Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.

Obrigada pelas reviews *.*

Nicole sim já li o capítulo mais recente do manga e mal posso esperar pelo próximo!

-X-


Desta vez

Há algum tempo que os amigos não se reuniam. Ao contrário dos últimos encontros, Eren convenceu todos a estarem presentes. Os amigos da banda que cantavam em bares algumas vezes por semana ou apenas uma conforme as solicitações, nem sempre tinham tempo para estar com os outros amigos que conheceram através de Eren. Esse era o caso de Bertholdt, Reiner, Jean e Annie que conheceram Armin, Mikasa, Connie, Sasha, Ymir e Christa na primeira vez que organizaram uma saída entre todos. Nessa ocasião foram a uma salão de jogos e todos sentiram-se rapidamente à vontade na presença um dos outros. Silenciosamente entre todos havia um sentimento de familiaridade, como se já se conhecessem há bastante tempo e por isso, todos se sentiam contentes quando podiam organizar saídas daquelas.

Naquela noite em concreto, o local escolhido para um serão após as aulas foi um salão de Bowling. Jean foi o primeiro a ter que ir embora, pois tinha um cliente habitual que queria a visita dele. Claro que embora os seus colegas de banda soubessem a razão para os restantes, a mentira comum era que ele trabalhava como segurança num bar.

Em seguida, preocupada com a hora a que chegaria a casa, Christa deixou os amigos acompanhada por Ymir que se ofereceu para levá-la a casa. O que não era surpresa para ninguém já que a rapariga morena de cabelos castanhos também a tinha trazido até ali na sua mota. Era a única entre os amigos feitos na escola de Eren que tinha viatura própria. Fora isso o rapaz de olhos verdes só podia depender dos amigos da banda para ter boleia. Se bem que Eren sabia que embora Ymir se gabasse muito da sua mota e da sua capacidade como condutora não oferecia boleia a mais ninguém que não fosse a Christa.

- Mikasa? – Chamou Eren, vendo a irmã adormecida e encostada a Armin que segurava uma lata de cerveja que continuava há horas pela metade. Ainda que quem olhasse para as faces rosadas do rapaz loiro pudesse pensar que teria bebido bem mais do que na verdade aparentava. – Quantas é que ela bebeu? – Perguntou o irmão desconcertado, confirmando que ela apenas dormia.

- Umas quatro. – Respondeu Reiner.

- Talvez não tenha sido uma boa ideia comprarmos cerveja e dividirmos com todos. Afinal, alguns de vocês ainda são menores. – Comentou Bertholdt e Annie revirou os olhos.

- Oh Berth, por favor. Estão às portas dos dezoito, já não são nenhumas crianças. – Disse Annie e olhou para o rapaz de olhos verdes que agitava a mão na frente de Armin para chamá-lo de volta à realidade. – Eren, ela bebeu por minha causa. Desafiei-a e acho que devia ter moderado a quantidade. Ela não bebe com frequência.

- Sem problema… posso saber o que se passa contigo, Armin? Não és tu que controlas estas coisas? – Perguntou Eren, vendo o amigo despertar da semi-embriaguez. Era desse modo que considerava aquele estado porque ele não considerava ser possível alguém ficar bêbado apenas com metade de uma lata de cerveja.

- Huh? Desculpa, estava distraído. – Respondeu desanimado.

- Tens a certeza que estás bem, Armin? – Perguntou Sasha preocupada enquanto vestia o casaco ao lado de Connie que também parecia ter bebido mais do que devia, pois mal se aguentava nas pernas.

- Ele está deprimido porque o Jean foi embora cedo. – Comentou Connie, recebendo um olhar incrédulo de Eren, risos disfarçados dos restantes e um Armin que corou ainda mais e disse:

- É claro que não!

- Deixemos a saída do armário do Armin para outra ocasião. – Começou Annie e soaram mais alguns risos. – Eren preciso que passes por minha casa. Tenho as dicas para o próximo concerto, as músicas e essas coisas. Quero que vejas aquilo com atenção.

- Se é assim, Connie e Sasha têm boleia. Eu e a Annie vamos a pé para outro lado. – Disse o rapaz de olhos verdes.

- Têm a certeza? – Perguntou Bertholdt. – Sei que não há muito espaço no carro, mas com jeitinho talvez…

- Sem estresse, Berth. – Falou Annie. – Não quero ir novamente esmagada no interior do carro. Tanto eu como o Eren somos crescidinhos o suficiente para saber voltar para casa.

- A Mikasa não vai gostar se acordar e não te ver no carro. – Lembrou Armin.

- A Mikasa não vai acordar tão cedo. – Eren também vestiu o casaco. – Bem pessoal até depois. Temos que combinar isto mais vezes. – Acenou aos amigos e saiu com Annie que murmurava algo sobre preferir apanhar o frio polar daquela noite do que ir novamente a lutar por respirar dentro carro do Bertholdt e do Reiner. Eren riu e realmente tinha que concordar. Nem queria acreditar na quantidade de pessoas que conseguiam enfiar no carro.

Aliás, se tivessem sido parados pela polícia teriam tido problemas. Normalmente, Bertholdt conduzia com Reiner ao lado e no banco de trás, Armin ia com a Mikasa sentada no colo, no meio ia o Connie com a Sasha no colo e por fim, Eren levava Annie sentada sobre as suas pernas. Não era nada de incomum para os dois que costumavam ir assim até nos dias em que só iam os elementos da banda dentro do carro já que Annie recusava-se a ir para o colo de Reiner, Jean ou Connie alegando que não confiava em nenhum deles.

O caminho até à casa de Annie foi tranquilo e até silencioso, ainda que nenhum dos dois se sentisse particularmente incomodado. No pequeno apartamento da amiga, Eren ficou apenas na entrada, dizendo que não queria demorar-se muito pois iria ter aulas logo cedo. Geralmente, ela convidava-o para entrar e a conversa sobre os concertos, ideias para coreografias e comentários sobre músicas podiam estender-se durante horas.

- Tens a certeza que não queres esperar pelo Berth? Ele deve estar a chegar e de certeza que não se importa de te deixar em casa.

Eren sorriu.

- Afinal, estás preocupada, mas deixa estar. Vou pelo atalho.

- Hum, isso não me tranquiliza. – Disse numa expressão que mostrava o quanto essa ideia não lhe agradava. – Sabes bem que a esta hora não se passa nada de bom naquelas ruas.

- Sei cuidar de mim, Annie. Sempre soube. – Disse, mantendo o sorriso e acenou deixando para trás a amiga que suspirou, acenou e pediu que lhe enviasse uma mensagem quando chegasse a casa. Eren assentiu e com as mãos nos bolsos iniciou o caminho de regresso a casa.

"Estranho. Costumo ver estas ruas um pouco mais frequentadas…", pensava o rapaz, puxando o capuz do casaco para cobrir mais a sua cabeça. Um grito de uma mulher soou não muito longe de onde estava. "Bem, lá se vai a minha teoria de que isto estava a ficar mais calmo. Eles continuam por aqui, mas parece que encontraram algum entretenimento na rua ao lado…". Suspirou e em vez de seguir o caminho em frente, entrou numa ruela lateral. Perguntava-se quem além dele que sabendo o quão perigosas eram aquelas ruas andaria por ali.

Ao virar em outra rua quase esbarrou com a mulher que tentava escapar dos assaltantes e/ou agressores. Eren não tinha a certeza porque não teve a oportunidade de observá-la, preocupando-se em lançar um olhar intimidante aos rapazes que deviam rondar a sua faixa etária. Alguns pararam, mas entre eles viu que havia alguns homens um pouco mais velhos que pareciam ser novos por ali. Não teve tempo de ver muito mais porque uma mão agarrou o seu braço e puxou-o.

- O que estás a fazer? Corre! Aqueles tipos são perigosos!

A voz soou-lhe terrivelmente familiar. A escuridão e o fato de ela o ter puxado para correr, impediu que por alguns momentos a sua mente aceitasse e reconhecesse os traços da mulher que segurava no pulso dele. Assim que Eren teve a certeza, parou abruptamente e puxou-a para uma rua lateral e francamente mal iluminada.

- Professora Petra? – Indagou ainda perplexo e quase num murmúrio para que os perseguidores não o ouvissem.

Após um curto silêncio e uma tentativa de reconhecer o rapaz à sua frente…

- Eren Jaeger? O que estás aqui a fazer?

- Isso pergunto eu. Este não é o melhor sítio para passear durante a noite.

- Vim ver uns amigos e de repente… - Puxou-o para que se abaixasse e ele assim o fez. – Não importa isso agora. Precisas de sair daqui.

- Precisamos. – Corrigiu.

- Não… eu preciso saber o que aconteceu aos meus amigos. – Afirmou, espreitando para ver se alguns dos jovens e homens de antes continuavam por perto. – Espero que estejam bem. Preciso ajudá-los.

- Está a sangrar… - Disse Eren num murmúrio ao ver sangue na perna da mulher que levava umas calças clássicas pretas que estavam rasgadas até meio da perna.

- Estou bem. Eles… - A voz tremeu ligeiramente. – Não tiveram a oportunidade de fazer mais do que isso. Ainda me sei defender e se for preciso, sou suficiente para nos safar aos dois.

Eren observou-a surpreso. Aquele nem parecia a mesma pessoa que todos os dias entrava na escola com um ar deprimente e forçava alguns sorrisos. Aquela mulher ao seu lado era forte e determinada o suficiente para defender-se e ainda se preocupar com os seus amigos e não tanto com o seu estado. Aliás, pese todo o seu comportamento na escola, ela estava a ignorar tudo isso e ainda colocava a hipótese de protegê-lo. De certa forma, pensar nela protegendo-o fez com que o rapaz sentisse uma pontada de culpa. Desconhecia a origem daquele sentimento, mas era o forte o suficiente para não ignorá-lo.

- Posso tirá-la daqui, encontrar os seus amigos e afastá-los daqui sem problemas. – Disse, agarrando o braço da professora que o encarava confusa. – Preciso que confie em mim.

- Eren… - A forma como o olhou, acompanhado de um sorriso doce e diferente de todas as expressões que alguma vez lhe tinha dirigido, só intensificou um sentimento que parecia desfazê-lo por dentro. – Sei que podes não confiar em mim e nem respeitar-me dentro da escola e até fora, mas eu… sou a responsável por ti. Sou adult meu dever proteger-te. Por favor, Eren… deixa-me…

- Não. – Disse com a voz arrastada. – Por favor, desta vez… confie em mim.

"Desta vez? Porquê? Porque é que senti este aperto no peito quando ele disse isto? Algo que nem ao menos faz sentido", perguntava-se a professora que sem ter a oportunidade de responder, viu-se levada pelo rapaz que segurando na sua mão guiava-a por ruas que desconhecia.

- Auruo?

A professora reconheceu o amigo que provavelmente a procurava e Eren não pensou duas vezes em puxar os dois para o interior de um velho edifício abandonado.

- Quem é este pirralho? – Perguntou Auruo.

- Shh! – Eren e Petra fizeram o sinal em uníssono, mas só ela se manteve perto do homem que os encarava sem entender o que se passava. Já o rapaz de olhos verdes afastou-se ligeiramente para espreitar para o exterior.

- Quantos são? – Perguntou Eren sem tirar os olhos da rua aparentemente deserta.

- O quê? – Indagou Auruo sem perceber.

- Ainda faltam dois. – Respondeu. -Porque não ficaste com o Erd e o Gunther? – Perguntou Petra ao homem que ia abrir a boca para responder que estava preocupado com ela, quando viu o ferimento dela.

- Precisamos de ir a um hospital! Aqueles filhos da…

- Importam-se de fazer menos barulho?! – Eren estava a gostar cada vez menos daquele tipo. "Será assim tão difícil de perceber que este não é momento para falar alto? Será que conseguem ficar aqui em segurança até encontrar os outros dois?" – Professora Petra e… idiota do lado fiquem em silêncio e aqui. Vou procurar os outros dois. Quero apenas uma indicação de como são fisicamente. Aliás, esqueça… devem ser os únicos com roupas decentes por aqui. O resto tresanda e só usa roupas velhas.

Assim que acabou de dizer isso, puxou o capuz para cobrir mais a cabeça e saiu com passos rápidos e silenciosos. Petra quis chamá-lo à razão. Sabia o quanto aquilo era arriscado. No entanto, também percebeu que fazer barulho podia tornar a situação ainda mais perigosa. Restava-lhe assim, manter-se em silêncio e escondida na companhia de Auruo que exigiu que lhe esclarecesse quem era o miúdo arrogante.


*Eren*

Já tinha tido problemas com as pessoas daqueles bairros em outras ocasiões. Havia uma grande rivalidade entre gangues e mesmo que fosse apenas alguém de passagem, muitas vezes vi-me envolvido nos confrontos. Não era preciso uma boa razão para que isso acontecesse. Bastava que esses elementos dos gangues considerassem que alguém estava no sítio errado à hora errada. Mesmo que eu não tivesse visto ou escutado nada sobre a troca de substância ilegais, entre outras atividades, eles viam-me como um potencial alvo a abater. Era o raciocínio de que na dúvida seria melhor eliminar qualquer prova.

Evidentemente, também existiram outras ocasiões em que interferi em alguma tentativa de assalto ou violação. Não suportava a ideia de ver alguém ser sujeito à ideia de violência gratuita. Enojava-me a ideia de vê-los a obrigar mulheres ou até miúdas novas a atos sexuais e humilhá-las. Também homens podiam ser vítimas dessas coisas, mas não era tão comum, embora sentisse o meu sangue ferver quando se lembrava da vez em que tentaram fazer mal ao Armin. Graças às minhas interferências era francamente conhecido pela zona, mas claro que não pelos melhores motivos. Quando ouvi os primeiros rumores, de alguma forma já me tinham associado a eles ou então, consideravam-me alguém pior do que eles.

Levava sobre os meus ombros uma fama da qual nunca tirei proveito. Nunca roubei, bati em alguém sem razão e muito menos, forcei alguém a atos sexuais. Porém, não era o que se dizia. Os rumores espalhavam-se sempre afastados da verdade. Consequentemente era obrigado a conviver com olhares acusadores e de receio que pessoas me lançavam todos os dias.

Repentinamente, vi uma sombra movimentar-se para o interior de mais um local abandonado. Tratava-se de um armazém que antes albergou trabalhadores. Com o empobrecimento aquele tinha sido mais um lugar a ser encerrado e que agora servia para atividades duvidosas. Verifiquei a quem pertencia a sombra que tinha visto. Era apenas um dos rapazes que se teria perdido do grupo e levava apenas com uma pequena navalha na mão, procurando parecer intimidante. Pelo menos, os tipos que nos estavam a perseguir já deviam estar tão pedrados que nem ao menos o senso comum funcionava. Caso contrário, estariam sempre em grupos de pelo menos dois.

Aproveitando-me da estupidez alheia, avancei rapidamente sobre ele. Uma rasteira para desequilibra-lo e um golpe forte na zona da nuca foi o suficiente para deixá-lo inconsciente no chão.

- Fácil… - Murmurei, vendo ar quente escapar dos meus lábios devido a mais uma noite gelada de Outono. Acocorei-me para apanhar a navalha quando notei duas sombras. Estava ali mais alguém. Mais concretamente duas pessoas que se encontravam afastadas por escassos metros com a intenção de rodear-me.

Apanhei o objeto do chão e ergui-me com cuidado. As sombras moviam-se com cautela. Parecia que planeavam o ataque e isso era estranho vindo de pessoas que atacavam de cabeça quente e sem qualquer nexo. Essa era atitude vulgar por ali, até porque pessoas sob o efeito de drogas não perdiam tempo a preparar ataques.

Portanto, mesmo sem certezas absolutas optei por arriscar. Aclarei a garganta antes de falar.

- Sou aluno da professora Petra. – Afirmei calmamente, olhando para a posição das sombras que agora se confundiam com o ambiente mal iluminado. – Ela estava com um idiota que não sabia falar baixo… Aur… sei que o nome começava por "a".

As duas sombras movimentaram-se e revelaram ser dois homens. Um de cabelos escuros curtos, olhos da mesma tonalidade e trazia um sobretudo castanho com vários bolsos e calçava uns sapatos clássicos que denunciavam o quanto não pertencia àquele lugar. O outro tinha os cabelos loiros presos num pequeno rabo-de-cavalo, olhos claros e o vestuário também se mostrava demasiado elegante para pertencer a um lugar daqueles.

- Aluno da Petra? – Indagou o homem loiro com um ar desconfiado.

- Sim. Ela não está muito longe. Vou ajudar-vos a sair daqui. – Respondi, começando a observar o local em busca de algo em específico.

- A Petra está bem? – Perguntou o outro homem de cabelos escuros. – Ouvimo-la gritar.

- Está ferida, mas sem gravidade… - Respondi, empurrando algumas caixas velhas e descobrindo o que queria. Os meus dedos estavam gelados por isso, tive alguma dificuldade em puxar a tampa que havia no chão. – Lamento imenso pelas roupas caras, mas vão ter que descer por aqui comigo. Não é seguro regressar às ruas.

Os dois encararam-me com alguma desconfiança e acrescentei:

- Posso descer primeiro, desde que o último puxe a tampa no final. Este é um caminho que gostava de manter em segredo para o caso de precisar novamente.

Algo no meu tom de voz ou por outra razão qualquer, fez com que confiassem nas minhas palavras e por isso, desceram primeiro. Fiquei por último para puxar aquela tampa e no interior daqueles que eram os caminhos subterrâneos ao lado dos esgotos, só nos podíamos servir dos telemóveis como forma de iluminação. Com a outra mão livre, cobríamos o rosto e tentávamos ao máximo caminhar apenas sobre o cimento e não deixar o pé deslizar para o rio de resíduos que corria ali e tornava aquele local nauseante.

Em poucos minutos, indiquei-lhes que íamos subir e assim que empurrei a tampa, primeiramente tratei de confirmar que era seguro sair. Após alguma hesitação, pude concluir que não havia ruído de passos ou respirações por perto além das nossas. Ainda assim, pedi que saíssem rapidamente pois não sabia durante quanto tempo podíamos passar despercebidos. Eles assentiram e seguiram-me em silêncio e de forma rápida. Em pouco tempo, avistei os prédios abandonados onde tinha deixado a professora Petra e o outro idiota.

- Petra!

- Erd! Gunther! Meu Deus, ainda bem que estão bem!

Por muito que compreendesse que estavam contentes por se reencontrar, tive que pedir para se controlarem porque ainda faltava retirá-los dali em segurança.

- Vamos outra vez pelos esgotos? – Perguntou o homem que percebi que se chamava Gunther e que parecia pouco contente com essa perspetiva.

- Desta vez, não. – Respondi e fiz sinal para que me seguissem.

As traseiras daquele prédio abandonado davam acesso a uma zona também mal iluminada, mas que a pouco mais de dois quarteirões começava a encher-se de cafés e bares. Não era fácil passar despercebido num local daqueles, sobretudo se levasse quatro pessoas atrás de mim. Tentei dar-lhes algumas indicações de que deviam andar próximo das paredes, pois dificultava a visibilidade dos outros que pudessem olhar. Aconselhei também a que não andassem muito rápido e que evitassem trocar palavras. Queria que passássemos por ali tão invisíveis quanto possível.

Mesmo com o idiota do Auruo a levar a Petra nas suas costas, tudo estava a correr bem até que ao virar numa esquina notei de imediato que tinha sido reconhecido. Fiz sinal com a minha mão apenas para que eles o vissem e murmurei:

- Vão virar ali à esquerda e seguir sempre em frente o mais rápido que conseguirem. Vão encontrar uma das avenidas principais e vão estar em segurança. Há uma esquadra a meio da avenida.

- Eren espera! – Pediu Petra.

- Não me sigam! Irei lá ter assim que os despistar! Vão!

Para não dar-lhes a hipótese de contestar a minha solução, iniciei uma corrida na direção do rapaz que me tinha avistado e que se assustou, começando a chamar pelos restantes. Assim que mais dois apareceram, adentrei por um dos becos que estavam exatamente na direção oposta que tinha indicado à professora Petra e aos amigos dela. Sorri satisfeito ao perceber que o objetivo estava conseguido e só esperava que eles fossem espertos o suficiente para cederem ao instinto de sobrevivência e saírem dali o mais depressa possível. Não queria a ajuda deles, nem de ninguém. Desde novo aprendi a defender-me sozinho e mudar-me para a casa do avô do Armin não alterou muito a minha visão sobre as ruas que continuavam perigosas e eu precisava de defender-me a mim e também a outras pessoas que precisassem.

Além disso…

- Eren confia em mim. Confia em nós.

Aquela voz, aquelas palavras repetiam-se incessantemente na minha cabeça. Podia quase jurar que era a voz da professora Petra. A voz dela que se aliavam a outras que ouvia à distância. A isso acrescentava-se flashes quase impercetíveis em que via cadáveres repletos de sangue. Como se conhecesse cada uma daquelas pessoas, cujos rostos permaneciam ocultos naquelas imagens que cruzavam a minha mente.

Uma lágrima caiu pelo meu rosto. Doía. Algo dentro meu peito inexplicavelmente doía perante aquelas imagens sem nexo e palavras que soavam tristes. Limpei o rosto e parei atrás de um grande caixote. Um dos tipos passou e apenas tive que o rasteirar. Logo outro tentou agarrar-me pelo pescoço, mas dei-lhe uma cabeçada e um murro que o fez cair sobre o outro que já estava no chão.

Um terceiro e um quarto tentaram dar-me socos. Bastou bater-lhes com força nas canelas para caírem de joelhos. O quinto que chegou fez com que tivesse que abaixar-me. Trazia uma arma que felizmente não podia manejar perfeitamente naquele estado de embriaguez. Aproveitei-me disso para pontapear a mão que segurava a arma que acabara de disparar um tiro sem direção e que podia até ter atingido um dos colegas dele.

Assim que agarrei a arma, usei-a para bater na nuca desse e de mais outro que entretanto se tinha levantado. De seguida, comecei a correr para sair do beco enquanto pensava que pelo menos se encontrasse alguém já teria algo mais intimidante em mãos para afastá-los. O que aconteceu a mais dois que encontrei e que gritaram ao ver a arma que levava. Quis evitar por todos os meios disparar, mas ao dar de caras com um grupo não tive opção se não disparar pelo menos dois tiros para os fazer dispersar e perder-me de vista.

- Merda… tenho que livrar-me disto. – Murmurei enquanto corria o mais depressa que conseguia e ao passar por uns contentores, atirei a arma. Já não estava longe da avenida embora fosse sair na outra extremidade. Teria que caminhar durante alguns minutos até alcançar a professora Petra e os amigos, mas queria confirmar que estava tudo bem antes de ir definitivamente para casa.

Foi um alívio quando coloquei os pés na avenida, ainda que não tenha tido muito tempo para apreciar a sensação porque assustei-me ao dar de caras com Erd e Gunther.

- O que estão aqui a fazer? – Perguntei, ainda a recuperar o fôlego.

- Ouvimos tiros. – Disse Erd.

- Íamos buscar-te. Achas mesmo que íamos deixar um miúdo por conta própria? – Perguntou Gunther.

- Não se preocupem. Cresci com estas coisas. Estou habituado. – Respondi, respirando fundo. – Onde está a vossa amiga? Está bem?

- Queríamos levá-la até ao posto de saúde, mas ela recusou-se a ir até que visse onde estavas e como estavas. – Disse Erd.

- Acredita que o Auruo até nos pediu ajuda para levá-la. Quando ela mete alguma coisa na cabeça é bem teimosa. – Disse Gunther com um sorriso divertido. – Vens connosco? Ela quer ver-te.

Assenti. Não iria admitir em voz alta, mas também queria vê-la e confirmar que estava tudo bem. O que não esperava é que assim que a avistasse, ela se levantasse dos degraus onde estava sentada e corresse até mim. Mesmo a coxear ligeiramente, apressou-se a vir ao meu encontro e abraçou-me.

- Graças a Deus… estás bem. – Ouvi-a murmurar. – Oh Eren tive tanto medo que te acontecesse alguma coisa.

- Tenho que dar o braço a torcer. Não sei como nos teríamos safado sem ti. – Disse Erd, sorrindo perante a cena que ainda me paralisava.

- És um miúdo corajoso. Obrigado, Eren. – Disse Gunther que acabou também por sorrir e pousou a mão sobre os meus cabelos por alguns instantes.

- Sim, para um pirralho arrogante não estiveste mal e até mantiveste a tua palavra de nos salvar a pele a todos. – Comentou Auruo algo contrariado, mas penso que seria a sua forma de agradecer-me.

Diante daquela situação e daquelas palavras fui invadido por sentimentos que puseram novamente as lágrimas nos meus olhos. Antes que pudesse racionalizar, retribuí o abraço da minha professora e deixei várias lágrimas caírem. Fechei os olhos e nela a imagem daquelas quatro pessoas à minha frente surgiu em mais um daqueles misteriosos flashes que pareciam reais. Nessa imagem, os quatro com roupas bem diferentes e que pareciam fugir para uma outra época, sorriam enquanto conversavam sentados à mesa onde também estava eu e mais alguém sentado numa das pontas da mesa. Essa pessoa que permanecia obscurecida. Porém essa cena mesmo que só a tivesse visto por meros segundos, era o suficiente para me fazer chorar abundantemente. De alguma forma, sentia como se um peso tivesse sido levantando do meu peito. Como se tivesse feito algo que não pude fazer antes. Como se tivesse reparado algo de errado.

- Podes largar o puto. Ele já está a abusar. – Ouvi o Auruo dizer enquanto me apercebia que uma das mãos de Petra acariciava os meus cabelos e não mostrava qualquer intenção de largar-me.

- Não vais ter ciúmes de um miúdo, pois não? – Perguntou Gunther num tom divertido.

- Sei que não começámos da melhor forma, mas ainda bem que isto aconteceu… só assim pude ter a oportunidade de ver quem é afinal o Eren Jaeger. – Ouvi-a dizer e então afastou-se para encarar-me. – Obrigada Eren e perdoa-me pelas coisas que te disse injustamente.

- Eu também não sou propriamente um santo…

Ela sorriu.

- Estivemos os dois errados. Espero que daqui para a frente consigamos corrigir isso. Hoje consegui ver que és alguém que se preocupa com os outros, que se arrisca pelos outros. És um bocadinho impulsivo demais, mas deve ser próprio da idade ou de ti. – Acariciou o meu rosto. – Fico tão feliz por estares bem.

Corei um pouco e disse:

- Também fico contente por ver que está bem e os seus amigos também. Aliás… - Lembrei-me do ferimento que tinha na perna. – Devia ir a um posto de saúde tratar disso.

- E como vais para casa?

- Eu cá me arranjo. – Respondi enquanto ela limpava o meu rosto.

- Nem pensar. Faço questão de deixar-te em casa e em segurança.

- Sim, é o mínimo que podemos fazer. – Concordou Auruo.

Acabei por concordar e a caminho do posto de saúde, finalmente explicaram-me como se meteram naquela confusão. Tinham marcado encontrar-se num café daquela avenida e quando Petra estava a chegar ao encontro, repentinamente a carteira dela foi levada. A partir daí, partiram atrás do assaltante que assim que adentraram nos bairros mostrou que tinha outros amigos à espera deles. A confusão instalou-se e os quatro acabaram por se perder uns dos outros.

- Pensando nisso agora, até parece incrível como ficámos descoordenados naquele momento. – Disse Erd pensativo.

- Nós andámos os quatro juntos na escola e pertencíamos a uma equipa mista de andebol. – Explicou Gunther. – Éramos conhecidos como o esquadrão especial.

Todos riram com as lembranças e mesmo uma conversa tão simples como aquela continuava a encher o meu peito de uma estranha nostalgia. Acabei apenas por sorrir e fazer algumas perguntas. Auruo era o único com uma personalidade mais complicada, mas de resto pude concluir que se tratava de um bom grupo de amigos que cresceram juntos e com a passagem dos anos, apenas se tornaram mais unidos. Erd e Gunther trabalhavam numa empresa de contabilidade, Auruo trabalhava como arquiteto e Petra era a única que optara pelo ensino. Ao perguntar-lhe porquê, a resposta dela mostrou tudo aquilo que nunca vi na sala de aula. A primeira má experiência na frente dos alunos trancou aquela professora que preferia ter tido.

- Até amanhã, Eren. – Disseram os quatro em coro, depois de deixar-me à porta de casa.

Acenei, despedindo-me deles e aconselhando uma última vez a encontrarem-se em locais menos perigosos. Se tinham carro, deviam aproveitar para fugir da zona pobre da cidade.

Ao entrar em casa, surpreendi-me ao encontrar o avô do Armin na cozinha a beber um copo de água.

- Boa noite, Sr. Arlert. – Cumprimentei. – Desculpe estar a chegar tão tarde.

- Boa noite, Eren. – Sorriu como de costume. – Não faz mal. O Armin e a Mikasa também chegaram tarde, mas é normal… afinal, já estão na idade de sair com os amigos. Desde que se mantenham afastados de problemas, não me incomodo.

Forcei um sorriso.

- E como tem estado? – Perguntei, já que nos últimos tempos quase não o via por casa. O seu estado de saúde estava cada vez mais delicado e por isso, passava bastante tempo no hospital. No entanto, continuava a responder-me que estava tudo bem nem que fosse para tranquilizar-me. Só que o efeito era totalmente o contrário. Temia pela saúde dele e pela tristeza que a sua morte nos acabaria por trazer. Além de que como nenhum de nós ainda era maior de idade, se lhe acontecesse alguma coisa, provavelmente seríamos entregues novamente às instituições e isso eu não suportaria. Mesmo que fosse por um curto período de tempo. Não queria voltar a viver atrás de janelas gradeadas.


-X-

Este capítulo não mostrou nenhum evolução entre o relacionamento do Levi ou do Eren porque quis concentrar-me um pouco na Petra e nos amigos, mas no próximo garanto que as interacções entre o casal principal vão estar de volta :D

Até ao próximo capítulo! (^_^)/