A inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer.

JEAN PIAGET

9 O BECO DIAGONAL

Estranha era a palavra que melhor descrevia aquela semana. Não havia palavra que melhor se encaixasse naquele contexto: depois que Dumbledore os deixara a sós no quarto, nenhuma outra palavra fora trocada entre Harry e Gina. Não houvera boa noite, nem bom dia, nem você viu meus sapos de chocolate? Absolutamente nada.

A ruiva levara a sério seu papel de abraçar a amizade e o carinho de todos – achou incrível que Tom já fosse o proprietário do local e ele foi a primeira vítima de longos períodos de conversas alegres e amigáveis. Conquistara sua confiança com um sorriso largo e um bom dia, Tom! Logo na primeira manhã. Depois foi só uma questão de tempo até que quase todos os hóspedes e até mesmo lojistas do Beco Diagonal acenassem animados e a dessem bom dia todas as manhãs. No terceiro dia, arrumara até mesmo sorvetes de graça na Florean Fortescue. Era incrível a forma como Gina podia se relacionar bem com todos – e começar com o famoso proprietário do Caldeirão Furado fora uma jogada de mestre. Sua identidade não seria problema, uma vez que seu pai, Arthur Weasley, já havia se formado há alguns anos – dizia não conhece-lo e afirmava que talvez pudesse ser seu primo em segundo ou terceiro grau.

Contudo, toda essa simpatia mudava ao lado de Harry. Era bem verdade que seu orgulho Weasley era a única razão por ainda não tê-lo perdoado por completo, já que suas demonstrações de poder a convenceram de sua evolução – mas Harry simplesmente não ajudava. Gina não o vira fora do quarto em momento algum, e perguntava-se se ele ao menos havia comido algo. Quando ela saía pela manhã, o rapaz estava vestido inteiramente de preto sentado de pernas cruzadas no centro do quarto. E quando voltava… ele continuava exatamente na mesma posição. Apenas no terceiro dia o vira de forma diferente – estava de pernas cruzadas, mas o que estava apoiado no chão era apenas sua cabeça. A cena entrara para sua recém iniciada lista de peculiaridades de Harry Potter em primeiro lugar desde a abertura do portal.

Era finalmente sábado, e Gina assistia de braços cruzados e sobrancelhas erguidas o rapaz sentado no meio da sala, perguntando-se se ele sequer sabia que dia era. Permaneceu ali por cerca de meia hora, hipnotizada pela cena e pelo tique-taque do relógio. Ela deu um pulo quando, depois de desviar o olhar para o relógio de madeira, encontrou os olhos de Harry a observando.

— Eu- é, e-, a-, v-você está com fome? — Perguntou gaguejando, o rosto da cor de seus cabelos. Harry não fez questão de responder, apenas se ergueu num pulo e esticou os braços para cima, alongando-se.

Ele movimentou o pescoço para os dois lados com um estalo alto em cada lado e depois girou-o para relaxar. Respirou fundo e vestiu sua capa mais uma vez, ainda em silêncio. Gina o fitava com olhos arregalados, sem entender muito bem o que acontecia – ele retribuiu o olhar e saiu sem dizer nada, deixando a porta aberta atrás de si. Gaguejando mais uma vez, levantou-se de sua cama e andou atrás dele. Mas será que nem um banho ele pode tomar? Perguntou-se.

— Ah! Você ainda está aqui! — Exclamou Tom, que esbarrou com Harry no final da escada. O rapaz não respondeu nada e ele desviou o olhar, encontrando Gina. — Bom dia, Gina!

A ruiva respondeu com um bom dia não tão animado quanto gostaria. Harry apressou-se em direção ao Beco Diagonal e ela contorceu o rosto em desgosto com a perspectiva de ficar sem seu café da manhã. Lançou um olhar de desculpas à Tom e seguiu o rapaz.

Ele bateu a varinha nos tijolos, que deram passagem aos dois; andou em silêncio pelas ruas, ignorando as saudações dirigidas à ruiva ao seu lado. Gina se perguntava até onde iriam quando Harry parou ao lado da sorveteria. Ela franziu o cenho e riu sozinha.

— Você gosta de sorvete? — Perguntou alto, ainda rindo da situação. Pensou em adicionar o fato à sua lista de peculiaridades.

— Ei, Tiago! — Ouviram um garoto chamar de dentro da Florean Fortescue. — Aqui!

Gina virou-se como se tivesse levado um choque: conhecia muito bem aquela voz – era Sirius Black, padrinho de Harry. Seus olhos se arregalaram quando viu o garoto na entrada da loja; o rosto desgastado pelos anos em Azkaban que conhecia 30 anos no futuro não parecia ser o mesmo do jovem que acenava alegre para o amigo. Os cabelo longos pareciam macios e bem cuidados, o rosto fino era parcialmente coberto por uma charmosa barba por fazer e os olhos eram de longe a maior diferença. O azul era profundo, com um brilho alegre e divertido que a fez sorrir feliz, vendo-o como um maroto pela primeira vez.

E o garoto por quem chamava… ela não precisava ter escutado o nome para saber que aquele era Tiago Potter, pai de Harry – tirando os olhos verdes do homem que um dia amara, o rosto tinha exatamente o mesmo formato e o cabelo era igualmente bagunçado. Fitou Harry novamente na esperança de vê-lo com o mesmo sorriso e o brilho nos olhos que vira em seu pai, mas comparar os dois só trouxe um aperto no peito: percebeu que sequer podia se lembrar do garoto como era antes. A barba por fazer, ao contrário da de Sirius, trazia ao seu rosto um aspecto perigoso combinada a uma cicatriz que subia-lhe do pescoço até a ponta de sua orelha, além de sua boca que parecia incapaz de deixar escapar um sorriso sincero. Dos olhos, então, não havia nem o que falar. Tinha arrepios na espinha se os olhava por muito tempo.

Viu os dois amigos se sentarem despreocupados no degrau de entrada da sorveteria, e logo outro que reconheceu como sendo seu antigo professor Remo se juntou a eles. Ela teve que se esforçar para conter as lágrimas ao lembrar de seu corpo morto ao lado da esposa, além do filho que nunca pudera conhece-lo.

— Controle-se. — Ordenou Harry, assustando-a. Ela esfregou os olhos rapidamente, virando-se para ele com olhos furiosos.

— Como é que você pode parar aí com essa cara tão apática, como se nada tivesse acontecido? — Sibilou ela, tentando manter sua voz baixa e ao mesmo tempo dura. — Por um acaso você não sente-

Ela se calou instantaneamente quando os olhos dourados com feixes negros encontraram os dela. Pareceu se afogar num mar de dor e solidão e de imediato arrependeu-se da acusação que estava fazendo: na realidade, era ela quem não fazia ideia do que ele estava sentindo. Era o pai de Harry, quem ele nunca tivera a chance de abraçar, que estava ali na frente. Era seu padrinho que ele assistira morrer e que fora tratado como traidor por todo o final de sua vida que ele estava ali na frente. E por fim, era o único que conhecia sua família bem o suficiente para tornar-se parte dela que estava ali em sua frente.

— Devemos falar com eles? — Perguntou baixo.

— Não. Espere Lílian chegar; é principalmente dela que você tem que se aproximar. — Ele disse. Gina tentou interrompê-lo, mas Harry se apressou em explicar. — Ela não é a maior fã do meu pai nessa época. Se você estiver toda amiga dele e de Sirius, Lílian vai pensar que é mais uma de suas conquistas.

— Mas eu não-!

— Não interessa o que você é ou deixa de ser. — Concluiu de braços cruzados, aguardando.

A ruiva bufou e encostou-se na parede da fachada da loja onde aguardavam por Lílian, disfarçados apenas pela grande quantidade de alunos e pais que andavam pelo Beco Diagonal em busca dos materiais para o ano letivo. Demorou algum tempo para que pudessem finalmente agir – antes de Lílian, reconheceu Alice e Frank Longbottom cumprimentando os rapazes na sorveteria, além de outros diversos alunos e admiradoras de Sirius. Os garotos pareciam, de fato, extremamente populares.

Reconheceu a mãe de Harry principalmente pelos olhos verdes que a trouxe um novo aperto no peito de saudade do amigo que parecia não existir mais. Os cabelos eram ruivos como os dela mesma e os traços do rosto eram delicados, iluminados pela risada que dava ao lado de uma amiga que não pôde reconhecer.

Harry a segurou quando tentou se dirigir até eles: "o que é que você vai dizer? Olá, meu nome é Gina Weasley e eu vim para proteger você, Lílian. Posso ser sua amiga?". Ela bufou mais uma vez, indignada por ele parecer sempre ter razão e cruzou os braços emburrada. Observá-los sem poder agir já estava deixando-a impaciente – tão impaciente que não notou quando levantaram-se da sorveteria e seguiram caminho entre a multidão. Se não fosse por Harry, teria os perdido de vista.

Acompanharam os amigos pela farmácia, pela Madame Malkins e, ao que pareceu ser o total desgosto de Lílian, a Artigos de Qualidade para Quadribol antes de se juntarem a eles na Floreios e Borrões. Abarrotada de gente, Gina não entendeu muito bem porque Harry havia escolhido o local para interagirem – preferia tê-lo feito na sorveteria há algum tempo. Ela suspirou e tentou pensar como iniciaria uma conversa, mas antes que pudesse se decidir por algum plano, viu Harry deixando um livro cair aberto em suas mãos. Gina se atrapalhou para segurá-lo e acabou derrubando-o no chão. Teve que contar até dez em sua mente para não gritar com o rapaz que sumira de vista menos de um segundo depois de jogar o livro para ela.

Abaixou-se para pegar o livro no chão e sentiu sua cabeça colidir com algo enquanto se levantava. Soltou um gemido um tanto quando estridente de dor e massageou a nuca tentando se acalmar – por que é que tudo estava dando errado naquele dia?

— Me desculpa! — Ouviu a dona do queixo que talvez fosse o mais duro de Londres dizer e deu um sorriso amarelo que se transformou em espanto quando viu os olhos verdes e o cabelo cor de fogo. — Isso é sobre magia de cura?! Onde encontrou esse livro?

Ainda sem reação, Gina fitou o livro em suas mãos – de fato parecia tratar de magias brancas avançadas, majoritariamente relacionadas a propriedades curativas. Abriu os lábios para responder mas não pôde dizer nada: apenas encarou os olhos verdes brilhantes de interesse em sua frente.

— Quero aprender tudo sobre cura! Eu me formo esse ano em Hogwarts e penso em estudar para ser medibruxa – não sei porquê, mas sempre me dei bem com esse tipo de magia. Antes de descobrir que era bruxa, eu sempre conseguia reanimar as flores da minha mãe que estavam perto de morrer e uma vez eu até consegui emendar a perna quebrada de um gato de tive!

Gina piscou algumas vezes. Lílian falava tudo muito rápido, atrapalhando as palavras numa excitação que não podia ser normal. Assim que terminou de falar, seu rosto corou de uma forma que Gina só acreditava ser possível em sua própria família – ela sorriu, solidarizando-se com a situação.

Assistiu a outra ruiva balbuciar algumas palavras envergonhadas e tentar se afastar dela, mas segurou seu braço antes que ela pudesse se esconder entre os que visitavam a loja. Lílian tinha o rosto ainda vermelho e encarava os próprios pés.

— Ei! Calma aí, eu só me assustei… — Disse Gina, rindo. Estendeu a mão para a garota e tentou dar seu melhor sorriso. — Muito prazer, Gina Weasley! — Lílian também abriu um largo sorriso e retribuiu o cumprimento.

— Lílian Evans! E me desculpe por falar tanto assim, é que às vezes eu fico um pouco nervosa e acabo não calando a boca e falando um monte de-… — Ela disse rápido, corando mais uma vez. Parou de falar repentinamente e mordeu os lábios. — Estou fazendo de novo, não é mesmo?

Gina gargalhou e sorriu novamente, um pouco mais feliz com a missão – não seria tão difícil tê-la como amiga. Seus olhos correram pela livraria e se encontraram com o par de olhos dourados de Harry; por um momento, pensou em agradecê-lo. Seu orgulho, no entanto, fez com que desviasse os olhos para Lílian mais uma vez.

— Então… Quer dar uma olhada no livro? — Perguntou simpática. — Pra falar a verdade, não lembro mais em que estante peguei. Eu nem sou muito boa nisso também… tenho tantos irmãos que acabei sendo a que causa os ferimentos. — Terminou com uma risada.

Lílian riu com Gina e a conversa continuou fluindo de forma extremamente natural. Pelo que a garota escutara dos professores e dos membros da ordem, tinha imaginado Lílian de uma forma completamente diferente: tinha como sua imagem algo próximo a Hermione em seus primeiros anos de Hogwarts – inteligente, estudiosa, regrada e tão certinha que beirava a chatice.

Em alguns minutos de conversa, já havia contado para ela sobre seus seis irmãos mais velhos que já haviam se formado na escola nos Estados Unidos e sobre sua escolha de mudar de país conforme os irmãos se mudavam para diferentes localidades, além de seu interesse em seguir carreira na Inglaterra. Harry e Dumbledore haviam passado direções sobre como responder as perguntas que seriam feitas sobre sua escola, incluindo detalhes das aulas e de seu funcionamento – isso com certeza trouxera mais veracidade às histórias que contava.

A mãe de Harry também não ficava atrás: contara sobre sua família e empolgara-se contando sobre a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, tentando dar a maior quantidade de detalhes o possível. Gina teve uma pontada de nostalgia de seus dias de escola e tentou focar em seus tempos alegres na escola. Aquela seria uma missão e tanto.

— O quê?! — Um rapaz exclamou ao lado das ruivas, assustando-as. — Duas foguinhos? Só por Merlin! Eu não posso nem com uma, o que será de mim agora? — Ele terminou fazendo drama. Gina tentou, sem sucesso, conter a risada e Lílian bufou, rolando os olhos.

— Ah, Potter, cala essa boca! — Lançou. Gina gargalhou de novo, rindo ao imaginar que os dois estariam casados dali a alguns anos. — A Gina aqui não é uma dessas suas garotas estúpidas! Ela vem dos Estados Unidos e vai estudar na nossa escola. E é muito inteligente também! Ao contrário de você, ao que me parece. — Terminou cruzando os braços.

Vê-los daquela forma era surreal. Aos três, juntaram-se o restante dos marotos e a amiga de Lílian, quem Gina descobriu ser Marlene McKinnon, que também viria a ser membra da Ordem da Fênix. Era incrível ver a diferença de Sirius em seus anos de juventude e conhecer os pais de Harry beirava o absurdo. Vasculhou a livraria em busca do rapaz novamente mas não foi capaz de encontra-lo – sentiu um pouco de peso na consciência de tê-los conhecido antes dele.

Seus risos diminuíram de forma gradativa e passou a olhar os amigos como uma pintura distante. Os olhos escureceram conforme o peso de sua responsabilidade caía sobre seus ombros: cabia a ela e Harry permitirem que aqueles jovens seguissem suas vidas com aquele mesmo sorriso no rosto. A sensação de proximidade e acolhimento que tivera com Lílian quase sumiu – aquela não poderia ser uma amizade verdadeira para o próprio bem dela.

— E então, ruivinha, será que você vem para a Grifinória com a gente? — Chamou Sirius, provocando. Ela deu um sorriso amarelo e o respondeu um pouco receosa.

— Não se preocupe, Gina! — Disse Lílian tentando confortá-la. — Seja qual for sua casa, espero que seja minha amiga na escola!

Ela fingiu seu melhor sorriso. Agora que pensava no quão falsa seria aquela amizade, sentia-se um pouco culpada com todas as mentiras que contava. É para o bem dela, pensou convicta, voltando a conversar com os garotos.

Eles saíram da livraria e continuaram pelas ruas do Beco Diagonal em busca do restante de seus materiais. Pediram que Gina os acompanhasse mesmo que já tivesse comprado tudo, e fizeram questão de contar sobre a vida em Hogwarts em detalhes. Tiago e Sirius eram os que mais falavam – contavam sobre suas peripécias e aventuras que a fez lembrar de Fred e Jorge com uma saudade de apertou-lhe o peito. Remo parecia ser mais reservado desde aquela época, mas era extremamente educado e também podia conversar bem depois que criava um pouco mais de intimidade. Pensou que o rapaz se daria bem com Hermione.

Foi difícil não se deixar levar pela conversa – por alguns momentos deixava-se levar pela animação do grupo e esquecia-se do que estava realmente fazendo. De tempos em tempos, tentava encontrar os olhos de Harry entre as pessoas no Beco Diagonal, mas tinha a impressão de que seria impossível encontra-lo a não ser que essa fosse sua vontade.

Tentou não se preocupar, mas quando o céu começou a escurecer e seus mais recentes amigos levaram-na até o Caldeirão Furado, imaginou se estaria tudo bem com Harry. O que estaria fazendo? Franziu o cenho, lembrando da forma com que pegara a Horcrux em Little Hangleton alguns dias atrás e um arrepio subiu-lhe a espinha. Não se sentia confortável com a forma que ele agia com ela.

— Está entregue sã e salva, Tom! — Disse Sirius animado, batendo nos ombros de Gina e cumprimentando o proprietário do local. Ele cumprimentou os estudantes igualmente animado e não resistiu a uma conversa com os meninos, mas parou de repente e voltou os olhos para Gina.

— E para onde foi aquele homem que estava com você? — Indagou com os olhos carregados de suspeita. — Eu não confio naquele rapaz.

— Então a ruiva já tem dono? — Sirius disse com as mãos no peito e um ar surpreso que fingia decepção. — Ah, não! Quando terei outra oportunidade de encontrar uma ruiva dessas?

— Ele não é meu namorado! — Exclamou Gina com o rosto vermelho. O restante do grupo riu: "já vi essa história!", disseram fitando Lílian e Tiago. — É que ele está se transferindo junto comigo, então Dumbledore nos mostrou o lugar um pouco, só isso.

— Ele está na escola?! — Tom perguntou assustado, os olhos arregalados em surpresa. — Quantos anos ele tem? Parece ser tão mais velho! Isso pra não falar nos arrepios que tive quando passou perto de mim.

— Bom, ele tem 18. Teve alguns problemas na escola e passou um ano longe… Está voltando para terminar os estudos esse ano. Veio de Durmstrang.

— Durmstrang? — Perguntou Marlene com receio na voz. — Não é lá que os alunos têm aulas de artes das trevas?

O tom do restante da conversa foi de maior seriedade – todos pareciam um tanto quanto preocupados com o bem estar de Gina, e só saíram do local quando Tom afirmou que ficaria de olhos abertos caso acontecesse algo estranho com a garota. Eles se despediram combinando um horário para que os encontrassem na estação King's Cross entre as plataformas 9 e 10 e com pedidos para que ela tivesse cuidado com o rapaz. Gina tentou protege-lo dizendo que ele não era tão assustador assim, mas não foi capaz de convencê-los – provavelmente porque também o achava pra lá de assustador.

Quando finalmente pôde subir para seu quarto, hesitou ao abrir a porta: será que Harry estaria lá dentro? Respirou fundo e abriu a porta rapidamente. Estava vazio. Entrou e olhou em volta, parando em frente à janela do quarto; o céu já estava escuro e a maioria dos lojistas já haviam saído do local. Onde é que você se meteu? Ela pensou apreensiva.

Era incrível a forma como a figura alta se mesclava às sombras numa das vielas do Beco Diagonal sem se utilizar de feitiços ou encantamentos. Harry Potter havia abraçado as trevas de maneira singular, transformando-se em algo que talvez pudesse ser descrito como sombrio – era como se o rapaz pudesse se misturar às sombras e apagar sua presença por completo.

Os olhos dourados fitaram o letreiro antigo da Olivaras, aguardando pelo momento certo para agir. A paciência, aprendera Harry, era uma das maiores aliadas de um guerreiro. Caminhara durante todo o dia atrás de Gina e de seus pais no que parecera ser a missão mais torturante que já realizara: foi inevitável lembrar-se de como desejava poder vê-los apenas uma vez durante toda sua infância. Lembrou-se de todas as horas que passara em frente ao espelho de Ojesed em seu primeiro ano em Hogwarts e de como se emocionara com as fotos que Hagrid conseguira para ele. As memórias de Sirius e de Remo saltaram em sua mente e a lembrança de seu padrinho atravessando o véu para sua morte no Ministério foi suficiente para marejar seus olhos.

Ele, contudo, não perdeu o foco em momento algum – mesmo com as emoções um tanto quanto abaladas, o que há muito já não acontecia, fora capaz de monitorá-los de longe sem ser percebido. Por entre lojas, vielas e telhados, assistiu Gina ganhar a simpatia de todos e sorriu satisfeito com o resultado. Sabia que a garota não estava nem perto de preparada para uma missão como aquela, mas sua habilidade de inspirar carinho e confiança nos outros tornaria a observação de Lílian em algo completamente diferente e muito mais simples do que havia imaginado.

Era contra sua presença ali, é claro. Sabia que a amava, e se havia outro fato que conseguira aprender em campo de batalha era que o amor era a maior das distrações: preocupar-se com o que quer que fosse tirava sua atenção, seu foco e principalmente seu objetivo. Contudo, já que a ruiva fora enviada… encaixá-la na missão da maneira mais inteligente o possível era sua obrigação. E esse seria seu papel: interagir com Lílian. Tornar-se sua amiga, estar ao lado dela durante o maior número de horas o possível. Gina não saberia usar essas informações como estratégia, mas ele sim.

Nas sombras em que se escondia, o brilho de seus dentes pôde ser visto num sorriso satisfeito: até então, tudo ocorrera como o planejado. Sua parte de ação teria início apenas na semana seguinte, quando estivessem em Hogwarts. Até lá… precisava resolver um problema que percebera assim que colocara os pés naquele tempo.

Seus olhos encontraram novamente o letreiro da loja de varinhas e o sorriso sumiu nas trevas. Seu poder estava diferente, e ele não tinha ideia do porquê – assim que saíra do portal, logo que usara alguns dos poderes herdados de sua mãe pôde perceber uma alteração drástica na forma com que sua magia reagia aos seus comandos. Ele continuava poderoso, é claro, mas algo… algo não se encaixava. Sua magia parecia não responder como devia.

Durante toda a semana que passara no Caldeirão Furado, meditou para tentar compreendê-la melhor. Sua magia ansiava por algo que não sabia definir o que era, pedia por algo que a completasse. Então, imerso dentro de sua própria consciência, um estalo de compreensão – talvez até mesmo um palpite de sorte – fez com que pudesse criar uma hipótese.

Sua varinha não o respondia mais tão facilmente, oferecia certa resistência para canalizar sua magia. Era como se não pudesse suportar mais seu poder. E no instante que Gina foi deixada no Caldeirão Furado e os jovens deixaram o Beco Diagonal para voltarem às suas casas, Harry se moveu até o Olivaras.

A loja era exatamente igual ao que se lembrava em seus tempos de escola: o letreiro velho já se apagando, a madeira empoeirada que parecia implorar por uma reforma e até mesmo um vidro quebrado numa das janelas que nunca fora e nem seria consertado. Através delas, inclusive, podia ver a mesma bagunça que vira em seu primeiro ano na escola – e um cabelo branco já conhecido. Ele sorriu, movendo-se até a entrada da loja.

Estava aberta, e com um empurrão na porta esgueirou-se silenciosamente para dentro da loja. O velho Olivaras estava de costas para ele, organizando pacientemente as caixas de varinhas – não havia percebido sua presença, e assim permaneceu por mais alguns minutos. Harry o observava parado com os braços cruzados, aguardando que o velho se virasse em sua direção.

Ele assim o fez. O dono da loja deu um salto quando percebeu a figura nas vestes negras parada em sua loja, o medo perceptível em seus olhos. Encostou-se na estante próxima a ele como se tentasse se afastar o máximo possível daquele homem. Em momento algum tentou alcançar sua varinha: parecia saber que seria um movimento inútil.

— Boa noite, Senhor Olivaras. — Cumprimentou Harry com palavras duras e um aceno de cabeça. Ele retribuiu engolindo em seco e se apertando ainda mais contra a estante. — Seu medo não é necessário, Olivaras. Gostaria apenas de… olhar uma certa varinha.

— A… A loja está fechada! — O velho balbuciou, mais pálido que nunca. Harry sorriu e se aproximou do balcão em passos lentos, alcançando algo dentro de sua capa. Ele tirou sua varinha dali e colocou-a em cima da mesa.

— Você não teria uma varinha como essa, teria?

O medo de Olivaras transformou-se em descrença num átimo – aquilo não era possível! Ofegou espantado e aproximou-se do balcão, a curiosidade triunfando gloriosa sobre seu medo. Aquela varinha… ele se lembrava de cada varinha que já fabricara e também que vendera, nos mínimos detalhes. Podia dizer o tamanho, o material e o núcleo de cada uma delas: bem como seu dono. E a varinha gêmea da que vendera ao homem que parecia crescer cada vez mais com magia das trevas… ah, não – aquela nunca fora vendida. Seus olhos azuis subiram de encontro aos olhos dourados de Harry.

— Como foi que conseguiu essa varinha? — Ele perguntou baixo, agora sem medo em sua voz. — Eu nunca a vendi. E mais… a varinha-

— …escolhe o bruxo. — Completou Harry inclinando-se sobre o balcão. — E essa varinha me escolheu. Acontece que… ela não parece mais… suficiente para minha magia. Entendo que tem um exemplar exatamente igual a esse em sua loja?

— Isso é impossível! — Exclamou Olivaras ainda fitando a varinha. Seus olhos a esquadrinhavam buscando qualquer mínima diferença que pudesse encontrar: vinte e oito centímetros, maleável, feita de azevinho e pena de Fênix. — Fawkes… ela doou apenas duas penas. Essa é a varinha que fiz – não sei como você a conseguiu, mas tenho certeza que é feita por mim.

— Olivaras. — Chamou Harry com a voz séria, fitando seus olhos de forma intensa. Olivaras engoliu em seco mais uma vez e uma nova onda de medo percorreu sua espinha: sabia muito bem o que ele queria.

Se enfiou entre as prateleiras amontoadas em sua loja e, ainda sem esperança de encontrar sua caixa ali, buscou pela varinha que o homem trazia. Quando viu a caixa preta e empoeirada no mesmo lugar em que se encontrava antes, seus lábios se entreabriram em espanto mais uma vez e ele a pegou lentamente. Andou devagar de volta ao balcão e colocou a caixa ao lado da varinha do rapaz, ainda com as feições espantadas. Abriu-a e ambos viram a forma como as varinhas se comportavam.

Era como se conversassem entre si – a varinha que Harry trouxera do futuro vibrava, ansiando pelo poder daquela que nunca fora usada. Esta, por sua vez, vibrava pedindo pela sabedoria da mais velha. Os dois homens fitaram as varinhas, fascinados pelo modo como regiam. Olivaras ainda não podia acreditar no que acontecia, sem entender como aquilo era possível: as varinhas não eram parecidas; eram as mesmas.

Harry pegou a varinha que trouxera consigo e ela pareceu descontente ao se afastar da outra. Foi a vez de ele engolir em seco no lugar do velho – receoso, estendeu a outra mão devagar para pegar a outra varinha do balcão.

Dor! No momento em que seus dedos se fecharam em torno da varinha nova, a única sensação que passou por seu corpo foi a mais absoluta dor: o suficiente para colocá-lo ofegante e de joelhos no centro da loja, enquanto uma espécie de chama vermelha, dourada e preta envolvia todo seu corpo. E Olivaras também não ficou imune: a onda de poder o jogara contra a estante e fora suficiente para apaga-lo.

Por estar desmaiado, não pôde ver os olhos do homem tomados pelo inteiramente pelo dourado, nem a aura de poder que o envolvia. Ele parecia agonizar dentro das chamas, e as varinhas tentavam se aproximar – em alguns instantes, ele aproximou as mãos e as duas se cruzaram. O rapaz deixou-se cair no chão com um grito de horror, sentindo uma descarga elétrica passar por seu corpo.

Ele deitou no chão ofegante e com os olhos arregalados. Seus pelos estavam eriçados e sentia seu corpo estranho: quando pegou a varinha de Olivaras, sentiu uma dor sem igual como se estivesse sendo partido ao meio somente por força e ao mesmo tempo estivesse levando um choque que com certeza seria suficiente para exterminar por completo o corpo de um adulto comum. Todavia, essa dor de súbito passara e dera lugar a uma sensação de calor e aconchego semelhante a que sentira quando segurara aquela varinha pela primeira vez aos 11 anos. A eletricidade parecia ter se convertido para um poder sem igual que pulsava em suas veias. Ele se levantou devagar, tentando compreender seu novo poder.

A varinha em sua mão estava mudada – continuava com seus vinte e oito centímetros, mas adquirira um brilho avermelhado e a madeira parecia nova e reluzente. A maior mudança, contudo, era a forma com que ela respondia à sua magia: estava na mais completa sintonia e Harry imaginou que teria que treinar alguns feitiços com aquela varinha para que pudesse entender por completo seu poder. Os olhos dourados brilharam extasiados e os lábios se ergueram num sorriso que dançava numa tênue linha entre satisfação e loucura.

O rapaz andou em passos largos até o velho e abaixou-se em seus calcanhares, estendendo uma das mãos até sua testa. Ele respirou fundo enquanto fitava o homem desmaiado.

— Me desculpe, Olivaras. — Ele pediu com o olhar sincero, mesmo que sabendo que não era ouvido. — Mas você não pode saber de mim. Obliviate.— Terminou com um murmúrio.

Harry devolveu a caixa para onde estava, mesmo que estivesse sem a varinha dentro – aquilo seria o suficiente para enganá-lo pelo tempo necessário. Saiu da loja e parou um pouco sob o sereno, deixando o sorriso tomar conta de seus lábios mais uma vez. Acertara em cheio com seu palpite: sua magia estava mais forte do que nunca. Ainda sorrindo, voltou despreocupado para seu quarto no Caldeirão Furado e sequer tentou se esconder de Tom ao entrar no local.

— Boa noite, Tom. — Ousou cumprimentar. O dono do restaurante contorceu seu rosto em choque ao ouvir o rapaz – havia algo de muito errado nele. Sem esperar resposta, Harry subiu as escadas para seu quarto.

Estava de excelente humor. E pela primeira vez, sentiu-se capaz de terminar a missão que lhe fora incumbida. Estava muitos passos à frente de Voldemort.


N/A: Oi gente! Tudo bom? :D

Eu tinha toda a intenção de postar esse capítulo no dia seguinte do anterior, mas imprevistos acontecem. Kkkkkk... minha vida ficou muito louca de repente e acabou que só consegui terminar de escrever hoje. Eu espero realmente que tenham gostado! Principalmente agora que sei que tem gente lendo. hahahaha... Aliás, Osmar Fogaa, muito obrigada pelo comentário! Fico feliz que esteja gostando!

Enfim, gente, acho que é isso aí! A história tá começando a andar por caminhos mais definidos e tá tudo começando a se formar! Tá até mais divertido de escrever, hahaha...

De qualquer forma, logo mais posto o próximo capítulo! Acredito que essa semana mesmo!

Então até lá e espero que estejam gostando! Se comuniquem, por favor hahahaha... grande beijo para todos! :)