Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Nove

Mas eu quero ser uma princesa!


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A luz do sol jorrava pelas fendas das venezianas da sala, iluminando as partículas de poeira que flutuam no ar. Estou deitada no sofá na posição de pretzel. Não na posição que está na revista de moda na sessão de sexo, mas na posição de quem ficou-acordada-a-noite-toda-no-sofá-porque-sou-uma-colega-de-quarto-bacana. Sobre uma grande quantidade de revistas e fotos empilhadas no balcão que separa a cozinha da sala, posso ver Alice sentada na mesa, olhando para o teto.

- Bom dia. – digo com a voz rouca.

- Dia de merda. – responde ela, sem piscar.

Oh, sim. Espaço. Alice deu um ultimato em Jasper e não ficou muito feliz com a reação dele.

Quando me arrastei para a sala de estar na noite passada, ela estava completamente histérica. Soluçando, não conseguia mover os lábios para formar as palavras.

- Ele... di-i-is-se... q-q-que... não... sa-a-a-a-be... se... e-e-eu... so-o-o-ou a... mu-u-u-lhe-e-er... da su-u-u-u-a... vi-i-i-da-a-a.

Ela continuou a soluçar enquanto eu já tinha devorado metade do queijo. E depois começou a gritar como uma doida.

- Aquele estúpido diz que eu não sou a mulher da vida dele! Ele acha que vai encontrar alguém melhor do que eu! Melhor do que eu? Vamos ver se ele encontra alguém que se dá mais na porra da relação do que eu! Vamos ver se encontra alguém que esteja disposta a aguentar todas as merdas que ele faz! Merda! Merda, merda! É normal ele ser tão imaturo? É normal, Bella?

Depois dos queijos, terminei de comer o cereal, e então ficamos ali sentadas na mesa da cozinha. Ficamos vendo o sol devorando o céu e tornando-o azul. Sentia-me como um pedaço de chiclete que havia sido mastigado durante muito tempo. Depois, devo ter me arrastado de volta para o sofá e caído no sono.

- Você já está acordada há muito tempo? – pergunto.

- Desde ontem de manhã.

Tento me sentar. Oh, meu Deus, não consigo me mover. Partes do meu corpo que eu nem mesmo sabia que tinha doem. Será que foi porque adormeci no sofá? Por ter ficado acordada até tarde?

- Aaaaai. – lamento.

O que há de errado comigo? E se eu tiver alguma espécie de problema muscular? Oh, meu Deus, já ouvi falar que, se num dia você está bem e no seguinte seus músculos estão todos tensos, é provável que você esteja com meningite. Só me restam alguns minutos. Meus últimos sopros de vida estão sendo desperdiçados na minha sala em vez de num café em Paris ou na cama com Jacob.

- Acho que estou com meningite.

- Você não tem meningite. – diz ela secamente. – É o caratê.

É claro!

- Não é caratê. É tae kwon do.

Ela não responde. Está muito ocupada olhando para a mesa da cozinha. Algo parece diferente.

- Você fez alguma coisa com a mesa? – perguntei.

- Eu a penhorei. – pausa. – Eu a penhorei? Por que diabos eu iria penhorar* uma mesa de vidro? Não é de espantar que Jasper não queira viver comigo.

*Espécie de empréstimo onde você dá um objeto de valor como garantia de pagamento.

Não sei exatamente do que ela está falando, mas sei que tenho que tomar um banho. Meu pé escorrega no chão quando deslizo para fora do sofá. Ai... dói fiar de pé. O que há de errado com o chão?

- Você fez alguma coisa com o chão?

- Eu encerei. Estava sujo.

Olho em volta da sala e da cozinha com reverência. Os balcões estão cintilando. Olho pelo corredor. Meu banheiro cheira a desinfetante.

- Você lavou o meu banheiro?

- Não se preocupe, eu usei luvas.

- Mas eu não fiz isso há uma semana e meia?

- Eu sei, mas agora ele está limpo.

Isso pede uma investigação adicional. Escorrego para o meu quarto e descubro que minha cama está arrumada e o chão varrido. Abro a porta do meu closet e descubro que agora minhas suéteres estão organizadas por cor. O objeto não identificado que estava pendurado na beirada do cesto de roupa suja foi identificado e jogado no lixo.

Isso não é normal.

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Levo Alice ao shopping. Não sei mais o que fazer! Ela tem quinhentos dólares guardados para uma emergência. Digo a ela que estamos numa emergência e nada melhor do que usar as compras (um método de recuperação desenvolvido por ela mesma) para esse fim. Graças a Deus que não está chovendo; o único estacionamento disponível no local é tão distante da Macy's que teríamos que pegar um táxi para chegar à entrada. Um casal de mãos dadas passa pela porta giratória.

- Quero ir para casa. – diz Alice.

- Quem liga para o que você quer? Quero dizer, não vai não. Vamos fazer compras. Não está lembrada das regras da separação?

- Não sou o tipo de garota que usa botas-pretas-de-salto-alto.

- Que vergonha! Vasculhe a sua alma. A garota de botas pretas que vive dentro de você vai brilhar em breve.

Ela suspira.

- Ok, tanto faz. Só não quero mais pensar. Minha cabeça dói.

Dirijo-me para a Macy's. Balcões com cosméticos e perfumes fazem qualquer uma se sentir melhor, não? Pelo menos era isso que Alice-pré-tensão-com Jasper diria.

Pinto minha unha do polegar esquerdo com esmalte prateado. Bonito. Oooh, o que é isso? Cheira bem. Borrifo um pouco na parte interna do meu pulso. Renée uma vez me disse que as mulheres colocam perfume na parte interna dos seus pulsos porque os homens costumavam beijar as suas mãos. Na verdade, eu acreditava nisso também, até que li que era por causa de pontos no pulso ou coisa parecida. Esse vermelho é demais. Parece sangue. Bonito. Vou experimentar na mão direita. Que perfume é esse? Muito legal.

Oooh. Cores de inverno novas em folha! Que engraçado, elas se parecem exatamente com as cores de inverno do ano passado. Três mulheres usando as cores de inverno novas sorriem na minha direção, de trás do balcão da Jolie. De repente me vem uma ideia brilhante: Alice irá ganhar uma maquiagem completa e isso não lhe custará nada. Todo mundo sabe que maquiagens em lojas de departamentos são gratuitas – base, blush, olhos, tudo exceto celulite e cabelo. A ideia implícita está no fato de que você vai comprar a maquiagem depois e não precisará gastar muito. (Isso também é uma vantagem, pois o preço de todos os produtos que elas usam se aproximam do aluguel de um mês).

No entanto, você deve comprar algo, só para ser educada; pense nisso como uma gorjeta. Mas não compre batom; isso seria um desperdício, já que provavelmente irá ganhar um pacote de presente a cada compra que fizer. Do mesmo modo que costumava ganhar um brinde depois da festa de aniversário, quando era criança. A diferença é que a sua sacola de brindes terá batons – embora nunca sejam da cor da sua escolha e jamais nas cores novas produzidas para o inverno.

O único problema com maquiagens gratuitas são as especialistas que as fazem. Elas são apavorantes. Podem ser tanto mulheres chiques com rostos meticulosamente pintados e brincos de pérola como os da Barbie Noite de Gala, drag queens extravagantes cujos rostos também lembram a Barbie Noite de Gala ou senhoras de meia-idade com sobrancelhas pintadas a lápis e sorrisos esticados por batom.

Para Alice, escolho a Barbie Noite de Gala número um.

- Oi. – cumprimento-a com um sorriso. – Minha amiga está querendo comprar alguns cosméticos. Você tem tempo para uma consulta? – Lembrem-se: consulta é um eufemismo para maquiagem gratuita.

Empurro minha colega de quarto letárgica para o assento. A esteticista de cabelos ondulados diz que ela tem uma bela pele, embora alguma base possa ajudar.

- Ok. – diz Allie, e uma ponta de esperança brota em sua voz.

Posso imaginar sua mente processando o quase elogio: "Se eu tenho uma pele perfeita, então com certeza Jasper irá querer gastar o resto da sua vida passando por ela! Mas se eu não comprar essa base, então uma outra mulher o fará, ele se apaixonará por ela e eu ficarei sozinha com a minha linda pele, que não é tão linda assim porque a Barbie Noite de Gala diz que precisa de alguma ajuda".

Oooh. Que linda sombra dourada para os olhos. Pingo um pouco no dedo e passo nas pálpebras.

- Você prefere base ou pó? – pergunta a Barbie.

Alice apenas a encara, como se nem estivesse entendendo uma palavra ou como se a Barbie tivesse falado em coreano. Hanna twul zed ned?

Que lindo blush! Passo um pouco nas maçãs do meu rosto. Adoro esse termo, as maçãs. Quem pensou nisso? Por que não pensou em "a laranja"?

A mulher parece não ligar para o olhar vago de Alice e contnua o seu ataque furioso.

- Em bastão? Compacto? Líquido?

Meu reflexo no espelho parece com o de uma garotinha de quatro anos de idade que passou todos os batons da mãe no rosto. Onde está o removedor de maquiagem? Eles não costumam deixar um de prontidão perto do espelho? Oooh. Que esmalte bronze lindo. Pinto minha unha esquerda de bronze. Agora pareço com alguém que afundou a mão em caramelo.

- Loção hidratante? Você prefere uma fórmula oil-free? Que tal uma com sistema de liberação progressiva?

Eu não entendo nada, mas aceno para Alice, que começa a chorar.

Oh, não. Deixei a Barbie número um assustar a minha colega de quarto. É hora de uma fuga rápida.

- Lamento. – afirmo. – Não creio que hoje seja um bom dia para uma consulta. – pego Allie pelo braço e a tiro da cadeira. Ela está no modo só-soluços. – Vamos.

Andamos lentamente e em silêncio pelo shopping.

- O que você quer fazer? – pergunto.

- Comer.

- Ok, vamos comer.

Comida: o ópio das rejeitadas.

Alice não come em self-services (germes, germes e mais germes), por isso encontramos uma daquelas lanchonetes de bom gosto no canto do shopping.

- Vou pedir uma salada. – diz ela, enquanto tira uma faca e m garfo de plástico da bolsa.

- Salada? Como refeição? Você quer dizer com galinha?

- Só salada. Não só tenho uma pele horrível como estou acima do meu peso usual e é por isso que ele não me quer.

- Claro. – digo revirando os olhos. – Não é porque você tem uma doença obsessivo-compulsiva ou algo muito parecido a isso.

- Trabalhei num restaurante durante um verão. Os talheres nunca eram lavados.

- Você foi garçonete? – não consigo imaginar Alice lidando com comida o dia inteiro.

- Recepcionista.

Isso eu posso imaginar. Peço um cheeseburguer e ela uma salada verde.

- Dá para você colocar o molho do lado, por favor?

Quando a comida vem, Alice olha para o seu prato e explode.

- Que tipo de alface é essa? Isso não é alface, são lascas de sapo! Que troço azedo. O gosto não é bom. Por que eu vou querer comer algo que não dá para comer? – ela chama o garçom. – Isso aqui está horrível. Quero trocar. – não sei exatamente o que ela esperava quando pediu a salada.

Intimidado, o garçom acena de forma veemente com a cabeça.

- Ok, o que a senhorita gostaria?

- Infelizmente, este paliativo de refeição fez com que eu perdesse o apetite por algo substancial. Gostaria de uma fatia de cheesecake de morango. Quer uma? – ela pergunta para mim.

- Não, obrigada.

- Por mim, por favor. Coma um pedaço. Eu convido. Seremos que nem As Supergatas.

Aceno positivamente com a cabeça. A amante de cheesecake que existe em mim ainda não está morta e enterrada.

- Bella?

- Sim.

- Por que eu tenho a impressão de que uma criança acabou de rabiscar todo o seu rosto?

Certo.

Depois do almoço, Alice insiste para irmos direto para casa, o que deve ser uma tarefa bem fácil, relaxante, contanto que encontremos o meu carro.

- Sei que estacionei no setor D. – insisto. Infelizmente, estamos no setor D e o meu carro não está lá. – Por que não pegamos um desses? – há um BMW e dois Mercedes, e gostaria que o meu carro fosse qualquer um deles. Foi uma tentativa de piada, mas Alice não ri. Meia hora depois, encontramos o meu Chevy antigo no setor G. – G rima com D. – afirmo.

Allie está muito deprimida para se importar em revirar os olhos.

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No final daquela tarde, Edward aparece lá em casa com duas chaves de fenda. Infelizmente são ferramentas, não um copo de vodca com suco de laranja. Depois de pedir uma pizza grande de pepperoni, espalhamos as instruções para a montagem da minha futura estante no chão do meu quarto. Santa Alice e sua limpeza.

- Onde está Alice? – pergunta ele, enquanto enrola a manga de sua suéter preta. O moço não está com o mesmo cheiro de Jake hoje, graças a Deus. Cheira a um desodorante gostoso.

- Dormindo. – respondo. Até que enfim. Ela estava me cansando.

- Não acredito que você já tenha isso há quatro meses e não tenha montado. – diz ele, balançando a cabeça.

É verdade. Ela estava toda desmontada, dentro da caixa, debaixo da minha cama. Talvez o fato de eu ter protelado esse momento tenha algo a ver com a minha noção de que, assim que montasse a estante, teria que tirar os meus livros das caixas, e a última vez que os vi foi quando os encaixotei. E o dia em que os encaixotei foi o dia que começou toda essa história de Jacob me largar. Ou talvez eu só esteja sendo preguiçosa. Sei lá.

Começamos a montar a estante ou, para ser mais precisa, Edward começa a montar a estante enquanto eu fico sentada na cama vendo tudo. Foi muito gentil da parte dele vir até aqui me ajudar (sendo que "ajudar" é um eufemismo para "fazer todo o trabalho").

- Quem colocou os seus quadros na parede? – pergunta ele, olhando para as duas molduras na parede.

O Beijo está em cima da minha cama e o que Renée comprou para mim um ano depois que ela e meu pai se separaram; o presente – "eu sei que você é uma leitora obsessiva e creio que talvez o divórcio te deixou confusa a ponto de tentar fuir da realidade, mas está tudo bem" – está pendurado acima de onde a minha estante-que-ainda-não-foi-montada vai ficar. A pintura de Renée, A Mulher Lendo Numa Paisagem é de Jean-Baptiste Camille Corot. Quando pendurei o presente de Jacob pela primeira vez no meu apartamento em Penn, eu estava fazendo um curso introdutório da história da arte. Aprendi que, ao passo que O Beijo ra do período romântico italiano, Corot era um realista francês. Que irônico, não?

- Eu e Alice. Não sou completamente inútil, sabe?

- Nunca disse que você era.

Ele tenta pagar a pizza quando chega, mas eu insisto em ficar com a conta.

- Fale-me então sobre Tanya. – digo depois que comemos duas fatias e duas prateleiras estão montadas.

- Ela é legal.

O que Tanya pensaria se soubesse que estava sendo descrita como legal? Acho que eu me jogaria na frente de um trem.

- Então não é nada sério?

- Não. Por enquanto é legal, mas ela não é a mulher. Tradução: eu gosto de dormir com ela, mas não quero dormir com ela.

- Que safado! – comento.

- Eu? Por quê?

- Porque você a está usando para transar.

- Não a estou usando. Só estamos aproveitando a companhia um do outro. Sexualmente.

O que há de errado com os homens? Edward tinha que ser diferente, não?

- E no cinema. – pontuo.

- Preliminares para o sexo.

- O que há de errado com ela?

Ele faz uma pausa.

- Não posso dizer. Seria errado.

- Não seja bobo. Conta aí. Não vou dizer nada a ninguém.

Ele franze as sobrancelhas de um modo bonitinho.

- Ela é uma princesinha. Espera que eu faça tudo. É como se vivêssemos nos anos 50. Tenho que telefonar o tempo todo. Tenho que pegá-la toda hora. Ela nunca se oferece para pagar nada. Não que eu me importe em ligar e pagar, eu gosto, mas Tanya age como se esperasse por isso. E... Eu não acho que nós dois combinemos. Entende?

Uau, isso era uma explicação comprida para quem geralmente não passava de meia dúzia de palavras.

- Então por que você continua com ela?

Ele sorri furtivamente.

- Bem, ela é muito gostosa.

- Está vendo? Você é um safado, Edward. E jamais conseguirá encontrar a "número um" enquanto estiver saindo com a "número dois". Devia estar saindo com outras pessoas. Poderia me oferecer para apresentá-lo a alguém, mas todas as minhas amigas, no momento, andam levemente insanas. – aceno a cabeça na direção do quarto de Alice.

- Alice é bonita. – ele comenta simplesmente. Alice e Edward? As iniciais A e E não são tão engraçadas como A e J*. De qualquer maneira, não consigo imaginá-la com outro sujeito que não seja Jasper. – Só me prometa que não vai tentar me juntar com Rosalie novamente.

*A personagem de Alice se chama Samantha, o de Edward é Andrew e o de Jasper se chama Marc. Respectivamente, na piada da autora, seria S e A, e S e M.

- Por que não?

- Ela é muito fresca. Mais princesinha ainda do que Tanya.

Hum. Por que todo esse papo antiprincesinha está me deixando pouco à vontade? Ah, é. Deslizo para fora do sofá, caindo no chão ao seu lado e pego uma chave de fenda.

- O que posso fazer para ajudar, meu bom senhor?

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Sou uma colega de quarto sensacional e vou dizer o porquê:

1. Coloco todas as fotos de Alice e Jasper, assim como todos os ursinhos de pelúcia que ele lhe deu (todos os oito, mas não aquele vagabundo comprado no parque de diversões) num saco de lixo grande e verde, e o coloco atrás da minha jaqueta preta que eu não uso há anos, dentro do meu closet; mas não jogarei fora porque, nunca se sabe, o estilo pode voltar à moda.

2. Convenço Alice a bater o fone no gancho nas três vezes que tenho uma leve suspeita de que ela vai ligar para Jasper. Sou capaz de dizer quando ela vai fazer isso. Primeiro, começa a ficar inquieta. Depois, fica realmente calma. Um minuto ou dois depois, tenta caminhar casualmente para o quarto e fecha a porta. Isso me lembra de quando minha Iris era bebê e costumava engatinhar para o canto de um quarto qualquer antes de fazer xixi na fralda. Quando minha intuição diz que Alice está prestes a ligar, eu irrompo no seu quarto fazendo barulho na hora em que minha colega está com o fone na mão e a convenço a desligá-lo, dizendo que ela irá me agradecer mais tarde. É um sistema realmente eficaz – só falhei duas vezes. Em ambas ela ligou quando eu estava dormindo e confessou às lágrimas na manhã seguinte. Em ambas, o fato de ter falado com Jasper fez com que se sentisse pior.

3. Comprei mais cinco caixas de papel e vi, pelo menos, trinta e cinco episódios de Beautiful Bride com a minha amiga de coração partido.

- É melhor não ver mais isso. – digo a ela.

Essa baboseira vicia. Não posso deixar de me perguntar quem assiste a esse programa regularmente. Será que as mulheres são tão obcecadas com o casamento? Será que apenas eu fugia da insituição matrimonial? Todos os episódios são sobre uma noiva preocupada com as flores, o véu e o vestido cheio de babados. Meu vestido de casamento – quando eu casar lá na frente – será muito mais sofisticado do que os que aparecem nesse programa. Acho que quero um decote canoa, luvas de princesa e uma saia bufante. Nada dessas porcarias com lacinhos. A tônica será a elegância.

- Não se preocupe. – me vejo dizendo isso a Allie. – Para cada pote existe uma tampa.

Não acredito que acabei de dizer isso. Deus me perdoe, estou parecendo o meu pai.

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A Primeira Semana D.J. (Depois de Jasper) parece que irá durar para sempre.

Na segunda-feira, Rosalie aparece para um papo calcinha. Seu sorriso de chefe de torcida e suas piadas insolentes são um pouco demais para nós duas. Allie finge que está com dor de cabeça e vai dormir. Eu estou presa no papo calcinha.

Na terça, Alice faz uma faxina na casa.

Na quarta, acab sintonizando em Law & Order por acidente. "... os advogados criminais que processam os criminosos. Essas são as suas histórias..." Logan/Mr. Big encontra o corpo de um homem no porta-malas de um carro abandonado e Allie está com um olhar triste e saudoso. Desligo a TV. Alice faz outra faxina completa.

Na quinta, Edward e eu a arrastamos para a noite em que o Charlie's Wings cobra metade do preço. Não sou maluca a ponto de omer asas de frango na frente de um homem, nem que seja Edward, pois tenho o hábito de lambuzar minha cara toda de molho de pimenta. Fico olhando para Edward enquanto ele segura uma asa pela ponta e mastiga cuidadosamente a carne, deixando o osso completamente exposto. Depois, ele lambe delicadamente o molho que ficou nos lábios com a língua. Como é que alguém consegue comer asa de frango com tanto estilo e sex appeal? Fico totalmente satisfeita por estar ao lado de Edward e poder estudar sua técnica.

Alice vê o melhor amigo do irmão de criação de Jasper sentado a duas mesas de distância. Passo a meia hora seguinte tentando fazer com que ela destranque a porta do seu boxe no banheiro.

Na sexta-feira de manhã, eu acordo ao som de "I Will Survive", de Gloria Gaynor, tocando a todo volume do outro lado da parede.

- Olá?

- Bom dia! – diz Alice, a brindo aminha porta.

- Bom dia...

- Bom, bom, bom dia! – canta ela alegremente. – Pela primeira vez durante toda a semana eu realmente quis sair da cama.

- Que bom.

- Sou uma nova mulher.

Não estou certa se tal declaração requer resposta positiva ou negativa. Ela se estatela na minha cama.

- Farei menos analogias, terei amigas do sexo feminino e encontrarei um novo homem. De agora em diante serei chamada de Mary Alice.

- Ótimo. – encorajo-a com voz de sono, embora ache que Mary Alice seja exagero. Minhas três semanas de solteirice me permitem ter o discernimento de que ela ainda não está pronta para uma mudança de personalidade, mas decido animá-la.

- Não vou perder mais nenhum segundo. Jasper é uma criança. Vou lhe dar espaço. Tera mais espaço do que saberá o que fazer com ele, enquanto eu vou foder todos os homens do planeta.

A palavra "foder" soa engraçada vinda de sua boca, quase como se tivesse a boca cheia de manteiga de amendoim.

- Ótimo. – digo sem muita certeza.

- É hora de encontrar um homem maduro. – ela levanta os seios e olha para o decote que aparece no espelho. – Estou pronta.

- Para quê? Para o sexo com homens maduros?

- Não. Para o Orgasmo.

Isso é que é sair da frigideira e ir direto para o fogo. Tento convencê-la a irmos para um lugar, digamos, mais sereno, como o Aqua; um bar onde as pessoas vão depois do trabalho, no quinquagésimo sexto andar do Edifício Tyler, mas ela é insistente. Rosalie, graças a Deus, a coloca no rumo certo naquela noite, assinalando que o Orgasmo é para a turma abaixo de trinta, enquanto o Aqua é o lugar para conhecer homens mais velhos e com a mente mais focada na carreira. Homens maduros.

Rosalie concordou em ser a motorista, o que significa que ela só vai poder tomar uma taça de vinho. Tenho a impressão de que Alice vai querer entornar e, sendo a boa amiga que sou, não poderia deixá-la tomar todas sozinha. Rosalie chega até a insistir para pagar o estacionamento e, por conta do nosso perpétuo estado de dureza, Alice e eu concordamos sem discutir.

- Essas coisas estão me matando. – diz Alice.

Ela está se referindo aos Band-Aids colocados estrategicamente sobre seus mamilos, no caso de ficar com frio. Minha colega de apartamento está usando uma frente única emprestada por Rosalie, e seus bicos ficam muito salientes quando ela sai sem nenhuma "proteção".

- Espere até a hora em que você tiver que tirá-los. – comenta Rose. – Isso é que é dor.

- E, então, como estou? – pergunta Alice.

- Estonteante. – respondo. Ela está realmente demais. Quase indecente (e isso é bom). Com certeza gostosa, embora eu não esteja muito certa de que um ambiente de gente que acabou de sair do trabalho seja apropriado para aquele tipo de indumentária.

Estamos em frente ao elevador que leva até o bar, quando uma mulher baixa atrás de um balcão nos diz que, embora não haja couvert, teremos que deixar nossos casacos na entrada, o que irá nos custar dez dólares cada uma. Todas nós cruzamos os braços.

- De fato, eu gostaria de ficar com o meu casaco, se você não se importar. – diz Rosalie. Não é o dinheiro, ela não confia em estranhos para ficar com suas coisas.

- Experimente então. – diz a recepcionista. – Mas eles irão te mandar de volta para baixo.

- Não vão mesmo. – murmura Rosalie. – Eu sempre consigo subir com o meu casaco.

E então entramos num daqueles elevadores supervelozes que me fazem desejar estar mascando um chiclete para diminuir a pressão que aumenta em meus ouvidos. O elevador nos deixa bem em frente à garçonete.

- Oi. – diz Rosalie. – Mesa para três, por favor.

A moça nos olha da cabeça aos pés.

- Desculpe, estamos lotados.

Noto que há uma mesa vazia perto da janela. Isso pede medidas drásticas. Nós três resolvemos conferenciar secretamente e, depois de cinco minutos de pura deliberação, optamos por gastar a grande soma de dez dólares.

- A mesa agora está livre. – anuncia a garçonete com uma voz toda doce. – Mas vocês terão que deixar os seus casacos lá embaixo.

- Preferimos ficar com eles. – insiste Rose.

- Desculpe, não posso permitir que vocês sentem até que deixem seus casacos lá embaixo, na entrada.

Silenciosamente eu aperto o botão para descer e dou chicletes para as minhas amigas. Quando chegamos ao saguão do prédio, todas olhamos para o chão.

- Gostaríamos de deixar nossos casacos. – anuncia Rosalie. Alice e eu rimos discretamente. Olho para a mulher atrás do balcão e sorrio, ela devolve o sorriso.

Cinco minutos depois, o elevador nos deixa na frente da garçonete mais uma vez.

- Nossa mesa, por favor. – repete Rosalie, apontando para o lugar vazio perto da janela.

- Desculpe, estamos lotados.

Fazemos uma outra conferência e, cinquenta dólares mais pobres do que estávamos quando chegamos, sentamo-nos numa mesa de canto com vista para a cidade. Rosalie e Alice colocam seus telefones celulares bem ao lado dos guardanapos, só por garantia.

- E então, ele ligou? – Rosalie se refere à Jasper, é claro.

- Não.

O momento é pontuado pelo silêncio. O que pode ser dito depois disso? Por um lado, você quer animá-la e dizer que ele irá ligar, mas, por outro lado, você quer deixar claro que não vale a pena pensar no sujeito e que ela vai ficar melhor se ele não ligar – mas e se ele o fizer? Se ele ligar, os dois irão voltar a ficar juntos e a odiarão por estar dizendo todas essas coisas horríveis. Lembra-se da regra número três sobre Como se recuperar de uma separação? Apenas amigas medíocres devem dizer coisas terríveis sobre ex-namorados.

Pedimos três taças de vinho – tinto para Rose e Allie, e branco para mim.

- Ele gosta de ficar amarrado. – conta Alice.

*Como no original as iniciais ficam S & M, a autora se refere ao SadoMasoquismo ou BDSM.

- O quê? – pergunto enquanto dou goles de leve no meu vinho.

- Amarrado. E tem uma predileção especial por algemas. Ele gosta de ganhar umas surras também.

Sinto-me incapaz de beber o meu vinho. Rosalie ri.

- Vocês conseguiam manter uma relação amorosa usando esse tipo de coisa?

- Às vezes. No entanto era meio estranho.

Jamais conseguirei olhar novamente para Jasper da mesma maneira. A imagem do homem loiro e de aparência respeitável, sendo amarrado à cabeceira da cama com almegas cor de rosa e sendo submetido à palmadas no traseiro realizadas por uma mulher que não passa de meia polegada era terrivelmente desanimadora. Tenho certeza que se eu fosse homem, teria sérios problemas em conseguir manter uma ereção decente.

- Vocês acham – questiona-se Alice em voz alta. – que ele irá usar suas algemas com outra garota?

- Você não compra uma caixa nova de preservativos toda vez que dorme com um sujeito diferente. – pontua Rosalie sabiamente.

A essa altura, sinto-me compelida a acrescentar meus dois dedos de prosa.

- Acho que você deve comprar um novo par de algemas para cada parceiro. É a mesma coisa que comparar maçãs com laranjas. Algemas, presumo, são objetos muito pessoais e particulares, mas é razoável pensar que não se deve comprar camisinhas novas se você ainda tem algumas sobrando. Só faço restrições às usadas.

- Não sei. – diz Alice. – Acho que vou ficar com o meu vibrador.

Allie e eu estamos na segunda rodada de drinques quando notamos dois sujeitos que parecem estar num quartel-general, ambos na faixa dos trinta e poucos, ambos usando ternos, um falando num telefone celular e o outro precisando de um leve barbear; mas ambos muito atraentes.

- Vamos chamá-los. – afirma Alice, entornando o seu vinho.

Não sei muito bem como chamar homens. Não dá para acenar e gritar "Venham nos pegar, rapazes!", dá? Será que não perceberiam nosso desespero? Talvez devêssemos simplesmente olhar para eles.

- De jeito nenhum. – diz Rosalie com desgosto, batendo na borda da sua taça de vinho. – Nós não chamamos ou olhamos.

- O que você acha que devíamos fazer?

- Rir bastante e dar a impressão de que estamos nos divertindo um bocado. E ignorá-los completamente.

- É esse o plano? – talvez seja a hora de Rose prestar mais atenção nas regras estipuladas pelas revistas de moda.

- Esse é o plano.

Alice coloca o dedo na sua taça de vinho na tentativa de sugar o que resta de álcool.

- Vou precisar de mais vinho.

- Acabe com o meu. – oferece Rosalie, passando sua taça.

Posso ver a tormenta mental no rosto de Allie. Será que ela deve tomar o viho com todos os germes em potencial que Rose possa passar? Ou será que ela desistir das suas frescuras e entornar a bebida totalmente gratuita? Coloco a minha mão no seu ombro.

- A nova mulher divertida e intrépida, lembra-se?

Corajosamente ela acena com a cabeça.

- Obrigada. – a princípio, sua expressão facial me lembra a de alguém tomando água de privada, não que eu houvesse tido a sorte de testemunhar tal evento. Mas então ela relaxa e eu me sinto como uma tia orgulhosa.

Rosalie joga a cabeça para trás e começa a gargalhar em voz alta, me assustando. Aparentemente, o show de vamos-fingir-que-estamos-nos-divertindo-para-que-possamos-atrair-homens começou.

Dez minutos depois, os dois sujeitos aos quais me referi antes já estavam sentados na nossa mesa. Rosalie está flertando com o Barba-Por-Fazer e Alice está flertando com o Telefone-Celular. Eu teria pensado que ver Alice flertando seria como observar uma garota no meio da rua, com o vestido preso na meia-calça, mas ela é surpreendentemente talentosa. Tão logo se apresenta como Mary Alice, ela se transforma numa ninfeta. Começa usando a técnica de fingir-que-está-interessada-no-que-ele-diz, faz uma dúzia de perguntas e depois, sutilmente, vira os holofotes para si mesma.

- Dou aula na quinta série. – diz ela em resposta ao prosaico o-que-você-faz-da-vida. Se ele perguntar qual é o signo dela, eu juro que vou vomitar.

- Você não castiga os seus alunos, castiga?

- Nem sempre. As garotas são ótimas. Os meninos às vezes se comportam mal. Mas isso não é problema. Sei como lidar com garotos levados.

Aquilo que ele tem nas calças é um celular ou será que está simplesmente feliz em vê-la? Talvez esse negócio de surra tenha, no fim das contas, um quê a mais.

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No elevador, Barba-Por-Fazer pergunta quando poderá nos ver novamente.

- Infelizmente, isso não será possível. – afirma Alice, surpreendendo a todas nós. – Foi bom conhecer vocês. – ela beija a ambos no rosto.

Hã? Será que eu perdi alguma coisa aqui?

- Você não queria encontrá-los? – pergunto quando eles estão fora do alcance das nossas vozes.

- Esqueça. Eles nem chegaram a se oferecer para nos pagar drinques. – Alice acenou no ar como se estivesse enxotando uma mosca que a estava perturbando.

- Mas não dissemos que queríamos nada. – protesto.

- Muquiranas. – acrescenta Allie, enquanto Rosalie acena positivamente com a cabeça.

Quinze minutos depois, Rosalie nos deixa no apartamento e, enquanto giro a chave na porta, Alice diz:

- Advinha o que vamos fazer amanhã?

- Dormir mais que o normal?

- Sim. E depois disso, vamos colocar piercings no umbigo.

Essa personagem Mary Alice está começando a me assustar. Socorro.


Alice louca! USHAUHSUAHS'

Meninas, para quem lê "Vida - curto espaço de tempo", eu vou atualizar... eu juro! Mas eu estou sem net e quem está postando aqui para mim é a Ktia (obrigada, minha frésia *-*).

Então, se tudo der certo, até sexta que vem em Temporada de Caça e, muuuuito provavelmente, Vida.

Beijinhos, Marcella :*