Capítulo Dez – Passado

Londres, 01 de agosto de 1980

Kevin Malfoy andava pelo bairro bruxo com calma e confiança, observando as casas que a rodeavam. Não havia nenhum sorriso em seu rosto, mas ela sentia-se em paz mesmo assim. Estava voltando para casa. Sua verdadeira casa. Aquela que construíra nos últimos quatro anos com um dos homens que mudaram sua vida.

Não que sua vida fosse perfeita. Aliás, estava bem longe desta meta. Mas ela gostava das coisas como estavam. Ajeitando a mochila que carregava por uma alça presa ao ombro esquerdo, apressou o passo ao virar a esquina na rua em que morava.

Não havia prédios por perto. Ao contrário da Londres trouxa, povoada deles, a parte bruxa ainda mantinha o estilo arquitetônico mais antigo. Como castelos eram praticamente inviáveis, a grande maioria das residências resumia-se a casas, algumas com um primeiro andar além do térreo.

A sua era uma do último grupo. Estava bem visível devido à diferença das que a ladeavam, que só tinham o andar térreo, mas era implotável e escondida através de um Fidelius mantido por Frost há muito tempo. O ex-professor e, agora, colega de trabalho dela era uma das poucas pessoas que se importavam com ela e seu namorado o suficiente para protegê-los.

Lembrou-se da missão que ela e o auror tinham acabado de cumprir. Haviam saído da Inglaterra direto para a pequena ilha ao lado, que abrigava a Irlanda. Apesar da paisagem ser maravilhosa e roubar seu fôlego do começo ao fim da missão, eles não estavam lá a turismo. Voldemort achava que ela fora simplesmente recolher informações de um contato de Dumbledore na ilha e que voltaria com boas novas para o Partido das Trevas. A verdade era que ela acompanhara Frost e Eileen, agora casados, a um lugar seguro. Dumbledore lhe confiara aquela missão.

Ela se sentia péssima por não contar aquilo a Severus, mas poderia ser fatal para ele a notícia de que sua mãe estava viva e bem, ao lado do professor que prometera resgatá-la há mais de meia década. Se Voldemort tivesse qualquer suspeita de que Eileen sobrevivera à fuga e fora encontrada dias depois, Severus poderia ser morto, ou pior: torturado até a loucura.

Eles tinham feito um pacto quando tinham catorze anos; um Voto Perpétuo. Prometeram que nunca mentiriam um ao outro, pois aquilo significava a diferença entre manter as cabeças no lugar onde estavam – coladas ao pescoço – ou tê-las arrancadas sem piedade. Como ambos estavam vivos, era suposto que o voto não fora quebrado.

E ela pretendia mantê-lo assim. Afinal, enquanto ele não perguntasse diretamente a ela sobre a mãe – e não tinha por que fazê-lo, já que pensava que a mulher estava morta – ela não seria obrigada a dizer algo que desestabilizaria o equilíbrio do amigo. E aquele equilíbrio era essencial para que Voldemort não penetrasse em suas barreiras mentais. A euforia de ter a mãe de volta poderia significar a morte se ele não conseguisse se concentrar na presença do mestre, e o Lorde das Trevas não era famoso por ter horários regulares para requisitar seus servos.

Destrancou a porta da casa e sorriu finalmente ao sentir os cheiros das infusões. Ele havia transformado um antigo depósito da casa num pequeno laboratório de poções, onde trabalhava e estudava para conseguir o grau de mestre. O Herbolário de Ghandara, uma sociedade de pessoas que utilizavam ervas e poções no dia-a-dia, era uma entidade britânica reservada e a única capaz de conceder o grau máximo de mérito, fosse em Poções, Alquimia, Herbologia ou Botânica. Ele vinha estudando arduamente e pesquisando para desenvolver um projeto inovador que impressionasse os diretores do grupo.

Como também gostava de Poções, mas nem de longe era tão boa quanto ele, ela simplesmente deixava-o trancado lá por horas e sentia os cheiros espalhando-se pela casa. Na maior parte 

das vezes era um aroma agradável, que podia ser doce ou simplesmente cítrico. Mas quando ela não gostava do ar que invadia seu nariz, simplesmente lançava um feitiço de isolamento na porta do laboratório para que o cheiro parasse de se espalhar.

Deu uma olhada no lugar e ergueu uma sobrancelha, surpresa, ao vê-lo vazio. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas normalmente ele entrava madrugada adentro concentrado no preparo de seus experimentos. Pensou em passar na cozinha para comer algo antes de subir, mas estava com vontade de fazê-lo cozinhar. O homem era um excelente cozinheiro, enquanto ela mais uma vez era apenas passável. Supunha que a habilidade dele no preparo de poções tinha algo a ver com isso.

Com aquela idéia em mente, subiu lentamente os degraus, lutando para reunir forças. Estava exausta, pois não havia dormido nas últimas vinte e quatro horas. Suas pernas reclamavam pelo esforço que faziam com dores musculares. Hummm... Teria que acrescentar algumas massagens na lista de afazeres de Severus para aquela madrugada.

Abriu a porta do quarto e, soltando a mochila no chão, encostou o ombro no batente da porta, observando-o. Severus não era do tipo que tinha um sono profundo e reparador como ela. Nem um terremoto seria capaz de acordá-la. Ele tinha um sono leve e pouco útil para recobrar as energias. Parecia estar sempre atento ao que acontecia ao seu redor e pronto a abrir o olho ao mínimo sinal de perigo. Ela entendia o motivo e sabia que provavelmente deveria se comportar da mesma maneira, mas seu corpo não funcionava de acordo com o que sua mente queria.

Desta vez, porém, parecia que ele havia tomado alguma poção para induzir o sono. Ele realmente não gostava de medicamentos para dormir, mas até mesmo Severus Snape tinha limites. Vez ou outra ele tinha que dormir profundamente ou simplesmente enlouqueceria. O rosto, parcialmente coberto pelos cabelos oleosos mais longos que os seus, estava escondido, mas ela podia ver que não havia vincos em sua testa. O nariz em forma de gancho perfurava a massa de fios e fazia-se notar. Ele tinha um ronco leve, provavelmente devido à posição em que dormia – de bruços, uma perna esparramada para fora da cama e os braços aberto dos lados. A cabeça não alcançava o travesseiro. E, até onde ela via, ele parecia estar completamente nu sob o lençol.

Ela planejava acordá-lo, claro, mas uma idéia melhor passou pela sua mente. Mesmo que todo o seu corpo protestasse, ela despiu-se e caminhou lentamente até a enorme cama de casal. O colchão macio afundou com seu peso, mas ele não acordou, comprovando que estava sob o efeito de algum sonífero. Sabendo muito bem a melhor maneira de acordar um homem, ela jogou o lençol para fora da cama e inclinou-se sobre ele. Sua língua brincou com o lóbulo da orelha quando afastou as mechas negras do rosto dele. O homem mexeu-se ligeiramente, mas voltou a dormir.

Sorrindo consigo mesma, ela deixou a boca pousar sobre um ombro próximo e começou uma trilha de beijos que seguiu até o rosto do homem, culminando em sua boca. O beijo era suave como uma borboleta, provocando pequenos arrepios que ela sentiu com a conexão que tinha com ele. Mesmo assim, ele apenas virou o rosto para o outro lado e ajeitou um dos braços.

Chegando à parte que queria, Kevin deixou sua mão deslizar entre o corpo dele e o colchão até encontrar o membro adormecido. Agora que ele estava de costas, ela deixou sua boca passear pelo torso rígido enquanto sua mão o acariciava com a familiaridade de uma antiga amante.

Ela conseguiu contar até sete antes que ele virasse e a aprisionasse contra o colchão, capturando a boca dela com a dele. Severus segurou ambos os braços dela e os ergueu acima da cabeça da namorada enquanto sua língua invadia a boca dela com a voracidade de um leão. Ela se contorceu embaixo dele, provocando ainda mais certas partes de sua anatomia que agora estavam perfeitamente acordadas.

- Boa noite – sussurrou no ouvido dela, a voz rouca numa mistura de sono e excitação.



Sentiu-a tremer suavemente e sorriu, depositando beijos em seu pescoço. Sentira uma falta terrível dela nos últimos três dias. Era típico de Kevin não manter contato quando sumia em alguma missão de Voldemort ou Dumbledore. Ela gostava de torturá-lo para que estivesse louco quando voltasse. Ouviu-a soltar um gemido antes de responder, também rouca:

- Boa noite... Severus – murmurou num tom sexy enquanto soltava as mãos e fazia-o perder o equilíbrio acima dela.

O sexo entre eles sempre era explosivo como uma bomba nuclear. Frequentemente travavam aquelas guerrinhas para ver quem ficava no comando enquanto um assaltava os sentidos do outro das maneiras mais excitantes que encontrassem. Os dois acabavam rindo bastante durante o processo, já que às vezes acabavam em posições estranhas e desconfortáveis. As carícias, no entanto, nunca paravam.

Ele deixou as mãos percorrerem o corpo dela enquanto sua boca tomava um seio e depois o outro. Ela arqueou-se de encontro a ele e agarrou suas costas, fincando as unhas longas sem nenhuma piedade. Ele gemeu enquanto uma de suas mãos descia para a região entre as pernas dela e a provocava, sentindo que seria bem-recebido. Sua boca voltou a tomar a dela enquanto a mão livre agarrava-se aos cabelos agora longos da mulher. Ele adquirira uma fixação por eles desde que ela os deixara crescer.

O relacionamento deles não era o mais comum de todos. Não havia dúvidas, entretanto, de que funcionava para os dois. Kevin sorriu contra a boca dele e passou as pernas pela cintura do homem, puxando-o contra si.

- Agora – ordenou.

Sem oferecer resistência, ele deixou-se deslizar para dentro dela. O ritmo era lento, tão torturante quanto as carícias anteriores, enquanto ele se movimentava com vagar, provocando um colapso de prazer em todas as terminações nervosas de ambos. Aumentou o ritmo à medida que ela passou a acompanhá-lo, mexendo os quadris e arqueando-se contra ele.

- Sentiu a minha falta?

A pergunta a pegou de surpresa. Normalmente ele não se importava com os aspectos emocionais do relacionamento deles. Mesmo assim, quando seus olhos encontraram os dele, ela assentiu.

- Muito, meu bem – murmurou enquanto o apertava com as pernas, fazendo-o ir mais fundo e sorrindo ao sentir o corpo todo ser consumido por deliciosos arrepios. – Agora cale a boca.

Sem se fazer de rogado, ele tomou a boca dela mais uma vez na sua enquanto aumentava ainda mais o ritmo. A armação da cama emitia rangidos suaves que apenas os deixavam ainda mais excitados. Suas mãos percorriam com reverência o corpo dela enquanto ambos dirigiam-se para a consumação final. As mãos dela alcançaram as dele, e Severus deixou seus dedos escorregarem entre os dela enquanto ambos eram carregados para algum paraíso colorido e brilhante.

O corpo caiu sobre o dela, sem forças. Ele ainda estava dentro dela, e não pretendia sair dali por enquanto. Sorrindo, ela abraçou-o e mordiscou sua orelha lentamente, também sem forças.

- Adoro viajar. A volta sempre vale à pena – murmurou para ele, enquanto depositava um beijo carinhoso em seu pescoço.

Severus sorriu e retribuiu o gesto na mesma medida. Deixou-se deslizar para fora dela e para o lado da cama quando conseguiu reunir energia suficiente. Sentiu-a se aconchegar contra seu corpo e sorriu, passando um braço pela cintura da mulher e trazendo-a ainda mais para perto.



- Kev? – chamou-a, bocejando.

- Hummm? – ela murmurou, sorrindo. Adorava o calor que o corpo dele lhe transmitia, principalmente depois de uma sessão de sexo selvagem e desesperado. Gemeu de dor quando ele apertou suas costas.

- Dolorida?

- Como se um trasgo tivesse passado por cima de mim – ela confirmou, fechando os olhos.

- Já volto, meu bem – ele prometeu, apanhou um robe e vestiu-o enquanto saía do quarto.

Ela ouviu os passos enquanto ele descia a escada e sorriu. Certamente estava indo preparar algo para ela. Vantagens de se namorar um perito em poções e cozinha - vangloriou-se mentalmente enquanto agarrava o travesseiro dele e deixava a mente flutuar, semi-adormecida.

A vida deles não fora nada fácil depois daquele ataque. Pegaram aquele trem com Frost, fizeram seus votos e contaram muito um ao outro sobre planos para o futuro. Severus gostava de deixar todas as portas abertas, exatamente como ela. E era isso que eles vinham fazendo desde então.

Os avós dele foram buscá-los na noite em que desceram em King's Cross. Levaram-nos diretamente para o Lorde das Trevas, como Dumbledore e Frost previram. Certamente os parentes de ambos queriam puni-los, mas o Lorde provavelmente pedira a honra. Como servos obedientes, os Prince e os Malfoy concordaram prontamente.

Ela lembrava do olhar superior de Lucius, já um Comensal da Morte na época, quando ela e Severus entraram no salão de recepções do homem mais temido da Inglaterra. Eles foram levados para lá numa chave de portal, sem nenhuma noção de onde estavam, o que os impediria de fugir. Não que eles planejassem isso.

Ainda como Dumbledore previra, o Lorde os questionara sobre a confrontação do dia anterior. Estava furioso pela perda de muitos seguidores, agora trancados em Azkaban. O fato deles terem protegidos nascidos trouxas e traidores do sangue apenas piorava o quadro. Certamente estava louco para ouvir desculpas escassas e poder matá-los, ou simplesmente torturá-los.

Eles, no entanto, tinham um plano. Kevin passara a viagem trabalhando nele com Severus e Frost. O Lorde das Trevas ouviu atônito enquanto ela dizia que estivera tendo aulas particulares com Dumbledore desde o segundo ano em Hogwarts, e que era a aluna preferida do diretor. Conseguira driblar as perguntas sobre que tipo de aulas, partindo direto para o foco principal de seu disfarce:

- Milorde, o fato de eu me ausentar da batalha ontem teria comprometido minha posição com o diretor. Eu o fiz acreditar piamente que não quero ser uma Comensal, e o velho me deu todo o apoio. Antes de me deixar viajar, pediu que mentisse para o senhor. Inventou uma história pouco convincente, que eu fingi acatar.

- Verdade? – ele perguntara, sarcástico.

Ela o sentira tentando penetrar em sua mente para descobrir uma mentira. Mantivers seus escudos mentais ativados e deixara ele ver Dumbledore olhando para ela enquanto lhe dava uma história para mentir ao Lorde. Aquelas imagens tornariam a história mais convincente.

- Sim, milorde, é a mais pura verdade – ela assentira, o ar frio escondendo o nervosismo que percorria seu corpo. – Quando eu disse que provavelmente me encontraria com o senhor hoje, ele me pediu que lhe contasse tudo na volta.

- Velho atrevido!

Kevin sentira a raiva do homem através da empatia, mesmo que estivesse bloqueando qualquer conexão com ele. Ficara mais aliviada ao ver que não era a única a sentir o fato, o que significava que o homem emanava energia por vontade própria e não porque havia uma conexão entre eles.

Se ele descobrisse que ela era empata, estaria morta.

Respirando normalmente para não deixar seu corpo trair o nervosismo, ela continuara. Dissera que o diretor já a havia convidado para se juntar à Ordem da Fênix quando se formasse e que queria que ela fosse uma espiã para ele no círculo interno de Voldemort.

A platéia exclamara ao ouvir o nome. A Ordem da Fênix era uma nova entidade na luta contra o Lorde. Um novo inimigo que estava dando muita dor de cabeça a todos. Os olhos escuros do bruxo encararam os dela fixamente por alguns segundos antes que ele falasse:

- E qual foi a sua resposta?

- Que me juntaria a ele com prazer.

Os Comensais que assistiam, inclusive os Malfoy, começaram a murmurar algo entre si, ultrajados.

- QUIETOS!

A ordem do Lorde fora obedecida imediatamente. Ele voltara-se para Kevin novamente:

- Está me dizendo que aceitou ser espiã de Dumbledore?

- Não, milorde. – Ela sorrira, um sorriso cruel que parecia ser sua única semelhança com os demais Malfoys. – Eu apenas deixei que ele pensasse isso. Desse modo, quando terminar Hogwarts, o senhor terá uma pessoa infiltrada na Ordem ouvindo todos os planos e repassando-os direto para o senhor.

O burburinho retornara, mas desta vez o Lorde nada fizera para pará-lo. Parecia que pensava no que ouvira por algum tempo. Sem dar mostras de contentamento ou fúria, virou-se para Severus.

- E você, Snape? Ainda irritado comigo por causa da sua mãe? – ele zombara.

Os presentes riram, adorando humilhar um mestiço. Severus, entretanto, também ficara impassível. Havia aprimorado muito sua técnica em Oclumência nos últimos anos e sentia que podia combater a invasão do Lorde das Trevas. De qualquer forma, Kevin estaria em sua mente como uma proteção adicional.

Calmo, ele relatara suas aulas particulares, divididas com a Evans, com o Slughorn. Voldemort não parecera contente à menção do professor, mas ninguém comentara nada. Severus confirmara que o professor o adorava e achava que ele tinha um talento natural para Poções. Daquela forma, ele seria seu tutor para que conseguisse o grau de mestre.

Apesar de gostar muito de Evans, Slughorn havia falado com Severus em particular sobre uma possível aposentadoria, e que gostaria muito que o garoto o substituísse no futuro. Voldemort parecera surpreso ao ouvir aquilo, mas ficou calado. Como a conversa fora mesmo real, Severus deixara as imagens invadirem sua mente ao mesmo tempo que o bruxo fazia o mesmo, corroborando sua história.



- Desta forma, estarei em Hogwarts em alguns anos, com uma posição que me permitirá observar quais alunos estão mais qualificados para juntar-se a nós, e ao mesmo tempo de olho no diretor e nos movimentos da Ordem da Fênix, que provavelmente é constituída por vários dos professores da escola. Mas se eu deixasse a nojenta da Evans morrer ontem, Slughorn certamente voltaria atrás. Ele parece gostar muito da garota, está ajudando-a a conseguir um tutor para aprender medibruxaria.

- Prossiga – Voldemort dissera com um assentimento.

- Há também o fator influência. O Slughorn é tremendamente bem-relacionado devido a todas aquelas reuniões ridículas que organiza. Ele pode acabar nos servindo como fonte de informações sobre vários dos nossos contatos, ou mesmo de inimigos, ajudando-nos a localizá-los sem nem mesmo saber.

Os dois conseguiram tornar a história ainda mais verídica ao informarem que estavam namorando. Pretendiam trabalhar em dupla para angariar posições entre as forças inimigas e conseguir informações que ninguém mais conseguiria. Kevin ainda fizera questão de salientar que Dumbledore confiaria ainda mais nela ao saber que estava namorando um mestiço, o que mostrava que ela não tinha nenhum dos preconceitos tão comuns entre as famílias nobres.

Houvera um silêncio tenso enquanto os dois eram escrutinados pelo bruxo. Sentado numa espécie de trono, Voldemort olhava de um para outro enquanto acariciava a cobra de estimação que se enrolava ao redor de seu pescoço. Sabendo que seria melhor deixar o homem absorver a notícias, os dois também permaneceram em silêncio.

Por fim, o bruxo falara:

- Muito bem – ele começara, erguendo-se. – Gosto de bruxos inteligentes, e vocês parecem ter mais cérebro do que muitos dos que estão aqui.

Seu olhar desviara-se para membros do grupo que haviam falhado recentemente. As pessoas sustentaram seu olhar, sabendo que se fizessem outra coisa sofreriam as conseqüências.

- Fazemos tudo ao nosso alcance para melhor servi-lo, milorde – Kevin respondera, com uma reverência rápida.

Voldemort voltara-se para eles novamente, e seu sorriso maligno reaparecera.

- Não gostei, entretanto, da forma como lidaram comigo e meus seguidores ontem – continuara, e o sorriso malicioso de Lucius voltara. – Poderiam ter feito feitiços menos eficazes, ou simplesmente se escondido. Causaram a perda de muitos de meus seguidores, e isso me deixou realmente irritado. Como conseqüência, terei prazer em deixá-los inaugurar a Câmara do Medo.

Murmúrios e exclamações de surpresa circularam ao redor. Os dois se entreolharam, perguntando-se o que seria a Câmara do Medo. Sophie, receosa, dera um passo à frente.

- Milorde, se me permite...

- Tem alguma coisa contra a minha decisão, mulher? – o lorde perguntara, virando-se para fitá-la com olhos frios.

Ela balbuciara nervosamente e meneara a cabeça, incapaz de falar.

- Então cale-se!

O bruxo virara-se novamente para eles e chamara:



- Abraxas! Acompanhe o Sr. Snape e a sua sobrinha até a Câmara do Medo. Eles ficarão lá por vinte e quatro horas, não menos, entendeu?

O homem dera um passo à frente e assentira, os olhos brilhando em expectativa. Voldemort voltara a observar os dois.

- Desejo que tenham uma ótima estadia.

E se afastara.

Revivendo aquilo mentalmente, o corpo de Kevin sacudiu-se de tremor ao lembrar da Câmara do Medo, e ela abraçou mais forte o travesseiro de Severus de encontro a si. Era um lugar horrível, completamente escuro, encantado com feitiços que provocavam alucinações e pesadelos. Todos os ferimentos que sofressem dentro das armadilhas mentais eram passados também para o corpo.

Os dois haviam gritado muito naquelas vinte quatro horas, mas ninguém parecia ouvir. Quando finalmente saíram, tiveram que ser carregados para suas respectivas casas, pois estavam desacordados. Seus parentes nada comentaram, nem ofereceram ajuda de qualquer tipo. Severus enviou algumas de suas poções de cura para a amiga com a ajuda de Dorky.

Desde então, eles se tornaram unha e carne. Quando voltaram das férias de Natal para o colégio, os colegas de casa caçoaram do namoro. Kevin ainda parecia um menino na época, e sabia que Severus tinha ouvido provocações sobre ser gay no começo. Depois, entretanto, as pessoas pareceram aceitar e os deixaram em paz.

Severus nunca mais falara com os amigos das outras casas. Kevin sabia que o rapaz sentia falta das três garotas, mas encorajara-o a manter aquele comportamento. Sabia que o amigo amava a gêmea que tinha aulas de Dumbledore com ela, mais do que seria capaz de assumir para qualquer um. Manter-se distante dela era a melhor estratégia para mantê-la viva.

Theodora McFusty parecia uma sombra nos meses que se seguiram, mas logo se recuperara. Severus ignorara todos os esforços dela para retomar a amizade, inclusive saíra das aulas de Estudo dos Trouxas e, depois de um tempo, a loira finalmente entendera que não havia possibilidade de volta. Kevin torturava-a com notícias do rapaz, pois sabia que a garota correspondia aos sentimentos do amigo, enquanto, ao mesmo tempo, lhe dizia que ele não estava interessado nela.

Ela mesma vira-se apaixonada por alguém proibido e a quem também protegeria quanto mais longe ficasse. Mesmo assim, nada a impedira de provocar o coração de seu amado quando voltou para o sexto ano de Hogwarts com a cabeleira alongada por uma poção e o uniforme feminino. O resultado não só atingiu seu alvo, mas também boa parte dos outros garotos de Hogwarts.

Os mesmos colegas que caçoavam de Severus no começo por namorar "um menino", passaram a invejá-lo. Kevin adorava passear de mãos dadas com o amigo para provocar a ira daqueles que tanto haviam humilhado-a enquanto podiam. Agora ela era bonita, sexy e tinha uma posição privilegiada como futura espiã do Lorde das Trevas.

Em algum ponto da farsa, entretanto, o namoro tornara-se verdadeiro. Kevin não sabia dizer quando eles haviam resolvido consolar um ao outro pelos amores perdidos com uma dose de Uísque de Fogo do Velho Ogden e uns belos amassos, mas desde então as coisas estavam muito reais. Ela sorriu consigo mesmo ao pensar que já fazia quase seis anos desde então. Seis anos em que ela e Severus haviam aprendido o significado de uma verdadeira amizade, coisa que lhes fora negada pela maior parte da vida. Contavam apenas um com o outro, dividiam problemas e comemorações, e passaram a dividir a cama também.



O fato deles serem estranhamente compatíveis no aspecto sexual fora um bônus, uma recompensa por seus esforços. Apesar de ambos terem seus corações ligados a outras pessoas, quando estavam debaixo dos lençóis eram apenas eles dois. Haviam acordado que não levariam suas feridas emocionais para a cama, e aprenderam a respeitar um ao outro no processo.

Caminhou para o banheiro, onde tomou uma chuveirada rápida enquanto deixava os pensamentos correrem com a mesma velocidade da água que caía em seu corpo. Aquela casa fora um presente de Harry quando Severus fizera dezessete anos. Segundo o avô, um garoto só passa a ser homem quando assume suas próprias responsabilidades e constrói seu próprio lar.

Obviamente eram palavras vazias, mas eles aproveitaram o presente mesmo assim. Kevin passara a dormir mais noites com ele que na própria cama, na mansão Malfoy, escandalizando muitos dos membros da high society bruxa. Se ela ligava? Não dava a mínima!

Em algum ponto da sua transformação em mulher, Abraxas parecera fixar-se nela. O disfarce de menino a havia protegido da cobiça do homem por quase toda a adolescência, mas agora que ela era maior de idade, o homem estivera lhe dando muita atenção. Ela sabia que aquilo não significava coisa boa e mantivera os olhos muito abertos, mas mesmo assim, não conseguira escapar. Lucius havia se mudado depois de casar com Narcisa, e Etienne passava boa parte do dia fazendo compras. Abraxas aproveitara uma daquelas oportunidades para drogá-la e estuprá-la.

Quando ela recuperara a consciência, fugira para longe, nocauteando o bruxo no processo. Instintivamente correra para a casa de Severus, já escondida sob o Fidelius naquela época. O namorado a acolhera, dera-lhe poções calmantes e abraçara-a por toda a noite. Ela havia chorado muito, talvez pela primeira vez em mais de uma década, e vomitara seguidas vezes durante a madrugada. Ele não saíra do seu lado nem por um minuto.

Acordara no dia seguinte agarrada a ele, na cama deles, protegida e sentindo-se mais calma. Quando ele acordara, dera-lhe uma porção contraceptiva que impediria uma gravidez conseqüente do estupro e saíra da casa. Voltara no fim do dia, dizendo que o problema estava resolvido. Encorajou-a a comer algo e cozinhou um delicioso jantar para ambos.

Eles não fizeram nada naquela noite a não ser se abraçarem, e ela ficara imensamente grata por aquilo. Severus tinha uma aparência fria e distante normalmente, mas era um ser humano e, portanto, tinha um coração. Ela descobrira que ele podia ser carinhoso se sentisse necessidade ou vontade e sabia as palavras certas a dizer para ela. Sabia que ela não era nenhuma fraca, uma garota indefesa ou frágil; ela era exatamente o oposto disso, e foi desta forma que ele a tratou.

Ele conseguira tirá-la de um início de depressão devastador e mostrou-lhe um jornal que noticiava a morte de Abraxas devido a uma infecção de varíola de dragão. Ela lembrava-se dele dizendo que algumas das patas de dragão que coletara para uma poção estavam estragadas e que iria jogá-las fora. Ele jamais confessara o assassinato de Abraxas, mas ela não precisava que ele lhe dissesse nada.

Na semana seguinte, ela estava deserdada e mudando-se para morar com ele. O avô de Severus, que antes quisera muito que o neto casasse com ela para trazer mais dinheiro para os cofres da família, passou a ignorá-la. O Lorde das Trevas, entretanto, parecia encantado com toda a situação, e ciente de que Severus era o culpado pela doença de Abraxas. Não os castigara daquela vez. Na verdade, recebera-os muito alegre no próximo encontro de Comensais.

Aquilo acontecera há quatro anos. Voltando ao presente, Kevin sorriu ao enrolar-se num roupão felpudo e voltar para o quarto. Ele a esperava, sentado na cama e segurando uma caneca de chocolate quente, que ela amava. Aqueles pequenos detalhes diziam muito sobre os 

sentimentos dele por ela. Vestindo uma camisola e juntando-se a ele, sorveu um gole do líquido e sentiu-se repleta de paz.

Aquele incidente os unira mais do que os votos foram capazes. Ela conhecia um lado dele que ninguém mais conhecia, uma parte mais suave de um homem calejado pelas intempéries da vida. Ele sabia que ela podia tornar-se uma companheira incrível quando estava de bom humor. Passaram a dividir muito mais que uma cama.

Se não podia ser amor, já que seus corações já estavam ocupados, era algo bem próximo.

Aconchegou-se a ele e sorriu quando ele passou um braço pelos seus ombros.

- Como foi a viagem? – ele perguntou.

- Boa. Resolvi tudo que precisava. E por aqui, como as coisas estão? – ela perguntou, deslizando a mão livre pelos cabelos dele.

- Razoáveis, eu acho – ele deu de ombros.

- Você me disse que tentaria se encontrar com Dumbledore para tentar um emprego alguns meses atrás e depois não tocou mais no assunto.

Ele assentiu, pensativo. Precisava de um emprego enquanto terminava sua graduação em Poções e, já que iria para Hogwarts de qualquer forma quando Slughorn se aposentasse no próximo ano, tentaria o cargo para professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Era uma maneira de se acostumar com Hogwarts e ganhar mais tempo ao lado de Dumbledore para descobrir os segredos do velho. Corria um boato de que o cargo era amaldiçoado e que ninguém passava mais de um ano nele, mas doze meses era tudo que ele precisava.

- Já fiz a entrevista, mas não terminou tão bem quanto eu esperava – ele comentou, uma mão distraidamente afagando os cabelos dela também.

Lembrou-se da profecia que ouvira da boca da mulher maluca que Dumbledore também entrevistara e em como o Lorde das Trevas ficara irado com aquelas palavras. Alguém diria logo que amanhecesse quais eram as crianças nascidas nos últimos dois dias. Assim, poderiam matá-la e garantir a vitória do lorde.

É o que eu quero - Severus pensou consigo mesmo. Depois de tantos anos envolvido nas atividades do Partido das Trevas, ele achava difícil ter alguma chance de mudar de opinião. O fato de a mulher ao seu lado ter uma lealdade completamente diferente da sua nunca passara pela sua cabeça.

- Ele não vai contratar você? – ela perguntou, preocupada, largando a caneca agora vazia na mesinha de cabeceira e abraçando-o. Queria que ele entrasse em Hogwarts para ver que as coisas podiam ser diferentes.

- Provavelmente não – ele resmungou, lembrando de como o barman o encontrara enquanto espiava a conversa. – Podemos mudar de assunto? Não quero falar sobre isso.

Vendo o cenho franzido dele, ela sorriu e sentou-se em seu colo.

- Não se preocupe, Sev. Tenho uma missão para você – murmurou, colocando as mãos dele em sua cintura e passando os próprios braços pelo pescoço dele.

- Ah, é? – ele apertou o abraço ao redor da cintura dela, puxando-a para mais perto e fazendo com que seus narizes se tocassem. – E o que seria? – perguntou, com a voz rouca.



Ela sabia que ele estava pensando em algo bem mais sexual do que o que tinha em mente. Não conseguiu evitar o riso.

- Quero uma massagem, querido – murmurou, dengosa, encostando-se a ele.

- Massagem? – ele exclamou, rabugento, mas logo voltou a sorrir. – Só se você estiver nua.

Rindo novamente, ela o beijou e deixou que ele tirasse sua camisola com um vagar tremendamente excitante.

É, o que quer que fosse o que eles tinham, era algo muito próximo de amor.