CAPÍTULO X

Hermione considerou-se uma felizarda, quando, ao entrar na redação, o editor mandou-a novamente à rua para uma reportagem. Mais do que depressa, ela saiu na companhia de um fotógrafo, antes de encontrar-se com Rony.

Não queria vê-lo, não até que a raiva e a mágoa houvessem passado. Ronald não estava sendo razoável, disse para si mesma, enquanto James, o fotógrafo, fazia o carro atravessar o sinal amarelo para se juntar ao fluxo de tráfego na outra quadra. Como alguém podia ser tão frio?Continuou a pensar, mal prestando atenção ao trânsito. Será que ele não tinha a menor simpatia pelos problemas dos outros ou aquilo era apenas aparência? Não via o sofrimento de Victor? Não reconhecia a dor naquele semblante torturado? Deus, como Hermione podia amar alguém tão... Nesse momento, a ordem de seus pensamentos se interrompeu, e ela reconheceu que, apesar de tudo, não importavam as razões, pois amava Rony. E isso era tão simples que não exigia explicações.

Justamente por amá-lo é que Hermione não podia aceitar nele tamanha frieza para com os sentimentos alheios. Ele a acusara de estar obcecada por Victor. Grande psicólogo! Qualquer pessoa racional entenderia que Victor Krum havia sido o seu herói de infância. Ela o amara livremente, com o coração de uma criança. Como passar do tempo, o amor se transformara, não porque Victor houvesse mudado, mas porque ela própria estava diferente. Era uma mulher adulta, não mais a menina de antes.

Ainda amava Victor, claro que sim, porém do modo como uma mulher ama a recordação de um primeiro beijo. Era uma lembrança doce e suave, sem qualquer vestígio de paixão. Incrível que Rony não conseguisse entender isso. Na certa julgara que ela pensava em Victor sempre que estavam juntos. Droga! Como ele podia acreditar...

Mais uma vez uma nova idéia interrompeu o fluxo de seus pensamentos. Uma idéia tentadora. Rony se comportava desse modo simplesmente porque sentia ciúme.

— Puxa, como não pensei nisso antes? — disse, satisfeita, em voz alta.

— O quê?— James perguntou, sem entender.

— Hã? Ah, não é nada, James. Estava apenas pensando alto.

O outro não fez perguntas e continuou atento ao volante. Ciúme... Bem, isso tornava as coisas mais fáceis de serem entendidas. E bem mais interessantes também. Mas, nesse caso, por que ele jamais deixava transparecer que gostava dela? Ou, por outra, isso seria sinal de que estava apaixonado? Talvez sim, talvez não. Ela precisaria pensar no assunto.

O carro estava preso no trânsito, em meio a uma sinfonia estridente de buzinas.

— Vou saltar aqui, James. Acho que a pé chegarei mais rápido. Nos encontramos daqui a pouco, certo? — E saindo do automóvel, foi para o local da reportagem.

Rony estava na rua também. Como Hermione, ele enfrentava o trânsito, as buzinas e o calor. Entretanto, na Vieux Carré, a atmosfera era mais agradável, já que se podia sentir a combinação do aroma das flores com o do rio. Mas, no momento, ele estava ocupado demais para prestar atenção às belezas naturais de New Orleans.

No distrito policial, depois de algumas perguntas, Rony obtivera a informação de que nunca se especulara acerca de Elise ou Charles Krum. Nem sequer havia um relatório dando-os como desaparecidos. Aparentemente, o bilhete deixado por Elise, as roupas que estavam faltando nos armários e os quadros tirados das paredes foram o suficiente para satisfazer a todos, inclusive a polícia. Rony, porém, não estava satisfeito.

Ao tentar ir mais longe, foi barrado por um muro de indiferença. Que importância poderia ter se os dois continuavam na cidade ou se alguém os havia visto? Eles haviam desaparecido, e dez anos era muito tempo. Havia outros casos em New Orleans para manter a polícia ocupada. Quem se importaria com um adultério cometido há uma década? Claro, os rapazes do laboratório poderiam analisar o pedaço de metal quando tivessem tempo. E ele? O que pretendia fazer? Aceitava um conselho? Melhor deixar isso para lá.

Rony saiu do distrito com menos pistas do que quando entrara. Ao dobrar uma esquina, deparou com o bar que Harry costumava freqüentar. Ambiente requintado, boa música... Era bem capaz que ele estivesse por lá. Resolveu entrar.

Avistou o amigo no primeiro instante, sentado a uma mesa de canto. Um copo de cerveja pela metade e a atenção voltada para alguns papéis espalhados na frente dele. Rony sorriu. Harry não mudava nunca. Parecia o mesmo dos tempos de faculdade. Pela primeira vez naquele dia sorriu, sentindo-se bem.

— Diga aí, bacharel. Tudo bem?

— O quê? — Distraído, Harry ergueu os olhos. — Oi, Rony. — Juntou os papéis, enquanto o outro se sentava. — O que anda fazendo?

— O mesmo de sempre. — Pediu uma cerveja à garçonete

— Agora, no entanto, estou precisando dos seus conselhos jurídicos.

— Ah... — Sorrindo, Harry coçou o queixo, o único traço de semelhança com a irmã.

— Eu disse conselhos, não representação — Rony avisou.

— Muito bem. Vamos lá.

Rony esperou que a garçonete colocasse o copo de cerveja diante dele e então começou:

— Se eu decidisse aplicar o meu dinheiro, você diria que as ações da Empresa de Construção Naval Krum seriam um bom investimento?

Harry olhou intrigado para o amigo.

— Eu diria que esse é um assunto para você discutir com o seu corretor, e não com o seu advogado.

— Uma questão hipotética então: se eu estivesse interessado em investir numa companhia sólida de New Orleans, poderia escolher a companhia dos Krum?

— Bem, eu diria que é uma das companhias mais sólidas do país.

— Muito bem — Rony murmurou. — Por que você acha que ninguém tocou na herança de Elise Krum?

Harry estava cada vez mais intrigado. Tomou um gole de cerveja.

— Como você chegou a isso?

— Sinto muito, mas não posso revelar a fonte, Harry. Cinqüenta mil dólares... — Fitou o amigo com ar pensativo, correndo os dedos pelo copo de cerveja. — Uma bela soma para dar-se uma injeção nos negócios, principalmente em se tratando de dez anos atrás. Acho que até mesmo um homem como Krum encontraria um modo de fazer uso desse dinheiro.

— Ele não tem direito a nenhum centavo dessa quantia. Ela está no nome de Elise. — Sorriu diante da expressão interrogativa de Rony. — A minha firma cuidou do caso — explicou.

— E a mulher simplesmente desapareceu. — Ergueu uma das sobrancelhas. — Estranho. Vocês não tentaram encontrá-la?

— Sinto muito, mas agora sou eu quem não pode falar. É contra a ética.

— Certo, vamos falar hipoteticamente outra vez: quando alguém herda uma grande quantia e não a reclama, o que faz o testamenteiro para encontrá-la?

— Anúncios nos jornais, detetives particulares, enfim, os procedimentos normais.

— Vamos supor que a pessoa beneficiada tenha um marido que não deseje avistar-se com ele.

— Nesse caso, a investigação seria confidencial.

— Hum, hum. — Rony brincava com o copo. — Elise Krum havia feito um testamento?

— Rony...

— Por favor, Harry. Isso é muito importante.

Se fosse qualquer outra pessoa que estivesse lhe pedindo tal coisa, Harry simplesmente sairia com alguma frase em jargão legal. Mas conhecia Rony muito bem e há muito tempo.

— Não — respondeu, afinal. — Tanto Elise quanto Victor tinham testamentos em fase de redação, mas ela desapareceu antes que fossem assinados.

— E quem eram os beneficiados?

— Eram testamentos normais, para marido e esposa sem filhos. Lilá e Charles possuíam seu próprio dinheiro.

— Muito dinheiro?

— Lilá é uma mulher muito rica. Os investimentos de Charles e as suas economias representam um patrimônio respeitável. Mas ele também não retirou um centavo, esse tempo todo.

— Interessante — foi o único comentário de Rony.

— Agora você quer me dizer a troco de que está fazendo tantas perguntas?

— Estou apenas tentando cercar todos os lados.

— É alguma coisa relacionada com o que você e Hermione estão investigando? Gina me contou sobre Anne e as cartas.

— Ah, você a conheceu?

Harry corou ligeiramente, fazendo Rony lembrar-se dos tempos de faculdade, quando o outro se interessava por uma garota, sem muita coragem para se declarar.

— Ela mora na casa da minha avó. Como eu poderia não conhecê-la? — retrucou. — Vocês vão conseguir ajudá-la?

— Estamos fazendo o possível. E, já que vocês se tornaram amigos, é bom que a mantenha calma e fora disso tudo. Pelo menos até que a coisa estoure.

— Eu já havia pensado nisso — Harry confessou. — Você está cuidando da Hermione?

Rony sorriu com ironia, lembrando-se de como haviam passa do aquelas últimas horas.

— Ninguém consegue tomar conta de Hermione— murmurou.

— Eu sei. — Novamente distraído, Harry guardou os papéis na pasta. — Eu tenho um encontro com um cliente, mas, assim que tivermos um tempinho livre, gostaria de voltar a conversar sobre isso com você.

— Está bem. E obrigado.

Sozinho, Rony concentrou-se no copo de cerveja à sua frente. Muitas peças ainda estavam soltas, refletiu, descontente. Outras não se encaixavam. Duas pessoas poderiam dar as costas para os amigos e parentes, especialmente no primeiro ímpeto de um caso de amor, mas deixar de lado uma quantia como aquela? E, principalmente, quando dez anos já se haviam passado?

Ou o amor os enlouquecera de fato ou ambos estavam mortos há muito tempo. A morte, nesse caso, fazia mais sentido para Rony.

Recostando-se na cadeira, acendeu um cigarro. Se Charles e Elise tivessem sofrido um acidente na fuga, com certeza teriam sido identificados. Balançou a cabeça, insatisfeito. Nada daquilo fazia sentido. De certo modo, intuía que tudo estava relacionado com o caso de Anne Krum. E, se uma de suas teorias estivesse certa, a pessoa que estava por trás daqueles acontecimentos havia matado não apenas uma, mas três vezes.

Ficou contemplando a fumaça que se desprendia do cigarro e resmungou baixinho. Já era muito tarde para continuar investigando o desaparecimento de Charles e Elise. O dia seguinte era domingo, o que significava que ele teria que esperar até segunda-feira.

Segunda-feira, pensou, decidido. A próxima coisa a investigar seria o paradeiro de Victor no dia em que Charles e Elise saíram para sempre de Heritage Oak. Ele e Hermione escavariam a fundo os menores detalhes, ainda que ela relutasse em prosseguir para não magoar aquele idiota.

Amassou o cigarro no cinzeiro e saiu, deixando uma nota sobre a mesa. Precisava falar com Hermione imediatamente.

Hermione estava totalmente envolvida na matéria quando Rony apareceu na redação.

— Você já terminou?— Ela ergueu os olhos da máquina de escrever.

— Quase. Por quê?

— Preciso conversar com você. Quer jantar comigo?

Hermione ficou surpresa com aquele tom um tanto formal. Aquele não era o estilo dele e ela ficou em dúvida sobre como responder à pergunta. O que estaria tramando agora?

— Está bem, Ronald— aceitou, afinal. — Eu... — Foi interrompida pelo telefone que tocava sobre a sua mesa. Ainda pensando no que dizer a ele, atendeu: — Redação, Hermione Granger.

Ronyviu a expressão dela mudar subitamente, a cor desaparecendo do seu rosto, antes que os olhos se erguessem para ele com urgência.

— Sinto muito — disse Hermione, indicando o telefone na mesa dele. Num segundo, Rony alcançou a extensão. Hermione procurava ganhar tempo: — Fale mais alto, por favor. Não estou ouvin do bem.

— Você já foi advertida duas vezes — uma voz sussurrante e assexuada disse do outro lado da linha, fazendo-a tremer instintivamente, dos pés à cabeça. — Pare de se intrometer num assunto que não lhe diz respeito.

— Quem está falando? Alô?

— Estou avisando pela última vez: esqueça-se de Anne Krum.

— Foi você que deixou aquela caixa na minha porta? — Hermione notou que Rony pegava um outro telefone e discava apressadamente.

— Aquilo foi apenas um lembrete. Da próxima vez, você receberá um outro animalzinho de estimação. Vivo — acrescentou.

Ela não podia controlar a sensação de pânico que lhe percorria a espinha, mas podia dar um jeito para que a voz não saísse trêmula.

— Foi você também que esteve no pântano, a noite passada, não é?

— Você não tinha nada que fazer lá. Se entrar novamente naquele pântano, não sairá viva!

Meu Deus, o que era aquilo? Um pesadelo? Até então só presenciara essas coisas nos livros e filmes. Mal podia acreditar que estivesse sendo protagonista de uma cena de mistério.

— Você tem medo de que eu descubra o quê? — conseguiu perguntar.

— Anne não deveria ter entrado naquele pântano. Lembre-se disto.

Um clique seco do outro lado da linha deu a entender que a pessoa havia desligado. Segundos mais tarde, Rony praguejou e desligou o outro telefone.

— Droga! Foi rápido demais para que conseguissem localizar a chamada. Você reconheceu a voz?

— Não tenho a menor idéia de quem seja.

— Pelo visto, nós estamos deixando alguém muito nervoso — murmurou, pensativo. Alguém que, segundo a teoria dele, não se incomodaria de matar pela quarta vez.

— Você está pensando em chamar a polícia — deduziu ela.

— Acertou em cheio.

Hermione passou a mão pelos cabelos e se levantou.

— Ronald, escute, eu sei que você tem razão, mas vamos esperar mais um pouco. — Calou-o com um gesto. — Essa pessoas quer nos amedrontar e nos fazer desistir. Vamos fazer o seguinte então: neste fim de semana poderemos confrontar nossas anotações, checar nossas idéias, fazer as possíveis relações. Assim vai ser melhor, porque, quando formos à polícia, na segunda-feira — acrescentou com ênfase —, teremos tudo montado.

Ela estava certa, mas ele não gostou da idéia.

— Está bem. Vamos fazer isso. Mas o nosso prazo será até segunda-feira, lembre-se.

Em vez do jantar à luz de velas, que Rony planejara, eles estavam sentados à mesa do apartamento de Hermione, matando a fome com hambúrgueres e batatas fritas. Folhas de papel espalhavam-se diante dos dois, arrancadas de blocos de anotações.

— Eu diria que temos evidências suficientes para concluir que a morte de Anne não foi um acidente. — Hermione anotou o item no bloco, numa primeira tentativa de organizar a discussão.

— Brilhante — Rony murmurou. — Até parece Harry falando diante de um júri.

— Não seja bobo, Weasley, e me passe a soda. — Ele atendeu e ela tomou um gole diretamente da lata. Com a testa franzida, prosseguiu, concentrada no bloco: — Temos ainda o testemunho de Gina de que Anne tinha horror a lugares escuros, especialmente àquele pântano, o que foi confirmado por Victor, Lilá e Françoise. O que mais? Ah, as cartas roubadas, não pode mos nos esquecer desse detalhe, que é importantíssimo. Depois temos aquela caixa que me enviaram, o ataque que sofri no pântano e o telefonema anônimo.

Rony apagou o cigarro e deixou-a prosseguir.

— A primeira entrevista com Victor e Lilá... nada de muito significativo, a não ser que se leve em conta o lado emocional da coisa, com o qual, decisivamente, você não aprecia lidar.

— Pois eu o considero muito útil — Rony argumentou, sem alterar o tom de voz —, desde que se olhe para ele com uma certa objetividade. O que você, decisivamente, não tem.

Hermione chegou a abrir a boca para dar uma resposta atravessada, mas refreou-se a tempo, lembrando-se de que ela o provocara primeiro. Baixou os olhos para as anotações e continuou apressadamente:

— Agora, com relação a Brewster, sabemos que ele estava apaixonado por Anne e que queria que ela deixasse Victor. Não precisamos fazer conjeturas a respeito, já que ele mesmo confessou isso. — Sublinhou o nome de Brewster e prosseguiu: Lilá sabia de tudo, mas não podemos ter a mesma certeza com relação a Victor. Pela conversa que tive com ele, não percebi nada. Podemos então deduzir duas coisas: ou ele não sabia dos sentimentos de Nathan ou não deu importância a eles, visto que o outro ainda trabalha na firma.

Hermione esfregou a nuca e esticou o corpo, num primeiro sinal de cansaço.

— O ponto principal, e onde estamos de pleno acordo, é que Anne não sairia para aquele pântano no meio da noite se não estivesse sendo pressionada a fazer isso. E mais: ela não teria continuado a andar, aprofundando-se cada vez mais, se tivesse outra escolha. Na minha opinião, Brewster é o maior suspeito.

Rony também fez algumas anotações e em seguida comunicou:

— Eu falei com Harry esta tarde.

— É? — Hermione olhou para ele, tentando fazer uma ligação entre aquela declaração e o que ela acabara de dizer.

— Eu queria que ele confirmasse uma hipótese que me veio à cabeça, depois que saí do distrito policial.

— O que Harry tem a ver com isso?

— Ele é advogado. — Com um sorriso, Rony acendeu um cigarro. — E, para nossa sorte, descobri que a firma onde ele trabalha cuidou do caso da herança que Elise deveria receber.

Hermione descansou a lata de refrigerante sobre a mesa.

— Ainda não estou entendendo. O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Minha cabeça está a mil. Ouça só isto. — Vasculhou nas notas, procurando alguns dados. — Cinqüenta mil dólares, mais os juros de dez anos, nunca foram reclamados. O dinheiro de Charles Krum também não foi tocado, nesse tempo todo. O banco deve ter feito uma investigação discreta sobre o paradeiro deles, sem sucesso. — Encontrou o olhar de Hermione. — Por outro lado, não existe nos arquivos da polícia nenhum relatório dando os dois como desaparecidos, o que significa que ninguém se incomodou de comunicar o fato. Agora eu pergunto: como e que duas pessoas conseguem sumir, sem deixar o menor vestígio?

— Onde é que você está querendo chegar?

— Você sabe muito bem.

Sentindo necessidade de se movimentar um pouco, Hermione ergueu-se da cadeira.

— Você acredita que eles estejam mortos, não é? — concluiu. — Talvez estejam mesmo. Podem ter sofrido um acidente e... — Parou, e Rony percebeu que agora os pensamentos dela seguiam o mesmo rumo que os seus. — Você acha que eles foram mortos antes de saírem de Heritage Oak?

— É mais do que uma simples possibilidade, não é?

— Não sei. — Pressionando os dedos na testa, Hermione tentou raciocinar com lógica. — Eles poderiam ter tomado um avião para a Europa ou para o Oriente, sabe Deus para onde, usando passaportes falsos.

— Poderiam — concordou ele. — Mas seria um bocado difícil, não concorda?

Hermione respirou fundo.

— Vamos supor que, de algum modo, tudo isso esteja relacionado com a morte de Anne. Nesse caso, Brewster estaria fora de suspeitas. Mas então quem... — Continuou a buscar no cérebro uma explicação que a convencesse. — Victor estava fora da cidade.

— Quem disse? Será que estava mesmo? — Rony interrompeu-a, sabendo que precisava usar de todo o cuidado dali para a frente. — Ele tinha um jatinho. Poderia inclusive estar pilotando o aparelho. Você sabe as possibilidades que se abrem a partir daí.

Hermione não respondeu, a mente trabalhando furiosamente. Uma chegada repentina, os amantes surpreendidos, um momento de loucura. Num avião particular, os corpos poderiam ser levados para qualquer lugar, sem que isso levantasse suspeitas. Pálida, voltou-se para Rony. Ele estava esperando que ela abrisse a boca para dizer que aquilo era um absurdo. Mas Hermione não poderia. Havia muita coerência na hipótese levantada por ele.

— Não será fácil — anunciou com um fio de voz, procurando, todavia, manter uma frieza profissional —Mas poderemos checar todos os vôos feitos naquela noite, há dez anos.

— Pois eu começarei a investigar na segunda-feira.

Ela fez um aceno afirmativo.

— E eu vou ver se consigo arrancar alguma coisa de Harry. Pretendo ir até a firma onde ele trabalha para conseguir mais detalhes sobre essa história do dinheiro de Elise.

— Não.

— Não? — repetiu ela, sem entender. — Mas nós precisamos cercar todos os lados.

— Daqui para a frente, você não vai perguntar mais nada a ninguém.

— De que diabo você está falando? Não se consegue uma matéria sem perguntas ou entrevistas.

— Daqui para a frente, eu vou assumir as investigações.— Hermione sacudiu a cabeça.

— Você enlouqueceu, só pode ser isso.

— Encare como quiser, mas não vou deixar você se expor novamente.

— Quer ficar com as glórias para você, Ronald Weasley?— Ele foi engolido pela ira.

— Isso não é um jogo! — vociferou. — Não estamos fazendo apostas para ver quem consegue a primeira página!

— Eu nunca considerei a minha profissão um jogo — retrucou ela, sem se abalar com os gritos.

— Ouça bem, Hermione Granger, não quero você no meu caminho.

Ela fuzilou-o com o olhar.

— Ótimo, eu saio. — E acrescentou: — Desde que você tampouco fique no meu.

— Mas não percebe que está correndo perigo? — ele gritou. — Use a cabeça pelo menos uma vez na vida. Você foi amea çada não uma, mas três vezes! Eles não estão brincando, Hermione!

Ela arqueou uma das sobrancelhas.

— Então eu preciso tomar um cuidado redobrado, certo?

— Escute aqui, sua teimosa, ninguém me ameaçou, eu não estou arriscando a minha vida. É você que eles querem! — Havia pânico na voz dele, mas Hermione estava com outras coisas na cabeça para poder notar o quanto Rony se importava com ela. |

— Você quer saber por quê, Ronald Weasley? — continuou ela com voz firme. — Porque eu sou uma mulher, e as mulheres se deixam intimidar com mais facilidade do que os homens. Pelo menos é o que todos pensam.

— Hermione, escute...

— Mas eles se esqueceram de uma coisa — prosseguiu, impedindo-o de falar. — Você se esqueceu de uma coisa, Ronald Weasley. Eu sou uma repórter, está no meu sangue, e, para chegar à verdade, sou capaz de fazer qualquer coisa. Não fosse assim, seria melhor procurar outra profissão.

— Só que eu não estou apaixonado pela maioria das repórteres — reagiu ele, cada vez mais nervoso. — É você que eu amo, droga! E não posso suportar a idéia de vê-la se arriscando desse jeito. — Parou, ofegante, e tirou um cigarro do maço.

Hermione ficou imóvel, vendo-o procurar a caixa de fósforos no meio dos papéis. Sentia-se rodopiando, como se tivesse sido apanhada por um redemoinho. Apenas quando Rony parou de resmungar foi que ela se deu conta da onda de calor que a envolvia. Nos seus ouvidos, o eco daquela frase tão ansiosamente aguardada: "É você que eu amo". Ele dissera isso mesmo? Ela não estaria sonhando?

Rony parecia tão surpreso quanto Hermione. Diabos, o que ele fizera? Acabara por mostrar as cartas antes mesmo da aposta. E agora? Como se comportar daí para a frente?

— Eu... eu acabei de dizer o que penso que disse? — tentou brincar para aliviar o embaraço.

Hermione não sorriu, apenas cruzou os braços.

— Hum, hum. Eu tenho testemunhas.

Ele ergueu as sobrancelhas e olhou em volta.

— Mas não há ninguém aqui.

— Isso é o de menos. Eu posso subornar alguém.

Rony enfiou as mãos nos bolsos, quando, na verdade, estava louco para tocá-la. Ela o fitou de modo enigmático e deu um passo para a frente.

— Não sei como pude pensar que você fosse um homem observador, Ronald Weasley.

— Como assim? — Olhou para ela, intrigado.

— Será que não está entendendo mesmo? — Sorriu de modo significativo. — Será que é tão difícil para você ler nos meus olhos?

O coração dele começou a bater num ritmo desenfreado. Não podia se lembrar de uma sensação tão intensa de felicidade.

— Prefiro que use as palavras — murmurou, então. — Não me faça implorar, Hermione.

— Ronald... — Chegou bem perto dele, os olhos brilhando, o rosto sorridente. — Você é o único homem da minha vida. Eu te amo, como jamais amei alguém antes. E isso não vai mudar nunca, dentro de mim.

— Hermione... — Mas não pôde dizer mais nada, porque, no segundo seguinte, suas bocas estavam coladas, uma entrega ardente e apaixonada. Passou os braços em volta dela e puxou-a para mais perto, enquanto um turbilhão de pensamentos lhe alvoroçavam a mente. Há quanto tempo vinha esperando por isso... Tanto tempo... Quando fora que ele se sentira assim?

— Fale de novo — ordenou, junto aos lábios dela. — Diga mais uma vez que me ama.

— Eu te amo, Ronald. Tanto, que você nem é capaz de imaginar. — Os beijos se confundiram com as palavras. As mãos dele subiam e desciam pelas costas de Hermione. — Eu pensei que, se lhe dissesse isso antes, você daria risada, julgando-me louca. — Segurou o rosto dele com as duas mãos, embriagada de felicidade. — Quando foi que você se apaixonou por mim? Eu nunca percebi nada.

— Você não acreditaria, se eu lhe dissesse. — Antes que Hermione tivesse oportunidade para insistir, os lábios dele se apossaram novamente dos dela.

Os outros pensamentos foram varridos da mente de Rony. Ali só existia lugar para Hermione, a mulher que ele amava mais do que a própria vida. Se antes julgava amá-la com loucura, isso não era nada, comparado ao que sentia agora. Abraçou-a com força, desejando perder-se nela, como se o corpo de Hermione fosse a extensão do seu próprio corpo.

Hermione deixava-se arrastar por aquele beijo, de um sabor novo, todo especial, agora que estava segura dos sentimentos de Rony. Saber que ele a desejava era excitante. Ter a certeza de que ele a amava era glorioso. Palavras... Tantas palavras que gostaria de dizer... Mas depois. Agora havia outra linguagem para ser usada, uma comunicação que dispensava palavras. Ah, aquela química que existia entre eles era capaz de fazê-la derreter. Ardendo de desejo, ela o arrastou consigo para o chão.

Rápido. Muito rápido. Nenhum dos dois falava. Depressa. Sentir pele contra pele. Roupas descartadas com urgência. Ah... que delícia o contato de seus corpos... Que arrepio um simples toque era capaz de provocar!

Rony. murmurava coisas de encontro ao ouvido dela. Hermione sussurrava o nome dele com doçura. E suas línguas se entrela çavam novamente.

Um beijo demorado. Não havia pressa agora. A certeza de que se amavam fazia o desejo misturar-se a uma sensação de deslumbramento.

Os lábios de Rony moviam-se sobre o ombro dela, devagar, preguiçosamente, desciam para o braço, subiam outra vez, enquanto Hermione lhe acariciava os cabelos e a nuca. Ele levantou a cabeça e seus olhares se encontraram, até que, sorrindo, eles fizeram suas bocas se unirem mais uma vez.

A mudança aconteceu tão devagar que, muito provavelmente, nenhum dos dois se deu conta dela. Ainda não havia pressa nem desespero, mas o desejo crescia, tornava-se mais intenso. Gradualmente, os suspiros transformaram-se em gemidos. Com a boca fechada sobre um dos seios de Hermione, Rony ouvia a respiração dela se acelerar. Ou seria a dele? A excitação foi aumentando diante da expectativa. Seus corpos vibravam, suplicantes. As carícias tornavam-se mais ardentes. Olhos fechados, respiração arquejante, Hermione sentia as mãos de Rony percorrerem-lhe o corpo, e gemeu e tremeu quando a língua dele começou a fazer as loucuras que as mãos apenas haviam iniciado.

Úmida de excitação, ela o conduziu para dentro de si. Nenhum dos dois podia esperar mais. Seus corpos se movimentavam em perfeita sintonia, o ritmo aumentando... aumentando... , Hermione, com o pouco de lucidez que lhe restava, rezava a todos os deuses para que aquela sensação indescritível não cessasse nunca.

Rony estava de olhos bem abertos. Dentro dela e olhando para ela. Ele a queria toda, penetrar-lhe o corpo e alcançar-lhe a alma. Como era linda, transfigurada pelo desejo, e ao mesmo tempo serena diante da segurança que o amor lhe proporcionava! Ele gostaria de guardar para sempre aquela imagem. Mas foi a última coisa em que conseguiu pensar com clareza, antes que a escuridão e todos os seus prazeres selvagens o dominassem completamente.


Bom é isso, desculpem a demora é que estou em semana de prova e fica meio difícil postar mas vou fazer o possível pra postar o mais rápido possível!

A fic esta acabando e já estou preparando a próxima fic e estou ansiosa por ela!

Comentem.