Capítulo 9

— Deve ser bom estar noiva do chefe ― disse Felicia, uma das recepcionistas, quando Gina voltou ao escritório mais tarde naquele dia.

Harry lhe dissera para tirar duas horas de almoço e ela o fizera, precisando do tempo longe dele para tentar espairecer sua mente confusa. Engolira um sanduíche de queijo e depois vagou pelas lojas do shopping.

Toda vez que pensava em Harry, seu corpo doía de desejo. E frustração. Não entendia o que estava acontecendo com ela. Trabalhara para Harry durante quatorze meses sem que nenhum dos dois jamais tocasse o outro, ou sequer quisesse fazê-lo. Mas desde que ele a beijara parecia que não podiam ficar sozinhos por muito tempo sem se tocar. Sem se beijar. E querendo mais.

Gina afundou-se em sua cadeira, sentindo todo o corpo inundado por uma combinação inquietante de tesão e vergonha. Não apenas respondera aos avanços de Harry, como também o encorajara.

O que iria acontecer agora? Perguntou-se. Harry deixara claro que não era contra um pouquinho de sexo enquanto fingiam ser noivos. Ela lhe dera todas as razões do mundo para acreditar que também não era nem um pouco contra.

Os pensamentos deixaram-na bastante abalada. Aquele falso noivado tinha o potencial para espelhar todos os outros relacionamentos temporários de Harry ― relacionamentos limitados a sexo e a saídas sociais ocasionais por um tempo limitado. E enquanto para ele isso não tinha qualquer problema, para ela as conseqüências seriam desastrosas. Caso se entregasse a seus impulsos e tivesse um verdadeiro caso com Harry Potter, como conseguiria continuar trabalhando para ele quando o relacionamento acabasse?

De que acabaria Gina não tinha a menor dúvida. Tivera quatorze meses para aprender que Harry não tinha a menor intenção de se comprometer, e se fosse tola o suficiente para tentar se convencer de que ele poderia abrir uma exceção para ela, tudo o que tinha a fazer era revisar a cópia do contrato de noivado.

Nunca estivera tão confusa em toda a sua vida. Pensava que se conhecia bem para saber que nunca poderia fazer amor com um homem a menos que estivesse apaixonada por ele. No entanto, estivera prestes a pôr seus valores e seu juízo de lado para fazer amor com Harry naquela manhã.

Aquilo não era amor, era puro tesão!

Gina suspirou alto e cobriu o rosto com as mãos. Estava sentindo um tesão louco por Harry Potter e ele estava mais do que disposto a satisfazer-lhe os desejos, pelo menos por enquanto. E se ela estivesse disposta a seguir a filosofia de "é divertido enquanto dura" dele, poderiam ter um affairquente e de curto prazo.

Se. Uma pequena palavra, mas um grande obstáculo. Se ela vivesse de acordo com a política de "é divertido enquanto dura", não teria permanecido virgem por vinte e seis anos. Mas ali estava, provavelmente a virgem mais velha de todo o estado de Minnesota, que não era avessa a diversão, mas que também queria algo mais. Queria um relacionamento duradouro.

Gina previu o que aconteceria caso se entregasse à atração sexual que sentia por Harry. Embora seus hormônios a deixassem pronta e disposta para transar com ele, sua cabeça faria com que se apaixonasse por ele antes. E depois que fizessem amor, ela estaria na terrível condição de estar profundamente apaixonada por um homem que não a amava. Gina sabia que era uma situação deprimentemente comum. A seção de auto-ajuda nas livrarias tinha prateleiras e mais prateleiras de livros que tratavam de amor não correspondido e necessidades não satisfeitas.

E ela seria um caso para um livro didático, porque quando Harry decidisse que a farsa do noivado tinha servido a seus propósitos, acabaria com ela juntamente com o relacionamento sexual entre eles. Não importaria o que ela sentisse por ele, teria que seguir adiante normalmente, trabalhando para ele. Gina imaginou o cenário sombrio. Vê-lo todos os dias. Querê-lo sem poder tê-lo. Fazer reservas em restaurantes para ele e sua mais nova namoradinha.

Gina sabia que não suportaria. Além do mais, não precisava de seu diploma em psicologia para saber que a maneira mais fácil de curar uma dor emocional era evitar sua causa. O que significaria deixar seu trabalho para se afastar de Harry.

Vendo desse ângulo, o dilema desapareceu. A confusão de Gina foi banida, substituída por uma visão clara da realidade. Não podia largar o trabalho, não com Luna dependendo dela. Não faria nada para pôr em risco o bem-estar da irmã, e isto significava agarrar-se a seu emprego.

Significava também o fim daqueles joguinhos sensuais entre ela e Harry. Não haveria mais trocas de olhares demorados, mais toques ou beijos, e ela não se colocaria mais no caminho da tentação...

― Que gentil da sua parte nos honrar com a sua presença ― A voz de Harry soou, fazendo-a pular. Estava tão preocupada que não o ouvira entrar no escritório, mas ele estava se dirigindo para ela, parecendo bastante irritado.

Gina pôs-se de pé, posicionando a cadeira entre Harry e ela.

― Você me disse para tirar duas horas de almoço ― lembrou-o.

― Você sabe que eu não estava falando sério. O que você queria que eu dissesse depois daquele seu comentário sobre estar precisando de uma folga das suas funções de noiva?

― E você disse que precisava de uma folga da nossa "proximidade sufocante" ― retorquiu Gina. ― Você estava brincando quando disse isso também?

― O que você acha? ― perguntou ele num tom áspero. A maneira como ele a olhava a fez tremer de ansiedade.

A tensão sexual pairava pesadamente entre eles. Gina lembrou-se da promessa à irmã.

― O que eu acho é que... que seria um grande erro retomarmos de onde paramos quando Hermione... nos descobriu ― disse bravamente.

― Suponho que você tenha passado as duas últimas horas tentando se convencer disso.

― Sim ― admitiu Gina.

Harry franziu a testa. Ela estava certa. Depois da breve visita de sua mãe, passara o tempo longe de Gina tentando recuperar seu equilíbrio. Lembrou-se de sua política: sexo e trabalho eram duas esferas diferentes, que nunca deviam se encontrar.

Mas ouvir Gina declarar-se como estando fora dos limites dele trazia à tona instintos atávicos que nunca imaginara possuir. Sua capacidade de racionalizar abandonou-o. Queria tomar Gina em seus braços, carregá-la de volta para seu escritório e deitá-la no sofá; queria escutar as súplicas apaixonadas e famintas que haviam incendiado seu sangue.

Uma onda de calor aqueceu seu corpo. Harry lutou contra ela, determinado a não ceder à traiçoeira tentação.

― Bem, eu concordo com você. ― Seus lábios separaram-se levemente, deixando os dentes à mostra.

Gina entendeu aquilo como uma tentativa de sorriso, mas na verdade era uma cópia bastante assustadora de um sorriso.

― Seria estúpido cometer o mesmo erro de alguns daqueles atores de Hollywood e confundir os papéis que estamos representando com a vida real ― continuou Harry, enquanto seu sorriso de tubarão permanecia intacto.

― E já que nossa locação de filmagem é um escritório no prédio da Potter, vai ser fácil manter nossas cabeças no lugar. Quer dizer, nós não vamos estar fazendo os nossos papéis em um lugar romântico, como Paris ou o Taiti ― acrescentou Gina.

― Exatamente. Será o trabalho de sempre, exceto quando estivermos na presença de outras pessoas.

Gina concordou balançando a cabeça.

― Agora vamos tentar aproveitar o que sobrou da tarde. Ligue para Steve Gelman, em Washington, e pergunte se ele já sabe quando a equipe da FDA vai poder se reunir com a gente. Se ele tiver uma data definitiva, me passe a ligação para eu marcar uma reunião.

Estava aliviada. Era assim que ela queria que as coisas fossem, assim que deviam ser.

Harry voltou para seu escritório, mas parou na porta.

― Ah, Gina, faça reservas para a gente jantar amanhã à noite. Hermione acha que é bom a gente ser visto juntos.

― Algum lugar específico? ― perguntou Gina num tom impessoal e eficiente.

Harry sentiu uma dor peculiar. Quando olhou para Gina, não viu nenhum vestígio de sua sorridente cúmplice, nenhum traço da mulher ardente e apaixonada que gemera em seus braços.

Era melhor assim, insistiu consigo mesmo.

― Onde você quiser ir. Para mim tanto faz. ― Encolheu os ombros indiferentemente. ― Fique à vontade para programar uma noite de primeira classe na cidade. Você sabe, o de sempre. Não poupe dinheiro. ― Ele entrou no escritório e fechou a porta.

― Uma noite de primeira classe na cidade. Você sabe, o de sempre ― repetiu Gina em voz baixa. ― Tradução: ser vista com um Potter é certamente a maior emoção que uma plebéia como você pode ter na vida, embora para mim seja o de sempre.

Ela olhou furiosa para o teclado do computador. Quanto mais pensava a respeito, mais irritada ficava.

― Não poupe dinheiro ― resmungou alto. ― Tradução: Tenho certeza que me fazer pagar um jantar no restaurante mais caro da cidade seria o ponto mais alto da sua humilde vida de pobretona, então vá em frente, fique à vontade.

Gina estava tomada de indignação. Será que era assim que ele a via?

Quando finalmente conseguiu completar a ligação para a FDA ― Steve Gelman está viajando, ligue novamente semana que vem ― tinha se acalmado o suficiente para admitir que Harry não a insultara intencionalmente.

Obviamente, ele pretendia que aquele falso noivado seguisse o mesmo padrão chato e previsível de seus outros relacionamentos. Começando com uma noite de primeira classe na cidade.

Ele tivera centenas, talvez milhares, de noites assim. Gina nunca tivera nenhuma, e o que seria uma novidade memorável para ela, para ele não seria nada extraordinário.

― Onde você quiser ir. Para mim tanto faz ― dissera Harry. É claro, ele não esperava que ela levasse o comentário ao pé da letra.

Onde você quiser ir. Gina decidiu que em vez de programar uma noite de primeira classe na cidade, programaria um outro tipo de noite totalmente diferente.

Harry chegou à porta do apartamento de Gina na noite seguinte às sete horas em ponto. Fazia um calor fora de época e diversos estudantes passeavam pelas calçadas, conversando, rindo e gritando para outros estudantes.

Harry os observava como se fossem alienígenas de um planeta distante. Mesmo quando era ele próprio universitário, fora muito sério e controlado.

A porta do apartamento abriu-se e uma jovem negra, com uma calça leggingverde-oliva e uma longa camiseta de algodão, apareceu diante dele.

― Eu estou reconhecendo você da TV. Você é o Sr. Dinheiro, chefe da Gina.

― Potter, meu sobrenome é Potter ― corrigiu Harry, com seu sorriso mais simpático. ― Harry Potter. E, é claro, eu sou também o noivo da Gina.

― É, está bem! Isso também. ― Kia deu uma risada desdenhosa. Não o convidou para entrar.

Harry estava se sentindo extremamente desconfortável diante da moça que o examinava sem piscar.

― Vou levar Gina para jantar ― disse ele. ― Você pode dizer a ela que eu estou aqui?

― Você vai vestido assim? ― perguntou Kia incrédula. Harry olhou para seu terno azul-escuro, que estava vestindo pela primeira vez. ― Essa cor e esse tecido só deveriam ser usados em uma sala fechada ― observou Kia. Ela encolheu os ombros e acrescentou: ― Bem, você é quem paga a conta da lavanderia. Gina, seu pretendente está aqui.

Harry pensou que ela usaria o mesmo tom se um morcego com raiva tivesse voado porta adentro. Observou-a sair da sala de estar, então entrou e olhou em volta. Quase não havia móveis ― um sofá velho e três cadeiras esfarrapadas. Só a televisão e o videocassete pareciam ser relativamente novos.

Ele concluiu que o apartamento e a vizinhança eram adequados para estudantes duros, mas o que Gina estava fazendo ali? O salário que ela ganhava era suficiente para que tivesse um apartamento próprio num bairro melhor. A menos que ela gostasse da atmosfera...

Harry deu-se conta do quão pouco realmente sabia sobre sua assistente/falsa noiva. Nem mesmo sabia que Gina tinha uma colega de quarto.

Gina entrou na sala, vestindo jeans e uma camiseta branca. Seus cabelos estavam soltos e brilhantes, e ela sorriu ao vê-lo.

O coração de Harry balançou de uma maneira estranha. Foi necessário um minuto ou dois antes que ele percebesse a diferença entre seus vestuários. Quando finalmente se deu conta, a colega de quarto de Gina já se havia juntado novamente a eles e apontado a discrepância.

― Nunca vi ninguém vestir terno para ir para o Festival de Arte. ― Kia balançou a cabeça. ― Bem, acho que existe uma primeira vez para tudo. E pessoas como você fazem suas próprias regras.

― Acho que houve um mal-entendido ― disse Harry. Ele fez um esforço para manter a voz calma e amigável.

Pessoas como você fazem suas próprias regras.As palavras dela ecoavam desagradavelmente em seus ouvidos. Perguntou-se se Gina também o via assim ― como um homem rico e mimado, acostumado a conseguir tudo o que queria.

― Você disse que iríamos aonde eu quisesse hoje ― lembrou Gina num tom tão amigável quanto o dele. ― É o Festival de Arte do bairro e é para lá que eu quero ir. Kia vai com a gente. Eu disse a ela que você não se importaria.

― É claro que não ― garantiu-lhe Harry, a simpatia em pessoa. ― Embora ainda não tenhamos sido propriamente apresentados.

Gina apressou-se a fazer as apresentações.

― Ah, e nós não precisamos nos preocupar em fingir nosso noivado perto de Kia. Ela sabe a verdade.

Harry desistiu de qualquer tentativa de sorriso.

― Gina, nós concordamos em não contar a ninguém sobre...

― Seu advogado e sua irmã sabem ― interpôs Kia categoricamente. ― Com isso são duas pessoas do seu lado que sabem da verdade. Você não acha que Gina tem direito a pelo menos uma pessoa do lado dela que conheça todos os fatos?

Harry percebeu a lógica do argumento, mas não gostou nada. E o fato de Gina ter sentido a necessidade de contar a alguém a verdade sobre o noivado o deixou apreensivo. Parecia provar que ela não confiava plenamente nele. Isto o incomodava.

― Não se preocupe, Kia jurou manter segredo ― prometeu Gina. ― Ela é tão confiável quanto Hermione ou Alvo, eu garanto.

― Eu gosto de pensar que sou muito mais confiável do que riquinhos maquinadores que usam seu dinheiro para espalhar mentiras ― resmungou Kia.

― Kia, sem discurso, por favor ― interpôs Gina. Ela virou-se para Harry, toda sorrisos e delicadeza. ― Kia e eu concordamos em discordar a respeito do nosso falso noivado. Agora podemos ir? Você não perde por esperar, Harry. Este é o segundo Festival de Arte anual do bairro e está duas vezes maior que o do ano passado.

― Nunca ouvi falar ― confessou Harry. ― Imagino que tenha barraquinhas de comida além das de arte? -perguntou resignado.

― Ah, claro! ― exclamou Gina. ― Jen e Debby, que também dividem o apartamento conosco, disseram que este ano tem mais barracas de comida do que artistas!

― Deixe-me adivinhar o que eles estão oferecendo ― disse Harry. ― Bolos com cobertura, batatas fritas gordurosas com chili ou queijo, uma extravagância de calorias.

― Já estou com água na boca! ― exclamou Gina. ― Vamos!

― Você poderia ter me comunicado sobre esta mudança de planos, Gina ― murmurou Harry enquanto se aproximavam dos quarteirões fechados para o tráfego onde o festival estava sendo realizado.

Estavam a pé. Ele deixara o Corvette estacionado em frente ao apartamento de Gina, onde o carro atraiu olhares de admiração dos estudantes que passavam. Harry só esperava que eles se limitassem a olhar, sem tocar.

― Mas você não me perguntou aonde a gente ia ― respondeu Gina. ― Se tivesse perguntado, eu teria dito com prazer.

― Mas não com tanto prazer quanto você está sentindo agora, se divertindo me vendo usando terno num festival de comida. ― Harry sentiu um sorriso puxar os cantos de sua boca. Gina conseguira pregar-lhe uma peça, e embora estivesse um pouco aborrecido, admirara o feito dela.

― Correção, é um festival de arte ― lembrou Gina.

― Claro! A gente acaba esquecendo dos artistas com todas essas calorias, mas olha só aquela banca de esculturas feitas de serras. Isto é o que eu chamo de arte!

― Dizem que a arte está nos olhos de quem vê. ― Gina sorriu. ― Será que aquele pássaro feito de serra não seria uma adição interessante à sua sala de jantar? Você poderia colocá-lo ao lado da sua gaiola.

― Isso foi golpe baixo, Gina.

Kia adiantou-se para juntar-se a um grupo de amigos.

― Vejo você mais tarde, Gina. Espero que goste do jantar, Harry ― gritou rindo.

― Você acha que ela percebeu que odeio essas comidas de festivais e espera que eu morra engasgado? ― perguntou Harry.

― Como você pode odiar? É delicioso! ― Gina dirigiu-se para uma banca que vendia algo chamado maravilha de frango, feito com frango assado com queijo líquido, champignons, cebolas fritas, alface, tomate e uma espécie de molho branco.

― Mesmo quando eu era criança me recusava a comer em parques de diversão ― disse Harry, observando-a morder a mistura. O molho esguichava para fora e escorria pelos dedos de Gina. Com um guardanapo de papel ― ele pegou vários na barraquinha ― Harry começou a limpar o líquido das mãos dela. ― Eu me lembro do meu pai comprando almoço para a gente num parque. Só de ver um daqueles salsichões no palito eu ficava com os cabelos em pé. Ainda fico.

― Pobre Harry! Eu não fazia a menor idéia ― riu Gina.

― Não? ― Ele enfiou o dedo em um dos passadores de cinto da calça de Gina e puxou-a, desviando-a de um garotinho que brandia um enorme algodão-doce azul como se fosse uma espada.

Mas mesmo depois que a ameaça grudenta havia passado, Harry não a soltou. Em vez disso, ele a puxou mais para perto ― tão perto que Gina podia sentir o calor do corpo dele. Estava completamente zonza.

Como a camiseta que ela usava não estava enfiada dentro da calça, o dedo de Harry deslizou facilmente sob o tecido para acariciar seu abdome. Gina ficou grudada no chão. O toque do polegar áspero em sua pele nua era provocante. Ela tentou se lembrar de todas as razões para manter Harry à distância, mas seu corpo tinha suas próprias razões e bloqueou todas as objeções racionais.

Gina deixou-se encostar nele. Podia sentir os lábios de Harry em sua testa, a respiração dele mexendo seus fios de cabelo... mexendo com ela. Se virasse a cabeça um centímetro e levantasse o queixo, seus lábios ficariam próximos o suficiente para se beijarem. E ela queria fazê-lo, admitiu doloridamente.

Harry estava perto o suficiente para sentir aquele tremor sensual percorrendo o corpo de Gina.

― Está com frio? ― murmurou no ouvido dela, com uma voz profunda.

A pergunta pareceu-lhe ridícula e ela deu uma risadinha rouca.

― Não ― sussurrou ― não estou com o menor frio.

― Com calor, então? ― murmurou ele. O gemido sensual com que ela respondeu fez com que o coração de Harry batesse loucamente em seu peito. Ele queria desesperadamente sair do meio da multidão, daquelas horríveis comidas e da suposta arte e ficar sozinho com ela. Queria estar perto dela, tocá-la...

― Gina ― começou ele roucamente.

Mas não teve chance de terminar, porque vindo na direção deles estava sua prima mais nova, Rachel, filha de Sirius e Erica, a gêmea idêntica de Allison.

― Harry? ― A expressão de Rachel refletia divertimento e incredulidade. ― É você mesmo ou eu estou ficando louca?

― Sou eu mesmo, Rocky ― disse Harry, tratando-a por seu apelido de infância.

― Poderia ser um impostor ― brincou Rocky. ― Ninguém que conhece Harry Potter esperaria encontrá-lo num Festival de Arte.

― Pensei que você estivesse em Wyoming, Rocky. -Os dedos de Harry continuavam presos aos passadores da calça de Gina, segurando-a firmemente. ― Que surpresa encontrar você aqui.

― Era justamente o que eu ia dizer. ― Rocky sorriu. ― Este é o último lugar em que eu esperaria encontrar você, Harry. Cercado de salsichões e churrasquinhos. Sem falar nas maçãs do amor e nos sorvetes de casquinha. ― Ela desviou seus olhos sorridentes para Gina. ― Foi você quem o convenceu a vir aqui? Agora eu sei que ele está realmente apaixonado!

― Minha influência é limitada ― disse Gina devolvendo a brincadeira. ― Ele está presente aqui em corpo, mas não em espírito.

Nunca conhecera a gêmea de Allison, mas ouvira falar muito de Rocky. Embora Allie fosse a porta-voz "top model" da empresa, sua gêmea idêntica escolhera uma carreira bem diferente. Rocky, uma excelente pilota, herdara os aviões e helicópteros da avó e fundara seu próprio serviço de busca e resgate em Wyoming.

― Fiquei sabendo do seu noivado pela família, mas ainda não tive a chance de lhes dar os parabéns ― exclamou Rocky. ― Harry, quero que você me apresente imediatamente à sua noiva!

Harry fez as apresentações de maneira prática e rápida. ― Gina, minha prima Rocky. Rocky, Gina.

― Allie me disse que você trabalha para Harry. Quando vocês começaram a namorar? Como conseguiram esconder o segredo de todo mundo até decidirem anunciar o noivado? ― Rocky encheu Gina de perguntas.

Gina tentou lembrar-se do que haviam dito a Faith Carlisle e não conseguiu. A entrevista da TV parecia uma mancha distante.

― Quando começamos a namorar, Harry? ― Ela virou-se para ele com os olhos castanhos brilhando. ― Parece que estamos juntos desde sempre ― acrescentou com um suspiro.

― Boa, querida! ― murmurou Harry no ouvido dela. ― Gina e eu decidimos que nosso caso foi amor à primeira vista ― disse ele à prima. ― Quanto a manter em segredo, foi fácil. Fomos muito, muito discretos. Agora eu quero saber de você, Rocky. Quando você voltou para Minneapolis?

― Ontem ― disse Rocky. Seus olhos entristeceram-se subitamente. ― Minhas irmãs ligaram e me pediram para vir para casa por alguns dias para conversarmos com mamãe e papai. Você sabe que o relacionamento deles... ― ela pausou, abaixando a voz ― ... não anda muito bem. Hoje, no café da manhã, eles estavam tão frios um com o outro, como se mal se conhecessem.

Gina estava desconfortável, sentindo-se como uma bisbilhoteira que não deveria estar ouvindo aquelas informações tão pessoais. Rocky não hesitara em contar aquilo a Harry na frente dela pois a considerava, como noiva de Harry, sendo quase parte da família.

― É uma pena ― murmurou Harry. ― Mas acho que era de se esperar. A única surpresa é o fato de eles terem ficado tanto tempo juntos. ― Ele balançou a cabeça e soltou um suspiro desgostoso. ― Casamento! Que instituição impraticável!

Rocky olhou-o com estranhamento.

― Essa é uma atitude péssima para um homem recém-noivado, Harry. ― Ela olhou para Gina, penalizada. ― E deve ser difícil para Gina ouvir você dizer essas coisas.

Gina e Harry se entreolharam. Precisavam urgentemente reparar aquele dano, mas nenhum dos dois estava bem certo de quem devia dizer o quê.

― Ele só está falando da boca para fora ― murmurou Gina.

Ao mesmo tempo, Harry disse:

― É difícil mudar antigos hábitos. Eu costumava pensar assim, mas mudei de idéia.

― Às vezes Harry solta seu discurso anti-casamento mecanicamente ― continuou Gina. ― Ele consegue esquecer que o pai dele tem um casamento feliz e que meus pais também tiveram um casamento longo e feliz.

Rocky levantou a sobrancelha, desconfiada.

― Sugiro que você mude esse disco na sua cabeça Harry.

― Eu concordo. Nós somos o que pensamos ― disse Gina.

― Bom, eu acho que cansei de ficar aqui ― interpôs Harry, com um sorriso encantador. ― Será que consigo convencer vocês a ir embora?

― Desculpa, eu estou com uns amigos e a gente vai ver um filme depois de comer― disse Rocky. Ela olhou o primo de cima a baixo e deu um sorriso largo. ― Você certamente está elegante hoje, Harry. Um terno escuro é a roupa perfeita para usar num...

― Eu sei, eu sei. Já ouvi isso antes.

― Nós estávamos brincando de verdade ou conseqüência e a conseqüência que eu impus a ele foi usar um terno hoje ― improvisou Gina, rindo de Harry. ― Não pensei que ele fosse usar, mas aqui está.

― Eu disse a você que não ia fugir das conseqüências, querida ― disse Harry, entrando na brincadeira.

― Ah, Gina, da próxima vez manda ele comer as batatas fritas com queijo e molho! ― implorou Rocky, rindo. ― Seguidas do favorito da garotada, o salsichão no palito!

― Ela não quer me matar, só me dar uma lição ― interpôs Harry. ― Não é verdade, Gina?

Gina olhou para ele. Seus olhos a observavam intensamente. Ela abaixou o olhar para seguir as linhas sensuais da boca dele. A lembrança de seu beijo fez com que a mente de Gina virasse um branco.

― Bem, você conseguiu ― continuou Harry. Os olhos de Gina estavam nebulosos e desfocados, seus lábios levemente separados. Sua aparência era a mesma de quando ele estava prestes a beijá-la ― sensual e gulosa.

Harry suspirou profundamente.

― Quando se tratar de reservas para jantar, vou fazer pessoalmente. Nada de mandar minha assistente fazer.

― Acho que perdi alguma coisa, mas vocês parecem estar se entendendo muito bem ― disse Rocky alegremente. ― E como dois é bom e três é demais, vou procurar meus amigos e dar uma passada na barraquinha de cheesecake.

― Prefiro morrer do que comer qualquer coisa dessas barracas ― retrucou Harry. ― O risco de ter uma intoxicação alimentar...

― Esse chato está me fazendo lembrar de umas férias que a gente passou na Disneylândia, quando Allie e eu tínhamos 8 anos ― interrompeu Rocky. ― Harry fez a gente sair do parque todas as noites para jantar nos restaurantes nutricionalmente saudáveis. Até hoje não acredito que a gente foi atrás dele ― e ele só tinha 12 anos!

― Harry tem um jeito de conseguir que as pessoas façam o que ele quer ― concordou Gina. Uma observação que serviu como umlembrete para desvencilhar-se dele. E foi o que ela fez, afastando-se alguns passos dele e procurando Kia no meio da multidão.

Ela precisava de Kia, a âncora que a prendia à realidade, que não hesitava em apontar que, ao concordar com esse falso noivado, Gina se tornara um mero peão no tabuleiro da vida dos Potter.

― Minha colega está em algum lugar por aqui, mas não estou conseguindo vê-la ― murmurou Gina.

― Talvez ela esteja se empanturrando na barraca de maçã do amor ― sugeriu Rocky. ― Ouvi dizer que elas estão deliciosas, acho que vou lá em vez de na de cheesecake. ― Tomando a mão de Gina, disse: ― Estou tão feliz por termos nos conhecido, Gina. Você é perfeita para o meu primo. Parabéns mais uma vez, Harry. ― Rocky deu um rápido beijo no primo. ― Vou voltar para Wyoming depois de amanhã, mas vou estar aqui para a festa de noivado de vocês. Você sabe que eu não perderia de jeito nenhum!

Rocky saiu correndo e sumiu no meio da multidão, deixando Gina e Harry olhando um para o outro. Por um momento, nenhum dos dois disse uma palavra sequer.

De repente, suas vozes soaram em coro:

― Festa de noivado?