Gundam Seed Again
Capitulo 10: Reunião noturna.
Ainda na fazenda, a confusão parecia ter apenas começado, o jornal não ia deixar nada passar. Athrun e Meer, ZAFT e suas apostas; a amizade de Shinn e Lunamaria, quem estaria na próxima capa?
Ela tinha certeza que havia ido para a casa principal com Heine, mas agora que estava parada do lado de fora, não se lembrava de tê-lo visto no corredor ao lado do quarto, definitivamente ele era um bom amigo.
Mas no momento não queria pensar em Heine ou em qualquer outra pessoa, iria se resolver com Shinn, respirou fundo e arrumou o cabelo com as mãos e correu tão rápido para o lago que ao chegar lá teve que se sentar e ficar quase que dez minutos tentando fazer a respiração desacelerar.
O vento bateu forte e de repente, Lunamaria se arrependeu de não ter um casaco confortável para usar, girou os olhos, não iria se incomodar com isso. Ela deitou na grama ainda esperando que Shinn fosse aparecer, afinal de contas o que ele estava fazendo?
Ela contou de um a dez de olhos fechados, e os abriu devagar na esperança de vê-lo se aproximando, mas tudo que via era alguns alunos passeando, nenhum sinal de Shinn, de repente em sua mente o tico e o teco começaram a trabalhar com desculpas esfarrapadas, e se ele tivesse tido febre bem quando ela fechou a porta?
Sua consciência trabalhava contra a lavagem cerebral que ela mesma tentava fazer, ele se levantou da cama, estava bem e decidido, ele havia pedido um momento e já deveria ter aparecido.
Mau sinal.
Ela sabia disso, qualquer garota sabe disso. Boas moças não ficam esperando e bons rapazes não fazem boas garotas aguardarem, então o que diabos Shinn estava planejando? Ele iria mesmo responder seu pedido daquela forma?
A amizade deles seria pisoteada por alguma coisa que ninguém tinha certeza do que havia acontecido? Ele iria mesmo virar o rosto todas as vezes que se vissem? Ela nunca mais poderia sentar junto com Rey e Meyrin para que juntos eles conversassem no meio das aulas?
As festas da ZAFT sempre seriam uma lembrança desagradável, assim como a maldita garrafa de vodka, e ela sorriu com lágrimas nos olhos pensando como era estúpida por começar a imaginar sua vida sem falar com ele novamente.
Não precisava ser tão infantil, ele simplesmente perdera a vontade ou a coragem, ou talvez estivesse no corredor ensaiando um pequeno discurso e toda vez que ele pensava em sair da casa ele perdia a coragem de dizer suas belas palavras e voltava a andar em círculos, preocupado e com as mãos no bolso.
Sim, Lunamaria podia até visualizar a cena e isso mantinha sua mente ocupada para que ela não pensasse que ele simplesmente estava recusando de forma gentil e ela fazendo papel de boba.
Esperar é uma arte e nem todos são Jesus com sua paciência bem iluminada.
Ela tirou o celular do bolso, se surpreendeu ao reparar que estava ali a mais de meia hora, quarenta minutos para ser mais exato. Ela suspirou, e ficou fitando o céu, quando as coisas ficaram daquele jeito? Tinha solução? Ela não sabia mais o que fazer.
Se ele simplesmente não aparecesse, ela não teria coragem de chamá-lo uma segunda vez, esperar por uma hora era muita bondade da parte dela e prometer não xinga-lo por causa disso... Também.
Na cachoeira, Athrun e Meer continuam a se divertir, completamente ignorantes aos olhares e câmeras alheios.
Para os que observavam os dois, tudo que viam eram Lacus Clyne e Athrun Zala em um momento de paz, onde eles podiam ignorar as formalidades e agir como noivos, tudo era muito doce e maravilhoso.
Parecia o tipo de coisa que saia numa revista de fofoca e que vinha com um título grande, mas a notícia não esculhambava com nenhum deles, aquele tipo de coisa para adolescentes "ele são normais também" esse tipo de coisa que faz com que você veja e pense "olha, eles se divertem de forma simples".
Mas o jornal do colégio não tentava aumentar o ego de alunos cinza ou verde, se fosse assim nem tirar fotos teria graça e o espaço da câmera de Shiho estava começando a preocupá-la, em mais algumas fotos de resolução absurda e ela teria que contar com Sai, Tolle e Kuzzey, apesar deles também fazerem parte do jornal, ela não gostava de confiar neles.
E ela dividia o quarto justamente com eles; sua câmera era pequena como um chaveiro. Presente especial do pai para que ela pudesse fazer tudo muito discretamente e de fato, ela podia passar num lugar e as pessoas só acharem que ela estava de passagem, confiar na ignorância das pessoas era uma benção.
Ficar trancada no quarto não traria novas coisas, ninguém iria bater em sua porta e dizer "notícia fresquinha", ela jogou mais água no rosto e olhou para o reflexo no espelho, com uma expressão brava, porém normal, ela secou o rosto e saiu batendo porta.
Todos estavam se divertindo pela fazenda e ela estava incrivelmente entediada, até pensou em pisar no pé de Yzak só pra ter o que fazer, mas se acontecesse alguma coisa e ela precisasse da ajuda de um professor ou até mesmo do Diretor, ela não teria razão e tudo que queria era apenas, "eu estou certa e você não" ela iria afundar toda a ZAFT.
Era quase como um objetivo de vida.
Já era noite. Shinn passava pelo corredor do segundo andar seguindo para seu quarto. No caminho ele encontra com Rey
Shinn: Rey, você já jantou? Porque eu estou com muita fome.
Rey simplesmente o ignora. Shinn continua a chamá-lo sem obter resposta alguma. Quando os dois alcançam a porta do quarto que haviam escolhido, Shinn segura Rey pelo ombro.
Shinn: Rey! O que esta acontecendo? Porque não está falando comigo?
Rey: Não é que eu não esteja falando com você... mas nunca imaginei que você fosse capaz de fazer isso. – E gira a maçaneta, entrando no quarto e fechando a porta.
Shinn: Huh?
Foi quando Shinn percebeu e aquilo o fez sentir como se tivesse caído um tijolo no estômago. Se esquecera completamente. Enquanto estava com Stellar se esqueceu completamente, como se alguém tivesse apagado aquela lembrança de sua mente. Mas agora ela voltou com força total.
Se esquecera de Lunamaria.
Shinn sente algo lhe subindo rapidamente pela boca e a cobre a tempo. Ele corre até o banheiro mais próximo e regurgita na pia. A sensação desconfortável em seu estomago ainda estava lá.
Ele deixou Lunamaria sozinha. A deixou esperando por horas a fio quando disse que já estava indo. Era a chance de consertar tudo e ele a mandou para os ares. Não podia acreditar nisso. Até que um fio de esperança surgiu.
Será que ela ainda estaria lá? Estaria esperando por ele por todo esse tempo?
Shinn desce as escadas saltando vários degraus, corta o saguão e escancara a porta saindo em disparada para o lago. Apenas um pensamento em sua mente.
Shinn: Ela tem que estar lá! Ela tem que esta lá! Não posso ter estragado tudo!
Logo o lago entra em seu campo de visão. Estava escuro, mas era fácil notar algo. Ele era o único lá.
Shinn olha para os lados a procura de uma sombra, um vulto, qualquer coisa que pudesse lhe indicar o contrário.
Shinn: Luna! Luna! Sou eu, Shinn! Eu sei que demorei pra caramba...
As palavras morrem em sua garganta. Era óbvio que ela não estava mais lá. Ninguém esperaria por tantas horas.
Suas pernas enfraquecem e Shinn cai de joelhos na grama, seu corpo se curva para frente, apoiando ambas as mãos no chão.
Shinn: Droga... droga... – Diz socando o chão e lutando contra as lágrimas que insistiam em aparecer.
Ele fica nesse estado lamentável por vários minutos, até se levantar novamente e lentamente seguir de volta a grande casa. Uma vez lá, Shinn sobe as escadas e dobra o corredor duas vezes a esquerda. Havia escolhido um pequeno quarto que estava dividindo com Rey. Lunamaria e Meyrin dividiam o quarto logo a frente.
Ao passar por lá ele pensou ter ouvido vozes vindo do quarto a frente do seu. Shinn passa direto e entra no seu quarto que estava com as luzes apagadas. Shinn não precisou acender as luzes para perceber que mais uma vez estava sozinho.
Mentalmente exausto, Shinn se atira em sua cama do jeito que estava.
Meyrin: Eu posso pegar pra você. – Disse basicamente pulando na porta do quarto para impedir que a irmã saísse.
Lunamaria ergueu a sobrancelha em questionamento, agora ela teria que passar o resto da noite trancada no quarto só porque sua irmã a achava desequilibrada emocionalmente para botar os pés fora do quarto?
Flash-back.
Lunamaria entrou no quarto batendo a porta, o rosto vermelho de tanto chorar, os olhos ainda marejados, soluçando e com as mãos tremendo tanto que era incapaz de segurar um copo.
Meyrin: Luna!? O que houve? – Perguntou extremamente preocupada e largando a revista com dicas pra dieta no chão.
Lunamaria: E-eu n-não c-consigo... – Diz nervosamente, enquanto puxava a gola da blusa e se abanava como quem precisava de ar.
Meyrin: Luna? Luna fala comigo! Por favor... – Diz entrando em desespero ao ver a irmã deitar no chão como se estivesse morrendo; ela sai do quarto indo chamar o primeiro nome em sua cabeça, Rey.
Flash-back end.
Lunamaria: Eu não quero dormir agora, todo mundo está aproveitando pra passear, porque eu tenho que ficar aqui?
Meyrin: A questão não é sair... é que podemos nos divertir aqui dentro – Diz com um sorriso sem graça.
Lunamaria: Eu agradeço a preocupação, mas eu estou bem, de verdade – Diz tocando na maçaneta da porta, apenas esperando a irmã sair do caminho.
Meyrin: Só se eu for com você.
Lunamaria: Vamos, chame o Rey e eu vou chamar o Heine.
Em uma situação normal ela iria perguntar 'E o Shinn?' Mas estava desesperada em pensar que a irmã podia ter um outro ataque como o que teve à tarde.
Rey estava tomando chá, sentado a enorme mesa de madeira que ocupava quase toda a extensão do que deveria ser a sala de jantar da grande casa. O jantar já havia sido servido horas atrás então não havia mais ninguém ali.
Rey sempre fora uma pessoa de princípios. Alguém que valorizava a amizade. Não os encontros ocasionais, mas sim a verdadeira amizade, aquela que como dizem é para "o que der e vier."
Mas acima de tudo, a coisa que mais prezava era a lealdade. Para ele, lealdade não era algo condicional, que possa ser torcido e remediado a cada caso. Era algo firme e imutável. Para Rey, traição não é algo que possa ser facilmente perdoado.
Por isso o que Shinn fez a Lunamaria não era algo que ele poderia simplesmente deixar passar.
A tempos vinha acompanhando o estado lamentável dos dois. Não era preciso ser um gênio para imaginar o que aconteceu para deixar os dois naquele estado, até ai, Rey não tinha problemas. Parecia ser apenas uma situação desagradável que eles resolveriam eventualmente.
Por isso quando soube que os dois estavam para se resolverem ficou contente. Talvez não voltassem a se falar como antes, mas sem duvida poderiam ao menos suportar a presença um do outro sem querer sair correndo.
Mas simplesmente esquecer de Lunamaria por horas a fio e deixa-la em um estado quase irreconhecível, para Rey, era uma traição. E traições não são algo que se possa perdoar facilmente.
Lunamaria: E você está pensativo – Diz puxando a cadeira e se sentando ao lado do amigo.
Rey: Um pouco. – Diz afastando a xícara de chá frio. – Está se sentindo melhor?
Lunamaria: Muito melhor – Diz dando um leve sorriso – Muito obrigada, não sei o que teria acontecido se você não tivesse aparecido, achei que ia morrer.
Rey: Não a de que. Não está um pouco tarde para ficar caminhando pela casa?
Lunamaria: Não estou com sono e também não quero dormir, não terei outra oportunidade de visitar uma fazenda, é bom aproveitar, ne?
Rey: Acho que entendo o que quer dizer.
Meyrin: Aaah você estão aqui – Diz toda descabelada, como se tivesse corrido 10 km, ela puxa uma cadeira e desaba nela.
Heine: Opa, o que isso? Uma festa surpresa? – Diz se sentando junto ao grupo, vindo logo atrás de Meyrin.
Lunamaria: Quase isso. Hey, já que estamos todos aqui porque não vamos lá pra fora? Parece que tem algumas pessoas com violão e estão tocando em volta da fogueira.
Rey: Podem acender uma fogueira por aqui?
Heine: Porque não? Até uma cachoeira eles têm aqui. De qualquer forma eu gostei da idéia.
Meyrin: Será que da pra dançar?
Lunamaria: Que romântico – Diz rindo – Vamos, vamos – Já de pé e indo até a porta.
Os outros três se levantam e seguem com Luna para fora onde de fato havia uma fogueira e um trio de garotos, um deles com um violão na mão enquanto os outros dois cantavam All along the watchtower.
Muitos alunos também estavam reunidos, bebendo chá, já que estava frio e aproveitavam a fogueira para esquentar a água e motivo principal, não havia bebidas alcoólicas, o que tornava a festa muito "caipira".
De volta ao dormitório, onde ainda havia alguns alunos. Depois de ficar brincando por muito tempo na cachoeira, Meer terminava de se arrumar em frente ao espelho do quarto.
Flay estava começando a murmurar coisas como "eu estou entediada" enquanto lia uma revista de turismo que havia conseguido com alguém da casa principal, mas páginas depois de virar 4 páginas só com matérias sobre cavalos, aquilo estava acabando com sua paciência.
Kira: Quer dar uma descida? Parece que estão fazendo algum tipo de reunião lá embaixo.
A algum tempo já estava ouvindo a música e o som das vozes jogando conversa fora.
Flay: Claro – E fechou a revista na hora e pegou o casaco que estava pendurado na cama.
Os dois não se demoram em descer e se juntar ao grupo que já estava reunido. Alguns dos que estavam presentes dançavam ao som de melodias entoadas pelo trio.
Era sem duvida uma coisa rara ver o trio mais esquisitão do colégio inteiro, Shani Andras, Orga Sabnak e Clotho Buer, que passavam a maior parte do tempo jogando Gundam e sempre tinham ataques quando suas pilhas acabavam nas quartas-feiras, agirem como pessoas normais com vidas. Provando que o Diretor tinha razão, a mudança de ambiente faria bem aqueles alunos perturbados.
Cagalli, Miriallia e Lacus também estavam na festa há algum tempo. Lacus principalmente, depois de se esquivar da ZAFT, ela havia passeado por toda a fazenda, andado a cavalo e por fim havia se reunido a uma festa normal.
Cagalli: Ei, o Kira ta vindo.
Lacus sorri ao vê-lo, e olha para os lados como se procurasse outra pessoa que estivesse com ele. Nenhum sinal de Athrun Zala e Meer Campbell.
Kira: Oh, boa noite. Todos resolveram aparecer?
Cagalli: Boa noite e você que demorou.
Lacus queria falar com Kira, mas sabia que com Flay por perto seria impossível ter um segundo a sós com ele.
Kira: Eu me pergunto se todo mundo apareceu aqui por acaso também?
Lacus: Eles começaram a tocar um tempo depois do jantar, isso chamou a atenção das pessoas.
Miriallia: Pois é, ninguém sabia o que fazer a noite, normalmente nós temos a festa da ZAFT.
Cagalli: Ah não fale isso como se fosse uma boa coisa.
Kira: Mas até que é um show de qualidade.
Cagalli: Ei, você viu o Athrun? – Acaba por perguntar depois de ver Lacus olhando para os lados e a única pessoa que ela poderia estar querendo ver era ele.
Kira: Não. Bom, ele deve estar ou com seus outros amigos ou no quarto fazendo nada.
Quando acordou, apenas viu o quarto todo escuro, quando a visão se acostumou reparou que estava sozinha e isso era um pouco assustador, não tinha medo de escuro, não era esse o problema. Era apenas o fato de estar sozinha, poderia ser dia, poderia ser madrugada, o céu poderia estar azul, cinza ou vermelho, se ela estivesse sozinha, seria assustador.
Stellar: Shinn? – O chamou tolamente, ela havia dormido e ele havia saído do quarto, provavelmente para fazer as pazes ou o que quer que fosse com a garota, Lunamaria alguma coisa.
Stellar não era a maior fã do jornal, mas desde a notícia da ZAFT ela decidira ficar de olho e também havia estudado bastante o grupo de Shinn, na verdade o observava há mais tempo, principalmente nas aulas entediantes de Natarle-sensei.
Stellar: Sting? Auel? – Ela jogou a coberta e se levantou, pisando na ponta dos pés, estava frio e ela queria correr para fora do quarto; ao se aproximar da janela, ela afastou a cortina e viu uma fogueira acessa não muito longe e vários alunos reunidos.
A visão de pessoas por perto a acalmou um pouco, respirou fundo e calçou os confortáveis chinelos de pêlo de carneiro que estavam ao lado da porta, ajeitou o cabelo rapidamente e saiu da casa.
Ela iria chamar Shinn e eles iriam se reunir com os outros alunos e quem sabe eles não poderiam dançar novamente? Mas foi quando ela parou no meio do caminho, e se ele já estivesse lá com seus amigos? E se ele novamente tivesse esquecido dela?
Tudo aquilo havia sido um sonho de mau gosto?
Ela fechou os olhos com força e diversas imagens vieram em sua mente, ela havia caído no lago, havia conversado com Auel e Sting, Shinn havia prometido que a protegeria e depois eles ficaram conversando sobre coisas aleatórias até que ela havia dormido.
Mas havia o tal encontro com Lunamaria quando ela apareceu no quarto e ele havia enrolado bastante para ir até lá... ela era uma desculpa? Só pra ele não ter saído do quarto? Porque ele não queria mais falar com ela?
Stellar: Está errada, Shinn não é assim – Disse balançando a cabeça negativamente.
Não iria arriscar começar a procurá-lo por onde dói mais, se ele não estivesse no quarto, ela iria até o lago e por último naquela festa. E ele não estaria lá.
Em volta da fogueira, Shani agora tocava uma versão do tema de abertura do jogo Gundam, acompanhado por quase todos os presentes. Ao final, todos aplaudem o garoto.
Kira: Eu posso tentar uma?
Shani: Fica a vontade. – E passa o violão a Kira.
Kira se posiciona e testa as cordas. Então passa a cantar uma música de sua própria autoria. A melodia falava a guerra, as pessoas que se perdem e os corações que mudam. O som era suave, dando a música um tom que ficava difícil não se comover.
Flay não poderia estar mais orgulhosa, sentada na grama, ou melhor, num lenço. Ela ouvia tudo com os olhos brilhando, mas não era o orgulho de 'meu namorado é o melhor do mundo' porque ela não estava nem aí pra pessoas em volta.
Uma das coisas boas em Flay, quando ela não agia de forma extremamente ciumenta, era que ela não costumava pisar nas pessoas e nem se sentir a rainha por estar namorando Kira, por ele ser branco ou qualquer coisa do gênero.
Claro que garotinhas suspiravam ao fundo enquanto outras babavam em cima de Kira e isso irritava Flay mais do que tudo, porém acima disso, estava Kira.
Lacus havia esquecido as preocupações, estava concentrada na música de Kira, era muito bonita, porém triste e verdadeira. Suas músicas eram calmas, porém românticas, mas ela estava realmente encantada com o talento dele.
Queria conversar com ele, queria poder cantar um pouco, mas ela era Lacus Clyne e tudo que fizesse tinha que estar em uma linha reta, ser vista a sós conversando com Kira seria mal visto e traria mais notícias como a do jornal.
É claro que todos poderiam estar presentes, mas... era diferente. Kira era o melhor amigo de Athrun e depois de várias conversas ela se sentia bastante a vontade, mesmo gostando de Cagalli e se simpatizando com Miriallia, era diferente.
Os presentes aplaudem Kira que agradece sinceramente, devolve o violão a Shani e volta para seu grupo.
Kira: Não foi tão bom quando deveria... não toco em um violão já faz algum tempo.
Cagalli: Que modéstia hein? – Diz dando uns tapinhas no ombro do irmão.
Flay: É verdade, você tocou muito bem.
Lacus: Seus sentimentos com certeza foram transmitidos.
Kira: Muito obrigado. – Diz coçando a cabeça, sem graça. Sinceramente não achava que tivesse ido bem.
Mas logo um grupo de garotinhas baba ovo chegou pedindo fotos e mais fotos com Kira, Flay fechou a cara, mas não disse nada, foi quando avistou um rosto conhecido, alguém com quem ela costumava falar bastante, mas perdera contato por... Algum motivo que ela não recordava.
Flay: Sai?
Sai estava tirando algumas ocasionais fotos da reunião ao redor da fogueira. Não para o jornal, sabia que Shiho dificilmente faria proveito de qualquer coisa que pudesse registrar, mas para o álbum de viagem, missão para a qual fora escolhido a dedo por Murrue-sensei. Shiho podia até ser a melhor fotografa do grupo, capaz de conseguir fotos que ninguém mais poderia, mas Sai era sem dúvida o mais responsável e confiável dos responsáveis pelo jornal.
Sai: Flay. – Não se surpreendeu. Na verdade era bastante óbvio, se Kira Yamato estava na reunião, Flay Allster estaria lá também.
Era como reencontrar um amigo andando pelo shopping, fazia bastante tempo desde que se falaram na última vez, ela o via algumas vezes no colégio, eles nem eram da mesma sala, mas nunca havia se preocupado em procura-lo pra dizer "oi".
Porque tomar conta de Kira era uma missão difícil e lhe ocupava todo o tempo, mas agora enquanto o namorado estava muito ocupado dando atenção para as fãs, ela simplesmente teve vontade de falar com ele, como se acabasse de descobrir que ele estava lá.
Sai era aquele cara legal que te ajudava e que sempre estava por perto quando se precisava, ainda lembrava de um curso que eles fizeram juntos, porém ela desistiu na segunda semana.
Flay: Quanto tempo. Tudo bem? – Ela estava de pé e realmente feliz em vê-lo, só não parecia que ele sentia o mesmo, mas isso ela estava ignorando.
Sai: É, tudo. E você?
Flay: Ótima – Disse com um sorriso digno de um comentário oculto, ela olhou em volta, não queria que a conversa morresse, na verdade não sabia porque ele parecia tão não...feliz em revê-la. – Então, o que anda fazendo?
Perguntou ignorando o fato dele segurar uma câmera e de saber que ele fazia parte do jornal, já o vira com Miriallia antes.
Sai: Tirando fotos para o álbum de viagem. Ramius-sensei me indicou para isso. ... quer ver?
Flay: Claro, claro – E afastou uma mecha do cabelo o colocando atrás da orelha, queria imitar aquelas cenas de filmes onde o rapaz fica babando na mocinha, mas nada pode ser explicado na mente de uma pessoa tão confusa como Flay.
Sai acerta a câmera para visualizar as fotos e a entrega a Flay.
Ela não pode deixar de fazer uma careta ao perceber a falta de reação dele, ela se sentia conversando com amigos de amigos, era entediante, ao bater os olhos no visor da máquina ela sorriu, Sai continuava o ótimo fotografo que sempre fora, ela passou as fotos devagar, gostava de vê-las, embora nunca tenha demonstrado interesse ou paciência para os detalhes.
Sai: Então... como vai com Yamato? – Diz observando o grupo de garotas tirando fotos de Kira e com Kira.
Ela passou mais algumas fotos antes de responder, a verdade era que não sabia qual resposta dar, poderia soar muito arrogante ou poderia soar como 'só estou com ele porque ele é branco' e isso não ficaria bem, Sai também era do jornal. Mas ela não tinha que se preocupar com isso, não é? Sai não era esse tipo de garoto.
Flay: Muito bem – Disso com um leve sorriso, não olhou diretamente para Sai e nem para o grupo de sanguessugas. – E você? Namorando?
Sai: Não. – Diz sorrindo pela primeira vez desde que começaram a falar. – Shiho-san iria arrancar minhas tripas se o fizesse. Diz que não podemos perder tempo com nada além do jornal.
Flay: Ah – E ela ficou furiosa, não gostava nenhum pouco de Shiho, primeiro pelas coisas ruins que ela havia dito a seu respeito e segundo por ter promovido Kira ao gostosão do colégio. – Não sabia que você obedecia a esse tipo de coisa.
Sai: Bom... – E percebe a bobagem que falou. De fato Shiho fez o tal comentário uma vez, mas nunca mais havia tocado no assunto. De repente aquilo tudo lhe pareceu extremamente idiota. Não apenas Shiho, mas as fofocas, o jornal, Kira e as garotas em volta dele. Tudo pareceu tão idiota que não pode evitar de rir.
Ainda tentou segurar a risada, mas não conseguiu. E começou a rir alto, de repente. Sabia que estava parecendo um idiota e isso apenas o fez rir ainda mais.
Flay ergueu a sobrancelha, estava de braços cruzados em sua clássica pose de mau humor, mas a diferença era que ela deu um largo sorriso, não entendia porque diabos ele estava rindo, mas esse era o Sai que ela conhecia. E ela gostava mais dele assim.
Sai: Me... me desculpe... eu não... – Diz entre o riso. Logo, Sai consegue se acalmar, mas sua barriga e seu rosto doíam.
Flay: Se você não estiver rindo de mim, não tem problema. – Isso era quase um lema. Melhor não perguntar.
Sai: Não... não. – Diz balançando a mão para dar um pouco mais de ênfase ao que dizia, já que suas meias risadas não faziam com que parecesse sério.
Já que ele estava ocupado demais com sua crise particular de riso, Flay fez o que uma boa e folga amiga faria, pegou a câmera e tirou uma foto de Sai.
Sai: Ei, não faça isso. – Diz tentando tomar a câmera das mãos de Flay. A outra segurava a barriga que doía por causa do aceso de riso.
Ela da um salto para trás ainda com a câmera na mão, não se importava se ele fosse apagar tudo depois, porque ele iria, mas ela estava se divertindo, apertou mais algumas vezes o botão jogando flash na cara de Sai.
Sai avança, cobrindo os olhos com a mão para evitar o flash cegante. Ele consegue alcançar Flay, pondo as mãos sobre seus ombros.
Kira: Desculpe, aquilo foi... Sai?
Sai, cujo rosto tinha uma expressão que misturava o sorriso pós-acesso de risada e dor, ganha um ar neutro, mais próprio de um homem de negócios.
Sai: Yamato. – Diz se afastando de Flay e ajeitando os óculos.
Flay: Ah Kira! – Ela devolve rapidamente a câmera e se pendura no braço do namorado, voltando a agir como a doce garota cega e apaixonada, embora um pouco irritante.
Kira: Ta tudo bem?
Sai: Ta. Sem problemas. Bela música. – E se afasta dos dois.
Kira: Ah, obrigado. – Mas seu agradecimento não chega aos ouvidos de Sai.
Flay continua agarrada ao braço de Kira, embora estivesse olhando para Sai, e era exatamente por isso que eles nunca mais haviam se falado e mesmo ela sabendo que eles estavam no mesmo colégio não havia corrido atrás.
Ela era outra pessoa perto de Kira, ou... Perto de Sai?
Flay: Achei que ficaria lá a noite inteira. – Agora se voltando completamente para ele, fazendo expressão de quem estava chateada.
Kira: Por um instante eu cheguei a pensar a mesma coisa, elas não queriam ir embora...
Flay: Você é muito bonzinho com elas, por isso que elas ficam em cima.
Kira da uma risada sem graça.
Nos dormitórios parecia haver cada vez menos gente, e andar sozinha pra cima e pra baixo assustava Stellar, ela andava olhando atentamente para os lados como se alguma coisa ou alguém fosse pular ao seu lado.
Mas antes que pudesse ter mais pensamentos assustadores sobre aquela fazenda, ela viu o número na porta do quarto e sabia que era o de Shinn, ela respirou fundo, ele tinha que estar lá, fazer todo aquele caminho para nada seria... Desagradável.
Ela bateu educadamente na porta, três vezes.
No quarto, Shinn, deitado com o rosto enterrado no travesseiro tentava dormir sem sucesso. A batida na porta chamou sua atenção. Se fosse Rey, teria simplesmente entrado. É claro que era outra pessoa. Shinn se levanta da cama demoradamente e abre a porta.
Shinn: O que f- Stellar?
Stellar: Shinn! Que bom, você está mesmo aqui – Diz o abraçando realmente feliz por ter alguém no quarto.
Shinn: Stellar, o que... você não devia estar descansando?
Stellar: Shinn não estava lá.
Shinn: Hm, é... – Sua cabeça inclina um pouco para frente, as franjas cobrindo seus olhos.
Varias imagens vão surgindo em sua mente. "Lunamaria...?" "V-vamos fazer assim, você me encontra na árvore em frente ao lago, tudo bem?" "...nunca imaginei que você fosse capaz de fazer isso."
Seu rosto se levanta novamente, apenas o bastante para ver o rosto sorridente de Stellar. Uma mão se ergue e acaricia o rosto dela.
Shinn: Me desculpe... eu te assustei?
Stellar: Stellar tem medo de ficar sozinha – E o abraça apertado – Muito medo. Shinn disse que protegeria.
Shinn: Eu não vou me esquecer. – Diz retribuindo o abraço de Stellar. - Nunca esquecerei. Eu a protegerei, Stellar.
Stellar: Está sozinho?
Shinn: Sim.
Stellar: Não quer ir para o "festival da fogueira"? Todos estão lá.
Todos, fez Shinn imaginar se Lunamaria, Rey ou Meyrin estariam lá.
Shinn: Eu acho que estamos bem, aqui.
Stellar deu um largo sorriso, definitivamente era muito melhor estar só com ele.
Stellar: Como quiser.
Continua...
