Capítulo 10
Convencendo
-Você já sabe o que fazer, não é Mask?
-Sei. Estou na Universidade. Já vi em que sala ele está dando aula e estou à espera dele. E você? Tudo certo por aí?
-Perfeito. Também estou esperando ele terminar a aula. Depois que eu falar com ele, te ligo. Com certeza vou demorar mais do que você.
-Beleza, Kanon. A turma já está saindo. Vou desligar.
-Boa sorte, Mask.
-Boa sorte, Kanon.
Máscara da Morte desligou o celular e aguardava a turma do curso de Filosofia sair aos poucos da sala de aula. Andar pela Universidade de Atenas era bom e ao mesmo nostálgico para o italiano. Observar os jovens saindo sorrindo da sala o faziam lembrar de seus tempos de colégio. Quando a última aluna saiu, a luz da sala se apagou. Viu o professor desajeitado fechar a porta e já pôde imaginar a cena seguinte.
Os três livros que carregava caíram no chão. Máscara da Morte soltou sua gargalhada inconfundível.
-Você não muda mesmo, Aioros!
Aioros olhou para Máscara da Morte sorrindo. Não esperava encontrá-lo ali. Estendeu a mão para cumprimentá-lo. O italiano ainda ria dos livros caídos no chão.
-Que bom te rever! O que está fazendo aqui? Achei que estivesse na Itália...
-Pois é, eu vim fazer uma reportagem sobre Universidades européias e resolvi dar uma passada aqui... Na sorte, te encontrei. Como você está, Aioros?
-Estou até que bem, Máscara da Morte. Sempre com pensamento positivo. Atraímos para nós o que pensamos. Acredito muito nisso.
Apesar de Máscara da Morte não ser de longe uma pessoa sensível, percebeu que no comentário de Aioros havia um pouco de angústia misturada com esperança.
-Você vai ficar aqui por quanto tempo?
-Não muito. Preciso pegar o trem no meio da tarde. Mas dá tempo para um almoço. Você topa, Aioros? Tenho coisas pra te dizer que talvez te interessem.
-Mas é claro! Vamos comer aqui mesmo, no refeitório da faculdade. Tenho mais algumas aulas para dar hoje.
Máscara da Morte mentalizava tudo o que tinha para dizer enquanto Aioros contava animado sobre seu emprego. Falava que ser professor o agradava muito e que o que mais gostava era o fato de passar lições de vida aos seus alunos. Juntava conhecimento com experiências vividas. O jornalista se sentiu um aluno novamente ao se encaminhar para fila onde todos se serviam do desjejum. O refeitório estava cheio e percebia como Aioros era conhecido e querido pela maioria das pessoas que estavam no recinto. Todos o cumprimentavam, acenavam e sorriam para ele.
Acharam uma mesa vaga e se sentaram. Começaram a almoçar juntos.
-Então... Só eu que falo, Máscara da Morte... Você disse que tinha coisas a me dizer...
-Sim. Mas antes, posso te fazer algumas perguntas?
-Claro... É para alguma entrevista?
-Não! – Riu o italiano – Não estou trabalhando agora. São perguntas pessoais.
Aioros parou de comer e ficou imaginando que tipo de perguntas seriam aquelas.
-Vá em frente.
-Como você se sente depois de anos após a sua prisão com o Shura?
O grego sabia que Máscara da Morte não era e nunca seria um bom psicólogo, mas não deixou de ser sincero.
-Mal. Tento não pensar nisso, até porque já tentei entrar em contato com Afrodite e em todas as vezes ele bateu o telefone na minha cara. E eu já estou pensando em desistir de tentar conversar com meu irmão. Ele mal fala comigo.
-Entendo... E se de repente surgisse uma oportunidade de você se desculpar com o Afrodite e seu irmão?
-Eu agarraria essa oportunidade com todas as minhas forças! – Exclamou Aioros.
Máscara da Morte sorriu. Se Aioros havia dito aquilo daquela forma, toparia participar do plano sem pestanejar.
-Você sabia que Afrodite vai se casar em breve?
-Não... Puxa, que legal... Fico feliz com essa notícia... – Sorriu o grego –Ele é uma pessoa de sorte.
-Você gostaria de ir ao casamento dele, Aioros?
-Claro que gostaria, Máscara da Morte! É muito gratificante ver um colega de turma se realizando. Ainda mais na vida pessoal.
-Então, você vai.
-Como... Como assim, eu vou? Jamais Afrodite me convidaria para o casamento dele, Máscara da Morte! Como eu já te disse, ele não atende nem meus telefonemas!
-Eu tenho a solução dos seus problemas, Aioros. – O italiano abriu a maleta que carregava e tirou o convite de dentro dela.
O grego parou de comer e franziu a testa para o colega. Pegou o envelope branco e o analisou antes de abrir.
-É um convite! Então quer dizer... Que ele me perdoou? – Os olhos do grego começaram a brilhar.
Máscara da Morte sorriu da ingenuidade de Aioros. Não queria destruir as ilusões que seu próprio amigo estava criando para si mesmo, mas não teve jeito. Tomou o convite de suas mãos e apontou para o nome nele escrito.
-Não, Aioros. Este convite é de uma outra pessoa, percebe?
-Puxa vida! É da...
-Sim. – Interrompeu o jornalista – É dela.
-Então não tem como! – Aioros franziu novamente a testa – Por que você está com esse convite na mão?
-Bom, é uma longa história e não tenho tempo de contar agora. O que importa é que com esse convite você poderá encontrar Afrodite e o Aioria juntos. Poderá se desculpar pessoalmente com eles. Pense... Se você já estiver dentro da festa de casamento, Afrodite não vai poder negar falar contigo. E ele fez questão de convidar o seu irmão.
-Mas as vezes que eu tentei falar com o Aioria, foram todas pessoalmente.
Máscara da Morte fechou os olhos e pensou depressa.
-Você não acha que se o Aioria o ver pedindo perdão pro Afrodite, na frente de todo mundo, não vai pensar que você se redimiu mesmo e daí, voltará a te considerar como um irmão?
Aioros arregalou os olhos, pensando na possibilidade de matar dois coelhos com uma cajadada só. Parecia uma oferta muito boa. Talvez não devesse recusar.
-É... Parece ser uma idéia interessante. Mas esse convite... É de uma mulher... E eu sou homem...
-Você se veste de mulher, oras! Porque se Afrodite te ver antes da festa, suas oportunidades vão pro brejo. E aí, você topa?
O grego colocou a mão sobre o queixo e pensou por alguns minutos.
"Tudo tem seu preço. E eu estou disposto a pagar esse preço para ter a amizade de Afrodite e de meu irmão de volta."
-Tudo bem, Máscara da Morte. Eu topo. Você já tem algum plano?
-Claro! Logo vamos dar início à parte prática dele. Assim que tivermos tudo em mãos, vamos te procurar. Você não vai se arrepender, Aioros.
-Tem mais alguém junto com você nessa história?
-Kanon, é claro. – Máscara da Morte olhou para o relógio – Tenho que ir agora. Logo nos veremos novamente.
O italiano entregou o convite para Aioros e acrescentou.
-Cuide bem dele. Não perca!
-Pode deixar! Muito obrigado pela oportunidade, Máscara da Morte.
-Não há de quê! – Disse o jornalista já de costas, rindo muito da situação.
"Bem mais fácil do que eu imaginava!"
-X-
Enquanto isso, em Florença, Shina cuidava dos preparativos com a mãe. O casamento estava aproximando mais as duas e Shina sentia que podia contar mais com ela. Desde pequena, sua relação com Juliana era tensa. Pensavam diferente e a italiana sempre buscava o apoio que precisava com o pai. Mas ir às compras com a mãe estava lhe fazendo bem.
-Shina, você já pensou em contratar uma cerimonialista para te ajudar com o evento?
-Estou pensando nisso sim, mãe. Inclusive a Anisah, que vai tocar em nosso casamento me indicou uma tal de Eiri. Como ela está acostumada em tocar em casamentos, disse que essa moça faz maravilhas.
-E onde podemos encontrar a tal da Eiri? Anisah não pode ir conosco?
-Não... Ela mora em Berlim. Eiri mora em Gênova. Podíamos ir amanhã conversar com ela! A senhora me acompanha?
-Claro. Você não sabe como fico realizada em poder te ajudar, minha filha. Estou me sentindo tão próxima de você... Tão próxima que no momento estou me arrependendo de te deixar ir morar definitivamente longe de mim.
-Corta essa, mãe! A senhora sabe que, por mais independente que eu seja, devo tudo aos senhores... Vamos aproveitar o momento juntas!
-X-
-Sentem-se aqui em volta! – Pediu Shura aos seus pequenos alunos.
As crianças sentaram em forma de meio círculo e aguardavam ansiosas as palavras de seu professor.
-Estamos indo muito bem... Semana que vem vou propor um pequeno campeonato entre nós e dele vou escolher três de vocês para nos representar no campeonato municipal. Agora, antes de ir, qual o nosso lema?
-NUNCA ABAIXAR A GUARDA! – Disseram todas em coro.
-Isso mesmo! – Sorriu o espanhol – Agora podem ir!
Enquanto as crianças deixavam a sala, Kanon caminhava em direção oposta, batendo palmas. Shura se virou para ver quem estava se manifestando daquela maneira.
-Nunca pensei que você se daria tão bem com crianças, Shura!
-Pois é, Kanon!- O professor de esgrima tinha certeza de que se tratava dele, pelo modo que se vestia – Eu adoro crianças.
-Estou vendo... Como você está?
-Bem! E você? – Shura jogou uma espada para Kanon – Ainda se lembra de como lutar?
Kanon agarrou a espada no ar e sorriu para o colega. Sabia que não teria chance contra ele.
-Vai com calma, beleza?
Shura começou a investir contra Kanon. O químico mais desviava e defendia do que atacava. Fugiu de dois ou três golpes, mas no quarto, o espanhol conseguiu atingir a espada na altura do seu coração. O grego suava. O espanhol não sentia nem calor.
-Estou vendo que nunca mais treinou. – Shura recolocou a espada no seu case – O que está fazendo aqui?
-Vim para conversar com você. – Kanon achou melhor ser direto. Conhecia Shura e sabia que ele era difícil de se lidar.
-Hum... Sobre?
-Bem, antes de falar sobre, preciso te fazer algumas perguntas. Você se importa em respondê-las?
-Depende, Kanon. Mas pra você ter vindo até Bilbao, deve ser importante.
-Eu considero. Bem, serei direto. Como você se sente após tudo o que aconteceu no colégio, Shura?
-Tantas coisas aconteceram. Mas hoje eu me sinto bem. Foi difícil arranjar emprego, ser ex-presidiário não é fácil, você deve saber.
-Talvez, mas não estou perguntando nesse sentido. Eu soube que você só veio pra cá porque não agüentava mais... Ser ignorado.
-Na verdade não é porque eu estava sendo ignorado... Ah Kanon, você sabe muito bem o que aconteceu.
-Você foi embora porque a Shina te ignorava.
Shura olhou seriamente para Kanon. O grego sabia que estava certo. Quando seu colega o olhava revoltado, era porque estava certo. Porém, o professor de esgrima não ia deixar barato.
-Mas hoje não ignora mais. E como estava dizendo, é o hoje que me importa.
Por aquela Kanon não esperava. Quase ficou de queixo caído com a revelação.
-Então você sabe que ela está para se casar?
-Eles se resolveram então? Ela me ligou contando sobre a confusão que você e o Máscara da Morte causaram... Por causa do primo esquisito do Afrodite!
Shura deu risada ao se lembrar de Shina detalhando a ele a briga e o primo do sueco. Kanon acompanhou o colega.
-Não sabia que vocês se falavam freqüentemente...
-Na verdade não é tão freqüente assim. Até porque, ela só me liga quando está longe dele. Você sabe o motivo... Eu não a procuro porque não quero causar mais transtornos.
Kanon franziu a testa. Tinha uma verdadeira bomba em mãos. Teria que ter muito jogo de cintura para convencer o espanhol a ir ao casamento, ainda mais escondido. Resolveu arriscar.
-Você gostaria de ir ao casamento dela, Shura?
-E como... Ela hoje é uma grande amiga. Por quê?
-Bom... Porque talvez eu tenha arranjado um modo de você ir.
-Você? Você foi convidado depois de tudo?
-Sim, até porque, foi o Aioria quem começou a bagunça. O próprio Afrodite me ligou para se desculpar e me convidar.
-Sei... E como eu iria? Sei que ele não me convidaria nem na milésima reencarnação dele.
Kanon precisava pensar rápido. Se contasse que tinha um convite roubado e Shura não aceitasse, ele corria o risco de ser descoberto antes mesmo de colocar o plano em prática. O contato do espanhol com a noiva poderia por tudo a perder.
-Além de querer ver a Shina, você teria algum outro motivo para ir nesse casamento?
Shura parou para pensar um momento. Talvez tivesse um outro motivo além do óbvio.
-Acho que sim. Por que, Kanon? Essa conversa já está me cansando. Não é melhor você dizer onde quer chegar logo?
-Está bem! – Não podia perder mais tempo, precisava arriscar. Tirou de sua mochila o envelope branco e entregou ao colega.
Shura o pegou espantado. Abriu e viu do que se tratava.
-É um convite do casamento deles! Mas... – O professor de esgrima logo viu o nome do verdadeiro convidado – Esse convite pertence ao...
-Exatamente! – Interrompeu Kanon – Foi a única maneira que eu achei de te colocar lá dentro.
-Pois bem, se eu aceitasse e entrasse com esse convite, seria expulso na hora. Afrodite ia reconhecer meu rosto em segundos!
-Por isso eu pensei em te levar disfarçado.
-Detesto fazer as coisas escondidas. Da ultima vez que fiz algo escondido, parei atrás das grades.
O grego não podia se descontrolar naquele momento, mas não conseguia mais pensar no que dizer. Se Shura quisesse ir, teria de ser de vontade própria. Talvez se tentasse uma última vez...
-Mas você só vai entrar escondido e esperar o casamento acontecer. Quando estiver na festa, vai poder se revelar e dar os parabéns aos noivos.
-Assim parece mais aceitável. – Shura passou a mão sobre as flores em alto-relevo no envelope e encarou firmemente os olhos de Kanon – Tudo bem, eu vou, Kanon. Mas, com uma condição.
Um sorriso brotou na face do químico. Ficou feliz em saber que havia conseguido atingir o seu objetivo.
-Qual condição?
-Que você me garanta que nada vai sair errado. Eu não quero perder novamente a confiança da Shina. Entendeu?
-Eu garanto, Shura, que se cada um fizer a sua parte, nada sairá errado. Mas agora, quem precisa de uma prova de garantia sou eu.
Shura não gostou do comentário, mas Kanon também estava em seu direito de querer uma prova de confiança.
-Você precisa dar sua palavra que não vai dar pra trás em momento algum.
O espanhol cruzou os braços e fez o olhar sério que assustava tanta gente. Kanon também olhava para ele, seriamente. Shura estendeu a mão.
-Está bem, vou confiar em você.
-Combinado. Quando Mask e eu formos para a parte prática do plano, o procuramos.
-Certo...
-Parabéns mais uma vez pelas crianças, Shura. Até breve! – Kanon disse, saindo da sala de aula. Desta vez, estava com o sorriso no rosto.
"Sabia que ia conseguir".
-X-
-Conseguiu, Mask? – Kanon parecia ansioso ao ligar para o melhor amigo.
-Sim! Ele aceitou! Disse que faria tudo para se aproximar novamente da biba e do irmão!
-Hahahahaha! Se eu fosse mais sentimental, estaria chorando com as palavras do Aioros!
-Pensei nisso lá na hora, Kanon. E você, conseguiu?
-Uhum... Podemos ir para a parte dois do plano.
-Fechado!
-Mask... Nós ainda vamos nos divertir muito!
-Disso eu tenho certeza, Kanon. Até mais!
-Até...
