Trilha sonora: Sara Bareilles – Breathe Again, Sarah McLachlan – In the arms of an angel e Sandy – Pés Descalços.

Capítulo 10: Destino

Ela está anestesiada.

Nada além do constante bater do ponteiro dos segundos existe. Nada mais faz sentido. Nada importa.

Ela perdeu tudo.

E ela só tem a si mesma para se culpar.


Quinn ainda respira.

Seu peito sobe e desce. Seu sangue corre do coração dela para os dedos das mãos e dos pés.

Quinn vive no mais básico significado do termo. Máquinas fazem barulho ao redor dela, mantendo-a suspensa em vida.

Mas não há nada.


Morte cerebral.

Morte cerebral.

O diagnóstico oficial não foi feito. Os testes clínicos indicam uma falta de funcionamento neurológico. Mas os testes de confirmação ainda têm que ser feitos. Os médicos deixaram bem claro – Quinn está mais do que morta. Não inconsciente. Não em coma. Mas morta. Faltando todos os impulsos elétricos no cérebro dela. Seu corpo viável, mas sem resposta. Nada de Quinn presente. Só carne e osso.

A entrega austera dessas palavras a destruíram.

Já havia pessoal de emergência no Terminal Grand Central. Eles a estabilizaram em minutos. Quinn estava no hospital e no suporte respiratório em apenas mais alguns minutos. Aconteceu em uma comoção de som e movimento e uma sensação enojadora subindo pelo seu estômago, pulmões e garganta, escurecendo tudo em sua subida. Seus interiores viraram cinzas, e o que quer que fosse agora deixara putrefação e pústulas.

Não passou nem um dia.

Mas parece que passou milhões de anos.

Ela sabe que seu coração traidor continua batendo, mas ela não pode senti-lo. Ela vê, mas está escuro. Ela escuta, mas está mudo. Ela está exausta, mas ela não consegue dormir.

Ela não pode sentir nada além do bater do ponteiro dos segundos circulando e dando sentido à morte e à vida.

Cada vez que ela fecha os olhos, ela escuta o grito de Quinn e a vê cair. Ela fica encalhada no permanente pesadelo de sua própria criação. É uma agonia. E é o menos do que ela merece. Ela é uma desgraçada. Uma escória. Uma pecadora da mais alta ordem.

Ela escolheu a vida de Quinn. E ela faria aquela escolha toda vez. Mas ela queria tudo demais. Ela sonhava demais. Ela estava fraca demais. E agora ela não lhe resta nada.

Porque não há nada que valha a vida de Quinn.

Nada desculpa o que ela fez. Nada. Não importa como ela estivera dilacerada dividida entre dois destinos. Não importava as tentações que tinham sido dispostas na frente dela. Ela é patética. Desprezível. E Quinn é quem paga o preço.

Beatrice senta ao lado dela. Rachel sequer está certa de quando ela chegou. Ela corre a mão nas costas dela. Rachel não merece a companhia, mas Beatrice ignorou-a quando ela gritou isso. Ela entendeu que Seth ou Garrett devem ter ligado pra ela depois de Rachel ter gritado com eles. Ela vagamente relembra de palavras saindo da boca dela, raivosas, rudes e incompreensíveis. Eles ainda estão aqui, sentando há algumas fileiras de distância. Eles estão dando a ela espaço depois da raiva. Mas nada daquilo foi realmente dirigido a eles. Eles mentiram. Eles a enrolaram. E Mason é um agente. Dinheiro é o negócio dele, não importa o quão bem intencionado ele possa ser.

Mas isso é culpa dela. É tudo por conta dela.

Ela senta em um tipo de hipnose desolada. Um pingo de esperança, mas apesar isso – aquele otimismo humano frágil – ela sabe que o pior está vindo. Como ficar parado em um lago congelado e ouvir o gelo começar a quebrar embaixo de você. Como descer um lance de escadas e começar a sentir seu pé escorregar. Como girar sua cabeça e ver luzes na sua cara. Ela está suspensa nesses momentos. Ela só sabe que horas passaram. O único significado é que o ponteiro dos segundos continua bater em frente enquanto fica cada vez mais próximo da sua punição final – confirmação da morte de Quinn.

No profundo do seu coração, onde a esperança está sendo verdadeiramente arruinada, ela sabe.

Depois da voz em cinza. Ela sabe que isso é tudo que pode ainda permanecer.

"Rachel?" vem uma fala quebrada.

Ela se força a se permanecer um pouco mais enquanto um corpo se acomoda na cadeira vaga ao lado dela. Do outro lado dela, Beatrice aperta seu ombro brevemente, antes de se levantar e se afastar silenciosamente. Rachel vê o cabelo loiro e a vestimenta bem passada. Então ali aqueles olhos vermelhos e linhas de estresse pronunciadas.

"Sra. Fabray," ela engasga. Ela não pode chamá-la de Judy. Não agora. Seu coração parece que está sendo apertado cada vez mais forte. O único alívio seria a completa ruptura, a verdade de tudo surgindo com o seu sangue.

"Quinn está vivendo em tempo emprestado não é?" Judy diz suavemente. Isso para a ruptura pendente.

Isso para tudo.

Rachel está congelada.

"Naquele tempo, os médicos disseram que de jeito algum ela deveria ter sobrevivido àquele acidente de carro. Que o que ela fez foi milagre. Que ela se recuperar do jeito que fez foi um milagre. Tudo que tem acontecido desde então... Eles me dizem que não há maneira alguma do corpo dela ter sido apto a se recuperar de tanto trauma tão facilmente a cada vez. Mas ela o faz," Judy diz, sua voz ficando mais embargada com cada palavra que passa. "Eu continuo esperando e esperando... Mas destino é cruel."

Judy funga e Rachel continua congelada. Ela sente seu batimento cardíaco agora. E é um martelo doloroso em seu peito.

"Agora que eu cheguei, os médicos começaram a fazer os testes finais para... para se certificar de que não há mais atividade cerebral. Que não há nada que resta dela."

As palavras pairam entre elas e Judy treme.

"Mesmo apesar deles não ter confirmado totalmente... morte cerebral... ainda assim eles me pediram para começar a considerar doações de órgãos. Eu acho que Quinn gostaria disso. Ela sempre foi tão carinhosa quando realmente importava. EU não sei de onde ela puxou isso – certamente não de mim e certamente não de Russell."

Há uma medida de auto-desprezo nas palavras de Judy. Rachel está dolorosamente familiarizada com isso. Destroça-a e queima em seu sangue. Judy começou tudo novamente – e ela relembra porque ela estava anestesiada pra começo de conversa. Porque dói. É inimaginavelmente doloroso. Pressiona e pressiona e pressiona. Esmagando-a. Enchendo-a de cicatrizes.

Porque é tudo culpa dela. Ela é responsável pelo sofrimento de Quinn.

...Pela morte de Quinn.

"Eu nem sempre fiz tudo certo pra Quinn. De fato, eu fui uma mãe terrível," Judy continua. Sua voz é um pouco mais do que um sussurro. "Mas eu gosto de pensar que melhorei. Eu pensei que nós teríamos mais tempo. Eu não posso – eu nunca imaginei que eu enterraria minha própria filha. Mas... eu quero agradecer a você, Rachel."

"Me agradecer?" Rachel diz com a voz embargada.

"Ela sempre foi uma criança triste. Eu... eu falhei tanto com ela. Mas eu nunca a vi tão feliz como ela era quando ela estava com você. Você a fez sentir amada. Você a fez feliz. Obrigada. Obrigada por dar a ela todas as coisas lindas que a vida tem para oferecer."

"Eu... eu..." Rachel diz, tremendo. Ela está de pé. É difícil de respirar. É difícil de pensar.

Judy está falando no tempo passado. Como se Quinn já estivesse morta. Ela está, ela está, algo negro cicia em sua mente, e é sua culpa. Você a matou. Mas Quinn não está morta ainda. Ela não está. Eles ainda estão fazendo testes. Ela ainda respira constantemente mesmo com a ajuda da máquina. Mesmo que os médicos tenham dito que ela não tem qualquer tipo de resposta a qualquer estímulo externo. Ainda pode haver algo! Qualquer coisa! Tudo que é preciso é um pequeno pulso elétrico de atividade, e...

Mas Rachel sabe. Ela sabe.

Isso é tudo que resta depois da proclamação da voz cinza.

Judy a vê com olhos abandonados. Rachel se afasta. Ela precisa... Ela precisa...

Ela precisa de Quinn para abraçá-la.

... Mas ela não pode.

Ela nunca mais o fará novamente.

Seu telefone toca no espaço silencioso deixado entre elas e Rachel encolhe. Ela tropeça pra frente, rapidamente agarrando a bolsa dela, que ela deixara ao pé da cadeira. Ela tropeça pra trás, sem conseguir escapar do olhar lacrimoso de Judy. Ela finalmente ganha alguma força só para virar e trombar com uma figura sólida. Ela se retrai.

É só Nathan. Ele a agarra pelos ombros, firmando-a. Ele não diz nada, meramente dá a ela uma encara profunda e triste enquanto o telefone de Rachel fica em silêncio. Ele a solta com uma tapinha no ombro, indo rapidamente em direção À Judy, falando algo em uma voz calmante e baixa enquanto ela cai aos prantos.

Rachel é deixada parada no meio da sala de espera.

Ela nunca se sentira tão só. Tão vazia. Tão sem valor.

Seu telefone toca novamente. Ela se assusta. Foi só uma distração no começo. Algo para utilizar pra se afastar dos olhos brilhantes de Judy Fabray. Mas agora ela pesca o telefone dela, segurando-o em um punho fechado. Ela dá uma olhada na tela e seu sangue grita em seus ouvidos à visão de "Santana Lopez."

Ela treme enquanto atende. "S-Santana?"

"Eu-eu soube. Minha mãe disse... ela... ela está bem?" A voz de Santana está fraca, cautelosa.

As palavras ficam na ponta da língua dela. A verdade, toda ela, paira sobre o precipício. Ela imagina em uma fantasia doentia se a raiva de Santana faria ela se sentir um tico melhor – se isso faria ela sentir algo além do peso esmagador em cima dela e o vazio no coração dela. Mas então ela pensa que não merece sequer isso.

Enquanto ela hesita, ela os vê. Os médicos de Quinn. Eles marcham com propósito em direção à Judy e Nathan.

As expressões deles dizem tudo.

Tão miserável quanto estava, Rachel pensava que ela estava tão pronta quanto podia estar para ouvir o veredito provável. Ela se subestimou grandemente. Nada podia prepará-la para a onda dilacerante de vazio. Nada. Ela dói de tantas maneiras que ela pensa que seria melhor morrer do que se sentir como se sente agora.

"Não," ela soluça no telefone dela.


Rachel encara a porta do quarto de hospital de Quinn.

Ela não pode parar de tremer. Ela não pode parar a batida cortante do seu coração. Ela não pode parar o vácuo de engatinhar sobre sua pele.

Ela anseia. Ela doía. Sua alma uiva em agonia.

Apesar do acordo, ela queria tudo. E por causa da sua fraqueza, ela tinha nada.

Ela não está certa do quanto ela estava parada ali. Ela não está certa do quanto ela espera. Ela ainda pode sentir o bater do ponteiro dos segundos ecoando através dela. A enfermeira pergunta se ela está bem. As palavras dela parecem abafadas. Rachel concorda com a cabeça. A enfermeira paira sobre ela. Os médicos vêm e vão.

Ela espera pela sua vez de dizer adeus.

Nathan emerge do quarto. Ele acompanhou Judy para dar a ela apoio. Rachel evita os olhos dele. Ela pode sentir a simpatia radiando dele. Ela não é merecedora disso.

Judy segue depois de algum tempo. Rachel não está certa de quanto tempo passa. Mas Judy parece anos mais velha. Nathan a envolve com os braços dela, levando-a em direção aos médicos. A enfermeira que está pairando sobre ela diz algo, fazendo um gesto em direção à porta.

Os passos de Rachel estão incertos. Sua respiração é fraca. Ela se inclina na moldura da porta e fecha os olhos.

Ela sonha com Quinn se apresentando nas Nacionais. Livre e feliz em Yale. Girando-a no Parque Millenium. Beijando-a embaixo da marquise do Jacobs. Assistindo-a em seu vestido preto e pele pálida. Sorrindo pra ela quando ela acorda. Dançando com ela na festa de aniversário de Seth. Desfazendo-se em seus braços.

Ela respira, abre os olhos e entra dentro do quarto.

Ela não está certa do que espera, mas Quinn parece como ela pudesse estar dormindo. Seu peito sobe e desce. Há até mesmo uma ponta de cor em sua pele. Mas Rachel sabe que são só as maravilhas da medicina moderna mantendo o perfeito equilíbrio para sustentar a vida física do corpo humano. Não há nada por trás dos olhos fechados de Quinn.

Ela foi embora.

Rachel se aproxima lentamente. Cada passo à frente manda uma ponta de dor soando por todo o corpo dela. Ela alcança o lado de Quinn e pensa que devia ser ela ali porque ela não tem mais nada.

"Me desculpe," ela chora. "Mil perdões."

O resto das palavras dela, pensamentos dela, sentimentos dela é afogado pelas lágrimas dela. Não era pra ter sido desse jeito. Não era nunca pra ter sido Quinn a sofrer. Não era nunca Quinn quem devia ter pago pela fraqueza dela.

Ela hesita, se esticando. Mas ela não pode resistir a tocá-la uma última vez.

Ela pega a mão de Quinn, entrelaçando os dedos dela e inesperadamente tudo cai no cinza.


O cinza permanece infinito. Ela respira em sua extensão infinita.

Há uma mão na dela.

Quinn flutua ao lado dela, vestida no vestido preto dela. Mechas loiras pairam, sem peso. Mesmo ali, em um espaço de outro mundo, os olhos de Quinn permanecem fechados.

Mas além de Quinn, além de si mesma, não há nem começo e nem fim.

Seu coração corre.

Um clarão de esperança.

Isso é o destino.

"Mude isso" ela grita. "Por favor! Deixe Quinn viver! Eu quero um acordo!"

Silêncio. Só cinza.

"Por favor! Por fovor! Ela não merece isso!" Rachel grita pro nada.

Não há nada. Nada.

"Por favor," ela implora. Seu coração cai. Por que ela está aqui? Por que o Destino não responde? "Por favor! Eu daria qualquer coisa por ela."

"Está quebrado. Você escolheu seu futuro Rachel Barbra Berry."

Seu coração pula. Ela pula. A voz está em todo lugar e ao mesmo tempo em lugar nenhum. Esperança borbulha por ela.

"Eu nunca quis isso! Eu não quero meu futuro!"

"Você conhecia os termos do acordo. Mudar o destino de uma pessoa não é uma tarefa fácil. Para mudá-lo, outro deve ser mudado em retorno. Para dar, algo deve ser tirado. Equilíbrio deve ser mantido."

"Eu quero que ela viva. Ela precisa viver! Ela merece viver. Ela merece felicidade," Rachel diz. Seu desespero é uma coisa viva que respira.

"Lucy Quinn Fabray não era destinada a viver além do acidente. A vida dela era pra ter sido extinguida. Você entregou seu futuro pela vida dela. Você tomou seu futuro de volta e a morte dela é tudo que sobra."

Rachel olha pra Quinn. Na curva do corpo dela, os contornos das suas feições, Rachel vê o final de todas as coisas. Ela vê o começo de todas as coisas. Uma tocha inflama em seu coração.

"Eu quero um novo acordo então. Para dar, algo deve ser tirado? Minha vida pela de Quinn."

Há silêncio. Seu coração bate. Ela aperta a mão de Quinn. Essa é a única absolvição que sobra. Sua morte. A vida de Quinn. Um equilíbrio.

Isso é o que ela pode dar.

"Você já recebeu uma troca. Nenhuma mais pode ser dada."

As palavras batem nela. Elas deixam sem fôlego.

"Não! Não, você deve!" ela engasga com as lágrimas. "Eu morro. Quinn vive. Está equilibrado! É justo! Não a puna pelos meus pecados!"

"Não é punição. É o destino."

"Eu não me importo com o destino! Quinn deve viver. Quinn precisa viver. Por favor!"

"É o destino. Lucy Quinn Fabray não era destinada a viver. Você tomou de volta o que era seu, Rachel Barbra Berry. Assim, Lucy Quinn Fabray recebeu de volta o que era dela. Morte."

"Então por que eu estou aqui!? Por que Quinn está aqui dessa vez!/ Por que eu sequer consegui um acordo pra começo de conversa!?" Rachel grita, sua voz rouca. Ela está se quebrando toda novamente.

"Esse aqui sabe o caminho no qual aqueles foram nascidos. Esse aqui guia aqueles no caminho deles. Esse aqui aparece para aqueles que chamam ao longo das eras. Mas esse aqui não tem onisciência."

"Então não nada pra mim aqui," Rachel sussurra. Ela quebra. "E não há nada para mim lá."

"Você tomou de volta o destino que você foi destinada."

"Não há mais sentido!" Rachel grita. Ela engole. Cada batimento cardíaco bate por todo o corpo dela, um lembrete raivoso da vida com nada restante que realmente importa. "Eu não posso! Eu não posso colocar o pé no palco porque eu sei que tudo que vou querer ver é Quinn. Eu perdi tudo. Meu futuro. A vida de Quinn. Eu não tenho mais nada disso."

"Você foi nascida para o seu destino. Você mudou seu futuro por Lucy Quinn Fabray. Você tem desde então reclamado seu destino. Você tem seu futuro."

"Eu perdi Quinn," ela chora. Seu coração estilhaça, espalhando cacos da sua alma. E Quinn está afastando-se, sendo clamada pelo cinza. Rachel segura sua mão com cada vez mais força porque é isso. "Eu perdi tudo. Você não entende? Depois do que tivemos juntas – eu não tenho futuro. Eu não posso cantar. Eu não posso dançar. Eu não posso atuar. Não depois do que eu fiz."

O cinza é sufocante. O cinza é silencioso. Ela pensa que vai se afogar em sua ilimitude, mas mesmo que ela não o faça, Rachel está eternamente aleijada. Sem um coração. Sem uma parte de sua alma.

"Você não pode ver? Você não pode ver como Quinn me mudou? Você não pode ver como o amor reescreveu tudo?" Rachel disse em uma honestidade de doer o coração.

"Esse aqui sabe qu Lucy Quinn Fabray foi sua como você foi dela. Esse aqui sabe isso as envolveu. Mas esse aqui não pode ver tudo."

O cinza é surpreendente, e, no seu lugar, Quinn está esvanecendo. Tudo que Rachel sabe está estilhaçado quase completamente, e não há nada sem Quinn.

"Ela me deu um equilíbrio," Rachel diz suavemente e mais pra si mesma do que qualquer coisa. "Você pode entender isso. Um equilíbrio entre uma independência para perseguir meus sonhos e uma necessidade de estar ao lado dela. Eu não posso perseguir qualquer sonho – eu não tenho meu futuro – se a vida de Quinn é o preço!"

"Você não consegue o caminho do seu destino original?"

A voz permanece tão composta quanto andrógina quanto sempre, mas há um vestígio de algo.

Algo novo.

"Eu não posso. Vem com a vida de Quinn. A vida dela. Eu a amo, ainda assim eu sou quem a matou," ela diz, angustiada. "Não importa o destino dela, sua vida está sobre a minha cabeça."

"Há destinos que as pessoas são destinadas. Há destinos que esse aqui pode criar. Você negou o destino que esse aqui criou. No profundo do seu coração, você nega o destino que você foi nascida também?"

"Não é uma questão de negar," Rachel diz bravamente. "Não é uma escolha. Eu sou incapaz. Eu não posso tomar aquele futuro porque Quinn mudou tudo."

Há um pulso. O cinza estilhaça. Rachel treme. Ela puxa o que resta de Quinn pra ela. Ela cai de joelhos, abraçando Quinn no seu peito e certa de que tudo vai desabar.

"Há destinos trazidos pelo equilíbrio. Destinos que esse aqui não pode ver porque eles são uma criação humana."

Quinn está fragmentando-se.

"Esses destinos são raros."

Desaparecendo.

"Esses destinos são excepcionais."

Destruindo-se.

"Esses destinos são formados apenas sob a influência do coração e da alma."

E Rachel está certa que ela está também.

Ela pensa como Quinn podia ver o cinza. Ela pensa sobre como Quinn está aqui com ela agora. Ela segura Quinn enquanto o cinza vasculha pela pele dela, clamando-a de uma vez por todas. Ela não pode olhar pra outro lugar, mesmo que clame a ela também.

"Você não tem destino que foi criada para alcançar. Você não tem destino que esse aqui mudou. Você só tem o destino de sua própria criação. Esse é o seu destino, Rachel Barbra Berry."

O cinza estremece.

Estilhaça.

Fica esfacelado.

Quinn está inteira em seus braços.

Olhos esverdeados abertos.


Rachel acorda.

E a primeira coisa que ela sabe é que há uma mão apertando a dela.

Adrenalina voa pelo sangue dela enquanto o mundo ao redor dela brilha com cor e música. No centro de tudo isso estão olhos esverdeados sonolentos.

É a coisa mais linda que ela já testemunhou.

Rachel chora. Ela agarra a mão de Quinn, desesperada e envolvida em uma variedade de coisas: alívio, culpa e amor.

Quinn agarra sua mão de volta. Quente, forte e muito viva.

A porta abre, enchendo o quarto de jalecos brancos e batas. Tudo cai em um caos. Mas os olhos de Quinn nunca deixa os dela.


Mais tarde, depois de dúzias de testes, depois de lágrimas e contentamento, depois de proclamação de milagres, há um momento de paz. Mas durante tudo isso, não há nenhum ressoar de batida de ponteiro de segundos. Não há cinza.

Rachel esperou, nunca longe, mas oscilando entre o peso esmagador da culpa e o puro relaxamento de alívio. E agora, enquanto a enfermeira guarda o arquivo, balançando a cabeça e sorrindo, e Nathan leva Judy lá fora para tomar um ar fresco, é só Rachel e Quinn.

"Eles querem me manter por mais alguns dias pra ter certeza. Eu só espero que eles não me tornem em algum tipo de rato de laboratório," Quinn diz. Sua voz está forte; suas feições quentes e iluminadas. Quase todas as máquinas monitorando-a foram desconectadas. Ela sorri, e é como se ela estivesse em qualquer lugar que não a cama de hospital.

Rachel tenta retornar o sorriso, mas é demais. Ela engole pesadamente, tentando manter o controle dela.

"Venha aqui," Quinn diz gentilmente, estendendo a mão.

Rachel paira no fim da cama.

"Rach," Quinn diz suavemente, "venha aqui."

Então ela se aproxima e quebra. "Me desculpa. Eu fui tão fraca."

"Não," Quinn diz enfaticamente, alcançando-a. "Não. Você teve dois destinos lutando por você. Rachel... você... você fez um terceiro."

"Você viu...?" Rachel diz roucamente enquanto Quinn a puxa para a cama de hospital com ela.

"Eu acordei por um momento no cinza. E quando eu o fiz, eu soube tudo."

"Não deveria nunca ter chegado a isso," Rachel diz fracamente. "Você sofreu demais. Tudo por causa de mim. Eu não sei como você pode suportar olhar pra mim."

"Não. Rachel, você foi tão forte. Você guerreou com seu destino. Você guerreou com meu destino. Você me salvou. Você não é fraca. Você é a pessoa mais forte que eu conheço."

Rachel está em silêncio. E isso ainda dói. Isso ainda rasteja através dela – a culpa, a vergonha, o pecado absoluto. Mas de alguma forma, ela sabe, que tudo vai ficar bem.

Quinn se inclina pra mais perto, olhos procurando os de Rachel maravilhados. "Você mudou o mundo por mim."


~ 10 Anos Depois ~

Ela espera nos bastidores pela deixa dela do diretor assistente. Ela assiste o monitor enquanto Seth, ainda lindo que nem um menino e infinitamente charmoso aos 30, termina o segmento. Ele dá um sorriso maldoso enquanto ele diz a moral da piada, o que encanta ainda mais a plateia. Quando a risada morre, ele continua. "Nossa convidada dessa noite é uma velha amiga minha, que diz o rumor, ajudou-me a conseguir esse trabalho há alguns anos. Ela realmente não precisa de introdução. Vocês todos a conhecer, mas por favor deem as boas vindas à Sra. Rachel Berry!"

A maravilha como ela ainda pode achar aplauso surpreendente depois de todos esses anos. Ela anda com um sorriso genuíno e um aceno. Seth a cumprimenta com um abraço entusiasmado.

Rachel ri enquanto toma seu assento. "Esse foi um cumprimento melhor do que o que você me deu quando eu cheguei no set!"

A audiência ri discretamente por trás das luzes.

"Eu estava ocupado," Seth diz a ela. Ele então olha em direção à câmera, falando com as pessoas que estão assistindo. "Fazendo coisas importantes antes do show!"

"Certo e seu cumprimento aqui não tem nada a ver com se segurar em meu rastro por fama?" Rachel diz com um sorriso provocador.

Seth acena um dedo pra ela e então estica os braços. "Eu acho que eu não preciso. Certo, galera?"

Há um rugido de aprovação da audiência, e, ambos, Seth e Rachel riem.

"Ok, ok, vamos aos negócios. Novo filme? Novo show de Tv? Musical? Álbum? Livro? Anunciando sua liderança do mundo. Por que você está aqui? Você é tão ocupada que eu não consigo acompanhar esses dias," Seth diz.

"Huuuum," Rachel diz, brincando junto. Ela talvez pode ter conversado com alguns produtores quando essa oportunidade abriu dois anos atrás, mas havia uma razão pra Seth ter conseguido o trabalho apesar de ser relativamente desconhecido. Ele é bom. Ele é franco e ele nunca conduziu, nem uma vez, uma entrevista estranha. O ibope subiu ao céu desde que ele tomou conta. "Eu acho, eu acho que é um filme dessa vez."

"Um filme, é. Isso parece certo. Eu talvez tenha escutado algo sobre isso. E como você tem quase que garantido um Oscar."

"Ah, não, há tantas grandes atrizes com grandes papéis esse ano," ela diz genuinamente. "Eu sei que há conversas, mas é cedo demais."

"Bem, vamos ver um clipe? Como seu amigo, eu prometo dar a você uma opinião honesta. Sem meias-verdades de mim. Não mais de qualquer forma," Seth diz, piscando. "Você pode nos contar um pouco sobre o que vamos ver?"

"Não há muito que eu possa dizer sem estragar algumas histórias, mas a história é sobre destino. Sobre se você verdadeiramente tem escolha sobre suas ações. Nesse clipe, você verá o momento onde meu personagem começa a questionar a si mesma e tudo que ela sabe."

O vídeo começa a tocar uma pequena cena do filme, e, assim como o aplauso ainda pode ser surpreendente, seu coração ainda martela ao ver a si mesma na tela.

Ao final do clipe, a audiência sussurra, discretamente e Seth olha pra ela esperando.

Rachel ri. "Também pode haver alguns elementos místicos."

"O que a atraiu a esse papel?" Seth pergunta. "É um pouco diferente dos seus outros trabalhos no cinema e no palco."

"A jornada da personagem me tocou em um nível pessoal. Depois de ler o roteiro, eu não podia tirá-lo da minha cabeça."

"Então você acredita em destino?" Seth pergunta, mesmo apesar dele conhecer a resposta. Ele não sabe tudo, mas destino é algo que Rachel nunca pode tirar da cabeça e ele vem à tona na conversa.

"Sim, eu acredito," ela diz sinceramente. "Mas eu também penso que não é tão simples. Que nós temos mais poder que percebemos."

"Você tem certeza que não quer adicionar filósofa à sua lista de objetivos alcançados e glórias?"

"Como você disse," Rachel diz levemente. "Eu sou ocupada demais"

"Okay, você não pode usar minhas próprias palavras contra mim. Meu show, minhas regras. Eu estou tergiversando, como foi filmar esse filme? Algo divertido no set? Houve vários rumores circulando..."

"Oh tudo foi ótimo! Eu amei trabalhar com todo mundo, mas aqueles rumores? Sobre namoros e sexo no trailer?"

"Sim, esses" Tudo é sempre sobre sexo!" Seth diz, instigando-a com um sorriso enquanto a audiência gargalha.

"Seth, você tem visto Quinn?"

Assim que ela fala o nome de Quinn, a audiência ruge em aplausos e Rachel não pode deixar de sorrir.

Seth ri. "Isso é justo. Então dez anos juntas, certo?"

"Quase onze!" Rachel corrige. É sua vez de olhar pra longe de Seth e para a câmera. Ela balança a cabeça dramaticamente. "Como um velho amigo, você pensaria que ele saberia disso por agora."

"Não é minha culpa que vocês duas estão tão ocupadas que eu mal consigo ver vocês. Eu tenho que agendar você para o meu show a fim de pôr a conversa em dia nesses dias."

"Há assuntos importantes que tivemos que –"

"Oh, como isso?" Seth interrompe.

Rachel leva a mão ao rosto em uma tentativa de esconder o sorriso mortificado enquanto uma foto familiar é mostrada no monitor. A audiência vibra e grita. Ela levou Quinn numa fugida no último fim de semana. Enquanto aproveitavam seu curto descanso, um fã reconheceu-as e tirou uma fotografia. Rachel sabe que a foto está por toda a internet. Não há nada obviamente obsceno, mas ainda assim pinta uma foto íntima. Quinn está parada numa água azul clara com as pernas de Rachel envolvidas ao redor da cintura dela. Suas testas estão descansando uma na outra enquanto elas partilham um momento de paz.

"Ainda há algo privado?"

"Bem, vocês estavam em uma praia pública," Seth diz, levantando uma sobrancelha.

"Era uma viagem surpresa. Nós saímos em um impulso," Rachel defende.

Seth dá um sorrisinho. "Em toda seriedade, quando você não está atuando e Quinn não está escrevendo algo chique para The New Yorker ou Newsweek Global ou The Atlantic, você duas tem encabeçado a campanha pela igualdade nos casamentos. De fato, Time fez uma reportagem no sucesso e vocês duas posaram juntas para a capa?"

Há outro aplauso da audiência quando a capa da última edição aparece na tela. O braço de Quinn está passado bem baixo na cintura dela enquanto Rachel fica parada perto dela. É uma pose que pode ser confundida com qualquer coisa que não romance.

"Quinn é o amor da minha vida. Ela é minha alma gêmea," Rachel diz seriamente quando as palmas morrem. Ela respira fundo. "Nós passamos por momentos verdadeiramente difíceis no começo, e nós não podíamos manter uma a outra em segredo nem que quiséssemos. Eu sou uma atriz, mas pela forma de manter nosso relacionamento aberto ao crivo público, eu me tornei uma defensora também. Quinn e eu só estamos fazendo o que podemos para ajudar a mudar como as pessoas veem o amor."

"E de todas as formas, vocês foram bem sucedidas," Seth diz. "Talvez seja o destino?"

"Talvez," Rachel diz com um sorriso doce e sincero, pensando em Quinn.

Seth encerra a entrevista e ela sai durante o intervalo, passos leves e despreocupados. O diretor assistente aponta pra ela um interno que a escolta de volta ao camarim. Rachel agradece ao interno na porta, mandando ele embora enquanto ela entra.

"Alma gêmea, hein?" Quinn diz, um sorrisinho brincando em seus lábios. Ela se levanta do sofá, onde ela estivera esperando e assistindo a entrevista. Ela ajeita os amassados não existentes em suas roupas e anda em direção a ela. Rachel sente seu coração acelerar ao brilho no olhar de Quinn. "Eu acho melhor considerar que o destino te encalhou comigo."

Ao invés de responder, Rachel anda em frente, encontrando Quinn em um beijo ainda tão intoxicador como o primeiro que elas partilharam todos aqueles anos antes. Elas se afastam, partilhando sorrisos contentes. E Rachel acredita que ela tem tudo.

- FIM -