Heart 2 heart

-nono capítulo-

Hermione torceu as mãos enquanto olhava pela milionésima vez na direção de Harry Potter. Podia sentir a angústia do moreno, mas o que dizer num momento daqueles? Palavras pareceriam supérfluas, gestos pareceriam vazios...

Ela e Pansy estavam na enfermaria, tanto para dar apoio ao Gryffindor, quanto para ter notícias sobre Draco e o bebê. E a falta de novidades era o que mais preocupava. Madame Pomfrey, Dumbledore e Snape estavam trancados na enfermaria a quase quatro horas... Era muito tempo.

E durante as primeiras horas, Harry andara de um lado para o outro, os braços cruzados a frente do corpo, os olhos verdes perdidos em um ponto qualquer, sem se focar em nada. O rosto anguloso estava tenso, contraído.

Apenas há pouco tempo o Garoto Que Viveu parecera ter se cansado da marcha e sentara-se encolhido o mais longe possível de Hermione e Pansy. A Slytherin também parecia amuada. Mexia-se desconfortável e dava longos olhares ao moreno.

Hermione podia sentir a tensão da amiga.

Tensão, aliás, que se mesclava com a da sala de espera. Durante todo aquele tempo, nenhum dos três pronunciou uma única palavra.

Foi por volta da hora do almoço que a porta se abriu, e Ron Weasley enfiou a cabeça pelo vão, espiando de um lado para o outro. Hermione sentiu o coração disparar quando o namorado entrou e caminhou até sentar-se ao lado dela.

- Como você está? - o ruivo perguntou no tom mais baixo que conseguiu.

Pansy que estava próxima deixou escapar um muxoxo e se afastou um pouco, não queria dar na telha que tentava escutar a conversa do casal. Ron e Hermione olharam pra ela, mas nenhum dos dois disse nada.

- Não sou eu quem está em perigo, Ron. - Hermione respondeu com voz igualmente baixa. - Harry está sofrendo...

Dessa vez Ron olhou para o amigo. Harry nem parecia notá-lo ali.

- Mione... - continuou sondando o terreno - Estão todos comentando sobre essa... Coisa...

Cansada, Hermione fechou os olhos e falou baixinho: - Não é uma coisa, Ronald. É o filho do seu melhor amigo. Se não está preparado para aceitar isso, não deve ficar aqui.

Ron desviou os olhos e deixou os ombros caírem:

- Pensei que se Malfoy... Perdesse a criança, tudo pudesse voltar a ser como antes...

- Elas nunca voltarão. Precisa entender que Harry seguiu por um caminho, Ron. Ele fez a escolha dele, e se você for mesmo uma pessoa bacana, como eu acho que é, vai respeitar.

- É... Nunca mais será como antes. Não sei se sou tão bacana assim Mione. Talvez seja destino que eu me afaste... Malfoy pode me substituir muito bem.

Mione respirou fundo: - Quanto drama, Ron. Eventualmente teríamos que crescer. A vida não é apenas se divertir, quebrar regras e se safar. Não pode realmente desejar isso pra si.

- Mas... - a voz de Ron se elevou um pouco, porém ele voltou a abaixar o tom - Porque Draco Malfoy? Porque ele tinha que engravidar e estragar a vida de Harry assim?

- Não acho que foi planejado. Não tenho todos os detalhes, mas pensa, Ronald: acredita que Malfoy ia engravidar e correr todo esse risco, apenas para arruinar a vida de Harry? Não faz sentido.

- É tudo um plano dos Comensais. Querem deixar Harry vulnerável...

- Mas que porra você está dizendo, seu pobretão? - a voz exaltada de Pansy assustou os dois que conversavam.

Ron torceu os lábios e ficou em pé: - Não é da sua conta.

Pansy voltou os olhos negros brilhantes para Hermione e indagou:

- Pensa como ele, Granger? Acha mesmo que Draco faria uma coisa dessas?

Hermione abriu e fechou a boca. Harry saiu do estado de letargia e começou a acompanhar a troca de palavras exaltadas.

- Mione, depois a gente continua conversando.

- Fuja, Weasel. Fuja do que não pode entender. Granger e eu sabemos o que está envolvido aqui, e que você não pode destruir com sua maldita ignorância!

- Pansy... - Hermione alertou. Não era o momento de falar sobre aquilo. Mas Pansy não parecia disposta a parar, agora que começara.

Assim que Ron saiu dali, sem se despedir dos amigos, a Slytherin voltou-se para Harry e continuou destilando a raiva que tinha prendido no peito:

- É tão fácil ficar aí, com essa cara de Tudo-De-Ruim-Me-Acontece, não é Potter? Grande Salazar! Tenho vontade de esganá-lo!

Harry deu de ombros, sem querer se abalar pela explosão:

- Eu estava de olho nele, Parkinson. Tentei evitar isso o máximo que pude! Mas não posso prever o futuro...

- Claro... - Pansy começou a andar de um lado para o outro - Se estava tão preocupado assim, porque não se vinculou ao Draco? Porque não o protegeu de todas as formas possíveis?

Engolindo em seco, Harry virou-se para a amiga:

- Hermione, se eu tivesse me vinculado a Draco teria evitado esse aborto?

A bruxa balançou a cabeça com força:

- Não sei, Harry. Acho que na verdade não do jeito que você está pensando. Não há nada que proteja o gestante e a criança durante uma gravidez masculina, a não ser claro, quando é iniciada através de poções. Como a de Draco ocorreu naturalmente, ele não podia beber a poção. Tudo teve que ser dessa maneira.

- Vê, Parkinson? Eu não controlo o que acontece!

A Slytherin parou de andar e olhou de modo furioso para Harry:

- Entende alguma coisa de vínculos, Potter?

Mais uma vez o Garoto Que Viveu deu de ombros: - Um dos tipos de vínculo é o casamento bruxo...

- Sabe tão pouco? Acho que Granger devia ter te orientado melhor... Quando dois bruxos se vinculam, começam a dividir muitas coisas. A magia natural de ambos fica mais forte. Talvez o corpo de Draco ficasse mais resistente...

Harry arregalou os olhos e Hermione gemeu. Aquele não era o momento de revelações tão fortes. Harry não podia ouvir aquilo numa situação tão delicada! Mas Pansy estava impiedosa:

- Você seria o responsável por Draco e pelo bebê. Sua magia traria estabilidade pros dois! Céus, podia ter mudado muita coisa!

- E por que ninguém me disse isso antes?! - finalmente o Gryffindor explodiu - Como eu podia adivinhar?

- Hermione tentou te alertar, Potter. Várias vezes. E você nunca lhe deu ouvidos! - a Gryffindor desviou os olhos ao ouvir o que Pansy dizia. Sabia que era verdade, mas não podia jogar na cara de Harry - E o que você esperava? Que aquele amante de Sangues Ruins o incentivasse? Ele que acabou de sair daqui decepcionado porque Draco ainda não perdeu o bebê? Ou que Draco tomasse a iniciativa e propusesse o vínculo? Não o conhece o bastante, Potter.

Harry ficou em pé num salto, abriu e fechou as mãos com força e teve que se segurar para não deixar seu gênio escapar ao seu controle.

- Quer que eu me sinta culpado, Parkinson? Não vai conseguir.

A morena jogou a cabeça pra trás e gargalhou: - Acha que eu estava tentando fazer você se sentir culpado, Potty? Ah, não. Não... - ela deu um passo à frente e passou a mão pelo cabelo muito negro - Agora eu vou fazê-lo se sentir culpado...

- Pansy... - Hermione alertou, mas nenhum dos dois a ouviu.

- Quer mesmo se sentir culpado? Então pergunte a Granger o que é mais importante para que ocorra a gravidez masculina de forma natural.

Lançando um olhar desafiador para o moreno, Pansy saiu da enfermaria.

Harry trincou os dentes e voltou-se para a amiga:

- Mione...

Ao ouvir seu nome a garota estremeceu e encolheu-se:

- Harry... Agora não...

- Do que a Parkinson estava falando? Você começou a me contar na hora do café da manhã...

Hermione pensou no pesado livro, que esquecera na mesa quando toda a confusão ocorrera. Madame Pince lhe daria uma senhora bronca caso algo ocorresse com o livro raro...

- MIONE! - o chamado de Harry a tirou dos devaneios.

Respirando fundo, e encarando Harry nos olhos, ela se deu por vencida:

- Quer mesmo saber, Harry? Devia confiar em mim, quando digo que não é o momento de lhe revelar...

- Eu preciso saber. Depois do que Parkinson insinuou...

- Ela pode estar certa, Harry...

- É tão terrível assim? - a voz do moreno e sua postura revelavam a incredulidade e a surpresa que o dominavam.

- Não! É lindo... É puro... É fantástico...

- Do que está falando...?

- É raro... Um presente fantástico, Harry. Você não encontrará nada igual, nunca mais, mesmo que procure até o fim de seus dias...

A curiosidade brilhou nas íris verdes: - E o que é, Mione? O que pode ser tão bom, como você diz?

- Amor, Harry. Simplesmente amor... - anunciou a Gryffindor com um ar sonhador e um sorriso afável nos lábios.

Se Voldemort em pessoa aparatasse na sala de espera naquele momento, e começasse a dançar a Makarena, não teria deixado Harry Potter tão estupefato.

- O que...?

- Amor. Quando duas pessoas se amam, a magia natural adapta o corpo delas para que ocorra a fecundação. Somente o amor é poderoso o bastante para transformar o corpo de um homem e permitir que gere uma criança. Sempre foi o amor. Esse é o segredo.

- Amor...? Malfoy me ama...?

- Com toda certeza. Nunca duvide que o amor é uma força poderosa. A prova maior disso está lutando pela vida nesse exato segundo.

- Mione...

- Não compreendo todos os mistérios que envolvem essa descoberta, Harry. Nem o bruxo que escreveu o livro. Mas ele tinha certeza disso. Sua teoria foi testada de muitas formas na época, e aceita como real, como a que melhor explica o que acontece.

- Por isso é tão raro...?

- Hum-hum. Sexo somente nunca será o bastante para que ocorra a fecundação. Pra isso é preciso que o amor funcione como intermediário... Sinto muito, Harry...

O garoto seguiu de fastos até que suas pernas tocaram uma das poltronas e ele sentou-se.

- Sente muito? Sente muito, Hermione?

- Sim. Se eu tivesse descoberto isso antes, vocês teriam se vinculado e...

- Não sinta muito por me dar uma das notícias mais maravilhosas que eu poderia receber hoje.

A Gryffindor piscou confusa: - O que? Não está se sentindo culpado?

Harry balançou a cabeça:

- Não, me sinto livre! Sabe porque não me vinculei a Draco? Porque não sabia quais eram os reais sentimentos dele. Mesmo quando nos acertamos e eu disse o que sentia, ele não falou nada. Eu estava inseguro.

Hermione sorriu de leve:

- Malfoy não me parece uma pessoa que fica se declarando por qualquer motivo...

- Não é qualquer motivo! É um bebê! Nosso filho... Eu não tinha certeza do que Draco podia querer, ele nunca deu a entender que um vínculo o faria feliz. Tudo o que ele queria era que eu assumisse o filho. Nunca pensei que ele aceitaria passar a vida ao meu lado... Céus!

- E o que você vai fazer?

- Me vincular a ele, claro! Assim que ele sair dessa. - vendo que Mione ia falar alguma coisa, Harry a cortou - Ele vai sair dessa, tenho certeza. Ele e o bebê.

- Você o conhece melhor do que eu, Harry. Se você diz.

Mais calmo Harry recostou-se na poltrona:

- O que Ron queria? Vocês brigaram de novo, não foi?

- Brigamos... - Mione suspirou triste - Ele não consegue entender que você tenha se apaixonado por Malfoy. Ele queria que tudo fosse como sempre.

- E você, Hermione, o que pensa de verdade?

A Gryffindor inclinou a cabeça e por longos minutos apenas refletiu. Depois encarou Harry com os olhos brilhando:

- Quando comecei a desconfiar, confesso que fiquei chocada. E custei para acreditar... Mas à medida que os vigiava, comecei a perceber muitas coisas, Harry. Os olhares que você dava pra ele, eram sempre tão gentis, de um jeito que nunca olhava pra mais ninguém...

O Garoto Que Viveu corou sem jeito. Passou a mão pelo cabelo tentando disfarçar o incômodo, mas não conseguiu camuflar.

- E Malfoy também tinha essas miradas intensas em sua direção. Vocês me parecem como opostos exatos, e ao mesmo tempo são tão parecidos... Cabeças-duras, orgulhosos e extremos. Fez sentindo imaginá-los juntos. Vocês se completam de um jeito estranho. Você é a coragem que Malfoy não tem. Malfoy é a constância que você precisa...

- Obrigado Hermione.

- Não me agradeça. Eu não tenho direito algum de julgar suas escolhas. Sou sua amiga, e apóio o que decidir, desde que isso não o machuque. Sempre vou alertá-lo para as coisas perigosas, mas não creio que amar e conseguir esse milagre de construir uma família seja errado.

- Acho que posso ser feliz com Draco, e agora sei que posso fazê-lo feliz.

Mione riu: - Sempre terá o meu apoio, Harry. E... Sabe que Pansy e eu estamos ficando amigas?

- Sério? Como você a suporta?

- Do mesmo jeito que você suporta o Malfoy. Admita, Harry Potter, não é fácil, mas você gosta do desafio!

- Hum... Você também abraçou esse... Desafio? É, Slytherins não são fáceis. Tem momentos em que quero enforcar Draco, porque às vezes ele é teimoso, mimado e egoísta demais pro próprio bem.

- Isso não é apenas porque ele é um Slytherin! Existem pessoas mimadas em todos os lugares. E egoístas. E teimosas... Sempre será assim ao conviver intimamente com outra pessoa. Não pode controlar as ações ou pensamentos...

- Você diz como se tivesse muita experiência...

- Que nada! - a garota fez um gesto de pouco caso - Eu digo isso por Ron. Queria que ele fosse menos cruel. Queria que ele entendesse o quanto a vida do seu filho é importante, Harry... É um milagre! Mas não posso fazê-lo aceitar algo que o assusta.

- Eu conversarei com ele. Ron terá que me ouvir dessa vez.

Hermione sorriu e recostou-se no sofá.

- Como será que Malfoy está?

Harry passou a mão pelos cabelos e esfregou o rosto, parecendo muito cansado.

- Ele está bem. Eu sei que está.

- Harry... Meu amigo...

- Não, Mione. É sério. Eu estava aqui, morrendo de medo de perder Draco logo agora que percebi que gosto muito dele. E a idéia de que ele pode abortar... É pior que a Cruciatus que Voldemort me lançou... Dói, me amedronta! Esse tempo todo pensei em opções terríveis, sobre ter que escolher entre a vida de Draco e do bebê... Esse tipo de coisa! Eu nunca poderia fazer uma coisa dessas...

- Eu sinto tanto, Harry...

- Mas agora, com o que você me disse, Hermione! Você renovou minhas esperanças... Se o amor entre Draco e eu foi forte o bastante para ele engravidar, então com certeza será forte pra manter aqueles dois vivos. Meu amor será a força para que nenhum deles... Nenhum deles...

O Gryffindor calou-se, emocionado demais para encontrar as palavras. Hermione assentiu, maravilhosamente surpreendida por descobrir a extensão dos sentimentos de Harry por Draco Malfoy.

Quem diria... Quem diria que aquele moleque mimado, arrogante e egoísta tomaria um lugar tão importante na vida de Harry Potter? E pelo rumo que os acontecimentos seguiam, quem diria que o contrário também seria verdadeiro? Que Harry teria um lugar de destaque, se não o mais importante, no coração de Malfoy?

- Tem razão, Harry. Não há nada com o que se preocupar. Acredito nessa força que você diz que tem o seu sentimento.

Harry fechou os olhos e respirou tão fundo quanto conseguiu: - Isso tem que ser o suficiente.

Os dois amigos silenciaram e continuaram na longa vigília.

HPDM

Pansy só retornou a sala de espera ao final do dia. Ficou levemente surpresa ao encontrar Potter com aquele ar de alegre esperança. Parecia que um peso fora removido dos ombros do Garoto Que Viveu...

Com as sobrancelhas franzidas olhou para Hermione. Tinha certeza de que a Gryffindor era responsável pelo bom humor do moreno.

Hermione sorriu para a amiga de curta data e indicou que ela devia sentar-se ao seu lado. Pansy revirou os olhos, mas cedeu. Gryffindors... Evidentemente nunca iria entendê-los.

Por um segundo se perguntou se deveria dar um relatório da situação para Hermione... No último segundo decidiu que não. A garota estava feliz no momento, deveria deixar as preocupações de lado, o quanto pudesse, claro.

Pansy não diria ainda que o clima em Slytherin era dos mais tensos. Ela não se sentira nem um pouco à vontade entre os seus, pois os estudantes não ignoravam mais o fato de que o líder deles engravidara secretamente de Harry Potter, o mais odiado pela casa da Serpente. Eles viam aquilo como um motim. Uma traição.

E Pansy tivera que se precaver, alertada pelos olhares hostis que recebia. A partir daquele dia seria vista como cúmplice de Draco. Entendia que os ex-colegas a teriam sempre como a alcoviteira que amoitara o relacionamento entre O Garoto Que Viveu e o Príncipe Slytherin.

Isso era outra traição na opinião dos alunos da casa fundada por Salazar...

Pelo que Pansy sondara, a opinião estava muito dividida entre as outras casas. Ouvira comentários extremamente desagradáveis, porém também ouvira pessoas que apoiavam, que eram a favor e achavam extremamente romântico o que estava acontecendo bem debaixo do nariz de todos.

De qualquer modo, teriam que dobrar os cuidados e as precauções. Antes podiam contar com o confortável segredo sobre o estado de Draco. Agora era do conhecimento de toda a escola que o loiro carregava um filho de Potter...

Adeus sigilo! Até nunca mais camuflagem, segurança!

Potter teria de ficar com os quatro olhos bem abertos. Grudados em Draco. Claro que ele teria Pansy para ajudar dentro de Slytherin. A garota desejava de todo coração que Draco tivesse aquele bebê. Porque ele era muito mais corajoso do que as pessoas acreditavam.

E tinha uma força de vontade maior do que deixava transparecer.

Pansy perdera o próprio filho e era o suficiente. Bastava da morte de inocentes.

Ela sabia ser a grande culpada pelo segredo ter sido revelado. Mas a verdade é que ver Draco sangrando bem ao seu lado a fizera sentir de volta sua própria dor. Nunca esqueceria aquele dia, quando terminara de conjurar a Maldição Equivalente. Mesmo que vivesse mil vidas. Haveria sempre a dor. A sensação de mãos retorcendo seu útero. A certeza dilacerante de que seu bebê estava pagando por sua imprudência, por sua atitude impensada e cega.

Descontrolara-se sim, tão somente porque não agüentaria reviver aquele pesadelo de novo. Porque não queria que Draco sentisse a tristeza que ela sentira. O loiro não merecia. Ele estava jogando pelas regras, apesar de tudo. Arriscava muito para levar a termo àquela gestação. Pansy o respeitava por isso.

E apesar de arrependida por ter sido tão escandalosa, a Slytherin não se desesperava de todo. Draco não se encontrava sozinho como ela se encontrara. Agora o loiro podia contar com, além da Slytherin, Potter e, de um jeito muito surpreendente, com Granger também...

O pensamento fez Pansy suspirar e olhar a Gryffindor com afáveis olhos negros.

- Não quer descansar um pouco, Granger? - perguntou em voz baixa.

Tanto Hermione quanto Potter haviam passado o dia todo ali dentro. Tinham vindo antes do café da manhã terminar... Perderam o almoço...

Os dois pareciam extremamente cansados, mas não arredaram pé nem um segundo. Pansy tinha que dar o braço a torcer e concordar que eles possuíam garra. E quando se propunham a fazer algo, realmente faziam. Mesmo que se arrebentassem por inteiro no processo. Ela só não poderia dizer até que ponto aquilo era uma honorável qualidade ou um defeito temerário...

A Gryffindor recusou a oferta preocupada. Estava cansada, sim, mas a simples idéia de sair dali antes de ter qualquer notícia sobre Draco e o bebê era desesperadora. Ela só relaxaria e descansaria tranqüilamente depois de ter a confirmação de que ambos estavam bem. Ambos.

- Depois eu descansarei bastante. Prometo.

- Quer que eu vá buscar algo pra você comer?

Surpresa diante da oferta, Mione sorriu: - Obrigada. Apenas fique aqui com a gente. Tenho certeza de que Draco pode sentir sua presença. Ele ficará feliz por você estar aqui... Ei, não ria de mim!

Pansy tentou parar de rir: - Você falou como uma maldita Hufflepuff agora. Foi meio assustador! Nunca mais faça isso, Granger.

Hermione encarou Pansy por alguns segundos: - Dizer o que você sente não é errado. Nem o que pensa. Mesmo que outras pessoas riam...

Pansy engoliu em seco e quebrou o contato visual.

- Não fui criada assim, Granger. Aprendi as coisas de forma diferente. Não ache que pode me mudar a essa altura do campeonato.

- Não tenho tal pretensão. Eu apenas abracei o desafio...

Pansy não entendeu nada e não gostou nem um pouco quando Potter engasgou do outro lado da sala de espera.

Os olhos negros relancearam de um para o outro e ela recostou-se mal humorada, resmungando desaforos. Hermione riu, e Harry franziu as sobrancelhas, achando aquilo meio estranho.

A conversa entre os três morreu, e não lhes restou opção à não ser esperar.

Foi apenas muitas horas depois que a porta da enfermaria se abriu. Imediatamente os três ansiosos alunos se colocaram em pé, aguardando que alguém saísse de lá de dentro.

Foi Madame Pomfrey.

A senhora lançou um olhar sério para os três e meneou a cabeça.

- Sabia que estariam aqui. Inconseqüentes.

Hermione não pôde agüentar mais o suspense:

- Madame Pomfrey... Como eles estão?

A enfermeira desviou os olhos para o outro lado e respirou muito fundo. Imediatamente a tensão cresceu entre os garotos. Ela parecia cansada, exausta na verdade. E naquele instante demonstrava todos os anos que levava nas costas. Era uma mulher velha saindo de uma dura batalha.

- Nunca vi um caso tão... Complicado... O Diretor, Severus e eu usamos todo nosso poder, todo o nosso conhecimento e mesmo assim...

Harry ficou lívido, abaixou a cabeça e seus ombros caíram. De repente foi muito difícil respirar. Ele implorou silenciosamente para que Pomfrey não pronunciasse as palavras que tanto temia. Hermione levou as mãos ao peito e arfou, enquanto Pansy fechava os olhos com força. Não.

- Mesmo assim quase os perdemos...

A Slytherin arregalou os olhos. Hermione começou a chorar sem poder (ou querer) se controlar. Harry Potter levantou a cabeça. O coração estava disparado:

- Que disse, Madame Pomfrey?

- Disse que quase os perdemos. O bebê vai ser muito poderoso, ele apenas começou a desenvolver a magia natural, mas já é incrível, senhor Potter. Por pouco não chamamos um Curandeiro de St. Mungus... Foi apenas a tarde que, sem explicação alguma, a magia de ambos começou a se estabilizar, contra todas as perspectivas...

- Eles vão ficar bem? - Harry perguntou, como se ainda não tivesse entendido o que Papoula dizia.

A enfermeira sorriu: - Sim, senhor Potter. Ambos vão ficar muito bem.

Harry vibrou e gritou de alegria. Sua felicidade foi tanta que ele respirou fundo duas vezes, o máximo que pôde, tentando extravasar toda a tensão.

Hermione começou a soluçar mais e mais alto. Toda a angústia que sentira saía de seu corpo através das lágrimas... Ela achava que podia chorar para sempre, tamanha era a sua alegria.

Vendo a reação da Gryffindor, Pansy balançou a cabeça. Ela própria sentia-se tão feliz que poderia deixar outras pessoas verem seu lado mais sentimental. Ela rodeou Hermione e a estreitou entre os braços.

- Não tenho os doces, mas aquele abraço não seria de todo mal agora, não é, Granger?

Hermione balançou a cabeça e correspondeu ao abraço fortemente, feliz por algo dar finalmente certo.

- Posso vê-lo?

Madame Pomfrey meneou a cabeça:

- Ainda não. A magia do senhor Malfoy e da criança estão estáveis, mas feitiços poderosos e poções fortes foram usados naquela sala hoje, o dia todo. Não podem entrar até que eliminemos toda a contaminação.

- Isso não é perigoso para Draco?

A enfermeira se enfureceu:

- Acha que eu faria algo perigoso para um de meus alunos, senhor Potter?

- Não, me desculpe - Harry ficou realmente arrependido por sua pergunta obtusa. Era apenas a preocupação falando por ele.

- Severus e o diretor passarão a noite aqui na enfermaria, me ajudando a descontaminar o lugar e a vigiar o senhor Malfoy apenas por precaução. Vá para seu dormitório, senhor Potter, e repouse. E vocês duas, vão descansar também.

- Mas...

- Não tema, senhor Potter. A magia finalmente se estabilizou. O senhor Malfoy conseguiu desenvolver uma proteção mágica que o protegerá da magia da criança. Agora que o pior passou, nada pode dar errado.

Harry respirou fundo. Não podia acreditar que o pior fora superado.

- Obrigado Madame Pomfrey.

- Não me agradeça por fazer o meu dever. Vão dormir. Não ajudam em nada se matando de exaustão. Amanhã é um novo dia, senhores.

Os três se despediram e se foram. Pansy separou-se dos Gryffindors e tomou a direção das masmorras, debochando ao ouvir a despedida preocupada de Hermione, recomendando que tomasse cuidado.

Felizmente a Sala Comunal de Gryffindor estava vazia. Todos os estudantes haviam ido dormir, graças à hora avançada. Já era tarde. Porém nem Harry nem Hermione estavam dispostos a dar explicações naquele momento.

- Boa noite, Mione. Obrigado por tudo.

Mione sorriu: - Boa noite, amigo.

Depois de tomar um longo banho, Harry deixou-se cair na cama, exausto por tudo o que passara naquele dia tão infernalmente longo. Não dissera para Hermione, mas realmente se desesperara a certo ponto, achando que novamente perderia pessoas que aprendera a amar.

Ele não suportaria perder Draco ou o filho de ambos. Em apenas cinco meses, aqueles dois se tornaram o que tinha de mais precioso na vida, eram a sua família. Como era bom poder pensar algo assim! Como era bom saber que estavam bem, e a salvo.

A noite do Garoto Que Viveu foi recheada de sonhos bons, pela primeira vez em muito tempo, onde ele via a si próprio e a Draco cuidando de um bebê, que Harry não podia saber se era menina ou menino. Sabia apenas que era saudável, e perfeito. Nada mais importava, a não ser os três, felizes naquela casa de campo, afastados de todos... Felizes para sempre.

Quando Harry acordou, ainda tinha aquele sentimento em seu coração. Levantou-se antes de todos, trocou de roupa, passou pelo banheiro e em seguida voou até a ala Hospitalar. Tinha que ver Draco e certificar-se de como ele passara a noite. E que estava tudo bem com a criança.

Imaginava-se dando a notícia de que se vinculariam de mil jeitos diferentes, e Draco reagindo de mil formas diferentes. Mas em todas, o final era o mesmo: os três estariam bem. E juntos para sempre.

Assim que chegou a enfermaria, tentou abrir a porta que dava acesso à sala de espera, mas a mesma estava trancada. Estranho. A Ala Hospitalar nunca ficava trancada.

- Madame Pomfrey! Madame Pomfrey! Sou eu, Harry Potter!

Poucos minutos depois do chamado a porta se abriu. Parecia que Papoula esperava por sua visita e a mulher parecia ainda mais cansada do que na noite anterior. Os olhos vermelhos indicavam que havia chorado bastante...

Subitamente apavorado Harry deu um passo para trás.

- Madame Pomfrey...

- Tanto trabalho... Grande Merlin... Tanto trabalho - ela lamuriou-se. Novas lágrimas desceram pelo rosto exausto - Sinto muito, senhor Potter. Não pode entrar.

- Que aconteceu? Draco... Ele...? QUERO VÊ-LO!!

- Sinto muito. O senhor Lucius Malfoy acabou de chegar. E ele proibiu todas as visitas... - Papoula demonstrava grande piedade no olhar cansado - Proibiu sobretudo você, senhor Potter.


Harry & Draco

4ever


N/A: O conceito usado nesse capítulo, com relação ao amor ser o fator importante para a gravidez masculina não me pertence. Pertence a Chris Ann W., criadora de "Conseqüências daquela noite" (link no meu profile). Eu apenas peguei a idéia emprestada, depois ela me autorizou. Valeu pelo empréstimo, Chris.

N/A02: A capa de Gold está on.


Agradecimento especial ao Srto Thales. Muito obrigado por gostar tanto dessa história!


Pra quem revisou e deixou review, "DOMO ARIGATOU!": FlaviaSK, Fabrielle, Bibis Black, Nandda, Tixa-chan, Tety Potter-Malfoy, Moony Ju, Dryade, Mira-chan, Bella Potter Malfoy, Tonks Black2, Scheila Potter Malfoy, Tata C. Evans, Condensa Oluha, Simca-chan, Lover44, Ainsley Haynes, Ge Black, Miyu Amamyia, Carolzita Malfoy, Fael Angel, Nicolle Snape, Karla Malfoy, Hin's, Subaku no Naah, Aleera Black, Srto Thales, Hanna Snape, Lady Anúbis, Nyappy, Makie, XI Sant'Ana, La Francaise e IamAGreekleaf.