Capítulo 10 - O Jantar
Eu devo ter me movido lentamente sem estar consciente, meu subconsciente dava todos os passos vagarosamente. Eu não percebi. Cada movimento, cada ato parecia tão deliberado e eficiente como normalmente era. Os segundos se passaram no relógio no ritmo exato que sempre passavam, nem rastreando, ou arrastando na minha cabeça. O molho Alfredo tomou a mesma quantidade de tempo como sempre tomou, o frango cozido estava pronto mais cedo do que eu esperava. Peguei dois rolos de pão do saco sobre o balcão e os aqueci no forno. Eu estava fazendo o jantar, precisamente da mesma maneira que eu fazia todas as noites.
Algo estava diferente, porém. Tinha que estar. Não havia outra explicação para o por quê eu ainda estaria arrumando o meu próprio lugar na mesa - amontoando vertentes de macarrão em um único prato - quando ouvi a porta da frente abrir e fechar tranqüilamente.
Eu me assustei, meus olhos arregalaram e meu corpo inteiro tencionou como fazia quando eu sabia que Edward estava perto de mim. Apavorada por que ele possivelmente teria chegado em casa cedo, eu chicoteei ao redor para olhar para o relógio sobre o fogão. Os números verdes brilhavam 20h00 para mim acusadoramente. Ele estava em casa no momento exato que ele sempre estava.
Um leve suspiro escapou dos meus lábios no mesmo momento que eu vi Edward caminhar através da porta da cozinha.
Ele parecia do mesmo jeito que ele estava no início do dia. Depois que ele se despediu de mim - a mão enfaixada e dolorida - eu tinha subido as escadas e me sentado calmamente no degrau mais alto, ouvindo-o varrer o vidro e limpar o chão rapidamente. Ele ainda estava vestindo o seu grande casaco e o jaleco branco do laboratório. Era apenas seu rosto que estava marcadamente diferente.
Ele olhou para mim com uma expressão que refletia a minha própria. Surpresa, choque e confusão estavam destacados em seus grandes olhos verdes. Seus lábios se separaram um pouco, sobrancelhas levantadas, e sua pele tinha apenas uma sugestão mais pálida do que o seu habitual tom pálido.
Nós encaramos um ao outro durante vários minutos, um desafio, uma tentativa silenciosa. Quem moveria primeiro? Quem seria o primeiro a reconhecer o outro?
Eu podia sentir meu coração martelando todo o caminho para a minha garganta. Por que diabos eu tinha levado tanto tempo para fazer o jantar? Eu sempre tinha terminado de fazer a comida, acabado de comer, distribuído a sua parte, colocado todos os potes e panelas no armário, e estava de volta ao meu quarto antes que ele colocasse os pés dentro da porta.
Por que hoje foi diferente?
Senti uma pulsação forte na palma da minha mão. Curvei meus dedos até escovar ao longo da linha áspera e irregular. A cicatriz já estava formada e eu tinha jogado fora o curativo quando ele começou a ficar no caminho enquanto eu estava cozinhando. Sentir o desnível escamoso que atravessava a pele macia parecia encorajar-me a me movimentar.
Eu fui capaz de empurrar meu olhar de Edward, interrompendo a conexão tensa abruptamente. Fui até o armário e peguei outro prato e copo, trazendo-os de volta para a mesa e os colocando na minha frente. Agarrei a tigela de macarrão e servi um pouco rapidamente no segundo prato.
E então eu esperei.
Eu estava exatamente como eu estava quando Edward tinha vindo mais cedo durante o dia, com a mesa da cozinha de barreira entre nós. Eu estava a meio caminho entre as duas cadeiras, segurando a grande tigela de massa no meu peito como se ela pudesse me proteger.
E eu esperei.
Eu esperei que Edward se sentasse ou saísse, me rejeitando ou aceitando uma pequena oferta de paz. A única oferta que eu podia me fazer dar a ele. Eu sabia que não era suficiente. Ainda assim, eu nunca tinha ficado tão nervosa - tão ávida para que alguém me aceitasse - em toda a minha vida.
Vários momentos se passaram e eu observava meu marido enquanto ele olhava para mim, para o prato que eu tinha servido para ele, para o prato que eu tinha servido para mim, e de volta para mim. Eu tinha certeza que ele se viraria e sairia da cozinha. Eu até mesmo o vi mudar o peso algumas vezes, como se ele não quisesse nada mais do que ficar o mais longe possível de mim.
Enfim, eu vi Edward passar uma mão frustrada pelo seu cabelo e dar um passo deliberadamente em direção à mesa. Soltei um suspiro que eu não tinha percebido que estava segurando enquanto ele caminhava em torno da sua cadeira e a puxava para fora, abaixando-se para se sentar rapidamente. Sua expressão estava totalmente em branco, sem vestígio de surpresa, o que me deixou assustada de qualquer jeito.
Coloquei a tigela de volta na mesa e corri em torno do meu assento, tropeçando em meu desespero para sentar na minha cadeira. Quando olhei novamente para Edward, senti meu queixo cair ligeiramente.
Ele tinha começado a comer sem qualquer hesitação, pegando garfada após garfada em um ritmo consistente. Ele não estava nem um pouco tímido ou cauteloso, simplesmente confiando na comida que eu havia colocado diante dele.
Em Nova York, eu raramente tinha cozinhado. Sempre que eu fazia uma tentativa, Edward tinha sempre rejeitado com uma expressão de dor que só serviria para enfurecer-me. Nós nos tornamos conhecedores, muito rapidamente, de todos os melhores restaurantes da cidade, por necessidade.
Nas últimas semanas, sabendo que eu não tinha outras opções, fui obrigada a melhorar minhas habilidades enferrujadas de cozinhar. Mais uma vez, por necessidade.
Aparentemente, Edward tinha se tornado consciente dessa transformação da minha parte.
Minha própria comida permaneceu intocada na minha frente enquanto eu observava com um fascínio ousado como Edward mastigava a comida em sua boca. Todas as noites quando eu deixaria o jantar para ele na geladeira e ele teria desaparecido na manhã seguinte, eu sabia que ele tinha comido. Eu sabia, em um nível muito básico, que o que eu estava fazendo estava ajudando a sustentá-lo. Saber disso e ver isso eram duas experiências muito diferentes. Eu nunca tinha visto ninguém comer a comida que eu tinha feito, nunca senti a realização em qualquer coisa que eu tinha criado com minhas próprias mãos. Eu não conseguia parar de olhar.
Finalmente, Edward sentiu meus olhos fixos incisivamente sobre ele. Sua mão parou com outra garfada na metade do caminho à sua boca e seus olhos estalaram para encontrar os meus. Lentamente sua boca fechou e sua mão abaixou, seus olhos se enchendo de perguntas e suspeitas.
Senti meu rosto ficar vermelho em chamas e deixei cair o meu olhar, levantando o meu garfo de forma rápida e empurrando uma mordida grande em minha boca. Eu comi furiosamente, meus olhos centrados em cima da mesa na minha frente, até que ouvi Edward levantar seu próprio garfo novamente e continuar comendo. Quando ele fez isso, senti outro - um pouco menor - momento de satisfação. Eu podia cozinhar.
Era uma sensação estranha e diferente não se sentir inútil.
Sorri para o meu prato, rapidamente planejando um frango com parmesão para o jantar da noite seguinte e pensando que eu poderia tomar o meu tempo de modo que Edward e eu comêssemos juntos novamente. Eu não tinha certeza exatamente do que era atraente sobre a idéia de continuar com estes tensos jantares silenciosos, exceto que - na minha cabeça - não ficaríamos em silêncio para sempre.
"Bella?"
Meu garfo caiu no meu prato e eu pulei em resposta, nem sequer percebendo que ele tinha escorregado por entre meus dedos. Sem me preocupar em pegá-lo, eu me forcei a olhar para Edward enquanto o meu corpo ficou tenso mais uma vez.
Ele estava olhando para mim, seu rosto completamente ilegível. Seu prato estava limpo e ele estava com as mãos debaixo da mesa. Eu imaginei que elas estavam cuidadosamente dobradas em seu colo.
"S-sim?" Eu respondi fracamente, odiando-me pela gagueira.
"Eu vou jantar na cidade amanhã, com minha mãe e Rosalie." Ele disse calmamente, e então parou.
Senti meu estômago impulsionar em minha garganta com a idéia de sair de casa pela primeira vez em semanas. Havia também a idéia de que mesmo que eu estivesse com medo deles, fosse inábil em torno deles, Edward ainda queria que eu passasse um tempo com sua família.
Enquanto eu estava tentando pensar na melhor maneira de aceitar sem soar indevidamente ansiosa, Edward continuou, "Você ficará bem aqui sozinha à noite?"
Eu chupei uma respiração profunda quando o resplendor de excitação foi drenado do meu rosto.
"O quê?" Eu exalei.
"Bem, eu não sei quanto tempo vamos demorar no jantar e eu poderia acabar passando a noite na casa deles." Edward encolheu os ombros. "Eu particularmente não acho certo estar na estrada tão tarde".
Suas palavras foram tão calmas, tão sensatas.
Ele estava olhando para mim sem a menor simpatia ou malícia. Havia apenas simples indiferença em cada sílaba que ele enunciou. Ele ainda não tinha levado em consideração a idéia de que eu quereria passar tempo com sua família, que eu quereria sair desta casa. Quantas vezes eu disse a ele que eu preferia fazer qualquer coisa do que estar com ele? Muitas vezes para contar. Vezes demais para lembrar.
Senti meus olhos arderem com a frustração e eu me levantei do meu assento rapidamente para evitar que as lágrimas se derramassem. Peguei a tigela do meio da mesa e a levei até o balcão para embrulhar as sobras. Depois que a coloquei na geladeira, voltei à mesa e agarrei meu prato meio cheio e o vazio de Edward, raspando-os sobre o lixo, e depois os atirei na pia.
Eu não olhei sobre meus ombros nenhuma vez para ver o que Edward achou da minha indelicadeza, eu não podia suportar a idéia de que a sua expressão ainda poderia ser tão vazia. Liguei a torneira para que a água escaldasse na minha pele e esfreguei o creme branco do molho Alfredo de cada prato antes de passar para as panelas sujas.
Ouvi o raspar da cadeira de Edward enquanto ele se levantou, mas eu não o ouvi fazer qualquer movimento para sair, ou vir na minha direção. Depois de um minuto, eu o ouvi dizer meu nome novamente. "Bella?"
Ele estava esperando sua resposta.
Eu queria dizer que não seria diferente de qualquer outro dia. Que eu estava acostumada a ficar sozinha, que era mais fácil fingir durante a noite que eu não estava sozinha. Que ele poderia fazer o que quisesse. Que ele não precisava da minha permissão. Que ele não deveria sequer se incomodar de me dizer seus planos, já que eu nunca disse os meus.
Virei-me rapidamente, balançando minha cabeça em confirmação. "Está tudo bem".
Colocando a ultima tigela recém-limpa no escorredor com os pratos, limpei minhas mãos no pano de prato pendurado sobre o forno e fiz a caminhada de volta para o meu quarto no andar de cima. Quando passei por ele, senti a mão de Edward se estender e se enrolar em meu bíceps. Um golpe de surpresa passou por mim pelo contato e eu girei ao redor para enfrentá-lo instintivamente.
Seu rosto ainda estava composto, mas havia algo em seus olhos. Não era simpatia, ou afeto, ou compreensão, ele simplesmente parecia... interessado.
"Como está sua mão?" Ele perguntou, seu olhar percorrendo a minha mão ao mesmo tempo em que eu a fechei, deixando meus dedos correrem sobre a pele irregular novamente.
Antes que eu pudesse fazer um movimento para detê-lo, ele havia soltado o meu braço e estava segurando a minha mão na sua, levantando-a para que ele pudesse examiná-la mais de perto. Eu vi suas sobrancelhas ligeiramente franzirem em confusão.
"Você tirou o curativo?"
Mesmo que a resposta fosse óbvia, eu senti a necessidade de responder num tom cortado, "Sim".
Edward assentiu pensativamente, correndo seu dedo indicador levemente ao longo da linha da ferida. Fez cócegas quando entrou em contato com a minha pele íntegra, não mais pesada que o ar.
"Parece bem." Ele murmurou baixinho. "Só tome cuidado para não batê-la em alguma coisa. Sem nada para protegê-la, não seria difícil reabrir".
Torcendo minha mão levemente para fora do seu aperto, eu repeti "Tudo bem".
E assim foi. O sangue havia coagulado, a cicatriz tinha se formado. O curativo tinha ficado apenas no caminho. Gostei da maneira como o vermelho escuro da nova cicatriz ficou contra a palidez da minha pele.
Nota da Beta:
Olá, pessoal! A Nêni precisou viajar a trabalho, então eu vim postar aqui hoje... Eu fico completamente agoniada com essa fic, as ações de Edward e Bella são tão confusas, tanto sofrimento envolvido... vamos ver como será daqui pra frente...
E não esqueçam de deixar reviews!
Bjs,
Ju
