– Poseidon?
O imperador que agora percorria o corredor de acesso às escadarias dos calabouços não acreditou no chamado. Conhecia aquela voz terna, mas sua mente ainda lhe dizia ser impossível que seu verdadeiro dono estivesse ali. Estagnou. Permaneceu na mesma posição e negou-se a conferir com os seus próprios olhos.
– Poseidon, meu irmão... Acaso esqueceu o som da minha voz?
– Hades? – perguntou antes mesmo de virar a cabeça. – Então é verdade... Ikki conseguiu libertá-lo! – declarou, sentindo as lágrimas inundando seus olhos.
– Eu sempre consigo o que quero!
– Sim... Devo tudo a vocês, que tanto se empenharam na tarefa de me ajudar. – sorriu – E então, vai continuar me dando as costas?
– Hades... – virou-se prontamente e aproximou-se em passos largos. – Se você soubesse como eu sonhei com esse momento... Estou muito feliz por vê-lo fora daquela prisão!
– Não precisa dizer... Eu vejo isso em seus olhos.
– Como você está se sentindo?
– Não sei. De saúde acho que estou bem, mas ainda é tudo tão estranho... Ao mesmo tempo que desejava sair daquele quarto, ainda não estou conseguindo conceber que isso não seja realmente um sonho.
– Eu entendo. – sorriu – Ficar 13 anos no mesmo lugar, na mesma posição não deve ser fácil. Sei que precisará de algum tempo até adaptar-se novamente, mas... só o prazer de vê-lo fora daquele cárcere vale qualquer sacrifício. – declarou, alisando os longos fios negros do outro.
– Ahn... lord Poseidon, não quero ser indiscreto ou inconveniente, mas gostaria de saber para qual quarto eu devo levar lord Hades. Ele pode ser magro, mas meus braços estão começando a cansar.
– Ah sim! Venha comigo... eu os conduzirei até o quarto que mandei preparar especialmente para ele. – declarou suavemente, posicionando-se ao lado de Ikki e dando seu primeiro passo.
– Irmão, amanhã eu irei à floresta!
– O quê? Está ficando louco, Hades? Eu não o deixarei sair desse castelo.
– Mas esse é o meu maior sonho há mais de uma década!
– Não vou deixar que estrague a vida do seu irmão assim como seu pai fez há 13 anos atrás. Eu juro que levarei Hades para fora, nem que eu tenha que lutar contra todos os cavaleiros e demais súditos desse reino!
– Calma, Ikki. Eu só estou fazendo o melhor ao meu irmão... É claro que conheço todos os sonhos dele e desejo que seja muito feliz, mas acho que ele ainda não está preparado. Pensem bem... ele ficou 13 anos confinado àquele local escuro e poderia se ferir com a claridade repentina. Eu teme que ele venha a ficar cego, por exemplo.
– É verdade! Havia me esquecido desse detalhe... – Ikki comentou.
– Mas então eu não poderei ir à floresta?
– Eu não recomendo que vá amanhã. Na verdade, não recomendo nem que abra a janela... Por mim esperaria pelo menos 5 dias, mas vou chamar um médico para que ele possa fazer a avaliação correta de quanto tempo você deve aguardar para poder expor-se à luz do sol novamente. E então, o que me diz?
– Parece sensato! – Hades concordou por fim – Para quem já esperou 13 anos, não será alguns dias que farão a diferença.
Poseidon sorriu, abriu a boca para responder, mas não teve tempo suficiente. O som de passos apressados chamou a atenção dos três homens que agora entravam no salão principal do castelo e rumavam à escadaria que levaria aos quartos.
– Lord Poseidon, lord Poseidon!
– Algum problema, sir Sorento?
– Sim, majestade! – respondeu, ajoelhando-se prontamente diante de seu imperador. Segurava algumas folhas de papel no braço e, ao erguer a cabeça, ficou atônito ao reparar o que Ikki trazia em seus braços.
– Boa noite, sir Sorento. – Hades cumprimentou.
– Lord Hades...
– Não precisa ficar tão perplexo. Eu havia me comprometido a retirá-lo ileso de lá. Só não consegui por causa das pernas que, com o perdão da palavra, ficaram enferrujadas depois de ficar tanto tempo sem executar nenhum movimento.
– Diga, sir Sorento, em que posso ajudá-lo? – perguntou o imperador de Atlântida.
– Ahn... ah sim! Desculpe, milord. – gaguejou um pouco antes de levantar-se – O senhor tem que ler e assinar esses documentos ainda essa noite. Sir Isaac irá voltar ao reino de Atlântida daqui a duas horas e, como vossa alteza bem sabe, precisa de sua resposta.
– Tudo bem. – suspirou resignado. – Desculpe Hades, mas teremos que deixar essa conversa para amanhã... Ainda tenho que passar algumas instruções aos meus cavaleiros, assinar documentos e tomar mais algumas providências importantes.
– Tudo bem, irmão. Eu sei como é a vida de um rei... Sempre estava ao lado do nosso pai!
– É mais difícil do que parece. – comentou com um sorriso – Como pôde observar, uma das coisas com a qual você deverá se acostumar depois de se tornar o rei dessas terras é ser interrompido durante uma conversa.
– Milord...
– Estou indo! Por favor sir Sorento, conduza Ikki até o quarto que mandei preparar ao meu irmão e depois venha ter comigo...
– Sim senhor! – sir Sorento respondeu com respeito, entregou os papéis e logo estava obedecendo às ordens de seu senhor.
§ o §
Cinco dias depois...
– Bom dia, Hades!
– Bom dia, Ikki! – cumprimentou animado. – Como está o dia lá fora?
– Está uma linda manhã de sol, mas há algumas nuvens no céu.
– Nuvem? Mas isso é tudo o que eu queria! – comentou com um largo sorriso. Sentou-se sem ajuda e, ao ver o olhar inquisidor do outro, prosseguiu – Eu nunca havia visto nuvens anteriormente... me disseram que algumas podem adquirir formas.
– Ah sim, entendo! E então, está pronto?
– Estou sim. Nem acredito que finalmente poderei sair do castelo, conhecer a floresta e ver como são essas tais nuvens...
Ikki sorriu ao ver o príncipe falar com um brilho de alegria em seu olhar. Por um instante, sentiu como se estivesse ao lado de seu irmão caçula. Pegou-o no colo com cuidado e rumou em direção à saída onde uma carruagem os aguardava repleta de surpresas.
§ o §
– Lord Poseidon...
– Sim, doutor.
– Desculpe incomodá-lo a essa hora da manhã, mas vim falar a respeito da saúde de seu irmão.
– Obrigado. Queira sentar-se! – indicou uma cadeira à sua frente – Deseja tomar alguma coisa?
– Obrigado, mas não posso. Estou trabalhando. – sorriu.
– E então, o que o senhor tem a me dizer?
– Não sei explicar como, mas a saúde do seu irmão é perfeita! Um sedentarismo desse poderia ter causado infecções nos órgãos internos, mas... felizmente, a única seqüela é a paralisia das pernas. – o senhor informava num tom amigável.
– E... vai ter cura? Meu irmão poderá voltar a andar algum dia?
– Não sei. Nunca havia visto nenhum caso semelhante, mas passei alguns exercícios que acredito serem benéficos. Talvez seu irmão fique o resto da vista preso a uma cama, só podendo ser movimentado com ajuda alheia. Talvez volte a andar com alguma restrição. – tomava um tom impassível para responder – Mas são apenas suposições. De qualquer forma, acompanharei o caso de perto e me dedicarei a ajudar-lhe sempre que possível.
– Obrigado por tudo doutor. – sorriu e estendeu sua mão – Me mantenha informado e, se precisar de alguma coisa, pode contar comigo.
– Sim, majestade! – cumprimentou-o respeitosamente.
§ o §
– É mesmo muito lindo! – Hades exclamava, olhando a floresta pelo vidro de sua carruagem – Não sabia que existiam tantas cores... E essas plantas que nascem nos troncos de outras? Como é possível?
– Chamam de parasitas... – Ikki respondeu suavemente – Mas não sei como elas sobrevivem.
– Eu quero descer... Quero me sentar sob a sombra de uma árvore!
Ikki não resiste e solta uma gostosa gargalhada.
– O que foi?
– Não me leve a mal, mas falando desse jeito você fez com que eu lembrasse do meu irmão... de quando ele tinha 6 anos de idade!
– Ei! Está me chamando de criança?
– Não exatamente, mas... – interrompeu-se ao sentir a carruagem frear.
Hades olhou para Ikki que revelou-se tão surpreso quanto o príncipe. O jovem sabia que ainda não haviam chegado ao local combinado e logo colocou-se em estado de alerta. Havia acontecido algo errado! A porta se abriu, Ikki preparou-se para lutar, mas logo pôde relaxar. Era apenas Radamanthys!
– Lord Hades... – cumprimentou respeitosamente.
– Radamanthys?
– Sir Radamanthys, milord.
– Desculpe. Algum problema, sir Radamanthys?
– Soube de sua libertação... vim cumprimentá-lo e afirmar que estarei sempre à sua disposição, vossa alteza.
– Ah sim, obrigado. Soube que você é o responsável pelo treinamento do Seiya... Como ele está evoluindo?
– É patético! – responde frustrado – Só sabe falar as coisas da boca para fora e tem muita sorte... Estou fazendo o impossível para que ele desista, mas infelizmente não estou conseguindo. Até parece que gosta de apanhar e ser tratado como capacho!
Hades sorriu.
– Isso não me surpreende em nada... – Ikki resmungou.
– Sir Radamanthys, não deseja nos fazer companhia até o nosso destino? – Hades perguntou.
– Seria uma honra acompanhá-lo, milord, mas infelizmente não posso... tenho muito trabalho a fazer. – o cavaleiro respondeu em tom de seriedade, virou-se para sua esquerda e logo estava andando naquela direção – QUEM MANDOU VOCÊ PARAR, SEIYA? ESTÁ PENSANDO QUE ISSO É BRINCADEIRA? UM CAVALEIRO DE VERDADE NÃO SE CANSA POR TÃO POUCO! TERMINE LOGO COM ESSA LENHA... JÁ ESTÁ TARDE E VOCÊ SÓ CONSEGUIU O SUFICIENTE PARA A METADE DO CONSUMO SEMANAL DO CASTELO QUANDO EU HAVIA EXIGIDO QUE VOCÊ COLETASSE O SUFICIENTE PARA O CONSUMO MENSAL...
– Eu não sabia que sir Radamanthys era tão... enérgico.
– Louco seria uma melhor qualificação. Cumprir o que ele ordena é humanamente impossível... – comentou Ikki, sentindo algumas gotas surgindo em sua testa. – De qualquer forma, acho melhor prosseguirmos antes que o sol esquente. Ainda temos muito o que ver.
– Concordo, mas e quanto a sir Radamanthys?
– Não creio que ele venha a nos criar problemas. De qualquer forma, acho melhor avisar... Licença. – pediu gentilmente, levantando-se.
§ o §
– Sir Sorento...
– Sim, vossa alteza! – o cavaleiro o cumprimentava respeitosamente.
– Peça para que sir Hypnos e sir Thanatos venham ter comigo.
– Algum problema, milord?
– Eu passarei algumas instruções para que eles desmintam a morte de meu irmão. O falso túmulo já foi destruído... agora só falta espalhar a notícia pelos impérios e reinos vizinhos. Também desejo que alguém leve a boa nova ao Império de Atlântida.
– Se vossa alteza permitir, eu mesmo posso tomar essa providência.
– Eu sei, sir Sorento, mas preciso de você ao meu lado. Ainda mais depois que Kanon resolveu fugir e seguir o que os gregos chamam de religião. Onde já se viu acreditar na existência de inúmeros deuses e nas histórias de cada um... – comentou, num muxoxo – Mas isso não é da nossa conta. Vá! Traga sir Hypnos e sir Thanatos e depois peça a um dos soldados para levar a notícia da recuperação de meu irmão.
– Sim, senhor! – respondeu com respeito e pediu, antes de sair. – Licença, milord!
§ o §
– Ikki... isso aqui é muito lindo! – Hades admirava a vegetação ao seu redor. – Queria poder andar, descobrir as coisas por mim mesmo... Mas, como não é possível, fico feliz por poder contar com a sua ajuda.
– Você observou os pássaros?
– Sim! Um mais belo que o outro. E o canto... é interessante observar que cada um canta diferente como se falasse uma língua distinta.
– Engraçado... eu nunca tinha pensado nisso. Será que dois pássaros de espécies diferentes conseguem se entender?
– E você pergunta isso a mim, que estou vendo a cena pela primeira vez?
– Bom, isso provavelmente seja uma pergunta sem resposta... – comentou, colocando as mãos atrás da cabeça e encostando as costas no tronco da árvore sob a qual estavam – Mas você tinha razão a respeito dessa árvore. É um local muito agradável.
– É sim. Foi aqui que conheci a Helena e que comecei a ter consciência do meu dom.
– Verdade?
– Ahan! Falando nisso... Qual foi o verdadeiro motivo de você ter decidido ficar?
– Uma boa posição social? – perguntou, com uma sobrancelha erguida.
– Não faz seu estilo. Também já percebi que não poderia ser por dinheiro.
Ikki suspirou, levantou-se e deu dois passos à frente, ficando de costas para o príncipe. Olhou em direção ao céu, à copa das árvores e, num meio sorriso, voltou-se em direção ao homem que o encarava interrogativo. Abaixou-se, olhou dentro dos olhos de Hades e confessou:
– Eu sei que não conseguiria enganá-lo, portanto... devo confessar que, pela primeira vez desde a morte da Esmeralda, consegui me encantar por alguma mulher.
– Hum... E para você ter preferido ficar, devo imaginar que ela more em meu castelo.
– Não exatamente...
– Como assim?
– Ela esteve aqui duas vezes. Em ambas as oportunidades veio ter com vosso irmão. – respondeu um pouco nervosamente e sentou-se de frente para o outro. – Infelizmente não acredito que eu possa ter alguma esperança, pois somos muito diferentes.
– Posso saber o nome?
– Não adianta. Você não a conhece e ela nunca aceitaria um plebeu.
– E quem disse que você é plebeu? Pelo que me lembro foi-me apresentado como um cavaleiro. Sir Ikki, o mais jovem cavaleiro do qual se teve notícia.
– Eu sei, mas isso nunca seria suficiente para uma condessa.
– Hum... está me deixando curioso. – resmungou – Se você não contar a verdade, não irei deixá-lo em paz.
– E o que você poderá fazer contra a minha pessoa?
– Ikki! – repreendeu – Eu quero ajudá-lo... Por favor, deixe-me retribuir pelo que você me fez, por ter conseguido sair daquela prisão.
– É decididamente incrível como você consegue ficar parecido com o meu irmão quando quer e atingir meu ponto fraco. – reclamou entredentes. – Já que insiste tanto... vou revelar! A jovem da qual estou falando é a condessa Pandora, prima da princesa Perséfone. Pode rir, eu mereço!
– Eu ainda não tive a oportunidade de conhecê-la, mas... sou praticamente o rei dessas terras e, para mim, nada é impossível. – sorriu de forma enigmática. – Confie em mim! Eu vou... – parou de falar e virou-se para o lado oposto ao que Ikki se encontrava.
– Hum... vejo que você tem trabalho a fazer. Vou dar uma volta, refletir um pouco. Se precisar me chame! – comentou, levantando-se e despedindo-se com um aceno. Não sabia exatamente que direção tomar, apenas seguia em frente.
Hades sorriu de canto de boca. Entendeu que o amigo precisava ficar um tempo sozinho. Ele estava decidido a retribuir o favor que o rapaz havia lhe feito, mas agora não pensaria nisso. Precisava trabalhar, exercitar seu dom e encaminhar as almas ao seu devido lugar. Depois, com tempo e muita calma, conversaria com o irmão. O príncipe tinha certeza de que encontraria uma solução àquele problema.
Fim
Nota: Eu sei que esse final ficou em aberto, mas trago-lhes uma boa notícia. Haverá um epílogo, que já está pronto. Infelizmente, por causa de problemas pessoais, não pude mostrar nem esse capítulo e muito menos o epílogo à minha beta oficial. De qualquer forma, devo afirmar que foi um imenso prazer escrever essa fic e queria, desde já, agradecer publicamente ao Felipe Nani, que, a partir de sua primeira review, teve a paciência de me mandar comentários muito bem-humorados e incentivadores. Muito obrigada!
