Morrigan voltou ao makai animada. Havia tido uma boa refeição no mundo dos humanos. Ela pousou na varanda de seu luxuoso quarto. Estava no castelo Aensland, aonde reinava o rei de todo makai, o demônio classe S, Belial Aensland, seu pai.

Morrigan foi ate sua cama e se deitou relaxando. O makai era tão... chato, ela sempre pensou isso. Seu pai era tão poderoso que não haviam mais guerras nem disputas. Bem haviam pequenas guerras e assassinatos todos os dias, mas nada em grande escala, nada que ameaçasse a ordem de poder que girava em torno da família Aensland. Não haviam mais conspirações maquiavélicas para tomarem o poder, a paz estava firmada (a custo de muito sangue e sacrifícios), mas estava firmada e consolidada. Não havia ninguém em todo o makai que fosse tolo o suficiente para se voltar contra Belial, embora claro muitos desejassem fazê-lo.

Para ela uma "jovem" sucubus de setecentos anos a paz era deprimente e sem graça. Um mundo em paz desconhecia a tonalidade vermelha do sangue, e o calor contagiante das batalhas.

Era esse um dos motivos que Morrigan gostava no mundo humano, lá não havia um poder centralizador, não havia lei. Bem, havia sim uma lei, uma única lei, e essa era a lei do mais forte. Darkstalkers e humanos dançavam a dança da guerra a séculos, o ódio crescente entre as duas raças. Os grandes heróis e tiranos que surgiam como estrelas poderosas e logo se apagavam... lá havia movimento! E isso era irresistivelmente tentador para ela! Morrigan adorava movimento, gostava do novo, odiava a acomodação, gostava do inesperado e do imprevisível. Ela via o mundo humano mudar e amava isso.

O makai pelo contrario estava estabilizado, era como se houvesse parado no tempo desde que Belial centralizara o poder e derrotara um a um seus inimigos. Claro que os Aensland não eram o único clã no poder, haviam ao todo sete famílias nobres, cada qual com seus domínios, seus lideres, seus castelos e seus vassalos. Era fato porem que a casa Aensland tinha sozinha poder suficiente para destruir as outras seis juntas, então que graça isso tinha? Ninguém queria começar uma guerra em que não haviam chances de vencer.

Ela ouviu uma batida na porta de seu quarto e logo Gek e Dik surgiram. Os dois darkstalkers eram figuras cômicas, Gek tinha pele esverdeada, um corpo pequeno e atrofiado como o de um anão, media um metro e quarenta, só sua testa que era exageradamente grande tinha cinqüenta centímetros. Dik era o oposto, grande e desajeitado, com uma pele também verde. Os dois serviam a família Aensland a anos, eles viviam tentando manter Morrigan na linha e fazê-la uma princesa ideal para o clã Aensland. Claro que essa era uma tarefa impossível.

- Já dissemos que não deve ir ao mundo humano srt. Morrigan. Não sem avisar – disse Gek com sua voz arrastada e cansada.

- Estávamos procurando por você a horas, seu pai quer falar com você... – disse Dik com sua voz lenta e abobalhada, como se juntar as palavras e dizê-las em voz alta necessitasse de um grande esforço mental.

Ela se levantou da cama e foi em direção ao trono de seu pai, ignorando as advertências irritantes de Gek sobre ela não poder sair sem avisar, e Dik concordando com tudo que ele dizia com acenos monótonos com a cabeça.

A sala do trono era um local sombrio, feito com paredes escuras iluminadas apenas por alguns archotes aqui e ali. Belial ficava sentado no seu trono, protegido por uma cortina vermelha que deixava visível apenas sua silhueta, uma forma macabra e monstruosa, meio humanóide, meio bestial.

Já fazia mais de um século que seu pai vivia apenas ali. Sentado naquele trono protegido por aquela cortina... ninguém havia visto seu rosto desde então, mas ela reconhecia a voz dele, e o poder que emanava era inconfundivelmente o de Belial.

Ela ficou a frente do trono com Dik e Gek a sua esquerda e direta. A silhueta de Belial se moveu discretamente e então sua voz soou. Um som fantasmagórico, como uma melodia distante vinda do alem.

- Morrigan... muitas coisas estão para acontecer... novos eventos irão mudar o makai e o mundo dos humanos... nos devemos estar preparados...

Novos coisas aconteceriam? Era exatamente o que ela desejava. Havia sentido isso também, as mudanças, embora houvesse pensado que não fosse nada... mas no fundo ela sentia nos últimos dias, que algo estava para nascer... e algo estava para morrer... algo ia definitivamente mudar.

- Que eventos? – perguntou ela seria.

Silencio.

- Demitri Maximoff esta voltando... eu senti a energia dele chegar ao ápice... ele esta se fortalecendo, ira vir para cá, tenho certeza disso.

Demitri? Morrigan nunca considerou aquele vampiro uma ameaça real. Ele iria desafiá-los disso ela tinha certeza, sempre soube que ele procuraria se vingar de sua vergonhosa derrota e de seu banimento ao mundo humano.

- Deveria te-lo matado pai – respondeu ela com naturalidade – porque o poupou? Devia ter matado Demitri quando ele o desafiou antes. Bani-lo para o mundo humano foi um castigo muito misericordioso para ele.

- Fiz de Demitri um exemplo, se o matasse todos me temeriam, mas com o tempo esqueceriam quem era Demitri e esqueceriam também o medo... exilado e humilhado Demitri é um exemplo vivo na mente de todos, uma sinal constante para todos do perigo de me desafiar...

- Infinita é sua sabedoria lorde Belial – disse Gek fazendo uma reverencia.

Gek sempre dizia isso, falaria o mesmo se seu pai dissesse que dois mais dois era cinco.

- Bem tanto faz – disse ela movendo os ombros em sinal de descaso – Demitri não é nada, posso derrotá-lo sozinha.

Novamente silencio. Belial não respondeu de imediato, parecia estar imerso em profundos pensamentos. Morrigan observava atenta a silhueta dele.

- Talvez sim Morrigan, talvez não... mas de qualquer forma não é ele que me preocupa... eu não temo uma criatura da escuridão que enfrentamos no passado e sim um ser de luz que encontraremos no futuro...

Aquilo despertou o interesse de Morrigan, havia um inimigo novo vindo? Um ser de luz ele disse... estaria se referindo a um humano? Darkstalkers sempre foram considerados criaturas da escuridão e da noite, então em contrapartida os humanos eram assemelhados a seres do dia e da luz.

- Esta falando de um humano pai? – aquilo parecia interessante, era inesperado e por isso mesmo interessante – sei muito bem das historias sobre humanos que caçam darkstalkers. Então algum deles ira nos caçar? Aqui no makai? Isso é loucura, mas é exatamente por isso que eu adoro eles!

Dik se encolheu assustado, Gek estava tremendo, nenhum dos dois falou nada. Novamente Belial tomou a palavra, sua voz fria e sombria ecoou por todo o aposento.

- Não Morrigan... não é nada humano que sinto... e também não é nada relacionado a qualquer darkstalker... eu vejo a luz... uma luz suprema e absoluta porem... uma luz repleta de escuridão... tome cuidado com esse ser Morrigan... essa entidade... eu vejo a obsessão pela evolução, e eu sinto sua fome... uma fome por combates... e por desafios...

A voz foi ficando mais fraca ate sumir. O que ele quis dizer com isso? perguntou-se Morrigan intrigada. Algo que não era nem humano nem darkstalker? Isso não estava fazendo o menor sentido.

- Seja claro pai, do que você esta falando? – não houve resposta, o senhor do makai havia se recolhido em um silencio absoluto – bem não importa o que ele seja, se eu encontrá-lo será meu inimigo e isso já é o suficiente, posso não saber de onde ele veio – ela sorriu com malicia – mas saberei para onde ele vai, pro inferno.

Rebecca largou o corpo seco e sem vida de sua presa no chão. Era noite de lua nova o que significava que a lua não era visível no céu, embora estivesse lá. Nessa noite ela deveria ser como a lua, estar presente, mas não estar visível.

Ela havia saído sozinha pelas ruas escuras e solitárias da cidade, mas a escuridão não era problema para uma vampira, seus olhos viam tão bem de noite quanto de dia, e quanto a solidão... não eram vampiros seres essencialmente solitários? Clarissa discordaria, mas ela achava que sim.

Rebecca não conseguia esquecer o que vira mais cedo. A forma como Demitri matou a sangue frio Alice. Ela sabia que ele era um assassino e que era cruel, não se importava com isso ate porque ela era igual a ele. Sempre fora cruel mesmo quando humana, e quando se tornou uma vampira...? Então ela ganhou poder suficiente para se tornar uma assassina também.

Mas o assassinato de Alice era algo diferente. Ela não poderia acreditar que ele tivesse a matado daquela forma, sugado o seu sangue como se ela fosse apenas uma humana qualquer. Foi naquele momento que Rebecca percebeu, ela havia finalmente visto a verdadeira face de Demitri. No fundo ele não se importava com ninguém. Quanto a isso ela também não o culpava, pois era do mesmo jeito.

Havia porem um motivo maior e imensamente simples que a motivara a se afastar de Demitri. Sobrevivência. Ela era descartável para ele, se continuasse a seu lado cedo ou tarde ele a mataria quando achasse necessário.

Naquela noite todas haviam saído para caçar como sempre o faziam. Para todos os efeitos ela voltaria perto do amanhecer já alimentada, mas não é isso que farei pensou Rebecca. Ela iria sumir, desaparecer, todos só perceberiam sua fuga no amanhecer e então seria tarde demais para irem atrás dela, eles teriam que esperar a noite novamente e quando isso acontecesse... bem ela já estaria longe.

Viver longe de Demitri seria difícil, primeiro porque gostava mesmo dele. O sexo? Era simplesmente perfeito! Em segundo lugar ele era poderoso, poderia lhe oferecer proteção. Também havia muito que ele tinha a ensinar, afinal o vampiro tinha mais de cem anos certo? Rebecca não sabia quantos anos ele tinha ao certo, mas sabia que ele era velho, poderoso, paciente e calculista. Perto dele o conde Dracula não passava de uma criança inexperiente.

Alem do mais estar unida a um clã era imensamente mais seguro. Ela sentiria o peso da vida de vampira solitária, sabia disso.

Rebecca continuou a caminhar em silencio, ela sabia que em algum lugar daquela cidade as outras caçavam, era bom que estivessem mesmo ocupadas seduzindo homens estúpidos e rasgando gargantas, assim não pensariam nela.

Ela se dirigiu ate a pequena ponte de pedra no lado norte. Depois dali estava o portão da cidade, só a uns cem metros. Ela sumiria daquela cidade e da vida de Demitri e das outras para sempre.

- Você deve estar bem desorientada para procurar caça ai Rebecca – ela ouviu a voz suave e calma de Diana as suas costas. Lentamente Rebecca se virou para encarar a vampira.

Diana vestia um longo vestido negro que contrastava com a claridade de seus cabelos loiros.

- Porque? O que tem nessa direção? – respondeu ela expressando uma falsa inocência.

Diana se aproximou dela a passos lentos.

- Não tem nada, algumas casas apenas, depois os limites da cidade.

- Hmmm... estou com má sorte para caças esta noite. E você? Já terminou sua caçada? – era importante saber se ela havia se alimentando ou não. Caso tivessem que lutar seria melhor que ela ainda não houvesse bebido sangue.

Diana sorriu levemente, encarando-a com um olhar fixo.

- Estou começando agora – seu lábio inferior se moveu sutilmente dando um ar de malicia aquele sorriso – acabei de encontrar minha presa.

Ela havia percebido? Pensou Rebecca assustada. Sim, ela com certeza havia percebido. Diana sabia de suas intenções, a questão era como? E estaria ela sozinha? Se ela desejava pará-la Demitri poderia estar oculto nas sombras para ajudá-la caso necessário.

- Demitri lhe mandou aqui? – perguntou cautelosa. Se Diana sabia da verdade não havia porque ela continuar fingindo.

- Vim por conta própria, não preciso de Demitri para tudo – ela a encarou. Não havia raiva nos olhos de Diana, muito pelo contrario ela parecia bastante calma e controlada – sabe que eu não vou te deixar sair viva daqui certo? – disse ela com naturalidade, como se conversassem sobre algo muito banal – a traição significa a morte.

Rebecca fechou os punhos com força. Um movimento instintivo de sua raça predadora. Suas pupilas adquiriram a coloração rubra. Ela preparou todos os seus sentidos para o combate.

- Ele matou Alice – respondeu em tom serio – matara a mim e acredite, mesmo dizendo que você é sua favorita ele ira matá-la também.

As palavras não surtiram nenhum efeito nela. Diana apenas moveu os ombros em descaso.

- É, eu sei. Sempre soube, mesmo antes de ver Alice ser assassinada eu já sabia que ele faria uma coisa dessas se fosse necessario.

Rebecca olhou intrigada para sua rival, pela primeira vez percebeu que não sabia nada, absolutamente nada sobre Diana. Ela a via sempre perto de Demitri, como uma rainha da noite. Era carinhosa com Clarissa, a tratava com uma ternura que não mostrava para mais ninguém. Mesmo assim isso era muito pouco, era apenas a ponta do iceberg. Diana era muito mais complexa do que isso, muito mais vasta, mais grandiosa. Diana era muito mais.

- E mesmo assim continuara ao lado dele? Sabendo que ele pode te matar quando precisar de um pouco de sangue ou quando enjoar de você? Ficaria ao lado dele mesmo assim?

A resposta dela foi rápida, curta e direta, sem nenhum sinal de hesitação.

- Sim, ficaria.

Rebecca riu, ela não conseguiu se controlar, simplesmente riu. Teve um ataque de riso. Como ela é patética! Dalia esta tão apaixonada que se rebaixou a isso? Era essa a mulher que Demitri tanto estimava?! Uma tola que abdicava com prazer de sua própria vida por causa de uma paixão?

- Você é ridícula Dalia! – disse rindo alto – ridícula! Nós temos que preservar pela nossa sobrevivência, esse é o único instinto comum em todo ser vivo! Mulheres que morrem por um amor deviam se envergonhar de sua própria existência! – ela riu mais e mais, era patético demais – você pode pensar que uma morte assim é romântica, mas não é! Ela demonstra apenas o qual fraca e dependente você é!

Diana ouviu aquilo tudo com um sorriso suave no rosto, um sorriso cúmplice e ate carismático. Ela falou com bastante bom humor.

- Concordo com cada palavra que você disse Rebecca. Bem... menos com a parte que eu era ridícula – ela sorriu com ironia – não pense que eu sigo Demitri como uma idiota apaixonada pois isso esta longe da verdade. Tenho meus próprios objetivos, quero o makai, e no momento Demitri é meu único meio de conseguir este objetivo.

Rebecca riu com desdém.

- Isso é ingenuidade sua. Demitri pode sim se tornar o rei do makai eu acredito nisso. Mas acha mesmo que você pode ser a sua rainha? Abra os olhos Dalia! Somos apenas vampiras recém-criadas. Mesmo neste mundo humano já não somos grande coisa, imagine no makai? Lá ate as moscas tem mais importância que nós.

- Não – respondeu ela abanando negativamente a cabeça, seu olhar se tornou estranhamente nostálgico e distante – eu não disse que queria ser a rainha do makai... eu quero apenas o makai, quero chegar ate lá. Colocar os pés naquele mundo, respirar aquele ar... se eu conseguir isso estarei satisfeita.

Estou finalmente vendo quem ela realmente é, pensou Rebecca.

- Porque deseja tanto o makai? – perguntou com uma certa curiosidade.

- Porque é o local a qual pertenço – disse ela, seu olhar ficando ainda mais distante como se tentando se recordar de um passado a muito perdido – nunca pertenci ao mundo humano mesmo sendo humana e tendo nascido aqui... eu sempre soube que aqui não era o meu lugar. Você entende o que digo? – ela ficou em silencio, esperando Rebecca responder, como isso não aconteceu Dalia prosseguiu como seu monologo – um dia quando eu tinha uns quinze anos, eu viajava com minha família. Em um certo ponto da viagem passamos por uma cidade que havia sido recentemente devastada por darkstalkers. Lembro como se fosse hoje, os corpos mutilados no chão, o sangue... haviam corvos por toda parte se banqueteando dos mortos – ela riu um riso estranho e sombrio – sabe o que eu senti? Fascino, eu fiquei admirada por aquilo, não pela chacina, não sou uma idiota psicopata, não foi por isso. Mas sim pelo fato dos darkstalkers poderem fazer o que quisessem e ninguém os impedir. Isso é liberdade entende? É isso que o poder da de mais valioso. Demitri quer poder para conseguir status, eu não me importo com isso... sempre tive status, era uma nobre rica. Tinha dinheiro para comprar qualquer coisa que quisesse, mas ironicamente não tinha a liberdade de usá-lo como desejava – ela fez novamente uma pausa, sua mente saiu daquele passado distante e ela se focou no presente. Encarou Rebecca com determinação – amo Demitri, amo ele de verdade, mas amo também o maka. Demitri e eu desejamos chegar ao mundo dos demônios, mas eu não desejo isso apenas porque ele quer. Eu desejo isso por mim mesma.

Rebecca olhou para o céu. A noite logo iria sumir, ela havia perdido tempo demais, era hora de encerrar aquela conversa de uma vez por todas.

- Bem, foi bom conversar com você Dalia, mas agora eu preciso te matar – ela sorriu com ternura ao falar isso – quero estar a uma boa distancia da cidade quando o sol nascer entende? Seria vergonhoso se o grande astro surgisse no horizonte e acabasse me matando.

Rebecca exibiu suas presas e Dalia fez o mesmo em resposta. Os olhos de ambas havia adquirido a típica cor vermelha sangue dos vampiros.

- É a primeira vez que ataco alguém que tem capacidade de se defender – disse Dalia com um leve sorriso – os humanos são divertidos, mas não me proporcionam uma boa luta entende. Por isso vou te pedir um favor Rebecca. Não morra logo no começo ok? Quero em divertir muito com você.

E então em um piscar de olhos elas pularam como panteras dando inicio a um sangrento combate.

Felicia chegou em casa transbordando de bom humor. O novo trabalho era ótimo e ela adorava atuar e cantar. O publico havia adorado ela, e as fileiras sempre ficavam lotadas de gente durante as peças.

- Jon cheguei! – disse ela com um miado de satisfação – Jon..?

Ela achou estranho não o ter visto ainda. Ele ficava sempre encostado na janela, olhando a lua e as estrelas com uma expressão distante. Ela achava que ele ficava triste nesses momentos, ele parecia estar pensando em alguma coisa ou alguém que o fez sofrer no passado.

Já havia se passado uma semana desde a sua estréia no teatro, do ataque dos humanos e também a monstruosa transformação de Jon em Galeon, um lobisomem gigantesco com pelugem escura, olhos ferozes e uma perigosa profusão de presas extremamente afiadas.

A moça que enviara os homens havia de demitido e sumido no dia seguinte. Quando soube disso Felicia temeu que Jon tivesse feito algo a ela... a ameaçado... ou algo pior... a matado. Ela não gostava nem sequer de pensar nisso. Porem os dois conversaram, e ele garantiu que não tinha feito nada disso, que provavelmente os seus capangas haviam contado apavorados o que houve e assim ela teve o bom senso de sumir do mapa.

Felicia foi ate a janela respirar o ar confortante da noite. Ela pensava muito em Jon, a cada dia gostava mais dele. Queria conhecê-lo melhor, os dois conversavam bastante, ele era um andarilho e havia lhe contado muito sobre suas viagens, sobre as pessoas e lugares que conheceu, mas ele nunca falava sobre si mesmo.

Jon nunca falava para ela do local aonde nasceu, sobre quem eram seus pais e muito menos sobre sua infância. Ela entendia que deveria dar um tempo a ele, nem todos eram como ela, Felicia se abria facilmente com todo mundo, e se apegava rápido as pessoas, para Jon aquilo era um sinal de sua ingenuidade, ela discordava.

Felicia continuou a contemplar o céu. Já estava ficando impaciente, porque Jon não voltava? Será que algo tinha acontecido? Aqueles homens podiam ter voltado e...

Não ela estava pensando demais. Jon era um darkstalker poderoso, jamais poderia ser ferido muito menos morto por um simples grupo de humanos. Mesmo assim a sensação de preocupação não a abandonava, ela decidiu que o melhor era sair e procurar por ele.

As mulheres-gatos tinham muitas habilidades. Não se tratava apenas da força e agilidade. Felicia tinha também um ótimo nariz, não tão bom quanto o de Jon ela pensava, mas mesmo assim um nariz extremamente sensível e bastante eficiente.

Ela conhecia o cheiro dele, afinal viviam juntos a quase um mês. Felicia saiu então de sua pequena casa, se colocou de quatro no chão e como um gato começou a engatinhar, seu nariz farejava o chão com paciência absorvendo todos os aromas e se concentrando apenas em um em especifico.

Ela seguiu o aroma pelas ruas da cidade. Não era difícil, o cheiro de um darkstalker era bem diferente do cheiro de qualquer humano, se comparado com sons, era como ouvir um som de tambor enquanto ouve ao mesmo tempo vários sons de flauta, não importa que os sons de flauta sejam mais números e mais altos, é impossível não distinguir a sonoridade forte do tambor.

Sim, ela estava chegando perto, sentia o cheiro cada vez mais forte e... espere.. o que era aquilo? Aquele aroma doce e suave... Felicia o conhecia e o adorava. Fazia tanto tempo que não o sentia!

Ela finalmente chegou ate a origem daquele aroma. Felicia viu uma flor, linda! Ela pegou a pequena flor cuidadosamente e a cheirou profundamente. Ahhh! Era tão bom! Aquele cheiro a fazia lembrar de... Espere! Isso não é hora para pensar em flores!

Felicia largou-a relutante. Odiava essas suas manias. Sempre acabava esquecendo de tudo quando via algo fofinho ou doce. E aquela flor era tão bonitinha. Ela suspirou envergonhada. Prometeu a si mesma se focar apenas em Jon, e então voltou a procurá-lo.

A busca foi a levando mais ao sul, em direção da praia, ela então viu Jon sentado solitário na areia, estava apenas com sua calça. A camisa se encontrava na areia ao seu lado. Ele olhava para o céu pensativo.

Ela se aproximou lentamente. Seus passos tocavam a areia fofa da praia sem produzir nenhum som. Felicia parecia uma criança. Queria dar um susto nele, iria abraçá-lo por trás e beijá-lo na bochecha. Ele ficaria envergonhado e ela queria se divertir com isso.

Ela se aproximava devagar, faltavam só alguns passos para chegar ate ele... cinco... quatro... três...

- Eu sei que você esta ai Felicia – disse Jon sem nem sequer olhar para trás – desista dessas suas idéias esquisitas de sair me abraçando como se eu fosse um urso de pelúcia gigante.

Felicia suspirou desanimada. Ele havia acabado com a surpresa.

- Como soube que era eu? – perguntou se sentando de joelhos na areia ao seu lado. As mãos estacam apoiadas nos joelhos, ela o olhava com interesse e Inocência – eu não fiz nenhum barulho!

- Eu senti seu cheiro – disse ele com um breve sorriso e então voltou a olhar para o céu pensativo.

Felicia estava gostando daquela situação. Os dois sozinhos na praia, parecia uma cena romântica de uma peça, ou daquelas que se vê nos livros. Pensar aquilo a deixou vermelha.

- Isso não é romântico Jon? Nos aqui juntinhos observando a lua e as estrelas? – Disse ela encostando a cabeça no ombro dele. Aquilo a deixava ainda mais envergonhada, mas era bom estar ali com ele. Gostava dele, gostava muito dele.

Jon olhou para ela, a menina já estava se escorando nele de novo? O pior é que dessa vez ele gostou. As vezes sentia inveja de Felicia, da forma que ela lidava com as coisas ao seu redor. Ela estava sempre de bom humor e acreditava sempre no melhor das pessoas. Aquela inocência era como um escudo que a protegia da maldade do mundo.

- Não tem lua – respondeu ele acariciando de leve os cabelos dela.

Felicia miou feliz com o gesto de carinho. Ela adorava quando faziam isso.

- Verdade... – respondeu ela inocentemente. Realmente não havia lua no céu.

- Hoje é noite de lua nova – explicou ele – é quando a lua fica completamente invisível no céu. Eu sou um lobisomem como você sabe, e a lua tem uma forte influencia sobre mim, o efeito não é apenas físico, mas psicológico também.

Felicia sabia um pouco sobre isso. Bem sabia que ele ficava mais forte com a lua cheia e só. Não tinha idéia que as fases lunares também afetavam seu emocional.

- Nas noites de lua cheia eu fico mais forte... e mais animado também, com mais vontade de lutar entende? É por isso que surgiu aquele mito de que os lobisomens se transformam apenas nas noites de lua cheia. Porque os mais fracos só conseguem se transformar nesses dias quando seus poderes estão no ápice.

- E nas noites de lua nova o que acontece? – perguntou Felicia. Era aconchegante ficar ali com a cabeça encostada no ombro dele

- Meu poder decai... e eu sempre me sinto nostálgico, por isso vim para cá hoje.

Os dois ficaram em silencio, apenas observando o céu noturno e ouvindo o som constante das ondas quebrando na praia. Felicia sentiu que aquele momento era mágico, o tempo parecia ter parado e ali sozinhos... eles pareciam as únicas pessoas do mundo.

- Jon... eu queria que você falasse mais sobre você. Eu não sei muito sobre o seu passado, você fala pouco...

- Isso é porque você fala por duas pessoas!

Ela corou, depois o olhou com seus grandes e meigos olhos felinos.

- Fico em silencio, prometo! Então conte-me sobre você.

Jon concordou com um aceno com a cabeça.

- Ok, sobre o que você quer que eu fale?

Sobre o que? Felicia não sabia ao certo, haviam muitas perguntas que ela queria fazer. Ela se concentrou na que achava mais importante.

- Me fale sobre sua família – disse olhando-o com atenção e ansiosa pela resposta.

Jon afastou o rosto dela com delicadeza de seu ombro e então se deitou na areia da praia.

- Minha família... eu tinha um irmão e uma irmã, vivíamos em uma casa escondida no meio das montanhas. Quando fui mordido por um lobisomem e a transformação lupina alterou meu corpo eu fugi. Na época não conseguia controlar meu lado darkstalker e sempre que assumia a forma de Galeon eu matava e destruía tudo ao meu redor.

- Mas agora você consegue se controlar... nunca pensou em voltar lá? Não tem saudades deles? – perguntou ela com pena, esse era um carma que todo darkstalker carregava, o da não aceitação. No makai as coisas deveriam ser diferente já que é o mundo de origem dos darkstalkers. Felicia porem não sabia, nascera no mundo humano e jamais havia visto o makai, apenas ouvido falar dele.

- Sinto saudades deles claro... mas para que voltar? Aquela vida não é mais a minha Felicia. A transformação em lobisomem não me mudou apenas por fora, mas por dentro também.

Felicia queria discutir, achava que aquilo era errado. Não havia nada mais importante que a família, ela o aceitaria sendo ele darkstalker ou não. O olhar de Jon porem era definitivo. Ela viu que nada que dissesse o faria mudar de idéia. Resolveu então mudar de assunto.

- Como aprendeu a controlar seu lado darkstalker?

Ele sorriu ao ouvir aquilo, parecia um assunto a qual gostava de falar.

- Meu mestre, ele era um mestiço sabe? Metade humano, metade darkstalker. Ele me encontrou, me levou ate seu dojo e me treinou. Foi ele quem me ensinou artes marciais, me fortaleceu física e psiquicamente. Com o termino de um ano de treinos eu já havia aprendido a controlar meu lado darkstalker. Eu conseguia me transformar em Galeon e mesmo assim manter meu lado humano.

- Incrível! E depois o que aconteceu? – perguntou ela bastante interessada na conversa. Estava muito feliz dele finalmente estar se abrindo para ela.

- Os moradores da vila aonde vivíamos descobriram sobre as origens de meu mestre. Quando souberam que ele era filho de um darkstalker incendiaram o dojo, com ele dentro – fez uma pequena pausa - Ele morreu.

Felicia se entristeceu, havia perguntado algo que não devia. Ela se calou desanimada, mas Jon sorriu brevemente para ela.

- Tudo bem Felicia, isso já foi a muito tempo – ele voltou a olhar o céu – depois disso... eu fugi da vila e o resto você sabe. Virei um andarilho.

Ela sorriu de volta, colocando sua mão no ombro dele em um gesto de amizade e compaixão.

- É assim que penso Jon, devemos sempre sorrir. Não importa o que aconteça conosco, não importa o quanto a vida nos machuque! – ela se levantou animada empolgada com seu próprio discurso (irônico pois o objetivo era animar a ele e não a ela) – agora Jon estamos começado uma nova vida nessa cidade! Eu e você. Vamos olhar pra frente e não mais chorar pelo passado!

Jon não teve como evitar rir. Aquela menina era hilária. Felicia o fazia lembrar uma criança que esta sempre confiante que tudo ficaria bem no final.

- Do que esta rindo!? – perguntou ela irritada e corada lhe dando bronca – eu estou falando algo serio aqui!

Ele olhou novamente para ela. Esses olhos doces e inocentes pensou ele. Então percebeu que queria acreditar também que tudo ficaria bem, queria ficar ali e poder aproveitar aquela felicidade tão pura que ela lhe proporcionava.

Sim, ele não precisaria mais fugir. Sabia que isso seria uma ilusão, logo alguma coisa iria acabar com aquela frágil felicidade deles. Sempre acontecia algo, mas mesmo assim decidiu que viveria ela enquanto durasse.

- Estou rindo de você que é uma boba inocente. – disse ele se levantando – vamos voltar gatinha.

- Certo! – respondeu ela animada, e então o abraçou com intimidade. Juntos eles fizeram o caminho de volta.