"Não há como deter a notícia" – Mercedes sentenciou – "Ela já foi disparada pela assessoria de imprensa da polícia. As televisões e rádios estavam no local. Já era. Em algumas horas, a cidade inteira vai saber."
A jornalista estava exausta. Era alta madrugada, o grupo estava todo reunido onde eles chamavam de quartel general. Nada além do salão que parecia mais uma academia de treinamento de boxe próximo à área industrial da cidade. Lugar mantido por Martinez, ou o chefe, que era dono do lugar, mas o alugava para o irmão: este sim dava aulas de artes marciais e boxe.
A reunião foi convocada em regime de emergência por Matt. Era inusual o carpinteiro ter tomado tal atitude. Logo aquele que tinha nenhuma pré-disposição para liderar. Entretanto, a condição de testemunha o forçou a agir. Planejava passar uma noite de televisão e petiscos com Quinn e Beth. Nada mais banal. Na ida ao mercado, viu a movimentação de policiais que isolavam parte da avenida. Algumas pessoas falam que viu o mascarado matar um garoto. Matt tentou se aproximar, abrir caminho, até chegar no limite da fita que limitava a ação da polícia e os curiosos. Havia um corpo forrado com uma lona no chão da calçada, os policiais faziam anotações com pessoas que presenciaram e quando uma delas foi dispensada, aproximou-se e perguntou o que havia acontecido. O homem de aproximadamente 40 anos disse que viu um sujeito mascarado matar um menino à sangue-frio e depois correr para o beco. Acusou o vigilante e, aparentemente, a polícia comprou a idéia sem reservas. Era tudo que ela gostaria.
"A gente não pode deixar a polícia manchar nossa reputação assim" – Santana estava inquieta, andando de um lado para outro – "Eles mataram um inocente e colocaram a culpa em nós. Isso é... nojento!"
"O que vamos fazer?" – até mesmo Brittany que ficava sempre quieta e pouco participante das discussões, estava confusa e triste.
"Manter a calma" – o líder respondeu, como de hábito, por telepatia quando a proximidade lhe permitia – "Precisamos admitir que chegamos atrasados. A corporação ganhou essa batalha, e o que precisamos fazer agora é agir com cautela e avançar nossas investigações. Este pode ser um caso encomendado, talvez a primeira parte do plano secreto da polícia para nos incriminar. Cautela, pessoal, cautela."
"Não espere cautela se um daqueles caras colocarem as mãos em um de nós" – Matt resmungou – "Não quando eles foram capazes de matar alguém para colocar a opinião pública contra nós."
"Insisto que devamos respirar e procurar pensar no quadro geral, que é algo que não estamos visualizando. Há algo mais nessa história, há outras motivações. A polícia não iria matar alguém só por causa da imagem. O escândalo beneficia alguém, um peixe grande talvez. Eu não sei dizer quem e nem o porquê neste exato momento, mas é o que precisamos descobrir" – andou em direção de Grant, o mais calado do grupo, e colocou as mãos nos ombros do vigilante – "As eleições para comissário estão próximas. Preciso que você faça uma investigação sobre os três candidatos. Artie, suas habilidades como hacker serão bem-vindas agora. Precisamos entrar no site da polícia e do comissário. Se for possível, da prefeitura. Consiga pistas. Mercedes, preciso que você consiga números de pesquisa de opinião e faça um relatório da inclinação da imprensa em relação às eleições. Entre em contato com suas fontes na polícia e tente pegar pistas."
"E quanto ao resto de nós?" – Santana perguntou.
"Quero que você e Matt continuem longe da máscara e das patrulhas até segunda ordem. A situação é por demais delicada e eu não quero que este grupo corra riscos desnecessários."
"Sumir assim vai parecer uma admissão de culpa" – Santana cruzou os braços – "Assim vão poder dizer que somos os bandidos que eles querem nos fazer parecer. Quem se esconde não é o rato?"
"Não vamos sumir. Vamos nos resguardar. Precisamos analisar como será o terreno que pisaremos de agora adiante para voltarmos a agir, independente de polícia e perseguidores. Isso que aconteceu não é para ser encarado com outra postura que não a seriedade. Declararam guerra contra nós sem ao menos te ruma forte razão. Recuperar a popularidade da corporação não é mais a resposta, não quando um inocente foi sacrificado. Vocês sabem que não costumo impor coisas a vocês, mas neste caso, se não forem obedientes, poderão provocar um problema ainda maior."
Santana se resignou à vontade do chefe. Tal como todos os outros. Era quatro da manhã e o grupo estava mentalmente esgotado. O chefe, como telepata, sabia avaliar as condições de cada integrante em questões de segundos quanto todos estavam reunidos. Mercedes precisava de algumas horas de sono, pois os pensamentos dela estavam embaralhados. Grant tinha uma mente privilegiada e ainda poderia trabalhar. Matt estava confuso e triste com os últimos acontecimentos e também precisava descansar. Santana era fisicamente a mais resistente do grupo. Embora ela demorasse a sentir o cansaço nos ombros, o problema era o estresse e o controle emocional, coisas que o líder procurava trabalhar nela. Por hora, o melhor era deixá-la de fora. Brittany não era a pessoa mais indicada para fazer investigação alguma. Por outro lado, não era apenas as mãos dela que curavam, a dançarina era uma boa lutadora e fazia as pequenas tarefas de ajudante que ninguém se dispunha e nem tinham a humildade de reconhecer o quanto isso era importante. Artie estava bem e ele poderia trabalhar por mais algumas horas antes de precisar de uma pausa.
"Grant, Brittany e Artie. Preciso de vocês aqui comigo. Quanto ao resto, aguardem o meu chamado. Saiam daqui como bons civis e não se sobressaltem com o que as pessoas possam vir a dizer pelas ruas."
Não havia nada mais que o restante pudesse fazer a não ser obedecer ao chefe do grupo. Matt tinha de trabalhar, Mercedes tinha classes, embora considerasse pular a primeira para dormir mais um pouco. Santana não estava cansada, apenas frustrada. Queria vestir o uniforme e colocar as mãos no safado que usou uma máscara para matar um garoto. Um adolescente de apenas 15 anos de um modo que fez parecer puro e simples extermínio. Isso era nojento e cruel demais na visão da vigilante. Precisava tomar alguma coisa, uma cerveja quem sabe. Estava tarde. Mercedes mal conseguia manter os olhos abertos. Decidiu fazer o certo e levar a amiga de volta ao dormitório.
Uma vez no quarto e depois de ajudar a jornalista a arrumar a cama, quis dar uma volta. Sentiu imensa vontade em vestir a jaqueta e a máscara. Tinha orgulho do uniforme que usava para fazer coisas boas, segundo o próprio julgamento. Por outro lado, o chefe tinha razão: não era hora nem momento. Tirou a roupa, colocou o "pijama" e começou a rabiscar no bloco.
Pela manhã, Finn bateu à porta do apartamento da namorada e de Kurt. Nada fora do costume. Não era raro o mecânico fazer a refeição antes de levar Rachel para a faculdade. Diferente foram as notícias que ouviu no rádio sobre o escandaloso assassinato de um jovem de 15 anos e o mandato de prisão ao vigilante mascarado, principal suspeito do crime. Por um lado, achava estúpido alguém expedir mandato de prisão a alguém que usa uma máscara comum de qualquer ladrãozinho de carros. Por outro, qualquer má notícia sobre o tal era bom na concepção dele, mesmo que soe estranho e injusto. Incomodava o fato de Rachel ser uma das maiores defensoras do vigilante.
Após cumprimentar o amigo e beijar a namorada, sentou-se à mesa para comer pão com geléia e um pouco de leite aquecido.
"Ouviram a notícia?"
"Qual?" – Kurt perguntou desinteressado.
"O vigilante mascarado assassinou um adolescente de 15 anos que roubou uma lata de cerveja numa loja de conveniência. Foi à sangue-frio. Há algumas testemunhas e tudo mais" – comunicou prestando atenção à namorada.
"O quê?" – Rachel deu um salto da cadeira, uma reação prevista por Finn – "Não é possível. Ele jamais faria isso" – o namorado estreitou o olhar. Mesmo no choque, ela parecia muito certa do que falava – "Isso só pode ser uma mentira. Uma armação."
"Como sabe?" – confrontou – "Tudo que a gente sabe desse sujeito é que ele tem mania de amarrar gente a postes e acusá-las."
"Às vezes você fala como se conhecesse ele, Rach" – Kurt ponderou.
"Ele me salvou" – Rachel sentenciou – "E eu não o conheço mais do que vocês. Provavelmente bem menos do que Finn que é o único desta mesa que teve a oportunidade de ter uma conversa apropriada com socos e pontapés."
"O quê?" – Kurt franziu a testa. Aparentemente o casal o deixou de fora.
"Não contou ao seu irmão, Finn? Que você tentou fazer justiça com as próprias mãos e, graças a deus, foi impedido pelo vigilante?"
"Eu me pergunto de que lado está, Rach?" – Finn reclamou.
"Do lado de quem age corretamente. E na ocasião não foi você."
"E o que você diz do seu vigilante agora?"
"Tenho certeza que é um engano... ou uma armação."
"O ponto, Rach, é que esse vingador tem atitudes desproporcionalmente violentas. Se ele matou um moleque agora, não consigo me surpreender" – Finn argumentou sem realmente pensar no assunto e voltou a tomar café da manhã.
"Gente, pelo amor de deus. Isso só pode ser uma armação ou um mal entendido. Ele jamais faria isso" – Rachel insistiu.
"É que você só enxerga o melhor das pessoas" – Kurt procurou amenizar – "Eu adoro isso em você, mas também me preocupo."
"Não sou ingênua."
"Talvez..." – Kurt terminou de tomar o café – "A gente devesse mudar de assunto par não estragar nossa manhã."
Rachel concordou em silêncio, mas só porque ela não estava disposta a brigar ainda mais com o namorado, muito menos com o melhor amigo. Depois de terminar de se arrumar, desceu com Finn para mais um dia na faculdade comunitária. Ligou o rádio, tirou da estação de notícias e procurou uma música amena.
"Eu quis ter os pés no chão/ tanto que abri mão/ que hoje eu entendi/ sonho não se dá/ é botão de flor/ o sabor de fel/ é de cortar/ Eu sei é um doce te amar o amargo é querer-te pra mim/ O que eu preciso é lembrar, me ver/ Antes de te ter e de ser teu, muito bem."
"Los Hermanos?" – Finn reclamou – "Não gosto desses caras. São metidos e fazem música com palavras demais que ninguém entende. Mude de estação."
"Eu gosto" – Rachel desafiou.
"Você nem entende o que dizem, esse vocalista canta como um bêbado e a música parece toda desencontrada, desafinada. Hipster demais."
"A música fala de duas pessoas que se gostam, talvez se amem, mas não estão preparadas para ficarem juntas. Um deles entende que ficar sozinho tem suas vantagens, mas que precisa do outro para ser completo."
"Jura?" – Finn deu um meio sorriso.
"É como eu interpreto. Mas entender uma música é muitas vezes um processo subjetivo. Como Tropicália" – Rachel alfinetou Finn por ele ter tantos problemas com a música a ponto de forçar o diretor Schuester a reformular a peça para incluir outro integrante.
"Essa é uma música idiota. Essa e aquela Alegria, Alegria" – referiu-se a outra canção do espetáculo que tinha problemas para cantar e, por isso mesmo, o novo garoto, Blaine, a assumiria.
"Alegria Alegria é sobre alguém lendo uma revista chamada O Sol. É simplesmente a descrição da revista embalada em alguns sonhos juvenis."
"O Sol?"
"É uma revista que existiu e foi considerada inovadora na época, mas foi fechada por ser considerada igualmente subversiva."
"Sério?"
"Quem lê tanta notícia?" – Rachel cantarolou.
Ironicamente, em dez minutos seria ela que estaria ávida por notícias. Não queria fazer isso na frente do namorado para não alimentar discussões, mas na primeira oportunidade ela correu para um dos computadores do espaço de convivência da faculdade para acessar alguns sites locais. No mais influente, havia uma manchete grande na página inicial: "Justiceiro mascarado é um assassino?". Rachel rolou os olhos. Nada mais sensacionalista, e ela não precisava fazer uma aula sobre comunicação para entender os processos da má imprensa.
"O ajudante de jardinagem Gale Black, de apenas 15 anos, foi morto na noite desta quarta-feira por volta das 22h. O jovem foi visto roubando uma lata de cerveja na loja de conveniência da avenida Brooks e, segundo testemunhas, foi abordado pelo vigilante mascarado local. Black recebeu golpes de bastão na cabeça e no tronco. Segundo divulgação de nota da perícia divulgados pela manhã, ele tinha um braço, costelas quebradas e traumatismo craniano, além de hemorragia interna. "Os ferimentos eram severos demais para ele resistir sem ajuda médica por muito tempo", disse Orlando Collins, o legista que acompanhou o caso. Os pais de Black foram até ao instituto médico legal para identificar o corpo ainda na madrugada e saíram muito abalados. A mãe, Silvia Black, foi internada no hospital e está sedada.
O chefe de polícia, Carl Burkle, que acompanha o caso e as ações do justiceiro mascarado, lamentou a morte de Gale Black. "Isso é o que acontece quando alguém destreinado e, certamente, com sérios problemas, decide vestir uma máscara e fazer justiça com as próprias mãos", reiterou. "Nós vamos fazer tudo ao nosso alcance para investigar e descobrir quem está por trás da máscara e fazê-lo pagar por seus atos, que agora envolve também um homicídio." Burkle ressaltou também da necessidade da população trabalhar junto com a polícia. "Caso veja movimentações desse dito justiceiro, denuncie."
O prefeito não quis se pronunciar pessoalmente sobre o caso, mas mandou nota, por meio da assessoria, que estão observando o caso de perto e vai fazer o possível para auxiliar o trabalho da polícia. John Rosenberg, candidato a comissário de polícia e principal crítico de Carl Burkle acusou a polícia de ser condescendente com o vigilante. "Agora que uma tragédia real aconteceu é que estão levando à sério. A polícia está lenta e diria até que preguiçosa. É preciso mudar isso com urgência." O promotor público Johnatan Scott fez coro com Rosenberg e disse, por meio de nota que a lentidão proporcionou o aparecimento de justiceiros que pensam fazer a lei da cidade e reiterou que a sociedade não pode ser refém de tal julgo.
Flores
Desde cedo houve muitas manifestações da população. Flores e velas foram colocados no local onde encontraram o corpo de Gale Black. "Ele pode ter cometido um erro bob" disse a dona de casa Janet Gaff, "Quem nunca cometeu erros bobos? Isso não quer dizer que o garoto era um bandido..."
Rachel parou de ler por aí. Prestou atenção em pequenos detalhes, como no uso de um bastão, fato que a deixou aliviada. Não pela crueldade do assassinato do garoto, mas porque ela sabia que Santana não usava tais instrumentos, nem mesmo o restante do grupo até onde podia ser entendido. Sabia, contudo, que não poderia colocar a mão no fogo por absolutamente ninguém. Pegou o celular e tentou ligar uma, duas, três vezes. Nada. Resignou-se. Ouviu comentários de alguns colegas sobre o ocorrido e ficou chateada por não encontrar vozes de defesa.
Era um consenso que parecia ter tomado conta da cidade, embora não saiba o que pensa o restante das pessoas, e se existia alguém capaz de defender a ação do tal vigilante, este estava em silêncio. Rachel estava em silêncio, com medo de se expressar diferente da maioria e ser acusada também. Que sensação incômoda, tanto que a fazia ficar aérea e receosa ao longo da classe favorita.
Os vigilantes em si também se encontravam em situação incômoda. Artie estava numa saleta da base dos vigilantes conectada ao salão invadido por adolescentes e crianças separados em pequenos grupos: cada um com um instrutor. Tinha despertado de uma rápida soneca e fez um alongamento. Fosse por sua vontade, levantaria daquela cadeira e se esticaria flutuando. Talvez relaxasse num longo voo. Era inacreditável sentir nada além do vento circundando o corpo e pensar por um segundo que suas pernas não estavam mortas.
"Deveria lavar o rosto" – Grant colocou um copo de água na frente do amigo.
"Não consigo pensar mais" – Artie resmungou.
"Meia hora e eu te levou para a sua casa."
"Deveria trabalhar hoje uma vez que minhas classes já eram."
"Se não dormir propriamente, sem-chances. Digo o mesmo para mim."
"Alguma sorte depois que eu desmaiei de sono?"
"Nada além de suposições. Meu poder calcula movimentos, não as palavras" – lamentou – "De qualquer forma, pelo que pode conversar com minhas fontes, os planos de Carl Burkle em nos atrapalhar em prol de uma boa imagem da polícia não envolviam um assassinato."
"O chefe..."
"Já está ciente" – passou a mão no rosto – "Vamos embora? Tenho certeza que vamos trabalhar melhor se estivermos num lugar confortável e sem a gritaria ao lado."
A boa coisa da planta daquele edifício era que não precisavam necessariamente passar por aquele salão para ganhar acesso à garagem. Pegaram a porta dos fundos e Grant auxiliou Artie com a cadeira e os dois deram o fora dali. Neste meio tempo, Mercedes estava bem acordada e disposta a conseguir o máximo de informação possível com as fontes agora que o dia amanheceu e a tarde era próxima. Entre ligações e uma caderneta cheia de anotações, não conseguiu achar uma pista que pudesse identificar. Pelo menos nada do que foi dito pelas fontes diferiam do que foi publicado pela imprensa ao longo do dia. Ela mesma precisava passar na delegacia para fazer algumas apurações e escrever o próprio texto para o jornal da universidade. Olhou para a agenda de contatos e viu o telefone de Rick Bangs, que era um policial que atuava nos narcóticos. Decidiu arriscar, afinal, ele estava dentro daquele ambiente.
"Bangs falando" – ouviu a voz grossa do outro lado do telefone.
"Alô Bangs, aqui é Mercedes Jones do Elm Square News."
"Olá garota, o que manda?"
"Estou apurando o caso do vigilante de hoje de manhã e queria saber se você tem alguma novidade a respeito?" – fechou os olhos e torceu.
"Quisera eu ter, garota. Estou fora das investigações. O chefe elegeu o caso como prioridade, não por causa do crime em si, mas ao que parece o prefeito deu um ultimato. De qualquer forma, a polícia não pode fechar só nisso e eu estou fora desse grupo."
"O vigilante incomoda o prefeito tanto assim?"
"Não incomodava até a interferência do vigilante no caso do confronto das gangues."
"Em que isso possivelmente ter influenciado se tudo acabou bem?"
"Posso te falar algo em off? Eu sempre confiei em você, Jones."
"Claro que sim. Eu nunca traí a sua confiança e não será agora que vou fazer."
"O garoto que foi assassinado era um colaborador de Angelina."
"Você acredita que isso pode ter alguma conexão?"
"Não sei te dizer, Jones. Angelina lida com esse tipo de garoto, certo? Pode ser apenas um que decidiu fazer uma travessura e pagou um preço exagerado. Sinceramente, eu não sei."
Mercedes agradeceu a notícia do agente e buscou na caderneta de contatos o telefone de Angelina, a líder comunitária que tocava uma série de atividades que visava afastar jovens da periferia de uma vida marginal. Ligou e não teve resposta. Na mesma hora ligou para o chefe. Não sabia se tinha uma pista, mas podia ser um caminho.
O grupo de investigação dos vigilantes tentava fazer progressos, mas Matt estava fora de ação pelo menos naquele dia. Ele terminou o trabalho na construção e pegou o carro de volta para casa. Estava esgotado. Pensou em desligar o telefone e também o mundo. Pegou uma garrafa de rum que tinha no armário da cozinha e serviu uma dose. Tirou os sapatos, serviu-se de uma segunda dose e se jogou no sofá da pequenina sala. Pensou em Quinn. Era o tipo da situação em que ele gostaria de um abraço e de um corpo quente, mas não a procuraria daquele jeito. Não num início de relacionamento. O celular tocou. Era a própria.
"É reconfortante ouvir a sua voz" – não podia evitar o largo sorriso.
"Liguei para saber se está bem. Você me pareceu muito abatido hoje pela manhã."
"Agora estou."
"Problemas no trabalho?"
"Não é isso. A semana tornou-se puxada."
"Tem certeza? Não quer que eu desça ao seu apartamento?"
"É tentador, mas não agora. Estava indo para o banho. Ainda tenho pó no meu cabelo."
"Ok. Vou ajudar Beth num trabalho de escola. Se precisar, estarei em casa."
Depois de desligar o telefone, bebericou um pouco mais da dose de rum. Olhou para o cinto da calça e o abriu. Em seguida, desceu o zíper. Precisava relaxar. Pensou na namorada e se tocou como fizera inúmeras outras vezes. Imaginou em como ia ser lindo no dia em que ele e Quinn fizessem amor pela primeira vez. Quanto mais a imaginação progredia, mais rápidos os movimentos da mão ficavam. Ejaculou e suspirou quando viu o líquido branco pelo corpo e roupas. Só então foi tomar um banho e dormir mais cedo. Infelizmente o alívio não foi cura para a frustração do dia.
Santana também estava frustrada por não ter a confiança do chefe nas investigações. Ela poderia falar com algumas pessoas também, procurar pistas. Fazia curso de arquitetura e entendia de sombras, de ângulos. Era assim que podia locomover-se tão rapidamente à noite sem chamar atenção. Não poderia usara mesma habilidade para investigar? Não era como o chefe pensava. Irritou-se ao pensar no professor que lhe ensinou a controlar a força e os ímpetos. A relação dela era um misto de lealdade e desejo de agir com independência. Como telepata, era provável que o chefe soubesse disso e daí a razão para não confiar nela nas investigações. Tomou um banho, tentou estudar. Não conseguiu. Ninguém lhe dava notícias. Matt não atendia ao telefone. Nem Grant. Nem Artie.
Ligar para Brittany? Era tentador, mas a colega não saberia dizer novidades sobre as investigações. Era uma das coisas que ela amava e odiava em Brittany. O jeito avoado e a inabilidade de pensar coerente a respeito de uma discussão. Ela seria capaz de descrever tudo que o faziam, como uma câmera de filmagem, mas dificilmente dava uma nota sobre o que realmente interessava. Por outro lado, Brittany tinha boa leitura das pessoas. Santana a achava sexy, linda, apreciava o corpo escultural e admirava a habilidade que ela tinha para dançar, mas nunca teve uma chance. Em parte porque a colega não tinha atração e nem mesmo curiosidade em ficar com outra garota. Em parte porque Brittany não esqueceu a abordagem grosseira e cretina que Santana fez pouco depois de se conhecerem quando passou a ser treinada pelo chefe.
Lembrou do que Brittany disse no último fora que levou: "Você se esforça demais para ser uma bitch, uma womanizer. Não entendo, San. Você é uma pessoa boa e incrível. Por mais que negue, se importa com as pessoas mais que imagina. Mas não entendo porque precisa se esforçar tanto para ser vista como uma bitch. Não é preciso ofender ninguém para ser uma badass. Quem sabe no dia em que cair na real..."
Resmungou. Era verdade e por isso mesmo irritante. Odiava não conseguir esquercer desse tipo de sermão. Mercedes demorava e ela ficava ainda mais inquieta. Vestiu uma roupa e saiu. Andar pelas ruas sem a atenção de vigilante era diferente. Tinha a impressão que estava sendo descuidada. Frustrada, passou numa lanchonete e tomou um suco e comeu um sanduíche. Só se deu conta de que estava próxima ao restaurante em que Rachel trabalhava. Quando viu a garota em questão chegar em passo apressado, teve vontade de ir até ela, mas relutava. Se ela não podia agir como vigilante, poderia ao menos trabalhar na proteção de alguém. Com um objetivo estabelecido, voltou a concentrar-se nas próprias coisas.
À noite, no fim do expediente do estabelecimento, Santana voltou ao restaurante a ponto de ver Rachel caminhar de volta para casa. Sorriu a perceber que a amiga evitou o atalho do parque.
"Oi" – Rachel foi surpreendida por uma voz quase tristonha ao lado dela. Não sabia se sorria, se a abraçava ou se agradecia aos céus pela companhia.
"Eu vi o noticiário" – Rachel disse a Santana. Reparou na jaqueta, mesmo que aberta, na calça jeans, o tênis, a mochila. Estava frio, mas aquelas eram roupas de vigilante. Preocupou-se – "O que houve com aquele garoto?"
"Uma armadilha" – Santana enfiou a mão nos bolsos da jaqueta – "Tivemos nada com aquilo."
"Você... estava vigiando?"
"Ontem eu fui do teatro para a universidade. Juro!" – Santana disse com urgência – "Mesmo assim, meus companheiros tiveram nada com isso. Acredito que foi um crime qualquer em que a polícia aproveitou a oportunidade para armar contra nós."
"Foi o que imaginei" – Rachel passou o braço nos ombros da colega. O gesto surpreendeu Santana que se sentiu estranha e até um pouco desconfortável, mas não fez nada para que Rachel se afastasse – "Vi muitas pessoas que não acreditam em vocês. Mas eu nunca duvidei."
"Obrigada" – Santana abriu um pequeno sorriso que logo padeceu. Rachel retirou o braço dos ombros da amiga, e as duas caminharam mais alguns metros em silêncio.
"Você vai policiar as ruas depois de me deixar em casa?"
"O termo certo é patrulhar. Não somos policiais. E não. Eu não vou patrulhar hoje."
"Mas e este uniforme?"
"Está frio."
"Não tem outras roupas de frio."
Santana suspirou. Ao menos Rachel não era o chefe.
"É só uma garantia. Caso veja alguma coisa pelo caminho."
"Não deveria se arriscar tanto. Não quando o departamento policial está louco para pegar alguém em uma máscara."
"Não vou patrulhar. Garanto."
"Só tenha cuidado. Odiaria vê-la em encrenca."
Silêncio.
"Obrigada pela parte que me toca" – Santana abriu um pequeno sorriso.
Silêncio.
"Nós vamos pensar numa forma" – Rachel disse séria.
"Nós?"
"Eu quero te ajudar."
"Isso é muito doce de sua parte, mas não creio que..."
"Por que não?" – se antecipou – "Por que eu não sou forte como você ou por que não tenho outro tipo de super-poder?"
"Você fala demais."
"Não é isso..." – Rachel fechou a expressão – "Eu posso falar demais, brigar demais, desejar demais coisas que não posso ter no momento, mas se tem algo que sei fazer, Santana Lopez, é manter um segredo. Especialmente aqueles de quem realmente importo."
Santana caminhou mais lentamente tentando resolver o conflito interno. Ela confiava sim em Rachel a ponto de conversar com ela a respeito de sua dupla identidade. Isso era fato e era algo que a fazia se sentir bem. Mas daí a envolvê-la efetivamente era outra história. E desejava mais que tudo manter a colega a salvo. A razão de tal sentimento, ainda não entendia e tinha medo de investigá-lo.
"Não quero envolvê-la" – Santana disse baixinho.
"Tarde demais" – Rachel disse com dureza – "Eu já estou envolvida. Contigo, pelo menos."
"Realmente essa história de te acompanhar não foi uma boa idéia" – Santana tentou desviar o caminho e sumir, mas sentiu a mão de Rachel a segurando pelo braço.
"Para alguém que encara bandidos armados, você é covarde demais."
"Cala a boca!"
Rachel não saberia dizer o que levou a tomar aquele impulso. Mas quando percebeu, os lábios dela tocavam os de Santana. A vigilante por sua vez não sabia por que em vez de se afastar, levou a mão ao rosto da colega e correspondeu. O coração de ambas estava acelerado, havia uma sensação estranha no estômago. O beijo não durou muito, mas foi doce. Foi Santana quem quebrou o contato, mas não de forma abrupta. Ela olhou para o rosto de Rachel, ainda de olhos fechados, e resistiu a tentação de repetir embora quisesse. O que sentia era quase alienígena, em especial para alguém que sempre viu as outras meninas como alvos a serem conquistados. Até mesmo Brittany. Com Rachel não era assim, ela nunca a desejou, nunca a viu como um alvo de conquista. E tudo que estava acontecendo entre elas, Santana atribuía à obra do acaso, provavelmente fazendo uma bela piada com a cara dela.
Não era a única confusa. Rachel amava Finn e nunca duvidou desse sentimento. Nunca o questionou. Ela sabia de todo coração quem era a pessoa dela, a alma gêmea, o número um. Então por que dessa atração que passou a sentir por Santana Lopez? Seria a tal síndrome que dizem existir sobre pessoas que se apaixonam pelos seus salvadores? Ou do paciente pela enfermeira e vice-versa? Ela não sabia explicar. À parte do desejo genuíno que tinha em ajudar Santana no trabalho de proteção à cidade, havia essa outra em que ela se sentia diferente e seduzida.
"Acho que a gente deveria encerrar essa caminhada por aqui" – Santana ficou desconfortável – "Seu prédio é no quarteirão seguinte, certo?"
"Claro!" – Rachel resolveu entrar no jogo de Santana – "Então... te vejo amanhã no teatro?"
Santana acenou e virou as costas. Não queria que a colega percebesse no quanto estava em conflito.
