Nota da (ilustríssima) autora: mais uma vez, quero agradecer a todos pela atenção dada a esta fic.
Aranhas
Yrjan deixou o mal-disposto Thranduil em paz e voltou para a enfermaria. Lá encontrou Aarne atarefado com um outro elfo que não parava quieto na cama. O conselheiro franziu o cenho e aproximou-se devagar; o local estava silencioso, tirando o alegre ressonar de Tjaden e os gemidos de dor do recém-chegado. Espreitando por cima do ombro do elfo sardento, Yrjan percebeu que Aarne tentava a todo o custo aplicar uma sanguessuga por cima da picada. O conselheiro sorriu e tocou-lhe no ombro, o que fez Aarne pular para longe, assustado.
O jovem elfo fitou o conselheiro, de olhos arregalados, com mechas de cabelo a cobrirem-lhe o rosto e de mangas arregaçadas. Numa das mãos, uma sanguessuga contorcia-se:
-Se ele tivesse sido picado por uma cobra, seria uma excelente ideia. - declarou Yrjan, calmamente. Observou Taisto; contorcia-se, babava-se, revirava os olhos e suava. Tocou-lhe na testa e concluiu que o pobre elfo ardia em febre. Aarne passou por ele, timidamente, e voltou a mergulhar a sanguessuga no frasco com água. Fechou-o e arrumou-o - Aarne, traz-me um chá de tília.
Pelo canto do olho, viu o jovem elfo desaparecer a correr para a cozinha. Soltou o ar dos pulmões e depois olhou para a noite sem lua, lá fora; em breve amanheceria. Não demorou muito para que Aarne voltasse com uma caneca de chá. Yrjan sorriu:
-Fá-lo beber isso. - disse. Sem dizer nada, o elfo de olhos verdes sentou-se na berma da cama, ergueu a cabeça a Taisto e aproximou-lhe a caneca dos lábios. O elfo ferido queria colaborar, mas os espasmos tornaram difícil uma tarefa à partida simples. Yrjan limitou-se a observar, pacientemente, o persistente Aarne que não largou a cabeça de Taisto enquanto a caneca de chá não ficou vazia.
Por fim Aarne fitou-o, esperando receber mais instruções. Mas Yrjan abanou a cabeça:
-Por hoje chega, já ajudaste bastante. - assegurou o conselheiro, oferecendo-lhe um sorriso amigável - Vai descansar, pareces um espectro.
-Mas...
-Vai dormir, pelo menos umas horas. - insistiu Yrjan. O seu tom de voz era perfeitamente calmo, mas não deixava margem para oposições - Depois se quiseres podes voltar.
Aarne assentiu, pesaroso, e arrastou-se até casa. Os Valar sabem como tentou dormir, mas não conseguia; e se Legolas chegasse ele não estivesse lá, com um banho quente pronto e as tolhas fofinhas? E se chegassem mais feridos e Yrjan precisasse de ajuda?
Decidiu voltar ao palácio quando chegasse a alvorada. Ficou sentado na cama a rever os acontecimentos, nem tocou em comida. Quando surgiram os primeiros raios de sol, Aarne saiu de casa com a energia de uma boa noite de sono. Àquela hora da manhã estava frio e o jovem elfo, em mangas de camisa, cruzou os braços e acelerou o passo em direcção ao palácio. Perguntou aos guardas se mais alguém tinha chegado durante a noite e ficou visivelmente desapontado e desesperado quando recebeu uma notícia negativa.
Engoliu em seco e foi direitinho para a enfermaria, bateu à porta e entrou. Os convalescentes dormiam, silenciosos, Tjaden ressonava, quase a cair da cadeira, e Yrjan apareceu de um compartimento anexo com um grande livro debaixo do braço. Visivelmente cansado, sorriu a Aarne e fez-lhe sinal para entrar. Estendeu-lhe o livro:
-Tinha esperança de que viesses mais tarde, - começou. Tirara a túnica e as vestes escuras e manchadas de sangue conferiam-lhe um aspecto sombrio - mas ainda bem que vieste. Passa o capítulo dos venenos a pente fino e se encontrares algo sobre aranhas, chama-me.
-E se não encontrar? - entusiasmado, o jovem elfo pegou no livro e começou à procura. Yrjan suspirou e lançou um olhar triste a Taisto; os espasmos haviam cessado, a febre tinham baixado e já não se babava. No entanto, revirava os olhos e parecia ao conselheiro, naquele momento curandeiro, que a língua do arqueiro estava a inchar. Mas talvez fosse impressão sua, uma brincadeira de mau gosto do cansaço. Voltou a olhar para Aarne, que se sentara numa cama vazia e lia atentamente:
-Então vou ter de te ir buscar mais livros... - o que era mau sinal. Aarne assentiu, absorto no que estava a ler; havia palavras em Sindarin que não conhecia, mas que, numa segunda leitura, era capaz de decifrar graças ao sentido das frases. Ouviu um estrondo e uma praga e olhou, atarantado e desconcentrado, para Tjaden; o arqueiro loiro tinha caído da cadeira. Revirou os olhos e voltou a olhar para o livro. Mas depois franziu o cenho e cravou os olhos verdes em Taisto; não o ouvia respirar.
Pior, não lhe via o peito a subir e a descer! Aarne pôs o livro de parte, ergueu-se de um pulo e colocou a palma da mão junto do nariz perfeito do elfo. A respiração era ténue. Lançou as mãos à cabeça, desesperado, mudo de medo; o que menos desejava era ver um elfo morrer à sua frente! Girou sobre si mesmo, agitado, as mãos a tremer, a puxar o próprio cabelo. Tjaden notou a súbita mudança no comportamento do elfo e aproximou-se:
-O que se passa? - perguntou. Mas Aarne só abria e fechava a boca, e quando conseguiu falar a voz saiu-lhe muito aguda, quase inaudível:
-Está a morrer! Mal respira!
Tjaden olhou de Taisto para Aarne, de Aarne para Taisto. Arregalou os olhos e gritaram por Yrjan em uníssono. E logo o conselheiro acudiu, escancarando a pequena porta do compartimento anexo. Parecia irritado:
-Não gritem! - exclamou, apontando os outros três feridos:
-Mal respira! - exclamou por sua vez Aarne, apontando uma mão trémula na direcção de Taisto. Yrjan empalideceu e debruçou-se sobre Taisto, abriu-lhe a boca e soltou um grito horrorizado; afinal a língua sempre inchara. Inchara e adquirira um tom violeta.
Aarne sentiu-se mal e cambaleou lá para fora, deixando Yrjan exercer a sua mestria. Tjaden acompanhou-o; não o conhecia bem mas sentia uma certa simpatia pelo elfo sardento. E já que Aarne tivera a bondade de lhe tratar o ferimento, não lhe custava nada fazer-lhe um pouco de companhia. Arrastou o elfo nauseado até ao terraço e ali ficaram durante um pedaço. A custo, o elfo de olhos verdes acalmou-se e indagou num murmúrio, começando a sentir-se cansado:
-Quanto... quanto tempo é que achas que o Legolas vai demorar?
Tjaden deu-lhe um sorriso triste:
-Dois dias de ida, dois dias de volta.
O outro elfo suspirou e fechou os olhos por alguns segundos; jamais imaginara que as saudades, a preocupação, pudessem ser tão amargamente angustiantes.
Quando Legolas deixou o grupo, pensou seriamente em utilizar um atalho para chegar mais depressa ao seu destino. Mas a voz urgente e severa do pai surgiu, de repente, no meio da sua cabeça confusa, e logo os pensamentos trataram de se arrumar. Ir por um atalho seria perigoso; poderia haver mais do que um grupo de orcs pela floresta.
O que era deveras estranho, geralmente as malditas criaturas apenas assolavam a fronteira e batiam sempre em retirada após rápidas escaramuças. O príncipe orgulhava-se de já ter participado em algumas.
Ragnar galopou noite dentro e o dia todo, sem parar. Legolas ia falando baixinho com ele, incentivando-o a continuar, mas sentia no seu próprio corpo o cansaço que se começava a abater sobre o resistente cavalo. O nobre corcel galopava o mais depressa que o corpo enorme e os músculos pesados permitiam. Porém, ao cair da noite, teve de começar a abrandar, independentemente da pressão dos calcanhares do cavaleiro nos seus flancos. O príncipe praguejou e teve vontade de libertar o animal do empecilho dos arreios, mas isso custar-lhes-ia tempo.
E o tempo era precioso; a vida de Taisto dependia do sucesso daquela maratona e Legolas temeu que, em breve, mais vidas dependeriam disso também. Mas acima de tudo preocupava-o Aarne. Se bem o conhecia, o pobre elfo deveria estar num estado lastimável. Rezou para que Tjaden tivesse chegado em condições de avisar Aarne. E o pai, também se queria despachar por causa do pai! Thranduil ficava sempre irritadiço quando Legolas ia para longe e não dava notícias.
Uma nova noite sem luar. Ragnar lutava por continuar, ignorando os pulmões que ardiam e os membros doridos. Espumava bastante da boca e tinha a língua seca. De olhos bem abertos, confiava cegamente nas instruções do dono que o guiava pela floresta escura. E então, de súbito, o cavalo sentiu algo agarrá-lo pelos flancos e relinchou, horrorizado, e teve a desagradável sensação de ter tropeçado e estar a cair.
Mas Legolas acariciou-lhe o pescoço e pediu-lhe silêncio, e o cavalo assim fez. Espantado, Ragnar viu o mundo virar-se de pernas para o ar e subiu. Subiu! Um cavalo a subir! Olhou em redor e notou que ele e o seu cavaleiro estavam a ser enrolados numa teia.
Felpuda puxou a preciosa carga cuidadosamente; se não lhe faltassem patas, tê-los-ia enrolado mais depressa. Por fim, como se o elfo e o cavalo se tratassem da prole que nunca tivera, colocou-os junto ao seu ventre felpudo e aguardou. Ragnar desistira de tentar compreender a bizarra situação, mas Legolas, fascinado e olhando para o trilho de cabeça para baixo, tinha um grande sorriso tolo no rosto:
-Felpuda, estás bem! - exclamou o elfo. Mas a aranha tapou-lhe a boca com uma das patas e fez-se silêncio. Um silêncio expectante. Até que vozes grotescas chegaram aos ouvidos do príncipe; orcs! E, pelo mesmo caminho por onde Legolas galopava minutos antes, um grupo de cinco orcs vinha no sentido contrário. Se não tivesse sido Felpuda...!
Aranha, elfo e cavalo ficaram silenciosos durante a passagem das diabólicas criaturas. Deixaram de se ouvir, mas só ao fim de longos minutos de espera é que cavalo e elfo foram desenrolados e cuidadosamente colocados no chão. Legolas olhou para cima, enquanto Felpuda mancava, sorrateira, árvores abaixo, até alcançar o caminho. A aranha fitou o elfo, piscando os seus oito olhos, e Legolas sorriu:
-Salvaste-nos! - exclamou o elfo. Quis aproximar-se da aranha e abraçá-la, mas Ragnar, temendo as pinças mortíferas, não se mexeu. E mal Legolas acabou de proferir a palavra, a aranha virou-lhe as costas e correu na direcção oposta. Legolas apertou os lábios, apreensivo, e temeu que os orcs a pudessem magoar.
Bom, tinha de se despachar! Virou Ragnar e incitou-o a seguir caminho. Chegou a Rhosgobel com a alvorada.
Para seu grande alívio, o príncipe encontrou Radagast no jardim, a conversar com as flores. O feiticeiro ergueu as sobrancelhas e observou enquanto o elfo parava o cavalo exausto e se preparava para desmontar. Abanou a cabeça:
-É urgente, jovem príncipe? - perguntou. Legolas piscou os olhos, surpreso, mas assentiu - Então não se incomode a desmontar, só demoro uns segundos a preparar o meu cavalo.
Legolas queria agradecer, mas antes que pudesse dizer algo Radagast assobiou e um cavalo baio, bastante sujo mas radiante de felicidade, trotou para o dono, vindo das traseiras da casa. Num ápice, o mago aparelhou o cavalo e preparava-se para montar, quando hesitou e sorriu:
-Posso oferecer uma maçã ao vosso cavalo, meu príncipe? - e antes que Legolas respondesse, entrou na casa e regressou com duas pequenas maçãs. Uma deu ao seu cavalo e a outra ofereceu a Ragnar que, esfomeado, aceitou de imediato. E sem que Legolas pudesse agradecer novamente, o feiticeiro montou e espicaçou o cavalo para um galope rápido.
Legolas suspirou, cansado, e incitou Ragnar a avançar. Julgou que o cavalo não conseguiria, mas por algum motivo desconhecido o cavalo ruço ergueu a cabeça, orgulhoso, e galopou como nunca havia galopado. Alcançaram Radagast e Legolas, mais uma vez, ia cumprimentá-lo, agradecer-lhe a maçã que dera ao cavalo e justificar o súbito incómodo, mas o feiticeiro ergueu a mão:
-Gosto muito de cavalgar em silêncio, majestade. Quando chegarmos logo vejo.
-Mas... e se precisar de algo que deixou em casa?
-Jovens elfos, tão curiosos! - deliciou-se o feiticeiro. Montava de maneira desajeitada mas o cavalo parecia não se incomodar - Logo vê, logo vê!
E o príncipe, remetido ao silêncio, teve de confiar no feiticeiro.
E assim terminamos o décimo capítulo. Review?
