Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.
Muito obrigada pelas reviews *.*
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Só mais uma mentira
Quando Armin regressou ao quarto, onde Eren finalizava o tratamento, reparou que embora estivessem silenciosos, o clima tenso dos últimos dias havia desaparecido. O companheiro estava visivelmente mais calmo e viu também um ligeiro rubor na cara do Alfa.
Isso de certa forma deixou o Ómega loiro curioso acerca do que teria acontecido. No entanto, era consciente que nem era preciso que Levi tivesse dito alguma coisa. Armin tinha notado os olhares e a atração de Eren por Levi e não o podia censurar. Afinal, até mesmo ele como Ómega, mal conseguia disfarçar o interesse no jovem com heterocromia.
A atração entre Ómegas existia, mas não era um traço comum. Se bem que o loiro sabia que apesar de muito atraentes, as feromonas não eram o único aspeto apelativo do companheiro. Por muito rude que por vezes fosse com as palavras, Armin gostava da frontalidade e sinceridade com que o outro dizia as coisas. Consequentemente, era fácil ver quando tentava mentir e por muito convincente que quisesse ser, o loiro podia ver e identificar com facilidade as palavras forçadas.
Também admirava a determinação e a assertividade com que fazia as coisas, e que apesar de ter vivido na Cidade das Trevas não era alguém derrotado ou cético, como dizia ser.
Caso não acreditasse em coisa alguma, não almejaria viver conceitos como a liberdade.
Nem mesmo um passado que claramente o tinha marcado, apagou o sonho, o desejo de ser livre e o acreditar que podia viver uma realidade diferente.
Armin desconfiava que nem mesmo Levi se apercebia como era alguém sonhador. Tinha a certeza que se dissesse algo assim, o outro o chamaria de idiota e perguntaria onde tinha batido com a cabeça.
Contudo, ele era um sonhador mesmo que não fosse consciente disso. Só que não era o tipo de sonhador que esperava que um dia as coisas melhorassem sem fazer nada. Ele era o género de sonhador que lutava para tornar os seus desejos uma realidade.
O loiro nunca tinha conhecido um Ómega assim. Um sonhador e lutador.
Além disso, mesmo que não fosse particularmente alto, como era uma característica comum à espécie, a verdade é que não tinha a constituição física habitual. O corpo era forte com os músculos desenvolvidos numa proporção que o favorecia muito e que fazia o loiro observá-lo várias vezes quando trocava de roupa.
Antes de ter partido as costelas, todos os dias assistia às flexões e outros exercícios para manter a forma. Levi dizia que para ele nunca era uma hipótese descuidar a força que aprendeu a controlar e melhorar.
Armin tentou acompanhar o ritmo dele algumas vezes e envergonhou-se pela sua falta de aptidão física, embora tenha valido a pena ver Levi tentar segurar a vontade de rir.
Os sorrisos eram raros, mas o loiro achava que fazia o outro ainda mais atraente.
E claro, adorava também aqueles momentos muito pontuais em que Levi passava a mão nos seus cabelos e deixava que ficasse perto dele.
Essas coisas faziam com que pensasse como iria sentir a falta dele, mas já tinha decidido que o ajudaria a deixar aquela casa.
Entretanto, teria que concentrar os seus pensamentos em formas de impedir que Levi ficasse a sós em casa com o Comandante, ou pior, com Nile. Este último era bem mais preocupante.
- Como está a correr a recuperação dele? - Questionou Armin.
- Muito bem. - Respondeu Eren. - A regeneração está a atuar sem problemas e por isso, penso que daqui a uns dias, também já posso tirar as ligaduras.
- Ótimo. - O loiro sorriu. - São boas notícias não achas Levi?
- Sim. - Murmurou.
O rapaz de cabelos negros tentava minimizar a respiração e não queria que Armin se aproximasse, pois sentia as feromonas do outro Alfa envolverem-no por completo. Por muito que soubesse como o outro era tratado de forma diferente pelo Comandante, a ideia de que o loiro gostasse de ser tomado por ele continuava a ser incompreensível.
- Acho que vou trocar umas palavrinhas com o Comandante Smith. - Falou Eren ao limpar as mãos numa pequena toalha.
Em seguida, levantou-se da cama e piscando o olho a Levi, disse:
- As melhoras e até amanhã.
- Até amanhã. - Respondeu, desviando ligeiramente o olhar ao ver o Alfa sorrir perante a resposta e depois de pegar na maleta, saiu.
"Com alguma sorte, quem sabe o Eren consiga convencê-lo. Será que o devia ter alertado para as intenções do Comandante? Mas acho que com o fim de semana tão próximo, o Eren vai falar sobre o assunto sem que seja necessário a minha intervenção", concluiu o jovem de olhos azuis.
- Vai tomar banho, Armin.
- Huh?
- Cheiras a gorila. Vai tomar banho. - Falou Levi.
O Ómega loiro sabia que não devia rir porque tinham acabado de insultar o seu Alfa, mas não foi capaz de evitar. A forma rude e direta que o outro tinha de dizer as coisas, às vezes podia ser bem divertida.
- Se tomar banho, dás-me um abraço? - Viu o outro arquear uma sobrancelha.
- Porque é que eu faria isso?
- Como recompensa. - Respondeu com um sorriso divertido.
- Recompensa?
- Pelo meu comportamento, por ser obediente e seguir os teus conselhos.
- Armin…
- Por favor? - Pediu.
- Tch… - Virou o rosto.
- Yeah, ganhei um abraço! - Disse animado. - Não demoro!
Após ter a reação que queria do outro Ómega, o jovem de cabelos dourados saiu do quarto. Por vezes, Levi alinhava nesse tipo de pedidos e brincadeiras e isso apenas comprovava as ideias do outro acerca do fundo bom que ele tinha, pois podia simplesmente deixá-lo a falar sozinho como fez inicialmente.
Estava prestes a entrar na casa de banho, quando ouviu as vozes do Comandante e de Eren. Teria ignorado a conversa se não tivesse escutado parte de uma frase em que o Alfa de olhos verdes dizia compreender a preocupação com a recuperação de Levi, mas que cuidaria bem dele.
Pelos vistos, Irvin acabava de anunciar que deixaria Armin ir a passeio até Maria, mas mesma permissão não havia sido concedida ao outro Ómega. Um aspeto que o moreno contestava de uma forma educada, mas Armin desconfiava que Eren teria que ser mais assertivo e convincente com as palavras.
Curioso pelo rumo da conversa, parou para escutar e só esperava que houvesse um desfecho favorável ou pelo menos, lhe ocorresse algo que pudesse dizer ou fazer, caso Eren não fosse bem-sucedido.
- Não duvido que cuides bem dos meus Ómegas, mas desta vez, faço questão de passar tempo com o Levi. Sinto que não tenho dado tanta atenção como deveria.
- Eu compreendo, Comandante, mas neste caso seria prudente que o deixasse comigo até porque estou na reta final do tratamento e não seria aconselhável fazer uma interrupção de dois dias. Pode adiar ou prejudicar a boa recuperação que tem tido.
"É um bom argumento", pensava Armin.
- Agradeço a preocupação, mas como tu próprio disseste a recuperação dele tem sido excecional e como tal, não penso que dois dias façam muita diferença.
- Comandante…
- Não digo que não o deixe ir numa outra ocasião, mas desta vez, quero que fique em casa.
"Ele também não o vai conseguir fazer mudar de ideias", concluiu Armin desanimado.
- O que será que posso fazer? - Murmurou Armin pensativo e entrou na casa de banho para um momento bem demorado debaixo do chuveiro, enquanto pensava no que poderia fazer.
Quanto a Levi estava próximo a uma das janelas do quarto, espreitando discretamente para o exterior onde viu o Alfa moreno passar até entrar em casa.
Contudo, a sua atenção voltou-se de imediato para a porta quando Irvin entrou e sorriu ao vê-lo.
- Ouvi dizer que estás a ter uma boa recuperação. - Disse, fechando a porta. - E consigo ver que de facto, pareces-me muito melhor. Também ouvi dizer que estão a contar contigo para uma viagem neste fim de semana. - Parou na frente do rapaz que o encarava com uma postura tensa. - Estou a pensar em deixar-te ir, mas preciso que continues a ser um bom menino. - Estendeu a mão até tocar no rosto do Ómega. - Consegues ser bem obediente?
- Sim, senhor. - Respondeu.
Levi sabia que o Alfa iria servir-se de qualquer motivo para o impedir de viajar e por isso, considerou que o mais acertado seria comportar-se. Além disso, estava quase totalmente recuperado e não podia deitar tudo a perder.
Portanto, quando Alfa se debruçou para alcançar os seus lábios, cerrou os olhos, mas não fez qualquer tentativa para se afastar.
- Agora, sabes o que fazer, não é? Quero um beijo tal e qual como o Armin te ensinou.
O Ómega esforçava-se por ignorar a náusea que sentia com a presença, toque, cheiro e gosto daquele que mordeu o seu lábio e fez com que tivesse que consentir o beijo. Felizmente, havia algo para o distrair. O gosto, as feromonas de Armin ainda se encontravam bem presentes e por isso, tornavam aquele beijo ligeiramente suportável.
Contudo, a forma possessiva e brusca com que o Alfa movia a língua e a boca contra o jovem Ómega, afligiam-no pela dificuldade e falta de vontade em acompanhar o ritmo. Ouvir o Comandante gemer e agarrar a sua cintura com força suficiente para o marcar também o preocupava.
Felizmente o beijo terminou quando Irvin notou que Levi ainda não sabia muito bem como respirar de forma adequada durante um momento como aquele. Porém, estava muito satisfeito com a submissão demonstrada e pelo facto, de o rapaz estar a tentar agradá-lo.
- Aprendes rápido. O Armin tem razão. - Comentou, acariciando o rosto do rapaz. - Só tens que aprender a respirar um pouco melhor. - Afastou a mão e retirou um papel do bolso na frente dos olhos de cores diferentes que mostraram alguma confusão. - Quero que me respondas a algumas coisas, meu anjo. Se me deres as informações que pretendo, recompenso-te, pode ser?
- Sim senhor. - Respondeu e viu o Alfa desdobrar o papel que na verdade, revelava-se como uma fotografia que entregou ao rapaz.
- Conheces esse sujeito?
Na fotografia encontrava-se um Alfa amarrado e amordaçado. Vários hematomas cobriram o homem, deixando-o quase irreconhecível. Repetia o quase, pois como o tinha visto diversas vezes, ainda o conseguia reconhecer debaixo da figura sangrenta.
- Sim… - Murmurou. - É o Eduardo.
- É o líder do grupo de Alfas com quem estavas? - Quis saber Irvin, congratulando-se pela ideia de ter decidido mostrar a fotografia ao Ómega.
- Não senhor. - Respondeu. - Mas era tipo braço direito dele.
- Hum… consegues identificar o líder se te mostrar mais algumas fotografias?
- Sim senhor. - Responde pensativo acerca das razões para aquelas perguntas.
- Muito bem, então vem comigo. - Falou e o jovem de cabelos negros assentiu e seguiu o Comandante pelo corredor até entrarem no escritório.
Em seguida, assistiu como o Alfa retirava várias fotografias de uma pasta e as espalhava sobre a mesa. Ao aproximar-se, Levi reconhecia cada Alfa e Beta, visto que o seu último proprietário era um Alfa bastante conhecido na Cidade das Trevas e dominava vários negócios ilícitos.
- Consegues dizer-me quem são e a hierarquia de cada um?
O Ómega agrupou as fotografias, referindo nomes e explicando as atividades e como se organizavam. Sabendo que o Alfa era um dos militares que realizava missões para desmantelar algumas redes desses negócios do mercado negro, só esperava que com aquelas informações fosse possível prender ou eliminar mais alguns monstros que vagueavam naquele local.
Não obstante esse desejo, o rapaz não era ingénuo ao ponto de pensar que os militares de Sina e Rose arriscavam-se naquelas missões para salvar as vítimas ou pelas razões vazias acerca de paz e segurança. Eles atuavam com rusgas e confrontos violentos sempre que deixavam de ter benefícios ou vantagens naquele mercado obscuro.
Portanto, Levi esperava que os confrontos entre eles acabassem no fundo, por eliminar elementos tanto de um lado como do outro.
Quanto ao Comandante estava surpreendido com o que o Ómega sabia, visto que Mike não tinha conseguido recolher tanta informação nos dias em que o teve. Porém, sem muita pressão, testemunhava na primeira pessoa como Levi revelava aspetos bem interessantes e valiosos para as próximas missões.
Não colocava a hipótese de que tudo fosse mentira porque também era muito bom a reconhecer quando alguém mentia e além disso, tudo era demasiado elaborado para que fosse inventado no calor do momento. Era evidente que o rapaz também não possuía qualquer tipo de lealdade para com o antigo proprietário, mas ainda assim teve que perguntar…
- Curioso, penso que o Mike terá feito perguntas semelhantes. Por que não lhe deste estas informações?
Consciente de que devia ser cuidadoso com a resposta, Levi pensou rapidamente nas palavras. Não devia mentir em tudo, mas a verdade devia ser formulada de uma forma que agradasse aquele homem.
- Tem a ver com a forma como perguntou e também o fez sem as fotografias. Isso não ajudou porque não sabia de quem estava a falar. - Hesitou um pouco. - E também… só devo responder a quem devo lealdade.
Um sorriso desenhou-se no rosto do Alfa.
- Hum, imagino que o Mike não tivesse estas fotografias e isso com certeza não ajudou muito, mas fico muito satisfeito com as tuas palavras. - Acariciou o rosto do rapaz que se manteve imóvel. - Mas em todas as tuas palavras, não falaste ou apontaste o líder. Aquele que pelos vistos, cuidou de ti.
- Não está em nenhuma das fotografias, senhor. O Alfa… o Mário não costumava envolver-se diretamente nas coisas. Age e controla os outros desde pontos diferentes, mas… - Afastou-se da carícia do Alfa e apontou para uma das fotografias. - Há uma escotilha, uma pequena porta por detrás destes entulhos. Dá acesso ao meio de um dos labirintos subterrâneos. A poucos metros da entrada há um Beta, o Jorge que fez o mapa do local, ou melhor, ele é o mapa. O Mário preferiu manter tudo fora do papel para evitar que essa informação caísse nas mãos erradas, mas se alguém conseguir apanhar esse Beta…
- Terá acesso ao mapa. - Concluiu o Alfa. - Ótimo, isso pode ser muito útil. De facto, surpreende-me que te tenham revelado tantas coisas.
- Pensavam vender-me a alguém de Sina, um homem de negócios que com certeza não me faria perguntas acerca do que via ou ouvia no meu dia-a-dia na Cidade das Trevas. A minha venda nunca seria para um militar. - Explicou.
- Então tive muita sorte em encontrar alguém que sabe a quem deve ser fiel. - Comentou o Alfa. - E posso saber como é que sabes que se esse Beta for apanhado, vai colaborar?
- Porque ninguém da Cidade das Trevas quer ficar lá. Tenho a certeza que conseguem dar-lhe algo que ele queira. A palavra lealdade lá tem pouco significado.
Levi também preferia que os militares desmantelassem a rede que o Jorge vigiava até porque aquele labirinto em específico era utilizado por exemplo, para dar uma falsa liberdade aos Ómegas. Basicamente, largavam-nos lá, dizendo que se encontrassem a saída, podiam fugir, mas a maioria morria ou era apanhada por algum Alfa que se divertiam com aquele "jogo".
- Meu anjo, há alguma coisa na superfície que queiras ver? - Perguntou o Alfa.
- Huh? - Balbuciou confuso.
- A tua recompensa. - Explicou sumariamente. - Foste um bom menino, quero recompensar-te.
- Eu… - Na verdade temia que fosse recompensá-lo de alguma forma perversa, portanto aquilo apanhou-o desprevenido. - Eu… não sei, senhor. Não sei exatamente o que há na superfície.
- Hum, então vamos pensar entre os dois e em breve, levo-te a algum sítio. Agora que estás a melhorar, podemos fazer muitas coisas. Embora saibas que tudo o que fiz é porque gosto de ti, porque precisavas de aprender. Não concordas?
Viu o Ómega baixar a cabeça.
- Sim senhor. - Respondeu, esforçando-se para não aparentar um tom de voz falso.
- Tão obediente, tão doce. - Murmurou, acariciando o rosto do jovem e erguendo-o para que se encarassem. - Tens uns olhos de tirar o fôlego a qualquer um. Quero um beijo que também me retire o fôlego.
Levi fechou os olhos e sentiu como o Alfa o enlaçava pela cintura e trazia-o para mais perto, antes de encostar os lábios. O Ómega não mostrou resistência às feromonas que lhe diziam para se submeter. Deixou o corpo quase mole e mesmo assim, sentiu o Alfa cravar os dentes no lábio que não entreabriu no momento certo.
Juntamente com a língua do Comandante notou o gosto do sangue que se misturava com a saliva, as feromonas e todas as sensações que o nauseavam.
Queria empurrar, golpear aquele Alfa e gritar para que nunca mais o tocasse.
Ser consciente de que uma reação dessas deitaria tudo a perder e que submeter-se àquilo era a melhor opção, deixava-o com um nó na garganta. Mais uma vez, sentia-se usado e sujo. Parte dele, queria até chorar de raiva por tudo o que tinha que deixar acontecer.
Não queria.
Odiava.
Sentia nojo daquele Alfa.
A certa altura, pensava que acabaria por tentar empurrar Irvin, quando o telemóvel começou a tocar. Algo que acontecia com frequência nos últimos tempos e que Levi agradecia sempre que acontecia. Aliás, aquele tinha sido um ótimo momento, pois originou a desculpa ideal para que o outro o largasse e indicasse que deveria sair. Mas não sem antes avisar que queria que mantivesse sigilo absoluto acerca da conversa que tinham tido no escritório.
Assentindo, saiu do escritório e dirigiu-se de imediato à outra casa de banho e desocupada para passar água na boca. Tencionava limpar não só o sangue do lábio cortado, como também o gosto do Alfa.
Em seguida, vendo as horas, acabou por ir até à cozinha iniciar a preparação da refeição. Mesmo que lhe tenham dito várias vezes que devia repousar, tendo em conta as dores quase inexistentes que tinha, não via motivo para continuar deitado na cama.
Ao entrar nessa divisão da casa, reparou mais uma vez como as janelas estavam sempre abertas e como o vizinho fazia o mesmo, era possível vê-lo passar algumas vezes. A circulação do ar também fazia com que fosse possível que inspirasse as feromonas que sem dúvida, era bem mais agradáveis do que aquelas que era obrigado a sentir todos os dias.
Porém, não teve muito tempo para observar os movimentos do vizinho, pois logo Armin entrou na cozinha com os cabelos molhados, t-shirt de cor verde musgo e uns calções pretos e de braços abertos. O loiro teve que aproximar-se, pois o rapaz de cabelos negros não foi ao seu encontro, mas mesmo assim não negou o abraço.
O loiro reparou no lábio cortado e nas feromonas do Alfa que envolvia aquele que tinha no braço e apertou um pouco mais o abraço, sobretudo quando recordou que caso não fizesse alguma coisa, iria deixá-lo sozinho e entregue à sua sorte com o Comandante e pior… Nile.
Levi apercebeu-se dos braços à sua volta, apertaram-no com mais força, mas não de um modo incómodo. Era como… se tivesse acontecido alguma coisa, mas como o loiro depois do abraço sorriu e começou a falar acerca do jantar, acabou por não ter a oportunidade de perguntar.
*_Eren_*
Nem mesmo as trocas de mensagens com os meus amigos conseguiam atenuar a desilusão que me acompanhava ao saber que não poderia levar Levi comigo. Nunca me passou pela cabeça que o Comandante fosse negar essa sugestão. Nunca o fez antes com o Armin e por isso, esperava que com o outro Ómega também não existisse qualquer problema.
Criei tantas expectativas em torno deste fim de semana…
Esperava que fora de casa, pudesse aproveitar melhor o tempo na companhia dele e conhecer um pouco mais do rapaz que se mantinha silencioso grande parte do tempo.
Logo agora que tinha voltado a falar comigo, não podia passar tempo com ele.
Aliás, em breve deixaria de ter desculpas para ir à casa do Comandante todos os dias e isso também me inquietava. Mesmo que ele se ausentasse muito, a verdade é que aquela era a desculpa ideal para estar com ele todos os dias.
Suspirei.
Não devia desejar que o mau estar dele se prolongasse. Se estava a melhorar deveria ficar feliz e até ficaria mais, se o pudesse levar comigo para conhecer os meus amigos e… passar tempo comigo. Aprender mais sobre ele. Entender se a atração era somente física ou havia algo bem mais sério por detrás de todo o meu descontrolo quando se tratava dele.
Demorei tanto tempo para controlar o meu temperamento e feromonas para que um Ómega repentinamente, colocasse em causa tudo o que me ensinaram a racionalizar. Se fosse só desejo, apenas atração física acabaria por acalmar-me com o passar do tempo, mas infelizmente não sentia isso a acontecer.
Pelo contrário, ficar perto dele e nem sequer tocar como queria, estava a enlouquecer-me.
Eu que costumava ter um sono pesado e sem sobressaltos, acordava a meio da noite inúmeras vezes, depois de sonhos… vívidos e intensos.
Subitamente, o meu telemóvel toca e quase tive uma síncope porque mais uma vez a minha mente estava a vaguear para pensamentos e imagens inapropriadas acerca de um certo Ómega. O que ao ver o nome no ecrã, teria que desaparecer por completo porque não era esse tipo de coisas que queria ter em mente enquanto falava com…
- Olá mãe.
- Olá querido. - Respondeu. - Quando pensavas ligar-me? Sabes que fico preocupada quando passas tanto tempo sem dar notícias.
- A última chamada foi só há uns dias. - Relembrei com um sorriso. - Mas desculpa, prometo que tento não esquecer-me de ligar mais vezes.
- Ou não andavas a evitar ligar porque andas a esconder-me alguma coisa? Andas outra vez a colecionar namoradas, Eren Jaeger?
Revirei os olhos.
- Não, mãe. Já expliquei que nunca andei a colec…
- Não mintas à tua mãe. - Tinha a certeza que teria a mão na cintura enquanto dizia estas coisas. - Pensas que me esqueço da cena que eu e o teu pai vimos quando decidimos chegar mais cedo a casa?
- Estava com amigos.
- Amigas, Eren. Amigas no plural em cima de ti e tu não estavas muito composto. Até hoje, não acredito que estivesses completamente vestido.
- Eu já expliquei que… bem, enfim, esquece não vou tentar mudar as tuas ideias fixas. - Concluí. - Ligaste para atirar-me à cara velhas histórias do passado?
- Liguei para saber se está tudo bem, se há novidades. - Disse num tom pouco inocente.
- Mãe… okay, com qual dos meus amigos falaste e quem esteve a inventar coisas?
- Oh Eren não acreditas no pressentimento de mãe?
- Foi a Annie ou a Mikasa? - Perguntei.
- Ah! Então é verdade que há alguém! - Disse satisfeita. - Disseram-me que andavas com a cabeça no ar, a fazer perguntas que só pessoas apaixonadas fazem.
- Eu não estou apaixonado. - Murmurei, sentindo-me corar e quase que podia ver o sorriso dela.
- Ah sim? Então, responde-me, conseguiste dizer isso sem corar?
- Oh mãe, por favor, precisas de parar com isto. Não está… a acontecer nada de especial.
- Quem é ela? - Perguntou curiosa e após uma longa pausa. - Ou ele?
- Não há… eu… - Respirei fundo. - Não posso sentir nada de especial por alguém que mal conheço. Eu… eu acho que… enfim, não faz sentido.
Credo! O meu cérebro estava a dar um nó e tudo porque estava a sentir-me no meio de uma contradição entre o que dizia e estava a pensar. E após um curto silêncio, ouvi um grito da minha mãe que me assustou por alguns momentos, até dizer:
- Quero saber quem é! Aww, o meu Eren finalmente está apaixonado!
- Mãe!
- Mas é verdade, não mintas, Eren Jaeger que eu ainda sou tua mãe e deves-me respeito! - E em seguida riu-se. - Oh meu Deus, o meu Eren é um romântico. - Ouvi-a soluçar.
- Mãe? - Perguntei genuinamente preocupado.
- Não sabes o quanto tive medo que isto pudesse não acontecer porque enfim, tu eras um pouco homem das cavernas com isto dos sentimentos, mas é tão bom ver que eu, o teu pai e os teus amigos conseguimos transformar-te de tal forma que até te apaixonaste à primeira vista! - A minha mãe estava literalmente a chorar de felicidade e obviamente só agora concluía que eu era capaz de ter relacionamentos normais. - Ai, eu estou tão feliz! Quero conhecer o meu genro! Quando vens cá? Tens que o trazer! Aliás, tu não entras nesta casa se não vieres acompanhado por ele. - Claramente já estava a fazer planos.
- Mãe, eu e ele não…
- Tu ainda não lhe disseste que estás com insónias por causa dele?
- Como é que tu sa… mãe puseste câmaras cá em casa?
- Estás com um tom de voz sonolento e além disso, os teus amigos também comentaram que estavas mais cansado que o habitual. Espero que até sejam insónias por pensamentos românticos e não porque já andas a montar o pobre do Ómega para recuperar o tempo perdido.
- Oh meu Deus, vou desligar! Não vamos ter este tipo de conversas!
- Oh filho, mas isto é perfeitamente natural. Nós já conversámos sobre isto.
- Vou desligar. - Avisei novamente.
- Desligas a chamada e eu corto-te algo que com certeza, te fará falta para o que tencionas fazer com o Ómega.
- Mãe… - Fiz uma pausa. - Espera lá, antes falaste como se tivesse a fazer… coisas com o Ómega e agora falas em intenções.
- A julgar pelas tuas respostas, começo a concluir que ainda não lhe disseste. Posso saber do que estás à espera? Eu já devia estar a ser visitada pelos meus netos. - Ouvi a voz do meu pai. - Grisha, meu querido, o nosso Eren está finalmente a fazer-se homem! Vem cá!
- Ok, vou desligar. - Falei, desligando a chamada e decidindo enfrentar as ameaças dela mais tarde quando voltássemos a falar.
Gostava muito da minha mãe, mas ultimamente não conseguíamos ter uma conversa normal sem que falasse da minha necessidade de casar e dar-lhe netos. Dizia que queria ver-me feliz, mas a julgar pelas lágrimas de felicidade e gritos que ouvi do outro lado, não sei bem quem de nós estava mais feliz com a ideia de casamento. Não que fosse contra essa ideia, mas não concordava com alturas ou idades certas para que isso acontecesse.
Basicamente, não concordava que outros definissem quando deveria procurar alguém, casar e ter filhos. Acreditava que essas coisas aconteciam naturalmente sem que tivesse que preocupar-me com prazos, mas obviamente ter os meus pais como exemplo a seguir, não ajudava a que quisesse seguir os meus próprios passos e não os que a sociedade queria impor.
Por outro lado, assustava-me a forma como a minha mãe continuava a ser capaz de ler as minhas reações ou palavras, embora…
- Apaixonado… - Murmurei com um frio na barriga e senti-me corar.
Achava que fosse um pouco cedo para definir as coisas dessa forma, mas não podia mentir que aquele Ómega fazia-me sentir de uma forma diferente e incomparável com outras situações.
Mas paixão? Talvez fosse cedo demais para classificar as coisas dessa forma.
No entanto, a chegada do dia em que levaria o Armin comigo frisou mais uma vez como queria passar por cima de proibições ou pessoas para poder trazer Levi comigo. Foi impossível não notar na surpresa e desânimo no rosto dele quando percebeu que o Comandante não o deixaria viajar comigo.
Pelos vistos, nem Armin nem o próprio Comandante o avisaram até ao momento. Ainda que eu também não pudesse ser ilibado disso, pois também não toquei no assunto. Podia ter feito nesse mesmo dia em que lhe tinha retirado as ligaduras, mas não tive coragem de o desanimar quando viu que finalmente, teria maior liberdade de movimento.
- Vou pedir ao Comandante para ficar. - Dizia Armin no quarto e com Levi a ajudá-lo a acabar de colocar as coisas na pequena mala que iria levar.
- Vais com ele e ponto final. - Disse o outro num tom seco.
- Mas Levi…
- Não estou chateado contigo, Armin. - Disse num tom monótono. - Sei que deves ter tentado convencê-lo e eu fui estúpido em acreditar que fazendo tudo o que queria nestes últimos dias, não lhe daria qualquer motivo para não me deixar sair. Tch, ele nunca teve qualquer intenção de deixar-me ir. - Suspirou. - Mas tu não ganhas nada com isto. Não vais pôr em causa o teu bem-estar por minha causa. Eu fico bem.
- Levi, na verdade preocupa-me que… - Sentiu o dedo indicador do outro sobre os seus lábios.
- Já estive sozinho com Alfas antes, não apenas um, mas vários e num ambiente completamente diferente e sobrevivi. Eu vou ficar bem.
Ao acabar de dizer essas palavras, Armin abraçou-o.
Levi não esperava que o Comandante o fosse impedir de viajar, mas mais uma vez censurou-se por ter sido tão ingénuo para acreditar nas promessas vazias do Alfa. Com isso finalmente, entendeu também os olhares preocupados e gestos mais constantes de carinho por parte do Ómega loiro que com certeza, soube do que ia acontecer, mas não quis dizer-lhe nada enquanto não tivesse a certeza que seria uma coisa certa.
O jovem com heterocromia não acreditava que aquele tivesse ocultado essa informação com más intenções e percebeu que o outro Alfa também o quis poupar do desapontamento.
No fundo, os dois tentaram acreditar que a situação mudaria até ao último instante, mas agora que ouvia os pedidos de perdão de Armin, entendia que não valia a pena descarregar nas pessoas erradas.
Afinal, não era nada de novo.
Só lhe tinham mentido… mais uma vez.
E sendo uma mentira de um Alfa, era só mais uma confirmação que não podia nem devia confiar em coisa alguma ou em ninguém.
Contudo, cada vez que cedia a um abraço do Armin ou trocava algumas palavras com Eren custava-lhe cada vez mais manter as distâncias.
"Foi a desconfiança que me manteve vivo até hoje", pensava vendo os outros dois entrarem no carro, "Mesmo eles algum dia… ", os pensamentos foram interrompidos com um toque no ombro do Comandante.
- Vamos entrar, meu anjo? Temos muito tempo para aproveitar.
-X-
Até ao próximo capítulo *
