Olá mais uma vez! *-* E o casamento hein? Vi que tem gente com dúvida sobre a lua de mel, mas, garanto, não acontecerá tão cedo, afinal, é um casamento de fachada. Ou será que não? XD
Boa leitura!
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Erik fez uma placa de tamanho médio e pintou a palavra "Costureira" nela, ainda perguntando à Luciana se ela tinha certeza de que queria começar aquilo. Pendurou logo na entrada do sobrado, deixando a mesma bem visível e Francesca prometeu indicar seu nome para quem conhecesse. Os primeiros trabalhos de Luciana se resumiram em enxovais e mantas para berços:
- Assim você já vai treinando. – dizia a senhora, fazendo a menina rir.
Erik também se surpreendeu com a procura por seu trabalho: eram pequenos, como construir um abrigo para cachorros ou uma casinha colorida para a filha pequena de alguém. Bufava achando que isso era um insulto, mas nunca reclamou de nada e ainda recebia comentários de tom amigável e compreensivo:
- Eles dão trabalho, mas valem a pena. – disse um homem com duas crianças, enquanto Erik terminava de montar uma casa na árvore. – Vai ver quando os seus vierem.
Quanta pressão! Era como se todos desejassem vê-los com uma criança nos braços, andando por aí. Certo que a maioria dos hipócritas começou a sorrir mais do que o necessário para o jovem casal depois da união oficializada, mas ambos ignoravam. O que uma aliança não podia fazer...
A aproximação do jovem casal estava maior e a menina já tomava a liberdade de se intrometer até mesmo no modo que o marido se vestia, se oferecendo para cortar os cabelos de Erik que já estava parecendo um maltrapilho – isso acabou convencendo-o a aderir à tesoura:
- Corte direito, por favor. – pediu irônico e Luciana teve vontade de cravar a ponta da tesoura prateada naquela maldita cabeça.
O clima pesou quando ela pediu que ela desfizesse o laço da máscara, para que conseguisse cortar o restante do cabelo. Erik hesitou por um tempo antes de ceder, segurando a mesma contra o rosto com mais força do que o necessário e aliviando-se quando ela terminou a tarefa sem mais complicações.
Nunca pensou que cortar os cabelos seria uma experiência tão aterrorizante.
Luciana percebeu com o número de pedidos chegando como era desgastante à profissão que escolhera: estava passando boa parte das noites em claro e Erik acordava pegando a jovem terminando um complexo bordado que ela havia começado na noite anterior. A sala, que não era muito grande, havia virado seu ateliê e o rapaz estava sempre precisando pular o cesto com tecidos caso quisesse ir para algum outro lugar na casa.
Com a chegada do inverno os serviços externos acabaram e os pedidos para que canos de cobre fossem arrumados para o fluxo de água quente vinham seguidos: muitos, embora estranhassem o rosto coberto de Erik, o chamavam por ser fácil de encontrá-lo e também pelo preço razoável que o rapaz cobrava. O boato de que ele havia se casado com Luciana pela mesma estar esperando um filho em idade tão precoce ainda perdurava, fazendo muitos o contratarem por pena. Pelo menos em alguma coisa aquela fofoca estava ajudando.
- Dois meses se passaram desde que nos casamos, será que eles não perceberam que minha barriga não cresceu? – Luciana comentou indignada, enquanto terminava de tricotar um par de meias infantis.
- Deixe que eles acreditem, é melhor assim... – ria Erik, ainda constrangido por ter suas mãos usadas como apoio para as linhas de lã.
O aniversário de Luciana havia passado sem muitas emoções. Mais uma vez Francesca os presenteou com um bolo de confeitaria e mais um conjunto de macacão de inverno para bebês. Erik corou tanto quanto o dia em que se casou.
Comemoraram a data transformando o quarto de solteiro de Luciana no ateliê definitivo e comprando um colchão de casal para ocupar a cama que um dia foi de Giovanni. Seria melhor ter um lugar fixo para suas costuras ou Erik acabaria por sentar-se em uma agulha novamente. Pela quinta vez.
Não demorou muito para que os pedidos de pequenos consertos dessem espaço para pedidos maiores e de maior responsabilidade: primeiro, começou com um quarto e Erik agora já se via desenhando casas de pequeno porte, mas ainda sim, casas. E estava ganhando bem pelo projeto. Toda vez que algum cliente dizia algo que o fazia perder a paciência se lembrava de respirar fundo e explicar com o máximo de paciência que tinha uma saída melhor e mais viável o que, para seu alívio, era ouvido.
O frio era constante e já era possível ver a geada pela manhã congelando a superfície das gramas e plantas. De noite, Erik gostava de ficar no terraço olhando para o céu que sempre ficava muito limpo nos tempos mais gélidos, e ali passava muito tempo, às vezes horas, pensando. Tudo ali o lembrava de Luciana: o tanque sempre tinha alguma peça de molho, e seu jardim só tinham os caules endurecidos pelo frio e algum balde que ela teria largado pelo caminho. Estava cada vez mais difícil ficar perto da garota, ainda mais depois de admitir finalmente para si mesmo que estava apaixonado. Bufou. Tudo seria mais fácil se ela não fosse tão bonita.
Às vezes se pegava encarando as próprias mãos, imaginando culpado como seria tocar a pele clara e contornar o rosto com a ponta dos dedos, passando por cima das sardinhas claras que pintavam suas maçãs levemente salientes. Depois do breve beijo trocado em frente ao padre, a vontade de repetir aquilo aumentava e ficar muito tempo perto de Luciana o deixava incomodado e ligeiramente irritado. Começou a ter raiva daqueles longos cabelos negros e do modo como os olhos castanhos se apertavam quando ela ria, vendo-se entristecer derrotado logo depois ao perceber que não podia sustentar aquele sentimento negativo por muito tempo. Até mesmo a risada dela fazia seu coração bater descompassado e certa vez sentiu ímpetos de agarrá-la quando a mesma tropeçou e esbarrou nele.
Não conseguiu dormir àquela noite pelo sentimento de culpa atormentando seus pensamentos.
Naquela noite em especial, Erik havia ficado no porão, deixando a porta entreaberta. Fazia tanto tempo que não arriscava nenhuma nota no velho piano que precisou parar diversas vezes para afiná-lo.
- Fazia tempo que você não tocava. – uma voz conhecida disse, se aproximando.
- É mesmo... – ele respondeu, alisando os dedos sobre as teclas.
Luciana sentou-se na cama ao seu lado ajustando o xale de lã que ganhara a alguns meses de Erik em volta dos ombros. Ambos ficaram quietos, cada um olhando para um canto. O vento frio parecia assobiar do lado de fora e logo os primeiros flocos de neve começariam a cair.
- Sabia que eu ficava acordada de noite para te ouvir tocar? – o comentário pegou Erik de surpresa.
- Como? – perguntou ainda perdido.
- É verdade... – sorriu sem graça. – Eu ficava sentada do lado da porta do porão, ou às vezes no terraço, para te ouvir tocar... – e ela encarou as pernas, balançando rapidamente. Erik já havia reparado que Luciana fazia isso quando ficava nervosa.
- E você gosta?
- Você toca muito bem... – disse em tom baixo, olhando para as teclas amareladas pelo tempo. – Posso pedir que toque alguma coisa? – ele concordou.
- O que gostaria de ouvir?
- Uma valsa, talvez?
Respirou fundo e se ajeitou no banco, tentando se lembrar de alguma valsa específica. Seus dedos estavam tão calejados pelos serviços que ele sentia estar agredindo o instrumento. Lembrou-se de uma curta valsa de Chopin, irritando-se por não se lembrar de qual execução ela pertencia e começou a tocar, correndo os dedos esguios pelo teclado. Para Luciana era mágico. Ela nunca tinha visto a execução de Erik no piano antes, e agora lá estava ela, de olhos arregalados, emocionada com a facilidade que ele apresentava em executar tão perfeitamente a música: seus longos dedos pareciam deslizar sem nem mesmo tocar as teclas, como se elas soubessem o que ele queria e o fizessem sem esforço algum. Ao terminar a música, Luciana riu encantada:
- É mágico... – balbuciou.
- Não, é só o piano... – brincou olhando para o suporte vazio da partitura.
- Digo você. – Erik sentiu o rosto esquentar. – Onde aprendeu?
- Não sei... Acho que um pouco sozinho e um pouco com a minha mãe...
- E como é sua mãe? – perguntou interessada.
- Ela morreu. – declarou seco.
- Sinto muito... – murmurou constrangida. – Eu nunca soube tocar... – mudou de assunto, se aproximando do piano. – É muito difícil? – perguntou, tocando em uma das teclas.
- Não para mim.
- Nossa, me desculpe! – riu ofendida. Erik não tinha reparado em como a resposta soara grossa.
- Quer aprender?
- O mestre ensinaria? – perguntou com tom irônico.
Erik deu espaço para que Luciana se sentasse e essa se aproximou entusiasmada. O contato fez o rapaz lembrar-se de seus mais íntimos desejos e foi uma tarefa muito difícil conter-se para que a voz não saísse tremida. Já para Luciana, não era fácil ser aluna dele, ainda mais por ambos terem temperamento tão difícil, mas ela se esforçou para acompanhar os movimentos, sentindo os dedos travarem entre uma passagem ou outra. Parava de vez em quando para massagear as articulações que pareciam encaroçadas e voltava sua atenção aos ensinamentos de Erik, que a corrigia severamente, parecendo assumir outra personalidade, mais rígida, quando sentado à frente do piano. Sua voz grossa parecia retumbante e Luciana sentia-se diminuir em cada falha. Todos os erros eram criticados, mas os acertos recebiam um "Muito bem" dito com polidez, sem grande entusiasmo.
- Acho que por hoje eu desisto. – declarou vencida, depois de errar a última nota. Percebendo o desapontamento de Erik, completou. – Por hoje, eu quero continuar tendo mais aulas...
E isso foi o que mais incomodou Erik. Não o fato de Luciana querer ter mais aulas, mas sim o fato dela ficar perigosamente perto dele nesse meio tempo. Ela nunca havia perguntado, mas era possível ver os olhares curiosos para cima de sua máscara e ele se perguntava quando Luciana pediria para ver seu rosto.
Era fácil invejar algo tão diferente do que tinha, e ele inveja Luciana: um nariz perfeito, a pele lisa... A cada dia que passava ele sentia-se mais tentado a uma aproximação, mas sempre se frustrava lembrando-se do rosto que escondia. Se fosse correspondido, provavelmente ela exigiria vê-lo sem a máscara e isso estava fora de cogitação. Ela exigiria a anulação do casamento, bem podia prever e ainda que metade de Roma começasse a falar, Luciana enfrentaria todos para se ver livre do monstro.
Erik não queria que tivesse o casamento anulado, ainda que o mesmo não existisse fora do papel.
Sim, ele estava com esperanças, mesmo que duvidasse que um dia Luciana dissesse estar interessada nele de alguma forma e esta, por sua vez, ficava rolando na cama de noite pensando em todos os meios de poder se aproximar de Erik. Por um tempo, se conformou em serem apenas amigos – isso se eram mesmo – mas depois do casamento em que ela o viu derramando lágrimas emocionadas e que não negou seu beijo, sentia uma ponta de esperança iluminar o possível futuro deles. Casados já eram e da atual situação para um relacionamento de verdade era questão de tempo.
Faltava saber de quanto.
