Capítulo X

— Como pode saber disso?

Bella viu medo nos olhos do marido, que atravessou o quarto com passos largos para segurar nos ombros dela e sacudi-la.

— Quem lhe contou? — ele inquiriu. Bella ficou olhando para ele, espantada tanto por ter acertado em cheio quanto pela reação do homem. — Quem era aquele cavaleiro? O que ele lhe contou? O que você contou a ele?

— Eu... eu já o conhecia.

Edward apertou os lábios, enraivecido.

— Sim, eu devia ter percebido isso. Como era mesmo o nome dele? James? A que família ele pertence? O que tinha a ganhar com tudo isso? Você o chamou até aqui? Como pretende me trair?

— Edward! Pare com essas acusações!

Bella ergueu as mãos e segurou nas faces dele. Para surpresa dela, o gesto o silenciou, embora ele con tinuasse a fitá-la com olhos ameaçadores.

— Edward — ela repetiu, agora com um leve sorriso. — Gosto muito do seu nome — murmurou.

Então ele respirou fundo e estremeceu, evidentemente desistindo de resistir. Bella maravilhou-se com o po der do toque das mãos dela sobre um cavaleiro tão cheio de determinação.

— Bella — ele voltou a falar, em voz baixa. — Eu lhe suplico que não brinque comigo. Diga-me o que pre tende fazer. Preciso saber do que terei que enfrentar, por pior que seja.

Bella balançou a cabeça, sem saber muito bem como apaziguar as preocupações dele. Como explicar tão ime diatamente o que apenas acabava de entender?

— Tudo o que pretendo é ser sua esposa — ela declarou, com firmeza.

Edward arregalou os olhos, claramente chocado.

— Você o quê?

Bella encostou o dedo nos lábios dele. Naquele mo mento, mais do que nunca, teve certeza do sentimento que os unia. Certamente aquela situação podia se resolver. Certamente o amor a faria agir da forma certa.

Bastaria Edward saber da verdade e tudo estaria bem. Então ela respirou fundo, sabendo que devia ser a pri meira a fazer uma revelação.

— O cavaleiro vestido de prateado e verde era James de Roussineau. Algum tempo atrás me pediu em casamento, mas eu não confiei nele. Sam de Uley me pediu que escolhesse entre James e um outro cavaleiro que eu nem conhecia, mas em vez disso resolvi que voltaria para o convento.

— Você detestava o convento — murmurou Edward. Bella sorriu.

— E verdade. Meu irmão sabia disso e eu pensei que ele entenderia que a minha afirmação de que iria para o convento apenas significava que não queria me casar com James nem com o outro. — Abaixando a cabeça ela sentiu as faces quentes. — Mas me en ganei... Achei que Jacob pararia de insistir que eu me casasse imediatamente.

Edward soltou um riso forçado. Quando Bella ergueu a cabeça ele piscou o olho para ela.

— Mas ele não quis entrar no seu jogo, não foi?

Antes de responder ela fez uma careta e sacudiu a cabeça.

— Não era um jogo. Sempre afirmei que só me casaria por amor.

— Porque um homem que amasse a esposa não a tra taria como sua mãe foi tratada — supôs Edward.

Era exatamente isso e Bella engoliu em seco.

— Sim.

Edward correu o dedo pela face dela.

— E o seu irmão não se preocupou com isso?

Bella conteve a respiração. Era difícil concentrar a mente no assunto quando o dedo de Edward traçava o contorno dos lábios dela.

— Ele afirmava que eu devia me casar antes que Riley voltasse para Swan. Meu irmão mais velho tem fama de ser um homem muito cruel e Jacob queria se desvencilhar da responsabilidade que tinha sobre mim.

Edward franziu a testa.

— Riley de Swan? Não é um homem que deva ser temido, Bella...

As palavras eram ditas com firmeza, mas Bella o silenciou encostando o dedo nos lábios dele.

— Agora isso não me importa mais. Jacob insistia em me casar com alguém e eu me recusei.

— Por que não voltou para Swan?

— Nunca mais voltarei para lá!

Edward olhou para ela, evidentemente curioso.

— Mas o que mais você poderia ter feito além de se casar ou ir para o convento?

— Poderia ter partido com Jacob!

— Quantos anos tem esse seu irmão?

— Dezesseis.

— E aposto que ainda nem foi armado cavaleiro. — Edward balançou a cabeça. — Bella, como pôde pensar que teria lugar ao lado dele? O garoto certamente nem sabia o destino que teria pela frente. Não podia mesmo se responsabilizar por você.

— Está tomando o partido dele — acusou-o Bella, ressentida.

— Estou, sim, porque é a única atitude correta. O fato de que seu irmão queria que você se casasse antes da partida dele só mostra que o rapaz tinha bom senso.

— Como pode concordar com Jacob?

— Sinceramente, acho que ele não tinha outra opção. — declarou Edward, num tom brando.

— O que você teria feito no lugar dele? — quis saber Bella.

Edward sorriu, olhando-a nos olhos.

— Teria feito o possível para controlar seus impulsos e rezaria para que tudo se resolvesse da melhor forma. — Enquanto falava ele acariciava nos ombros. — Gostaria de pensar que me sairia tão bem quanto o seu irmão.

E o que ele pensava do resultado? Bella continuou a olhar nos olhos do marido, desejando ter coragem para perguntar. Sem dúvida estava satisfeita, mas não podia ter certeza do que ele pensava a respeito.

Depois de um momento de silêncio os dedos dele aper taram os ombros dela.

— Você ainda não me contou como chegou aqui.

Bella umedeceu os lábios antes de responder.

— Os lobos atacaram nosso grupo a caminho do con vento. Na fuga, acabei vindo parar aqui.

— Então recusou o pedido de James?

— Recusei e continuo recusando — ela respondeu, com firmeza. — Ele disse que veio aqui apenas para verificar se eu estava em segurança, mas mentia. — Bella encostou o dedo nos lábios, pensativa. — Acho que Riley ainda não voltou para Swan.

— Que importância tem isso?

— A propriedade de James está praticamente falida. Acho que o interesse dele é mais por Swan do que por mim. Se Riley não voltar, serei eu a herdeira.

— Ah! — Edward bateu com o pé no chão. — E você não se deitou com ele?

— Edward! — Bella aprumou o corpo. A dúvida dele a atingia fundo, na certa porque só recentemente ela descobrira o que de fato sentia por aquele homem. — Eu já não lhe respondi isso? Para um homem que afir ma querer confiar em mim, você desconfia demais da minha palavra!

Edward riu e puxou-a para perto.

— Ah, Bella. Há um fogo em você que aquece meu coração.

Mas ela não se deixaria dobrar pelas doces palavras do marido.

— Há! — ela exclamou, desvencilhando-se do abraço dele e recuando vários passos. — Há! Você diz isso agora, depois que teve resposta para todas as suas perguntas. Mas saiba que sua confiança é fraca demais para o meu gosto, senhor meu marido!

Edward olhou para ela de um jeito cauteloso.

— Por que diz isso?

— Digo isso porque nunca ouço respostas para as mi nhas perguntas, embora responda às suas! Digo isso por que sei bem pouca coisa a mais sobre você do que sabia no dia em que nos conhecemos, embora você saiba pra ticamente tudo sobre a minha vida. Eu me abri com você, expliquei a minha situação, mas fui obrigada a adivinhar seu nome.

Ao ouvir aquilo ele apertou os olhos.

— A propósito, como conseguiu adivinhar meu nome?

— Está vendo? Lá vem você outra vez! — Bella apontou para ele o dedo acusador. — Vejo nos seus olhos que mais uma vez duvida de mim! Como pode querer que eu continue a tolerar isso? Exijo a verdade! Toda a verdade! Já!

Edward encostou-se na parede.

— Isso eu não posso lhe dizer.

Bella esforçou-se para não derramar lágrimas de frustração.

— Já estou cansada de ouvir isso, Edward. A verdade é que você não me contará, e simplesmente porque não confia em mim.

A dor a tornava corajosa, ainda mais porque a expres são dura de Edward não mudava. Rapidamente ela vestiu a velha roupa de viagem, prendendo os cadarços com dedos trêmulos.

— Bem, não posso mais viver com a sua desconfiança.

— Como assim? — ele perguntou, calmamente.

— Se não ficar sabendo de tudo sobre essa maldição e de como eliminá-la, irei embora esta manhã mesmo.

Bella calçou os sapatos e jogou o surrado manto sobre os ombros, num gesto cheio de altivez. Quando ergueu a cabeça, viu medo nos olhos do marido.

— Seria capaz de me abandonar? — ele perguntou.

— Você não me deixa outra escolha. — Bella per cebeu o tremor da própria voz. — Nosso casamento não poderá dar certo se não houver confiança mútua.

Edward abriu os braços e olhou para o alto, num gesto de desespero.

— Você não entende...

— Não, é você quem não entende! — Com três passos Bella atravessou o quarto, agarrou na parte da frente da camisa dele com as duas mãos e sacudiu-o. — Não posso entender sua situação simplesmente porque você não me diz qual ela é! Tenho tentando adivinhar, tenho feito tudo para descobrir a verdade, mas o fato é que não conseguirei entender se você não tomar a iniciativa de me explicar. Não posso assumir sozinha a responsa bilidade de fazer com que este casamento dê certo se você insiste em não confiar em mim.

— Bella! — A tensão era evidente na voz dele. Edward apertou os ombros dela, quase machucando-a. — Não posso, Bella. Há muita coisa em risco.

Ao ouvir a mesma afirmação de sempre ela apertou os lábios e sacudiu a cabeça. Era como se ele a mandasse embora. Evidentemente o que sentia por ela não era mui to forte. Bem, o jeito seria encontrar sozinha o caminho do convento.

— Nesse caso eu devo partir — disse Bella, voltando-se e começando a se afastar.

Apenas o silêncio a acompanhou. Quando alcançou a porta ela parou e voltou-se, surpreendendo-se ao ver que Edward estava igualmente abatido.

Queria ser inteiramente sincera com ele, revelando tudo.

— Eu te amo — declarou Bella, num fio de voz, para logo depois girar o corpo e continuar a caminhar.

Bella o amava.

Edward olhou para o chão, sentindo o coração em des compasso. Ela o amava. Apenas aquelas três palavras bastavam para fazê-lo sentir calor no íntimo.

Bella. Só agora Edward percebia que teria expulsado qualquer outra pessoa que o houvesse traído como ele havia acreditado que Bella o traíra naquela noite. Em vez disso, porém, voltara a procurá-la. E fizera isso em função de um enraivecido ciúme.

Agira movido pela raiva, não pela razão. E era preciso reconhecer que, no lugar de Bella, não teria sido tão paciente. Estava certo de que a história dela era verdadeira, porque não via no brilho daqueles olhos castanhos outra coisa que não sinceridade. Ela merecia confiança.

Mas ele, como um cretino egoísta, apenas a cumulara de acusações injustas. Bella merecia um pedido de desculpas.

Mas não só isso. Ela merecia uma explicação. Mesmo tendo descoberto o nome dele, o que Edward tanto temia, não fizera a menor tentativa de atraiçoá-lo. Ele continuava ileso. Embora estivesse com o coração em pedaços por causa da partida de Bella.

Ela o amava. Outra vez Edward sentiu-se tonto ao pensar naquilo. Bella o amava. E ele, que nunca antes se deixara perturbar pelo ciúme, que jamais perdera o controle dos próprios atos, mudara de atitude porque tam bém amava Bella.

Subitamente Edward se deu conta de que não estava mais ouvindo os passos dela. No mesmo instante correu para fora do quarto e conteve a respiração ao constatar que a esposa não estava mais no corredor.

Também não a encontrou no jardim, embora visse que o céu se iluminava com perigosa velocidade.

— Bella — gritou Edward. — Bella! Eu lhe con tarei tudo se você me der mais uma chance!

Não houve resposta e ele correu até a estrebaria, onde foi recebido por Mephistopheles com um olhar de reprovação. Edward apontou o dedo para o cavalo.

— Eu a encontrarei — jurou, embora o animal não parecesse muito convencido. — E a trarei de volta.

Mephistopheles bufou de desdém, mas àquela altura Edward já estava correndo para o portão do palácio, te mendo ter demorado demais para ir atrás de Bella. A escuridão diminuía enquanto o portão se abria si lenciosamente e o uivo longínquo de um lobo chegava aos ouvidos dele.

Não! Bella não podia ter entrado sozinha naquela floresta escura! Edward sentiu alguma coisa balançando às costas e percebeu que a cauda de lobo estava começando a crescer. Mesmo assim continuou correndo.

Um pouco adiante viu a silhueta de Bella, que se movimentava na neve com a cabeça abaixada por causa do vento.

— Bella — ele gritou.

Tão logo ela se voltou, mostrou no semblante uma expressão de pasmo. Edward interpretou aquilo como alegria, mas naquele momento o sol apontou no horizonte.

Ele não tinha onde se esconder antes que a transfor mação se operasse por inteiro. Edward virou o rosto para não ver o horror de Bella, que pela primeira vez pre senciava a transformação dele.

O que ele mais temia era que, testemunhando aquele horrível momento, ela deixasse de amá-lo e resolvesse fugir para bem longe.

Bella conteve a respiração quando Edward começou a mudar de forma. Por mais horroroso que fosse ver o nariz dele se tornando escuro, as orelhas crescendo, era igualmente fascinante testemunhar aquela mudança.

Parada onde estava ela ficou olhando, pasmada. O sol que se erguia espalhava uma tonalidade dourada na neve, ao mesmo tempo em que o céu vagarosamente se tornava azul. As estrelas iam sumindo e o vento balançava de leve os galhos desfolhados das árvores, como se também estivesse despertando.

Então o lobo ergueu o olhar das roupas deixadas na neve ao lado dele e fitou-a com aqueles olhos de diferentes cores, um verde e outro cinza.

Bella esforçou-se para sufocar o medo. Só tinha estado tão perto de um lobo quando a égua dela fora morta. Mas o lobo de agora era o marido dela. Quem estava ali era Edward, o homem que a tratava com ternura, que a abrigava, que a deixava com a carne pulsando de desejo, que conversava com ela demonstrando respeito e compreensão.

Aquele era o homem cujo anel ela usava com orgulho. Bella aproximou-se um passo. O lobo permaneceu onde estava.

— Eu gostaria que você pudesse me dizer por que veio atrás de mim — ela disse, com a naturalidade que con seguiu mostrar. O lobo em que Edward havia se transformado continuou a fitá-la de uma forma expressiva. Bella aproximou-se mais um passo. — Gostaria de pen sar que você queria confiar em mim.

Edward abanou o rabo. Depois pôs-se a latir, como um cãozinho alegre, e Bella sentiu-se encorajada.

— Era isso o que pretendia?

Edward latiu com entusiasmo e começou a correr em torno dela, num círculo apertado. Bella rodopiava o corpo, esforçando-se para acompanhá-lo, e riu alto quando se sentiu tonta e caiu sentada na neve.

Imediatamente um nariz escuro chegou bem perto e ela olhou naqueles olhos tão pouco comuns.

— É você mesmo?

O lobo inclinou vagarosamente a cabeça, como se qui sesse animá-la, depois lambeu as costas da mão dela.

Um outro lobo uivou a distância e prontamente Edward er gueu a cabeça. Bella conteve a respiração quando viu na penumbra da floresta o brilho amarelado de um par de olhos. Edward olhou para aquele lado e mostrou os dentes, rosnando.

Um barulho surdo de patas na neve indicou que o segundo lobo se afastava em busca de uma outra presa.

Edward esfregou o nariz no cotovelo de Bella, impa ciente, parecendo querer incentivá-la a se levantar. Antes de aceitar a sugestão ela ficou pensativa. Lembrava-se de quando ouvira do marido a garantia de que sempre estaria segura na companhia dele. Como podia ter du vidado dos sentimentos daquele homem?

Devia confiar em resultados, não em palavras, como Edward tinha dito na noite da chegada dela ao palácio. E tudo o que ele fazia demonstrava que a estimava.

A única exceção era a recusa em contar a própria his tória, mas isso parecia ser um assunto que logo seria abordado. Bella não poderia se sentir mais feliz.

Edward correu até o portão do palácio e retornou em seguida, mostrando claramente a Bella o que estava querendo.

Finalmente se levantando ela fincou pé onde estava, teimosamente.

— Não voltarei para lá sem você.

Edward emitiu um rosnado que parecia ser de frustração e outra vez correu até o portão para logo retornar.

— Não — ela insistiu. — Não entrarei ali. Enquanto você ficar eu também ficarei.

Edward latiu várias vezes olhando na direção em que tinha ido o outro lobo. Depois voltou-se novamente para Bella e rosnou. Inclinando-se para frente ela deu um tapinha no focinho dele.

— Não vai me assustar, meu marido. Não sairei do seu lado enquanto você não me contar a história inteira.

Edward postou-se por trás de Bella e começou a em purrá-la com a cabeça na direção do portão. Saltando para o lado ela girou o corpo para encará-lo, balançando a cabeça com determinação.

— Se você entrar primeiro, entraremos os dois. Edward começou a recuar, balançando a cabeça para os lados. Depois deitou-se na neve e encostou o nariz nas patas.

Bella pôs as mãos na cintura.

— Já disse que não entrarei sem você — ela repetiu, com firmeza. — Não vejo por que não podemos ficar es perando no jardim até que o sol se ponha e você possa confiar em mim. Não há motivo para permanecermos aqui neste frio.

Edward não se moveu de onde estava.

Bella revirou os olhos. Com passos decididos, che gou bem perto e agarrou com firmeza no couro da nuca do lobo. Depois começou a arrastá-lo na direção do portão.

— De todas as suas teimosias, essa parece ser a pior. Edward latiu e se debateu, mas Bella o surpreendera e não afrouxou o aperto dos dedos na nuca dele.

— Por que insiste em esperar aqui fora, com todo esse frio e essa neve? Abra-se, portão! Já temos problemas demais e não precisamos ficar congelando...

Edward ganiu enquanto o portão se abria e passou a se debater com mais intensidade ainda.

— Qual é o problema com você? — inquiriu Bella, para logo em seguida reparar que uma nuvem escura se espalhava em volta dos tornozelos dela.

Sentiu as narinas inundadas por um cheiro forte e exótico, um cheiro que não estava ali quando ela deixara o palácio, momentos antes. Erguendo a cabeça, cruzou o olhar com uma mulher de aspecto malévolo que, ao mes mo tempo, estava e não estava ali.

Bella ficou tão espantada que soltou Edward. Ime diatamente ele se postou diante da aparição, rosnando e mostrando os dentes.

A etérea mulher soltou uma gargalhada diante da de monstração de valentia do lobo, com isso expondo os den tes terrivelmente afiados. Depois começou a aumentar de tamanho, até ficar mais alta que o muro do castelo.

— Quem é você para querer entrar no meu castelo? — ela perguntou, olhando fixamente para Bella.

Aquelas palavras diziam tudo. Sentindo um frio na espinha, Bella imediatamente concluiu com quem... ou mais precisamente com o que estava tratando.

— Sou Bella de Swan, esposa de Edward. Estáva mos entrando no palácio. — Bella engoliu em seco enquanto sustentava o olhar da Gênia. — Será que pode nos dar licença?

— Dar licença? Dar licença a vocês? — A Gênia recuou e soltou um grito agudo, a nuvem escura se espalhando à volta dela. — E claro que não vou lhes dar licença!

Bella quase perdeu o fôlego quando viu o rosto ameaçador da mulher a poucos centímetros do dela.

— Você, mortal, não vai entrar no meu palácio e pronto.

Bella pigarreou.

— Acho que você deu este castelo ao meu marido — ela disse, num tom cauteloso.

Os olhos da Gênia pareceram soltar faíscas.

— Não me lembre disso!

Mal terminou de falar ela girou o corpo, criando um redemoinho que jogou flocos de neve para os lados. Bella achou que devia continuar argumentando.

— Não quero ser grosseira, mas meu marido e eu gos taríamos de entrar. Na minha opinião, madame, se o palácio é de Edward, não há nenhum motivo para que não atravessemos o portão.

Os gritos da Gênia subitamente pararam. Bella olhou para cima e viu no rosto da mulher um sorriso de satisfação que a deixou com o sangue gelado.

— Nenhum motivo? — perguntou a aparição.

Bella aprumou o corpo, com cautela.

— Absolutamente nenhum.

O sorriso da Gênia tornou-se ainda mais largo enquanto ela agitava espalhafatosamente um dos braços, parodian do um gesto de boas-vindas.

— Se é assim, entrem, por favor.

Bella deu um cauteloso passo adiante. Edward rosnou e olhou para os lados enquanto a acompanhava. A Gênia os observava, com um ar enraivecido, mas seria impos sível dizer o que ela tramava.

Eles alcançaram o limite do portão. Bella passou sem dificuldade, mas Edward soltou um ganido de dor. Quan do se voltou ela o viu outra vez correndo para o interior, apenas para esbarrar no que parecia ser uma parede invisível.

Com os olhos brilhando ao ver Bella no lado de dentro ele fez nova investida, mas outra vez não conse guiu entrar. Bella correu para onde ele estava, mas esbarrou na mesma barreira invisível. Não podia tocar no marido! Não conseguia atravessar aquela absurda pa rede, embora batesse ali com toda a força dos punhos.

Estava presa no lado de dentro, enquanto Edward ficara trancado no lado de fora do palácio.

Edward não parecia disposto a desistir. Investia contra a barreira invisível com renovadas forças, mas sempre caía para o lado, evidentemente sentindo dor. Depois de várias tentativas, estava com as pernas trêmulas quando se ergueu para nova investida.

— Pare! — exclamou Bella.

Mas aparentemente ele não podia ouvi-la, porque cor reu novamente contra o muro, rosnando furiosamente.

— Pare — ela repetiu, agora olhando para a sorridente Gênia. — Pare com isso!

A mulher ocupou-se em examinar as unhas.

— Parece que o sofrimento dele a perturba — ela co mentou, com toda calma.

— É claro que o sofrimento dele me perturba! Eu o amo! Pare com isso imediatamente!

— Parar? — A Gênia ergueu uma das sobrancelhas ne gras e depois balançou a cabeça. — Não tenho a menor intenção de parar.

Enquanto dizia aquilo ela se inclinou para frente, com um brilho de crueldade no olhar, o que só aumentou a aflição de Bella.

— Veja bem: o amor não fazia parte dos meus planos para Edward — voltou a falar a mulher, torcendo os lábios. — Um mortal me rejeitou e eu jurei que um mortal pagaria por isso. Edward está condenado a saldar o débito que os humanos têm comigo, e fará isso levando uma existência miserável pelo resto dos seus dias.

— E o que você espera ganhar com isso? — perguntou Bella, com impaciência.

— Satisfação — respondeu a Gênia.

— Se você deu o castelo ao meu marido, por que agora ele não pode entrar?

— Porque é um lobo — despachou a Gênia. — Eu dei o palácio, mas isso não significa que ele se aproveitará de tudo. Lancei uma maldição e ele terá de perambular em volta do palácio pelo resto dos seus dias.

Dito isso a mulher soltou uma gargalhada.

Bella ficou intrigada. Como Edward conseguiria se transformar em homem à noite? Evidentemente não era a hora certa para fazer aquela pergunta. A Gênia ficaria ainda mais enraivecida se soubesse que a maldição dela não estava sendo cumprida à risca.

E agora a mulher olhava atentamente para Bella.

— É evidente que você gosta muito de Edward, assim como é evidente que eu não quero que ele tenha nenhum consolo em seu sofrimento. Quando decretei que a primeira mulher que entrasse neste palácio seria obrigada a se casar com ele, na verdade queria que Edward sempre pensasse no que estava perdendo. — Depois de outra vez examinar as unhas ela recuou um pouco, flutuando sobre a nuvem escura. — Evidentemente, você terá que passar o resto da vida trancada neste palácio.

— Isso não é justo!

— Justo? — indagou a Gênia, rindo baixinho. — Ah, que idéias engraçadas têm os humanos. — Logo depois ela fechou o semblante e olhou fixamente para Bella. — A justiça não tem nada a ver com as coisas deste mundo! — exclamou. — Já é tempo de você saber disso!

Dito isso a mulher estendeu os braços. Bella se encolheu enquanto o portão se fechava. Logo depois o jardim ficou em absoluto silêncio.

Quando ergueu a cabeça, Bella viu-se sozinha. Aprumando o corpo, estendeu as mãos para o portão de madeira.

— Abra-se — ela ordenou, com firmeza.

O portão estremeceu, como se não soubesse muito bem a que ordem devia obedecer. Por um instante Bella pensou que ele se abriria, como tudo levava a crer.

Logo depois o portão ficou imóvel, com ela presa lá dentro.

E Edward lá fora.

Os dias que se seguiram Bella passou perambulando pelos cômodos do palácio. Já sabia que não podia pular o muro e que, por determinação da Gênia, não estava mais autorizada a sair.

Passar a vida inteira ali, por mais confortável que fosse o lugar, era mais do que ela podia suportar.

E a preocupação com Edward a atormentava. Continuava ele se transformando em homem todas as noites, sendo obrigado a ficar no frio? Ou estava condenado a perma necer sempre na condição de lobo?

Bella não sabia o que seria pior.

O que mais a atormentava era o fato de que não estava fazendo nada. Tinha que haver alguma coisa para fazer. Tinha que haver uma forma de enganar a Gênia. Todo quebra-cabeça tinha uma solução, disso ela estava certa.

Mas o difícil era saber por onde começar.

Bella leu e releu o misterioso livro, mas a hora era de ação, não para matar o tempo com leituras.

Mas havia uma certa coisa que ela gostava muito de fazer. Todos os dias, ia à estrebaria e levava um bom tempo escovando os animais enquanto refletia. Mephistopheles em geral ficava olhando para ela, espantando as moscas com o rabo.

Bella achava que ele também gostava da presença dela. Sem dúvida, tanto o cavalo quanto a égua sentiam satisfação em ser escovados. Apesar de todos os confortos do palácio, era na estrebaria que ela mais gostava de ficar, sem dúvida porque ali podia encontrar outro ser vivente.

O cheiro de feno e o barulho dos animais nas baias traziam à lembrança dela os dias passados em Swan, quando ficava um bom tempo na estrebaria. A mulher do cavalariço costumava dar a ela doces para mastigar e o próprio cavalariço sempre encontrava tempo, entre uma tarefa e outra, para contar interessantes lendas. Aquilo havia representado uma fuga para Bella, bem como os momentos mais felizes de todo o período passado na casa do pai.

Ela só não queria se lembrar dos cachorrinhos cin zentos do cavalariço, porque isso a fazia pensar num certo lobo.

Numa tarde de sol Bella estava perambulando pela estrebaria quando tropeçou no livro.

— Saia do meu caminho! — ela exclamou, frustrada, enfiando o pé por baixo do livro e chutando-o para longe. — Não tenho tempo para ler agora!

O livro foi parar em cima de um monte de feno, a capa refletindo o sol como se a convidasse a se aproximar. Bella ficou olhando, intrigada. Como aquele livro ti nha ido parar na estrebaria? Ela estava certa de que o deixara no salão. Parecia até que o objeto inanimado a seguira. Ao pensar naquilo ela se arrepiou. Há vários dias estava sozinha no palácio e ninguém podia ter levado a livro para a estrebaria.

Bella ouviu uma leve tosse e saltou para trás, as sustada. Rapidamente girou o corpo e viu uma mulher rechonchuda e baixinha ao lado da baia de Mephistopheles.

— Saudações — disse a desconhecida, acenando ale gremente para Bella antes de se adiantar para cocar as orelhas do cavalo.

A túnica e o manto da mulher eram bem comuns, mas chamava a atenção o estranho chapéu de pele que ela usava. Além disso, seria difícil adivinhar a idade que podia ter.

Mephistopheles não parecia nem minimamente per turbado com a presença dela. Até encostou a cabeça no portão da baia, evidentemente gostando de ser acariciado. A mulher sorriu, satisfeita.

— Quem é você? — perguntou Bella.

— Posso lhe fazer a mesma pergunta.

A mulher riu e afastou-se um pouco da baia. Bella reparou que uma tênue nuvem rosada envolvia a desco nhecida e, cautelosamente, recuou um passo.

— Por acaso é aquela mesma Gênia que resolveu voltar? — perguntou, com cuidado. — Ou é uma outra?

— Minha cara, parece que ultimamente tenho ouvido muito essa pergunta — disse a mulher, fazendo uma careta. — Não me diga que você também se encontrou com ela primeiro. Talvez ela não seja uma boa embai xadora da nossa espécie, não acha?

Pela expressão de desagrado da mulher, tudo levava a crer que ela concordava com a opinião de Bella sobre a maldosa Gênia que a deixara trancada no palácio. Mesmo assim era melhor ter cautela. Ceder aos impulsos em geral causava prejuízos.

— Ela? — perguntou Bella, com cuidado.

— Sim, ela. A encrenqueira. — A mulher suspirou. — Mas houve uma época em que eu acalentei lindos sonhos para ela, imaginava o que podia vir a ser na vida. — A desconhecida balançou a cabeça como se quisesse afastar um pensamento que não cabia naquela conversa. Depois sorriu e fez um gesto indicando o ambiente que as cer cava. — Sem dúvida a esta altura você já sabe que este é o palácio dela, não sabe?

— Está se referindo à Gênia que amaldiçoou Edward?

—Ah! — exclamou a mulher, demonstrando satisfação. — Você conhece Edward? Ele é um mortal, claro, e também um ocidental, o que, digamos assim, torna o homem um pouco intolerante. Mesmo assim é charmoso, concorda?

— Concordo, sim — disse Bella, relaxando um pou co. — Ele é meu marido.

— Verdade?

Bella assentiu com a cabeça e a mulher prosseguiu, cheia de animação.

— Ora, mas isso é muita sorte. Não pensei que ele progrediria tanto em tão pouco tempo. A princípio não me pareceu muito alegre com a perspectiva de se casar. Uma das palavras da Gênia chamou particularmente a atenção de Bella.

— Progresso em que sentido?

— Progresso contra a maldição, minha filha! — A Gênia balançou a cabeça, sacudindo as curiosas bolinhas que cercavam o chapéu dela. — Você deve saber da maldição... afinal de contas, casou-se com o homem. Ele não lhe contou?

— Talvez não a história toda — respondeu Bella, com cautela.

Se ela fosse prudente, aquela Gênia falastrona podia revelar mais sobre o que fazer para eliminar a maldição.

— Bem, ele foi condenado a se transformar em lobo, mas eu... numa mágica notavelmente interessante criada por puro impulso, e que me fascina até hoje pela criati vidade da rima... Enfim, eu diminuí a força da maldição para que ele se tornasse lobo apenas durante o dia. E olhe só para você... é uma mulher tão bela que chega a doer nos olhos! Que sorte teve aquele homem!

— Ah, sim ele tem tido muita sorte — comentou Bella, com secura.

A Gênia aprumou o corpo e fez um ar de ceticismo.

— Ah, vocês dois têm uma coisa em comum, não é mesmo? Para lidar com alguém da nossa espécie, ter língua ferina nunca é uma vantagem, embora eu ache surpreendente ter que lembrá-la disso. Você e seu ma rido não estariam na situação em que se encontram se Edward não tivesse tanta pressa em expressar o próprio ceticismo.

— Sim, ele me contou isso.

A Gênia pareceu impressionada.

— Contou? Bem, isso é progresso mesmo. Antes tarde do que nunca, como vocês costumam dizer. Sabe de uma coisa? Pelo que me lembro, ele não se mostrou muito contente com o fato de eu não ser capaz de eliminar a maldição inteira. — Nesse ponto ela riu. — Mas não sei como alguém poderia esperar isso. Dadas as circunstân cias, acho que me saí muito bem. E não foi nada agradável ficar presa com ela durante todos esses séculos.

— Imagino que não tenha sido mesmo — pronunciou-se Bella, solidária.

O pouco tempo passado na companhia da outra Gêniajá tinha sido demais para ela.

A mulher mostrou um sorriso atrevido.

— Estou percebendo uma notável melhora no seu tom de voz.

Bella achou que não podia deixar passar a opor tunidade. Aquela Gênia parecia ter alguma simpatia tanto por ela quanto por Edward. O momento era aquele.

Bella sorriu com todo o charme que conseguiu reunir.

— Acha que pode fazer agora mais alguma coisa para ajudar Edward? — O olhar da Gênia tornou-se duro mas ela não se abalou com aquilo. — Não que eu não sinta gratidão pelo que você já fez pelo meu marido, mas é que a outra Gênia retornou e tornou a nossa si tuação ainda pior.

— Posso imaginar que ela tenha feito isso — pronun ciou-se a Gênia, balançando a cabeça. — Mas não posso me arriscar a ser o alvo da fúria dela. Acho que já fiz o bastante.

O bastante? Bella sentiu uma onda de irritação, algo que só com muito esforço controlou. Era difícil manter a cautela quando o que mais queria era saber a verdade.

— O que exatamente precisa ser feito para eliminar essa maldição? — ela perguntou, com a calma que con seguiu mostrar.

A Gênia deu de ombros.

— A salvação de Edward precisa ser merecida.

— Mas como? — Bella adoraria dizer àquela dupla de intrometidas, sem meias palavras, o que pensava do que elas tinham feito. — Eu tentei de tudo que se possa imaginar, mas agora as coisas estão ainda piores. - A Gênia ficou olhando para ela por um longo momento.

— Você o ama, não é?

— É claro que o amo! Ele é meu marido.

— Então você pode ser a salvação dele.

Aquilo não passava de uma promessa vazia! Como uma bobagem tão grande poderia ser verdade! Agora era difícil manter o controle.

— Pois eu prefiro pensar que não! Sempre que penso numa solução, uma Gênia aparece para mudar as regras do jogo. — Então ela ergueu as mãos para o céu, frus trada. — Não posso falar com Edward, não posso tocar nele, não posso vê-lo... nem mesmo como podia antes! Não faço a menor idéia do que fazer para ajudá-lo, menos ainda de como a salvação dele possa ser merecida.

Por um minuto inteiro fez-se silêncio na estrebaria. Mephistopheles sacudiu as orelhas para espantar algu mas moscas, produzindo um som perfeitamente audível.

— Talvez você já esteja fazendo — disse finalmente a Gênia. Bella mostrou-se surpresa e a mulher sorriu.

— Mal posso crer que se casou com um homem que era meio lobo — ela comentou, numa inesperada mudança de assunto. — Naturalmente não lhe faltaram outras propostas.

A situação toda e o rumo daquela conversa não con tribuíam em nada para melhorar o ânimo de Bella.

— Na ocasião as circunstâncias eram muito especiais — ela justificou. — Assim como continuam sendo.

— Ah! — A Gênia aproximou-se um pouco, fingindo uma naturalidade que não enganou Bella. — Está se arrependendo, não é?

— Não. Só queria que Edward pudesse ter sido honesto comigo em alguns pontos.

— Talvez ele tivesse medo de perdê-la.

— De me perder? — inquiriu Bella, descrente da quela idéia. — Para começo de conversa, eu estava presa neste palácio, exatamente como estou agora!

— De perder o seu apoio, então — corrigiu-se a Gênia, falando com brandura. — O feitiço da outra foi bem cruel, sabe?

— Não, eu não sei — respondeu Bella, perdendo o que lhe restava de paciência com aquela história de feitiços. — Não sei nada sobre isso, e parece que ninguém vai me explicar nada!

— A maldição dela previu que a pessoa em que ele mais confiasse acabaria por traí-lo.

A raiva de Bella desapareceu no mesmo instante e ela ficou olhando para os etéreos olhos da Gênia.

— Mas isso é... terrível — murmurou. A mulher assentiu em concordância.

— Sem dúvida, mas acho melhor deixar que o próprio Edward lhe conte o resto. É fácil imaginar o quanto ele está preocupado. — Nesse ponto ela olhou de lado para a interlocutora. — Imagino que as coisas não tenham sido fáceis para vocês dois.

Bella fez uma careta.

— Os obstáculos que temos sido obrigados a superar são maiores do que os de qualquer outro casamento.

— Assim como talvez venha a ser a recompensa de vocês — opinou a Gênia, com tranquilidade. Bella er gueu a cabeça e viu um sorriso doce no rosto da mulher. — Você afirmaria honestamente que já conheceu um ou tro homem como ele?

— Não — confessou Bella.

— Posso ver o resto nos seus olhos, minha menina. Não se deixe abater pela tarefa que tem pela frente. — A Gênia tocou na mão dela, o roçar daqueles dedos etéreos transmitiam renovadas esperanças. — Todos nós deve mos lutar sempre pelo que acreditamos.

— Mas a outra Gênia voltou! E me trancou aqui no palácio, deixando Edward lá fora!

A Gênia roçou os dedos na face de Bella, o que trans formou a frustração dela numa sensação de tranquilidade.

— E fácil ver que Edward foi abençoado com uma esposa de muita coragem e rara inteligência — murmurou a mulher. — No íntimo você tem força de vontade para resolver todo esse problema e os meios necessários estão à sua volta. Afinal de contas, todo quebra-cabeça tem uma solução.

— Tem certeza de que não pode nos ajudar? A Gênia balançou a cabeça, sempre sorrindo.

— Já fiz tudo o que podia.

Os olhos de Bella se encheram de lágrimas e ela se voltou para o lado. Embora a Gênia demonstrasse con fiança nela, era difícil pensar numa forma de salvar Edward.

— Você vai precisar disto — disse a Gênia, com calma. Bella voltou-se rapidamente e viu a garrafa escura aninhada nas mãos da mulher. Havia algo fascinante e ao mesmo tempo repulsivo nas luzes que pareciam se mover na superfície do objeto.

— Não olhe muito para ela — aconselhou a Gênia. — Esta é a única coisa que posso lhe dar e de que você provavelmente precisará.

— Mas ela...

— Leah. — A voz da Gênia era firme e o olhar bondoso tornou-se subitamente feroz enquanto ela depositava a garrafa com a rolha nas mãos de Bella. — O nome dela é Leah.

De um instante para outro a aparência da mulher tornou-se muito mais envelhecida do que antes.

— Você a conhecia antes de ter que ficar aprisionada com ela? — perguntou Bella.

— Ah, sim, muito bem. — A Gênia balançou a cabeça e se voltou. No instante seguinte, quando viu o livro deixado no chão, ficou com o semblante iluminado. — Então foi isso o que aconteceu com ele! Eu devia ter percebido que ela se apoderaria do livro.

— Mas o que há de tão especial nesse livro? Ele só contém histórias para crianças, não é?

A Gênia olhou novamente para ela e Bella teve a impressão de ver um brilho de lágrimas naqueles olhos.

— Acho que o destino de todos nós é simplesmente divertir as crianças — ela respondeu.

A tristeza daquele pensamento era evidente, mas antes que Bella pudesse perguntar mais alguma coisa a Gênia atravessou a parede da estrebaria e desapareceu.