Natasha percorria o vigésimo andar daquele dia, procurando em cada canto algum vestígio de Loki. – Andar 53 limpo, - disse em seu transmissor. Droga.
Ele não poderia ter ido longe. Jarvis não o viu sair, mas também perdeu seu rastro. A espiã quase riu: com toda tecnologia contida na Torre, Loki conseguiu se esconder com maestria. Nem Jarvis o conseguia rastrear. Ele terá escapado dali? Ido pras ruas? Isso que ela mais temia: fora da proteção deles, Asgard poderia a qualquer momento, com o seu guardião, localizá-lo e leva-lo embora. Se estivéssemos do mesmo lado, poderíamos pedir agora a localização dele, - pensou chateada.
O barulho da escuta soou: - Natasha, peça para Jarvis detectar vestígios de calor também acima do teto. Ele pode ter se escondido lá.
-Ele já fez isso, Steve. E lembre-se que Loki é muito frio.
Eles corriam contra o tempo. Sif já havia solicitado a presença de Thor na Torre solicitando para o guardião em seu clamor, ansiosa para contar a versão deles da estória, certamente suprimindo o que Fandral fizera. Miseráveis. Ela só esperava que esse guardião estivesse tido com os olhos voltados para o príncipe jotun naquele momento.
-Loki, Loki, onde você está? – resmungou para si mesma. Eles poderiam ter usado o rastreador que a tornozeleira possuía, porém a encontraram quebrada a dois andares abaixo do dele. Ele poderia tê-la retirado quando quisesse, no fim das contas.
Natasha sentia-se extremamente culpada. Foi com ela que ele havia desaparecido. Logo após o episódio lamentável com Fandral, a espiã levou o rapaz para outro cômodo para se recompor e se afastar da cena. Foi buscar um copo d'água para ele que estava no cômodo vizinho e, ao retornar, ele havia desaparecido. E tinha sido em questão de segundos.
Bruce apareceu ao seu lado. – Nat, já terminou aqui? Vamos ao andar 52, então.
Ela assentiu, pegando sua maleta com diversos instrumentos úteis de busca. – Banner, será que Hulk não conseguiria farejar Loki?
-Ele não é um cachorro, - disse rispidamente. – Oh, desculpe... – Ele respirou fundo. – Eu não acho prudente, Hulk é imprevisível. Poderia destruir toda Torre num acesso de raiva além do normal.
-Com ele sempre é além do normal.
Ele sorriu. – Menos com Loki. Porém ele pode ficar muito furioso com aquele Fandral, você sabe. Hulk já sabe do que aconteceu, e não quero uma tragédia aqui.
Eles foram caminhando para o elevador. -Você sente, a raiva de Hulk?
- A raiva dele vem da minha raiva. Toda ela.
Quando terminaram de olhar todos os andares da Torre, já era noite e o ânimo de todos estava muito baixo. Sif e Fandral permaneceram no andar deles sem se atrever a aparecer para os vingadores.
-Será que Loki conseguiu sair daqui? – perguntou Steve enquanto desabava em um dos sofás do escritório.
Tony balançava a cabeça. – Como Jarvis não detectou nada? – Murmurou para si. - Jarvis, passe novamente o vídeo. Quero ver o momento em que Loki saiu de perto da Natasha.
-Sim, senhor.
A imagem surgiu na tela, de Loki se dirigindo rapidamente para as escadas e, num certo momento, ele desapareceu como por encanto. Eles puderam ver Natasha correndo para onde ele tinha ido, sem certeza se era esse o caminho, e não encontrando nada ali. Loki teria corrido escadas abaixo e a câmera não tinha filmado nada dele.
-Muito estranho, - comentou Bruce. – As câmeras estão com defeito?
-Não, Banner, não estão. Loki deve ter usado um pouco de sua magia, o que ele pôde com as restrições.
-Como assim? – Steve estava pasmo. – Ele está com a magia dele?
-Não, caro capitão, não totalmente. Ele deve ter ferrado os pulsos para isso, para um pingo de magia possível.
Steve respirou fundo. – Se Loki usou só um pouco de sua magia, ele deve estar ainda em algum lugar da Torre. Com muito medo e dor. Se não for assim, Asgard já deve ter o recuperado.
Tony tomou mais um gole de seu drink e também desabou no sofá, muito cansado. – Não sei... Se estiver aqui ainda, usando a magia, pode estar praticamente morto... Porque, se não tiver usando, Jarvis já teria o localizado. – E fez uma pausa. - Estamos ferrados. Loki está ferrado. É o fim.
-Não podemos desistir, Tony. – disse a espiã. – Amanhã continuaremos.
-Não sei se teremos esse tempo, Nat. Thor vem aí. Espero que não derrube a Torre com aquele martelo.
-Vamos mostrar o vídeo do amigo dele tentando estuprar seu irmão. Quem sabe isso o sensibiliza e o ganhamos como aliado.
-Desculpe o que vou dizer, - disse Tony, - mas isso pode é excitá-lo. Thor é um tarado! Eu devia ter matado Fandral, - resmungou. – Um raio a mais e fim: aquele lixo teria morrido.
-E toda Asgard iria nos esmagar feitos ratos, - falou Natasha. – Fez bem em se conter.
Tony suspirou. – Vou pedir pizza, querem? Ninguém comeu direito hoje... Vou enviar uns pedaços envenenados para a dupla tico e teco.
~o ~
Pelas ruas frias de Nova York, um mendigo andava cambaleante para um dos muitos becos existentes. Ele empurrava um carrinho cheio de objetos, lixo e comida, e também com seu cachorro de estimação. Quando achou um local adequado, parou e se escorou em uma parede, tirando de seu casaco sujo uma garrafa de uísque que roubara. Tomou um longo gole da bebida e depois a guardou entre as coisas no carrinho.
-Saia já daí! – gritou uma voz feminina irritada. – É nosso ponto!
O mendigo não se importou e continuou onde estava, irritando ainda mais a mulher. – SAIA! Senão chamarei o Billy! Ele vai matar seu cachorro!
Ele rosnou de raiva e logo pegou seu carrinho, saindo dali a procura de outro beco onde poderia dormir. A mulher sorriu e se apoiou em uma das paredes. Ela acendeu um cigarro e ajeitou o vestido curto que usava, aguardando a chegada de um cliente. Suspirou olhando para o céu nublado, torcendo para que não chovesse. Naquele momento, ouviu uma tosse e virou seu rosto rapidamente para a direção do barulho.
-Você! Como veio parar aqui? Não tinha ninguém, tenho certeza!
Ela estreitou os olhos e foi em direção a um rapaz encolhido em um canto do beco, perto do lixo. – Ei... você está bem?
Outra mulher foi se aproximando. – Jessie, quem é? Outro mendigo?
Jessie tocou nele e logo se afastou, espantada. – Nossa, ele está bem machucado, olha os braços dele! Estão em carne viva!
-Deve ter sido os traficantes, deve está devendo algo a eles, só pode.
-Ele parece um garoto, Elisa! – Ela o analisava com atenção. – Não parece ser pobre, e é muito bonititinho, pelo que sobrou para ver.
Elisa suspirou, aborrecida. – Vai querer cuidar agora? Ele não é um gatinho que basta dar leite, o cara tá doente! Vai ter que fazer curativos.
-Eu faço, sem problemas.
A outra arregalou os olhos. – Caralho, está louca? Custa muito caro! E você tem que ganhar a noite, ainda. Senão, você sabe... Billy não vai gostar.
Jessie deu de ombros e ficou bem próxima ao rapaz. – Ei, vamos lá. Você está acordado? Entende o que eu digo?
Ele mexeu a cabeça com dificuldade e olhou para ela com seus olhos verdes. Ela pode ver vários hematomas no rosto e o nariz com sangue seco. – Parece que se meteu em briga, também. Venha comigo, eu vou tratar essas feridas.
Elisa rolou os olhos. – Você nem conhece ele, pode ser um assassino.
-Não parece, não com esses olhos. Eu sei de uma pessoa só de olhar nos olhos, e os dele são puros.
A outra riu enquanto Jesse ajudava o rapaz a se levantar. – Venha, é logo ali que eu moro, naquele prédio. São alguns lances de escada, venha.
-Ele é bonitinho mesmo, - disse Elisa. – Quem sabe não tirou a sorte grande?
A ida até o apartamento de Jessie foi doloroso para ele, ainda mais que os "alguns lances" eram, na verdade, até o quarto andar por escada, pois o elevador estava quebrado. Onde ela morava era pequeno, mas bem cuidado, e logo ele encontrou guarida em um dos sofás. – Vou ver onde está meu kit que primeiros socorros, deve estar no banheiro, ah, aqui, - Ela abriu a caixa e tirou vários itens. Colocou uma pomada nas feridas dos pulsos e braços, depois enfaixando cada um deles com cuidado. Também colocou pomada no rosto, para melhorar o inchaço, e limpou o sangue seco no nariz. Ela analisou a cabeça dele e viu outro inchaço na parte de trás e um pouco de sangue. – Sua cabeça vou lavar depois, não vai ser muito bom molhá-la agora. Está dolorido?
Ele olhou para ela e assentiu com a cabeça. – Está, - respondeu em voz rouca.
-Ora, ora, você fala! E tem um sotaque... De onde? Não é da América, é?
Ele sacudiu a cabeça, mas não disse mais nada. Ela suspirou. – Você me parece bem encrencado, mocinho. Machucados, roupas rasgadas... Onde estão seus pais? Não quer falar? Eu não vou te dedurar, uma coisa que Jessie aqui não é, é dedo duro. As pessoas costumam confiar em mim por causa disso. – Ela deu de ombros. – Hum... Você deve estar com dor, lógico. Tenho aspirinas, é o máximo que posso fazer, - disse indo para o quarto dela e voltando com uma cartela. – Pela sua cara, melhor tomar dose dupla. Toma a água.
Após ele tomar o remédio, ela sorriu para ele. – Qual seu nome? Não posso ficar te chamando por "mocinho". – Ele continuou em silêncio. - Não quer falar... Tudo bem. Mas vejo, pelas suas pulseiras que parecem de ouro, que você deve ser bem rico. – E ele notou o olhar de cobiça dela. - Vou lá fora pegar uma comida pra gente, gosta de pizza? No Joe's tem uma bem boa, e ele aceita fiado. É a melhor de Hell's Kitchen. Eu já volto.
Quando ela o deixou a sós, o rapaz tentou se erguer do sofá, mas se viu muito cansado e com dor em todo o corpo. Usar aquela magia indevida lhe rendeu sequelas em sua maioria desconhecidas. Ele respirou fundo, tentando reter a emoção que estava lhe sobrevindo, mas não adiantou: grossas lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto e ele começou a soluçar. Não adiantaria. Acessar sua magia teve um limite, agora ele estava exposto. O guardião, se procurasse, o acharia facilmente e logo toda Asgard estaria ali.
Sigyn... Perdoe-me. Acho que não vou conseguir voltar.
E isso doía nele mais do que tudo. Ela estaria sozinha, sem saber dele, talvez achando que ele tinha a abandonado.
Sigyn... Acho que quebrarei minha promessa. Não vou conseguir recuperar o que eu te prometi.
Loki sentiu-se tomado pela emoção, talvez a última em que pudesse expressar tão livremente, sem máscaras, e deixou toda dor fluir por ele, cada aspecto dela. A lembrança das mãos de Fandral em cima dele confundiu-se com a de Thor, e pode sentir vividamente a força de seu irmão contra seu corpo. Não, não pensaria nisso mais. Ele estava prestes a morrer e não queria ter, como última lembrança, o que ocorreu. Forçou seu pensamento em Sigyn: os longos cabelos dourados, o sorriso meigo, os olhos agora tristes. Com mais um pouco de esforço, pode se lembrar de como ela era antes: uma moça muito feliz.
A porta do apartamento se abriu e Jessie entrou, seu olhar rapidamente caindo sobre ele. – Oh, estava chorando... – Ela suspirou depositando uma caixa na mesa da cozinha. – Trouxe pizza de peperoni, gosta?
-Acho razoável, - respondeu secando os olhos.
Ela riu. – Razoável? De onde você vem, tem pizza de que?
-Não temos.
Jessie franziu a testa. – Tudo bem, mocinho misterioso. Seu sotaque é alemão? Coisa assim?
Loki franziu a testa. – Não sei o que quer dizer.
Ela trouxe um pedaço da pizza e um guardanapo. – Tratamento vip para você. Coma, não está tão rançoso. Mas nunca compre lá a de frango: é estragada. Já fiquei com dor por causa dela. Imagina, para trabalhar depois, horrível! – Quando viu que ele não comia, antes fazia uma leve careta, ela disse: - Sem fome? Pensei que não existisse alguém que recusasse pizza de peperoni, mesmo sem fome. Dá aqui que eu como.
Ele ficou analisando melhor a moça a sua frente: baixa, vestindo pouca roupa, cabelos ruivos e um pouco gordinha. Loki gostou dos olhos dela: castanhos esverdeados e muito expressivos. Jessie notou a observação dele e sorriu. – Gosta do que vê? Mas não faço de graça, sou uma profissional.
-Como?
Ela continuou a sorrir e pegou na mão dele com cuidado, a guiando para seus peitos. – Suas mãos são frias. Deixa que eu esquente.
Loki recolheu rapidamente a mão dele, assustado. – É uma prostituta?
-Sim, mas não me olhe assim, é uma profissão como outra qualquer! – E ela se ergueu chateada. – Se quiser, 30 doláres. Mas posso fazer um desconto para você, devido às circunstâncias. E porque é muito bonitinho, um bebê. E eu gosto de bebês.
Ele corou. – N-não. Obrigado.
-É porque não tem dinheiro? – Ela olhou com um misto de carinho e pena para ele. – Pode pagar depois.
Loki arregalou os olhos. – Não... Agradeço a oferta.
Ela bufou. – Tudo bem. Deve ser virgem. Mas se mudar de ideia, me avise. Agora preciso ganhar a vida, ficará bem aqui?
-Acho que sim. Obrigado... Por me ajudar.
Quando ela saiu, ele se ergueu lentamente e procurou algo parecido com banheiro e, lá, vomitou tudo que tinha no estômago. Depois foi até a cozinha, procurando por algum tipo de arma. Achou uma faca afiada e julgou suficiente. Loki voltou para o sofá e lá se estirou muito dolorido, escondendo a faca embaixo de sua perna, e o coração batendo forte. Quando saira da Torre Stark, seu único pensamento era terminar com a própria vida. Mas ele tinha mudado de ideia: se tiver que morrer, morreria lutando. E levaria consigo o quanto pudesse até Helheim.
~o ~
Torre Stark
Após todos jantarem, o engenheiro se dirigiu para seu quarto muito deprimido. Tomou um longo banho morno e colocou um moletom bem confortável para passar o resto da noite. Zapeou pela televisão em busca de algo para assistir e tudo lhe pareceu muito idiota. Pegou seu ipad e acessou um game, jogando distraidamente por quase uma hora.
Loki... Onde você se meteu?
Ele tinha medo que Thor já tivesse o capturado e que mais nada poderia ser feito. Também temia que o rapaz estivesse por aí, sua magia sugando toda sua saúde, e definhando até a morte. Balançou a cabeça, tentando afastar a imagem horrível que formara em sua mente. Ele estava vivo, ele estava vivo!
Tony respirou profundamente, tentando controlar seu pânico. Ele não queria acreditar que iriam perder essa. Que perderiam Loki.
O som metálico anunciou a fala de Jarvis. -Senhor, Thor chegou à Torre.
O engenheiro quis rir nervosamente. – Avise aos outros vingadores, J. Que se preparem.
-Sim, senhor.
Quando chegou ao último andar, já com sua armadura, viu que Sif e Fandral já estavam com ele. Havia uma pequena comitiva junto ao príncipe de Asgard, que incluía Volstagg. – Ora, se não é nosso asgardiano predileto, - cumprimentou Stark.
-Filho de Stark, - disse Thor com expressão fechada.
-A que devemos a honra?
Thor quase rosnou. – Eu vim recuperar meu irmão. Depois do que aconteceu, não é seguro mantê-lo aqui.
-Oh, mas não seja por isso. Tire Fandral e sua noiva e tudo ficará bem.
O asgardiano franziu a testa. – Não são eles o problema, e sim Loki. Sif me explicou o que aconteceu. Também já havíamos analisado em Asgard a questão. Fandral é inocente.
Sif sorria abertamente. – Fandral é um amigo legal. O mesmo não podemos dizer de Loki.
Naquele momento surgem os outros vingadores, devidamente armados. Bruce logo se dirige para Fandral. – Hulk não está feliz pelo que fez a Loki. Não o provoque.
Fandral ergueu as mãos. – Sou inocente, como Thor já disse.
-Thor, não sabemos onde Loki está, - disse o capitão. – Ele desapareceu após as ações de Fandral e até agora não sabemos de seu paradeiro.
Sif bufou. – E como ele sumiu? Procuraram em todos os lugares?
-Sim, procuramos, - respondeu Natasha. – O caso é que Jarvis, que monitora todos os andares dessa Torre, também não detectou a presença dele. Podemos supor que ele está usando sua magia para passar desapercebido, e, se for isso, Loki pode estar ainda na Torre ou não.
A guerreira deu um sorriso forçado. -Ora, então ele está usando sua magia... Está vendo, Thor? Ele ainda acessa a magia dele, deve ter feito o mesmo contra Fandral. Minha tese é correta.
-Não, não é correta, - rebateu a espiã. – Quando Loki acessa a magia dele, há retaliações em seu corpo por conta das pulseiras restritivas. Em uma vez que presenciamos esse fato, seus pulsos foram bastante prejudicados. Após retirarmos ele da presença de Fandral, não vimos piora em sua pele. Logo, ele não utilizou magia.
Thor estreitou os olhos. – Quer dizer que Fandral fez isso mesmo? Não foi enfeitiçado?
O guerreiro arregalou os olhos. – Eu não entendo... Eu sou amigo de Loki, gosto dele, desde a infância. Nunca faria mal a ele.
-Alguma coisa aconteceu, - disse Natasha. – Há múltiplas possibilidades, exceto de que Loki instigou o que houve. Ele é inocente.
Todos puderam ver o semblante de Thor tornar-se terrível. Ele espremeu o cabo do martelo em sua mão e raios e trovões já puderam ser ouvidos lá fora. – Meu irmão... Ele deve estar assustado.
Sif cruzou os braços. – Mesmo que ele seja inocente, ainda será condenado. Thor, lembre-se, isso que aconteceu faz dele um argr! E ser argr é crime! Em breve será o rei de Asgard, deve seguir as leis!
-Que porra de lei é essa? – perguntou Tony sem paciência. – Aqui na Terra as coisas são diferentes. O crime aconteceu aqui e as leis que devem ser seguidas são as nossas!
Steve bufou. – Não entendo, ele é a vítima, mas para vocês ele é o culpado? Isso é tão absurdo, não há lógica nisso.
Thor rosnou. – Nossas leis foram feitas há muitos séculos pelo rei Buri, avô do rei Odin. Nunca foram contestadas porque são leis de ouro, perfeitas e adequadas para o povo de Asgard. Loki ainda é cidadão de Asgard e deverá ser julgado por elas.
-Loki é culpado por promover o desejo de Fandral, - explicou Sif. – Essa é a lei.
Natasha respirou fundo, tentando se conter. – Então, pela lei de vocês, ele é sempre o responsável pela ação do outro? Mas sabemos que podemos ser responsáveis apenas por nossas ações. Como Loki controlaria o que outra pessoa sente, faz ou deixa de fazer? Como qualquer pessoa conseguiria isso?
Volstagg pigarreou. – O desejo de uma pessoa é instigado pela outra. Isso todo mundo sabe.
-Que pensamento de merda! – disse Stark furioso. – Eu não acredito que realmente acreditam nisso!
Natasha tentou mais uma vez. – Thor, isso tira toda responsabilidade da pessoa pelas suas ações. Transfere sempre para outra. Isso não é injusto? Mesmo que ela seja "instigada" pela outra, a decisão final é sempre dela. Uma pessoa tem todas as condições de resistir e agir conforme o que acredita ser certo. Se ela ceder, é porque quis. Tomou uma decisão que só ela pode fazer.
Sif rosnou. – Vocês querem mudar nossas leis? Os mortais? Vivemos por cinco mil anos, e vocês? Logo estarão mortos. O que sabem das coisas?
-Pelo pouco que percebi, há um erro grave de compreensão sobre responsabilidade.
-Basta, Lady Natasha, - disse Thor aborrecido. – Não viemos aqui discutir sobre nossas leis, e sim sobre Loki. Disseram que ele está desaparecido, isso é verdade? Nosso guardião não conseguiu localizá-lo, também, o que nos leva a crer que ele está usando magia.
Bruce abaixou a cabeça. – Deve está muito machucado, mais ainda da violência que Fandral cometeu.
Thor virou-se para o amigo. – Bateu no meu irmão?
Fandral gaguejou. – E-eu não sei, já disse, não era eu. Não sei o que aconteceu.
Tony deu uma risadinha amarga. – Muito conveniente. Agora, já que sabem do sumiço de Loki, seria bom que todos vocês saíssem de minha Torre. Aqui não é hospedagem para alienígenas.
Thor estreitou os olhos. – Tudo bem. Falaremos com o amigo Nicholas, ele nos dará guarida. Ou com o chefe de vocês, senhor Barack.
O engenheiro rolou os olhos. – Oh, sim, é muito fácil conversar com o presidente. Ele receberá vocês de braços abertos.
Volstagg sorriu. – Temos um embaixador que lida diretamente com ele.
Oh... – Disso não sabíamos, - disse Steve.
-Seu reino sempre soube de nós através de nosso contato.
-Então, já que tem lugar para ir, passar bem, - dispensou Stark.
Thor respirou fundo. – Eu pensei que éramos amigos. Pensei que pudéssemos lutar juntos e compartilhar bons momentos. Mas vejo que Loki envenenou a mente de vocês. Ele sempre faz isso.
-Não é nenhuma surpresa, - completou Sif.
Volstagg olhou para todos com expressão triste. – Vamos primeiro encontra-lo e tirar nossas conclusões. Eu temo que possamos chegar tarde demais. Daquela outra vez, ele se atirou no vazio.
-Isso nos pouparia trabalho, - murmurou a guerreira para si mesma.
-Não vai acontecer, amigo Volstagg. Vamos encontra-lo antes.
-Esperem, - disse Natasha. – Tony, podemos conversar a sós por um momento?
Quando ficaram a sós, ela disse: - Eles não podem se hospedar em outro lugar.
-Por que não? A Casa Branca vai adorar recebe-los!
-Isso é sério, Tony. Eles vão falar sobre o motivo de estarem aqui, sobre Loki. Isso pode acionar alerta máximo. Loki estará na mira de muita gente.
-Mas com eles aqui dará na mesma. Eles vão caçar Loki!
-Mas talvez não o matem. Se for os federais, CIA, ou que seja, ele será caçado e morto. Ninguém vai se importar em fazer isso com um alienígena. Provavelmente seu corpo servirá para estudos.
Stark respirou profundamente. – Eu não acredito que não vou me livrar desses imbecis.
-Melhor não. Não ainda. Deixa que eu lido com eles. Eu e Steve. Bruce precisa ficar de fora, pois sinto que Hulk entrará em ação em breve.
Retornando a sala, ela se dirigiu a Thor. – Acho melhor vocês ficarem. Está tarde da noite e ninguém os receberá agora sem alarde. Todos nós estamos com o objetivo de encontrar Loki e talvez possamos fazer isso junto.
Thor deu uma risadinha forçada. – Vejo que é sensata, Lady Natasha. Agradeço a hospitalidade, nos acomodaremos então.
-Mostrarei onde ficarão. – E, discretamente, piscou para Stark.
Quando saíram, Bruce bufou. – Que porcaria é essa?
-Natasha achou melhor, - e Tony foi ao bar e pegou seu uísque. – Menos exposição para Loki. Assim não será caçado mundialmente, apenas entre nós. Não é legal? – E tomou sua dose num gole só.
Steve se atirou no sofá e tentava controlar a raiva. – É uma situação sem saída.
-Como sempre dissemos... – E ele tomou outra dose.
Steve se despediu deles e foi alcançar Natasha para auxiliá-la com os asgardianos. Banner foi até o lado de fora, sentindo a brisa fria da noite nova-iorquina. Ele precisava fazer algo. Será que Hulk não "farejaria" Loki pela cidade, como havia sugerido Natasha? Mas seria um caos... Ele mataria tudo o que atravessasse seu caminho.
-Bruce? – chamou o engenheiro. – Tenha fé. Por nós dois, porque a minha acabou.
-Vão insistir no assassinato daqueles guerreiros, aqueles que abusaram da noiva dele. Não teremos como refutar isso. Ele será condenado.
Tony assentiu, porém não disse mais nada. O que havia para dizer?
-Eu vou caminhar um pouco, - avisou o doutor.
-É madrugada.
Ele riu. – Hulk me protegerá. – E saiu.
Andando pelas ruas de Nova York, um pouco desertas em alguns pontos, ele sentia Hulk o incomodando. Bruce parou em um bar e ficou analisando o que o outro queria. Ele sabia que era algo referente a Loki, mas procurava não lhe dar ouvidos. Não poderia deixar a fera aparecer e causar problemas. Porém, se sentia impelido a ir a certa direção da cidade. Pare, Hulk! – murmurava, tentando não chamar a atenção. Um mendigo na rua olhava para ele assustado.
-Não vamos a lugar algum, vamos voltar para Torre!
-Jesus Cristo! – disse o mendigo se afastando.
Banner se apoiou em uma parede, tentando se equilibrar contra a força do outro. –Pare! Tudo bem, para onde vamos? – Hulk mostrou o lado oeste, e Bruce foi caminhando apressadamente para lá. – Eu vou me arrepender! Não é nada bom ir a para aqueles lados a essa hora!
Após meia hora, ele se viu em um bairro perigoso, numa rua mais ou menos deserta. Ao longe ele pode ver algumas prostitutas e possíveis traficantes. Droga... Onde mais deveria ir, Hulk? – Havia um prédio muito antigo a sua frente, de cinco andares, e era nele que a fera insistia que entrasse. – Tudo bem, já que vim até aqui... Vamos lá.
~o ~
Loki tentava não dormir naquele sofá, mas o tempo foi passando e o sono foi o dominando. Jessie não havia voltado das ruas, e o barulho da vizinhança e da cidade ecoavam pelo apartamento, num zumbido monótono. A certa altura da madrugada, ele ouviu um barulho diferente e acordou sobressaltado. Pegou sua faca e ficou observando a sua volta. Estava tudo quieto agora, a cidade dormia, apenas alguns notívagos vagueavam por aí.
Por que eles não vêm logo? O que esperam? E olhou para cima, como para desafiar o guardião. -Conte logo para eles, Heimdall! – gritou. - Eu estou pronto!
Outro barulho, e ele rapidamente olhou para a direção dele, vendo algumas sombras passando pela janela. Mais um ruído, em outra direção, e ele tornou a ver mais sombras.
Loki tentou se erguer, mas a dor aguda nos braços o fez gemer. Droga. As feridas não estavam cicatrizando direito, aquela moça deve ter colocado qualquer coisa em cima delas. Ele ouviu um rangido de porta, e se arrastou para o canto da sala. Deveriam ser eles. Era agora. Sentiu seu coração bater com força, na antecipação de seu fim. Isso lembrou-lhe quando se atirou ao abismo, mas era diferente ali: seu coração, naquela época, estava morto.
Uma voz soou pelo ambiente. -Não se lembra de nós?
Loki ergueu a faca, tentando enxergar seu alvo, e se sentiu ridículo com uma arma tão inútil. – Quem são vocês?
Uma das sombras adentrou a sala e se materializou diante de seus olhos. O asgardiano arregalou os olhos, sem acreditar no que via. – Você...!
