O que pensar sobre o Sr. Darcy?

Lizzy acordou com o interfone tocando, suas pernas estavam doloridas e sua cabeça parecia que ia explodir. A noite de ontem passava como um filme velozmente em sua cabeça. O interfone tocou mais uma vez até que Lizzy conseguisse atendê-lo. Eram suas irmãs que vieram busca-la para o almoço.

- Entrem!

- Você tava dormindo? – perguntou Mary.

- Sim. – respondeu Lizzy, nem um pouco disposta a dar satisfação à irmã.

- A gente só veio porque a mamãe quer contar sobre o Papa. Ela quer a família toda reunida. – explicou Mary. - Acompanhei a mamãe ao Campo de Marte e foi a coisa mais emocionante da minha vida! – relatou.

- Tá bom, vou me trocar! – decidiu Lizzy, lembrando o quanto isso era importante para sua mãe.

Enquanto Lizzy se trocava no quarto, Mary e Kitty devoravam alguns biscoitinhos de dentro de uma lata.

- Ei, já chega! Assim não irão conseguir almoçar.

O vento soprava frio na rua e as irmãs se deram os braços para se aquecerem, enquanto caminhavam.

- Onde está Lydia?

- Ficou em casa, não estava se sentindo bem, eu acho.

Ao chegar à casa de seus pais, Lizzy sentou-se ao lado de Jane, abraçando a irmã.

- Ainda bem que deu tudo certo para você ontem.

- Quero te agradecer pela companhia. Também te pedir desculpas, você estava exausta, dormindo no sofá e eu nem me dei conta.

- Tudo bem! O sofá era confortável.

- Não paro de pensar na festa! – disse Jane. – Nossa! Tudo estava perfeito! – vibrava ela.

- Eu sei. Fico feliz por você! – disse Lizzy, segurando na mão de Jane. - Só quero te pedir uma coisa. Sobre a sua relação com Charles, vá com calma. – aconselhou ela.

- Mas você viu como ele se comportou ontem? Eu não imaginava! Ele foi incrível!

- Também achei o comportamento dele o máximo, mas a última coisa que eu quero é te ver machucada nessa história. Lembre-se de que ainda há aquele mal entendido com sua família.

- Sim, eu sei. Mas tenho certeza que desta vez tudo será diferente. Sinto Charles mais maduro.

- O problema não é com Charles. Realmente, acredito que ele goste de você, mas será que desta vez ele está preparado para assumi-la como namorada?

- Bem, ontem passamos quase que a festa toda juntos. Lá estavam seus amigos, sua irmã, primos e primas e até o Sr. Darcy, que é o melhor amigo dele.

- Nem me lembre disso. – murmurou Lizzy. - É ai que está o problema, Jane! – disse ela seriamente.

Assustada com as palavras da irmã, Jane perguntou:

- Você está sabendo de alguma coisa, Lizzy?

- Não. Não sei de nada. – desconversou ela. – Só quero que tome cuidado!

Durante o almoço, a Sra. Bennet contou todo o discurso feito pelo Papa João Paulo II, sobre justiça social, liberdade e direitos humanos. "Imaginem abordar esses assuntos em pleno regime militar que vivemos?" – comentava ela, surpreendida com a coragem do papa. Contou ainda, que em seu discurso, o papa defendeu a luta sindical, transmitindo mensagens de apoio aos operários e trabalhadores. Sem fazer pausa para respirar, contou ainda sobre a emoção e a euforia não só de seu grupo de amigos, que fretaram um ônibus para irem até o Campo de Marte, como de toda a multidão que estava prestigiando o pontífice. Eram pessoas chorando. Alguns desmaiando. Outros seguravam cartazes e levaram flores e presentes. "Mas, que jeito? Como iam entregar isso tudo ao Papa?" – questionava ela.

Após ouvir, durante toda a tarde, as histórias de sua mãe, Lizzy decidiu voltar para casa. Antes de sair, o Sr. Bennet, que havia achado sua filha bastante abatida, fez um questionamento à Lizzy:

- Estou achando você diferente hoje, aconteceu alguma coisa?

- Não se preocupe, papai. Estou cansada por causa da festa de ontem.

- Acredito que esteja cansada, mas sei que também está triste.

- Não consigo esconder nada do senhor, não é.

- Se quiser, posso te acompanhar até sua casa, assim poderemos conversar.

- Não precisa papai. Vai passar, é que às vezes, não consigo entender as pessoas, ora parecem boas e cheias de ternura, ora são frias e cruéis. Algumas, no entanto, são insensíveis o tempo todo.

Sr. Bennet respirou aliviado e disse:

- Neste mundo existe de tudo, Lizzy, cabe a nós conquista-las e fazer nossas escolhas, já que nem sempre conseguimos mudar algo.

Lizzy deu um forte abraço em seu pai e se despediu pegando o elevador até o piso térreo.

O início da noite de domingo era fria e não havia muito movimento na rua, Lizzy apressou-se para chegar mais rápido em sua casa. Quando abriu a porta de casa, foi fazer o que mais queria, deitar em sua cama usando um cobertor bem quentinho e assistindo a televisão. Era o lugar mais seguro para ela naquele momento. O Fantástico fazia uma cobertura longa e completa sobre a visita do papa no Brasil e Lizzy se interessou muito em assisti-la.

No dia seguinte, Lizzy estava um pouco adiantada, quando chegou ao escritório. Ao entrar no grande saguão, ela se deparou com Sr. Darcy, que também acabara de chegar. Foi um tremendo susto para ela. Seu coração batia forte e era muito difícil de encará-lo naquele ambiente claro, sem os efeitos de luz e sem o barulho da música disfarçando o silêncio entre eles. Por mais duro que fosse, ela sabia que precisava conter seu ódio, não podia simplesmente ignorá-lo, ao menos no escritório.

- Bom dia, Sr. Darcy.

- Bom dia. Chegou cedo.

- Sim, devo ter saído mais cedo de casa.

- Bem, a Charlotte ainda não chegou. – comentou ele. – Peça à copeira que sirva o café da manhã na minha sala, por favor. – solicitou ele à Lizzy, subindo as escadas em direção à sua sala.

Lizzy ficou indignada com a tarefa que ele havia solicitado. "Que folgado! Que ridículo! Por que não pede ele mesmo o seu próprio café da manhã?", pensava ela. Após fazer o pedido à copeira, Lizzy subiu a escadaria e permaneceu em sua mesa tentando controlar todo o ódio que sentia por ele. Sentia-se ofendida e humilhada ao lembrar que ele nunca havia se interessado em acompanhar sua contratação, seu desempenho e, nem mesmo, suas avaliações. De repente, para sua surpresa o seu ramal tocou. Era o Sr. Darcy chamando-a até sua sala. Lizzy permaneceu por, alguns segundos, pensativa e tentando se acalmar até subir ao 2º piso. Enquanto caminhava lembrou-se de que nunca havia entrado em sua sala antes. Muitas coisas passavam pela sua cabeça, o dialogo entre ele e Caroline passava como um filme, velozmente, em sua cabeça até decidir bater na porta.

- Pode entrar! – ordenou o Sr. Darcy de dentro da sala.

Ao abrir a porta, Lizzy observou o quanto era espaçosa e luxuosa sua sala. Ao fundo, próximo a enorme janela, ficava sua mesa de trabalho impecavelmente organizada com uma imponente poltrona escura. O chão era todo em mármore escuro e as paredes, até a metade, tinham um revestimento de madeira contrastando com um papel de parede claro. Numa das paredes havia uma enorme estante do teto ao chão com muitos livros. A frente dela, sobre um lindo tapeta persa, ficavam duas poltronas e um sofá pequeno com uma mesa baixa e redonda ao centro. Sentado ali, estava Sr. Darcy se servindo de uma xícara de café.

- Feche a porta e sente-se aqui.

- Com licença. – disse Lizzy, sem se intimidar com o cenário poderoso de sua sala.

- Sirva-se a vontade. – disse ele, indicando-lhe a bandeja.

- Obrigada, mas já tomei meu café da manhã. – disse Lizzy, olhando a bandeja com pães e torradas, queijos e frios enrolados como canudinhos, manteiga e ovos mexidos, ainda quente, exalavam aquela fumacinha para o alto. Havia algumas frutas também, mamão, melão, uva e maçã.

- Coma ao menos uma fruta ou tome um suco. – insistiu ele.

Na verdade, Lizzy estava faminta, não havia tomado café da manhã como dissera. Após mudar-se da casa de seus pais, dificilmente preparava algo para comer pela manhã. Porém, não iria dar o braço a torcer e comer em companhia do Sr. Darcy, afinal não queria que ele pensasse que tudo aquilo estava impressionando-a ou que ela fosse uma morta de fome.

- Não, obrigada.

- Bem, te chamei aqui para me fazer companhia no café da manhã, mas vejo que você realmente não está com apetite, então podemos conversar sobre o caso em que está envolvida, o da indústria farmacêutica. – disse ele. - Estive fora a semana passada, pois acompanhei minha mãe e minha irmã na visita do papa. Fomos para Brasilia e também para o Rio, além de participarmos do encontro aqui, em São Paulo. – contou ele.

Impressionada, Lizzy jamais podia imaginar o Sr. Darcy tão espirituoso assistindo ao discurso do papa.

- Minha mãe e minha irmã também estiveram em Campo de Marte. Estavam emocionadas com seu discurso e com a missa que rezou.

- Sim, de fato, foi algo emocionante.

Ele levantou-se deixando a xícara com o café em cima da mesa de centro. Pegou um pacote de dentro de sua maleta entregando a Lizzy.

- São algumas fotos que tirei da visita do Papa.

Lizzy abriu o pacote e passou a ver a fotos, uma a uma. Em todos os encontros, Sr. Darcy e sua família ficaram em lugares VIPS, tornando possível tirar retratos próximos ao pontífice. As fotos impressionaram Lizzy, que preferiu o permanecer em silêncio até terminar de olhá-las.

- Minha mãe e minha irmã ainda não viram.

- Ficaram ótimas, acredito que irão gostar. – disse Lizzy lhe devolvendo o envelope com as fotos.

A sala ficou em silêncio novamente, até que o Sr. Darcy retomou o assunto:

- Bem, como eu havia comentado, quero lhe falar sobre o processo que está envolvida. O que está achando?

- Passei a semana me atualizando e estudando o processo. Inclusive, na sexta-feira, entreguei um relatório ao meu chefe com algumas opiniões que achei relevantes para o caso.

- Sim, eu sei. Estive no escritório na sexta à noite e ele me apresentou seu relatório.

Lizzy olhou diretamente para ele, esperando que expressasse sua opinião.

- Você é muito especial, Lizzy. Muito esperta e inteligente, seu conhecimento e sua atitude estão acima do que se espera de uma estagiária. Realmente, sua contribuição foi muito importante e suas observações serão consideradas no processo.

Surpreendida com o discurso do Sr. Darcy, Lizzy se esforçou para manter-se séria. Sentia-se satisfeita e orgulhosa ao ouvir, finalmente, algum retorno sobre seu trabalho.

- Obrigada. É o meu trabalho.

- Não é tão simples assim. As pessoas fazem seu trabalho de diferentes maneiras, você se envolveu e se dedicou para entender o processo. Levantou questões e soube criticá-lo de modo favorável e enriquecedor. Isso faz a diferença, Lizzy.

- Eu sei disso.

- Então não seja tão modesta ao receber um elogio. Esse caso é muito importante e está sendo noticiado e acompanhado pela imprensa. Portanto, se encontramos meios de defender os direitos dos funcionários forçando a indústria farmacêutica a assumir seus erros e a fornecer-lhes maior segurança no trabalho estaremos fazendo nossa parte e modificando todo o setor.

Mais uma vez, Lizzy se impressionava com o discurso do Sr. Darcy.

- Quero dizer que compartilho da sua opinião sobre este caso. Acho que foram esses pensamentos que me motivaram a dedicar tempo em estuda-lo e a me envolver no processo.

- Sim, eu sei disso, estou certo de que eu não me enganei em relação a você. – murmurou ele. – Bem, o que quero dizer é que a partir de hoje, você acompanhará este caso em tempo integral, inclusive quero que participe das audiências no tribunal.

- Sim, obrigada pela oportunidade. – agradeceu ela, sem demonstrar sua emoção. – Bem, acho melhor voltar a minha mesa. – sugeriu ela.

- Fique a vontade.

Sr. Darcy permaneceu sentado, observando Lizzy até que saísse de sua sala. Ela caminhou até sua mesa, emocionada e intrigada em relação a ele. Não sabia o que pensar a seu respeito. Eram tantas divergências. Pensava como era possível uma pessoa ter atitudes tão generosas, justas e sensatas e que, ainda por cima, acompanhava a família na excursão do papa, ser ao mesmo tempo, um verdadeiro monstro, que tratava George, seu "quase irmão", com tanta crueldade e injustiça, que para a maioria das pessoas não passava de um sujeito arrogante e antipático e, que ainda, namorava uma pessoa desprezível, fútil e preconceituosa como Caroline.

Ainda sentado na poltrona de sua sala, Sr. Darcy olhava as fotos, enquanto pensava em Lizzy. Sua reação lhe era estranha, sentia-se frustrado com sua atitude apática em meio aos elogios e desafios lançados. "Deve haver alguma explicação." pensou ele.