- Oh! É magnífico! - exclamou ela enquanto girava lentamente de braços e olhos abertos. - Este cheiro do mar…que saudades.
- Sabia que haverias de gostar.
-Muito! Obrigado. – respondeu, olhando-me profundamente e mostrando-me o quão sincera estava a ser.
Era um cenário de facto encantador, à nossa frente estendia-se o mar e a areia negra, que naquela altura do dia reflectia, tal como a água, tons prateados. Conduzi-a até à entrada do pequeno café que tinha toda a faixada em vidro e madeira, permitindo assim uma plena comunhão com a praia.
Fui recebido com saudações e saudades, de tal forma que me senti quase incomodado por saber que ela achava aquilo tudo exagerado e desmedido. No fim, indicaram-nos uma mesa com vista para o mar.
As poltronas que estavam ao pé da mesa faziam com que nos sentíssemos em casa, o que para mim era complementado com o facto dela estar ali, ao meu lado, só para mim. Quase incosncientemente proferi:
- Mais uma vez sozinhos.
- Estava mais alguém dentro do carro que eu não tenha dado conta?- claramente que ela ou estava a gozar comigo ou não tinha compreendido.
- A única vez que estivemos sozinhos foi naquela noite em que te encontrei.
- Se pensares bem só passaram dois dias desde que te encontrei. Sim, porque alguém não teve a decência de me informar que estava cá. – fiquei sem palavras, sem saber o que lhe responder, ela tinha razão, não tinha sido correcto com ela, mas a situação era tão dificil e eu estava tão perdido sem saber o que fazer que na altura pareceu-me ser a melhor opção.
- Lamento. As coisas estavam um pouco complicadas. – justifiquei-me com a maior sinceridade que poderia aplicar na situação.
- Não precisas de lamentar, és livre. Não te posso impor a minha presença.- de facto não podia, mas era o que fazia de uma forma tão inconsciente e inocente que o único que podia ser culpabilizado era eu. Felizmente, fui salvvo de uma resposta, pelo empregado de mesa que se dirigiu a nós para saber o que queríamos.
- Oolong tea, por favor.
- Um cappuccino para mim.
Ela levantou-se tirou o casaco, posou-o noutro cadeirão ao pé da sua mala e caminhou até á janela.
- Está vista é completamente estonteante. E o café tem uma atmosfera tão relaxante.
- A decoração e a música são excelentes de facto. Fico assim perdoado?
Ela riu-se e virando-se para me olhar frente-a-frente, disse:
- Com mais duas ou três visitas a este maravilhoso sítio e sim ficas perdoado.- o castigo não podia ser melhor, quase tão bom como saber que ela gostava de estar comigo.
- Será um prazer.
- Tens a certeza? Afinal só agora é que vieste ao meu encontro.- dei graças aos céus por ela não ter a mania de falar com o nós, como alguns casais irritantes o fazem.
- Isso não tem nada haver com o facto de eu não gostar da tua companhia.
- Desculpa, estou a ser incoveniente. Até porque compreendo que quando se chega do outro lado do mundo a última coisa que temos vontade é de nos enfiarmos num restaurante com todos os velhos amigos, para nos encherem de perguntas.- foi evidente que ela quis apenas ser educada, claramente que na cabeça dela a razão pela qual eu não tinha procurado o Tsukasa ou a ela era porque eu devia estar muito incomodado com o casamento da Shizuka. – A minha mãe sempre disse: tristezas não pagam divídas, por isso vamos mudar de assunto.- fiquei-lhe grato, porque sabia que aquele assunto não teria fim ou resposta possível. Acenei-lhe com a cabeça, mostrando que concordava com ela.
- Os nossos pedidos.- informou ela quando viu o empregado aproximar-se da mesa. Sentou-se novamente no cadeirão, ao meu lado, enquanto murmurávamos um agradecimento, para ficarmos novamente sozinhos.
Ela agarrou no copo com o chá e levou-o aos lábios.
- Como tem sido a sensação de estar de volta a casa?
-Inesquecível, já não me lembrava que podia passar por tantas peripécias.
- Peripécias?- pois ela não conhecia nenhumas, faltavam-lhe muitos dias desde que eu tinha realmente chegado ao Japão. - A não ser que te estejas a referir a situações que ocorreram durante a tua estadia anónima.
- Exactamente peripécias que remotam ao meu tempo de anonimato.
- Pela falta de pormenores suponho que não estejas muito interessado em relatá-los.
- Não é bem interesse, é mais a incoveniência.
- O que é que tu podes ter feito que possa ser incoveniente para mim?- com esta ela deixou-me a pensar.
- Não é incoveniente para ti e sim para mim.
- Hanazawa! - exclamou ela abrindo muito os olhos.- O que foi que fizeste assim de tão comprometedor? - o rosto dela brilhava de curiosidade e fez-me sorrir. - O que fizeste foi assim tão bom e embaraçante que te faz sorrir?
- Não. Estava a sorrir porque ao ver-te aqui à minha frente faz-me pensar que já não és aquela menina que conheci inocente, pura, que agora és uma mulher de verdade. No entanto, a tua essência, o teu brilho continua intacto agora mesmo a tua expressão de curiosidade mostrou isso. – ela ficou parada a olhar para mim, depois sorriu-me e disse:
- Afinal consegues reconhecer que mudámos.
- As tuas mudanças são demasiado evidentes para não serem notadas.
- Achas que mudei assim tanto?
- Não achas?
- Eu vivi sempre comigo, não fiquei dois anos sem me ver.
- Fisicamente estás quase irreconhecível, já te tinha dito. Não fosse o teu sorriso, os teus olhos e provavelmente não te iria reconhecer. O teu porte evoluí-o, a forma como te moves, os teus gestos são diferentes não são mais tímidos e infantis, são refinados e sedutores. – ela retraiu um pouco o corpo e eu continuei. - Pareces segura de ti mesma e confiante. – estava pronto para continuar não fosse ela roubar-me a palavra:
- Algum dia teria de me tornar numa mulher. Agora quando me descreves deixaste-me com um aperto no coração. Como se eu não conhecesse essa mulher e tivesse perdido a mulher que eu conhecia. – ela desviou os seus olhos para a praia. Deixando-me a contemplar-lhe o perfil. – Mesmo vivendo comigo, existem dias em que não reconheço o meu próprio reflexo.
- Passas-te por muito, a tua vida mudou muito é normal que mudasses com ela, tu mesma disses-te algum dia terias de tornar mulher.
- Sim disse numa mulher, mas não disse que tinha de ser exactamente esta mulher.- ela continuava a fixar a praia que agora estava mais escuro e começava a revelar os pequenos pontos de luz da cidade.
- Não vejo nenhum problema na mulher em que tornaste, muito pelo contrário não consigo imaginar como poderias ser melhor.- respondi-lhe abertamente continuando a olhar para ela.
Ela soltou um riso irónico e fixou-me:
- Em dois dias como podes saber que tipo de mulher me tornei?
- Sei mais do que julgas. Alem disso não eras tu que me consideravas bom observador?
- Não tens poder para tanto.
- Então ajuda-me.- pedi-lhe aproximando-me dela e colocando os meus olhos ao nível dos dela.- Deixa-me conhecer-te.- fiz-lhe o pedido que queria fazer desde que a tinha visto entrar no restaurante. Ela ficou estática durante uns momentos e depois com uma das mãos bateu-me levemente no ombro e a rir disse-me:
- Oh! Tu e as tuas armadilhas. Desta vez não me enganas. - disse-me, espetando o dedo para mim e abanando-o.
Achei que o melhor seria fingir que ela tinha razão, de facto aquele meu comentário deveria ter soado desesperado demais e pior indecente demais. Ri-me discretamente e refugiei-me na chávena de capuccino, para esconder a minha própria frustação. Ela não tinha ideia do que eu sentia por ela ou se desconfiasse não me dava margem para investidas o que significava que não queria nada comigo. Começava a encarar a ideia que entre mim e ele nunca passaríamos daquilo que tinhamos até ali: amizade. Não era o que eu desejava, mas sempre seria melhor do que não a ter de forma alguma. Assim era imperativo ter cuidado nos meus "movimentos" para acima de tudo não comprometer a relação que tinha com ela.
- Vamos ver o mar de mais perto?- surpreendeu-me ela, virando-se para mim com ar de quem não iria ouvir um não.
- Está muito frio. Tens a certeza que queres ir?
- Tens a certeza que vens comigo?
- Hahaha… OK, vamos.- não lhe podia resistir.
Deixei o dinheiro em cima da mesa e saímos os dois para a tarde onde o sol já não brilhava. Caminhámos no estrado de madeira até ele se existinguir, ela sentou-se na beirinha do mesmo e começou a tirar os sapatos, largou a mala e saiu a correr para o mar. Eu fiquei parado no mesmo sítio, a sorrir, como podia ela não gostar da mulher em que se tinha tornado? Era uma mulher no entanto tinha aquele espírito jovem e doce que ela sempre tivera… corria para arriscar molhar os pés, enquanto o vento lhe varria o rosto.
Estava imenso frio mas eu conseguia sentir o calor invadir-me o corpo, o mesmo tipo de calor que só sentia quando estava perto dela.
- Rui, não vais ficar aí pois não. Anda. - incentivou-me ela virando-se de costas e abrindo os braços, para depois expirar profundamente o ar. Descalcei-me como ela e fui ao seu encontro. Ali estava ainda mais frio, mas o cheiro do mar, a água a borrifar-nos a cara com a sua fúria e a visão da espuma branca a formar-se a poucos centímetros de onde estavamos era uma sensação suficientemente forte para aniquilar o frio.
- É hipnotizante, não é? - perguntou-me, encarando-me e deixando-me ver as suas faces rosadas pelo frio.
- Deves estar gelada. Deixa-me ver as tuas mãos.- e sem hesitar agarrei-lhe nas mãos, que estavam geladas.
- O que importa? Este cenário vale mais do que um par de mãos frias.- retirou as mãos dela, deixando as minhas vazias.
- Mas importa, se te constipares o Tsukasa mata-me.
- Quem sabe senão te agradece? - mais uma vez, ela deixava-me intrigado com as suas afirmações. Porque razão diria ela aquilo, na noite em que a encontrei e que ela claramente estava fragilizada pela ausência dele, ela nunca me tinha dado pistas da insatisfação dela. No entanto, hoje ela dava-me pistas confusas. O que será que tinha acontecido depois deles terem saído do F4 Lounge?
- Ele acabaria por me matar de qualquer maneira.- suspirei eu pensando na crescente inamizade que crescia entre nós os dois.
- Ele é um homicida patológico.- rimos os dois. Como reagiria ele se soubesse que eu estava com ela na praia a rir-me dele? O mais provável era que me matasse de verdade, o que no fundo não me atingia, os momentos que estava a ter com ela valiam mais que a minha vida.
- Importas-te que fique aqui mais um bocado?
- Não, está à vontade. Desde que te possa fazer companhia.
- Obrigado.- agradeceu-me sentando-se no chão e entralaçando os braços nos joelhos.- Já nem me lembro a última vez em que estive assim.- interpretei que ela estava a falar do lugar e não do estado de espírito, mas mesmo assim fiquei com dúvidas. Sentei-me ao pé dela, de forma a que o meu corpo tocasse no dela.
- Eu também não.
- Tem sido difícil viver sem ela? - perguntou-me ela de repente deixando-me estático perante a pergunta.
- Não, não tem sido difícil. O casamento dela foi apenas o fim formal da nossa relação.- respondi-lhe depois de uma pausa.
- Existe algo que doa mais do que perceber que o amor acabou? Perceber que aquela coisa que nos consumiu durante tanto tempo, que nos guiou durante tantos dias da nossa vida terminou? - falava com tanta intensidade na voz, como se soubesse perfeitamente do que estava a falar.
- Talvez exista.- respondi-lhe, pensando que o amor que sentia por ela era bem mais penoso do que ver o meu amor pela Shizuka destruído.
Ao contrário do que eu pensava ela não me questionou sobre o que poderia ser pior, ficámos os dois mergulhados em silêncio apenas rodeados pelo barulho do mar. Passavam-me tantas coisas pela cabeça, como no fundo não me passavam nada, tal era a minha paz de estar ali. Deixei cair o corpo e fiquei deitado na areia, vendo-lhe as costas e o cabelo a ser sacudido ora para a frente ora para trás. Tive uma tentação imensa de estender a mão e de lhe afagar o cabelo. Subitamente ela virou-se para mim e apanhou-me a fixá-la:
- Queres ir embora, não é?- eu movi a cabeça de forma negativa, ao que ela respondeu.- Deves estar gelado. Desculpa, se soubesses o que te esperava terias escolhido ir beber chá com as elas.
- Nem que estivessem a chover punhais, neste momento, eu iria preferir beber um chá com elas.
- Pois, pois.- proferiu, levantando-se e começando a sacudir a areia da roupa.- Vamos?- convidou, oferecendo-me uma mão para me ajudar a levantar.
- Tens a certeza, por mim podíamos passar a noite aqui.- desde que ficássemos os dois juntos estava disposto a qualquer coisa.
- Hahaha…já imaginaste passar a noite aqui? Amanhã iriam encontrar os nossos corpos congelados. – já tinha imaginado, até demais, como seria passar a noite com ela, no entanto nenhuma delas acabava com nenhum de nós congelado.
- Pronto, pronto já percebi que a minha companhia é execrável.- respondi estendendo-lhe a mão de volta e deixando-a puxar-me até ir de encontro a ela. Não resisti e abracei-a:
- Assim combateríamos o frio. - disse-lhe, enquanto sentia o cheiro da pele dela misturado com o cheiro de mar.
Ela afastou-se de mim e começando a caminhar respondeu-me:
- Sim, por alguns minutos era possível que combatêssemos o frio. Apanhou as coisas dela do chão e caminhou para o fim da passadeira deixando-me atrás dela.
- Vamos encher o teu carro de areia.
- Não é relevante.- respondi-lhe enquanto calçava os sapatos.
- É claro que é relevante, só não é relevante porque não vais ser tu a limpá-lo. Anda cá.- acabei-me de calçar e aproximei-me dela. Como se eu tivesse dez anos ela virou-me e começou a sacudir-me o casaco, fazendo-me rir às gargalhadas. Virou-me novamente e voltou a sacudir-me.
- Não te rias, vais fazer-me o mesmo.
- Sim, senhora.
Baixei-me um pouco e com a mão sacudi-lhe a areia que tinha no casaco e depois a que tinha nas calças. Ela virou-se e ficou de frente para mim eu continuei agachado aos pés dela e sacudi-lhe as calças e fui subindo até ficar frente a frente com ela com a distância não maior que quatro centimetros. Fixei-lhe os olhos, estava tão perto dela, sem grande consciência levantei a minha mão toquei-lhe suavemente na face ela rapidamente se afastou de mim e levou a mão ao sítio onde eu a tinha colocado, para remediar a situação disse-lhe:
- Pronto, imaculada. Sem um único grão de areia. – ela riu-se.
-Imaculada é difícil de imaginar.- pois, era mesmo dificil de a imaginar verdadeiramente imaculada, mas o mais dificil para mim era imaginar o Tsukasa a profaná-la.
Tentei sorrir-lhe e fui abrir-lhe a porta, ela entrou e ouvia-a suspirar, quando ocupei o meu lugar.
- Bancos aquecidos…era capaz de adormecer agora. - explicou-me.
- Estás à vontade.
- Só se quisesse morrer, eu a dormir ao pé de ti era o mesmo que tentar um leão com um pedaço de carne.- a língua era uma coisa fascinante, as frases e as palavras unidas traziam um conteúdo que podia ser interpretado de mil e uma maneiras. Neste caso, ela dizia-me que eu adorava dormir e que vê-la dormir só me iria fazer adormecer. No entanto, eu poderia interpretar que ao vê-la dormir ao meu lado não iria resistir-lhe e iria atacá-la, agarrando-a, beijando-a, etc…
- Já que não confias então vou levar-te a casa o mais depressa possível para poderes dormir.
- Diz antes para tu poderes dormir. Quanto mais depressa me despachares mais rapidamente poderás ir dormir.
- Contigo nunca tenho sono. – ops, informação a mais.- És demasiado imprevisível para me deixares adormecer.
- Obrigado.- agradeceu virando o pescoço na minha direcção e sorrindo.
Sem pressões, sem esforço as palavras saíam-me da boca, tanto que foi com pesar que a vi sair do carro e fechar a porta, quando parei em frente à porta de entrada da casa onde ela vivia.
- Queres entrar? - perguntou-me ela olhando pela janela do carro.- naquele momento a única coisa que ela me poderia dizer melhor do que aquilo era que me amava e como isso era praticamente impossível, ela não podia ter dito melhor.
- Não estaria a incomodar?
- Achas mesmo? Mas aviso-te que muito provavelmente o Tsukasa não está em casa.
- A tua companhia é me suficiente. – saí do carro, dei as chaves ao empregado que se tinha assomado de mim e agradeci-lhe. Subi os degraus que davam acesso à casa e pela primeira vez entrei na casa Domyouji.
A casa era encantadora e pefeita para ambos. Tinha uma complexão moderna de linhas simples, com grandes janelas de vidro, mas não era isso que sobressaía mais na casa, o seu traço particular era funcionar como se fossem duas casas, sendo no entanto uma só, em perfeita harmonia.
A porta foi-nos aberta por uma empregada que usava um uniforme bastante sofisticado: uma saia preta, com uma blusa branca com um lindo alfinete de peito e uma versão moderna de um obi.
- Bem vinda a casa menina. - claramente que tinha um alto nível de intimidade com a Tsukushi.
- Boa noite Syori.
- Boa noite senhor.- comprimentou-me com uma vénia à qual eu retribuí. A conversa que se seguiu entre elas eu não ouvi practicamente nada tal era a minha atenção nos pormenores que observava.
O hall de entrada encontrava-se bem iluminado e o chão branco reflectia ainda mais a luz. No meio do grande espaço estava uma mesa simples redonda em madeira preta com um impressionante chandelier de cristais Swarovskique vinha desde o tecto até ao tampo da mesa, por detrás dele uma parede ladeada por duas aberturas, cobertura por uma fina pintura de cerejeiras em flor em tons de prata e preto.
- Então é apenas um gripe. – ouvia perguntar à empregada.
- Sim, dentro de dias vai estar óptimo, só precisa de atenção e descanso.- respondeu-lhe a outra sorrindo.
- Ainda bem. Já sabe se precisar de alguma coisa não hesite.
- Muito obrigado menina.- respondeu a senhora fazendo uma vénia, que a Tsukushi retribuíu.
- Como deves ter ouvido o Tsukasa não está em casa. Como desconfiava estamos sozinhos. – explicou-me, entregando o casaco a uma empregada que se aproximou dela e sentia que alguém me pedia o meu também, despi-o e entreguei-o.
- Mi casa es su casa.- disse abrindo os braços e permitindo circular os olhos pela nova divisão em que nos encontrávamos.- Não preciso te dizer isso pois não?
- É melhor estipulares limites ou então posso abusar da tua boa vontade.
- Jamais… queres beber alguma coisa? Comer talvez?- olhou para o relógio e acrescentou.- que péssima anfitriã que eu sou. São horas de jantar é claro que queres comer. Vou pedir para servirem o jantar, queres alguma coisa especial?
- Não qualquer coisa está bem.
- Venho já.- avisou-me saindo daquela divisão e desaparecendo num corredor.
A divisão onde estávamos possuía uma parede lateral em vidro, o que permitia uma vista prodigiosa para a piscina ilimuninada e para o magnífico jardim que se estendia até eu não o alcançar mais com a vista. O chão ali era reluzente em mármore cinzento claro. Era uma sala bastante ampla, com uma grande lareira que carregava um descomunal espelho numa moldura trabalhada em prata. De frente para lareira estava duas poltronas, ladeadas por dois sofás no mesmo estilo, no meio delas estava um simples mesa de apoio com o tampo preto, com uma cabeça de um buda em pedra e outra mais pequena em prateado, bem como alguns livros empilhados num monte, e um vaso em vidro com duas flor de lótus, a boiar na água. No entanto, pièce de résistance da sala estava reflectida no espelho, quem entrava reparava nela por isso mesmo. Na parede oposta à lareira, um enorme rectângulo metalizado revelava o perfil da Tsukushi, com uma mão no cabelo e outra no pescoço do Tsukasa, que também de perfil, repousava as mãos na cintura dela ou pelo menos aparentava fazê-lo, visto que ambos só estavam retratados até metade do tronco. Era uma obra bastante íntima, a posição deles quase permitia que os seus narizes se tocassem, mas não era essa a razão de eu afirmar que era uma pintura intíma. Era o olhar que ambos trocavam, de desejo, de cumplicidade …a boca dela ligeiramente aberta e os lábios dele ostentavam um beijo prometido entre ambos, um beijo que certamente deram enquanto tiravam aquela fotografia. Senti-me petrificar em frente à descomunal imagem, que me despertava o desejo de que aquela fosse a minha imagem e por outro lado, me fazia pensar que ali era o santuário deles os dois e eu estava violá-lo, com o meu desejo de roubar a santa do altar.
- Gostas? - ouvia perguntar, perto de mim. Virei-me bruscamente para a voz quebrando contacto com a obra:
- Muitíssimo, é soberba. Nunca tinha visto nada igual.
- Foi ideia do Domyouji, colocarmo-nos como parte da mobília. Toda a gente fica espantada, seja por gostarem ou por odiarem.- riu-se e depois continuou. - Acho que o facto de parecer que a tinta foi arrancada para deixar a nossa imagem é o que lhe confere um toque especial.
- Não, o fascínio vem da imagem em si.- o meu corpo pesava milhares de quilos, naquele momento.
- Talvez… a mãe dele quando aqui entrou ficou abismada com a indecência que tinhamos estampado na nossa sala principal. Em como o nome Domyouji estava a ser vulgarizado etc etc. – afirmou desenhando círculos invisiveís no ar com a mão direita, eu sorri-lhe, com esforço, em resposta. O peso não me abandonava e sentia o coração apertado.
- Rui, estás a sentir-te bem?- perguntou-me aproximando-se de mim.
- Estou apenas um pouco zonzo, deve ser ainda efeito do jet-leg.
- Queres deitar-te um pouco? Talvez seja o melhor. A culpa é minha deves estar constipado.- aproximou-se ainda mais de mim e colocou-me a mão na testa.
- Não tens febre. Mas é melhor deitares-te por um bocadinho.
- Não é necessário, obrigado.
- Então pelo menos, toma um banho e muda de roupa. Por favor, vou ficar muito mais descansada.- pediu-me suplicando com os olhos que mostravam que estava realmente preocupada.
- Está bem, aceito.
- Obrigado.- agradeceu-me com uma pequena vénia.- Vem comigo.- conduziu-me de volta ao hall de entrada para depois subirmos a escadaria. Passámos por um outro hall que deveria dar acesso à grande suite, continuámos pelo chão brilhante até que parámos em frente de uma grande janela. Ela abriu a porta e convidou-me a entrar com ela.
- Está à vontade, no closet vais encontrar roupa nova. Não te preocupes não é a roupa do Tsukasa. – para ela deveria parecer-lhe inimaginável eu vestir a roupa usada de alguém. – Não será necessário mostrar-te nada, pois não?
-Não, tenho a certeza que não me hei-de perder.- respondi-lhe sorrindo.
- Então até já, também vou tomar banho. – despediu-se mais uma vez e saiu fechando a porta atrás dela.
O quarto tinha uma cama grande, com uma armação preta simples, dando a ideia de um grande cubo, por cima dela caía um tecido fino em tons de açafrão. Aproximei-me da cama e deixei-me cair sobre as almofas, cor de areia que enchiam a cama.
O peso que havia sentido na sala não me tinha abandonado, muito pelo contrário, parecia que me consumia cada vez mais as forças do corpo. Talvez ela tivesse razão, talvez fosse apenas uma constipação e nada mais do que isso. Como eu queria que isso fosse verdade e não tivesse nada haver com o facto de ter comprovado mais uma vez que ali não existia espaço para mim. O que iria eu fazer? Não podia simplesmente deixá-la ir porque não conseguia, não era por falta de esforço era incapacidade física e psicológica de superar o meu amor por ela. Se em dois anos de distância não a consegui esquecer é porque de facto não estava destinado a conseguir fazê-lo. Podem dizer-me que era a minha obsessão por nunca ter tido nada com ela que me fazia ser incapaz de deixar de amá-la, mas eu irei sempre preferir a ideia que estava destinado a ela.
Com um grande esforço, levantei-me da cama, dei a volta e puxei as portas de correr, que davam acesso à casa de banho. Instantaneamente, em frente à parede de pedra negra, a minha figura apareceu imprimida no espelho, estava pálido e com os olhos fundos, com ar de quem precisava realmente de um banho.
Dirigi-me ao peculiar chuveiro, que ficava no canto de duas partes em vidro e cuja cabine também era em vidro. Abri a água, que logo soltou uma cortina de fumo, despi-me e deixei a água molhar-me. Era uma sensação no mínino estranha estar nu perante tanto vidro, conferindo-nos a sensação de vulnerabilidade.
Quando terminei, vesti uns jeans, com uma camisola cinzenta, dei uma última vista de olhos ao quarto e abandonei-o percorrendo o caminho inverso para ir ter com ela.
Ainda não tinha penetrado totalmente na sala e já estava com os olhos colados ao reflexo da pintura no espelho. Encostei-me a um dos cadeirões de forma a ficar frente a frente com a pintura e deixei que o seu poder hipnótico actuasse sobre mim.
-Oh! Magnífico já estás pronto. Ia agora chamar-te para jantarmos.
Pela segunda vez na mesma situação não tinha dado pela entrada dela. Tinha mudado de roupa: vestia uns jeans justos com um camisolão de malha cinzento que lhe deixava à mostra um ombro e calçava umas sabrinas, uma fita preta de cetim no cabelo dava-lhe o toque especial... tinha um ar tão casual, sensual e convidativo. Devo ter feito alguma expressão demasiado ousada porque ela perguntou-me:
- Ah! Hanazawa Rui não querias que vestisse um vestido de gala, pois não?
- Não esperava outra coisa de ti, confesso-me desiludido.- sorriu-me docemente e disse-me:
- Como te sentes?
- Melhor.- respondi-lhe sinceramente, depois do banho o peso que tinha sentido havia diminuído, aqueles sintomas deviam ter sido causados pela surpresa e choque de descobrir a verdadeira intimidade deles.
- Ainda bem, não me iria perdoar por te fazer doente.- rindo para mim mesmo pensei que ela deveria ter muita culpa na alma…- Anda vamos comer.
Conduziu-me pelo corredor que estava coberto por quadros de imagens pessoais: ela a sair da igreja com o Tsukasa sobre uma chuva de arroz; eles os dois deitados na cama; ela e o Akira a empurrarem um carro com o Domyouji claramente a gritar. Eram imensas as fotografias, umas mais pequenas outras maiores, todas misturadas, em molduras de diferentes feitios.
- O hall da fama.- explicou-me ela reparando que eu tinha parado de a seguir.
- Está aqui toda a gente de facto.
- Já viste esta?- disse ela apontando para a fotografia onde eu dançava com a Shizuka.
- Sim, foi no dia do teu casamento.
- Rui, desculpa… talvez tivesse sido melhor não... Mas é uma foto lindíssima e apenas porque acabou não quer dizer que todas as boas memórias tenham de ser eliminadas, pois não? - justificou-se ela.
- Não precisas pedir desculpa, concordo contigo, apesar de tudo não guardo rancor da minha relação com a Shizuka. – continuei a contemplar as fotografias. - Esta aqui, vocês estavam a brigar?- a fotografia a que me referia tinha uma Tsukushi com o dedo apontado ao Domyouji e a boca aberta em protesto enquanto ele tinha a mão no cabelo e a sombrancelha franzida.
Ela inclinou-se sobre mim para ver a fotografia e depois voltando à posição inicial respondeu-me:
- Exactamente, foi o Akira que a tirou disse que eram momentos essenciais na nossa relação, que tinha de ir para o hall.
- Gosto desta aqui.- disse-lhe apontado para a foto onde o Soujiroh estava na sua moto com uma Yuki radiante agarrada a ele.
- Eu também, fui eu que a tirei. Ele nega mas está caidinho por ela, não fosse o problema dele com o amor verdadeiro e já estava com ela há muito tempo.
- Cada vez mais acho que nós devemos ter um mecanismo que nos impede de aproveitar as boas oportunidades.
- É bem provável, será uma questão de tempo até descobrirem isso nos genes humanos.- vagueava com os meus olho pelas fotografias quando vejo uma onde eu tinha estampado no rosto a desilusão do amor: no meio da fotografia estava o Tsukasa radiante com a Tsukushi, ao colo, igualmente radiante ladeado pelo Soujiroh e pelo Akira que sorriam de felicidade e por mim que estava num canto da fotografia com as mãos nos bolsos e com uma atitude bastante frustada. - aquele dia foi difícil para mim, não tivesse sido a resolução que tinha tomado em partir no dia seguinte e muito provavelmente não teria aguentado a pressão no meu peito e o desejo de morrer. Será que alguma vez ela iria ter consciência do sacrifício que eu tinha feito por ela?
Dezenas de fotos estavam ali expostas: o F4, quando éramos miúdos; uma festa de Natal onde a Tsukushi a rir, de vestido de noite e barrete de pai Natal era enlaçada pela cintura e beijada no pescoço pelo Tsukasa; uma foto de um jantar com a irmã do Tsukasa em pé a brindar, com a Tsukushi, o Tsukasa, o Soujiroh, o Akira e os restantes convidados de copos levantados; um Akira sorrindente a assoprar as velas do bolo que alguém sustentava no ar; o contorno do corpo da Tsukushi, pronta para mergulhar, na luz do pôr do sol e muitas muitas outras..que me faziam ver que tinha perdido muitas coisas desde que tinha saído daqui.
- Perdi muita coisa.- confessei-lhe.
- Não. Ganhaste apenas outras coisas.
- Que no entanto são bastante inferiores às que podia ter ganho.- respondi-lhe, não me referindo aos anos em que não estive com eles mas sim às oportunidades que tinha deixado passar no passado.
- Parte rumo à primavera Rui, o que foi feito já não pode ser alterado.
Acenti com a cabeça:
- Vamos jantar? Estou com fome.
- Vamos, também tenho fome.- continuámos pelo corredor, até uma sala rectangular, com grandes portas em vidro, que davam acesso à varanda.
- Senta-te, por favor.- incentivou-me indicando-me uma cadeira. Assomei-me dela e retirei-lhe a cadeira para ela se sentar no lado oposto ao meu.
- Adivinha o que pedi para nos prepararem.- perguntou-me ela sorrindo e lançando-me um olhar que eu li como sendo deverás instigante para os meus sentimentos de a possuírem.
- Não faço ideia, alguma pista?
- É o teu prato preferido.
- Pediste para me fazerem caril? Estou sensibilizado, muito obrigado.- ela era sempre tão atenciosa, não só para mim, a grande virtude dela era ser atenciosa para toda a gente, mesmo para aqueles que não mereciam.
- Era o mínimo que podia fazer.
Acabámos de jantar e ela levou-me para uma sala mais pequena e acolhedora que tinha a lareira acessa.
- Eles quando vêem cá a casa preferem esta divisão. O Soujiroh diz que as restantes são demasiado pretensiosa para ele se poder esticar no sofá.
- De facto esta divisão grita deita-te e dorme aqui.
- Tens a certeza que é só esta?- perguntou-me ela usando o seu conhecimento sobre o meu calcanhar de Aquiles.
Aproximei-me da estante, que enchia totalmente uma parede da divisão e percorri com o dedo indicador as lombadas dos livros.
- Alguma coisa que te chame a atenção?
Virei-me para ela e fintando-a profundamente disse-lhe:
- Bastante.
- Óptimo, a tua aprovação é importante. A deles é ignorável.- brincou ela, virando-se para agarrar uma chávena de chá, do tabuleiro que estava pousado em cima da mesa de apoio e depois se sentar num dos sofás ao pé da lareira. Imitei-lhe os gestos e sentei-me no sofá em frente ao dela. Caso estivesse sozinho, o mais provável era ter escolhido a chaise-longue ao pé da janela, em vez do meio da sala.
- Ainda não te congratulei pela tua magnífica casa.
- Não me devias agradecer a mim, afinal nada disto é meu.
- Quem paga é o menos relevante.
- Uma decoradora é ela que decora no entanto as casas não são dela.
- No entanto o mérito da casa estar assim é dela, logo é a ela que devemos congratular.
- Venceste, obrigado. Também gosto bastante. Mesmo sem nunca me ter imaginado a viver num lugar como este... – não sei se ela ia acrescentar mais alguma coisa e fiquei sem saber porque entrou uma empregada que se aproximou dela e a informou que o senhor Domyouji tinha acabado de chegar. A rapariga não tinha saído há mais de um minuto, quando ouvimos alguém a aproximar-se rapidamente. Era ele.
- Rui! - exclamou com uma expressão muito menos jovial do que a sua voz tentava transparecer.- O que fazes por aqui?
- Tsukasa… que modos.
- Não falei para ti, pois não?- perguntou-lhe ele, virando-se para ela e depois concentrando toda a sua atenção novamente em mim.
Ela preparava-se para dizer qualquer coisa, mas eu não lhe dei oportunidade:
- Vim trazer a Makino a casa e ela convidou-me para jantar.
- Makino porque razão tiveste de incomodar o Rui para te trazer a casa?
Mais uma vez não a deixei falar:
- Eu levei-a até Chigasaki e depois trouxe-a de volta, não me incomodou nada, muito pelo contrário.
- Ah! Estiveram na praia.- exclamou ele.- Com este frio.- acrescentou. – Tsukushi a Syori disse que a roupa do Rui já está pronta, vai tratar disso e pede-lhe para servir o meu jantar... Por favor.- acrescentou ele, percebendo que de outra maneira não iria conseguir que ela saísse da sala.
- Vou tratar da tua roupa Rui. Com licença. - despediu-se abandonando a sala e fechando a porta.
