Capítulo 10:
A Batalha Final
Seus passos ainda ecoavam pela enorme construção. Seguia em direção às masmorras, mesmo que nada lhe houvesse sido dito. Não era apenas a lógica fria que sempre usara para discernir suas idéias de seus sentimentos... Ela agora sentia, no fundo de seu peito, que se havia um lugar aonde seu insano genitor gostaria de reencontrá-la e, provavelmente, matá-la, esse seria o calabouço, aonde ela se apaixonara por InuYasha... Algo lhe dizia que ele queria capturá-la e tratá-la ainda pior do que tratara aquele que agora ele acreditava ser seu amante durante aquele período.
Ela entrou direto no local, parando com o arco e flechas em riste. Sim, lá estava ele. O homem que fizera de tudo para destruir sua vida... Aquele ódio forte que sentia não poderia ser explicado com palavras. Queria se vingar... Mas não sabia se era capaz... Seu peito doía ao pensar que ainda amava o homem que agora se aproximava, com passos ritmados. Seu sorriso insano era uma grande prova de que aquilo fora demais para ele.
- Ora, Kikyou... Eu sabia que você seria uma tola e voltaria a pisar nesse lugar diante da minha ameaça.
- Pai, me diga onde está minha irmã! – Ela replicou, forçando essas palavras para fora de sua garganta. Não fraquejara nem um milímetro, mas por dentro sentia medo, muito medo.
- Sua irmã está bem aqui... Venha, abaixe sua arma, venha aqui vê-la – Ele respondeu, fingindo tranqüilidade.
Ela, mesmo que com receio, abaixou a arma até chegar à cela que ele indicara. Abaixou-se, observando a irmã caída, num canto do mesmo local aonde InuYasha tanto sofrera. A comparação fora inevitável. As marcas de sangue ainda estavam lá, imaculadas. Olhou para a irmã, aparentemente inconsciente. Estava machucada... Provavelmente alguém batera nela. Com um enorme sentimento de culpa, ela se distraiu observando a irmã.
Quando ela dera por si era tarde demais. O homem que um dia ela chamara de pai já lhe havia aplicado um golpe bem na cabeça. Vendo o mundo apagar a sua volta e se sentindo uma idiota inútil, ela praguejou, quase sem energias:
- Maldito... Você vai morrer maldito!
Demorou bastante tempo até ela acordar. Quando isso aconteceu estava amarrada, jogada num canto da cela. Sentiu muito dor, observando a mancha de sangue no chão do local aonde o pai a atingira, ao lado do seu arco e flechas. Suspirou, fechando novamente os olhos. Queria tanto ter treinado mais... Se soubesse lutar talvez tivesse salvado a menina ao invés de se encontrar na mesma situação que ela.
- Kikyou oneesan? – Uma voz doce lhe indagou e ela abriu os olhos, assustada. Sua irmã estava acordada? – Você está aqui mesmo ou eu estou sonhando?
- Kaede, querida! – Ela se aproximou da menina, mesmo que com dificuldade. Deu um beijo em sua testa – Não é um sonho, minha querida... Eu vim até aqui para te salvar, mas... Eu não consegui. – Ela replicou triste.
- Oneesan! Eu pensei que nunca mais fosse te ver!- Ela parecia um pouco mais feliz – O papai falou coisas horríveis sobre você... Mas eu não acreditei nele! Você me disse que estava fazendo a coisa certa e eu acreditei em você... Mas ele me colocou aqui de castigo quando eu disse para ele que você estava fazendo o que era certo e que ele era mau... Ele disse que ia me usar pra te trazer aqui... Parece que ele fez isso. – Estava muito triste – Tudo isso é porque eu falei demais... Me desculpa, Kikyou-sama...
- Kaede, querida... Não foi nada disso. Eu vim até aqui porque eu quis, está bem? Não se culpe. – Fez uma pausa - Eu só preciso saber de uma coisa...
- O quê?
- Foi ele... Foi ele quem te bateu? – Ela sentiu o peito comprimir ao fazer essa pergunta. A menina abaixou a cabeça, sombria. Apenas fez um sinal positivo com a cabeça. Kikyou notou que as lágrimas percorriam seu rosto agora, ao se lembrar daquilo – Ah, minha querida! Deve ter sido muito difícil - Ela arrastou a cabeça na da irmã, levemente, como que para consolá-la – Querida, vai ficar tudo bem. Vamos encontrar um jeito de sair daqui. Eu sei que vamos.
- Kikyou-sama.. Esse Youkai... O InuYasha... – Ela falava baixinho, observando a irmã – Como ele é?
- Ele é muito bonito... Mas porque quer saber sobre ele, Kaede-chan?
- Não desse jeito! Eu quero saber se ele é legal?
- Sim... Ele se esconde das pessoas, sabe Kaede? Ele sofreu muito, então ele não fala muito dele mesmo... Mas, na verdade, ele tem um bom coração... E é muito forte.
- Kikyou-san, você pode responder uma coisa?
- Claro...
- Você está apaixonada por ele?
- Então era isso? – Ela indagou, entendendo a curiosidade da irmã mais nova – Sim, eu estou apaixonada pelo InuYasha... Estávamos vivendo juntos antes de eu vir para cá... Mas aquelas coisas que papai falou de mim não são verdade... Eu apenas me apaixonei pelo InuYasha, é por isso que eu quis ajudá-lo.
- Bem, Oneesan... Se você gosta dele, ele deve ser muito especial – Ela deu um sorriso sincero. Era incrível como a menina tinha o dom de falar a coisa certa no momento certo. Ela sentiu o coração relaxar, dando um fraco sorriso.
- Ele é sim, Kaede-chan... Quando sairmos daqui, eu espero que você possa conhecê-lo comigo.
- Ta...
Depois disso apenas se instaurou um silêncio pesado. Pelo que lhe parecia, um dia inteiro já havia se passado. As duas sentiam fome e dor. Kikyou agradecia o fato de ter sido atingida apenas na cabeça. Se estivesse muito ferida acabaria morrendo ali. Preocupava-se pela irmã, que parecia bem fraca.
Lembrou-se que deixara o hanyou sozinho naquele abrigo, sentindo-se triste. Será que ele estava bem? Mesmo sem ninguém lá, ele seria capaz de sobreviver? Desejava que ele não fizesse nenhuma loucura ao constatar sua ausência.
Ouviu a porta abrir, aguardando. Infelizmente, a figura que surgiu diante delas foi o homem que as criara durante todos aqueles anos. Seus olhos brilharam ao ver as duas filhas ali, em suas mãos. Agora se vingaria da desonra que a mais velha havia lhe causado. Ela jamais deixaria aquele lugar, não com vida.
- Kikyou! Enfim você está exatamente aonde deveria estar. Isso é um castigo... Apenas um castigo por tudo o que você fez comigo.
- Não devo concordar pai. – Retificou-se, sacudindo a cabeça – Perdoe-me... Não devo chamar de pai o meu carcereiro, seria imoral.
- Mais imoral do que transar com um Youkai, bem nesse local?
- Você sabe que isso é mentira. – Ela replicou com os olhos faiscando de raiva. O pai falava coisas desse tipo na frente da irmã e ela não toleraria isso se estivesse em uma posição diferente.
- Como é mentira? Eu o vi tirando sua roupa, vocês estavam se beijando. Eu não estou louco, Kikyou!
- Disso eu duvido! Não parece uma coisa de uma pessoa equilibrada amarrar a própria filha numa masmorra e usa-la para atrair sua outra filha, só pra prendê-la também... Ou eu devo acreditar que isso não é loucura? Devo acreditar que você é mesmo mau desse jeito, majestade? – A maneira como ela conduzia o diálogo era surpreendente. A serenidade e o sarcasmo das palavras que ela recitava eram como música nos ouvidos da irmã. Por isso ela a amava, por ser sempre tão forte.
- CALA A BOCA! – Ele gritou nervoso. Destrancou a cela, parando de frente para a mulher que o enfrentava – Você não pode falar comigo dessa maneira, sua... Sua puta! – Deu um tapa em seu rosto. Ela sentiu o ferimento arder, mas ergueu os olhos, fixos nos dele. Não fraquejaria! Tinha que ser mais forte que ele.
- É assim que vai ser, não é? – Ela disse, entre os dentes – Tudo bem, apenas quero que liberte a minha irmã. Não vejo porque ela tenha que presenciar você me espancando e usando palavras de baixo calão. Não acho isso adequado para uma criança.
- Você se acha no direito de dar sua opinião? – Ele se revoltou, pegando pelos ombros e sacudindo-a com força – EU NÃO VOU TE OUVIR, SUA VADIA! NÃO VOU OUVIR UMA PALAVRA DO QUE VOCÊ ME DISSER, JAMAIS! – Empurrou-a contra a parede, e ela sentiu muita dor na cabeça, que bateu com força na parede.
- PÁRA COM ISSO! NÃO FAZ ISSO COM A KIKYOU! NÃO FAZ ISSO, PAI! – A menina gritava, com lágrimas nos olhos. Não podia ver o pai bater nela daquele jeito sem reagir.
- Cale-se! Eu não pedi sua opinião! – Ele replicou, dando um tabefe no rosto da criança, que deixou uma enorme marca – Quantas vezes eu vou ter que te dizer que te quero longe de mim?! Te quero longe dos meus assuntos, sua idiota!
- Você não tem o direito de bater na menina! Solte-a agora! – Irritou-se a irmã mais velha, se jogando em cima dele, mesmo que mal pudesse se mover. Não podia deixar que machucasse aquela que criara como uma filha.
- NÃO ENCOSTA EM MIM! – Ele gritou, empurrando a filha que antes dizia amar tanto. Começou a chutá-la, sem piedade. Ela sentia dor, mas tentava resistir. Não podia perder para ele. Não podia dar a ele o prazer de matá-la.
- PAI, você ta louco? Porque você ta batendo na oneesan?! Você amava ela! Você gostava mais dela do que de mim! Porque você ta batendo nela? PÁRA COM ISSO, PAI!
- Kaede, minha filha – Ela disse ainda no chão, sendo golpeada pelo pai. Nunca se referira a irmã assim, mas sempre se sentira assim com relação a ela. A criara como uma verdadeira mãe – Por favor, não se mete! Deixa eu resolver isso!
- Não, ele vai te matar!
- Eu vou mesmo! – Replicou o monarca, rasgando a frente de seu quimono, deixando-a semi-nua – Mas primeiro eu vou te expor! Vou mostrar para todos a vagabunda que você é! Vou gritar para todo o reino o quão maldita você é e vou queimá-la numa fogueira, diante de todos – Deu mais um chute em seu estômago. Ela se encolheu, apenas conseguindo pensar no InuYasha... Não podia morrer lhe prometera que voltaria e mentira... Precisava conversar com ele... Precisava se explicar. Aquilo não era justo!
- Pai... Depois de tudo... Eu senti muito ódio de você... Mas não sei se seria capaz de te matar... Porque tudo o que sinto agora é pena... Pena desse ser ridículo que você se tornou, obcecado por uma vingança louca... Sinto pena da sua insanidade, meu pai. – Ela disse, com a respiração entrecortada. Por mais que não quisesse admitir, seu pai era forte e tudo aquilo doía.
- ISSO É RIDICULO! ACHA QUE VOU CAIR NESSE TRUQUEZINHO BARATO?! – Pegou-a pelo pescoço, os olhos flamejando de ódio. Ela sentia dor, repetindo para si mesma o nome do amado. Tinha que vê-lo... Aquilo não era o fim...
- LARGA A MINHA IRMÃ – Gritou a pequena, se jogando no pai, que apenas a chutou contra uma parede e ela caiu, aparentemente inconsciente, com um gritinho estrangulado.
A sacerdotisa tentava segurar as mãos fortes, impedindo-as de apertar seu pescoço, mas o ar lhe faltava. Estava muito fraca. Sim, ele a mataria naquele mesmo instante. Ela jamais veria o seu amado de novo. Entreabriu a boca, em busca de ar. Seu pai já começava a machucá-la... Mais um pouco e acabaria morta.
- KIKYOU! SANKONTESSOU! – A voz que ela ouviu aliviou-a totalmente. Era ele… Ele viera salvá-la! Viu o pai cair para o lado, ferido. Não conseguiu ver o amado, pois caíra no chão, os olhos entreabertos – Kikyou! Kikyou, fala comigo! – Ele chamou, apavorado, pegando-a nos braços e rasgando as cordas que a prendiam.
- Eu... Estou bem... InuYasha... – Estava cheia de hematomas. Provavelmente sentia muita dor, mas se fazia de forte.
- Sua tola! Porque você foi embora?! Você quebrou a sua promessa! – Ele falou, aliviado por ver que ela estava viva – Eu te disse que ia com você! Olha o que esse maldito fez com você! – Ele estava muito nervoso. Parecia sentir uma raiva inestimável daquele homem.
- InuYasha... Me desculpa por isso... – Ela disse – Mesmo depois de eu ter mentido você veio me salvar... Obrigada...
- Feh! Não seja boba! Eu não podia te deixar morrer aqui. Fica quietinha, eu vou acabar com aquele maldito! – Deixou-a encostada na parede, cobrindo-a com o haori vermelho. Ela reparou que o ferimento dele ainda sangrava, tanto que havia uma mancha vermelha no quimono dele.
- Ora, o heroizinho veio salvar o dia! – Disse o homem, levantando-se, o arco e flechas em riste – Muito bem. Vamos ver quem é mais forte, Youkai!
- VOCÊ VAI MORRER PELO QUE FEZ A MIM E A KIKYOU! – Ele gritou, furioso. Kikyou nunca o vira tão possesso. Sentiu medo dele, por apenas alguns momentos. Depois temeu que ele fizesse alguma loucura. Ergueu-se, apoiada na parede. O olhar de seu pai lhe dizia que nada do que InuYasha fizesse o venceria... O que será que isso significava?
Viu o hanyou enfiar as garras no próprio ferimento. Sim, ele faria uma loucura. Quando ia chamar por seu nome, preocupada, viu que aquilo tinha algum propósito.
- HIJJIN KESSOU!
Lâminas avermelhadas cortaram o ar e ela ficou fascinada com aquele golpe. Ele era mesmo muito forte. O homem desviou a tempo, porém seu arco foi quebrado ao meio. Não houve tempo para pensar duas vezes. Quando dera por si, o Meio Youkai já o segurava pelo pescoço, com força, encostado contra a parede.
- Acabou! Agora você vai morrer, seu maldito! – Ele disse, sentindo pela primeira vez alegria ao começar a esmagar o pescoço de um humano.
- NÃO, INUYASHA! Por favor, não o mate! Mesmo depois de tudo ele ainda é meu pai! Por favor, InuYasha! – Pediu ela, andando em sua direção. Viu que ele tremia de raiva, mas a mão em torno do pescoço do homem afrouxou e ele soltou-o no chão.
Ele virou-se de costas. Já ia partir em direção à amada quando o homem atrás dele pegou uma flecha. A filha viu o momento, mas não teve tempo de reagir. Ele fincou a flecha nas costas do meio youkai. Este arregalou os olhos, tremendo. Um brilho rosa faiscou e a mulher apavorou-se, correndo até lá, ouvindo o grito estrangulado do homem que amava.
- NÃO! – Ela gritou, se jogando em cima do meio humano. Ele caiu, os olhos arregalados, trêmulo - Querido, está tudo bem? Consegue falar comigo? – Ele soltou um grito estrangulado de dor, se encolhendo ainda mais – InuYasha, não faz isso comigo! InuYasha! – Ele cuspiu um monte de sangue no chão, os olhos fechados. A flecha o atingira com muita precisão e o poder sagrado o teria matado se não fosse um hanyou e se ela não o tivesse separado do autor do golpe rápido.
- Não entendo... Se ele fosse um Youkai já estaria morto. – Uma voz masculina veio de trás deles. O homem já se erguera e parecia avaliar a situação, friamente. – Quer dizer que desde o começo ele não passava de um... Um hanyou? – Ele indagou, observando a filha abraça-lo. Ele não reagia. Parecia em estado de choque.
- Nem mesmo a dor... – A miko se levantava, com a cabeça baixa, a sombra cobrindo seus olhos – Nem mesmo você ter me espancado... Nem mesmo a pena... Nem mesmo o nojo... E nem mesmo o amor que eu um dia senti por você... Nada pai, nada vai curar o que você fez! – Ela ergueu a cabeça. Os olhos estavam cheios de lágrimas não derramadas – Eu vou te matar! Eu não tenho mais escolha... Não depois do que você fez ao InuYasha.
- Ele está morto? – Indagou o homem, embora parecesse estar pouco ligando.
- Não, ele não está morto. – Ela disse, claramente, dando alguns passos em sua direção. Seu arco e flechas ainda estava ali no chão, aonde ela deixara quando o homem a atraíra para a armadilha e ela o apanhou, rapidamente – Ele não vai morrer... A ÚNICA PESSOA QUE VAI MORRER AQUI HOJE É VOCÊ, PAI! – Ela gritou. Nem ele nem ninguém jamais haviam presenciado a mulher fora de si. Ela estava tomada pela ira, pelo ódio.
- Espera Kikyou. – Ele disse, parecendo enfim sentir medo – Você não pode fazer isso... Você vai ser presa... Vão te matar! – Olhava-a em pânico. Talvez estivesse voltando à lucidez. Mas não, a mulher não poderia perdoá-lo.
- Oneesan! – A voz da menina chamou. Ela olhou para a consangüínea, que a observava – Não faz isso... Não mata o papai!
A flecha tremia, ante as palavras da irmã. Ela não conseguia simplesmente soltá-la. Olhava para o rosto do homem que a criara durante toda a vida, que a pegara nos braços e a acalentara e simplesmente não era capaz de matá-lo. Caiu de joelhos, se sentindo inútil. Por que mesmo assim não era capaz de matá-lo? Seria ela tão fraca assim? Ficou olhando pro chão, tristemente, até ouvir uma voz que a muito não ouvia:
- Kikyou... – Chamou o homem a sua frente, com uma voz que ela imediatamente reconheceu como a do pai que pensara ter perdido. Quando ergueu a cabeça viu que ele tinha uma das mãos na testa, caído de joelhos. Algo estava diferente. Não parecia mais aquele homem de antes... – Minha filha... Atira a flecha! Por favor... Tem alguma coisa me dominando... Atira a flecha! – Ele falou, sentindo que sua ira se acalmara. Por um segundo a criatura que tomava conta de seu corpo perdera seus poderes.
- Me perdoe... Me perdoa, Kaede... Me perdoe, pai... – Ela disse, sentindo coração comprimir. Agora reconhecia o homem que a criara. Ele ainda estava ali! Tinha que obedecer a seu pedido... Sim, ela o mataria. Jamais o veria de novo. Atirou a flecha, que atingiu o peito daquele que tanto amava e que odiara com tamanha intensidade. Viu-o cair, sangrando, uma das mãos segurando a flecha atirada pela herdeira.
A mulher correu até ele, ajoelhando a seu lado. Viu um brilho negro deixar seu corpo e se evaporar no ar. Porém o ferimento em seu peito não parara de sangrar. Abraçou-o junto a si, deixando as lágrimas percorrerem seus olhos.
- Kikyou... Minha amada filha... Perdoa-me por tudo isso... Eu não consigo ouvir você dizer que me odeia! Eu a amo tanto...! E você é uma mulher tão linda agora... E tão forte e habilidosa como eu jamais sonhei que seria... Você me lembra muito... A sua mãe...
- Pai, me desculpa por não perceber... Não precisava terminar desse jeito! - Ela disse, acariciando seus cabelos.
- Não, minha querida... Você nunca pensaria... Eu sempre fui ausente... E agora me arrependo de nunca ter conhecido... Esse seu caráter forte... Arrependo-me de só ter te conhecido... Tarde demais... – Apertou a mão dela, sentindo que enfraquecia – Esse hanyou... Você o ama de verdade, não é? Ele... Vai te fazer feliz? – Ele dizia com a voz fraquejando.
- Ele vai sim... Mas não vá, pai... Eu e a Kaede vamos sentir muita falta sua!
- Não, vocês... Serão felizes... Agora eu vejo que estava certa... A sua irmã... Ela será uma ótima rainha... E você seja feliz com... Esse... Youkai... – Começava a fechar os olhos – Eu as amei... Muito... Kikyou... Kaede...
- PAI! PAI! – Gritou Kaede, chorando – Kikyou... Kikyou, ele..?
- Ele se foi... – A moça murmurou, levantando-se e abraçando a irmã – Estamos sozinhas agora, querida... Ele partiu...
Ela abraçava a irmã, que parecia mais calma do que deveria. Ela amadurecera muito. Agora derramava lágrimas de sofrimento, mas se mantinha quieta, deixando que a irmã a consolasse. Ficou lá por pouco tempo. Olhou de relance para o ferido, olhando depois para a irmã.
- Kikyou-san... Vá ver o InuYasha... Ele me parece mal. – Ela disse, liberando a irmã.
- Você vai ficar bem, Kaede?
- Claro... Vá ficar com ele. – Tentava disfarçar a voz rouca e embargada, para convencer a primogênita.
Ela desejava do fundo do peito que o homem que a irmã amava também não estivesse morto. Não queria que ela sofresse ainda mais. Observou, com bastante calma, a experiente mulher ajoelhar-se ao lado daquele hanyou. Viu quando ela o pegou nos braços, como uma criança, encostando-o contra seu peito. Sentiu-se melhor ao ver que ele entreabrira os olhos, porém não parecia nada bem. Aquilo guardava alguma semelhança com a cena que ela vira momentos antes com seu pai.
- InuYasha... Como você se sente? – Indagou sua amante, acariciando as madeixas prateadas.
- Eu... Acho que... Vou ter que... Te deixar... – Ele murmurou, tristemente – Me perdoa...
- Não diz isso pra mim. Por favor, InuYasha... – Ela pediu, beijando-o na boca. Ele correspondeu, mesmo que não tivesse muitas forças. Sentiu o sabor das lágrimas salgadas dela, que acabara de perder o pai – Seja forte!
- Eu estou muito ferido... – Estava sendo sincero. Tomava-lhe a mão com carinho, embora tremesse muito – Eu te amo...
Ela o abraçou, silenciosamente sentindo como respirava fraquinho. Chorava sobre ele. Nunca sentira uma dor como aquela... Não podia perdê-lo... Não queria que morresse. Ela só queria ouvir sua voz mais uma vez... Mas sabia que seria impossível. Ouvindo seus últimos suspiros, ela desejava que ele ficasse bem, seja lá para onde fosse.
- Kikyou! – O comandante Takashi entrou na sala, confuso. Encontrou a mulher que nunca vira derramar apenas uma lágrima abraçada no Youkai, chorando copiosamente, o rei aparentemente morto e a pequena Kaede ainda amarrada, embora próxima da irmã, observando-a – Mas o que houve?
- Takashi... Me ajuda, por favor! – Ela ergueu a cabeça, ainda agarrada ao amado, como se isso o trouxesse de volta – Ele está muito fraco... Takashi, por favor!
- Fica calma, Hime-sama! – Ele disse, correndo até ela – Me deixa ver – Pegou o pulso do Youkai, depois colocou a mão diante do seu nariz e em sua testa, agradecendo a Deus pelo fato de ele não ter morrido, senão ele teria que dar essa notícia terrível á moça – Ele está enfraquecendo demais. – Olhou ao redor, nervoso – HOMENS! VENHAM ATÉ AQUI! – Vários soldados adentraram o local – Levem o Youkai até o abrigo, rápido, e depois chamem o curandeiro. Tenham muito cuidado, ele está por um fio – Os homens receavam – O que estão fazendo?! ANDEM LOGO! Vocês são ao não são leais a Kikyou-sama?! – Os homens obedeceram, levando o Hanyou dali, com muito cuidado – Agora, Kikyou, como está o rei?
- Ele se foi, Takashi. – Ela disse, tristemente – Ele pediu que eu o matasse... Um demônio o estava possuindo... Tive que matá-lo para livrá-lo da maldição.
- Oh, Deuses! – Ele vociferou decepcionado – Então era isso... E todos pensamos que estava louco... – Observou a nova rainha, por alguns segundos - A senhorita me parece machucada... E sua irmãzinha também... Venha comigo, vamos levar vocês para o abrigo também. Deixe que depois removam o corpo, está bem? – Ela fez que sim, tristemente, enrolando-se com o haori vermelho do amado. Ainda sentia seu cheiro nele. Apertou-o contra si, como se isso lhe desse forças para continuar.
Desamarrou a irmã junto com o novo amigo. Sentia-se extremamente grata por ter aquele homem em sua vida. Sem ele, provavelmente, agora estaria chorando com seu amado nos braços, sem vida. Pegou a irmãzinha pela mão e ela parecia conformada com toda aquela situação. Orgulhava-se dela por isso.
Foram conduzidas pelo comandante até o abrigo; Kikyou notara que ele tinha um olhar de pena, como se ela houvesse perdido tudo na vida. Talvez sentisse apenas pelo rei... Ou talvez tivesse medo de lhe dizer que InuYasha não sobreviveria. Analisava-o devagar, desejando que ele apenas lamentasse a morte de seu amado pai. Não podia perder mais ninguém... Não estava em condições emocionais para qualquer perda.
Já num abrigo, separado do de InuYasha, elas foram tratadas e alimentadas, cuidadosamente. Todos se sentiam preocupados e expressavam seu pesar pela perda do rei. Ela apenas acenava com a cabeça. Não estava pronta para conversar sobre isso. Apenas queria pensar no Meio Youkai, pedindo com todas as suas forças para que ele vivesse. Talvez assim tivesse forças para conviver com a idéia de que tivera que matar o próprio pai.
Sua cabeça estava cheia, não conseguia parar de pensar sobre tudo o que ocorrera naquele combate. Pensou que não conseguiria dormir com tantas preocupações, mas enganou-se completamente. Simplesmente apagou, de puro cansaço físico e mental. Todo aquele tempo passando fome, medo e tensão, além dos ferimentos grosseiros que seu pai lhe infligira foram demasiado fortes para alguém que não tinha o menor costume.
Acabara por despertar de madrugada. Sua irmã dormia, sem qualquer rastro de preocupação em seu rosto. Parecia tão inocente naquele momento, que sentiu vontade de tocá-la, mas não o fez com medo de que despertasse. Ergueu-se, sentindo bastante dor. Ignorou os ferimentos que a faziam cambalear, sem fixação nas pernas. Agora sentia o impacto das pancadas que levara.
Fez um enorme esforço, ignorando as dores. Seguiu para fora do abrigo, dirigindo-se a um outro... Talvez ele estivesse lá. Adentrou o local, com um pouco de medo. Olhou nos futons e estranhou o fato de não haver ninguém ali. Porém, num canto, reconheceu o ferido, indo até ele. Era InuYasha e seu aspecto estava terrível. Estava coberto até o abdômen, o que tampava o horrível ferimento que ali havia. Estava com uma expressão contraída, como se sentisse dor mesmo ao dormir. Um monte de marcas se faziam presentes... Marcas das batalhas que eles enfrentaram consecutivamente. Não havia percebido até o momento o quão ruim estava a situação dele. Somente agora via a força que tivera em continuar até o fim... Talvez ele tivesse que ir... Talvez isso fosse o melhor para ele. Pegou a mão gelada dele. Os olhos ainda estavam tão cerrados quanto antes, não dava sinal de despertar.
- EI! – Uma voz veio da porta e ela se assustou, dando um pulo. Virou-se para a pessoa, reconhecendo uma curandeira e se aliviando – Perdão, alteza – Ela fez uma reverência, desajeitada – Eu pensei que tivesse alguém invadindo!
- Não se preocupe... Perdoe-me também, eu estava errada. Não deveria estar aqui – Ela disse, olhando-a com tristeza – Será que posso ficar um pouco mais com ele?
- Claro Kikyou-sama! – A mulher confirmou, efusivamente. Parou por um momento, ajoelhando ao lado do meio youkai. Ao observá-lo a excitação dela se apagou e ela se tornou subitamente sombria – Mas tome muito cuidado... Ele está num estado ainda mais delicado que antes. Ainda não recobrou os sentidos.
- E o que a senhora acha? Ele vai ficar bem? – Ela segurava sua mão, olhando nos olhos da enfermeira.
- Hime-sama... Eu não entendo muito de... De Youkais, nem mesmo de Hanyous, como é o caso deste. – Ela parecia triste – Mesmo ele sendo um Hanyou, estou tentando fazer o melhor possível... Posso dizer que se ele fosse um humano teria pouco tempo de vida.
- Entendo... Eu agradeço muito o bom trabalho que está fazendo... A senhora não era obrigada a ajudá-lo, porque ele não é um humano, mas o fez assim mesmo. Eu agradeço muito mesmo por isso.
- Ora... Ha ha ha, não tem de quê – Ela riu, sem graça – Eu quero ajudar as pessoas, é por isso que trabalho como curandeira. Ele não é como nós, mas... Bem, eu nunca tive nada contra Youkais! – Ela sorriu – Vossa alteza também parece machucada, não deveria estar descansando?
- Sim... Mas eu não pude deixar de vê-lo. – Acariciou o rosto dele, de leve. Sentia sua falta. Queria vê-lo bem e acordado, mas sabia que não era possível – Não precisa ser tão formal comigo. Pode me chamar de Kikyou, senhora...?
- Takada. – Ela sorriu, feliz. Conseguir intimidade com a princesa não era muito comum e era bem favorável.
- Certo – A sacerdotisa replicou – Eu posso mesmo ficar com ele um pouco?
- Claro, fique à vontade, Kikyou-sama – Ela replicou, deixando a sala, calmamente – Volto já.
Ela agradeceu, intimamente, pelas palavras da mulher, ficando mais um tempo ao lado do rapaz adormecido. Observou seu semblante, desejando novamente que tudo terminasse bem. Ficou vendo-o respirar, ritmicamente. Viu que ele pressionou as pálpebras umas contra as outras. Desejou intensamente que seus olhos se abrissem e isso aconteceu, segundos depois. Com o coração acelerado de alegria ela pegou sua mão, nervosamente:
- InuYasha! Querido, consegue falar? – Ele entreabriu a boca, respirando com força. Ela viu que pressionava a própria mão, provavelmente graças à dor forte que sentia. Ela acariciou seu rosto e ele olhou-a, parecendo mais calmo que ela – Consegue me dizer como se sente? Não se esforce demais, se não conseguir não tem problema, está bem? – Ele fez que sim, de leve.
- Ainda ta doendo... Demais... – Pegou a mão dela, apertando-a – Eu vou ficar bem... Eu quero que você seja forte... Ta bem? – A miko fez que sim, com medo. Não queria que ele falasse daquele jeito. Não o reconhecia quando estava assim – Acho que estou com febre... – Murmurou, fechando os olhos – Sinto frio.
- Deixa eu ver – Pôs a mão em sua testa – Não, não está. Acho que você só está fraco por causa do sangue que perdeu. A curandeira acabou de sair. Ela me disse que se você fosse um humano você teria pouco tempo de vida... Mas ninguém aqui sabe muito sobre Youkais... Muito menos Meio Youkais – Ela disse, olhando-o nos olhos, que ele novamente abrira ao ouvir sua voz.
- E você? Está tudo bem?
- Eu estou bem. Já cuidaram dos meus ferimentos, daqui a pouco estarei bem. E a Kaede-chan também. Quanto ao meu pai... Ele já se foi.
- Eu vi. – Ele replicou, simplesmente, parecendo mil anos mais velho ao suspirar, cansado.
Passos foram ouvidos. A princesa olhou para a porta, vendo a senhora Takada adentrar, apressada. Ela olhou de relance para o local onde a nobre estava e se aproximou rapidamente ao notar que o paciente tinha os olhos amarelos abertos. Ajoelhou do outro lado dele, falando, com uma voz doce:
- Ora, vejam só quem acordou! – Sorriu para a princesa – A senhora lhe trouxe muita sorte, ele estava inconsciente há muito tempo – Ela tocou sua testa e depois pegou seu pulso, cuidadosamente. Ele não se moveu, apenas observando-a e às vezes dava umas olhadas para a amada.
- O que acha? - Uma voz feminina indagou incerta.
- Nada mal, a velocidade de recuperação dele é absurda... – Sorriu para a princesa, que parecia bem preocupada – Não precisa ficar nervosa, Kikyou-sama... Tudo o que temos a fazer é aguardar a recuperação dele, está bem?
- Claro, a senhora está certa... – Ela voltou sua atenção para o hanyou, que apertava sua mão com força demais – O que há? InuYasha?! – Se assustou ainda mais, já que ele pressionava as pálpebras umas contra as outras, os dentes trincados. A mão que não apertava a dela estava na frente do peito, completamente fechada.
-Oh, céus! O que houve? Ele parecia ótimo... – Lamentou-se a "médica", tocando sua testa – Como eu temia... Está ardendo em febre...
- Mas ele estava ótimo há segundos atrás... – A mulher queixou-se, acariciando seus cabelos.
- Isso é tão estranho... – Ela pegou um copo de água, entornando o conteúdo em seus lábios – Isso beba... Devagar... Muito bem... – Desviou os olhos do enfermo, se voltando para a monarca - Eu acho melhor a senhora voltar para o seu abrigo... Venha amanhã de manhã, está bem? Eu não sei o que há com ele, mas quanto menos gente perto dele melhor, ok?
- Tudo bem – Ela se conformou triste, levantando-se – Por favor, se alguma coisa acontecer... Me informe, está bem? Amanhã logo cedo eu volto.
Ela não respondeu, estava outra vez submersa no seu trabalho, tentando cuidar daquele que era a coisa mais preciosa da vida da herdeira do rei. Era um trabalho que poderia ser privilegiado ou não, dependendo do resultado. E aquele resultado parecia que seria bem negativo, se ela não se empenhasse integralmente.
Na manhã seguinte ela ainda estava lá, encostada numa parede, enfim descansando. Não adormecera nem por um segundo durante toda a longa madrugada. Ele lhe dera bastante trabalho, pensou, embora sentisse uma preocupação quase pessoal pelo rapaz deitado naquele futon. Mesmo que não falasse com ela, de alguma forma sentira que apesar de ser um Youkai havia algo bom nele... Afinal, era o amante da princesa, ela pensou consigo mesma sorrindo ao lembrar do olhar dela para ele... Talvez um dia ela fosse sentir algo tão especial por alguém... Quem sabe um dia... Ante a esse pensamento ela sorriu.
- Takada, como está o Youkai? – O comandante entrou no local, sem nem ao menos pedir licença.
- Takashi-sama, não faça barulho! Ele finalmente adormeceu, quer acordá-lo outra vez? – Ela se irritou. Odiava que entrassem sem pedir sua permissão.
- Ora, me perdoe! – Ele tratou de abaixar o tom de voz – Escute, a princesa está indócil para vê-lo... Vim aqui saber se há algum problema. Sabe, ela está me deixando louco. – Ele zombou, observando a mulher a sua frente.
- Mas é claro que ela pode! Vá chamá-la, depressa! Pobrezinha, deve estar tão preocupada!
Ele se retirou, voltando poucos segundos depois com a referida mulher, que se ajoelhou ao lado do hanyou, sem nem pensar duas vezes, observando seu semblante, novamente adormecido.
- Ele está bem. – A voz doce de antes veio do canto e ela ergueu a cabeça – Está descansando. Ele teve uma noite bem difícil. Está sofrendo muito. Tente não acorda-lo, está bem?
- Acho que é tarde demais – Murmurou a princesa, notando que as orelhas caninas se moveram, bruscamente – Ele está acordando.
Viu aqueles olhos, tão abatidos se abrirem, observando-a, silenciosamente. Não fez nenhum comentário. Era como se não houvesse nada que ele quisesse dizer. Ficou observando o jeito como ela o olhava, aqueles olhos esbanjando preocupação, e pegava-se pensando como conseguira que aquela mulher linda se preocupasse de tal forma com ele.
- InuYasha...? Como se sente?
- Melhor – Ele disse, simplesmente.
- É bom ouvir isso.
- Deixa eu ver – Disse a curandeira, colocando a mão na testa dele – A febre cedeu um bocado... Mas ainda está bem alta. – Pegou um pedaço de pano e molhou na água que havia em um balde, colocando-a sobre a testa do enfermo, tranqüila – Tudo bem! Ele precisa de bastante repouso. Os ferimentos eu já enfaixei ontem à noite, acho que dentro em pouco ele estará bem e poderá ir para casa repousar.
- É muito bom ouvir isso – Disse a filha do rei, pegando a mão dele – Ouviu InuYasha? Daqui a pouco você vai estar bom. – Seu olhar brando lhe dizia que estava realmente aliviado, embora parecesse bem fraco – Olha, é melhor você dormir bastante. Descansa, ok? – Ele fez que sim, fechando os olhos. Ela acariciou seus cabelos, feliz por ver que estava bastante melhor que na noite passada.
- Kikyou-sama – Disse Takashi, abaixando-se ao lado dela e pondo a mão em seu ombro – Acho que você deve explicações ao povo... E precisamos conversar sobre o futuro de vocês todos: Kaede, você e... O hanyou... – Ele falava sobre isso de uma maneira estranha, era como se também fosse contra aquele romance, também achava estúpida a sua atitude como todos os outros, embora ele ainda a admirasse.
- Comandante, eu... Eu quero resolver isso quanto antes... Mesmo sendo difícil, eu prometo que vou tentar fazer isso ainda hoje. A princípio, quero saber o que o senhor pensa sobre isso? Acha que vão acreditar em mim, mesmo depois de tudo...?
- Não. Eu temo pela sua segurança, Kikyou hime-sama... Eu acho que há um risco grande das pessoas se revoltarem... Você sabe que, como foi você quem matou o rei, muitas pessoas que eram fiéis a ele, principalmente após o ouvir gritar por todo o castelo que você era uma... Uma traidora e amante de um Youkai... Depois de ele gritar para todos ouvirem que você é uma vagabunda, creio que seja difícil você ainda ter uma credibilidade grande. E se acharem que você assassinou seu pai pela herança, isso seria um golpe bem difícil. Eu quero que esteja preparada ao falar com eles.
- Eu fico muito grata por tudo o que vem fazendo, Takashi. Sua preocupação é mesmo muito valiosa para mim, você é uma das poucas pessoas que teve fé em mim desde o principio... E eu estarei sempre preparada! Mesmo que condenem minha decisão eu tenho certeza de que não tive escolha alguma... Eu vou conversar com eles. Anuncie que eu vou falar no salão principal, ao meio dia, antes do almoço.
- Será um prazer. – Disse o homem, deixando o local, rapidamente.
Ela respirou fundo, sentindo que aquilo seria uma das coisas mais difíceis que já fizera. Mas estava pronta! Sempre estaria pronta... Se o homem que amava fora forte o suficiente para sobreviver a toda aquela dor, ela também seria capaz de derrotar todos os obstáculos para enfim poderem viver em paz, juntos. Sim, iria encarar toda aquela gente e diria toda a verdade a elas.
E o dado momento chegou mais rápido do que ela planejara. Antes mesmo que pudesse refletir sobre o que dizer ela estava lá, após um longo banho, vestindo as roupas de nobre que jamais pensara que tornaria a vestir e cheirando a seu perfume favorito: o perfume das sakuras. Terminou de trajar-se, seguindo até aquele salão, que agora estava lotado de pessoas, com expectativa. Viu seus rostos assustados enquanto murmuravam ao vê-la descer as longas escadas. Ela parou mais ou menos no meio dela, observando os perplexos e confusos cidadãos que esperavam pelas suas respostas. Respirando forte ela começou, com a voz tranqüila de sempre:
- Olá a todos! Obrigada por estarem aqui. Tudo o que tenho a dizer é muito importante e espero que todos me ouçam e que não temam em me perguntar qualquer coisa. Estou aqui justamente para ouvi-los e para contar meu lado da história tão injusta que o meu, infelizmente, falecido pai contou-lhes durante os dias de minha ausência. Muito bem... Acredito que muitos de vocês não conhecessem os métodos de meu pai. Ele espancava o Youkai que prendeu no calabouço para que dissesse mais informações que ele não possuía. Sua idéia era conseguir dados para começar uma guerra e dominar o reino dos Youkais, o que implicaria em muitas mortes... Ele estava preparando isso sem consultar ninguém. Isso me deixou bastante preocupada... Enfim, tive diversas discussões com ele e no fim acabei por ajudar o Youkai que estava nos calabouços. Vocês vão acreditar que foi terrível da minha parte e eu os perdôo por isso, muitos de vocês nunca conheceram um youkai até por medo e por essa rixa que nós temos com eles.
Observou os rostos descrentes. Pareciam todos assustados com as palavras dela. Os cochichos somente aumentavam, embora algumas pessoas continuassem a olhá-la, silenciosas. E ela, mesmo sabendo que provavelmente tudo o que falava seria em vão, prosseguiu, com convicção:
- Mas as idéias que meu pai tinha em mente eram contrárias às minhas e eu fui imatura, acabei tentando desafiá-lo ao ir procurar o Youkai. Acabei descobrindo que ele não era um Youkai e sim um hanyou, ou seja, um híbrido de um humano com o youkai, uma coisa que me fez sentir ainda mais próxima dele. Não tenho vergonha alguma de dizer que acabei me apaixonando pelo ser que tanto insistem em chamar de monstro. Eu compreendo o quão imoral e o quão errado é, compreendo que jamais serei aceita por gostar dele... Mas não posso evitar. O coração não escolhe por quem vai bater mais forte. E eu acabei me apaixonando por ele, vou aceitar se vocês não forem capazes de perdoar isso. E meu pai descobriu que eu o ajudava e acabou indo ao calabouço e sinto dizer que ele enlouqueceu, fazendo falsas acusações sobre mim...
- É mentira! – Disse um homem, na multidão, acusando-a – Essa mulher é uma mentirosa! Eu a vi beijando o Youkai, eu vi quando ele começava a tirar sua roupa. Nosso rei não estava louco, ela era mesmo uma amante de um Youkai.
- Não, eu não era. - Ela replicou, sem mudar o tom de voz – Eu confesso que ele me beijou sim. Confesso também que quase fizemos amor, mas eu nunca havia feito aquilo antes. Nunca nem mesmo algum homem havia tocado meus lábios. Vocês têm a minha palavra de honra, eu não havia sido tocada antes daquele dia. Eu sei que por mais que eu fale não acreditarão, até porque meu pai foi demasiado enfático quando citou esse caso. Entendo que não aceitem isso! Eu quero que ouçam não pelo fato de eu ser uma mulher pura, mas pelo fato de eu ser a herdeira efetiva de todo esse reino. – Olhou-os, seriamente, prosseguindo – Como todos viram, eu acabei por fugir e passei algum tempo vivendo com o Youkai. Eu jamais pretendia voltar para cá, se dependesse de mim abandonaria a vida de nobre para sempre, talvez vocês jamais tornassem a ouvir meu nome. Mas vossa majestade usou de um truque terrível para me atrair para casa. Ele seqüestrou minha irmã mais nova, Kaede e a usou de isca. Eu fui obrigada a voltar, não podia deixar que fizessem mal a uma criança. Quando apareci, ele me seqüestrou também e ficamos as duas com fome, sendo espancadas naquele calabouço, com sede e frio. Passamos o dia lá e quando ele estava prestes a me matar o InuYasha.. Ou o Youkai, como vocês ainda o chamam, veio me salvar e... Vou simplificar tudo... Meu pai pediu para ser morto por mim...
- MENTIRA! – Gritou outro homem – Ninguém nunca faria isso! Imagine só, pedir para ser morto! Essa mulher é louca!
- Eu lhes peço que me ouçam. – Ela enfatizou, tomando novamente a palavra – Ele me pediu, num ato nobre, que eu o matasse. Disse-me que ele fora capturado por um Youkai e esse agora o dominava. Era por causa disso que ele vinha agindo de uma forma estranha tanto comigo quanto com todos vocês – Os murmúrios aumentaram tanto que formaram uma verdadeira balbúrdia – Por favor, me escutem! – Ela pediu, fazendo com que voltassem novamente a atenção para ela – E eu fui obrigada a obedecê-lo ou iríamos todos morrer. Eu sei que muitas pessoas não vão acreditar nas minhas palavras. Eu quero ser muito sincera e expor toda a história para vocês, mas sei que mesmo assim muitos de vocês serão incapazes de me aceitar de novo depois de tudo. Mas eu espero que perdoem nosso rei por todas as coisas más que fez quando estava sob controle daquele demônio... Ele era um homem muito bom e todos sentiremos muita falta dele. – Ela manteve-se calma, olhando para os cidadãos. Nunca pensara que faria uma coisa como aquela, mas muitos choravam, tristes – Eu estou de luto e espero que vocês também fiquem, em respeito a sua partida honrada. Ele morreu como um guerreiro.
Ela novamente passou os olhos pela multidão, com orgulho do que via. Suas palavras surtiam um grande efeito. Não pareciam mais acusá-la, apenas respeitavam sua dor compartilhada com todo o povo de perder um líder como esse.
- Sim, mas depois de sua partida devemos seguir em frente. Eu quero que minha irmã, Kaede, governe esse reino. Eu quero que passe para ela esse império que todos nós erguemos. A princípio a vontade de meu pai era que eu assumisse, mas ele me pediu à beira da morte que deixasse tudo isso para Kaede... Eu vou cumprir o seu desejo. – Fez um pequena pausa - Mas temos um pequeno problema. Minha irmãzinha não tem idade suficiente para nos representar... Ela não poderia tomar decisões para um reino com apenas onze anos de idade, ela só pode ser considerada uma rainha a partir dos dezoito anos... Provisoriamente, vou tomar conta do reino. Não pretendo realizar nenhuma cerimônia de coroação, nada disso! Apenas ficarei tempo o suficiente para escolher pessoas de confiança que governarão juntas enquanto minha irmã não tem idade para tomar conta desse lugar. Quando tiver cumprido esse dever pretendo partir do reino e não retornar mais. Espero que todos concordem e qualquer coisa que queiram questionar, peço que me procurem imediatamente.
Ela fez uma leve reverência, segurando o vestido negro e partiu agradecida por ouvir que a aplaudiam. Pareciam ter aceitado bem a idéia, e isso a alegrava. Todo o seu temor passara. Aquelas pessoas não a odiavam... Algumas discordavam de sua opinião, mas definitivamente elas aceitaram bem suas explicações e concordaram com o futuro que ela estabelecera. No quarto, que um dia fora seu, ela passou o resto daquele dia, pensando sobre o futuro daquele reino. Sua irmãzinha teria que ter aulas para aprender como liderar, mas ela se sairia bem.
E os dias se sucederam. Kikyou passava várias horas ao lado do amado, que ora melhorava ora piorava, com febres altíssimas e sangramentos. Por fim ele foi liberado, ainda um pouco machucado, mas parecendo quase completamente restabelecido. Ainda sentia muita dor, mas não tinha mais febre e conseguia andar e falar normalmente, voltando até a agir de seu modo agressivo. A mulher se sentia bem melhor ao saber que tudo corria bem. Frequentemente tinha que perder horas discutindo interminavelmente questões banais do reino com pessoas de cargos altos e achava aquele trabalho extremamente chato. Mas era obrigada a realizá-lo... Até que elegesse seus sucessores teria que viver daquele jeito.
Transferiu-se junto com o amado para o quarto que antes pertencera ao seu pai, pois havia uma cama de casal. Ele não fora bem aceito pelos outros humanos e passava a maior parte do tempo dentro daquele quarto, olhando pela janela. A mulher sempre alegava que ele ainda se recuperava, o que não deixava de ser verdade e o deixava comer e passar todo o seu tempo dentro daquele cômodo. Entendia seu desconforto. Todas aquelas pessoas o olhavam como se fosse o culpado de todos os problemas do mundo.
E mais uma vez ela entrou pela porta do enorme aposento e o encontrou sentado no parapeito da janela, observando os enormes jardins. Parecia triste. Ela sabia que ele não pertencia aquele lugar... Nem mesmo ela pertencia! Sabia que ele se sentia mal ali, mas nada poderia fazer quanto a isso... Não por enquanto.
- InuYasha – Ela chamou, tranquilamente, acordando-o de seus devaneios – Você não quer sair daqui um pouco? Vamos dar uma volta, você nem conhece o castelo ainda...
- Feh! Eu não preciso disso! – Foi sua resposta, cruzando os braços, novamente teimando com ela. Por mais irritante que pudesse parecer, ela achava seu comportamento bonitinho e não ligava.
- Querido, você precisa se divertir um pouco... Você passa o dia todo trancado aqui dentro – Ela parou ao lado dele, uma das mãos sobre seu ombro – Escute, eu sei que você não gosta de humanos, que te deixam desconfortável, eu sei também que deve ser muito difícil agüentar todos aqueles olhares em cima de você... Eu entendo que ninguém gosta de você aqui dentro. Mas a verdade é que todos eles vão te respeitar porque você é, atualmente, o rei... Mesmo que eles achem isso desagradável, sendo eu rainha e você meu futuro esposo, eles tem que te aceitar de qualquer maneira! Não quero que fique sozinho aqui... – Ela fez uma pausa, esperando que ele comentasse. Mas ele apenas olhava para fora, observando todas aquelas pessoas – O que me diz? Eu não quero que fique aqui dentro triste... Eu quero você feliz! Vamos... Eu vou com você. – Insistiu, vendo que ele desviara os olhos da rua, agora olhando para ela.
- Ta bem! Se você insiste tanto, o que eu posso fazer? – Não parecia feliz com a idéia, mas se ela pedia, então obedeceria.
- Ótimo. – Ela se afastou, tirando aquelas roupas e pegando outras mais simples no armário. Trocou-se rapidamente, olhando-o – Vamos.
Saiu do quarto sendo seguida por ele, que observava o local desinteressadamente, apenas seguindo a amada pelos longos corredores. As pessoas passavam rapidamente, sem olhá-los. Algumas pareciam chocadas, observando o Youkai pelo qual a atual rainha se apaixonara e outros pareciam completamente amedrontados com sua presença. Ela ignorou a todos, seguindo com ele até os enormes jardins e observando o local como se nunca antes o houvesse visto. Não conseguia imaginar o que se passava pela cabeça do meio youkai, mas sabia que ele jamais havia estado num local tão majestoso do que aquele reino. Já estava há alguns passos sem ouvi-lo atrás de si e parou, se virando. Ele estava diante de uma linda cerejeira, florida graças à primavera. Observava-a e era a primeira vez que ela o via contemplar alguma coisa com tamanha paixão. Era como se aquela árvore fosse, de alguma forma, especial para ele.
- Cheiro de sakuras... – Ele murmurou, observando a bela árvore – É igual ao... Ao cheiro da minha mãe... – Sua voz falhou por um instante e as sombras cobriram seus olhos. Parecia triste agora, como se a lembrança não fosse tão agradável. A humana pegou sua mão, sem saber o que dizer. Ele ergueu novamente a cabeça, admirando a frondosa árvore – Eu já tinha visto uma árvore como essa, mas... Não estava tão bonita... – Tocou seu tronco, silenciosamente. Passou pouco tempo dessa forma, depois se virou para a mulher com a qual escolhera partilhar o resto de sua vida – Vamos...
Aquela única palavra bastou. Ela não lhe perguntou mais nada. Jamais desejaria que ele relembrasse e sofresse, sabia o quão difícil havia sido o caminho que ele percorrera. E nada do que acontecera antes lhe importara. O que sabia sobre ele lhe bastava. Observou-o, ponderando que sua mãe fora uma mulher magnífica e muito forte, sem dúvidas, para criá-lo mesmo a despeito do preconceito e de todas as dificuldades. Devia muito à essa mulher espetacular, concluiu, novamente apertando a mão do homem com o qual decidira partilhar o resto de sua vida.
Pararam outra vez diante da enorme árvore quando o sol já estava se pondo. Sentaram-se em meio às flores que sacudiam com a brisa. Ele abraçou-a junto a si, feliz e realizado. Apesar de tudo agora ele a tinha nos braços. E nada no mundo jamais seria capaz de separá-los mais uma vez. Nenhum humano ou Youkai poderia destruir seus sentimentos. Se sentindo pela primeira vez na vida completo, ele sabia que sua missão já havia chegado ao fim. Agora poderia descansar na companhia tranqüila daquela que o amava mais até do que a si mesma.
- InuYasha... Você é feliz aqui?
- Que pergunta é essa? – Ele indagou, revoltado – Mas é claro que sim, sua tola!
- Eu quero dizer... Você tem certeza? Quanto a mim e quanto a viver aqui? Eu sei que você não gosta desse lugar...
- Kikyou! Pare de falar bobagens! Eu te amo... Esqueça todo o resto! – Beijou-a, docemente, sentindo o gosto de seus lábios.
E após aquele doce ósculo eles assistiram ao pôr do sol... Sabiam que aquele momento não seria tão breve esquecido. Sabiam que dali para frente estariam interligados pelo resto da vida... Iriam se casar e viveriam juntos em algum lugar que não fosse tão desconfortável para eles... E finalmente poderiam ser felizes, apenas o que realmente eram: Uma sacerdotisa e um Meio Youkai, sem serem julgados e condenados por nenhuma pessoa. Dentro em breve eles seriam livres para toda a eternidade...
