Oitava Parte – O Mestre-Ferreiro do deserto.

Mais uma vez, o clã estava reunido no bar de Rachel, porém, excepcionalmente, todos bebiam água, exceto Samantha, é claro. O dia estava mais seco que o normal, até mesmo para a região árida das Planícies de Ida. Assim, nenhum dos fundadores espalhados pelo salão ainda vazio do estabelecimento parecia interessado em fazer alguma coisa que necessitasse de um grande gasto de energia.

Cada um se entretinha de sua forma: Leka e Zell estavam juntos em um canto, Riponga conversava alegremente com Wings, Samantha, já com a roupa nova de Desordeira (roupa, por sinal, escura com seus sapatos vermelhos, preferidos de todas as garotas do clã), empilhava garrafas (vazias), FC estava quieto encostado na parede junto à janela, Ju entalhava flechas a partir de troncos¹ e Shini lia um livro de aparência velha e surrada. Enquanto isso, eu observava todos com meu coelhinho cor-de-rosa no colo esperando que alguma coisa acontecesse antes que eu e meu amigo de pelúcia morrêssemos de tédio.

Passado o tempo, quando Ju já tinha feito para si uma boa quantidade de flechas normais e a pilha de garrafas de Samantha ganhava uma aparência frágil de que ia cair a qualquer momento, percebi a falta do outro integrante ruivo do grupo. O Mestre-Ferreiro Arathorn não aparecia já há quase um mês.

- Alguém viu o Ara? – Perguntei. Todas as cabeças se viraram para mim, para depois se fixarem em Shini. A amizade entre os dois era famosa, tinha quem acreditasse que, se não fosse por Joanne, o Sumo de cabelos prateados e o Mestre-Ferreiro ruivo estariam juntos e constituindo família.

- Hum... Eu lembro que ele saiu um dia meio apressado e falando rápido que ia não sei onde, mas faz tempo que não tenho notícias dele. – Comentou o Exorcista.

Assim que Shini terminou de falar, a porta do bar foi aberta por uma figura alta e encapuzada. Ficamos em silêncio encarando o recém chegado, e continuamos em silêncio quando este caiu no chão. FC foi o primeiro a levantar-se e ir até a figura caída. Com sua espada, ele levantou o capuz do homem, e eu, que estava mais próxima da porta, pude ver cabelos ruivos e crespos aparecendo por baixo do tecido. Passados alguns segundos de análise silenciosa, o Lorde comentou:

- Acho que é o Ara.

- Hein?! – Foi a resposta em uníssono de todos. Logo o som de cadeiras sendo empurradas foi ouvido e todos já estavam junto ao amigo caído. Shini começou a sacudir levemente o ombro do ruivo, preocupado.

- Ara! Ara, fala comigo!

- ... Água. – A palavra foi dita tão fraca que demorou um pouco para que todos entendessem o que ele queria. Assim que a mensagem foi captada, Ara foi rapidamente colocado em uma cadeira enquanto Samantha gritava para o dono do bar trazer uma jarra de água gelada e alguma coisa para ele comer.

Depois de terminar a segunda jarra e o segundo prato de Frutos do Mar Sortidos (enquanto era abanado dramaticamente pelas garotas), Ara deu um grande sorriso e agradeceu a ajuda. Todos deram um suspiro de alívio (exceto Zell e FC, não sei se eles sabem dar suspiros de alívio). Quando o sopro dos suspiros passou, um sonoro tapa foi ouvido.

- AI! Ju, me bateu por quê?! – Perguntou Ara, enquanto massageava a parte de trás da cabeça.

- Tu some e deixa o Shini preocupado! Quem tu acha que ficou ouvindo todos os pensamentos absurdos dele sobre o que podia ter acontecido contigo?! É melhor tu ter um ótimo motivo para ter desaparecido.

Shini deu um sorriso meio nervoso. "Nossa. Só o Shini para esconder esse tipo de coisa mesmo, acho que ele não queria que ninguém ficasse nervoso com as preocupações dele... E também explica o mau humor da Ju ultimamente." Como se lesse meus pensamentos, FC comentou em tom provocativo:

- Aah... Então era por isso que a ruivinha estava de mau humor... Pensei que fosse falta de s... – Antes da frase ser completada, uma flecha emudecedora acertou a garganta do Lorde, deixando a autora do tiro com uma expressão extremamente satisfeita.

Ara deixou escapar uma risada, descontraindo o leve clima de tensão.

- Desculpa, Ju, na próxima eu levo o Shini, aí ele não vai poder reclamar contigo. – Quando a Atiradora abriu a boca para protestar, foi interrompida pelo ruivo. – Bom, eu fui testar um machado novo na Caverna de Gelo quando apareceu o Ktullanux. A última coisa que eu lembro é da imagem de uma Rajada Congelante vindo para cima de mim.

- E você ficou todo esse tempo congelado? – Perguntou Leka.

- Não. Faz alguns dias um Arquimago apareceu e usou uma Chuva de Meteoros perto de mim, aí eu descongelei.

- Mas se foi há alguns dias... Porque só voltou agora? – Dessa vez foi Riponga quem o indagou.

- Bom... Quando me descongelaram eu lembrei que não tinha levado nenhuma Asa de Borboleta, então saí andando. Depois de passar pelos Titãs de Gelo, Yetis e afins, comecei a andar pelo deserto...

- E se perdeu? – Completou FC, que já não estava mais mudo e havia se colocado atrás de Shini, caso a esposa desse resolvesse atirar mais flechas.

- Não, só depois de encontrar o Atroce e quebrar a roda do meu carrinho no focinho dele.

- ... – A única reação que todos conseguiram formular.

- Então... – Continuou Ara. – Eu já estava mais desorientado que meu normal quando saí da Caverna, encontrei o Atroce e tive que sair correndo por causa de um Choque do Carrinho que deu errado, eu me perdi e... fim.

- Não sabia que era tão fácil quebrar um carrinho... – Comentou Samantha, tirando a rolha de uma garrafa com os dentes.

- Nem eu, nunca tinha conseguido quebrar um carrinho antes... Então, muito obrigado pela ajuda e pela água, mas vou consertar minha armadura, meu escudo, meus machados e meu carrinho. – Ele levantou-se com uma agilidade que eu não daria para alguém que recém havia sido salvo da morte por desidratação. – Alguém tem portal Prontera ou qualquer cidade do reino?

- Eu tenho... – Respondeu Shini. - Mas já se sente bem o suficiente, Ara? Não vai se perder de novo?

Ara deu uma boa risada e acalmou o amigo, colocando a mão em seu ombro:

- Não se preocupa, Shini, eu ainda volto para você essa noite!

Os dois riram. Ju, que estava juntando os materiais para encantar suas flechas, também deixou um sorriso escapar. "Que bom que ela não se importa...", pensei comigo mesma. Ara já se dirigia para a porta, acompanhado de Shini que pegava uma Gema Azul no bolso, quando lembrei que talvez tivesse uma chance de aumentar o número de páginas escritas em meu caderno.

- Ara! Posso ir contigo? Nunca vi um carrinho quebrado, gostaria de saber onde e como se conserta um...

- Claro, Carol!

Lá fora, dei de cara com o carrinho de Ara. A roda estava realmente quebrada, assim como boa parte dos equipamentos empilhados em cima.

- Tu veio carregando tudo isso pelo deserto? – Perguntei.

- Ahan. – Enquanto ele respondia, ainda sorrindo ("Sempre sorrindo..."). Logo Shini murmurou "Portal" e jogou a gema no chão, formando um cilindro de luz azulada. – Bom, as damas primeiro. – Falou o Mestre-Ferreiro, me dando passagem. Dirige-me até o portal e senti o chão se desfazer abaixo dos meus pés quando entrei na luz, fazendo com que o mundo ficasse escuro e confuso por alguns segundos. Logo senti a terra materializar-se novamente e eu me vi na cidade de Prontera. Dei um passo para o lado e meu acompanhante ruivo apareceu, trazendo seu carrinho de roda quebrada.

- O bom do portal do Shini é que é bem perto do ferreiro da cidade... – Comentou Ara, olhando para a longa rua que teria que atravessar até chegar à ferraria. – Acho que vou levar essas coisas até lá. Fica cuidando do meu carrinho enquanto isso?

- Acho que não tenho muitas opções... Se arrastar essa coisa um pouco mais é possível que ele se desmonte.

Ele riu, jogou a armadura sobre o ombro, pegou o resto dos itens e saiu carregando tudo em meio à multidão normal da capital do reino. Sentei-me ao lado do que parecia cada vez mais um amontoado de madeira com flores de enfeite amassadas e esperei. Em pouco tempo, o sempre sorridente Ara voltou ao meu lado, pegando o puxador do carrinho e começando a arrastá-lo em direção à Kafra.

- Agora, primeiro Payon, depois Alberta.

- Alberta?

- É, não tem muitos lugares com materiais para consertar carrinhos além da Guilda dos Mercadores.

- Não basta entregar para a Kafra e pedir um novo?

- Ah... Tem que esvaziar o carrinho e pagar pelo novo. Se tem como consertar não tem porque comprar outro.

"Bem que eu já havia ouvido falar que ele era, como se diz? Ah sim, mão-de-vaca".

Concordei com um aceno de cabeça e o segui em direção à Kafra Marianne. Pagamos a taxa de teleporte para Payon e de lá seguimos para a cidade dos Mercadores. Quando chegamos, Arathorn olhou para as escadas que teria que subir e deu um suspiro ao pensar que teria que arrastar aquele pesado equipamento.

Chegamos até o prédio da Guilda, depois de um belo exercício de levantamento de peso para passar pela escada. Ara falou com o Chefe Mansur depois que este atendeu um Aprendiz que queria tornar-se Mercador. Mansur ouviu Ara quando este explicou o que havia acontecido com o carrinho e nos levou até um depósito que eu nem sabia que existia. Dentro havia uma grande quantidade de peças, para todos os tipos e formatos de carrinhos. O Mestre-Ferreiro agradeceu e foi até o canto onde havia uma maior quantidade de rodas.

- Bom, muito obrigado pela companhia, Carol, mas acho que agora eu me viro sozinho. – Ele aproximou-se e sussurrou. – Não conta para ninguém, mas não é exatamente a primeira vez que eu quebro meu carrinho.

- Nem segunda, presumo?

Ele riu e voltou-se ao trabalho que lhe esperava, agachando para começar o processo de retirada da roda quebrada. Quando ele já estava mais distraído, perguntei, inocentemente.

- Onde tu nasceu, Ara?

O ruivo à minha frente parou de trabalhar e ficou em silêncio. Algo me dizia que seu sorriso costumeiro não estava mais presente em sua face. Alguns segundos passaram-se e ele se virou para mim, sorrindo novamente:

- Não sei ao certo. Talvez em Alberta mesmo ou um lugar próximo, como uma das ilhas ou algo parecido. Só sei que eu fui encontrado no porto da cidade e adotado pela Guilda de Mercadores.

- Ahn... – Peguei meu caderno e sentei-me em uma das caixas por perto. Apoiei meu material no colo e me preparei para anotar.

Sendo criado pela Guilda, Ara aprendeu desde cedo como vender o que fosse preciso para qualquer um. Ele tornou-se um Mercador oficial (pois antes já fazia algumas pequenas vendas, mesmo sem o título de classe) aos 10 anos. Começou vendendo utilidades nas cidades do reino. Foi assim que ele conheceu vários aventureiros e suas histórias, o que o deixou curioso para saber o que havia no mundo além das calçadas das cidades.

- Um dia o líder da Guilda percebeu isso... – Comentou ele distraidamente, enquanto tentava colocar o eixo novo no lugar. – Ele me mandou para Amatsu, entregar uma encomenda.

Porém, só se "esqueceram" de informar ao jovem Ara que a encomenda era para a casa da mãe do Imperador de Amatsu, que ainda sofria de uma doença misteriosa. Depois de ter sido expulso a gritos sobre-humanos da casa da boa senhora, Ara encontrou Shini.

- Ah, então foi assim que vocês se conheceram.

- Ahan. Melhores amigos desde então.

"Realmente, uma amizade antiga. Quase dez anos", anotei em um canto ainda não escrito ou rabiscado de meu caderno.

- Depois de um bom tempo treinando nas ilhas, voltei e me encaminhei para o teste que me tornaria um Ferreiro.

Mas Ara se demonstrou melhor quebrando armas utilizando-as contra inimigos do que as forjando. Também decidiu que preferia reter seu dinheiro a produzi-lo.

- E mesmo fazendo de tudo para economizar, meu bolso continua sempre perto do vazio. – O carrinho estava quase pronto, só faltava fazer a roda ficar no lugar, o que estava sendo um trabalho mais de paciência do que de força propriamente dita.

Como Ferreiro, Ara participou do clã Spirit, ainda quando FC era líder. Mas o clã foi desfeito. Ara tentou reconstruí-lo, sem grandes sucessos. Por esse motivo, junto de Shini e seus amigos do, também em decadência, GdS, criou o Pactum Scelleris naquela noite no bar de Veins.

- Continuei treinando... – Ara falou, enquanto girava e testava a roda nova. – Um dia cheguei ao nível máximo de um Ferreiro. Eu e o Shini fomos até a Valquíria e...

- Vocês foram juntos? – Interrompi. Era um pequeno detalhe que eu ainda não sabia.

- Ahan, a gente tinha combinado de ir até o Hall das Valquírias juntos. E então... Eu virei Mestre-Ferreiro e é isso. Nada de muito especial, só mais um garoto sem pais de Alberta.

Ele levantou-se e puxou o carrinho, testando-o. Depois de todo o trabalho, foi um alívio ver que funcionava perfeitamente bem. Ele riu alto e me abraçou com força.

- Funcionou, Carol!

- É, é, que bom, mas... – Tentei me soltar. – Tu já tá me machucando!

- Desculpa, desculpa. – Ele me soltou e virou-se para o carrinho, murmurando "Personalizar Carrinho", fazendo com que a aparência destruída voltasse a ter suas flores e cores normais. – Ah, esse carrinho de flores. Não vejo a hora de conseguir o "pipoqueiro" de novo.

- Mas tu não pode fazer o de panda já? – Perguntei.

- Posso, mas não gosto muito dele.

- Mas tem um pandinha de pelúcia! – Ele me olhou por um tempo e tornou ao carro. Usou a habilidade novamente, fazendo com que as flores desaparecessem e com que a madeira tomasse o formato do carrinho de panda. Ele aproximou-se e puxou o bichinho de seu lugar, entregando-o para mim.

- Toma, pode ficar.

- Mesmo? – Estendi a mão para receber o pandinha. "Tão macio e fofo!".

- Ahan, é teu. Até que o carrinho ficou bom sem ele, não acha?

Concordei em silêncio e abracei meu novo animal de pelúcia. Quando saímos para a rua, já banhada com a luz laranja do pôr-do-sol, lembrei de algo que Shini me contou na noite que soube do passado de Ju.

- Ara... É verdade que tu namorou com a Ju?

- Bom, namorar não namorei, mas cheguei perto.

- Mas o Shini também tinha a mesma intenção... Vocês não brigaram?

Ele ficou pensativo por um momento e falou:

- Não... Foi mais um período de rivalidade amigável. Não vejo porque eu brigaria com o Shini, nem que fosse pela Ju...

- E com o FC?

- Hahaha! Com o FC talvez eu soubesse que nunca ia dar certo... Acho que se eles realmente ficassem juntos iam acabar se matando! Deve funcionar com o Shini por que ele é calmo o suficiente, ao contrário da ruivinha. Ela explode fácil com coisas pequenas.

Ri nervosamente em concordância. Decidimos voltar até Rachel, onde todos estavam.

Ara pegou o emblema que deixava preso em seu carrinho e acionou a magia que permitia a comunicação entre membros do clã². Ouvi a voz dele em minha mente, perguntando quem podia buscar a gente em Alberta ou outra cidade. Wings respondeu que nós podíamos ir até Payon que ele nos buscaria. Enquanto seguíamos em direção à Kafra, já imaginava mais uma noite de festa no bar da capital de Arunafeltz.

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¹: só um pequeno detalhe: antes de escrever a fic eu me peguei pensando "Como um Cristal Azul ou uma GUELRA viram um punhado de Flechas de Cristal?". Minha solução foi imaginar que Arqueiros e evoluções aprendem a entalhar flechas em madeira, para depois encantá-las com o elemento que eles querem, aí sim usando a habilidade "Fabricar Flechas", que gastaria SP para encantar os pedacinhos de madeira. O que a Ju está fazendo nesse momento de inércia do pessoal do clã é entalhar várias flechas *com a faca de prata-herança-de-família* para depois atribuir o elemento que ela bem entender.

²: outro problema que eu tive que solucionar: como fazer as mensagens de chat clã ou chat grupo do jogo? De grupo eu ainda não sei, aceito sugestões, mas de clã eu decidi recorrer ao emblema. Como na minha fic o emblema é algo sólido que cada um carrega consigo, cada um saberia como fazer uma magia tal que permite a conversa entre membros, como uma conversa telepática em grupo ou something like that.

Notas da autora: primeiro de tudo, "ferraria" foi o que eu cheguei pra nome do lugar onde o ferreiro trabalha. Créditos ao meu primo, e agradecimentos ao Shini, ao meu outro primo e à minha mãe que me auxiliaram no processo de descobrir onde um maldito ferreiro trabalha.

Segundo, gomen ne? Demorei um poquinho ~~ Culpem a ESPM e a "Campanha ESPM por dias maiores", que não funcionou.

Terceiro, BRIGADA CHIBI AYAKO!!1!! *Abraça* Minha primeira leitora que deu um review sem que eu precisasse implorar/pedir. Outras pessoas (e eu sei que tem mais gente lendo, EU VEJO VOCÊS!1!1) podiam mandar reviews também :3~~ Eu amo reviews, eu como reviews no café da manhã. Reviews alimentam a autora e fazem ela continuar escrevendo. MANDEM REVIEWS! Plz? :3~~

Quarto, o título é uma piada interna do clã XD

Quinto! (E último) A próxima parte provavelmente vai ser a da Carol \o/ Sim, vou contar quem e o que ela é. Tudo graças ao Paulo, o Wings, que nunca me mandou a história completa dele ou a maldita fichinha que eu uso como base pros meus diálogos. Se ele mandasse, a próxima parte seria a dele, pq ele é fundador. Mas como não mandou, tô pensando em fazer ele virar um vaso na fic e a Carol vai ser a próxima. PONTO.