Avisos: - Angústia/Romance/Universo Alternativo etc. – 1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. –

Beta: Likaah

Disclaimer: GW não me pertence e eu num ganho um tostão por esse trabalho aqui.

Nota: Irrelevante, mas o capítulo foi escrito com Full of Grace da Sarah Mclachlan. Se alguém tiver a oportunidade de ouvir, acho que fica um cadinho melhor.

Agredecimentos: As G-girls, que me animaram um cado nesse momento de blackout.


Vínculos

X


Então, é melhor desse jeito, eu digo.

Já vi esse lugar antes

Onde tudo o que dizemos e fazemos

Nos machuca ainda mais


(#w#)

Heero POV

Tenho certeza de que minha garganta emitiu algo como um rosnado quando o maldito barulho chegou aos meus ouvidos, me privando de qualquer outra percepção que não fosse aquela batida irritante. Assim como creio estar soando completamente contraditório, afinal, boates como essas são minhas primeiras opções quando busco por algum tipo de divertimento. Mas dessa vez, a única coisa que consigo sentir ao olhar toda essa massa dançante é uma vontade latente de socar cada um deles, principalmente o responsável por aquele som.

Ciente de que tal desejo não poderia ser realizado, empurrei-o para um canto, usando de toda a minha atenção para encontrar, em meio ao amontoado de pessoas, o motivo da minha vinda a este lugar:

Duo.

A total falta de notícias sobre seu paradeiro estava me deixando cheio de um sentimento inominável que me movia e não deixava que eu desistisse de procurá-lo, assim como me guiava em meio aos corpos suados da pista de dança, no intento de alcançar o bar no outro extremo do estabelecimento e pedir por alguma informação.

Junto a essa sensação desconhecida, ainda havia uma tonelada de outros sentimentos tão contraditórios e intensos que, em alguns momentos, me deixavam desnorteado.

Mesmo que o momento não fosse o mais adequado, não pude deixar de me admirar e, ao mesmo tempo, recriminar pela forma como Duo tem um estranho controle sobre mim, afinal, quantas pessoas seriam capazes de mudar a vida de outra do dia para a noite como ele fez?

Inclinando-me sobre o balcão, fiz sinal para um barman que veio até mim prontamente, já trazendo um copo em mãos.

- Vai beber o quê?

- Nada. – cortei, tentando elevar minha voz acima da música e me fazer ser ouvido. – Estou procurando um rapaz, estatura média, olhos claros cabelos castanhos e... – o homem me olhou como se aquela fosse a pergunta mais idiota do mundo e tentei estipular quantas pessoas com aquela descrição passavam por ali só em uma noite. – E uma longa trança. – completei, seus olhos pareceram brilhar em esclarecimento.

- Shinigami, você quer dizer? – foi a minha vez de erguer uma sobrancelha, querendo mostrar o quão estúpido aquele apelido me soava e o barman elaborou. – Bonito demais pra um homem, cabelo grande, roupas pretas e um humor negro.

Apesar de contrariado com o fato de outro homem estar analisando o meu irmão daquele jeito, assenti em reconhecimento à descrição, retirando duas notas do meu bolso para reforçar meu inquérito.

- Você o viu essa noite?

O barman sorriu ante a soma, colocando-a no bolso traseiro da calça de linho e fazendo um pequeno gesto para que eu aguardasse. Observei impaciente enquanto ele confabulava com seus companheiros e voltava um minuto depois, já apontando à direita da pista de dança.

- Noah o viu com um boa pinta, seguindo para os banheiros, não faz dez minutos. Ele tentou chamá-lo, mas parece que o rapaz estava um pouco ocupado, se é que você me entende...

Novamente, tenho a certeza de ter rosnado ou grunhido algo incompreensível, e o homem parece ter notado isso, pois se afastava notoriamente receoso.

Enquanto seguia a passos duros em direção ao banheiro, imaginava se o "boa pinta" era Stephen e fazia duas notas mentais: uma para indagar sobre o apelido "shinigami" e a segunda para forçá-lo a me dizer como pôde ter vindo à cidade vezes o suficiente para ser reconhecido pelo barman e nunca ter me feito uma visita ou pelo menos comentado a respeito.

O trajeto não durou mais do que um minuto, e logo eu estava dentro do banheiro masculino. Durante a fração de segundos que levei para ter uma percepção completa do que estava a meu redor, fui preenchido por uma pequena dose de alívio por meus ouvidos serem poupados da maldita batida que agora parecia ainda mais frenética do que há alguns minutos atrás. Infelizmente, essa leveza evaporou-se quando minha audição captou o inconfundível som de gemidos vindo dos privativos à minha esquerda.

É claro que eu tenho a noção de que, num lugar como esse, uma cena dessas é mais do que normal, não tenho vergonha alguma de admitir que eu mesmo já fui protagonista de algo semelhante. Minha inquietação vinha do reconhecimento do nome que foi chamado entre um gemido e outro:

Ou estava ficando completamente louco, ou havia escutado o nome de Duo ser balbuciado em uma das cabines.

Esmurrando qualquer tipo de senso de privacidade, avancei alguns privativos, guiado pelos gemidos cada vez mais desconexos e constantes, até que alcancei um onde a porta meio aberta não escondia a última cena que eu imaginei presenciar em toda a minha vida.

A minha frente, eu tinha Duo sentado sobre o colo de Stephen, seu corpo movendo-se frenética e sinuosamente sobre o colo do loiro que, evidentemente, estava masturbando o meu...

- Duo... – chamei sem poder nem querer me conter.

O primeiro a notar minha presença foi o maldito Stephen, que me encarava como se estivesse diante de um de seus piores pesadelos e, sinceramente, não estava tão longe da verdade. Duo parecia envolvido demais em sua atividade para prestar atenção ao que estava ao seu redor. Isso não ajudou em nada a aplacar minha torrente de reações adversas e, no momento, eu podia mudar meu status de "pasmo" para furioso.

Em meio ao meu choque e revolução emocional, compreendi o momento em que Duo alcançou seu próprio orgasmo, pois seu corpo caía leve sobre o colo do loiro, que estava tão tenso como uma pedra e, aparentemente, sem qualquer idéia de como proceder.

Após alguns segundos naquela tensão, um entorpecido americano virou-se apenas o suficiente para vislumbrar sobre seu ombro, piscando diversas vezes, talvez, testando o quão embriagado estava para ver a minha figura ali, parado em frente à cabine onde ele estava quase... transando com aquele infeliz.

- Duo Maxwell...

- Yuy... – ele me interrompeu, não sei se completando o que eu ia dizer, ou chamando por mim; isso eu não sabia dizer e, sinceramente, não fazia a menor questão.

Eu estava completamente... surpreso? Sim, porque angústia e receio já havia me abandonado há muito tempo, sobrando apenas uma vontade insana de agarrar aquela trança e arrancá-lo do colo daquele sujeito.

Quando a consciência do que estava acontecendo o abateu, Duo ergueu-se num pulo, ajeitando-se apenas o suficiente para poder deixar a cabine. Um sorriso presunçoso e desnecessário dançava por seus lábios, enquanto ele rumava em direção à pia, puxando um maço de lenços de papel e... por todos os demônios! Ele ainda estava rindo!

- O que diabos é tão engraçado? – rosnei, inconformado com sua capacidade de manter qualquer resquício de humor ante uma cena como aquela.

Ele apenas continuou com aquele estranho sorriso nos lábios, esfregando o papel contra o tecido da camisa. Sua total despreocupação com o que eu havia acabado de ver só fazia aumentar minha inquietação. Querendo evitar algo do qual eu fosse me arrepender, iniciei uma contagem progressiva.

Um... dois...

- Sabe o que é, Hee-chan? – começou, tão calmo como se estivéssemos em casa falando sobre o tempo, e não no banheiro de uma boate onde eu o havia visto se masturbando com um dos funcionários da minha empresa. – De tudo que eu imaginei que pudesse acontecer essa noite... você me encontrar nesse estado,– enfatizou com sua voz ligeiramente rouca e amolecida, em parte, pela bebida que ele claramente havia consumido em grande escala. – nunca passou pela minha cabeça...

Três...

Lancei um olhar para Stephen que, eu esperava, transmitisse toda a ira que ameaçava me engolir. Eu estava vendo o meu... Duo, parcialmente embriagado, limpando o próprio sêmen da camisa e agindo como se nada houvesse acontecido...

Quatro... cinco...

- Duo...

- E você sabe o que mais, Hee-chan? – indagou, nunca levantando seu rosto para mim e continuando a esfregar o mesmo ponto do tecido.

Seis, sete, oito, nove...

- Não, Duo.. o que é? – grunhi, dividido entre avançar em Stephen, trazer o baka de volta a seu centro ou gritar de pura frustração e inconformismo.

Os olhos ametistas voltaram-se finalmente na minha direção e me vi sendo tragado inevitavelmente para a rede de lembranças da primeira vez que mirei seu rosto naquele aeroporto, dias atrás...

- Eu estou achando isso tudo muito engraçado.

Mil...

Em dois passos eu estava agarrando um de seus braços, o puxando comigo banheiro afora, não sem antes lançar um último olhar àquele maldito loiro que fazia menção de se levantar, o prometendo muito mais do que o inferno poderia lhe reservar. Duo se debatia em minha pegada e eu tinha certeza de que ele estava gritando profanações abafadas pela música, ou barulho, isso não me importava naquele momento.

O arrastei meia boate, saindo pela porta dos fundos que me daria um acesso mais rápido ao estacionamento onde havia deixado o carro. Com o som reduzido, podia distinguir algo próximo de "maldição", "socar" e alguma coisa sobre minhas futuras gerações que, por algum motivo, não vingariam.

Graças a sua insistência em tornar tudo mais difícil, chegar até o carro tornou-se uma tarefa desnecessariamente desgastante, além de estar elevando minha irritação ao que eu consideraria um nível alarmente.

- Me solta, seu bastardo!

Em um único movimento, larguei seu braço e me virei, vislumbrando um traço de alívio em seu rosto, que sumiu no instante em que ele se deu conta do que eu estava prestes a fazer. Me inclinei o suficiente para passar um braço por suas pernas e o ergui com a ajuda da mão livre, jogando seu corpo sobre o meu ombro.

- Maldito seja, Heero Yuy!!

Continuei o carregando, ignorando os socos que ele infligia em minhas costas e sua tentativa de despejar todo o seu rico dicionário de insultos e profanações sobre mim.

Enquanto isso, eu refletia sobre o que deveria fazer primeiro: passar um sermão, esmurrar a cara dele, absorver tudo que eu havia visto, ou contar o motivo que me levou a ir até ali...

A última alternativa trouxe de volta o baque que eu havia sofrido há algumas horas e, com ele, uma estranha e indesejada calma.

Não digo que eu estava menos irado com o que havia visto naquela boate; não, eu estava desnorteado e confuso demais para simplesmente apagar aquilo sem algumas respostas. Mas a perspectiva da conversa que eu teria de ter com Duo fazia a situação se tornar um pormenor.

Com a proximidade do carro e a recente conclusão, me vi colocando o americano de volta sobre os próprios pés para, segundos depois, apoiá-lo a fim de manobrar uma aparente vertigem.

- Pensei que não o veria beber depois daquele porre no apartamento... – alfinetei, não me contendo ao vê-lo lutando para manter o próprio centro.

- Tolo... – replicou com um toque de desdém.

- Baka... – devolvi.

Houve um longo momento em que ficamos apenas em silêncio. Eu aproveitava a oportunidade para encontrar um jeito de lhe contar aquilo sem agravar seu estado já deplorável, e ele parecia perdido em sua própria batalha interna.

Reiniciando minha contagem progressiva, suspirei e alcei uma mão para afagar sua franja, mas ele pareceu prever meu movimento e se afastou, imprensando-se contra a lateral do carro.

- Duo...

- O que aconteceu? – indagou, usando ambas as mãos para esfregar os olhos com os nós dos dedos. Seu corpo se movia inquietamente de um lado para o outro num gingado estranho, como se estivesse sem seu senso de orientação.

Antes que eu pudesse ajudá-lo ou pedir que esclarecesse aquela pergunta, ele emendou:

- Relena não terminou o serviço e você veio atrás de outro tipo de diversão?

Franzi o cenho ante minha incapacidade de compreender prontamente o sentido daquela pergunta, mas fui rapidamente elucidado por um flash que era um misto do que eu havia visto no reservado e do que havia feito com Relena no início da noite.

"E você sabe o que mais. Hee-chan? Eu estou achando isso tudo muito engraçado..."

Voltei a fitar seu rosto enfeitado com um pequeno sorriso escarninho que tentava disfarçar a mágoa evidente em seus olhos.

E foi naquele estacionamento em plena madrugada, carregando uma bomba em minhas costas, que uma parte do grande quebra-cabeça chamado Duo juntou-se célere e atordoantemente.

Teria sido aquilo tudo apenas para... dar uma espécie de troco?

O quão longe Duo chegaria para tentar me ferir como eu havia feito com ele...?


(#w#)

Duo POV

Eu não estava gostando nem um pouco da forma como ele me encarava naquele momento... como se tentasse me decifrar olhando dentro dos meus olhos. Acho que ainda tentei disfarçar qualquer traço de emoção em meu rosto, mas era impossível manter minha atenção focada nisso enquanto tentava lutar contra alguns sintomas já existentes da bebida. No fim, decidi apenas desviar meu olhar, me concentrando em manter meu equilíbrio e controlar as "coisinhas" estranhas dentro do meu estômago que estavam me deixando mais do que enjoado.

Aquele silêncio estranho ainda prolongou-se por um bom tempo, onde aproveitei para rever os últimos acontecimentos e me parabenizar por ter sido forte o bastante para não desmoronar quando descobri que Heero havia me flagrado naquela situação um tanto quanto... inusitada?

Ou eu deveria dizer ironicamente divertida?

Afinal, estaria mentindo se negasse que senti uma satisfação indescritível ao vê-lo me encarar dividido entre o choque e.. a raiva?

Bem, isso era algo que eu não sabia dizer.

Mas quem poderia me culpar, não é mesmo? Como eu ia imaginar que esse infeliz viria atrás de mim?

E pensando bem, essa era uma boa pergunta:

O que diabos ele estava fazendo ali?

- As coisas não são bem como você está pensando, Duo.

Senti o pequeno mal estar em meu estômago dar uma volta completa ante aquela declaração e deixei que a sensação desconhecida se transformasse em uma curta, desdenhosa e audível risada.

- Você só pode estar brincando comigo. – a réplica saiu antes que eu pudesse impedi-la, me deixando com a ligeira impressão de estar parecendo alguém que realmente se importa com o que aconteceu naquela porcaria de escritório e essa era a última coisa que eu queria passar. – Mas isso não importa, você não me deve satisfações, não é mesmo? Nunca deveu, por que começaria agora? – alfinetei, esperando consertar meu deslize e, com alguma sorte, desencadear uma espécie de ataque raivoso no japonês.

Mas, contrariando minhas expectativas, Heero só suspirou longa e profundamente, correndo os dedos pelos fios cor de chocolate como se tentasse aplacar seu nervosismo.

Não dando tempo para que tal coisa acontecesse, prossegui:

- Eu não sei que diabos você estava fazendo aqui agindo como o bom irmão mais velho, mas eu não vou me submeter a sua vontade besta. – dei de ombros, tentando dar mais veracidade a minha aparência despreocupada.

- Duo... – tentou me cortar naquele tom baixo que geralmente me convenceria, mas no momento, eu estava me sentindo alto o suficiente para continuar com aquela provocação.

Sem que eu percebesse, estava voltando a agir baseado no meu plano original, que, sinceramente, não deveria ter abandonado. Se eu tivesse permanecido irredutível, nada disso estaria acontecendo e na pior das hipóteses, eu estaria no apartamento, trancado no quarto e me lamentando sobre o quão injusta era aquela merda de vida.

É, eu queria o meu plano original de volta... queria que Heero gritasse e exigisse coisas para que eu pudesse rebater tudo e jogar coisas em sua cara; eu queria poder magoá-lo... eu queria que ele me magoasse... era o único jeito de eu ficar livre para ir pra casa...

Havia funcionado no começo, teria de dar certo agora.

- A culpa não é minha se Relena não terminou o serviço dela... – adicionei com um sorriso escarninho e pisquei antes de lhe dar as costas. – Felizmente eu tenho alguém que faça isso por mim e se você me der licença, vou remediar sua grosseria e...

Com um ofego que misturava a surpresa e a dor, retrocedi os poucos passos que havia dado, sendo puxado pela mão forte que agarrava o meu braço e me jogava contra o carro para adotar minha posição anterior. Dessa vez, Heero estava perigosamente próximo e minha mente fez questão de reprisar uma cena muito familiar àquela em um rápido flash.

Nem preciso dizer que uma certa parte do meu corpo reagiu de maneira instantânea e, apesar de parcialmente excitado com o que aconteceria, agradeci pelo japonês ainda manter uma certa distância entre nós.

- Eu não quero brigar com você... – ele murmurou num tom estranhamente calmo para alguém que possuía aquele brilho estranho nos olhos. Acho que ainda tentei analisá-los, mas a noção de seu corpo tão próximo ao meu tornava a tarefa impossível. – Assim como me convenci de que não é o momento de falar sobre o que aconteceu entre você e aquele sujeito...

- Aquele sujeito tem nome... – repliquei tentando soar desafiador, mas minha voz não conseguiu passar de um pequeno murmúrio.

- Eu não quero falar sobre isso agora, Duo.

Mesmo sabendo que não ganhava nada falando sobre o amasso que estava dando com Stephen naquele reservado, não pude impedir minha boca de continuar a replicar. Eu sentia que estava chegando num ponto onde Heero se descontrolaria.

Além do mais, não podia acreditar que ele não tinha nada a dizer. Por Deus! Ele havia encontrado o irmão se masturbando com outro cara! Tudo bem que Heero tinha a estranha capacidade de ser um bastardo frio quando precisava, mas isso era demais.

- E por que não? Não está nem um pouquinho curioso sobre o que nós fizemos ali? Eu não me incomodaria em dividir umas histórias com você.

Os olhos azuis se estreitaram e um grunhido estranho escapou da garganta do Heero; eu havia conseguido.

A mão em meu braço aumentou seu aperto e me vi fechando os olhos em antecipação, esperando qualquer tipo de reação vinda do japonês, até mesmo algo mais agressivo.

Mas para minha total surpresa, não foi exatamente isso que aconteceu.

Me senti ser puxado contra o corpo firme e ser envolvido num abraço forte, mesmo que um pouco desajeitado. A mão em meu braço deslizou para as minhas costas e a outra envolveu minha cintura, tornando a distância entre nós ainda menor.

Que merda era aquela?

Acho que tentei me debater, mas Heero era obviamente mais forte, principalmente quando eu me encontrava um pouco mais que ligeiramente bêbado e com o senso de equilíbrio em falta no estoque. Não foi preciso muito tempo até que eu me rendesse às minhas limitações e ficasse apenas ali, deixando que o japonês me abraçasse enquanto eu ficava imóvel à espera de seu próximo passo e, quem sabe, uma boa explicação para o que estava acontecendo.

Aproveitando aquele pequeno momento de contemplação, atentei-me para detalhes que até então haviam passado completamente despercebidos, como o fato do japonês estar usando a mesma roupa que vestiu durante o dia no escritório, ou o leve abatimento em seu rosto, o que, para o senhor cubo de gelo, era um sinal e tanto de que algo estava fora do lugar.

- Heero...? – chamei, minha voz saindo mais alarmada do que eu gostaria.

- Eu não vim para brigar com você... – ele sussurrou algum tempo depois, me deixando ainda mais desconfiado e receoso. – Não mais...

O.k. Agora eu estava realmente preocupado.

Senti meu estômago se contrair, me deixando enjoado e um pouco tonto. Sem me importar com aparências ou com a briga que eu estava tentando provocar instantes atrás, ergui ambos os braços passando um pelo pescoço do japonês e apoiando a outra mão em seu braço. Fiz um pequeno movimento demonstrando minha intenção de fitá-lo e ele afrouxou o aperto ao meu redor, permitindo que eu o encarasse.

- Por que, Heero? – indaguei, esperando que aquela simples pergunta me trouxesse todas as respostas para a confusão daquela noite.

O japonês suspirou, fechando os olhos brevemente. Quando os dois orbes azuis voltaram a se abrir, havia uma estranha resolução ofuscando o amontoado de sentimentos que ele havia deixado transparecer.

- Porque agora, você é a única pessoa que eu tenho.

Pisquei ante aquelas palavras, ainda confuso com o significado que elas continham.

Que diabos ele queria dizer com esse papo de que eu era a única pessoa que ele tinha?

E por que ele continuava me olhando como se esperasse que a elucidação brilhasse na minha cara que nem letreiro de néon?

Um pouco irritado com sua falta de jeito com as palavras em um momento como aquele, estreitei meus olhos e me forcei para trás, tentando fugir de seu abraço.

- Eu não entendo o que você quer dizer com isso, mas a brincadeira já está perdendo a graça. – grunhi, forçando minha fuga, mas eu estava ridiculamente tonto demais para conseguir lutar contra qualquer um.

E ele continuava me encarando, esperando sabe-se lá Deus o quê, me deixando cada segundo mais irritado.

- Que merda, Yuy! – rosnei, socando seu braço. – Me deixe ir embora! Você pode não ter ninguém pra voltar, mas eu... tenho...

"Porque agora, você é a única pessoa que eu tenho."

Foi como se todo o meu ar houvesse sido roubado, ou um tapete estivesse sendo repentinamente puxado sob meus pés. Todos os sentimentos e reações que eu provava diluíram até reduzir minha mente a um grande nada.

Minha mãe, ela... eu não... não havia falado com ela hoje... eu não...

- Hee... Heero?

Minha voz não passou de um choro estrangulado e me senti tremer quando uma das mãos do japonês tocou minha nuca, me forçando a recostar a cabeça em seu ombro.

Não podia ser... não o que eu estava pensando, não...

- Nós vamos pra casa agora, Duo... lá eu te explicarei tudo...

- Não! – rosnei, me afastando e cambaleando para longe do abraço. – Eu quero respostas agora! De que merda você está falando?

- Aqui não é o lugar certo pra isso. – ele tentou se aproximar, mas parou ao perceber que eu me afastava ainda mais com seus avanços. – Duo... por favor...

- Não! Você começou a falar essa droga, agora termina! – exigi, tentando me concentrar em sua voz para esquecer que o mundo estava girando ao meu redor.

- Você não está em condições pra isso... – continuou, e em algum lugar eu sabia que ele estava tentando me poupar ou sei lá o que... mas...

Droga! Eu queria ouvir da boca dele, eu queria... queria que ele dissesse que eu estava enganado...

- Duo...

Ignorando seus chamados, procurei pelo celular no bolso da calça, meus olhos embaçados e as mãos trêmulas não facilitando o trabalho.

Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo, não ela.. Deus!

- Heero... – supliquei, erguendo o rosto para encará-lo, o aparelho deslizando das minhas mãos. – Diz...

O japonês se aproximou até estar apenas a alguns passos de distância, nunca quebrando o contato dos nossos olhos. Segundos intermináveis se passaram até que ele finalmente suspirou:

- Natsumi está... morrendo. Colocaram-na em um coma induzido que, com sorte, vai durar até chegarmos ao hospital...

Acho que Heero ainda estava falando alguma coisa... em algum lugar. Meus sentidos pareciam amortecidos, dispersos. A única coisa da qual eu tinha noção no momento eram suas primeiras palavras reverberando constantemente em meus ouvidos:

"Natsumi está... morrendo".

Morrendo, ele disse...

As coisinhas em meu estômago pareciam finalmente ter desaparecido, porque eu não sentia nada a não ser uma estranha leveza que, somada ao grande branco da minha mente, parecia estar roubando a pouca força que ainda me restava. Eu deveria estar lutando contra o torpor que ameaçava me dominar, mas a dor parecia muito mais forte...

"Eu não sei... A única coisa que eu espero é chegar a tempo de vê-la com vida... e quem sabe, agradecer por tudo que ela fez por mim..."

"Vai chegar..."

E o meu último pensamento antes de me render à inconsciência foi a certeza de que, infelizmente, eu não ia chegar a tempo...

Eu havia falhado com ela.. a única pessoa que esteve ao meu lado apesar de tudo...

O que seria da minha vida agora?

-

Deixei que meus olhos se abrissem, não suportando mais o oscilar entre o despertar e a inconsciência. Sentia meu corpo esgotado apesar de não ter feito nenhum tipo de esforço, mas creio que o pior seja o latejar profundo em minhas têmporas.

Nem sabia dizer se havia ou não passado algumas horas; minha noção de tempo e espaço se resumia a saber que aquele quarto não podia pertencer a ninguém menos do que Heero; que eu não estava vestindo as roupas com as quais deixei a boate, muito menos cheirava a álcool, sexo ou cigarro; e que pela luz fraca vinda das frestas da cortina, ainda era madrugada... da noite em que meu mundo havia dado uma volta completa.

É incrível como em um pequeno movimento as coisas que pareciam ser as mais doloridas e incompreensíveis do mundo passam a não ter nenhum significado para você.

Ou ainda melhor, como todas elas passam a ser meras bobagens.

Em um segundo, Heero e Relena tornaram-se algo tão ínfimo perto da grandiosidade da dor...

Da perda.

Ofeguei sentindo novas lágrimas acharem seu curso por minha face, perturbado pela sensação incômoda em meu peito, como se um grande punho pressionasse o meu coração. Parecia que meu chão havia sido roubado em uma fração de segundo, e eu me via caindo em um abismo, aparentemente sem fim.

Encarar a realidade nunca doeu tanto...

Puxei um dos travesseiros ao meu redor, escondendo meu rosto em sua maciez para tentar abafar meus soluços. Eu sabia que não deveria ter deixado seu leito... Eu não deveria ter cedido aos seus apelos.

Infernos! Vir até a Terra só me trouxe mais problemas do que qualquer outra coisa.

Eu sempre soube... Esquecer era a melhor opção, não enfrentar meu problema de frente. Naquela semana miserável eu tinha ido ao inferno e subido aos céus em poucos dias, para depois ser arremessado de volta às profundezas. Nada disso estaria acontecendo se eu estivesse lá ao seu lado, lá onde era o meu lugar...

E por todos os demônios, eu estava chorando como há muito não fazia...

E eu sabia que não era somente por ela... era por ele também.

Tudo o que eu havia imaginado ao entrar naquele ônibus espacial estava acontecendo diante dos meus olhos. Heero havia quebrado cada uma de minhas barreiras, e agora, quando eu mais precisava delas, estava tudo resumido a um grande nada. Minhas preciosas regras de sobrevivência foram deixadas de lado em algum momento e meu único alicerce estava perecendo... estava desaparecendo, e o que me restava?

Como se meus pensamentos houvessem sido ouvidos de alguma forma observei, ressabiado, a porta do quarto se abrir apenas o suficiente para que Heero passasse, mãos ocupadas com um copo de água e um pequeno vidro que especulo conter algum tipo de remédio. Com sua aproximação posso notar o quão abatido seu semblante está e que assim como eu, já não estava mais usando as roupas que havia visto antes de apagar.

Aguardei sua aproximação em silêncio, esperando que ele fizesse ou dissesse algo e, ao mesmo tempo, desejando que nada fosse dito. É claro que havia muitas coisas que eu queria saber, principalmente quando eu ia dar o fora daquele lugar e ir até o hospital, mas a perspectiva de uma conversa com Heero me deixava um tanto quanto receoso. Eu ainda estava com raiva; eu ainda queria magoá-lo... e por alguma razão que desconheço, queria que ele me abraçasse como havia feito no estacionamento e que me assegurasse que estava tudo bem...

Tentei me erguer quando Heero sentou-se ao meu lado, mas a pontada lancinante foi um sinal claro para voltar à posição inicial. Esperei alguns segundos até estar hábil para uma segunda tentativa e me surpreendi ao sentir uma mão apoiando minha nuca e a outra ajeitando os travesseiros em minhas costas.

- Aspirina. – veio o aviso num murmúrio baixo, que se não fosse pelo silêncio presente no quarto, teria me passado completamente despercebido.

Aceitei a água e o comprimido, ávido por me livrar da dor pungente. Devidamente medicado, me recostei contra os travesseiros e entreguei o copo ao japonês que apenas o colocou no criado mudo, nunca tirando os olhos de mim.

Mesmo em minha condição precária, ainda tinha neurônios o suficiente para perceber que Heero não sairia dali até que eu falasse alguma coisa ou, quem sabe, ele mesmo o fizesse.

Movido pela torrente de pensamentos e sentimentos incertos, me vi decidido a apenas ficar ali e sustentar o seu olhar, mas um movimento rápido e inesperado vindo do japonês me deixou completamente perplexo e sem saber como reagir.

No momento seguinte, eu tinha um Heero deitado ao meu lado; a massa de cabelos cor de chocolate roçando contra o meu queixo e o peso sobre meu peito não deixando dúvida alguma de que ele estava realmente apoiado de encontro ao meu corpo. Eu queria gritar para que ele saísse, ou perguntar o porquê daquele gesto, mas me lembrando da forma como ele me abordou no estacionamento acabei por ficar imóvel, esperando que ele dissesse alguma coisa.

Sem que eu percebesse, minutos se passaram e em algum momento o japonês pareceu seguro o suficiente para falar:

- Eu nunca entendi muito bem o que fazia você correr pra mim quando algo te assustava... – franzi o cenho, completamente alheio ao que ele estava querendo me dizer, até que ele acrescentou: – Mas sempre imaginei que fosse por sermos irmãos... acho que eu estava enganado.

- Isso faz muito tempo Heero... – murmurei, minha voz soando amarga demais até para os meus próprios ouvidos.

- Eu sei... – ele respondeu sem pestanejar. – As coisa não são mais as mesmas... você me disse isso ontem e eu sei que falhei com você, apesar de não saber exatamente como... ou o porquê.

Em meio à pequena pausa que se seguiu, tentei juntar aquelas pequenas informações com a situação pela qual estávamos passando e não pude deixar de considerar aquilo como um estranho pedidos de desculpas. Ouvir Heero falando daquelas coisas era tão... estranho, e ao mesmo tempo, reconfortante... Me agradava saber que não era o único a reter aquelas memórias ou considerá-las de algum valor.

Ainda assim, não me sentia confortável para tocar naquele assunto, não agora. Haviam coisas mais importantes para mim, outras prioridades e o japonês precisava entender isso.

- Como ela...

- Dormindo. – interrompeu, parecendo saber exatamente o quê eu queria saber. – E ficará assim até nós chegarmos lá... eu espero.

- E quando nós vamos? – indaguei não querendo dar tempo para que outro momento de silêncio caísse entre nós.

- Quatre insistiu em cuidar do nosso embarque, – apesar de estranhar o fato de Heero e Quatre terem se comunicado dessa forma, me vi sorrindo ante a presença do loiro em mais um momento importante na minha vida. – e Trowa vai cuidar do necessário para que eu possa ficar em L2 o tempo que for necessário... com a influência dos dois, não acho que vamos ter muitos problemas... – terminou com um suspiro, enterrando ainda mais o rosto contra o meu ombro.

Aquilo estava me deixando realmente confuso. Ao mesmo tempo em que eu queria afastá-lo dali ao me lembrar do que havia sido feito àquela noite, também desejava manter seu calor próximo de mim. Ter Heero assim, mesmo que sem outras intenções, foi uma das coisas pelas quais mais ansiei durante aqueles anos em que ficamos longe e agora que me era oferecido, eu já não sabia dizer se era a coisa certa.

- Heero, o que você tem? – me vi perguntando antes que pudesse evitar, sentido o corpo ao meu lado enrijecer.

Ficamos um longo minuto em silêncio, onde pensei que não teria uma resposta, mas para a minha surpresa, ouvi a última coisa que esperava:

- Medo.

Em um gesto automático, me vi passando os braços ao seu redor, abraçando-o sem reservas, como ele fazia comigo quando eu era menor.

- Do quê, exatamente?

O silêncio veio novamente, mas dessa vez me pus a esperar, entendendo que aquele era uma espécie de preparação para que ele pudesse vocalizar o que lhe afligia.

- De ser muito tarde...

Inspirei em desalento, compreendendo o que ele queria dizer melhor do que eu gostaria. No fundo, eu desejava poder confortá-lo e garantir que ainda havia uma oportunidade, mas eu estaria mentindo se o fizesse.

- O tempo já passou para muitas coisas... – respondi algum tempo depois, deslizando meus dedos preguiçosamente pelos fios castanhos.

- Até para nós?

Um sorriso triste adornou minha face ao mesmo tempo em que meus braços afrouxavam o aperto ao redor de Heero. Por mais dolorida que fosse, a resposta àquela pergunta nunca me pareceu tão clara e certa:

- Para a família Yuy... sim.

O japonês remexeu-se até que seu rosto estivesse completamente virado para o meu. Acho que nunca havia visto suas emoções tão expressas naqueles belos traços e infelizmente, era um misto de tristeza e arrependimento que eu via neles. Nos encaramos por um longo tempo, tudo que precisava ser dito brilhando intenso dos olhos cobalto e, eu esperava, que nos meus também.

Quando Heero voltou a apoiar a cabeça contra o meu peito, pude ver de relance sua expressão tornando-se vazia como de costume, e interpretei aquilo como um sinal de que as coisas seriam como tinham de ser, como se aquela semana jamais houvesse existido.

Não importava o quão grande fosse nossa vontade, não podíamos voltar atrás e consertar as dezenas de erros que cometemos. Não havia mais chances de eu ser claro quanto ao que sentia, nem de Heero ter sido mais presente ou dado valor ao que tinha diante dos seus olhos. Estávamos presos às conseqüências das decisões que tomamos e naquele momento só nos restava aceitar e seguir em frente.

Não importa o quão doloroso isso venha a ser...


(#w#)

Quatre POV

A chuva caía fraca naquele fim de tarde, dando um toque ainda mais melancólico à ocasião; eu podia perceber que Duo havia notado isso também. Os olhos ametistas não perdiam um momento do céu acinzentado, braços abraçando o próprio corpo e o rosto livre de qualquer expressão.

Meu amigo estava sofrendo, algo tão palpável quanto a água que molhava aos poucos a varanda em que estávamos à espera do táxi que levaria Heero embora.

Quase duas semanas haviam se passado e, dentro delas, assisti Duo ir e vir preso em suas próprias lamentações, distante demais para que algum de nós pudesse ajudá-lo.

Nunca vou esquecer sua expressão ao ver o rosto pálido e tranqüilo de sua mãe e de sua voz me dizendo que ela estava apenas descansando, que era como se a qualquer momento fosse abrir os olhos e deixá-lo dizer adeus. Até poderia dizer que Duo havia se quebrado por inteiro naquele momento, mas sei que isso não se comparou a ter de desligar os aparelhos que mantinham Natsumi viva...

Aquela foi a última vez que vi Duo chorar.

Heero também não estava em seus melhores dias. Era perceptível que aquela casa não lhe fazia bem e por mais que ele tenha tentado adiar sua partida, creio que a dor das lembranças foi demais para ele. Quando a situação em seu trabalho ficou insustentável, não houve outro remédio a não ser partir.

Essa parte da história ainda era um pouco obscura para mim; sabia apenas que a sócia dele estava querendo transferir os cuidados para com a sociedade ao irmão mais velho. Heero não parecia à vontade em dar mais detalhes e Duo... bem, este falava pouco demais para me dar algum tipo de informação.

Sally e eu ainda insistimos por algum tempo, mas logo percebemos que o americano não quebraria seu silêncio com nossa insistência. O japonês ainda persistiu, ou melhor, persiste, mas Duo continua irredutível nesse ponto. Quando ele se fecha em seu quarto, não há quem consiga tira-lo de lá.

Era triste ver como Heero ainda tentava arrumar uma forma de se aproximar...

Inquietante a forma como só nos damos conta das coisas que realmente são importantes para nós quando estamos prestes a perdê-las e, muitas vezes, é tarde demais para voltar atrás e consertar onde erramos ou reaver o que deixamos de cuidar... Infelizmente, Heero se enquadrava perfeitamente nessa condição, e a relutância de Duo em seguir com ele para a Terra provava que realmente era um pouco tarde para ele reaver o que tinha perdido.

A decisão de meu amigo havia me surpreendido tanto quanto parecia ter machucado o japonês e apesar de compreender suas motivações, não posso deixar de me preocupar com o futuro que ele terá ali, numa casa cheia de recordações doces e, ao mesmo tempo, amargas.

Eu sinceramente já não sabia mais o que pensar ou como opinar. Sabia da dor que o acometeria se ele voltasse com Heero, mas também temia o quão dolorido seria permanecer. No final das contas, tentei incentivar sua ida para Terra, mas Duo estava convencido de que não havia lugar para ele com o irmão...

- Trowa quer falar com você. – a voz do japonês ecoou pelo cômodo, causando um pequeno sobressalto tanto em mim quanto em Duo.

Acho que um sorriso inconsciente delineou meus lábios, o qual tentei esconder mais do que depressa enquanto observava meu amigo pegar o aparelho e deixar a varanda. Havia conhecido Trowa em sua vinda há uma semana atrás para o enterro de Natsumi. Apesar de a situação ser uma das piores para se começar uma amizade, podia dizer que tinha simpatizado e muito com o moreno de olhos verdes.

- Eu não queria deixá-lo.

Ergui meus olhos do ponto aleatório que encarava e encarei as duas pedras azuis, me fitando com uma amenidade muito diferente da frieza de sua voz.

- Eu sei que não. – respondi, apontando para a cadeira a minha frente. – Mas infelizmente, não há nada que possa ser feito... Duo não acredita mais em você, Heero.

Sei que minhas palavras podem ter soado duras, mas a ocasião pedia sinceridade e sei que o japonês concordava comigo.

- E não me conforta saber que você também não estará aqui por algum tempo.

Suspirei ante aquele comentário, me sentindo ainda mais apreensivo em relação àquela partida. Infelizmente, os deveres para com a minha família me manteriam longe da colônia por algum tempo, e mesmo que permanecêssemos em contato por telefone ou por qualquer outro meio, não seria a mesma coisa que acompanhar seu progresso de perto.

- Isso também não me agrada nem um pouco... eu realmente queria que ele fosse com você, pois tenho negócios naquela cidade também.

- Vou voltar assim que conseguir dar um jeito em Relena... – suspirou, esfregando o rosto com ambas as mãos.

- Eu só vou te pedir uma coisa Heero: - seus olhos abriram-se para fitar os meus, a seriedade expressa em seu rosto era um reflexo da que estava estampada no meu. – Eu não sei o que está se passando pela sua cabeça, mas tome cuidado com o que você vai fazer... Duo já se machucou demais.

- Estou tentando consertar as coisas. – rebateu, visivelmente incomodado com o que eu havia acabado de lhe falar.

- Você não vai consertar nada se não souber o que quer, o que ele quer.

A expressão perdida do japonês foi um sinal claro de que eu havia tocado no ponto certo. Acho que ele pretendia me dizer mais alguma coisa, mais o retorno precoce de Duo interrompeu a minha chance de esclarecer qualquer coisa.

- Ele mandou um abraço pra você, Q. – comentou assim que entrou no quarto, tentando esboçar um sorriso divertido...

Apenas tentando.

- Já disse que você está vendo coisas demais...

- A baba no seu queixo quando o viu me pareceu bem real.

- Cretino...

Ficamos nessa pequena troca de farpas por alguns minutos, onde Heero apenas nos observava com um sorriso ínfimo dando um ar nostálgico ao seu rosto. Ao meu lado, Duo tentava sorrir e brincar, mas eu tinha certeza de que estava tão ferido quanto o japonês, e quando o táxi chegou, interrompendo nossa conversa, isso ficou bem claro.

- Acho que está na minha hora.

Heero ergueu-se, procurando pelas malas deixadas em um canto da varanda e eu abri um guarda-chuva para ajudá-lo a levá-las para o carro. Duo apenas observava nossa movimentação com o rosto contorcido numa expressão estranha, mas que eu poderia resumir com uma única palavra:

Tristeza

Malas devidamente guardadas, voltamos à varanda, onde dei um pequeno espaço para que os dois pudessem se despedir. Por um momento achei que eu teria que empurrá-los e fazer com que dessem um abraço decente, mas Heero foi mais rápido e se adiantou para puxar o americano em um abraço apertado que, depois de alguns segundos, foi correspondido com a mesma intensidade.

- Volta comigo... – o japonês pediu assim que desfez o abraço. E vendo o tamanho da dor nos olhos de Duo, por um momento pensei que ele cederia, mas não o fez.

- Eu não posso...

- Por quê?

Assisti Heero engolir a recusa mais uma vez, sem obter uma resposta para sua pergunta. Abraçando o irmão novamente, prometeu voltar em breve e manter contato.

De minha parte, dei apenas um breve aceno, certo de que o veria em apenas alguns dias quando chegasse à cidade para resolver alguns assuntos que haviam ficado pendentes.

Alternando um olhar entre o carro que se afastava e o corpo agora trêmulo de Duo, avancei alguns passos, o puxando para um abraço apertado. Seu rosto continuava virado para o horizonte e quando o carro finalmente sumiu de nossa vista, senti que o ligeiro tremor se transforma em um soluço.

- Porque eu te amo, Heero...

Meu amigo finalmente estava chorando, lavando suas tristezas como a chuva fazia com aquele fim de tarde.

A mim, restava confortá-lo e rezar para que aquela decisão tenha sido a mais sábia...

Duo sempre amaria Heero, estando perto ou estando longe...

Heero amava Duo, à sua estranha maneira...

Eu só queria saber se aquele sentimento era forte o suficiente para suportar o caminho que eles tinham pela frente...


Se toda a força e toda a coragem

Viessem e me tirassem desse lugar

Eu sei que eu poderia te amar bem melhor do que isso


Continua...


Notas da Autora: Yeah.. mais um. Confesso que achei que esse cap. daria um belo fim de fic, mas acho que não seria uma idéia muito inteligente... ºolha pros leitoresº

Fiquei particularmente feliz com esse cap. só espero que vcs gostem também.

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Notas da Beta: Que notas? O que falar sobre isso que eu acabei de ler? Esse capítulo foi sem dúvidas o mais lindo, o mais profundo e o mais triste da fic até então, pelo menos pra mim... só espero que eles saibam o que fizeram...