Capítulo X

A hierarquia Johanson

Se eu achava que a mansão do tio Hector era considerada tradicionalmente aristocrática, isso é porque não me lembrava muito bem da casa dos meus avós, Peter e Amanda. Devia ter o triplo ou o quádruplo do tamanho, e era ainda mais escondida, pois eu não fazia idéia em que parte do país estávamos. Descemos um a um do carro, que já estava estrategicamente parado a porta, pois o jardim de entrada era composto por uma orla perfeita, que em forma de estrada dava passagem aos que vinham por transporte terrestre se encontrarem. A casa era incrivelmente alta, e eu me perguntei se havia andar além dos cinco visíveis, uma vez que a mansão rompia as nuvens no céu sempre nublado do Reino Unido. Era feito de pedra, assim como a de tio Hector, mas parecia incrivelmente mais velha, como aquelas mansões em que se ouve falar quando se esta lendo sobre a história do país. Segundo o que foi nos dito por tio Hector, no caminho, aquela mansão estava a mais de centenas de anos na família. Pela primeira vez percebi que minha tia, Lexie, não parecia estar tão confortável, segurava em uma das mãos a mão do marido, e na outra a de seu filho caçula, Pedro, que ainda mais naquelas vestes, era uma versão miniatura de Hector. Eu estava entre Callie e Pandora, e permaneci em silencio, mesmo quando fomos recebidos pelo elfo mais velho que eu já vira em toda minha vida. Era mais enrugado que o normal, os olhos, cor de amêndoa pareciam estar sempre baixos, como se viesse cansado, e o nariz, enorme, como a maioria dos elfos sempre escorreria. A não ser por um pedaço de pano de prato que ele usava como tanga, estava nu, e me perguntei se elfos não sentiam frio, uma vez que naquele morro ventava mais do que o normal. Entramos após a breve recepção do elfo, diferente do que eu era acostumada, quando visitava meus tios, meu avô não foi nos receber na porta. Seguimos por um longo corredor, composto por quadros e mais quadros vivos, com integrantes da família, a maioria que eu só conhecera de nome, ate que chegamos em uma ampla sala. Diferente do corredor, estava mais aquecida, graças a lareira onde a madeira queimava impiedosamente. Poltronas de veludo e muito bem estofadas compunham a sala, junto com mais alguns pares de sofá, localizei ali, contando brevemente, mais ou menos umas trinta pessoas, entre tios, primos de segundo grau, primos, avós, tios avós e tudo mais, com certeza era a maior convenção da família que eu já estivera.

- Agora com Hector aqui, estamos completos. – Um senhor, de mais ou menos cinqüenta anos, confortavelmente sentado na cadeira se pronunciou. Era tão alto quanto era magro, a barba, perfeitamente aparada, se misturava entre fios escuros e fios brancos. Os olhos castanhos esverdeados ficavam por trás de óculos meia lua, e sua feição séria e gélida parecia nunca se abater, sempre com a ausência de emoção. Trajava um terno risca de giz, com uma gravata borboleta vermelha, e em uma das mãos, apesar de estar sentado, trazia uma bengala de cascalho, onde na ponta se faia uma perfeita cauda de serpente esculpida que se enrolava por toda a extensão da bengala. Ao seu lado, numa poltrona tão igual, estava uma senha, parecia um pouco mais nova, os cabelos loiros e ondulados caíam sobre os ombros e os olhos azuis eram curiosos, e varriam toda a sala, percebi que pararam curiosamente em Lexie, torceu brevemente o nariz e a voz rabugenta e nada simpática falou.

- Traidor...- Seus olhos brevemente foram para Hector, mas logo voltaram para a mulher, que pareceu apertar a mão do marido com mais rigidez, ficando repentinamente mais tensa do que já estava. – Traidor, como ousa a trazer esse nojo para cá?- A voz agora era dramática. – Mate sua própria mãe de desgosto...e...

Mas tio Hector a interrompeu, bravamente.

- Não permito que fale assim de minha esposa. Alexandra Darnell é tão Johanson, quanto qualquer um nesta sala. Fizeram questão de minha presença, aqui estou. Posso me retirar se Lexie não é bem vinda...- Ele tinha voz firme, mas tão fria quanto a de qualquer outro Johanson que se prezava ali dentro.

- A trouxa fica..- Disse Peter de repente, criando alguns múrmuros entre os familiares reunidos em volta da lareira, mas o olhar mais espantado era o de sua esposa, Amanda Johanson, minha avó, e mãe do tio Hector.

- Lexie fica. – Tio Hector o corrigiu, mas meu avô pareceu não dar importância.

- Mustard,...- O elfo velho pareceu aparecer de repente ali. – Leve os menores para o piso de cima, deixo-os na sala de música, ou biblioteca, o assunto ainda não os diz respeito.

O elfo concordou com a cabeça e rapidamente, tratou de chamar um a um de meus primos ali. Encontrei em meio a eles então minha irmã Chloe, que parecia perdida no meio de tanta gente, quando Pandora a viu de longe logo a abraçou, as duas eram colegas da Lufa-Lufa.

- Como você chegou aqui?- Sussurrei para minha irmã enquanto subíamos a enorme escada de mármore que nos levaria ao lugar que nosso avô havia nos indicado.

- Tia Lice foi me buscar em casa...na verdade ela foi nos buscar...mas como você já estava com tio Hector...- Ela deu de ombros, tia Lice, ou melhor tia Alice, era uma das irmãs mais novas de mamãe, e era minha madrinha, era uma das tias que eu tinha mais contato, e de longe me dava melhor, mas não havia reparado nela na chegada.

Quando o elfo nos largou em uma sala, que parecia tão larga quanto a anterior, só que decorada com inúmeros instrumentos musicas, que tocavam sozinhos enfeitiçados, a maioria de meus primos pareceu ter a mesma surpresa, de "oooooh". Eu particularmente adorava musica, e tocava piano desde meus quatro anos, quando minha mãe havia começado a me ensinar, então aquele cômodo me pareceu o paraíso.

- Logo ao lado, temos a biblioteca, para os que se interessarem por livros...- Foi a deixa do elfo antes de sair da sala.

O zumbido de conversas paralelas irrompeu a sala, e era difícil se quer distinguir a música que tocava ao fundo. Em companhia de Callie, Pandora, Pedro, Chloe, Mell, Mérope e Matt, que era o irmãozinho menor delas, fomos para um canto da sala, onde algumas almofadas, verde musgo, se concentravam, cada um sentou em uma.

- Papai tá uma fera com você..você ...sabe né?- Chloe foi a primeira a falar, e antes que ela abrisse a boca eu já sabia que a frase seria para mim, quando todos os meus primos a nossa volta me olhou dei de ombros, eu de fato não me importava com o que meu pai gostava ou deixava de gostar a essa altura.

Como se tivesse ignorado o que ela falava, me voltei a todos em nossa roda com a pergunta que não queria calar.

- Para que vocês acham que é essa reunião?

A maioria deu de ombros, mas Mell resolveu falar com Aidan.

- Por que você não está lá embaixo?- Ela indagou, mas Aidan apenas deu de ombros, e se voltou para minha pergunta.

- Eu imagino que tenha a ver com uma reunião entre os fies ao...

A voz dele sumiu, todos sabíamos de quem se tratava, pelo menos a maioria de nós, um silencio então pairou entre nós, como se ao certo cada um não soubesse o que falar. Pensativa, eu fui a primeira a voltar a abrir a boca.

- Mas...não vi se quer os Malfoy aqui, e com certeza se estivessem preparando para um retorno..eles seriam..

Aidan fez sinal para que falássemos baixo, e eu logo compreendi, baixei meu tom de voz, a medida que Paige, Olivia, Aleera e Annelise se juntavam ao nosso grupo, de resto só havia sobrado nossos primos menores pela sala, que pareciam se distrair com os instrumentos enfeitiçados. Como se aquela conversa estivesse muito chata, Pedro e Matt nos deixaram para correr atrás de um violino que vagava flutuando por ali.

Aidan voltou a falar, era o mais velho do grupo.

- Na verdade não creio que seria bem assim...- Ele mordeu o próprio lábio inferior e percebi que parecia escolher as palavras que deveria usar. -...veja bem...nossa família é das mais antigas e das mais fiéis à Lord Voldemort, ou melhor...era...precisamos começar de um ponto, mas em pequenas reuniões... – Seus olhos percorreram a sala tendo a certeza de que todos os menores de dez anos estavam bem entretidos com o resto da sala.-...não podem chamar atenção, tudo aconteceu muito recentemente, as pessoas que sobreviveram, e se traumatizaram com a época, a maioria fraca por não ter se juntado aos Comensais, estão de olho, atentos a qualquer passo que dermos...- A maneira como Aidan falava só me deixava ainda mais curiosa, eu sabia por alguns fatos, a maioria o que Vince me havia dito, já que ele esteve na escola junto com o cabeça rachada, do que acontecera, mas eu queria saber mais...queria saber além do que me deixaram saber.

- E-e-e...eu..acho que vou até a biblioteca...- Levantei de repente, e os olhares pareceram me acompanhar, mas ninguém me interrompeu, Aidan começou a contar a eles tudo o que se lembrava sobre a época da batalha entre Harry Potter e o Lord das Trevas.

Meus passos eram discretos, eu não queria chamar atenção do resto das pessoas ali. Fui para a biblioteca, silenciosamente. Fechei a porta às minhas costas lentamente, não querendo despertar ninguém. Imediatamente meus olhos começaram a correr pelas altas e enormes prateleiras daquela biblioteca, os mais variados livros eu encontrei, mas nada que parecesse me interessar, de fato. Eu precisava de algo que contasse nossas origens, que explicasse os meus antepassados. Todo tipo de bibliografia que eu achava que seria útil passei a separar, colocando em várias pilhas no chão, onde ao final, quando achei que já havia amontoado livros de mais, decidi que era hora de sentar e começar a consultá-los. A maioria citava nossa família, em grande parte por conta do Quadribol, uma vez que teve grandes jogadores em torneios internacionais, o que me fazia sentir uma excluída, já que eu tinha pavor de vassoura, voar era algo fora do cogitação para mim. Quando meus olhos começaram a pesar,e eu estava prestes a desistir um índice me chamou a atenção. "Hierarquia bruxa; os maiores nomes da aristocracia." Era exatamente assim que era intitulada, e foi ai que eu ganhei mais esperanças. Corri imediatamente para a página 49:

Família Johanson

Em 1902 se encontram os primeiros vestígios que se tem conhecimento sobre a família Johanson no mundo bruxo. Um jovem conhecido porBernard Johanson, órfão de mãe e filho bastardo de um regional camponês da Irlanda criador de dragões, é mandado paraHogwarts, escola de magia e bruxaria situada na Inglaterra, por apresentar poderes incomuns. Este é selecionado para a casaCorvinal, destacando-se por sua inteligência. Ainda na escola, Bernard se destaca noQuadribol como goleiro, atributo que lhe é reconhecido anos depois quando o mesmo é convidado a ingressar no Tornados, time capitaneado por Rodrigo Plumpton e vencedor cinco vezes consecutivas do torneio "Taça da Liga", na época. Alguns anos depois Bernard se casa com sua ex-colega de turma,Louise Ainstworth e juntos dão origem a perpetuação da família. Atualmente se tem relatos de alguns membros naSonserinae alguns poucos que entraram para a Lufa-Lufa.

Fossem daSonserina,Corvinal ou atéLufa-Lufa, uma coisa era certa: os Johanson vinham se destacando há décadas noQuadribol e a maioria deles havia sido convidado para jogar noTornados. Além da incrível habilidade nos esportes, a maioria dos membros da família se destacava também por sua inteligência de fácil aprendizado. Inteligência da qual cada um aproveitava da forma que bem entendesse. Muitos usaram e usam de seu atributo familiar para se aliar asTrevas,outros, por sua vez,desempenharam e demonstraram excepcionaldesempenho em funções ministeriais. Houve aqueles ainda que se prenderam a área da saúde e de comunicação, com também sucesso em suas vidas profissionais. (...)

O parágrafo se estendia bem mais além, e decididamente este seria o livro que eu precisava para descobrir mais sobre minha família. Quando voltamos ao andar debaixo, antes de irmos embora, parei a porta ao me despedir de meu avô.

- Vô posso levar um livro?- Eu já estava com os mesmos em mãos, mas minha voz soou calma e com educação, ele parecia ligeiramente alterado, fosse pelo que quer que eles tenham conversado.

Ele concordou com a cabeça e acrescentou.

- Leve o que quiser, querida. – Sorriu forcadamente, e deixamos a casa de meus avós.