Capítulo 10

Freya respirava o mais fundo que podia, tentando conter seu desespero diante dos presentes. Engoliu em seco e apertou os olhos para evitar lacrimejar, e procurou Saori no recinto. Ela estava mais á frente da sala, no telefone, junto ao advogado e à Mino, professora do orfanato. Saiu do cômodo sorrateira e encontrou o corredor, e passando rapidamente de porta em porta, encontrou um toalete. Nele se fechou e recostou-se na parede. E então desabou, num intenso choro, e deixou-se pender ao chão. Os momentos antes disso haviam sido os piores de sua vida.

...

Era claro que amava Asgard, e que mesmo o inverno eterno ao qual aquela terra se condicionava lhe cativava, a neve lhe trazia ótimas lembranças de suas brincadeiras de infância. Mas não podia deixar de sentir um imenso fascínio quando viu pela primeira vez a luz do sol, pois sempre nutrira o desejo de ver aquela esplendorosa luz, e ao finalmente a ver, acreditou que jamais ficaria tão encantada. Até que, quando Saori e seu advogado a levaram até o orfanato da fundação, ela pôde ver durante o trajeto, as águas do mar, as ondas dançantes em seu vai-e-vem infinito. Um sorriso se formou no rosto da jovem sem que ela se desse conta. O mar era definitivamente a coisa mas bela que poderia ter visto em vida.

E quando o carro estacionou, em frente ao orfanato, o coração de Freya tremulou com alegria. O viu do outro lado da rua, sentado sobre um murado, com seus cabelos dourados esvoaçando-se com uma leve brisa ao tempo que também contemplava o mar. E a garota acreditava que não tinha como aquela paisagem ficar ainda mais deslumbrante, havia se surpreendido ainda mais.

Tão distraída com a visão, demorou um pouco a notar que todos já haviam saído do carro, e apenas a esperavam. Logo saiu e os acompanhou, logo sendo todos recebidos pelas crianças vivazes, e por duas prestativas professoras. Uma de cabelos escuros azulados, que se apresentou como Mino, e a outra loura, com um coque de trança, que disse ser Eiri. A segunda logo lamentou ter que se ausentar por alguns instantes, enquanto a outra manteve sua atenção para com os visitantes.

- Aqui fora está muito quente, queiram por favor entrar.

Freya não conseguiu se conter, mirando fixamente para cima, onde notou a sacada do orfanato, o ponto mais alto da habitação, que daria uma excelente visão do oceano e tudo mais junto a ele, e logo indagou:

- Poderíamos ficar ali na sacada? Eu gostaria muito de continuar observando o mar.

Mino consentiu atenciosamente e os guiou. Chegando ao ambiente, a loura seguiu logo para a sacada, deixando os outros conversarem mais a dentro da sala. E demasiadamente entusiasmada, pôs-se a observar mais uma vez, com um largo sorriso na face, a imagem seu amado Hyoga junto a imagem do mar.

E então viu que algo havia atraído o rapaz mais do que a paisagem que ele antes mirava. A moça que a atendera antes, Eiri, estava aproximando-se do local.

E sentiu um desconforto em seu peito, quando os observou conversar. Embora o semblante deles aparentassem alguma inocência, também exalava muita intimidade. Porém Freya tentou conter seus pensamentos maliciosos, pois sabia que a personalidade tranquila e gentil de Hyoga era propicia a trazer a ele as mais variadas amizades. Sustentou então a ideia que era apenas uma conversa entre amigos.

Pelos deuses, que seja apenas isso.

Levou a mão á boca, levando um grande susto, quando viu Eiri quase ser pega por um carro. Pensou em chamar alguém para ver, e talvez socorrê-la, mas logo viu que ela havia sido salva... salva por Hyoga.

E diferente de Eiri, o coração de Freya não foi salvo de se estilhaçar, quando viu logo após aquela garota beijar seu amado. O mar havia perdido toda sua beleza. Só conseguiu pensar em se afastar da sacada, se afastar daquela imagem.

...

Deu uma breve olhada para a janela; já devia ter passado um considerável tempo ali dentro. Mas isso pouco importava. Precisava com demasia ficar só, do contrario explodiria, o que obviamente não seria um quadro bonito em frente aos outros. Havia durante muito criado expectativas por aquela viagem, pelo reencontro com ele. E tudo havia sido pulverizado por aquela cena. E foi tomada por inteiro pela imensa vontade de voltar para Asgard, voltar para sua casa. Não fazia mais sentido alimentar aquelas expectativas.

Chorar não havia sido o suficiente, havia o feito máximo que podia, e vomitado ainda mais logo após. E mesmo não conseguindo mais vomitar, tentava-o com esforço, pois queria ao máximo sentir que estava expelindo aquela mágoa. Mas não havia conseguido, os lábios de Hyoga e Eiri unidos ainda tomavam-lhe a visão com frescor.

- Céus...! - Freya ouviu uma voz atônita dizer, e apenas olhou de canto para quem havia invadido o banheiro. E a angustia dentro de si só aumentou quando viu de quem se tratava. Eiri aproximou-se incrédula, avistando a bela jovem, ajoelhada ao lado do vaso, com o vestido todo sujo de vômito, e os olhos verdes envoltos de lágrimas.

- Você está bem? - A babá indagou, mas a imagem já respondia por si. Tentou segurar o braço de Freya, mas esta se esquivou, mirando-a com desgosto - Mas... o que houve senhorita Freya? Deixe-me ajudar... - Eiri tentou puxar-lhe o novamente, e Freya embora quisesse, não conseguiu mais recusar. Apesar da repulsa para com a moça, precisava de ajuda, estava realmente se sentindo mal fisicamente, vomitar havia lhe deixado com fraqueza. Relutante, aceitou que ela lhe ajudasse a se erguer, e que a guiasse para fora.

0000

Em vão, Seiya tentava entretê-lo; havia trazido doces e jogos para o fazer menino relaxar enquanto seguiam viagem. Mas Hugo ignorou tudo, mantendo-os mimos no banco ao lado, e mantinha-se atento a paisagem afora, que corria pelos seus olhos por conta do movimento do carro. Era uma coisa agradável de ser ver, mas não mais confortante. A emoção aflorada haviam impedido Hugo de encontrar as palavras que iria usar para falar com o pai. E o tempo agora era curto para encontrá-las.

E havia ficado ainda mais curto agora. Seiya estacionou seu carro e virou-se para ele.

- Chegamos, Hugo.

Hugo assentiu, mirando-o com firmeza.

- Então, vamos? - O moreno abriu a porta do carro para se retirar, mas Hugo o parou.

- Seiya... Eu quero ir sozinho.

Seiya soltou um longo suspiro. Estava preocupado, pois o garoto estava nitidamente alterado. Mas aqueles olhos verdes lhe olhavam com tanta firmeza que ele não teve dúvidas de que era melhor atender o pedido dele. E então fechou a porta, e apenas observou Hugo sair sozinho.

- Hugo... - Chamou-lhe então, e o louro foi até o seu lado da janela - É este o prédio. - Apontou para uma construção bem em frente ao carro, não muito alta e com a arquitetura em tons de bege - Segundo andar, apartamento quatro zero um. Eu vou ficar aqui te esperando, boa sorte.

- Obrigado. - Hugo disse, e seguiu para o prédio.

Subia vagarosamente as escadarias, pois sua mente estava sendo tomada por memórias, as quais ele queria recordar.

(Flashback)

- Tia? - Hugo disse, adentrando na sala onde Hilda estava cuidando de seus afazeres.

- Sim, querido? Bom dia. - O menino se sentou junto a ela - Acordou cedo.

- Pois é... eu nem dormi na verdade.

- Ah, posso ver que não. - A mulher colocou o polegar sobre as olheiras dele - O que houve?

Hugo pressionou os lábios, juntando as palavras que diria. E logo voltou-se a ela.

- Eu fiquei pensando sobre tudo o que me disse, sobre a doação de um órgão para a Adelle. - Ele suspirou, forçando-se a não vacilar - Eu já tenho uma solução. Mas eu preciso que você me ajude. - Hilda estranhou os dizeres, mas manteve-se atenta - Tia, eu preciso... Preciso do meu pai.

- Hugo... - Hilda disse perplexa com a resposta.

- Tia, por favor. Eu sei que é loucura, que a mamãe pode ficar zangada e triste, e eu também. Mas se o papai pode salvar a minha irmã, eu tenho que saber. Eu tenho que saber se a Delle tem chances de se curar. - Hugo apertou a mão de Hilda contra a sua e a mirava fixamente, demonstrando toda a sua segurança quanto ao que dizia.

Hilda apenas o fitava, com os olhos imóveis pela surpresa. Mas depois de alguns reflexivos instantes, desviou o olhar, levando a mão ao buço pensativa. E voltou-se a ele com seriedade.

- Hugo, por favor vá e traga-me aquele livro que eu dei a vocês quando eram menores, sim?

(Fim do Flashback)

Por fim chegou: o segundo andar. Continuou a andar devagar, com o coração inquietando-se gradativamente a cada passo. E finalmente avistou o número "401" em prata na ultima porta do corredor. Sugou o máximo de ar que podia e o soltou com força pela boca. E apertou a campainha.

Depois de breves instantes a porta abriu-se, e Hugo cresceu seus olhos verdes nas feições do homem, o que fez suas pernas tremerem um pouco.

- Pois não? - Disse o rapaz. E as memórias voltaram a sua mente automaticamente: o som das páginas do livro sendo folheadas por Hilda, e ela pedindo-lhe que se atentasse a elas.

Atente-se a esta foto Hugo, observe-a.

E Hugo estava observando, mas uma foto viva, em densa realidade. Concluíra finalmente que o livro não lhes fora dado por acaso.

Por fim, tomou coragem para iniciar:

- Você... é o Hyoga, não é?

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Ainda debaixo da água do chuveiro, agradeceu em orações, pois o mal-estar estava enfim passando com o banho, talvez causado pelo vômito quase forçado. Mas ainda se sentia mal, em sua alma. Freya amaldiçoou Eiri de todas as formas possíveis em sua mente, pois esta causado-lhe uma grande mágoa, e ainda fazê-la se sentir culpada por estar magoada, sendo tão gentil e atenciosa.

Ao sair do banheiro, encontrou Eiri ainda no quarto, que logo que a viu entregou-lhe um vestido azul-claro, que provavelmente fosse dela própria.

- O seu estava sujo, eu achei melhor colocá-lo para lavar...

- Obrigada. - Limitou-se a dizer, repulsiva, apenas apanhando o vestido. Vestiu-o dentro do banheiro, incomodada em trocar-se na frente da babá, coisa que esta compreendeu bem, mas que não deixou de ir ajuda-la ao notar que tinha dificuldade com os botões traseiros.

Ambas seguiram para a frente de um espelho no quarto, e Eiri começou a fechar os botões. Freya a mirava fixamente através do espelho, ressentida. Havia entendido as razões de tudo afinal; mirando pelo espelho todos os detalhes da fisionomia da jovem, notou o quanto Eiri era linda, mesmo em toda sua simplicidade. Linda e gentil, meiga, e graciosa. Não saberia se resistiria a ela também caso estivesse no lugar de Hyoga naquele momento.

- Se sente melhor agora, senhorita? - Indagou a babá, arrematando o vestido com uma fita no busto de Freya.

A jovem de cabelos cacheados apenas assentiu, mas sem deixar de mirá-la. Freya engoliu em seco, avistando Eiri sorrir bobamente, com o olhar cheio de deslumbre, como se sonhasse com os olhos abertos. E entendendo o motivo daquele estado dela, o desalento que sentia elevou-se um pouco mais, ao mesmo tempo que, e forma estranha, também se reconheceu na garota. Sabia perfeitamente como era essa sensação, sensação de receber um beijo ardoroso e extasiante, como costumavam ser os beijos de Hyoga.

- Mas esse seu sorriso... - Freya não conseguiu se conter, e tentou se manifestar de maneira sutil - Você aparentemente foi beijada.

A moça de coque ficou imensamente vermelha no mesmo instante, e lançou-lhe um riso desconcertado, embora ainda demonstrasse o contentamento de antes.

- Bem... - Eiri a mirou, dando os ombros e sorrindo de novo sem jeito - É... eu fui.

- Ah é? - Freya então encarou-a - E... Você gosta dele? - O tom da pergunta soou mais hostil do que gostaria, mas Freya não conseguiu evitar.

Eiri vacilou em responder. Não sabia se podia abrir-se daquela forma com alguém que havia acabado de conhecer. Mas a maneira que ela havia comentado sobre seu sorriso lhe passou tanta sensibilidade, com certeza ela já havia se apaixonado, ou tido algum tipo de experiência parecida. Além do mais, tinha grande necessidade em compartilhar os ocorridos com alguém, do contrario toda essa emoção comprimida em si a faria explodir.

- Sim, eu gosto muito. - Um sorriso esboçou-se inconscientemente - Eu o amo.

Freya sugou o ar, soltando-o intensamente depois de um breve instante. Extrair todo aquele incômodo de seu peito estava sendo cansativo.

- Conte mais... - Disse, e ambas sentaram-se na cama.

- Nos conhecemos a algum tempo. Eu fui salva por ele e pelos Cavaleiros, e desde então ficamos muito amigos. Mas conforme o tempo passava, eu comecei a estranhar, pensei que não fosse normal eu sentir meu coração acelerar e minhas pernas bambearem apenas ao estar na presença de um simples amigo, entende? E... depois... eu passei a me pegar em desespero toda as vezes em que Hyoga partia - Eiri pressionou os lábios, angustiada - Eu sentia muito, muito medo de ele não voltar, cogitar essa hipótese já me amedrontava.

- Hyoga... - Freya tentava conter sua alteração ao ouvir o nome - ...O Cisne?

- Sim. - A garota deitou o tronco na cama, com o semblante cheio de fascínio - Tão amável e generoso. Quando ele chegou desta última batalha foi um pesadelo. Estava tão ferido, e eu simplesmente não suportei vê-lo daquela forma, só consegui pensar em cuidar dele, em cuidar para não perdê-lo, para vê-lo melhorar e se reerguer, durante muito tempo foi só o que me importou. E a cada ferida que se curava, eu também me sentia revitalizada junto, senti como se tudo de ruim dentro de mim foi perdendo sua força, sendo domado. E foi tudo tão intenso... eu não consegui hesitar por muito tempo em esconder o que eu sentia.

Freya apenas a fitava, sentindo estranhas emoções dentro de seu peito, as quais pensou serem peculiares para este momento. Eiri era tão sincera em suas palavras, e tão submersa nelas, expelindo sem pudor todo o seu sentimento; era como se conseguisse ver nitidamente através de suas palavras sua alma e seu coração, tão iguais aos dela própria. Freya também não podia medir toda a sua angustia quando soube sobre a dura batalha contra Hades e os deuses, em saber que Hyoga poderia não voltar. Orou incontáveis vezes a fim de eliminar os pensamentos ruins e fazer com que os deuses o protegessem, sendo somente o que ela havia se importado durante todo esse tempo.

E isso lhe era doído. Olhar para Eiri era como olhar para si mesma; o mesmo sentimento, pelo mesmo homem. Portanto seria penoso e excessivamente injusto disputar o amor de Hyoga com ela, moça tão especial e que havia zelado por ele com tanta devoção, da mesma forma que desejou ter feito. Nenhum dos três merecia isso, na verdade.

- E... Você sabe se é correspondida? - Perguntou quase inconsciente.

- Não sei... Inicialmente eu pensei que não. Mas nas duas vezes em que o beijei, senti que... senti calor no beijo, senti que ele respondia; eu não sei o que pensar agora.

O mesmo calor que notava ao beija-lo também, Freya podia concluir através da expressão de encanto da professora ao falar. Hyoga havia respondido, era tudo do que precisava.

- Está tudo bem senhorita Freya? - Eiri preocupou-se quando a jovem de cachos se levantou rapidamente com uma expressão estranha em seus olhos.

- Preciso vomitar mais.

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Da janela, avistou o carro de Seiya. Mirou com atenção a poltrona próxima à esta, lhe ocorrendo a ideia de sentar-se ali, caso precisasse pedir por socorro.

"Não, não, está tudo bem, sem temer."; ele balançou a cabeça com força, respirando fundo, tentando tranquilizar-se. "Não é nenhum monstro... Eu seria um também se fosse o caso".

E soltou mais um suspiro, sentando-se num outro sofá. Passou os olhos pela habitação, curioso pelo estilo de vida dele ou a personalidade, que talvez aquela casa pudesse lhe mostrar. A sala era um tanto pequena, porém aparentemente confortável e muito bem arrumada, com exceção de que haviam várias bolinhas de papel espalhadas por toda ela, e muitos porta-retratos, um amontoado deles, que Hugo particularmente pensou que poluíssem um pouco a visão do lugar. Sobre um dos outros sofás em frente a si havia um caderno e alguns lápis, sendo fácil supor que ele estava escrevendo quando o menino chegou. Organização e bagunça ao mesmo tempo, o pai era um homem um tanto difícil de decifrar.

Instigou-se pelos retratos. Ergueu-se para avistar um, porém parou o trajeto da maneira brusca, e o coração pulsou levemente quando o homem retornou da cozinha. Apesar de todo o esforço para se conter, a simples - porém intensa - presença do pai fazia seus nervos aflorarem-se.

Hyoga arqueou as pálpebras, notando a clara alteração do garoto, mas resolveu não se importar muito. Ofereceu-lhe o copo de bebida ao qual o menino apanhou receoso, depois de breves instantes, com o olhar baixo. E ele se sentou, ainda sem mirá-lo.

- Hugo de Asgard. - Disse Hyoga, sentando-se também - A que lhe devo a visita?

Hugo mordeu o lábio, batendo os dedos no copo. E lhe lançou um breve olhar com a mirada ainda baixa.

- Tenho um assunto a tratar... - Engoliu em seco e ergueu mais os olhos - ...Tratar com você.

O rapaz levantou uma sobrancelha com surpresa, e perdeu parte do leve sorriso que tinha.

- Um garoto da sua idade veio de Asgard tratar um assunto? Bom, dizer que deve ser algo muito sério soraria um pouco óbvio. - Hyoga atentou-se à Hugo, voltando a exibir um sorriso, ainda mais largo e caloroso que o anterior - Fique a vontade para me dizer.

A voz de Hugo vacilou, e ele finalmente fitou Hyoga profundamente. Abismou-se com aquele sorriso, radiante e terno, que o encheu de conforto, serenidade, e especialmente, de familiaridade. Havia finalmente descoberto de quem Adelle havia herdado seu amável sorriso.

Hugo expirou o intenso ar, memorizando e organizando as palavras em sua mente.

- Há muitos anos atrás, você esteve em Asgard, não é? - Por fim disse, ainda sem muita certeza do que deveria falar, por conta do nervosismo.

- Sim, eu estive.

"Você está começando errado!" Pensou consigo, dando-se conta de que as palavras só o os estavam ajudando a titubear ainda mais. Postou o copo sobre a mesa de centro e firmou profundamente sua mirada nas íris azuis.

- Bom é... que eu tenho uma irmã, uma irmã gêmea. E ela está doente, leucêmica. E eu estou fazendo tudo o que eu posso para tentar salvá-la, pois eu simplesmente não consegui ficar apenas medindo o que eu podia ou não fazer, eu precisava tentar algo, qualquer coisa que fosse.

- E você está absolutamente certo. - Hyoga mantinha um tom animador, mas não conseguia deixar de ficar intrigado e compadecido com os dizeres de Hugo - Mas Hugo, como eu poderia te ajudar? E por que eu? Eu não entendo, nós nem nos conhecemos.

- Pois é, você realmente não me conhece, mas eu me permiti te conhecer já a algum tempo, através da minha tia Hilda. Porém é minha mãe quem torna as coisas ainda mais complexas entre nós.

- Sua tia Hilda? - O coração de Hyoga latejou bruscamente apenas ao deduzir. - Então... Freya é a sua mãe?

- Sim. - Hugo pressionou os lábios; as emoções aglomeraram-se novamente - A questão é que... vocês dois se envolveram no passado, como você deve muito bem se lembrar, ou não...

- Nós... nos envolvemos sim. - Dizia atônito pelo fato do menino saber - Foi ela quem te disse?

- Na verdade não, não exatamente. Nunca foi necessário ela contar, o simples fato de minha irmã e eu existirmos já nos diz tudo, pois... Foi a partir disso... Que nós nascemos. - A voz engasgou, porém manteve-a firme - Você é o nosso pai, Hyoga.

Hyoga estremeu como nunca antes, os lábios se abriram porém a voz não saiu. Sentiu sua mente ser jogada em meio a um redemoinho e embaralhado tudo, perdendo sua capacidade de assimilar as ideias.

- Não pode... Não pode ser...

- Por favor! - Hugo por fim se aproximou, ajoelhando-se a frente dele e segurando-lhe umas das mãos - Diga que vai me ajudar, ajudar a minha irmã.

- Escute, eu não sei o que pensar sobre nada... - Hyoga não o encarou, limitando todo seu foco a tentar unir as peças da história. Freya, duas crianças, dez anos... Ainda tinha em mente tudo o que a garota havia lhe dito a última vez, o que tornava toda esta história muito improvável. Tentar entender só o estava deixando ainda mais desorientado, e seu coração mais inquieto.

- Por favor... Pelo nosso vinculo de sangue.

- Hugo... - Queria muito ter o que dizer, o que era impossível estando atordoado como estava - Isso foi meio chocante para mim. Então por favor, me dê um tempo, um tempo para me organizar, para...

Ele parou, avistando com comoção os olhos do pequeno louro se contraírem e transbordarem abundantes lágrimas.

- Mais tempo...? - Hugo disse com a voz embargada, e seu choro tornou-se intenso.

Hyoga lutou para conseguir encontrar algo que pudesse ser dito para confortá-lo, mas sua maldita mente confusa não o permitia formular uma palavra sequer.

- Eu acho melhor eu ir então. - Hugo se levantou subitamente, com a postura mais dura. Limpou as lágrimas e marchou para fora.

- Não... - Hyoga tentou alcançá-lo, mas o garoto acelerou o passo quando o viu o homem o seguir, e conseguiu sumir nas escadarias antes de ser apanhado. Hyoga acompanhou-o então da janela, avistando Hugo entrar depressa no carro que reconheceu como sendo de Seiya.

Jogou-se no sofá, e deixou as intensas lágrimas rolarem pelo rosto, inconformado com mais uma contradição.


Mal vejo a hora de inventarem computadores que nunca quebrem u.u mas enfim, finalmente consegui atualizar!

Também queria ressaltar que mais uma vez acabei por escrever um capítulo grande demais para meu gosto. Porém essa foi a melhor maneira que encontrei para descrever tudo o que precisava. Espero que esteja bom mesmo assim.

No mais, agradeço muito a todos que estão acompanhando. Que a leitura de todos seja agradável.