Parte I
Shura piscou repetidamente. Com assim, afastado do caso? Não. Não aceitava. Opinião pessoal, estava fazendo um trabalho sensacional. Chiara parecia tranqüilo, mas era uma pessoa difícil e absurdamente complicada. Se metia em brigas com freqüência e não foi uma nem duas vezes que Shura evitou coisas graves (como ele efetivamente arrancar a cabeça de um cara que o chamou de "sapatão" e "caminhoneira" e depois começou a balançar o pênis de um lado para o outro, isso em plena boate) só conversando com ele.
Também tinha o fato de que era a primeira vez que guardava alguém, então se afeiçoou muito a Máscara da Morte. Não era justo dizer que valorizava mais o trabalho a ele quando tinha abandonado a porra do trabalho justamente para ser responsável especificamente por aquela alma.
Então, enquanto Shura proferia mentalmente uma infinidade de palavrões e tentava entender como Shun chegou à conclusão de que não era uma virtude boa o suficiente para ser responsável por uma alma como a de Chiara, por sua boca só saia monossílabos átonos sem sentido.
Shun anotava sua reação no caderninho, desapontado. Esperava uma reação mais enérgica por parte de Shura.
- Eu...
A virtude olhou para os lados. Dohko comia jujubas, concentrado
(verdade seja dita, Dohko estava apenas buscando ocupar a boca com algo, já que não concordava com as atitudes sem sentido de Shun e contestá-lo era o mesmo que pedir uma advertência. Por vezes Dohko se perguntava o motivo do moleque ter uma patente tão alta, sendo novo como é )
- Eu não aceito isso – Shura disse, recuperado-se da estupefação. Não era justo. Tinha vindo por ordens superiores e por pior que fosse o momento do protegido teria que ir. Já viu situações de anjos que foram condenados a 50 anos de inferno por desobedecer uma ordem assim em uma situação parecida. Double Standarts0 irritantes. Deviam ao menos uniformizar a maneira de interpretar as leis, ora essa! – Eu não aceito isso, Shion.
- E por que motivo, jovem? – Shion sorriu, apoiando o queixo nas mãos. A Shura ele pareceu bastante maquiavélico, mas Shion estava tentando parecer amigável – Prossiga.
- Eu não acho que estou fazendo um trabalho ruim, com todo o respeito. Mais do que meu protegido... Ele é meu amigo.
Shun sorriu (e realmente pareceu adorável) e lambeu os dedos sujos de glacê. – Então por que não vai atrás dele? Chame o Camus para ir com você.
- Mas hein?
- Faz parte da sua redenção, por assim dizer – Shion completou – Convença Camus a ir com você até Chiara e depois vá com todo mundo pra Atenas.
Shura fez uma legítima cara de confusão e ficou se perguntando "tipo, por quê?", mas não ousou contestar. – Se eu fizer isso...
- Você não será afastado.
Parte II
Shura chegou apressado no apartamento de Camus. Tocou a campainha, nervoso, se perguntando o quê diria ao amigo para convencê-lo a acompanhá-lo até Trento. Ignorando as duas ênclises mentais consecutivas, Shura sorriu quando Camus abriu a porta, de mau humor por ser muito "cedo" (beirava o meio dia).
- Bom dia – Camus disse de mau humor. Odiava que o acordassem cedo e estava decidido a ignorar a campainha, mas não deu muito certo. Os consecutivos toques tornaram isso tarefa impossível. Então, lutando contra o impulso de voltar para a cama depois de cerca de quatro horas de sono, atendeu a porta de cueca mesmo, com o cabelo desalinhado – Você não tinha uma... Faxina?
- Pois é, eu menti.
- Não diga? – respondeu, ácido, dando abertura para que Shura entrasse no apartamento – Café? – disse começando a fazer sua xícara habitual na cafeteira italiana – E fale baixo, o Hyoga ainda está dormindo.
Shura se sentou perto da bancada da cozinha, se perguntando mentalmente até quando Camus agiria como se Hyoga fosse um bebê – Quero não, obrigado. Ele não foi para a escola?
- Não. É que eu sabia que você viria. O Shun me avisou que você viria para me convencer a ir a Trento, daí nem me dei ao trabalho de levar o Hyoga para a escola, para caso de irmos cedo.
- Como assim? – De todas as situações que Shura imaginava, essa era de longe a mais improvável. – Você também trabalha nas araras celestiais? Como assim? Eu nunca fiquei sabendo disso.
Camus girou os olhos, cansado literal e figurativamente. Teria que explicar a história de novo e não era engraçado – Eu era o anjo da guarda da Natássia. Mãe do Hyoga.
- Ah.
- Eu tive um filho com ela e fui punido. Fui rebaixado a humano. Aparentemente recebo minha patente de volta se eu cumprir meu objetivo de vida.
- E qual é? – Shura anuiu. Então era por isso que não tinha percebido nenhuma aura celestial vindo de Camus, se ele tinha sido rebaixado. Chegava a ser triste. – É difícil de conseguir?
- Eu não sei qual é, idiota. Não é o não saber que deixa a coisa toda com sentido? – Camus disse enquanto bebericava o café quente – Meu anjo também não quer me dizer, evidentemente.
- Quem é seu anjo agora?
- O Isaak. Foi-me designado o mesmo anjo que o Hyoga.
- Ah.
Shura ficou em silêncio, pensando em quê isso significava. Primeiro, que as araras celestiais o estavam fazendo de idiota, se eles já sabiam que Camus iria com ele até Trento, depois de toda aquela enrolação de chamar para uma reunião que eles não queriam que ele fosse. Também tinha o fato de que era amigo de um ex-anjo da guarda e o filho da puta nunca tinha aberto a boca a respeito. Mesmo que fosse vergonha por ter sido demitido, era uma coisa que se conta para um amigo que é colega de trabalho (duas vezes!), certo?
Mas não podia condenar Camus, que aparentemente não tinha um anjo da guarda muito competente, se passava por tanto perrengue assim na vida.
- Pode perguntar, Shura – Camus sorriu de lado. Tinha tomado café, então estava de bom humor.
- Ah, eu... – Shura gaguejou, sem graça. – Por que você não me contou, cara?
- Ia fazer diferença?
- Não... Mas...
- Então. De qualquer forma, meu namorado é o anjo do Aiolia e também está sendo punido por transar com o protegido, aquele idiota.
Shura piscou. Então era o Camus o namorado celeste do Milo? Quantas voltas a vida tinha que dar? Isso parecia enredo de algum livro mal escrito, uma novela mexicana ou coisa parecida. – Mas você não namora o Afrodite, homem de Deus?
- Eu e o Milo temos um relacionamento aberto quando encarnamos. – deu de ombros. – Ele também teve muitos namorados e namoradas nessa encarnação.
- Mas e quando você "conhecer" ele? – fez as aspas – E o Afrodite?
- Daí a gente combina um Ménage à trois – sorriu safado para depois ficar sério – Brincadeira. Não pensei nisso. Vou deixar rolar. Fazer o quê.
Estupefato por tantas revelações e por Camus ver as coisas de maneira tão simples e sabendo que quem sairia ferido da história era Afrodite, Shura tentou engolir as informações.
Assim, enquanto Shura digeria as voltas que a vida dá e se perguntava qual parte do passado de Camus era mentira (já que se ele se encarnou para proteger a Natássia ele não tinha família para brigar, para início de conversa, anulando boa parte do passado que ele havia contado) e o ruivo arrumava suas coisas e as do filho para viajarem para Trento, Shaka mordiscava a caneta, sentado no refeitório da faculdade e tentando estudar.
Verdade seja dita, Shaka não tinha pensado muito em fazer medicina. Não era uma coisa que o agradava se fosse parar para pensar nisso e tinha começado a faculdade apenas por pressão familiar. Também tinha o fato de que não sabia o que faria, então normalmente ignorava os pensamentos e só se concentrava em estudar para a carreira que lhe foi imposta.
Mais preocupado com Aiolia e a aposta indecente do que com o livro de fisiologia que tinha em mãos, Shaka largou a caneta e começou a comer a quantidade ridiculamente grande de spanakopitas¹ individuais, acompanhados de tzatziki².
Era de conhecimento geral que, apesar de ovolactovegetariano³, Shaka comia pra caralho.
Sua felicidade se esbaldando em pratos embasados em espinafre e pepino durou pouco. Fora sumariamente interrompido em seu deleite diário pela visão do tal do Iki-que-quebrou-meus-óculos, que, ao vê-lo, desviou de rota e decidiu ser de bom tom se sentar-se à mesa sem ser convidado.
Shaka fez sua melhor cara de "sou melhor que o mundo", que normalmente surtia efeito, mas foi totalmente apagada por sua boca suja de tzatziki. Acabou que o indiano mais parecia uma criancinha birrenta e lambona.
Aos olhos do Ikki, uma coisa extremamente fofa.
O anjo fangirlizou internamente. Era por momentos assim que vivia.
- O que faz aqui? – Shaka vociferou, irritado – Não me lembro de ter pedido companhia.
Ikki o ignorou, comendo um dos spanakopitas – Bom isso aqui, hein. Melhor que da última vez, não gosto muito de culinária russa.
Furioso, o loiro tomou a spanakopita meio comida da mão de Ikki, enfiando tudo na boca, sem ter noção do quão ridículo ele parecia em um arrombo de raiva infantil. Ikki usou de toda sua força de vontade para não rir. Era difícil.
Ikki sabia que não podia contar para Shaka que era o anjo da guarda dele e tudo mais. Mesmo que não fizesse muito sentido, fazia parte das regras. Também sabia que logo, logo Shaka não comeria mais spanakopitas, então ficou o observando comer, ambos em silêncio por motivos diferentes.
No geral, o anjo sabia exatamente como conquistar a amizade (que era o que podia) com Shaka. Já havia feito isso exatas oitenta e duas vezes. Se maldizia por aquele momento, quase dois mil e quinhentos anos atrás. Toda vez que lembrava daquilo seu sangue fervia de ódio. A única coisa que o acalmava era saber que em todas as oitenta e uma encarnações de Shaka depois da primeira (encarnação essa que deu merda), Ikki que foi seu anjo da guarda. Era um pouco diferente de ser amante (totalmente diferente, na verdade), mas o amor era o mesmo e ainda era capaz de protegê-lo e estar ao lado dele, mesmo que ser o anjo de Shaka fosse parte do castigo.
- Perdeu algo na minha cara?
Ikki riu. – Você trocou de óculos.
Shaka bufou – Não diga.
- Na verdade eu estava pensando em um livro que li. – Ikki começou. A tática "conte a verdade, fingindo que é mentira" já tinha funcionado antes. Shaka sempre se entristecia com a própria história e Ikki ficava feliz com isso, por significar que ele não se lembrava. Era melhor assim. – Dois caras se apaixonaram, sabe...?
- Espera. – Shaka o interrompeu – Eu nem sei seu nome.
- Ikki Amamiya. – Se apresentou – Sou amigo do Milo.
Shaka o olhou de soslaio. Maldito Milo – Shaka Abbas.
Ikki riu mentalmente do sobrenome que Shaka tinha dessa vez. Era mais engraçado quando o ouvia falar em voz alta. Quase imaginava Shaka vestido de Agnetha e cantando Young and sweet, only seventeen4.
- Prazer. – Ikki sorriu e continuou – Então, você bate com a descrição de um dos caras do livro. Loiro, de cabelo longo e olhos azuis.
- Sei. – Shaka girou mentalmente os olhos enquanto comia. Que cantada barata. – Prossiga.
- A história é a seguinte. Os caras viveram há, sei lá, dois mil e quinhentos anos atrás? Era uma coisa bem época do auge romano, início do florescimento da humanidade ou quê o valha. Não é importante. Era uma época bastante divertida. Mas no mundo humano, ao contrário de nas araras celestes, homossexualidade era mal vista, como ainda é nos dias de hoje, mas de maneira diferente. Enfim, tipo, onde os dois moravam os caras morriam por isso, sabe?
- Nada fora do clichê em livros.
- Pois é. Mas foi o quê aconteceu – Ikki pegou um spanakopita e comeu, mesmo sob os protestos de Shaka, e continuou – Mas o outro cara, não o loiro, mas o alto, moreno e bonito, não aceitou o amor da vida dele ser condenado à morte e decidiu ser de bom tom sair matando todo mundo.
Shaka ergueu uma sobrancelha. Que romântico, genocídio por causa de uma pessoa. – Sei.
- Mas o cara alto e moreno e bonito acabou matando três anjos no processo de fúria, quando foi tentar impedir que o cara loiro do olho azul morresse. O alto, moreno e bonito era príncipe, então não foi condenado a morte, sabe?
Shaka riu. Que história fantasiosa – Que coisa ridícula essa, Ikki.
- Não cheguei na melhor parte. – Ikki riu de volta ao ver Shaka rindo. Contar a história da primeira encarnação dos dois sempre funcionava – O cara alto, moreno e bonito matou cerca de quinze pessoas naquele dia, mas ainda assim viu o amor dele morrer. Ele viveu uma vida triste e miserável até morrer de velhice, cinqüenta anos depois. Mas, quando ele chegou ao céu, para que sua alma seguisse um caminho, ele descobriu que cometeu um dos maiores crimes possíveis para uma alma, que é assassinar um ser celestial. E ele tinha matado três, que tinham ido o impedir, por que se ele fosse matar o povo todo que ele queria, ele iria para o inferno de trenzinho e ele era uma alma boa. No geral, ele foi condenado a ver o amor dele morrer cem vezes. O loiro dos olhos azuis sempre morre antes dos trinta e sempre de forma triste. E sempre reencarna assim que morre. Rezam as lendas que isso já aconteceu oitenta e uma vezes. Fazendo as contas dá mais ou menos dois mil, quatrocentos e trinta anos de tortura. E pior: ele é sempre o anjo da guarda do amor dele, o que significa que eles não podem ser amantes. E o amor dele nunca lembra de nada.
- Isso é... Inesperadamente triste.
- É um dos meus livros preferidos – Ikki riu de lado, tristonho – Mas olha o lado positivo, só faltam dezenove encarnações. O que é dezenove para quem já passou por isso por dois mil e quinhentos anos?
- Os céus têm uma maneira bem distorcida de seguir as regras, não? Uma coisa meio... Rígida demais.
- Se quer minha opinião, eles melhoraram muito nesse tempo. Mas não posso fazer nada, eles são irredutíveis depois que uma pena é decidida. Tipo, acredita que eles reencarnaram o Maschera Mortuaria? Aquele serial killer que matou uns 500. Se fosse na minha época o cara seria mandado pro quinto dos infernos. Conheço um anjo que teve um filho com a protegida e só foi demitido. Antes de Jesus encarnar isso dava pena de morte. E sabe o que tem para um anjo depois que ele morre? Nada.
- Você fala como se conhecesse – Shaka riu. Ele não parecia tão ruim como na primeira impressão que teve. Alguém que lê (ou inventa) um livro tão piegas e romântico, mesmo que entremeado com massacres, má pessoa não era. – Só falta me dizer que esse é um livro que você está escrevendo ou algo assim.
- Antes fosse. Mas eu escreveria diferente.
Ikki sorria.
E, em Trento, no colo da mãe, Máscara da Morte chorava.
0 Double Standarts é uma expressão em inglês que quer dizer literalmente "padrões duplos", significando situações idênticas que possuem julgamentos diferentes.
¹ Spanakopita é um pastel de massa filo recheado com espinafre, assado no forno, típico da culinária da Grécia.
² Tzatziki é iogurte com pepino e alho, utilizado como dip.
³ Ovolactovegetarianos não consomem nenhum tipo de carne (nem frango, peixe ou frutos do mar), mas consomem laticínios e ovos. Normalmente uso essa definição de vegetarianismo para o Shaka, pois é o tipo de dieta que os monges budistas seguem.
4 Agnetha Fälstkog, também conhecida como "a loira do Abba" :v Vocês conhecem Abba, né? Né? De qualquer forma,
ABBA foi um grupo sueco de música pop rock, integrado por Benny Andersson, Anni-Frid "Frida" Lyngstad, Björn Ulvaeus e Agnetha Fältskog, ativo em 1972-1982. O nome "ABBA" é um acrônimo formado pelas primeiras letras de cada membro, (Agnetha, Björn, Benny, Anni-Frid).
"Abbas" é um sobrenome nada a ver com isso tudo, mas que eu vi numa lista de sobrenomes indianos e escolhi só para poder fazer a piada (que vai aparecer mais vezes, esperem só o Afrodite conhecer o Shaka e ficar sabendo disso).
A música que Ikki cita é Dancing Queen.
