CAPITULO IX: New Flow

-Radamanthys, o que foi?

-Temos que nos mandar daqui! AGORA!

-Mas por que?

-Porque o filho da puta descobriu e a vagabunda foi presa! Temos de sumir daqui agora!

-Mas pra onde nós vamos?

-Encontrar com William.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

-Mas como isso aconteceu? - perguntou William.

-Eu não sei.

-Você nada sabe Radamanthys!

-William, ambos sabíamos que uma hora ele ia descobrir. Quando me perguntou o que eu achava, eu lhe disse que essa mulher era um excesso. Ela vai abrir o bico e a policia vai vir procurar a mim e Pandora.

-Não vai, não. Os dois ficarão aqui. Isso é um subterrâneo. Ninguém os achará. Além do mais, eu tenho planos pra você, meu filho.

-Planos para mim?

-Sim. Você escolhe depois se a moça vai seguir você ou não.

-Seguir no que William?

-Calma meu filho. Ainda está um pouco cedo para saber. Não tenha pressa.

-Mas William, o que faremos quanto ao caçador? Enquanto vinha para cá fui informado de que ele já saiu do hotel onde estava antes. Mandei todos aqueles que nos servem ficarem de olhos abertos em todos os cantos da cidade.

-Fez bem. Mas agora que ele sabe que eu sou o real contratante, seu orgulho falará mais alto. Ele não vai deixar somente a vampira provar suas balas de prata. Vai querer vir atrás de mim. Mas antes de fazer isso, vai precisar montar uma boa estratégia. Isso vai nos dar um pouco de tempo. Mas é claro que não podemos esperar só por ele e pelos seus, meu filho.

-O que pretende fazer?

-Verá.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

Tudo bem. Era hora de recomeçar tudo. Tinha de montar uma nova estratégia. Começar uma nova estratégia. Começar por um novo foco. E agora ele teria de ser William. Só depois voltaria para a vampira, afinal de contas, tudo que precisava saber, só ela poderia contar. Seria uma trégua. Teria de fazer aquilo.

Aquele quarto naquele novo hotel até era aconchegante, mas sentia falta da varanda. O hotel era bem mais afastado do centro, mas era perfeito. Agora precisava só cuidar de poucas coisas por ali e logo logo encontraria Jillian.

x-X-x-X-x-X-x-X-x

3 dias depois.

-Você tem certeza de que já se encontra bem pra lutar?

-Não vim aqui para o duelo.

-Não? Então pra que?

-Antes de qualquer coisas, eu quero propor um trégua.

-Uma trégua? Com essa baita pistola ai no coldre? Ah, tá bom. Você acha que eu nasci ontem?

-Como se você não tivesse uma igualzinha dentro do seu sobretudo. Olha, é sério. Nada de balas de prata e nem ofensas por um tempo.

-Quanto tempo?

-Não sei. O tempo que for preciso.

-Você não tá sabendo negociar.

-E você tá abusando da minha boa vontade. Jillian, é sério. Você sabe porque eu estou propondo essa trégua. E sabe que isso é algo que também possa lhe interessar.

-Agora sim você tá falando a minha língua. Quanto do seu orgulho você tá abrindo mão pra me propor isso?

-Uma boa parte.

-Eu aceito a trégua.

Os dois estenderam as mãos e selaram o pacto.

-Então, além dessa paz temporária o que mais você queria?

-Algumas explicações. E algumas respostas.

-Explicações do que? Respostas para quais perguntas?

-Primeiro, por que a gente sempre tem de se encontrar nesse cemitério?

-Qual o problema de fazer isso aqui?

-Já cansei de incomodar os mortos.

-Você ainda não percebeu?

-O que?

-Aqui é o único lugar onde nós dois somos iguais.

-Você e suas reflexões que me tiram o sono.

-Ora, ora, então você anda pensando em mim...

O olhar sério do grego foi tudo o que ela recebeu como resposta.

-Tudo bem. Desculpa

-Será que a gente pode ir agora?

-Isso é um convite para um jantar? Se for eu aceito.

-Será que dava pra você parar de fazer piada por um instante que fosse?

Jillian apenas olhos nos olhos dele e sorriu.

Sem trocar muitas palavras os dois foram em direção à saída do cemitério. Lá fora o BMW série 3 preto e conversível estava estacionado.

-Carrão hein... Mas o que aconteceu com a Harley?

-A Harley não era minha. E eu precisei trocar por uma coisa que não chamasse tanta atenção.

-Ah claro! E uma BMW conversível não chama nada de atenção né?

-Seria mais fácil me encontrarem pela Harley

-Agora entendi. E quando você for embora, vai devolver essa também?

-Não. Essa é minha. - disse abrindo a porta do passageiro para ela, que ficou lhe olhando – O que foi? Eu também sei ser educado.

Jillian apenas riu observando Saga dar a volta pela frente do carro.

-Então... -começou ela vendo-o dar a partida – Você saiu do hotel...

-Como sabe?

-Você tem cheiro, sabia?

-Ora, ora, então você foi me procurar no hotel...

Jillian riu e balançou a cabeça.

-Sabe, ainda não te agradeci.

-Pelo que?

-Manuela.

-Ah, a ruiva falsa.

-É. Obrigado.

-Por nada. - ela disse e depois começou a rir.

-Qual a graça?

-Pra onde você está indo?

-Você vai ver.

-Por esse caminho você vai parar do outro lado da cidade.

-Está com medo?

-Até parece que você não tá louco de vontade de encostar o cano dessa D.E. Na minha cabeça e puxar o gatilho.

-Morrendo de vontade.

-Mas seria muito burro se fizesse isso.

-Exato.

-Realmente precisa de mim.

-Preciso.

-Essa trégua vai me transformar no que?

-Amiga. Parceira.

Ela riu mais uma vez.

-Acho que parceira define melhor. Quando isso acabar eu vou voltar a ser sua adversária.

-Na verdade, acho que nem um e nem outro. Amiga e parceira estão... sempre junto. Quando eu matar você, isso tudo acaba. Acho que a melhor definição seria colaboradora.

-Eu também prefiro. Assim não tenho que conviver com o remorso por ter matado o meu parceiro. É uma boa negociação. Você me usa e eu te uso. Eu gosto disso.

-Do que? De usar as pessoas?

-Não... Isso já é parte integrante da raça, não pode ser vendida separadamente.

-Do que então.

-De negociar com alguém como você.

-Não sei se levo isso como um elogio ou uma ofensa. Há alguns dias eu era um total idiota pra você.

-E era mesmo. Mas você finalmente acordou. Então tome isso como elogio.

-Que parte do seu orgulho você está abrindo mão pra fazer e dizer tudo isso?

-Um boa.

-Então estamos quites.

-Que lugar é esse?

O bairro era totalmente afastado do centro da cidade. Diferente do lugar onde Ferguson se localizava, as casa da vizinhança eram mais simples, mas muitíssimo bem cuidadas.

-Você vai ver.

A BMW então parou diante de uma construção já em ruínas. Os traços que ainda sobravam revelavam que aquelas paredes pertenciam à ma casa. Não dava para perceber nada de como era a fachada, pois a mesma estava bastante destruída. O musgo era o atual papel de parede e o telhado era adornado pelo brilho das estrelas. O terreno ao redor estava tomado por mato.

-Que casa é essa?

-Era a minha casa com Helena.

-Eu não posso acreditar nisso. Você me diz que não quer incomodar os fantasmas, mas olha pra onde você vem!

-Não é aqui onde quero conversar. Mais à frente tem uma praça. É lá onde quero sentar.

Saga puxou Jillian pelo braço até chegar na praça. Procurou um banco vazio com os olhos e logo o encontrou, dirigindo-se com ela até lá.

-O que? Sentava nesse banco com ela também? - perguntou sarcástica.

-Essa praça não existia naquele tempo.

-Hum... Tá. - sentou-se ao lado dele – Então. Que explicações quer que eu te dê e que perguntas quer que eu responda?

-Por que toda essa perseguição a William? Quando isso começou?

-Ah claro. Você tinha que entender meus motivos.

-Se vamos trabalhar juntos nisso, eu preciso saber, não acha?

- Tudo bem. Essa história toda começou há uns 50 anos. Eu já sabia que William fazia o tipo de coisas que ele faz. Isso não é de hoje e nem de ontem, é de mais além. Em todo esse tempo, eu só o vi uma única vez. Depois ele mesmo buscou exilar-se. Aonde eu não sei. Sei somente que permanece em Londres.

-Não consegue localizá-lo?

- Não. Não posso. Isso só funciona quando eu consigo perceber a fisionomia perfeita. Isso não aconteceu com William. Nem o cheiro eu consegui sentir. Sem saber como ele é ou como cheira, não posso fazer muita coisa.

-Mas por que você o persegue?

-Sabe, minha mente pode armazenar cada rosto que eu veja ou que eu enfrente. E eu posso me lembrar deles com perfeição. Um em especial. Adrian Salisbury. O vampiro que me criou. Eu posso jurar que era ele aquela noite...

-Não entendi. Você acha que William é na verdade Adrian Salisbury? Só por isso você o persegue?

-Isso é uma coisa que eu não sei se um dia terei certeza. Vampiros assumem muitas identidades para ficarem incógnitos. Adrian mal me ensinou o básico da sobrevivência e sumiu. Sinceramente, eu prefiro não reencontrar Adrian nunca mais. Como eu não tenho certeza de nada, esse passa a ser um motivo secundário. William uma vez tentou tirar Ferguson de mim, mas não conseguiu. Isso me rendeu posteriormente uma invasão em minha casa. Eu quase torrei no sol tentando dar um jeito nos invasores.. Fui salva graças a um grande amigo. Eu sei o que está pensando e não, não estou lendo sua mente. Ferguson é uma espécie de santuário para mim. É toda minha historia, todo meu passado. São todos os momentos que passei naquela casa que me fazem forte.

-Claro. Você tem bons motivos. Mas por que você tem que matar? Já passou pela sua cabeça que alguns daqueles que você atravessou com uma bala podiam ser inocentes?

-Caçador, caçador... Sem ofensas, mas o inocente aqui está sendo você. É claro que exceções existem, mas são raríssimas. São quase inexistentes aqueles que se consegue mudar a mente. Todos eles, todos os que já matei, se venderam a William pelo mesmo preço. Todos sem exceção se venderam só por causa de dinheiro, força, poder e temerosidade alheia. Tudo o que o sangue de William pode lhes dar. Alguns viraram vampiros, outros simples não mato só pela sede do sangue. Eu nem preciso matar chegar a matar alguém pra me alimentar. - disse levantando e dando a volta pra encostar-se no encosto do banco da praça, apoiando o braço próximo ao ombro de Saga – Antes eu do que ele. Já estavam todos vendidos.

-E o que você sabe sobre o playboy?

-Eu não sei como William apareceu na vida dele, mas sei que ele não é tão burro quanto parece ser. Tudo que William não pode fazer aqui, quem faz é Radamanthys. Como eu disse pra você, muito mais que um braço direito.

Ambos ficaram calados por um tempo. Uma leve brisa correu por ali, bagunçando os cabelos dos dois. A leve corrente de ar bateu primeiro em Jillian e a vampira arqueou o corpo para trás a fim de aproveitar ao máximo a boa sensação que aquilo trazia. Os cabelos formaram uma cascata vermelha sedosa e brilhante. Olhou de esguelha para o grego à sua direita. Ele parecia um tanto longe para sentir o mesmo que ela. Sorriu. Ajeitou-se e tirou o sobretudo para sentir a mesma sensação no resto do corpo. Voltou a curvar-se para trás. Entreabriu os lábios de leve.

-Está uma noite muito agradável, você não acha?

-Hum? - perguntou Saga acordando de seus pensamentos.

-A noite. Está agradável. - disse ainda na mesma posição.

A brisa continuava. Saga não enxergava nada do seu lado direito graças à cascata cor de cereja que caía da cabeça da vampira. Não enxergava nada, mas sentia muito bem aquele cheiro. Um cheiro doce e agradável. Era um cheiro diferente do que ele tinha sentido nela na noite em que ela resolveu bancar a pianista. Essa noite ele estava melhor. Sabia que já havia sentido aquele mesmo cheiro antes. Antes mesmo de todas as investidas para perseguir a vampira. Tinha que lembrar onde.

-Sim. Está.

-Ainda tem coisas que você quer saber.

-Sim. Muitas.

-E o que está esperando para perguntar?

-Eu não sei exatamente o que mais quero saber.

-Se você não se importa, eu não quero mais falar sobre William essa noite.

-Não tem nada que você queira saber sobre mim?

-Tem. Mas eu não quero perguntar. Ainda.

-Ainda? Por que o "ainda"?

-Você vale um bom desafio Saga e é alguém muito interessante. Já té disse isso. Já que, infelizmente, vou ter que te matar no fim dessa trégua, eu quero aproveitar um pouco mais.

-Vai sonhando.

-Cansei de ficar aqui. Anda, levanta essa bunda boa daí.

Saga apenas olhou divertido para ela, sem mexer um músculo que fosse das pernas. Não levantaria mesmo. Não queria sair dali. E não sairia.

-Tudo bem. Então vou pegar seu carro emprestado. - começou a caminha na direção da BMW estacionada na frente da casa em ruínas.

-HEY! Fica longe do meu carro!

-Ah... então assim você levanta! Anda.

Saga não tinha lá tanta escolha. Deixou que ela se adiantasse um pouco. Só então se deu conta de que o sobretudo que ela usava estava agora em suas mãos, deixando à mostra seu corpo. Perfeito. Nada de couro hoje, exceto pela peça pendurada nas mãos dela. Jillian usava uma calça jeans escura, uma blusa de cetim vermelho que parecia ser presa no pescoço. Enxergava somente a faixa de tecido brilhoso das costas. As botas também eram vermelhas e pareciam ser revestidas pelo mesmo tecido da blusa. Ela caminhava de uma forma lenta, mas nem tanto, e lembrava um pouco uma felina. E mesmo assim, ela ainda tinha um pouco da postura da dama inglesa que um dia ela foi. Daquela forma era fácil imaginá-la usando aqueles vestidos do século XVIII.

-Qual é? Vai ficar olhando com cara de bobo? Apressa esse passo!

Tudo bem. Uma dama inglesa corrompida pelos malditos anos vindouros.

Suspirou e colocou as mãos nos bolsos da calça. Caminhou até a BMW de cabeça baixa, escondendo o sorriso pelos pensamentos.

-Vai querer fazer o que agora? - perguntou olhando a lataria do carro novo, procurando qualquer pequena manchinha de impressão digital ou qualquer outra coisa que interferisse no brilho do conversível. Sempre que achava que tinha encontrado algo, esfregava a manga da camisa de botão azul marinho que ele usava com uma calça jeans clara e surrada e os coturnos militares. A jaqueta estava jogada no banco de trás.

-Se você continuar esfregando esse carro assim, daqui a pouco não tem mais tinha ai.

-Tá bom, tá bom. - Saga caminhou um pouco para o lado, afim de abrir a porta para a vampira – Por que você... - ia perguntar porque tanta pressa para sair dali, mas distraiu-se na cena que via.

Aquilo que o sobretudo escondia era muito melhor do que pensava!

-Por que o que?

Nem ouviu a pergunta dela, mas sabia que tinha que esboçar alguma outra reação para "acordar" de dentro do generoso decote da blusa da vampira. Sacudiu a cabeça para se livrar da imagem daqueles seios... perfeitos? É... Perfeitos. Nem grandes demais e nem pequenos. Simples, fartos e deliciosamente perfeitos. Merdas! Péssima hora e péssimo lugar para pensar naquilo.

-É melhor você vestir isso aí. - apontou para o sobretudo tentando não olhar para o vale vermelho da blusa dela.

-E por que? - a vampira perguntou dando de ombros. Saga agradeceu mentalmente. Ela não tinha percebido.

-Porque tá fazendo frio pra uma pessoa normal agüentar somente com um casaco grosso. Eu acho que você não quer chamar atenção estando sem sobretudo, num carro conversível, com essa temperatura.

-Entendi. Mas...

-Mas...?

-Qual o outro motivo? Esse que eu vejo e sinto que você tá lutando pra não dizer...

-Quer mesmo saber?

-An han. - respondeu com um sorriso jocoso.

-Tudo bem. Meu carro é novo e custou uma grana. E sinceramente, não quero correr o perigo de dar com ele um outro carro, num poste ou num muro porque eu me distraí com seus peitos pulando pra fora do decote.

Tá bom. Por aquela ela não esperava e a surpresa estava presente em seu rosto boquiaberto enquanto ele abria a porta da BMW.

Qual deles mesmo costumava fazer piadas com aquela conotação? Ah é... Ela. Mas ele... ele havia falado de seus peitos! E ele... costumava ser tão sério! Ainda não acreditava naquilo! Tentava absorver aquela história enquanto o olhava ainda incrédula.

-Por que tá me olhando com essa cara? Eu não tenho culpa de você ser gostosa! - disse dando a volta no carro para sentar-se no banco do motorista. Jillian arregalou os olhos e abriu mais a boca – O que é? Você pode ser vampira, mas que é gostosa, é. Eu não sou cego, porra.

Tudo bem. Quando em sua existência como vampira tinha ficado sem graça como estava naquele momento? Ah é, nunca. Mas que diabos estava acontecendo com aquele caçador? Estava gostando, mas com um certo receio. Estava com... medo? Medo do caçador?

-Ei, vai entrar ou não?

-Tá, eu já to sentando.

-Por que ficou com essa cara?

-Bom, é que eu tô acostumada com você me xingando desde a primeira noite que nos encontramos.

-Pensa que só você pode lançar elogios de vez em quando é?

Ela nada disse e Saga sorriu batendo a chave e ligando o motor potente do conversível. A vampira não abriria a boca tão cedo e percebendo isso, Saga resolveu ligar o som do carro. Estava sem cd's então teriam de se contentar com as estações de rádio. Tão logo o loiro apertou o botão "on", uma batida eletrônica misturada com pop começou a tocar. E alto. Saga murmurou um "que nojo" e trocou a estação, reconhecendo os acordes da música. Enquanto ouvia as notas do teclado, pôde ver pelo canto dos olhos a vampira passar a mão pelos fios vermelhos, ajeitando os que haviam se bagunçado com o vento. Quando os versos começaram a ser cantados, ela os acompanhou cantando em silêncio.

No fear, no pain

Nobody left to blame

I'll try alone

Make destiny my own

I learn to free my mind

Myself I know must find

Once more

Once more

Ficou um pouco abobalhado com aquilo. Ela sabia a letra. E parecia tão diferente do que ela era ou do que já havia visto dela.

-Impressionante.

- O que?

- Você cantar esse tipo de música.

-Por que?

-Não combina com você.

-Só porque me ouviu tocando Gluzanov, isso não combina comigo?

-Não, não é isso.

-Então, o que é? E o que combina comigo?

-Guns n' Roses. - respondeu rindo.

- Sem graça você. - respondeu entendendo a piada-trocadilho que se referia ao codinome que a imprensa londrina havia lhe dado pelas armas pesadas e os saltos finos: bloody rose.

Saga explodiu em gargalhadas.

-Ah, qual é? Cadê seu senso de humor?

-Nem de Guns n'Roses eu gosto. Patience me irrita!

-Sweet Child tem um riff e um solo bastante conhecidos.

-Só é conhecido porque virou modinha. Hoje qualquer um que ouça Guns n'Roses acha que conhece música.

-Isso é verdade.

-É... Se não fossem as circunstâncias nós até poderíamos nos dar bem, loirão.

Ambos ficaram calados por um tempo, ouvindo na estação bandas como Queen, Kamelot, Bon Jovi e Lynyrd Skynyrd. Difícil acreditar que estavam ali, juntos, no mesmo "ambiente", ouvindo músicas que agradavam a ambos, e mesmo com a vontade de descarregar as pistolas que ambos sentiam, não brigavam. Mas o silêncio já começava a incomodar, junto com uma dúvida que pairava na cabeça. Jillian resolveu acabar com aquela quietude.

-Agora tem uma coisa que eu quero saber.

-O que?

Ela hesitou 2 vezes. Baixou a cabeça e a balançou negativamente. Sorriu.

-Nada.

-Tem certeza?

-An han.

Mais alguns minutos em silêncio e ela resolveu quebrá-lo novamente.

-Você teria mesmo se distraído com eles?

-Com eles quem?

"Eles". - respondeu levando as mãos aos seios, aproximando-os um do outro, fazendo-os pular ainda mais pelo vale da blusa vermelha que ela usava por baixo do sobretudo aberto.

Saga desviou momentaneamente os olhos da pista e olhou para sua direita. Mais uma vez seus olhos se detiveram naquele vale, agora mais volumoso. A buzina que ouviu atrás de si o fez recobrar a consciência, pisar no freio e puxar o volante para a esquerda.

-Acho que isso responde a sua pergunta!

-É, responde. - disse ela na mesma "posição"

-Era isso que você queria saber?

-Não. - respondeu sincera e divertida.

-Ahn... Será que você poderia largá-los agora?

-Por que? Eles ainda te distraem?

-Tudo bem... Então eu encosto aqui e você continua segurando eles pelo tempo que você quiser. Podemos ficar aqui tá o sol aparecer. Eu não vou ter problema nenhum com isso. Agora você...

-Tá se divertindo, não é? - disse soltando os seios e fechando o sobretudo

-Muito. Você não faz idéia.

-No próximo sinal dobra pra esquerda.

-Por que? O que tem lá?

-Confia em mim.

-Desculpa Jillian, mas... Isso já é uma coisa além dos meus limites.

-Dobra. Você não vai se arrepender.

-Tudo bem.

Saga fez a curva à esquerda, andou um pouco mais em linha reta e logo começou a perceber um bonito parque aberto.

-Pára ali. - disse ela apontando o lugar para que ele parasse.

-Saiu da praça para vir a um parque?

-Desculpa se te ofendeu, mas... Eu não me sentia bem lá. Você estava perto do seu passado e eu não queria...

-Tudo bem. Eu entendo.

Jillian desceu do conversível sendo seguida pelo caçador. Saga a observou de longe. Ela andava olhando para o chão. As mãos agora se encontravam nos bolsos do sobretudo. Ainda tinha uma expressão divertida. Ele olhou então ao redor. O parque aberto era lindo. Realmente, não se arrependera. Realmente tinha de concordar com ela. Se não fossem as circunstâncias, eles poderiam se dar muito bem. Talvez até quem sabe... Ela era linda. E gostosa. Não pôde evitar um sorriso diante de seus pensamentos.

-Tudo bem loirão, agora eu realmente quero saber.

-O que? Espera. Vai colocar a mão na bunda agora? Por que se for isso, eu preciso sentar primeiro...

Jillian riu. E foi um sorriso que a deixou mais linda ainda.

-Não, não. Sem mãos em lugares estratégicos dessa vez. Apenas uma conversa normal.

-Que pena. Mas o que quer saber?

-Você... Tá sentindo o mesmo que eu? Assim, eu digo... tá se sentindo meio bobo com essa trégua? Perdido? Estranho?

-É... Eu tô. Mas... tá sendo algo... interessante.

-É... respondeu ela com um sorriso, desviando os olhos para o céu recoberto de estrelas.

De repente ela parecia tão normal. Tão desejável. Não que ela já não fosse, mas... Parecia tão... finita. Humana. Cada segundo que passava ela o surpreendia. Valiosa. Ele tinha a sua frente uma valiosa... inimiga. Mas também uma valiosa parceira.

-Por quanto tempo mais você vai ficar ai parado me analisando? Perguntou sem tirar os olhos do céu. Saga apenas riu.

-Isso é proveitoso pra nós 2. Deveria estar fazendo o mesmo.

-Existem muitas outras formas de analisar você. Também pode usá-las comigo, loirão.

-Acredite, eu uso.

-Ahn... Sei que não tem nada a ver, mas que dia do mês é hoje?

-10 de julho.

-Obrigada.

Engraçado. Após receber a resposta ela pareceu mudar. Senti um ar levemente triste ao redor dela. E antes de agradecer, foi como se de repente lhe faltasse o ar. Mesmo que ela não precisasse mais dele. Ela ficou diferente. Muito diferente. O que? Conheceria seus dois pólos naquela mesma noite?

-Agora eu sei o que mais queria saber.

Ela riu pela sonoridade da frase.

-Então pergunte. -respondeu sem voltar os olhos para ele.

-Aquela noite... Por que fez aquilo? Por que... Por que me ajudou?

-Eu respondi isso pra você naquela mesma noite.

-Não foi o suficiente pra mim. E eu não sei se você percebeu, mas ambos estamos nos dando respostas incompletas. E... bom... Eu gostaria da resposta completa para essa pergunta.

-Por que isso agora?

-Eu quero saber. Eu preciso.

-E por que?

-Apenas responda. Eu sei que não é difícil.

-Algumas coisas são mais difíceis do que parecem. Mas tudo bem.

-Por que me ajudou?

-Eu... Aquela noite eu... me vi refletida nos seus olhos, quando... quando eu também passei por algo semelhante. Muitos anos depois de ter perdido meu marido. Não é justo alguém passar por isso e depois de tentar acalma tudo, ser enganado. Nem mesmo um inimigo.

-Refletida em meus olhos?

-Por favor Saga, se não se importa, não quero falar sobre isso.

-Por que?

-Porque eu não quero sentir a mesma dor queimando em meu peito novamente.

Seu olhar era triste e sincero. Aquela mulher com certeza havia passado por situações tão dolorosas quanto as que ele havia passado e passava até hoje. Era por isso que a sentia tão forte. Ela havia passado por aquilo e pelo jeito havia vencido. Coisa que ele não havia conseguido fazer. Um pensamento lhe incomodou estranhamente. Será que... ela havia achado alguém para fazer parar a dor? Será que... estava com ele há muito tempo?

-Eu... preciso ir. - disse ela agarrando os braços.

-Por que?

-Preciso me alimentar. E eu tenho certeza de que não vai querer me ver fazendo isso. Além de descarregar todo o cartucho dessa D.E. em mim.

-Tem razão.

-E você não pode fazer isso.

-Não.

-Exato. - disse cruzando os braços – Então... Nos vemos.

-Espera.

Foi uma questão de segundos. Assim que Jillian se virou e deu o primeiro passo, Saga a puxou pela mão. A ruiva não esperava por aquilo. Tampouco encontrar os olhos verdes dele dentro dos seus. Um arrepio como nunca tinha sentido percorrer sua espinha. Aqueles olhos verdes lhe hipnotizaram, mesmo que momentaneamente. Não conseguia desviar seu olhar do dele.

-Como te encontro de novo? - Saga perguntou sem perceber o que causara a ela. - Sim, porque eu já me cansei de encontros em cemitérios... Não sou gótico e nem jogador de RPG.

-Bom... Ahn... - começou a responder saindo do ligeiro transe – Talvez... no bar do hotel...

-Não. Eu não posso voltar lá.

-Ah, sim... Claro... Então... Ahn... Por que não aqui?

-Aqui? Hum... tudo bem.

-E nada de BMW's. - um sorriso largo brotou em seus lábios.

-Hey! Qual é?

-Amanhã EU vou ter levar a um lugar que você não conhece. E não. Não tem nada relacionado ao meu passado.

-O que? Vai aparecer aqui num Audi conversível vermelho amanhã?

-Humm... Não. Mas você me deu uma boa idéia.

-Hey! Você não...

-Não precisa ter medo, loirão! - Saga ouviu somente sua voz, já que a vampira não mais estava ali.

-Vampira louca.

Continua...