PERFEITAMENTE DESCONHECIDOS
Capítulo 10
Após a festa, Botan sentia que um trator havia passado sobre suas pernas. Era muito difícil sustentar-se sobre um par de Louboutin e ela estava apenas terminando de ter certeza que aquilo era verdade. Chegou ao quarto de hotel e olhou para a cama arrumada.
Agora que Kurama havia partido, não sabia se Shizuru continuaria a dividir o quarto com ela ou se passaria a dormir com Koenma. Mas aquilo realmente não importava, ela só pensava em dormir.
Tirou a maquiagem do rosto com um produto potente, que quase não precisou esfregar a área dos olhos para limpá-la. Passou sua série de cremes hidratantes e se sentia confortável o bastante vestindo um pijama que ela julgou ser um pouco velho (e feio), mas aqueles pareciam ser os mais gostosos.
Quando deitou sob as cobertas e acomodou a cabeça no travesseiro fofo, pegou o celular imediatamente e estranhou o fato de não ter nenhuma chamada perdida, ou até mesmo alguma mensagem de texto. Ela estava esperando que Kurama desse algum sinal de vida, e a julgar pelo horário, ele provavelmente já deveria estar em Tóquio há algumas horas.
Suspirou um pouco desapontada e deixou o aparelho jogado ao seu lado na cama, direcionando toda a sua atenção aos detalhes de gesso no teto do quarto. Pensou um pouco mais em Kurama e, estranhamente, em Jin.
Talvez não estivesse errada se resolvesse beijá-lo. Obviamente ela não gostava muito de manter mais de um caso ao mesmo tempo, mas fazia pouco mais de uma semana que tinha conhecido Kurama. Eles não eram casados nem nada do tipo, embora tivessem aprofundado bastante a relação na noite anterior. Mas não havia porque se recriminar por se sentir atraída por outro homem.
Por outro lado, Kurama veio de muito longe só para vê-la, pensou. Mas também, isso demonstrava claramente como ele apresentava sinais visíveis de inconsequência, já que ele deixou a empresa que dirigia nas mãos do outro sócio só porque queria resolver seus problemas pessoais. E ele a deixou, voltando para Tóquio com uma pressa que ela desconhecia, sem ao menos se explicar.
Botan balançou a cabeça.
Às vezes ela se sentia como se fosse a pessoa mais chata do mundo. Não precisaria buscar razões para justificar seus atos. Ela era adulta e livre para decidir o que seria melhor para si mesma e, pelo mesmo motivo, não tinha que arranjar desculpas para culpar Kurama. Ele simplesmente não devia absolutamente nada a ela.
Uma batida a tirou do transe em que estava afundada, e abriu a porta automaticamente, jurando ser Shizuru.
Mas não, era Koenma quem estava parado à sua frente.
Ela se esforçou para olhar para seu pijama velho e se sentir envergonhada, mas Koenma já conhecia muito bem suas roupas de dormir antigas para julgá-la. E por que raios ele estava ali, àquela hora? Talvez estivesse procurando por Shizuru.
-Posso entrar? – perguntou, cauteloso.
-Shizuru não está aqui – Botan sentiu a voz soar um pouco grosseira.
-Melhor ainda. Gostaria de conversar com você – ela quis morrer quando escutou aquilo. Mais essa, pensou.
Sem outra escolha, deu passagem para ele entrar no quarto e indicou o terraço, com uma mesa e algumas cadeiras. O tempo não estava tão frio, então bastou ela se enrolar em uma manta e já estava tudo certo.
Sentaram-se à mesa e ficaram em silêncio por alguns minutos. Botan quase que podia imaginar o que ele queria falar, mas se repreendeu mentalmente por ser tão implicante e neurótica. Ela precisava aprender a ser mais tolerante.
-Desde quando você me expulsou do seu apartamento, nós não conversamos mais – o rapaz começou, fazendo ela parar de admirar alguma coisa perdida no espaço e voltar o olhar para ele. Não exatamente como ele queria, mas um pouquinho mais gélida.
-Parece óbvio o porquê, não acha? – ela estava sendo sarcástica, mas percebeu que Koenma gostaria de conversar numa boa, o que a fez abaixar o tom de voz. Tolerância, Botan.
-Não quero que pense coisas ruins a meu respeito, Botan. Eu gostava muito de você, de verdade. O problema é que, às vezes precisamos fazer escolhas, eu me senti atraído por Ayame e não consegui evitar o pior – ele se explicava, com um olhar um pouco melancólico, aparentando estar profundamente arrependido – Apesar disso, foi preciso eu quebrar a cara para perceber que você estava certa quando disse que eu só daria valor a alguma coisa quando a perdesse.
Botan suspirou. Aquilo a deixou bastante abatida no passado, e ela não gostava de tocar no assunto ou estendê-lo quando alguém fazia questão de perguntar. Mas se sentia mais leve naquele momento. Tenha compaixão deste pobre homem, pensou, enquanto tentava arrancar uma pequena pele da cutícula com os dentes.
-Mas eu sou um ser humano, e como tal, eu cometo erros. E assim como eu cometo erros, eu me arrependo deles também – ele pegou as mãos dela nas suas, fazendo-a encará-lo com surpresa.
-O que você quer? – ela perguntou num sussurro.
-Quero te pedir perdão, do fundo do meu coração. Você não merecia ter passado por aquilo, porque sempre foi uma namorada maravilhosa. Mas gostaria que você compreendesse que atração física é algo que dificilmente conseguimos controlar.
Imediatamente, Botan pensou em Jin novamente. A situação dela e de Koenma era totalmente diferente, mas e se o relacionamento com Kurama estivesse sério e ela sentisse aquela onda de desejo gigante por outro – no caso, Jin-?
Logicamente, na época em que foi traída jamais pensaria daquela forma, mas estava vivenciando um pouco daquilo em sua estadia em Milão. Então pensou que aquele era o momento exato em aprender a tolerar os erros das pessoas. Como poderia culpar algo que ela quase esteve prestes a fazer?
Suspirou, aparentando estar bastante cansada.
-Eu te perdoo, Koenma, e eu te entendo também. É claro que nada justifica o erro de ter traído um relacionamento sério, uma vez que estávamos quase noivos. Mas o ser humano é como... como um queijo! – Ela tentou achar algo para explicar seu ponto de vista, fazendo Koenma franzir o cenho – Isso, um queijo! Quando você olha para um queijo, pensa que ele é maciço e uniforme. Mas quando olha por dentro, vê que é cheio de buracos! – ela se sentia orgulhosa pela comparação do ser humano a um queijo.
-Um queijo Brie não tem buracos – Koenma observou um pouco desconfiado da tese de Botan.
-Um queijo suíço tem!
-Então o ser humano é como um queijo suíço?
Ela sorriu e concordou, parecendo bastante satisfeita.
O rosto dele se iluminou e ele sorriu.
-Você está falando sério? Me perdoa por eu ser um queijo suíço?!
Ela olhou para a vista da cidade.
-Sim. Afinal de contas, quem sou eu para julgar os queijos suíços, não é mesmo? Estamos bem.
Ele beijou uma das mãos dela em resposta à sua alegria.
-Agora, por gentileza, eu gostaria de dormir. Amanhã tenho um dia cheio.
Ele concordou rapidamente e se levantou, acompanhando Botan até a porta. Assim que saiu, se virou para abraça-la com ternura, o que a deixou totalmente sem jeito. Talvez ela estivesse deixando a raiva de lado, de verdade. Estava aprendendo a ser tolerante com as pessoas. E, afinal, Koenma não era uma má pessoa.
Era apenas mimado demais.
Kurama estava completamente perdido em seus pensamentos. Depois que Maya foi embora do café, ele pode expressar seus medos sem hesitar, quando ninguém poderia estar olhando.
Não sabia o que faria; Maya não costumava ser aquela pessoa fria e com uma aura negativa. Ele gostaria que fosse a Maya antiga, de anos atrás, doce e delicada. Só então se lembrou do real motivo por ter terminado com ela.
O ciúmes dela foi tomando proporções inaceitáveis quando ele contratou uma bela mulher chamada Ruka para ser sua assistente e secretária. Ruka era mais velha, mas sua beleza era algo que chamava a atenção de qualquer um que a visse. Apesar de ser extremamente bonita e sensual, ela era uma ótima profissional, esposa e mãe de dois filhos. Nunca se insinuou para ninguém e adorava falar de sua família para todos. Não era extremamente simpática, mas ainda assim era confiável.
Maya não entendeu por esse lado. Enxergava que a assistente era interesseira e queria ter Kurama a todo custo. Nessa época começou a ter crises de nervos, choros e síndrome do pânico. Kurama tentou ajuda-la, mas ela não se esforçava para aceitar a ajuda, e isso só foi se agravando a cada dia que passava.
Kurama temia muito pelo bem estar de seus funcionários e morria de medo que Maya surtasse e fosse fazer escândalo dentro da empresa.
Por não aguentar mais, ele terminou o relacionamento com ela.
Surpreendentemente, ela não insistiu e não perturbou mais a vida dele. Kurama ficou bastante aliviado por isso e tudo transcorreu normalmente, até que um ano depois ela apareceu na empresa e quis conversar com ele.
Ela estava desempregada e seu pai estava muito doente. Pediu ajuda para ele, que imediatamente pediu para que ela se tornasse sua nova assistente, uma vez que Ruka seria contratada por uma empresa fora da cidade e começaria a cumprir seu aviso prévio dali a algumas semanas. Com isso, ela compareceu a alguns eventos junto com ele e, justamente em uma das confraternizações, ocorreu o fato da gravidez.
Duas semanas após Maya iniciar seu trabalho definitivo na empresa, ele conheceu Botan.
E então as coisas tinham chegado àquele ponto.
Sentindo que sua cabeça estaria prestes a explodir, ele saiu do estabelecimento e foi até o lugar que julgava ser o certo para desabafar: a casa de Yusuke.
Automaticamente, ela olhou mais incontáveis vezes o visor do celular, mas não tinha nada de novo por ali. Deveria ligar?
Balançou a cabeça com força. Ele tinha dito que ligaria, então ele ligaria, não ela.
Assustou quando Shizuru chegou um pouco alterada ao quarto, abrindo a porta com força, olhando um pouco perplexa para ela.
-Koenma vai embora! – a loura anunciou.
-Sério? Pensei que vocês fossem ficar juntos aqui em Milão – Botan fez cara de quem não estava entendendo o que estava acontecendo.
Shizuru estreitou os olhos e riu, debochada, enquanto entrava no quarto e fechava a porta.
-Por favor, amiguinha! Eu não queria ficar com ele. Você viu com quem eu estava na festa? – ela perguntou e Botan se lembrou de Suzuki – Exatamente, então porque eu ia querer Koenma? Já sofri demais nessa vida – ela concluiu, tirando as botas e jogando-as em um canto qualquer, para depois se arremessar sobre a cama, fazendo o corpo de Botan pular – Bon voyage para ele!
Botan sorriu ao pensar que Shizuru também estava se tornando uma pessoa tolerante.
Assim que chegou à casa de Yusuke, Kurama sentou-se na sala junto com o amigo, enquanto Keiko foi direto para a cozinha preparar o chá para a visita.
-Ué, cara, você já voltou de Milão? – Yusuke perguntou, surpreso.
-Já. Aconteceu uma coisa séria e eu tive que voltar – Kurama estava visivelmente abatido e aquilo deixou Yusuke em alerta.
-Sua mãe 'tá bem?
-Ela está, até onde eu sei. O problema é mais delicado do que a doença dela.
-Fala logo, cara! Sua cara não tá boa, não! – Yusuke se alterou um pouco.
Kurama olhou ao seu redor para se certificar de que os dois estavam ali, a sós.
-É Maya – disse num tom de voz muito baixo, quase inaudível.
Yusuke arqueou as sobrancelhas e suspirou.
-O que foi dessa vez?
-Ela está grávida.
-Puxa, cara. Grávida, tão novinha? Que barra! Quem é o pai?
A cor do rosto de Yusuke sumiu quando Kurama não respondeu à sua pergunta e apenas sorriu um pouco sem graça.
-Ah, não! Não, não, não, Kurama! – a voz de Yusuke se alterou e Kurama fez um gesto para que ele falasse baixo – Como assim, meu velho?! O que te deu na cabeça?! E a Botan? – ele sussurrava um pouco desesperado, fazendo Kurama rolar os olhos.
-Isso foi há dois meses e eu só soube agora. Ela me ligou enquanto eu estava em Milão e me deu a notícia, por isso eu voltei.
Yusuke ficou perplexo, admirando algum ponto inexistente, não acreditando no que estava ouvindo.
-Poxa, Kurama. Eu não sei se te dou parabéns ou se choro por você. O que você quer que eu faça?
-Me ajude. O que eu faço? – ele lançou um olhar suplicante ao amigo.
-Cara, você vai ter que ficar com ela. A Maya é um pouco descontrolada com as emoções dela, pelo que nós sabemos. Vai que dá a louca na cabeça dessa menina se você não fizer o que ela quer...
-E a Botan?
-A Botan... a Botan é adulta já, ela vai ter que entender. E outra, vocês se conhecem faz quanto tempo? Uma semana?
-Um pouco mais.
-Então! Não envolve ela nisso, não. Explica pra ela que sua ex 'tá grávida e você é o pai, e por isso você vai fazer o papel certo de pai. Fala isso pelo seu amigo aqui que não tem pai – Yusuke deu um tapinha no ombro do ruivo, fazendo-o suspirar ainda mais.
-Nós dois estávamos indo tão bem... – ele pareceu se lamentar.
-Eu imagino, mas são coisas da vida, cara. Se você quiser eu vou junto pra segurar sua mão.
Kurama conseguiu soltar uma risada com o comentário do amigo, mas ainda estava confuso.
Não queria perder algo que mal havia começado. Botan era como uma aura brilhante que iluminava seu dia, que mandava embora toda a tristeza e maldade. Era um brilho quase que infantil, mas que ele adorava. E ele jamais quis enganá-la.
-É, eu vou ter que espera-la voltar de Milão para poder ter uma conversa decente.
-Isso, enquanto ela não chega, vai relaxar essa sua cabeça. Olha, eu e Kuwabara estamos combinando de jogar pôquer essa semana, o que você acha?
-Acho justo.
-Fechado!
Enquanto os dois amigos se abraçavam e mudavam de assunto, Keiko estava encostada na parede da cozinha, perplexa. Acabara de escutar toda a conversa do marido e do amigo e se sentiu em uma saia justíssima: contava ou não para a melhor amiga?
Dia 1
Nenhuma ligação de Kurama. Botan acordou tarde, passou o dia no quarto do hotel e depois foi à segunda noite de desfile. Jin estava lá, mas somente se cumprimentaram. Ela viu Shizuru indo para um canto escuro com Suzuki e suspirou, achando a cena engraçada. Saiu dali o mais rápido possível e voltou para o hotel, no mesmo táxi da noite anterior.
Antes de dormir verificou o celular mais uma vez.
Nada.
Dia 2
Pela manhã, Botan e Shizuru compareceram à exposição promovida pelos estilistas da Dolce & Gabanna e pela revista Vogue, chamada "Extreme Beauty in Vogue". O evento reunia fotografias de décadas passadas até a atual, feita por fotógrafos renomados, mostrando a evolução da beleza nos editoriais de moda.
Botan ficou maravilhada com o que viu, e aquilo serviu para distrair um pouco seus pensamentos ligados a Kurama.
Almoçaram com Asato Kido e sua equipe e conseguiram fechar um contrato para que ele fotografasse a próxima campanha de Yohji Yamamoto para SofistiCats.
Algumas doses de champanhe depois, Botan e Shizuru dormiram a tarde toda e depois foram à terceira noite de desfiles. Botan passou boa parte do evento junto com os irmãos Toguro e não ficou para a festa.
Chegou no quarto do hotel, tomou um banho, colocou seu pijama velho e acendeu um charuto na sacada. Inevitavelmente, pensou em Kurama. Olhou o celular, embora jurasse que não faria aquilo.
E nada.
Dia 3
Botan estava em dúvida sobre passar o dia no spa ou no shopping, mas escolheu a última opção. Gostaria de procurar produtos de marcas desconhecidas para poder garimpar peças exclusivas e baratas, além de estar louca para experimentar as guloseimas italianas.
Shizuru almoçaria com Suzuki naquele dia, então Botan achou que merecia curtir um momento a sós com ela mesma.
E ela fez em grande estilo: comprou vestidos, blusas, calças e uma bolsa maravilhosa da Hermés com um desconto incrível, que ela custou a acreditar que era real. Esqueceu a dieta que seguia regularmente e aproveitou a variedade de doces italianos à sua disposição, levando um bocado deles em uma sacola, para poder consumir em horas de emergência.
Chegou ao hotel pouco depois das seis e já se preparou para mais uma noite de desfiles, que na opinião dela foi a melhor de todas. Vivienne Westwood, Comme des Garçons, Prada e, para fechar com grande estilo, Dior.
Seu êxtase foi tão grande que ela ficou para a festa e tomou desejáveis quantidades de champanhe junto com Shizuru e a trupe de Paris, incluindo Jin. Em algum momento que ela não se lembrava detalhadamente, deu seu cartão a ele, retribuindo a gentileza de alguns dias atrás, quando ele chamou o táxi para ela.
Não era necessário, mas ela o fez mesmo assim.
Detestava pensar naquilo, mas eles tinham uma química ótima. Os olhares que trocaram durante a noite, os sorrisos, as mãos se esbarrando por acidente e tudo mais só faziam o desejo que ela tinha por ele aumentar mais e mais.
Mas ainda lhe restava uma parcela de bom senso, e ela decidiu parar de beber antes de ficar bêbada e voltou ao hotel antes que cometesse atos indesejáveis até o momento.
Deitou na cama e olhou o seu celular: nada.
Então, encorajada pelo álcool que corria no sangue, ligou para Kurama.
Esperou alguns segundos na linha, até que a chamada caiu na caixa postal. Determinada, tentou mais uma vez. E depois mais outra. E depois, mais cinco vezes. Na última vez, percebeu que a chamada não foi para a caixa postal, mas foi interrompida, como se Kurama a recusasse.
Botan olhou perplexa para o visor e levou uma das mãos aos lábios, tentando conter sua indignação.
Envergonhada, jogou o celular em algum lugar onde não pudesse avistá-lo e enfiou a cabeça debaixo do travesseiro, como se aquilo amenizasse sua vergonha por ser tão insistente. Um pensamento aterrorizante passou por sua cabeça:
E se ele não quisesse falar com ela?
Respirou fundo e fechou os olhos, tentando se recuperar da surpresa.
Tinha que parar com aquilo. Foi muito intenso desde o início, mas já havia chegado ao limite. Ela não estava disposta a lutar por algo incerto, e pelo que Kurama estava demonstrando, não gostaria que ela o incomodasse, ou já teria dado algum sinal de vida durante a semana.
Obrigou a si mesma a pegar no sono, antes que sua cabeça começasse a doer de verdade.
Kurama olhava todas as chamadas de Botan no visor do celular com angústia.
Queria poder ouvir a voz dela, mas não poderia fingir que estava tudo bem. E se resolvesse contar a verdade, estragaria aquele momento importante da vida dela em Milão. Ele estava entre a cruz e a espada, e por isso, com dor no coração, decidiu que conversaria novamente com ela pessoalmente, quando ela estivesse de volta.
Embora não soubesse ao certo se após ignorá-la, ela aceitaria vê-lo novamente.
Dia 4
Botan acordou cedo e foi tomar café da manhã com Shizuru no terraço do hotel.
Passaram o dia juntas no spa, mas Botan evitou contar sobre o ocorrido da noite anterior, temendo uma chuva de puxões de orelha de Shizuru. Tentou se controlar para não parecer desapontada, mas em momentos a sós, ela se pegou pensando no ruivo de olhos verdes, na noite mágica dos dois, na semana em que ficaram juntos. Sentiu um desapontamento enorme que logo deu lugar à raiva, que depois se transformou em conformismo.
Eles não eram nada um do outro e aquilo só se confirmou ainda mais a partir do momento em que Kurama se mostrou claramente desinteressado em conversar com ela.
A única solução para aquilo era bola para frente.
Na última noite de desfiles, a festa de encerramento estava mais luxuosa do que o normal. Botan vestia um longo preto e seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo elaborado. Sua maquiagem estava impecável e ela conversava animadamente com Koto e Juri, quando Jin passou pelo pequeno grupo e deslizou a ponta dos dedos pelo decote das costas de Botan, chamando a atenção dela para o terraço.
Depois de alguns minutos, pediu licença e seguiu o rapaz.
-A conversa estava bem animada ali. Desculpa por interromper – Jin sorriu, apoiando os cotovelos no parapeito do terraço. Botan parou à sua frente, a uma distância consideravelmente pequena.
-Eu sou sociável, converso com todos. Tem um espaço para você também – ela riu, divertida.
-É uma honra. Quando vai embora?
-Amanhã – ela fez uma expressão de descontentamento.
-É uma pena. Façamos um brinde a Milão, então! – ele levantou sua taça de champanhe e Botan fez o mesmo, brindando com ele.
Deram um gole na bebida e sorriram um para o outro. Jin permaneceu alguns segundos admirando Botan, como na primeira vez em que conversaram, há alguns dias. Ela se sentiu um pouco desconfortável, mas não sabia o que fazer.
E então, ele puxou-a contra si e beijou-a.
Botan não resistiu, porque sabia que aquilo ia acontecer, de qualquer forma. E, apesar de não admitir, ela gostaria de usar Jin como um escudo contra o que estava sentindo por conta da rejeição de Kurama.
Mas o desejo aumentou ainda mais, porque o beijo de Jin era diferente, era sedutor, nada casto e puramente físico. As mãos dele pousaram nos quadris dela e ele a puxou mais ainda contra seu corpo, fazendo-a sentir o quanto ele a desejava.
Ela se sentiu um pouco embraçada, porque não costumava facilitar as coisas para um homem. Mas talvez devesse experimentar o lado que ela julgava ser o errado para saber se gostava ou não.
Então, ele deu o seu golpe de misericórdia.
-Vamos para o hotel onde estou hospedado.
Eles acabaram dormindo juntos.
Botan não gostaria de ficar pensando naquilo a todo instante, mas tinha acontecido. Sem nenhum sentimento.
Apesar disso, conversaram por longas horas depois. Jin contou sobre seu trabalho, sua vida, suas garotas e Botan se controlou para conseguir se acostumar ao título de "mais uma". Ele perguntou de Kurama e ela o classificou como "apenas um rolo", sentindo uma pontada enorme no coração logo após.
Ela acordou antes de Jin, mais cedo do que estava acostumada, pegou suas coisas e foi embora. Queria chegar ao hotel onde estava hospedada antes de Shizuru acordar, para evitar falar no que tinha acontecido, o que foi feito com muito êxito; Shizuru não tinha dormido ali e Botan pôde se enfiar debaixo das cobertas para mais algumas horas de sono antes de partir.
Não tinha parado para pensar sobre como se sentia após a noite com Jin, mas decidiu que só faria aquilo depois, quando não tivesse mais nada para fazer durante o voo.
Antes de cair no sono, olhou para o visor do celular mais uma vez.
Nada.
Continua...
N/A: Estou me comportando bem, gente. Um pouco mais de um mês para atualizar! Espero não perder o gás agora que o bafão veio à tona! E aí, acharam cachorrada da parte da Botan ficar com o Jin? É, ela está no furacão de emoções! Espero a opinião de vocês e agradeço pelas reviews que sempre são meu combustível para escrever por aqui.
Beijos, LS.
