Capítulo 10 – Vidas

Harry escutou a melodia de Mozart tocando em algum ponto distante de sua mente e gemeu. Era o despertador. Virou o rosto para o outro lado e suspirou, abrindo os olhos, piscando com a luz ambiente. Estava deitado de bruços, nu e parcialmente descoberto. Apoiou-se nos braços, passando a mão no rosto e bocejando. Olhou para o loiro que ainda dormia, deitado de lado, enrolado em toda a coberta e abraçando um travesseiro, além dos dois sobre o qual repousava. Harry se virou e o abraçou por trás, se aconchegando contra o seu corpo. Draco, também nu, resmungou e se virou no abraço, pousando uma mão em seu peito, entrelaçando as pernas de ambos e suspirando com o rosto encaixado em seu pescoço.

Harry fechou os olhos e se permitiu ficar assim algum tempo. Até que o despertador tocou de novo. Haviam se passado cinco minutos já.

- Precisamos levantar. – a voz rouca de Draco constatou.

Harry beijou seus cabelos, virando o rosto para o outro lado e bocejando novamente.

- Você quer tomar banho primeiro? – perguntou, se afastando um pouco no abraço. Draco concordou e os dois se viraram, levantando da cama, se espreguiçando.

Harry foi até seu guarda-roupa e separou um conjunto de vestes para o dia, reparando, pelo espelho, que Draco fazia o mesmo, depositando suas roupas sobre a cama. O loiro pegou a gravata que o moreno havia escolhido e voltou a guardá-la, pegando outra. Harry nem reparou qual era, tinha certeza que formava uma combinação melhor com o conjunto. Seguiu para o banheiro, fazendo sua higiene, e Draco o seguiu, entrando no boxe.

- Vou acordar as crianças. – Harry informou, fechando a porta do banheiro, vestindo o pijama que estava perdido entre as cobertas e saindo do quarto.

Ele percorreu os outros quatro quartos do corredor, acordando cada um dos filhos e Scorpius. No quinto aposento, um bebê dormia tranqüilo. Ele o pegou, com cuidado, e trocou sua fralda sem que acordasse, enquanto um elfo arrumava a mala que continha as coisas da filha de que precisaria, como fraldas e mamadeiras sobressalentes.

Com o bebê já desperto no colo, Harry seguiu para a cozinha, passando novamente em cada quarto para se certificar de que estavam todos de pé. Colocou Sophie na cadeira alta e apanhou uma xícara de café enquanto o elfo o entregava o prato com a comida do bebê. Draco entrou, já totalmente pronto para trabalhar.

- Deixe que eu faço isso. – disse, tomando o prato de suas mãos, ao que a filha reagiu, demonstrando que queria comer sozinha, tentativa que Draco supriu entregando para ela um copinho próprio com leite. Ele voltou-se novamente para Harry – Coma alguma coisa e vá se arrumar. Estamos atrasados.

- Obrigado. – Harry respondeu, bocejando e pegando uma torrada quando Albus e Scorpius entraram conversando na cozinha, se aproximando dos dois adultos para lhes darem um beijo de bom dia antes de se sentarem à mesa.

- Bom dia, pai. Bom dia, Harry.

- Bom dia, Draco. Bom dia, pai.

- Lily já saiu do banho? – Draco perguntou a Harry – Senão nós não saímos daqui hoje...

- Estou aqui... - a menina entrou na cozinha junto com um claramente sonolento James, que se deixou despencar na cadeira.

Harry deu um beijo em cada um dos filhos e voltou para o quarto para terminar de se arrumar, tomando o cuidado de deixar as portas abertas para ouvir Draco.

- Você vai ter que chegar mais cedo hoje, não é? Tem reunião?

- Às dez. Vou só deixar as crianças na plataforma e vou direto para o Ministério. Você não pode chegar mais tarde?

- Não, tenho que fazer a revisão no departamento antes de começarmos... – Draco se interrompeu, se voltando ao elfo – Os malões já estão no carro?

- Sim, mestre.

- Bom, leve minha bolsa também. Harry, você não ligou para a Hermione?

- Liguei, ela tem uma cirurgia hoje. Ron vai levar as crianças na plataforma, mas eles não podem ficar com Sophie. Fale com seus pais.

Draco resmungou e jogou um pouco de flu na lareira, chamando pela mãe. Alguns minutos depois todos estavam na garagem da casa que, se não fosse sua e, por isso, com muito do que relacionava a Draco e a seus filhos, Harry poderia até lembrar da casa em que morou com os Dursleys: por fora, o belo jardim que margeava o sobrado aparentemente simples e aconchegante da periferia. Por dentro, uma casa grande e confortável.

O loiro se despediu das crianças e cumprimentou o chofer – ele se recusava a aprender a dirigir -, acomodando Sophie no bebê-conforto de seu carro.

- Nos vemos no almoço? – Harry perguntou, se despedindo com um beijo rápido antes de assumir a direção de seu veículo, onde as quatro crianças já estavam acomodadas, e os malões e animais magicamente guardados no porta-malas.

- Claro. Me espere no átrio, não devo me atrasar. – Draco respondeu, sorrindo, antes de se sentar ao lado da filha no banco de trás do outro carro, pegando na bolsa um relatório para ler no caminho até a mansão, onde deixaria Sophie. De lá, preferia aparatar para o Ministério.

oOo

Draco fez uma marca na porta e a bateu, fazendo anotações em uma prancheta enquanto as portas giravam velozmente ao seu redor, até a sala parar novamente. Ele se dirigiu a um aposento não demarcado, iniciando as averiguações de rotina nos ambientes magicamente criados do departamento.

Rotina.

Essa era uma palavra que, até dois anos atrás, não imaginava ter ao lado de Harry Potter. Estavam morando juntos há quase um ano já e ele não poderia se sentir melhor. Se um dia Harry significou uma fuga de seu papel social, agora o compromisso que tinham um com o outro era o que o fazia acordar todos os dias e sorrir.

Ele nunca fora uma pessoa romântica. Nunca acreditara realmente em amor. O que via entre seus pais era um equilíbrio carinhoso. No fundo, acreditava que o casamento era somente uma questão de saber conviver. De certa forma, ele estava certo. Ele não soubera conviver com Astoria, e isso foi um dos pontos que deu errado. Os dois estavam melhor separados agora.

Ele fez uma marca na porta da sala do véu e colocou um "ok" na prancheta, adicionando algumas anotações enquanto as portas giravam a sua volta, antes de seguir para a próxima, ainda imerso em seus pensamentos.

Ele tinha certeza de que, sem o que sentia por Harry, qualquer convivência entre os dois seria inútil. Não era somente uma questão de acordar todos os dias ao lado da mesma pessoa, comerem juntos e transar eventualmente quando chegavam em casa para aliviar o cansaço do dia e dormir melhor. Em cada gesto, em cada beijo, havia algo a mais que ele nunca provara com Astoria. Não importava que esse algo estivesse se tornando cotidiano durante esse ano em que estavam juntos. Nem em cem anos seria algo banal.

E, além de um ao outro, havia as crianças. Estar com Scorpius e Sophie era algo de que Draco não abriria mão nunca. Era algo de que ele, definitivamente, precisava. Para ser feliz, ou ter paz, ou se sentir pleno, ou o que seja. O amor que tinha pelos filhos era maior do que qualquer outra coisa que já sentira em toda a sua vida, e era uma das certezas que o acompanhavam.

A companhia dos filhos de Harry também passou a integrá-lo. Lily era doce, James era alegre, mesmo que um pouco imprudente, e Albus... bem, Albus era Slytherin, e inteligente. Todos eram. Não causavam problemas e o haviam aceitado bem, assim como a Sophie e Scorpius. Draco guardava carinho e afeto por eles. Eram... uma família. Finalmente. E aquilo era algo que o fazia se sentir bem. Aquela união era algo que ele poderia chamar de amor.

As portas pararam de girar e Draco suspirou com o conceito de família antes de se voltar para a última que faltava. Depois daquela iria almoçar com Harry e buscar Sophie. Desde os acertos que fizeram com Kingsley, ele trabalhava somente na parte da manhã e Harry somente à tarde, para cuidarem da filha. Haviam, obviamente, conseguido o registro falso de adoção. Kingsley fora bem receptivo, parecia aliviado, e obviamente queria evitar as repercussões que o caso poderia ter. Fez o que pôde para protegê-los, uma vez que provaram o que aconteceu. Draco se lembrou da pequena cerimônia de casamento que foi realizada nos jardins da Mansão algumas semanas depois, sorrindo enquanto entrava na sala mal iluminada, não reparando no que fazia. A ausência do que verificar, porém, o trouxe de volta para a realidade. Havia algo de errado ali.

Ele retrocedeu, tomando cuidado para não bater a porta, observando que, efetivamente, era o último aposento que faltava verificar – todas as outras portas já possuíam marcas em sua superfície. Mas isso significava...

Draco olhou o aposento vazio com mais atenção. Não havia nada lá dentro, nem outras portas que comunicasse aquela sala com outros lugares, e não havia magia aparente no ar. O loiro realizou alguns feitiços padrão para ver se descobria algo camuflado naquelas paredes, mas não encontrou nada evidente, além de uma ligeira alteração na atmosfera do ambiente.

Ele olhou em volta com mais atenção. Como conseguira entrar naquela sala? Ela permanecia o tempo todo magicamente trancada e, em anos trabalhando naquele lugar, nunca ninguém – nem mesmo ele – conseguira abrir aquela porta ou descobrir alguma outra que se comunicasse com ela. Era simplesmente estranho demais que justamente naquele momento...

Os pensamentos de Draco foram interrompidos por uma lembrança. Ele já esteve ali antes. Em uma noite, há anos atrás, quando ele e Harry estavam se escondendo para, bem... E ele não percebeu, ou se esqueceu... afinal, alguns dias depois começou a passar mal com a gravidez...

Draco olhou assustado para as paredes nuas da sala. Não podia ser. Ele fechou a porta às suas costas, entrando, e percebeu que a sala continuava com uma iluminação interna fraca, uma iluminação própria. Realizou mais alguns feitiços, mas não teve resposta, além de uma única confirmação: havia magia no ar daquele ambiente, e era magia natural.

Ele fez algumas anotações em sua prancheta e saiu da sala, fazendo marcas mágicas especiais na porta, a diferenciando das outras e fazendo com que não se esquecesse de voltar ali depois de pesquisas para investigar melhor aquilo. Precisaria falar com Granger.

Ele bateu a porta e a sala girou. Agora concentrado no que estava fazendo e preocupado com o que poderia estar guardando em seu departamento, Draco parou em frente à porta marcada e tentou voltar a abri-la.

Ela estava trancada.

oOo

"É o poder guardado naquela sala que você possui em grande quantidade, e que Voldemort não possui. (...) No fim, não teve importância que você não pudesse fechar sua mente. Foi o seu coração que o salvou."

Harry Potter e a Ordem da Fênix, pg. 681

FIM

N/A: Bem... Es finito. Foi muito bom estar com vocês. Acho que essa foi a fic mais... doce que eu já fiz em toda a minha vida e gostei muito da recepção que ela teve. Obrigada a todos que leram e um obrigada especial a todos que comentaram e me agüentaram enchendo o saco. Neste quesito, deixo um beijão pra Fla, em particular. Ah, e eu não consegui tempo entre ontem e hoje para responder todos os comentários, mas uma hora eu consigo, acreditem!

Dúvidas, críticas, elogios, sugestões: vocês sabem onde me achar. ;D

Beijos para todos e espero encontrar vocês de novo em breve!