu coração durante o caminho de volta ao escritório. Ele não acreditava no que acabara de presenciar, era como assistir a um filme em que as atitudes e escolhas dos personagens não pudessem ser alteradas não importasse o quanto os espectadores quisessem. Ele vai dormir com aquele homem. Ele vai se oferecer por meia dúzia de informações.

O pensamento veio acompanhado pelo toque do celular no bolso de seu terno. O aparelho tocou por alguns segundos até o moreno lembrar-se de onde estava e pegá-lo. O nome de Yurika brilhou no visor, levando um gosto amargo à boca do Guardião da Chuva. Desde a confissão de Gokudera sua relação com a futura noiva estava estranha, e, naquele momento em especial, ela era a última pessoa que ele gostaria de falar. Não necessariamente a última... O aparelho foi desligado e recolocado dentro do terno. O carro foi estacionado em frente ao escritório dos Vongola e Yamamoto desceu do veículo, mas sentiu que aquele era seu limite.

"Eu irei para casa sozinho, Gokudera. Mantenha-me informado sobre o que descobrir."

A resposta foi um menear de cabeça, e em segundos o Guardião da Tempestade estava dentro do edifício. O moreno passou as mãos pelos cabelos, olhando ao redor e tentando descobrir algo que pudesse tirá-lo daquela situação. Seu sangue fervia de raiva, indignação e outra coisa. Esse outro sentimento o sufocava e o fazia sentir vontade de retornar ao hotel com sua Shingure Kintoki e obter aquela informação de outra forma. De uma maneira mais fácil...

O Sol parecia ter se tornado mais forte e Yamamoto decidiu ir embora. Seu celular foi religado e ele ignorou as três ligações de Yurika que não foram atendidas. O número que ele discou chamou duas vezes até ser atendido por uma voz simpática e nostálgica. O Guardião da Chuva avisou que ajudaria no restaurante naquela tarde e Tsuyoshi apenas riu e disse que esperaria pelo filho. Quando a ligação foi encerrada, o moreno caminhou até seu próprio carro, apertando as mãos e cerrando os dentes ao ver seu próprio reflexo no vidro. Eu não posso retornar àquele hotel ou matarei aquele homem.

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O chão havia sido limpo, assim como o balcão, as mesas e praticamente todos os utensílios da cozinha. O Guardião da Chuva deixou seu pai orgulhoso quando o trabalho de limpeza havia terminado e isso coincidiu com o pôr do sol. Yamamoto subiu para o segundo andar da casa quando os clientes começaram a chegar, sem muito ânimo para cumprimentos e sorrisos. O primeiro local de parada foi seu quarto, mas o objetivo final seria o banheiro. O moreno entrou debaixo do chuveiro e fechou os olhos, permitindo que a água fria lavasse muito além de seu corpo. Eu não consigo parar de pensar nisso, Yamamoto abriu os olhos e encarou as palmas de suas mãos, eu poderia ter dito "não". Eu poderia ter arrancado aquela informação, mas eu não fiz nada. Eu estava ali, ao lado, e não disse nada.

O banho não o ajudou a esquecer o que havia acontecido naquele começo de tarde, mas um telefonema de Yurika sim. O Guardião da Chuva havia retornado ao quarto com apenas uma toalha branca ao redor da cintura quando seu aparelho celular tocou. Seus olhos encararam o visor, e ele soube que não poderia ignorar a jovem mulher por muito mais tempo.

"Desculpe, eu estava ocupado." Foi a resposta do moreno quando indagado sobre a falta de notícias naquele dia. "Sim, sim. Eu já estou a caminho. Se quiser posso levar o jantar. Não? Tem certeza? Hahaha estarei ai em poucos minutos."

A ligação foi encerrada com um suspiro. Yamamoto caminhou até o guarda-roupa, abrindo a parte onde estavam suas roupas sociais. Seus olhos castanhos encararam as peças, mas ao final ele acabou optando pelo outro lado. A escolha para aquela noite foi um conjunto esportivo vermelho. Ele iria de carro até a casa de Yurika, mas não via necessidade de utilizar terno e gravata para isso.

O restaurante estava cheio quando o Guardião da Chuva desceu, então ele só conseguiu avisar um dos empregados que ele estava de saída. O senhor que o conhecia desde pequeno sorriu e desejou lembranças à Yurika. Aquela cena havia se tornado tão cotidiana que o moreno sentiu seu corpo mover-se sozinho, como se estivesse ligado no piloto automático. Nos últimos anos o caminho até a casa de sua namorada havia se tornado o refúgio de Yamamoto. Yurika era gentil, delicada e extremamente fofa e paciente. Havia poucas coisas que ela não gostava e quando o assunto eram eles, ela se tornava um pouco mais séria, mas nem por isso menos compreensiva. Sua casa era localizada à 15 minutos do restaurante, mas naquele começo de noite o Guardião da Chuva não percebeu a distância. O carro foi estacionado na calçada e o moreno caminhou até a soleira, não precisando bater na porta para ser atendido. Yurika o recebeu com um largo sorriso e naquele momento Yamamoto se sentiu amado e menos ansioso.

Yurika não perguntou sobre a ausência naquele dia ou porque o Guardião da Chuva parecia tão distante. Ao invés disso a moça se prontificou a fazer o jantar, perguntando se o moreno queria algo em especial. Yamamoto respondeu que não se importava muito com o jantar, e a resposta, apesar de parecer leviana, era verdadeira. Havia um nó em seu estômago e, embora não tivesse comido nada durante a tarde, ele não sentia fome. A escolha acabou sendo tempura, e o Guardião da Chuva foi educadamente enviado à sala. Enquanto cozinhava, Yurika não gostava de vê-lo perambulando pela casa, pois dizia que aquilo a deixava nervosa. "Seu pai é o melhor cozinheiro que existe. Eu me sinto envergonhada!" Era sempre a resposta que ouvia quando tentava dar uma mãozinha. Porém, naquela noite ele nada faria. A tv havia sido ligada e transmitia a reprise de um jogo de baseball, mas nem isso conseguia animá-lo. O barulho vindo da cozinha fez com que seus ouvidos se acostumassem com o entorno e em minutos Yamamoto encarava a tela da tv, mas sua mente estava longe... muito longe.

Ele nunca soube daquele lado de Gokudera. Os dois eram amigos há quase seis anos, e ele não tinha ideia como o Guardião da Tempestade agia em sua vida privada. Gokudera aceitou o convite sem questionar, como se estivesse acostumado àquilo. A mente do moreno voltou ao momento em que encontrou o estranho homem na soleira do apartamento e aquilo o deixou incomodado. Ele disse que me amava e de repente aceita o convite para dormir com um completo estranho? Como isso é possível? Ele estava dormindo com aquele homem... o ex-capitão do time de baseball mordeu o lábio inferior, lembrando-se daquela manhã que acontecera há alguns dias. Eles estavam saindo? Juntos? O homem havia chegado ou estava de saída? Gokudera sempre levou desconhecidos para sua casa? Quando eu não estava lá, ele deixava qualquer um dormir em seu sofá?

A expressão no rosto de Yamamoto tornou-se severa. Ele tinha tanta certeza de que o homem de cabelos prateados dormiria com Tomozaku que mentalmente a cena havia brotado duas ou três vezes em sua imaginação, embora ele fizesse o impossível para afastar o pensamento. Até aquele fatídico dia o Guardião da Chuva nunca havia visto o Braço Direito do Décimo com outros olhos, mas após a confissão, Gokudera era tudo em que ele conseguia pensar. Eles vão jantar, Gokudera vai aceitar uma bebida e aquele homem tentará persuadi-lo a irem para o quarto, dizendo que conversariam depois de... Não, talvez ele nem precise ser persuadido. Talvez nem haja necessidade para um jantar.

Yamamoto apoiou a nuca no alto do sofá e suspirou. Imaginar o que aconteceria entre os dois só o deixava ainda mais inquieto, e os sons vindos da cozinha chegaram aos seus ouvidos e automaticamente ele se recordou do dia em que o Guardião da Tempestade perguntou o que ele faria se estivesse na pele de Hibari. "O que você faria?", foi a pergunta exata. Naquele momento a figura de Yurika surgiu em sua mente, mas a resposta não. O Guardião da Chuva não queria estar na pele de Hibari. Ninguém merecia passar por aquele nível de sofrimento, mas no dia em que o homem de cabelos prateados lhe fez aquela pergunta, a resposta simplesmente não apareceu em sua mente ou coração. O que eu faria se fosse com ele? O que eu faria se alguém aparecesse agora, aqui, bem nesta sala, e dissesse que Gokudera seria assassinado?

"Takeshi?" Yurika surgiu na sala. Metade do corpo escondido no corredor. "Pode me ajudar com a mesa?"

O tempura estava bem frito e seco. O arroz bem temperado e a sopa misô quente e agradável. Eles falaram sobre o tempo, a universidade em que Yurika estudava, os planos para o futuro, as lembranças da última viagem que fizeram... O moreno ouviu a tudo, respondeu a tudo, mas não poderia dizer que estava realmente ali. Seus olhos castanhos dançavam entre o rosto de sua namorada e o grande relógio que estava preso no alto da parede, bem diante de seus olhos. A cada movimento do ponteiro o coração de Yamamoto se tornava mais e mais apertado. A comida perdeu o gosto em determinado momento e o Guardião da Chuva pousou os hashis, passando as mãos nos cabelos. Era impossível. Ele não aguentava mais.

"Você pode me dizer, se quiser..." A voz de Yurika o fez erguer os olhos. A mulher também havia pousado seus hashis e o olhava com uma expressão séria e levemente dolorosa. "Você não está aqui comigo hoje, Takeshi, então onde você está?"

O que você faria?

O moreno gostaria de responder, mas quando entreabriu seus lábios, o que saiu foi um baixo suspiro.

"Nós precisamos conversar, mas agora eu preciso ir." Yamamoto levantou-se e lançou um olhar carregado de tristeza na direção da mulher que permanecia sentada e encarando a cadeira vazia. "Eu sinto muito, Yurika."

O que você faria?

A jovem mulher ergueu os olhos e respondeu com um meio sorriso, voltando a segurar os hashis e retornando ao jantar. O Guardião da Chuva se odiou naquele momento, sabendo que aquela atitude não era correta. O que eu estou fazendo? Seus tênis foram colocados com pressa e somente ao ganhar a rua foi que o moreno conseguiu respirar novamente. Permanecer sobre o mesmo teto que Yurika, com a mente cheia de dúvidas e incertezas, não era justo. Os pneus de seu carro cantaram quando derraparam no asfalto, tamanha a pressa que ele estava em sair dali. Não havia muitos carros na rua por causa do horário, mas qualquer um que aparecia servia apenas para atrasá-lo.

O que você faria?

Yamamoto percorreu ruas, virou esquinas e parou em semáforos por dez minutos. Seu carro foi estacionado em frente ao edifício de Gokudera e seus pés praticamente o jogaram para fora quando o veículo finalmente parou. Suas pernas subiram os degraus com pressa, e tudo o que passava por sua mente era a resposta para aquela pergunta. Eu mataria. Eu faria o mesmo que Hibari pensa em fazer se fosse com Gokudera. Eu mataria por ele. O quarto andar surgiu após uma distância que pareceu muito maior. O ar não chegou a faltar em seus pulmões, porém, suas pernas doíam levemente quando ele cruzou o corredor e parou em frente ao apartamento de número 22. Sua mão direita ergueu-se e ele bateu forte sobre a madeira. Atenda, Gokudera! Você ainda deve estar em casa!

Não houve resposta.

O moreno tentou novamente e novamente e novamente. Por dez minutos Yamamoto não fez nada além de bater na porta e chamar o nome do Guardião da Tempestade. O céu já estava escuro e as estrelas brilhavam, demonstrando que aquela seria uma bela noite. Alguns vizinhos apareceram à porta ao ouvirem a insistência do estranho visitante, mas nenhum deles pareceu realmente se importar com o que acontecia. Pois somente uma pessoa sabia o que realmente estava acontecendo, e seu peito doía com a ideia de que ele havia chegado tarde. Ele já foi. Ele não está aqui. Em sua mente, uma infinidade de imagens o fez socar a porta com um pouco mais de força e pela última vez. O moreno sentou-se na soleira e encarou o céu noturno sem saber o que fazer. O ciúme o corria por inteiro, fazendo-o sentir um gosto amargo em sua boca. Eu cheguei tarde.

O que você faria?

Quando a voz do Guardião da Tempestade soou em sua mente, o moreno abaixou o rosto e sorriu triste. O que eu farei?

Continua...

¹ No Japão o assento do motorista é localizado do lado direito do veículo.