- E então o que os traz aqui?

Aioros nunca foi um homem de meias palavras, e tão pouco gostava dos gêmeos Panagakos. Tinha acompanhado de perto a atuação deles no caso de Aldebaran e esse era justamente um dos motivos da antipatia que nutria por aqueles dois.

- Bem, sabemos muito bem o quanto é direto e vamos ser também. – começou o mais velho dos irmãos, Saga.

- Por favor! – disse Aioros pedindo para que Saga prosseguisse, mas quem tomou a palavra foi Kanon.

- Me diz Capitão, porque permitir que um policial que está sob investigação encabece um caso que está atraindo tanta atenção da mídia, sabe que as pessoas vão começar a comentar, aquela repórter já está questionando seu posicionam, então.

- Estão aqui para me interrogar? Começou Aioros ofendido – porque se for o caso abram um processo contra mim e não usem o caso de Aldebran para isso!

- Era exatamente onde queríamos chegar capitão, Aldebaran não é o único que está aqui sob investigação. – prosseguiu Saga – seu irmão como tem passado?

Aioros fechou a mão sob a mesa com tanta força que feriu a palma da mão.

- Ele está em tratamento numa clínica.

- Não é bem o que ficamos sabendo. Tivemos informações de que ele deu entrada há alguns dias no Hospital Central com overdose – dizia Saga enquanto folheava vários relatórios.

- Sabe o que é pior do que um policial drogado Diakos? – insinuou Kanon com um certo veneno na voz – é um policial drogado que é irmão de policial.

- Estou entendendo o que querem dizer, e não estou gostando. Nunca facilitei as coisas para ele, tanto é que ele foi afastado!

Aioros sentiu a mão sangrar sob a mesa, indignado com aquele questionamento absurdo.

- Escute Aioros, esse é nosso trabalho, e sabe disso, não afirmamos nada, mas se nos der motivos estaremos de olho capitão.

- Como se sente Senhor Adaash? – disse Afrodite entrando no quarto em que Shaka estava.

- Acho que bem. Se bem me lembro creio que ainda não fomos apresentados.

- Isso é verdade, sou Afrodite Von Linné, o médico que o atendeu e se me permite dizer está muito melhor do que os pacientes que costumo atender.

Shaka levantou uma sobrancelha confuso.

- E por quê?

- Porque você está vivo, e eu sou médico legista. – respondeu Afrodite não se segurando e dando uma gostosa gargalhada, mas parando de rir assim que percebeu que o rapaz cego permanecia em silêncio. – Isso foi uma tentativa de piada, mas pelo jeito não foi tão boa quanto pareceu! Mas vamos ao que interessa...

- Posso ao menos saber por que estou sendo atendido por um legista?

- Porque sou legista, mas também sou clínico geral.

- Então veio me dar alta para que os policiais que estão aí fora possam me prender?

- Como sabe dos...

- Eu passei a tarde toda ouvindo o que eles diziam lá fora, sobre as enfermeiras daqui e sobre a minha prisão.

- Ouvidos sensíveis!

- Sou cego, tenho que trabalhar com os recursos que tenho. – disse Shaka sem demonstrar nenhuma reação diante do comentário do médico.

- Língua afiada a sua, mas não deveria se preocupar tanto, talvez você fique somente essa noite lá, um bom advogado pode lhe conseguir um Habeas corpus.

- Talvez eu devesse ter consultado um antes de fazer a loucura de procurar a polícia.

Afrodite deu uma boa olhada no rapaz a sua frente, não parecia o tipo perigoso e estava longe de ser o tipo que se interessava por garotinhos, até porque devia fazer muito sucesso com garotas.

- Você acredita mesmo no que disse?

- Porque não acreditaria, eu estive lá, de certa forma.

- Quer um conselho rapaz, não diga mais isso, pode piorar muito a sua situação.

Algumas horas depois dessa breve conversa, Shaka Adaash dava entrada na delegacia de polícia com as mãos algemadas, conduzido por dois policiais que o fizeram cumprir todo o protocolo de um primário como ele e depois de tudo isso ele voltou para a mesma sala onde havia estado antes.

- O senhor está realmente com problemas! – disse Aldebaran diante daquele que até agora era seu único suspeito

Ainda se lembrava da conversa que tinha tido com Asterion enquanto Shaka estava sendo atendido no hospital, mas depois do que havia escutado entre os delírios de Shaka achava difícil que as suspeitas de Asterion tivessem algum fundamento.

- O que eu disse foi tão comprometedor assim, porque a última coisa de que me lembro é que você e seu parceiro não deram muita atenção para o que eu disse.

- Enquanto esteve desmaiado você disse coisas Senhor Adaash, sobre os garotos, como se estivesse junto com eles, como se...

- Eu já disse, eu sonhei com eles, não podem estar achando que fui eu!

- Temos o testemunho de três policias e do médico que o atendeu.

- Eu não fiz nada àqueles garotos!

- Vamos detê-lo até amanhã e providenciaremos um advogado se não puder pagar por um, até lá eu aconselho que não diga mais nada, mesmo que esteja dormindo.

Aurora era uma belíssima mulher, de formas exuberantes e um rosto belíssimo.

Era filha de um poderoso juiz de quem havia herdado o talento para as leis e os inquisidores olhos verdes, e de uma médica cubana interessada em causas sociais de quem havia herdado a pele mulata e as formas tentadoras do corpo.

- Kamus ainda não está pronto? – disse entrando no banho para pegar um par de brincos e dando de cara com o marido ainda de cueca com a cara enterrada no monitor do laptop – se bem que vê-lo assim não é de todo ruim! – disse com um tom malicioso na voz, dando uma boa olhada no corpo do francês.

Kamus era o tipo de homem que poderia ter a mulher que quisesse e não precisava nem dizer nada para conquistá-la, e Aurora tinha orgulho do seu homem, era lindo, sexy e era o melhor advogado da cidade.

- Já estou terminando aqui – disse ele dando uma rápida olhada na mulher, porque ele sabia muito bem que se olhasse para ela por mais de dois segundos os dois iriam acabar aquela noite na cama no melhor estilo francês e não no jantar importante que o pai dela estava oferecendo.

Mas Aurora conhecia bem o marido, e sabia que a segunda coisa que gostava mais do que fazer amor com ela era o trabalho.

- Se não desligar esse computador agora, vou lá para fora completamente nua e me entrego para o primeiro que passar na rua.

Ele sorriu e fechou o laptop e a puxou mais perto de si.

- Que tal fazer isso aqui dentro.

- Mas então o primeiro seria você, isso deveria ser um castigo, não um prêmio.

- Eu já desliguei.

- Mas temos um jantar para ir.

- Temos tempo. - disse ele descendo os lábios pela pele macia do pescoço dela.

- Sabe quanto tempo levei para me arrumar?- disse ela amolecendo nos braços dele, sentindo uma vontade terrível de ceder.

- Vai ficar mais linda sem roupa alguma. – disse Kamus mergulhando os lábios entre os seios dela, enquanto tentava alcançar o zíper nas costas dela.

Sem conseguir mais resistir, Aurora deixou que ele a despisse, que a beijasse, que a tomasse para si. Chegariam atrasados com certeza, mas eles inventariam uma boa desculpa.

Saori acordou sobressaltada. Não era comum seu telefone tocar àquela hora e por isso mesmo por um instante pensou em deixar que tocasse e voltar a dormir, mas algo gritou dentro dela.

Havia aprendido com seu avô o hábito de dormir e acordar cedo e de ter sempre que possível boas horas de sono. E isso de certa forma já lhe havia criado alguns problemas como herdeira milionária cheia de compromissos sociais e nesses casos os estudos lhe eram uma ótima desculpa para a futura empresária.

- Alô ! – disse atendendo o compacto celular.

- Srta. Kido!

- Sim, é ela!

- Mil perdões por incomodá-la!

- Shaka é você? – perguntou a jovem reconhecendo a voz mansa do rapaz cego – aconteceu alguma coisa?

- Na verdade aconteceram muitas coisas, mas eu liguei mesmo para poder ouvir uma voz amiga e como não tenho família, pensei que seria agradável poder ouvir a voz de uma jovem dama tão gentil.

Saori estranhou a atitude de Shaka, não o conhecia tão bem, mas ele não era o tipo de homem que sequer pensaria em fazer algo que pudesse incomodar alguém.

- Está com algum problema? – disse já demonstrando uma certa preocupação.

- Quem não os tem não é mesmo? Mas eu não quero envolvê-la nos meus. Eu só queria mesmo ouvi-la e dizer que talvez sua companhia tenha sido a coisa mais agradável que me aconteceu nos últimos dias.

- Fala como se estivesse se despedindo!

- Talvez. Foi bom falar com você Saori, foi bom conhecê-la, adeus!

Desligou o telefone antes que a jovem percebesse que seus problemas eram maiores do que podia imaginar, não queria que ela se envolvesse em algo como o que estava acontecendo e também não queria arriscar que ela descobrisse, mas sentiu o coração mais leve depois daquela ligação. Há muito tempo uma pessoa não lhe fazia tanto bem assim.

Do outro lado Saori ainda mantinha o celular próximo ao ouvido esperando que de uma hora para outra a voz dele voltasse a ser ouvida.

Seu coração lhe dizia que algo muito sério havia acontecido e que precisava descobrir o que era. Mais do que isso, ela ouviu naquelas poucas palavras um pedido desesperado de socorro, um pedido mudo de alguém que estava completamente sozinho naquele mundo.

- Tatsumi – disse discando no aparelho ao lado da cama o número que usava para falar com o mordomo e guardião.

- Srta!

- Eu quero que encontre a origem de uma ligação que recebi agora.

- LIGAÇÃO A ESSA HORA! – gritou Tatsumi do outro lado da linha, já pensando em estrangular o sujeito que teve a audácia de incomodar sua jovem mestra.

- Também quero que encontre Kamus, acho que vou precisar dos serviços dele.