MUSICA: JESSE J – WHO YOU ARE

Castle havia perdido grande quantidade de sangue. Uma das balas atravessou o abdômen indo alojar-se na base do pulmão enquanto que a outra atingiu a aorta causando grande hemorragia. Era um milagre ele não ter morrido ali mesmo naquele chão gelado do meio da rua. Apesar da ambulância ter chegado em poucos minutos, o nível de oxigênio no corpo do escritor caiu rapidamente. Seu coração não tinha mais material suficiente para manter seus sinais vitais plenamente funcionando.

A cirurgia foi delicada, demorada, e por duas vezes os médicos temeram ter perdido o escritor. Mas havia dentro de Castle uma enorme força de vontade de viver. Assim contrariando até mesmo os princípios da própria medicina, ele saiu do centro cirúrgico com vida, mas em coma. Não sabiam até que ponto seu cérebro havia sido afetado, nem quanto tempo ele demoraria a acordar. Restava apenas a todos e, especialmente a ela, esperar.

Kate acordou sonolenta no meio da madrugada. Sua cabeça pesava, mas nada angustiava mais o seu peito que a dor em seu coração. Doía respirar, se mexer era difícil. Viver então era uma dádiva que ela achava que não merecia. Olhou ao redor e viu Lanie, sua melhor amiga, dormindo de qualquer jeito em uma cadeira próxima à sua cama. Até ela estava sendo afetada pelo temperamento de Beckett.

A policial se levantou devagar. O que diabos havia naquele bendito chá? Viu o celular perto de sua cama e tentou ligá-lo para ver que horas eram, mas a bateria havia acabado. Levantou-se e encontrou o celular de Lanie próximo a ela e então resolver usa-lo para se localizar no tempo. Ao desativar a proteção de tela do aparelho, Beckett pode ver que uma nova sms havia chegado e ainda não fora lida. O remetente era Javier e a noticia era a mesma que Lanie recebera. A sms havia sido re-enviada automaticamente pela operadora como se o destino fizesse questão que a detetive soubesse aonde o seu orgulho e egoísmo havia levado o seu parceiro. Pensando que pudesse ser algo urgente clicou. Leu. Congelou.

- Coma... – Beckett repetiu mordendo seus lábios e sentindo seu chão sumir.

Castle estava em coma, e agora ela não sabia o que fazer. Com as pernas trêmulas ela se arrastou até o banheiro com os olhos cegos pelas lágrimas que tentavam se despedir de sues olhos. Beckett se olhou no espelho, mas o ódio por ela mesma era tão grande que ela desviou o olhar. Queria sumir, desaparecer, estar lá com ele, estar no lugar dele. Realmente Alexis tinha toda razão.

Kate entrou em sua banheira e, trazendo os joelhos perto do corpo ligou o chuveiro que caía sobre sua cabeça. A água inicialmente quente, queimou um pouco sua pele, mas ela não se importou. O arrepio que aquela dor lhe causou não era nada comparado ao que a estava queimando por dentro. Permaneceu ali, de olhos fechados e rosto escondido entre os joelhos esperando a água levar embora sua teimosia, sua mágoa, sua vida.

Já passavam das quatro da manhã quando a médica despertou de seu sono ao som de soluços abafados e som de água. Ainda desnorteada olhou para a cama de Kate e a viu vazia. Levantou-se rápido, ainda cambaleante e foi até o banheiro se deparando com sua amiga encolhida e encharcada dentro daquela bacia de porcelana, completamente nua.

- Oh meu Deus, Kate...

Sim, Kate Beckett havia desabado. A grande e poderosa detetive, a verdadeira tigresa das salas de interrogatório agora se mostrava frágil como um pequeno bebê enrolado ainda em posição fetal, chorando copiosamente em busca de algum tipo de conforto. Lanie correu em direção a ela com uma toalha que havia encontrado no meio do caminho.

- Meu Deus, Kate... Você precisa se aquecer. – falava ela desligando a água completamente gelada que caía sobre sua amiga.

Beckett tremia, olhos fechados, punhos cerrados e gemidos confusos e desrritimados escapavam de seus lábios arroxeados. Lanie tentava tirá-la dali o quanto antes, mas era como se sua amiga tivesse congelado ali dentro. Não conseguia se mexer muito menos sair.

A campainha tocou e Lanie correu para atender.

- Javi! Rápido... Beckett! – falou a ME, apenas abrindo a porta para o amigo e correndo de volta para o banheiro.

Esposito precisava ir ver sua amiga. Conhecia Beckett o suficiente para saber que mesmo morrendo ela jamais gritaria por socorro. Avisou Lanie que passaria por lá e a ME concordou como se pressentisse que iria precisar da ajuda de um homem no meio da noite. Ele chegou ao banheiro e encontrou a ex- namorada ainda em pânico tentando cobrir Kate para tirá-la dali.

Sem pensar duas vezes, Javier tomou a amiga quase que inconsciente nos braços, deixando que a água escorresse do corpo dela, encharcando o chão e o corpo dele enquanto ele a levava de volta para o quarto. Ele a depositou sobre a cama, ouvindo-a delirar coisas sem sentido, enquanto Lanie colocava várias cobertas sobre ela. Lentamente a temperatura dela começou a subir e os tremores diminuíram suavemente assim como os delírios enquanto seu corpo vencia mais uma vez a luta da sobrevivência.

O dia amanheceu e Kate sentiu o sol incomodar o seu rosto. A manhã já estava em horário avançado, mas ela não se importava. Não era nem mesmo para ela ter visto outro dia amanhecer. Andou em silêncio, vendo que estava vestida com uma calça preta e uma blusa cinza da NYPD, adivinhando que logicamente Lanie a havia vestido tentando não deixá-la se matar em sua própria banheira.

Chegou até a cozinha e viu Javi e Lanie tomando uma xícara de café quente. Ela sentou-se ao lado deles sem dizer uma palavra e quase sorriu quando a amiga colocou um pouco do líquido fumegante em uma xícara para ela. Mas em vez do sorriso, uma lágrima solitária rolou por sua face. Kate não se importou de esconder. Na verdade, estava surpresa de ainda conseguir de alguma forma, chorar.

- Você quer ir vê-lo? – Javi perguntou serenamente.

- Não... – Beckett respondeu com a cabeça.

- Kate... – Lanie ia começar a falar algo, mas Espo fez sinal para que ela não continuasse.

Beckett percebeu e finalmente riu. Aqueles dois ainda iam ficar juntos.

- Tudo isso... – disse ela, levantando os olhos e esfregando as mãos no tecido de moleton que usava. – É minha culpa. Não era para ele estar lá. Eu era. Ele não é policial, ele não tem nada a ver com isso, ele não conheceu minha mãe, ele nunca... fez mal a ninguém.

Nenhum dos dois amigos ousava mencionar nada.

- É melhor assim... Ele precisa estar longe de mim. Vai ser melhor assim. – ela mesma tentava se convencer disso.

Certificando-se de que Beckett estava bem e não ia mais cometer nenhum tipo de atitude impensada contra si mesma, Javier conduziu Lanie até sua casa antes de voltar para a delegacia. Eles ainda tinha um filho da mãe para pegar.

Cerca de três semanas haviam se passado e ela já não tinha mais lágrimas para chorar. Castle estava em coma e ela não podia fazer nada. Suas habilidades com detetives eram inúteis nesse momento, não havia suspeitos, não havia pistas, não havia cena de crime, mas havia apenas um culpado, era ela. Essa culpa que ela já carregava antes mesmo de Alexis falar aquelas palavras duras para ela. Uma dor que ela sentiu e não saíra de seu corpo desde o momento em que ele foi baleado, uma dor, uma angústia, um sufoco, algo que acabava com ela, e a consumia quase que por completo todos os dias.

Sair da cama era incrivelmente difícil nesse momento. Todos esses dias foram passados literalmente trancada em casa, revezando do quarto para o banheiro. A única variação nessa rotina tediosa era pela presença de sua amiga ME, que por ter a chave do apartamento de Kate entrava lá sem cerimônias e, vencendo-a pelo cansaço, conseguia fazê-la comer alguma coisa.

Definitivamente o misterioso homem tinha razão. Perder as pessoas que ela amava por causa de um caso, uma hora ou outra iria fazer com que ela parece para pensar em tudo que já havia acontecido. Como se tudo o que já havia acontecido com ela não fosse o suficiente para detê-la, quase perder Castle a fez recuar de um modo que nem ela achava possível. Foram muitas mortes, lágrimas derramadas, noites mal dormidas, sem falar nos muitos fantasmas que voltavam para atormenta-la à noite, e agora mais um se juntava ao de sua mãe e o de Montegomery. O fantasma de Castle ferido e com sua vida escorrendo pelo chão.

MUSICA : LIVE FOREVER – DREW HOLCOMB & THE NEIGHBORS.

Por duas vezes Kate Beckett chegou até a porta do hospital para visitá-lo, mas não conseguira passar de lá e então, mais um buque de flores ficava nos braços de alguma idosa que estava caminhando pela rua. Se ela não podia ver o sorriso dele, então era inútil tentar entrar.

Aquele sorriso. Algo mágico que realçava toda a feição dele, sem contar com o som da risada, e até mesmo, o som de sua voz "agruada" por ela não permitir que ele fizesse algo. Como Lanie mesmo disse " uma criança adulta, que não sabe muitas vezes no que está se metendo". Quantas vezes ela tentou fazê-lo parar, e principalmente a ela mesma, mas ele dizia que sempre estaria com ela, cuidando dela. Quando ele realmente fez o que prometera, ela fora a primeira a culpá-lo de ter escondido a verdade atrás de uma mentira que estava salvando sua própria vida enquanto que a dele... O pensamento dela se perdeu lembrando de tudo até aqui. Tudo fora em vão. Agora ela não queria mais saber do caso, não queria mais correr atrás do assassino de sua mãe. Não, isso já lhe causara muita dor, mas agora... Agora é tarde demais. Ela havia se tornado uma assassina. Responsável pela provável morte de seu amigo, seu parceiro, seu amante.

Kate suspirou pesado mais uma vez. Na verdade, era só assim que seu corpo conseguia respirar. Pela terceira vez encontrava-se na porta do Hospital. Terceira vez. "Quem sabe a terceira vez poder ser mágica, Castle." É, ela se lembrava dessas palavras até hoje ditas no casamento de Ryan. Ele como sempre elegante, e ela não deixando por menos. Pena que ninguém a viu se arrumar, ou então diria que estava se arrumando para ele, e, inconscientemente, ela estava.

Um pé no degrau, depois o outro, e assim Kate Beckett subiu os seis degraus que a separava da porta principal. Dando mais um passo à frente, a enorme porta de vidro se abriu mostrando a grande confusão de telefones tocando, pacientes chegando, pessoas sentadas nos bancos a procura de esperança, e informações. E assim como essas pessoas, Beckett também estava a procura de informações... e principalmente de esperança.

Caminhou até o banco de informações, disse o nome dele e aguardou. Logo foi informado o numero do quarto e novamente sentou-se no banco, respirou fundo e ficou olhando para o teto pensando no que fazer. O que faria caso Alexis ainda estivesse por lá? Como encararia Martha? Ela falhara em sua função de servir e proteger, principalmente de proteger aquele que sempre lutou para que ela, a policial, estivesse fora da mira dos bandidos.

Respirou fundo novamente, e lentamente caminhou até porta do quarto. Pelo vidro viu que ele ainda estava ligado às máquinas de monitoramento. Uma enfermeira estava checando seus sinais vitais, e do outro lado do quarto, estava Martha com os olhos fechados, tendo aquilo que poderíamos chamar vulgarmente de descanso. Como descansar quando a pessoa que você ama mais que tudo no mundo está lutando contra a morte e você nada pode fazer? Pois bem, esse sentimento era o que Beckett estava sentindo nesse momento e sabia que Martha também.

Abriu a porta lentamente, não querendo acordar Martha. Não ficaria muito tempo por ali mesmo. Apenas precisava vê-lo, nem que fosse pela última vez. Deixou as flores em cima do criado mudo, segurando para não se entregar às lágrimas que voltavam a se formar no ambiente ressecado que o interior de sua alma.

Apenas pequenos passos em direção à cama dele. Queria poder dizer algo com o que fizesse acordar e sorrir para ela novamente. Tirá-lo daquele lugar e trazer a alegria de volta à vida dele uma alegria que ela havia tirado, e que ao mesmo tempo em que também a tirava dela mesma. Ainda se lembrava do sorriso dele, da última vez em que fizeram amor ali no meio da academia de policia. Uma loucura da qual ela se arrependeu em ter se arrependido.

"...- Me diga o que você quer, Kate. – disse ele, tentando domar o seu próprio desejo.

- Eu quero mais... – sussurrou ela antes de beijá-lo outra vez.

Com apenas um movimento ele a depositou num lugar alto livrando-a finalmente das últimas peças de roupa enquanto Kate retirava sua camisa e calça. Ele tomou os lábios dela mais uma vez e com as duas mãos, uma de cada lado de seu rosto aprofundou o beijo. Kate usou suas pernas para trazê-lo para mais perto e com uma das mãos o guiou para dentro dela, surpreendendo-o e fazendo ambos rirem.

- Eu senti sua falta... – disse ele, encostando a testa na dela, sentindo o enorme prazer de tê-la outra vez.

- Eu também... – gemeu ela, incentivando-o a começar os movimentos.

Castle começou devagar, como se degustasse de cada milímetro daquele corpo em contato com o seu. As mãos femininas passeavam pelas costas dele e vez por outra o puxavam contra ela numa forma silenciosa de dizer que o queria completamente. E então cada vez mais fundo os toque se tornaram mais confusos e ao mesmo tempo mais ritmados, os gemidos mais altos e também mais abafados, e o prazer daquela alegria se perdia na dor daquela tristeza que fazia os dois ter a certeza de que aquela seria a última vez...".

Ironicamente foi. Ela fechou os olhos ao sentir a frieza daquela mão que queimava sua pele a cada toque. Uma lágrima rolou de seu olhos, seguida de muitas outras enquanto a dor que despedaçava seu coração finalmente se derramava sobre o corpo ainda inerte dele. Ela ainda se lembrava de sua última promessa.

"... - Kate... - chamou ele, enquanto ela juntava a própria roupa do chão. – Eu não vou desistir da gente..."

Seria pedir demais que ele ainda pensasse assim depois de tudo o que ela fez. Não, ela não o merecia. Agora Kate Beckett esperava apenas que Richard Castle não desistisse dele mesmo.

Continua...