Capitulo dez

Ele sussurrou o nome dela em tempo para que ela ligeiramente despertasse.

- Sara está ficando tarde. È melhor nós voltarmos.

Sara piscou pesadamente e o fixou a vista ainda embaçada pelo sono.

- Hmmm? – Foi sua única resposta.

- Devemos ir. – Repetiu Grissom se divertindo. Nunca havia sentindo tanta ternura por alguém como agora. – Ainda mais, o meu braço está adormecido.

Sara se levantou rapidamente.

- Sinto muito. – Lançou um sorriso meio travesso, meio tímido. – Não me dei conta. Fiquei dormindo por muito tempo?

- Não muito. - Respondeu ele com o olhar fixo em seu punho que abria e fechava para restaurar a circulação.

Logo guardaram a manta novamente no porta-mala, e voltaram para a cidade. Sara ia ao volante. Grissom relaxou e dirigiu seu olhar através do caminho. Ao longo de vários minutos, olhou para Sara e viu que ela estava séria. Somente ali percebeu o silêncio que pesava na atmosfera.

- No que está pensando? – Perguntou ele.

- Nada, só estou dirigindo.

- Nada pensa nada. – Depois de uma pausa acrescentou. – Dostoyevski pediu ao seu irmão que não pensasse em um osso branco. Se eu te pedir é capaz de fazê-lo?

- Mas isso é trapaça, porque ele mencionou... – Sara lançou um olhar fugaz e deu conta da expressão de satisfação no rosto dele. Sorriu junto com Grissom.

- Bom o quê pensava no momento?

- No que me dizia enquanto olhávamos as estrelas.

Grissom se assustou. Ela não estava dormindo?

- Que coisa, Sara?

- Sobre o seu aniversário.

- Ah! Isso! – O que tem o meu aniversário?

- Bem, é que... é que parecia mais o meu aniversário do que o seu.

- Mas se você gostou. Eu também.

Sara o olhou contente. Grissom e suas frases – Eu me referia que você talvez gostasse de um presente...

- Não se incomode.

- Não é incomodo.

Do nada, Sara disse:

- Podemos voltar a nos ver amanhã?

O rosto de Grissom mudou por completo. Ela se arrependeu de ter perguntado. Maldição. Arruinei tudo.

Ele abriu a boca para responder, mas como sempre, não encontrou as palavras certas e, também como sempre, Sara se adiantou.

- Sinto muito, não quis pressioná-lo. Não importa, então, nos vemos na segunda no laboratório. Ali eu te entrego o presente...

-Sara!

Ela calou-se como se fosse uma ordem. Grissom suspirou e começou.

- Sara, eu... – Ia dizer que se encantaria vê-la novamente no domingo, mas foi traído. – Necessito que você me deixe em um hotel. Meu apartamento ainda sofre estragos do meu... péssimo talento culinário.- Recordou do beijo e limpou a garganta nervoso.

- Mas Griss, você pode ficar na minha casa, não tem problema. – Disse ela com naturalidade. Segundos depois suspendeu a implicância do seu oferecimento e ficou em silêncio.

Depois de um tempo ela falou.

- Somente se quiser. Porque se vai ser incomodo eu entendo...

- Sim quero. – Ele interrompeu ansioso. Estava muito ansioso e ambos notaram. Decidiram não falar mais no restante do percurso.

Sara deu um par de cobertores a Grissom que dormiria no sofá.

- Obrigado.

- De nada. – Disse ela. – Durma bem. Se precisar de algo, avise-me. O sofá é bastante confortável, ainda não acredita? – Sorriu.

Não quero saber porque ela dorme aqui se tem uma cama em seu quarto.

Sara se dirigiu ao seu quarto. Ia fechar a porta, mas deu meia volta.

- Parece que de qualquer jeito vamos nos ver amanhã.

Grissom sentiu uma felicidade chegando no seu coração, mas só se atreveu a responder bruscamente.

- Sim, boa noite.

- Boa noite Grissom.

Sara não conseguia dormir. Olhava fixamente para a hora que indicava o seu rádio – relógio. Pensava em tudo que havia acontecido naquele dia. O que havia levado a dirigir até a casa de Grissom? Não é que se arrependia, ao contrario, mas resolveu acatar seus impulsos, justo no dia do aniversário dele e isso parecia estranho. Tudo parecia estranho. Não estava acostumada com tanta felicidade e, ainda mais, com Gilbert Grissom, o homem culpado das maiores angustias durante os últimos anos.

De longe, o mais estranho de tudo foi o simples fato de que havia contestado esse beijo e a espontaneidade com que havia dormido nos braços dele... e agora, neste exato momento, não podia conciliar o sono. Era como se havia provado o que era dormir com ele, dormir só já não fazia sentido. Vencida pela insônia acendeu a luz do criado-mudo.

Ela teve medo. O que pode acontecer se tudo mudar amanhã? Se ele se arrepender de termos nos beijado? De ter jantado comigo? Sara esteve no sistema desde os 13 anos. Deveria saber que as pessoas se arrependem de amar. Quantas crianças você viu voltar ao orfanato destroçadas, porque seus pais adotivos já não as queriam mais? Você Sara Sidle, deveria parar de se iludir. Só desfrutar o momento.

Seu monologo não fugia da tristeza. Na verdade era que não queria perder Grissom. Ele era o único homem que realmente amou em sua vida e só de pensar num futuro sem ele, fazia sentir que seu coração caísse em um poço sem fundo.

Ouviu batidas na porta que a arrancou violentamente do seu debate interno. Com rapidez, sentou-se contra a cabeceira da cama e pegou o primeiro livro que havia na sua estante. Abriu em qualquer página antes de pronunciar. – Pode entrar.

- Com licença. – Disse Grissom entrando timidamente no dormitório dela. Estava um pouco desalinhado. Sua camiseta e calça estavam amassadas, descalço e nascendo olheiras em baixo dos seus penetrantes olhos azuis. No entanto, o sorriso natural que preenchia seu rosto o tornava apresentável.

- Também não consegue dormir? – Perguntou ele com cansaço.

- Pensei que lendo me daria um pouco de sono. – Disse ela levantando um pouco o livro de maneira que explicasse.

- O que está lendo? – Interrogou ele sentando nos pés da cama. Ela passou o livro e depois de uma breve inspeção. Ele disse com sarcasmo. – Sara na realidade o que está lendo?

Diante da perplexidade dela ele se expressou melhor.

- Nem a capa e nem a contracapa estão mornas.Você não segurou este livro por mais de alguns segundos. E também... a "lista telefônica" não é uma leitura agradável.

Sara riu.

- Mas é porque eu queria dormir. – Disse de modo brincalhão. Grissom não riu. Seu cenho franzido estava agora em seu rosto.

- Não sou boa humorista, não é? Na verdade é que nunca...

Grissom já não a escutava. Interrompeu-a:

- Sara você estava chorando?

- É que eu fico emocionada quando chego nos "Gonzáles".

Parecia que ele não havia escutado o comentário. Continuava esperando uma resposta.

- Deixa pra lá. Não é nada. Verdade.

- Não é nada! O que você quer dizer?

Sara não sabia o que fazer. Preferiu ser sincera.

- Tenho medo, Grissom. – Disse desviando o olhar.

- Do quê, Sara?

Ela o olhou novamente.

- Do futuro.

- Sabe... William Golding disse uma vez que o medo não é capaz de fazer mais danos do que um sonho pode.

Grissom viu como o rosto de Sara voltou a se iluminar e a alegria começava a insinuar em seus lábios. Seu olhar se prendeu sobre a cicatriz do ombro desnudo dela. Acrescentou:

- Se te serve de consolo. Eu também tenho meus próprios medos.

Ele se levantou.

- Bem, durma e não pense tanto no futuro, porque nunca é como esperamos.

Passou por um momento sua mão sobre a mão dela e se dirigiu para a sala.

- Grissom. – Sara disse o detendo. -... Não vá.

Ele ainda de costas, engoliu um pouco de saliva e respondeu.

- Está bem.

- Acompanhe-me, por favor. Ao menos até eu dormir.

- Não tem problema.

Sentou-se na cama, ao lado dela, com as pernas estiradas sobre o cobertor. Ela se acomodou, fechou os olhos e pediu a ele.

- Conte-me algo.

Grissom entrelaçou os dedos sobre seu colo e pensou em algo para dizer, mas não veio nada em mente.

- Algo como o quê? Mas também na última vez que falei, você pegou no sono na melhor parte. – Sorriu recordando o rosto angelical dela dormindo.

- Então me conte de novo. Isso sim, mas que seja na versão curta para eu não dormir na melhor parte outra vez.

O silêncio dominou o lugar por um instante.

- Eu te amo, Sara.

Levou alguns segundos para ela crer no que realmente havia escutado. Abriu os olhos estranhando e o olhou. Ele continuava com o olhar baixo e se notava que havia custado muito dizer.

Sara se arrumou e sentou sobre os joelhos. Deslizou suavemente uma mão ao seu rosto e conseguiu que lhe olhasse nos olhos. Ele também conservava um olhar assustado.

Como pode sempre duvidar do que quero?

Aproximou seus lábios aos dele e o beijou docemente. Ele fechou os olhos e deixou se inundar por carinho. Não quis fazer outra coisa.

Sara, com os olhos ainda fechados, apoiou sobre ele.

- Eu também te amo, Griss.

TBC