Capítulo 9

"Nova Vida"

O tempo passou rapidamente e sem que eu me desse conta, o inverno chegava ao fim. Eu agora estava em meu nono mês e estava cada vez mais difícil fazer qualquer coisa, então passava a maior parte do tempo tricotando as roupinhas do meu bebê.

E não era só as roupinhas dele. Tinha feito um outro vestido para Sura no natal e Miroke me confessou que o cachecol que eu dera a ele de natal tinha sido a coisa mais bonita que ele tinha ganho de alguém, já que costurar era a única coisa que Koharu não sabia fazer. Em geral, as peças dela saíam sempre tortas. Lembro-me de ter me sentido o máximo com isso.

Eu estava tricotando uma camisa de lã, quando Sura entrou na sala.

- Já fez suas lições, Sura? _ eu cobrei.

- Já fiz, mas ainda acho chato. _ ela resmungou.

- Pensei que gostasse de ler.

- E gosto. Mas matemática é muito chato, eu não entendo nada daquele monte de números.

Eu ri.

- Mas você terá que aprender. Não quer poder ajudar o seu pai quando ele tiver uma fazenda bem grande e muitas cabeças de gado a serem contabilizadas?

- É... Acho que tem razão... _ ela concordou, e tive a impressão de vê-la saindo com o livro de matemática em baixo do braço.

Eu voltei a rir. Mas, de repente, uma dor muito aguda me acometeu. Eu me encurvei, a mão sobre a barriga.

- "Ai, minha nossa... Será que chegou a hora?" _ eu pensei comigo mesma.


A noite já tinha caído.

- "Céus, como pode doer tanto?" _ eu pensava _Ai! _ um novo grito surgiu de minha garganta. As contrações estavam muito próximas agora.

- Calma, Sango. _ Sura estava muito aflita _ Me fala, o que eu faço para te ajudar?

- Está tudo bem, querida... Tudo bem. _ eu tentava acalmá-la _ AI!

- O que está acontecendo? _ a voz de Miroke atravessando os cômodos da casa foi como um bálsamo para mim.

- Papai, estamos aqui! _ Sura gritou. Logo pude avistá-lo entrando no quarto _ O bebê de Sango está nascendo!

- Por favor... _ eu implorava _ Por favor, eu preciso de um médico.

- Em quanto tempo estão as contrações? _ ele me questionou.

- Mais ou... Mais ou menos de dois em dois minutos. AI! _ um novo gemido se formou _ Pelo amor de Deus, eu quero um médico!

- Não temos tempo. _ Miroke tinha um tom de quem sabia o que estava falando _ O bebê nasceria no meio do caminho. Teremos que fazer o parto aqui.

- E quem o faria? _ eu quis saber, olhando em volta. Era óbvio que Miroke não tinha trazido ninguém mais com ele.

- Ora, quem mais? _ ele questionou, demonstrando o óbvio.

- Você? _ eu exclamei, tentando me afastar daquele homem que me deixava mais nervosa a cada dia _ Nem pensar!

- Não se preocupe Sango. _ Sura comentou sorrindo, tentando me encorajar _ Papai já fez o parto de muitas vacas.

- Ah, agora estou muito mais tranqüila! _ eu disse com sarcasmo.

- Eu também fiz o de Koharu. _ Miroke comentou, tentando me passar confiança.

- Não quero! Você não! _ ele não me entendia. Tudo bem que éramos casados aos olhos de todos, mas ele nunca tinha me visto tão... Intimamente. Isso era constrangedor. _ Não quero! Tem que ter outra pessoa.

Miroke suspirou.

- Tudo bem... Eu acho que a fazenda dos Taisho é mais próxima... Talvez Agome... Mas eu não posso garantir... _ ele falava de uma forma um tanto ansiosa, e saía lentamente.

- Não! _ eu gritei, e sem saber porque o segurei pela mão _ Por favor, não me deixa sozinha. AI! _ senti uma nova contração.

Seus olhos safira estavam muito intensos em mim.

- Eu não quero deixar você. _ ele admitiu _ Mas não pode ficar como está. Esse bebê virá a qualquer momento.

Eu baixei os olhos. Minhas bochechas estavam em chamas.

- Está bem... _ concordei baixinho.

Miroke suspirou, virando-se para Sura.

- Sura, é melhor você ficar na sala enquanto trabalhamos aqui. _ ele recomendou.

- Tá. _ Sura concordou, saindo do quarto.


Os gritos de Sango invadiam toda a casa, fazendo a menina se encolher a cada um deles, apertando ainda mais a almofada.

Já estavam lá a mais de uma hora e nada parecia mudar. Até que, depois de um grito muito longo e alto, tudo se silenciou.

- Sango... _ ela gemeu, baixinho.

Mas o silêncio só durou alguns segundos. Logo foi substituido por um som abafado e muito conhecido. O choro de bebê. Seu pai apareceu na sala logo depois. Tinha uma expressão cansada, mas sorria.

- Acho que você já pode vir. _ ele comentou


Minha felicidade era imensa. Como era possível que até instantes antes eu carregava uma barriga imensa e agora tinha em meus braços o serzinho mais lindo do mundo?

Ele era todo perfeitinho, com seus cabelos chocolates como os meus. Os olhos pareciam ter um tom azulado, que com certeza tinham sido puxados de Kuranosuke. Mas eu não pude deixar de compará-los com outro par de olhos azuis que nesse momento brilhavam emocionados bem diante dos meus olhos.

- É lindo, não é? _ eu comentei, sorrindo.

Miroke correspondeu.

- Ele tem a quem puxar. _ ele soltou e eu voltei a ficar corada. Ele também pareceu um pouco sem graça com a sua sinceridade súbita _ Já sabe o nome?

- Eu gosto muito de Taichi. _ comentei _ Simboliza coragem, vitória.

- É um nome bonito. _ ele concordou _ O que você acha, Taichi?

Foi impressão minha ou o bebê correspondeu a voz de Miroke com um sorriso?


Um mês se passou.

Com a chegada da primavera, o solo estava pronto para receber as novas sementes para o plantio.

Ao cair da tarde, Miroke e eu estávamos cuidando da horta do sítio. Enquanto ele cavava os buracos, eu depositava as sementes e ia regando-as assim que ele as cobria com a terra.

Quando estávamos quase terminando, não resisti ao impulso de brincar com ele. Havia descoberto que adorava ver ele rindo.

- Ei! _ ele exclamou, quando eu o molhei com a magueira de água.

- O que foi? Não está com calor? _ eu provoquei, jogando mais água.

- Pára com isso! _ ele mandava, embora estivesse rindo _ Eu tenho que acabar aqui.

- Vem me fazer parar. _ eu provocava, jogando mais água.

- Você tem certeza de que é isso o que quer? _ ele ameaçou.

Eu o molhei mais uma vez, soltando um grito quando ele correu em minha direção.

Parecíamos duas crianças peraltas, trocando provocações e um correndo atrás do outro como dois bobos. Por fim ele me agarrou pela cintura e demos alguns giros, rindo como loucos.

- Papai... _ a voz de Sura nos chamou a atenção. Ela também ria muito da nossa atitude _ Papai, você está rindo de novo! _ ela observou.

- É... _ ele percebeu _ É verdade... _ seu olhar subtamente se tornou intenso _ ... Eu estou...

Sura continuou rindo ao entrar na casa. Foi só aí que me dei conta do quanto estávamos próximos. Os braços de Miroke ainda estavam em volta da minha cintura. Seu corpo ainda preso ao meu pela sua imobilização e nossos rostos estávam a centímetros.

Nenhum de nós conseguia falar. Não tenho idéia de por quanto tempo ficamos nos encarando, sem qualquer reação além de nossa própria respiração ofegante pela brincadeira e pelo clima tenso que se formava entre nós.

- San...go... _ eu o ouvi balbuciar, antes que seu rosto se aproximasse mais.

Foi um leve roçar... O choro de Taichi quebrou qualquer clima que pudesse haver entre nós e eu tive que sair correndo para atender o meu bebê.

Foi só um leve roçar... Mas por um milésimo de segundo nossos lábios tinham se tocado.

Percebi que o fato de não termos ido até o fim me deixara imensamente frustada. Finalmente as palavras de Agome começavam a fazer sentido para mim: "Ás vezes, o amor vem bem devagar... Com a convivência, por exemplo."


Estou indo mais rápido agora.

Eu quero concluir logo essa fic para poder me dedicar as minhas outras criações.

Eu estou procurando ser o mais fiel possível ao fim, mas uma adaptação ou outra se faz sempre necessária para que a história fique ainda mais intensa.

Espero que estajam gostando.

Já está indo para os momentos finais.

Bjus a todos.