Naruto
– Você sabe por que fiz isso não sabe? – Orochimaru perguntou virando o rosto do banco da frente e me olhando com um sorriso – Não gosto que fuja de mim.
Não respondi. Ainda sentia muita dor na mão.
–Kabuto é médico. Não é kurenai, mas é bom. Ele vai cuidar da sua mão.
O homem de cabelo branco que estava sentado do meu lado sorriu pra mim e senti vontade de vomitar. Ele tentou pegar minha mão e a puxei.
–Se não deixar ele fazer isso, eu quebro a outra. – Meu tio maldito falou de forma simples e estendi a mão resignado para o homem de óculos.
Ele colocou uma tala e começou a trabalhar: - Não rompeu, apenas trincou.
–Que pena. – Orochimaru deu de ombros. – E então Naru? Como está Jiraya? E a vadia da Kurei? A vi com um garotão moreno, talvez ela nos deixe em paz agora não é? Então seremos só nós dois, como uma família feliz. Acho que você já está velhinho para querer uma mãe mesmo. E você tem a mim, eu posso te dar todo o amor que você precisa.
– Você é pirado. – falei o encarando e ele riu.
– Vai ser difícil domar essa raposa. Eu estava quase conseguindo, se não fosse Kurenai. Mas teremos muito tempo. Seu pai era bem mais sereno que você, mesmo que inalcançável. Você com certeza herdou o espirito selvagem da sua mãe. Aquela bruxa.
–Não xingue minha mãe! – gritei e ele suspirou.
– Você me desafia sempre. Eu até gosto. Vamos nos divertir muito. É seu aniversário afinal! Vamos a um lugar que você não conhece. Era a casa do meu pai. Distante, isolada, tranquila, como você gosta né Naru?
Era uma situação difícil. Segurei a vontade de pular em cima dele e virar aquele carro com todo mundo dentro e fiquei em silêncio enquanto ele falava sem parar.
Quando enfim o carro parou eu havia tomado uma decisão simples: eu mataria Orochimaru, ou morreria tentando. Não cairia sozinho.
Hinata
Esperávamos notícias de meu pai em casa. Já era de manhã, e a mãe de Sakura havia acabado de vir buscar o pessoal e leva-los para casa. Sasuke disse que tomaria um banho e voltaria. Ele parecia frustrado. Naruto escapou de nossos dedos afinal, e eu havia parado de chorar para pensar no que poderia fazer. Quando pensava na maneira horrível como tudo aconteceu sentia um nó em minha garganta. Podia ouvir o grito do Naruto sempre que fechava os olhos. Hanabi estava dormindo no meu colo no sofá da sala. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas me ver chorar a deixava apavorada.
Quando meu pai chegou a ajeitei no sofá e corri para ele. Não éramos muito carinhosos, mas naquele momento me agarrei a ele como se minha vida dependesse disso. Ele beijou minha cabeça e quando o olhei ele fez sinal para que eu o seguisse para o escritório.
– E então? – perguntei desesperada.
– A polícia está procurando.
Me sentei derrotada e ele bateu o punho na mesa frustrado.
– Isso não poderia ter acontecido!
Lembrei de como Naruto estava feliz no baile, da nossa noite, de tudo aquilo. E pior, lembrei do tio dele, e de como ele era pior do que qualquer pesadelo.
Se tudo desse errado, só de pensar que poderia não ouvir mais a sua voz...
O telefone de meu pai tocou e ele atendeu depressa. O fitei enquanto sua face mudava para um rosto surpresa e ele sorriu: - Uchiha, seu bastardo esperto!
Eu o olhei sem entender. Ele deu um beijo em minha cabeça: - Cuide da Hanabi, vou trazer o filho do Minato de volta!
E então ele saiu correndo enquanto eu lutava para acreditar nisso.
Naruto
Eu devia ter sido dopado. Quando acordei senti um cheiro estranho de mofo e abri os olhos me acostumando com a escuridão. Me levantei e percebi que estava com a perna amarrada a algo. Ainda estava com a roupa do baile, mas ela estava toda suja e rasgada em alguns lugares. Me sentei e ao apoiar a mão no chão reprimi um grito. Ela estava com uma tala e bandagens. Me arrastei zonzo e sentei recostado em uma pilastra de madeira olhando ao redor. Era um lugar alto, percebia pelos vitrais do teto e o telhado baixo. Deveria ser o sótão, talvez.
Examinei a corrente no meu pé. Que engraçado Orochimaru. Ele realmente me tratava como a um animal.
Não sabia quanto tempo havia se passado, mas tentei manter minha mente limpa para o que deveria fazer.
No mesmo momento a porta se abria. Vi a luz em meus olhos desacostumados e virei o rosto. Orochimaru estava com uma lanterna bem na minha cara.
– Como passou a noite, meu bichinho?
– Vá pro inferno. – cuspi entredentes e ele bateu a lanterna em meu rosto com força.
– Vou lavar sua boca suja, já foi mais educado.
Cuspi sangue direto em seu rosto e ele riu enquanto limpava com a mão branca.
– Muito bom. Vamos brincar de parabéns pra você. – ele flexionou os dedos das mãos e protegi meu rosto quando ele investiu.
Foram minutos, horas ou dias? Em algum momento eu apaguei. Ouvi sua respiração ofegante e quando abri os olhos ele estava deitado perto de mim. Queria estrangula-lo, mas não conseguia me mexer. Inferno!
Senti ele se mexer ao meu lado e fechei os olhos esperando mais golpes. Mas foi bem pior sentir sua mão fria acariciar meu rosto. Abri os olhos com susto e senti seu corpo em cima de mim, um joelho de cada lado.
– Você me abriga a machucar você Naruto.
– Você é louco? – perguntei em desespero.
Uma mão sua segurou meu rosto com força e senti seus lábios frios nos meus. Selei com força e tentei empurrá-lo, mas não conseguia. Ele agarrou minha mão machucada e quando gritei senti sua língua invadindo minha boca. Fiz a única coisa que conseguia no momento. Mordi.
Ele gritou e me soltou. Cuspi seu sangue da minha boca e tentei empurrá-lo de cima de mim.
– Você fez com a sua namoradinha não fez? – ele falou com raiva segurando meu rosto. – Eu tenho meus direitos sobre você.
– Prefiro morrer. – cuspi mostrando uma coragem que não me serviria de nada no momento.
–Eu posso cuidar disso também. Eu poderia obriga-lo. Na verdade isso me agrada bastante, fazê-lo sangrar e gritar por socorro, sabendo que não tem ninguém para ajudá-lo. Eu quero que você se entregue ao total desespero de perceber que está completamente sozinho no mundo. Que você só tem a mim, e então o farei gemer falando meu nome. Como sempre quis que seu pai fizesse.
Ele me deu um tapa de leve no rosto e senti seu peso me deixar.
– Você tem meia- hora para pensar nisso. O fim vai ser o mesmo.
Continuei deitado em choque. Só de pensar que ele poderia...
Nunca.
Tinha que haver uma saída.
Me obriguei a me erguer tomando a pilastra como apoio. Eu podia sentir algumas costelas quebradas que me deixavam sem ar. Já havia amanhecido, a luz se infiltrava pelos vitrais, e me perguntei se estariam procurando por mim. Mesmo que fosse o caso, como poderiam me encontrar? Eu estava por mim mesmo dessa vez. A Kurenai não correria em meu Socorro, como sempre fazia. Se eu não pensasse em algo, um destino pior do algumas pancadas estava me esperando.
Examinei minha corrente. Orochimaru devia estar com a chave. Vasculhei o lugar até onde o comprimento da corrente me permitia e encontrei um baú velho cheio de papéis, nada de útil. Havia um balde com água perto da pilastra, provavelmente para o animal beber (eu, no caso). Em um armário velho encontrei algumas velas, e fósforos. Nada que me livrasse daquela corrente. Se eu conseguisse sair dela, eu poderia fazer alguma coisa. Se achasse uma serra, no desespero que eu estava, arrancaria meu pé como no filme que...
Estanquei quando um pensamento me tomou.
Será que Orochimaru me queria tanto ao ponto de me manter vivo a todo custo? Ele já teria me matado há muito tempo se fosse sua intenção. Eu iria me arriscar muito, mas fosse como fosse, me livraria dele de qualquer forma. Rasguei a manga no terno, a ensopei e enrolei em meu rosto. Juntei os papéis velhos do baú e peguei o fosforo.
Fiz uma prece silenciosa e comecei a falar o nome de todos que me eram importantes: Pai, mãe, Kurei, Velho tarado, Hinata...
Pensei na minha pequena. Pensei nas pessoas do colégio. Agradeci pelos últimos dias e enquanto o fósforo caia, meu último pensamento foi um jardim japonês, um balanço e um beijo.
