05 de outubro de 2017
(Quinn)
"Quinn, anda depressa!" – Rachel estava impaciente e próxima ao estado em que queria.
"Estou tomando o meu tempo."
"Mas nós não temos tempo e eu preciso!"
Continuei a provocá-la até que ela me deu um tapa na cabeça. Afastei-me da minha mulher e fingi que estava mortalmente ofendida, como se tivesse sido agredida por um taco de baseball.
"Ficou doida?"
"Por favor..." – Rachel estava quase chorando, me implorando. Eu adorava, mesmo que o momento fosse inoportuno.
"Só se..."
"Quinn!" – ela tentou forçar minha cabeça para voltar ao sexo dela – "Por favor... eu preciso relaxar."
Fiquei com dó de Rachel pela ansiedade que sentia, pelo leve desespero. Era noite de estreia, a casa estava lotada, críticos na primeira fila, convidados e patrocinadores nas seguintes e um vasto público pagante nas demais. Minha Rachel finalmente se apresentaria num grande teatro da Broadway pela primeira vez. Não era como My Fair Lady, Funny Girl ou qualquer outro desses papeis que sonhava, em especial os que já tinham sido interpretados por Barbra Streisand. Era Saltimbancos. O figurino dela era de uma gata. Tinha rabo e tudo mais. Ela estava já maquiada, a peça começaria em 20 minutos, mas ela só entrava em cena depois de 25 minutos de peça. Era a última personagem entre os principais a ser apresentada. Ainda precisava fazer alongamento e um pequeno aquecimento antes. Claro que eu ajudaria no aquecimento. Eu a deixaria bem quente quando deixasse o camarim.
"Não se esqueça de miar, gatinha."
Sorri e meus lábios conectaram ao clitóris. Suguei forte, fiz movimentos rápidos. Rachel gemia como uma gatinha. Exatamente como eu queria. Introduzi dois dedos para acelerar. Estava tão molhada, tão desesperada. O quadril dela se movimentava forte contra o meu rosto enquanto eu procurava aproveitar de todo o néctar que minha mulher fornecia. Quando Rachel puxou os meus cabelos contra o sexo e travou a musculatura, meu trabalho ali estava feito. Dei uma última lambida de fora a fora enquanto o corpo dela ainda tremia antes de me afastar e lamber meus dedos.
"Obrigada!" – disse levemente ofegante. Em seguida, pegou alguns lenços, limpou-se e jogou os papéis na lixeirinha ao lado da penteadeira do camarim.
"Que romântico" – fui propositalmente irônica – "Sem me dar um beijo sequer?"
Rachel limitou-se a vestir a calça e rabinho do figurino e me deu um selinho nos lábios.
"Maquiagem!" – mais um selinho.
"Você vai brilhar" – assegurei – "e eu estarei bem ali na terceira fila para viver tudo isso ao seu lado."
"Sempre" – ela sorriu insegura. Rachel estava mesmo nervosa com a estreia.
"Cinco minutos" – bateram à porta.
Rachel respirou fundo e começou a balançar as mãos para relaxar os braços. Interrompi-a por um segundo e segurei as duas mãos.
"Quebre a perna."
Ela sorriu e acenou. Saí imediatamente do camarim e corri para a minha poltrona. Se demorasse mais um pouco, não me deixariam sair dos bastidores. A família de Rachel estava presente: os pais, os avós e Santana. Beth estava sentadinha entre Juan e Shelby. Passei por ela e sorri, mas a minha filha não retornou minha afeição. Ela nunca retornava. Sentei-me ao lado de Santana e Mike, que veio de Los Angeles só para vê-la. Outros conhecidos também estavam por lá, como Kurt, Josh e Nina. Perguntei se poderia dar um convite a Santiago, mas aparentemente a cota de convites que Rachel tinha terminou por ali. Meu amigo e até a minha mãe poderiam assisti-la de graça, mas em outra data. Jurei a mim mesma que não ficaria magoada. Se minha mãe estivesse na cidade, com certeza ela teria o lugar dela.
As luzes piscaram, a platéia silenciou. Mike olhou para mim e acenou confiante. Segurei na mão dele. A cortina se abriu e aparece Phill Bello travestido de burro. Ele entra no palco como se estivesse fugindo de algo, se posiciona à frente e chora. Estava correndo do antigo dono que o expulsara em meio de agressões porque ele empacou quando colocaram sobre ele uma carga pesada demais. Era um burro velho, maltratado, mas trabalhador. Por isso mesmo, sem valor. Era uma cena triste, comovente que Bello fez muito bem. Era um ator primoroso, o único premiado com um Tony do elenco. Saltimbancos começou muito bem.
Aliás, era admirável aquela peça chegar aos palcos da Broadway com um conteúdo político como subtexto e ainda ter classificação livre. Tudo bem que a história é mundialmente conhecida, mas o texto adaptado para a Broadway ficou maravilhoso. Quando li o roteiro, fiquei admirada. Era o melhor que Rachel encenaria. Sinceramente achei Across the Universe óbvio demais, WWBD pretensioso demais. Saltimbancos era inteligente e engraçado. Estava louca para ver tudo montado.
O burro representava o trabalhador intelectual apesar da figura contraditória. A galinha era a classe operária, o cachorro representava as forças armadas e a gata, a classe artística. O barão, nessa versão, representava o capitalista clássico que faz lobby político e não se preocupa com o bem estar social. Juntos, os bichos dão uma mensagem da importância da democracia e da cidadania. Um dia comentei isso com Brandon, um dos diretores de episódios do Project, e ele me explicou que conhecia várias versões dessa peça. Muitas delas inclusive tinham forte conteúdo socialista. A realidade e mentalidade americana eram bem diferentes. Implementar qualquer ideologia de cunho socialista em nossa sociedade era um ato delicado e de extrema coragem por parte de nossos governantes e até mesmo da população. Tínhamos orgulho de nossa democracia, das nossas forças armadas e do nosso papel no mundo. O que não queria dizer que não tínhamos nossos problemas ideológicos e sociais. O texto dos saltimbancos foi adaptado de uma maneira que a discussão ficasse atual, com fundo ecológico, inclusive.
O próximo a ser apresentado era a galinha, depois o cachorro. Rachel foi a última dos heróis a entrar em cena. Meu coração saltou ao vê-la com o lindo figurino, era quase barroco, ao mesmo tempo confortável, que lhe permitia fazer movimentos bruscos. Foi pensado para permitir as cenas de ação com o cabo, em especial no ato do enfrentamento com o senhor barão. Minha Rachel, minha gatinha, entrou bem, apesar de eu ser suspeita para falar, e cantou o solo que a apresentava ao público e aos demais personagens. Que grande forma estava a minha mulher. Estava mais forte, mais ágil, mais flexível. Tudo por conta do treinamento intensivo em que ela se submeteu desde abril. Rachel também estava melhor na dança, que sempre foi a maior dificuldade dela.
Mas o cara que roubou a cena foi mesmo Wilson Romanov, na pele do barão. Dizem que uma história era tão boa quanto o seu vilão. Ou seja: vilão bom era igual a uma história vibrante. Estava aí a franquia do Batman para comprovar a teoria. Ou Harry Potter.
O ato do enfrentamento foi de perder o fôlego e acho que estalei todos os dedos das mãos de Mike quando vi Rachel subir pelo cenário como uma gata com a ajuda dos cabos. Depois rodopiando no ar junto com gavião em outra metáfora em que dizia que as artes poderiam ser mais fortes do que a brutalidade. Por fim, a bicharada vence o barão. Vem o ato final com a última canção épica cantada pelos quatro. A música parou, e a platéia se levantou em aplausos. Eu também. Pude ver lágrimas no rosto de Santana, Juan erguia o punho e Beth estava em pé na poltrona. Flores foram dadas aos cinco atores principais e não me furtei em sorrir quando Rachel olhou em nossa direção e jogou um beijo. Ela estava feliz.
A organização pediu para que os convidados dos atores esperassem alguns minutos até que o ambiente de euforia nos camarins se acalmasse. Permanecemos no teatro ao lado das poltronas.
"Achei sensacional" – Mike puxou assunto.
"Fiquei orgulhoso do fá que Rachel deu no final do primeiro solo" – Kurt falou entusiasmado.
"Ela foi tecnicamente muito bem nos solos" – foi a vez de Shelby avaliar com o olhar crítico que lhe era costume – "Rachel entrou em definitivo para o primeiro time da Broadway depois desta apresentação."
"Não estava antes?" – Kurt questionou.
"Não ainda" – Josh explicou sem pudores – "No mercado de Hollywood, Rachel é considerada lista B, o que é ótimo para o momento de carreira. Se for olhar especificamente para a Broadway, mamãe Lopez está certa: Rachel vai dar um salto de importância no mercado. Foi um golaço que marcamos quando ela foi convidada sem precisar de fazer audição. Isso vai ser ainda melhor se a peça conseguir se manter com casa cheia pela temporada. Pode não alterar a condição dela em Hollywood, mas significa muito para a Broadway."
"Ah, vamos parar com esse assunto" – Juan bronqueou – "O importante é que a minha garotinha mostrou quem manda."
"O Barão!" – Santana falou alto, levantou os braços e recebeu olhares reprovadores em troca – "Qual é gente, estamos aqui por Rachel, mas admitam que o cara mandou muito bem. Foi o melhor do elenco. Admitam" – mais olhares frios. Santana suspirou e sentou numa poltrona vazia.
"A parte musical da peça também foi muito boa" – Sarah observou – "Havia alguns movimentos muito bons, o que fico grata, porque Rachel só tinha cantado até agora versões desses rocks que eu não gosto."
"Nem dos Beatles, bubbee?" – Santana franziu a testa.
"Gosto dos Beatles, claro, só que nem toda obra deles me agrada. Aquela peça que Rachel fez com as músicas deles matou algumas das melodias. Oh, isso é imperdoável, minha querida. Sou também uma jazzista e não se quebra a melodia e nem o diálogo de uma música."
Vinte minutos depois, uma moça da produção veio até nós com um sorriso congelado no rosto. Reconheci como sendo a assistente do diretor de palco. Foi a mesma que bateu à porta do camarim de Rachel assim que terminamos nossa rapidinha.
"Vocês são a família de Rachel Berry?" – acenamos – "Ela está ocupada no momento e pediu para comunicar que haverá uma recepção no 21, o restaurante fica entre a 5ª e a Avenida das Nações, e que ela encontrará com vocês lá. Se quiser, nossas vans vão sair em 20 minutos, mas se quiserem ir por conta, basta chegar na recepção que vocês são os convidados da produção e apresentem esse cartão, por favor" – Juan pegou o cartão e o colocou no bolso do paletó – "Vocês serão encaminhados para a mesa apropriada."
"Obrigado" – Juan agradeceu por nós – "Vamos andando então."
"Bom, eu vou ficar por aqui" – disse Josh – "Vejo vocês no restaurante."
"E eu preciso checar Rachel e os repórteres. Também vejo vocês no restaurante."
Em todas as peças anteriores de Rachel eu pude participar das festas nos bastidores. Todas. Apesar de ter estado com ela antes e ter passe livre, como Rachel determinou no teatro (Santana, Kurt, Josh e Nina eram os outros autorizados), senti rejeitada na festa. Imaginei que o elenco estaria ali fazendo festa, que conversariam com alguns dos jornalistas e bajulariam patrocinadores. Era o usual. Mas eu também queria testemunhas, afinal, há quase um ano que deixei de ser uma mera namoradinha, mesmo que o nosso casamento seja ainda um segredo de estado para a grande mídia. Até mesmo Josh Solano, colega dele desde os primórdios, sabia que estávamos juntas, mas não tinha idéia de que éramos casadas.
De qualquer forma, não quis peitar e fazer valer a minha prévia autorização de estar nos bastidores. Achei por bem acompanhar meus sogros e os avós de Rachel até ao restaurante. Caminhamos pela rua movimentada, passamos pelo estacionamento em que estava nosso carro, e caminhamos por um quarteirão e meio. Não que fosse grande coisa. Juan ia à frente como um grande patriarca. Seguia de mãos dadas com Shelby, que por sua vez segurava a mão de uma saltitante Beth. Santana acompanhava os avós enquanto eu, Mike e Kurt fechávamos a procissão.
"Você não parece muito feliz agora" – Mike comentou baixinho.
"Eu estou feliz" – procurei disfarçar a minha irritação e decepção – "É o sonho de Rachel finalmente realizado, a família dela esta aqui..."
"Querida" – Kurt chamou atenção – "não enfatize muito o 'dela' porque você pode passar a impressão errada. E pelo que senti, seus sogros não são exatamente os seus maiores fãs."
"Tão óbvio?"
"A carranca que o Lopez pai fez quando você foi até aos camarins após receber a mensagem de texto da sua digníssima esposa disse tudo."
"Nesse caso, fico feliz em saber que ele sabe que a filha dele tem uma boa vida sexual."
"Estava falando de ciúmes, Fabray, e obrigado por ter tirado a minha visão lúdica de que você estava ajudando Rachel a fazer o aquecimento de voz."
"Mas eu estava... de certo modo."
Mike ergueu a mão e fizemos high five antes de ele passar o braço pelo meus ombros.
"Agradeço por você me lembrar porque sou seu fã, Quinn" – depois dessa, encostei-me um pouco mais no corpo em um dos meus melhores amigos. O outro, Santiago, não pôde estar presente: não tinha convite para ele. Ficou para outro dia.
21 era um restaurante refinado, caro, com vários ambientes e linda decoração. Literalmente era um lugar para a elite de Manhattan. Juan apresentou o cartão e praticamente estufou o peito quando disse ser o pai da atriz Rachel Berry. Ele tinha todo direito de sentir orgulho. A recepcionista sorriu educadamente para uma mesa para dez pessoas, conforme o solicitado. Fomos alojados no canto da chamada Sala do Bar, que parecia uma cantina italiana misturada com o Outback. De qualquer forma, cabiam nós dez no lugar que ainda estava vazio. Além de nós, havia um casal que ocupava uma mesa do outro lado do salão. O garçom se aproximou. Explicou que ali seriam servidos o rodízio do buffet contratado, que incluía oito tipos de petiscos, vinho, suco e água. Qualquer outro prato pedido à la carte, outro tipo de vinho ou bebida que não estivesse na programação, como uma lata de coca-cola, seria pago à parte. Joel Berry ameaçou pedir o menu, mas parece que Santana o convenceu em seguir o clima da festa. Ao menos, tão logo o garçom explicou o jogo, começamos a ser servidos com camarão frito com um molho muito bom, mini tortilla de frango, sushi com salmão, iscas de carne com molho, iscas de carne de porco, cubos de queijo parmesão, pipoquinhas de frango frito, e um petisco vegetariano com batata. Enquanto degustávamos os primeiros pratinhos, os demais convidados começaram a chegar. Vigiei ansiosa a entrada do espaço a espera da minha esposa.
Rachel só chegou meia hora depois de termos nos acomodados. Estava sem maquiagem e com a roupa que havia ido ao teatro: calça jeans, echarpe, blusa escura, nota de salto alto. Minha esposa estava elegante e do jeito que Kurt passou a vesti-la, comecei a ter vergonha de insistir tanto em meus vestidos. Só usava calça para trabalhar ou quando estava muito frio. Ela olhou o ambiente e parecia nos procurar. Abriu um grande sorriso quando nos avistou e veio direto à nossa mesa. Nos levantamos, o que foi engraçado porque Joel se atrapalhou e esbarrou na mesa. Sarah foi a única que ficou sentada, final, era a neta quem deveria se abaixar para abraçá-la.
"É tão bom ver todos vocês reunidos" – abraçou o avô, a avó, o pai, a mão, a irmã, Beth, Mike, Kurt. Fiquei por último, mas ganhei o abraço mais demorado – "Eu te amo" – ela disse ao pé do meu ouvido – "Obrigada por tudo."
"Eu também te amo."
O sorriso que Rachel destinou a mim fez toda a minha raiva anterior desaparecer. Ela fez questão de circular pelo espaço e me apresentar, não como esposa, mas como uma das pessoas mais especiais na vida dela. Foi uma sensação diferente, confortadora. Lembro que na estreia em WWBD praticamente fui ignorada. Mas ali não. Rachel, mesmo não revelando nosso relacionamento ao público, me colocou num lugar especial. Eu me senti especial ao lado dela. Engole essa, Juan e Shelby.
...
26 de outubro de 2017
(Santana)
"É o que você fez?" – ela me encarou com os intensos olhos esverdeados.
"Olhei para aquela bitch e disse que ela poderia enfiar aquela proposta bem no rabo, que seria o ato mais prazeroso que ela teria na vida em anos" – sorri cheia de mim mesma. Foi uma boa resposta. Mal-criada e esperta, isso se ela realmente tivesse acontecido ou se eu fosse ainda a Santana adolescente.
"Você não disse isso!" – Izabella apertou os olhos em desafio.
"Não" – sorri – "Disse muito obrigada, mas a Rock'n' Pano não poderia se comprometer com tal tipo de encomenda. Quer dizer, aquela vaca queria que fabricássemos camisetas com o rosto da puta da filha dela e distribuíssemos no tal evento. Porra, por que ela não contrata uma merda de uma empresa de impressão em tecido? Não iria pegar um trabalho que ferisse a idéia da empresa mesmo que fosse um serviço para a mulher do dono da Framz. Aliás, me lembre de nunca mais comprar bijuteria naquele lugar."
"Você é muito orgulhosa, San."
"Eu tenho todo tempo de mundo para ser inescrupulosa na Weiz. Minha empresa não. É o lugar que eu posso ser ideológica e ditar minhas próprias regras. Por que abriria mão disso em troca de alguns trocados uma publicidade gratuita duvidosa. O que é pior é que ela quis me persuadir usando a suposta amizade que ela tinha com o senhor Weiz. Como se eu fosse ligar para isso. Aliás, quanto mais longe o senhor Weiz passar da minha Rock'n'Pano, melhor."
"Ao menos a filha da vaca é bonita?"
"Nah. Tem cara de cachorro. Eu jamais a pegaria."
O silêncio recaiu sobre a mesa era confortável. Às vezes era bom sentar com alguém e comer em silêncio depois que um assunto terminava. Era bom não ter a obrigação de puxar mais conversa ou dar satisfações ou ter de contar coisas das quais deseja enterrar. Em resumo, era bom ter a companhia de uma amiga com benefícios que te cobrava absolutamente nada.
"Você tem me levado bastante para jantar" – ela rompeu o silêncio. Acho que estava comemorando cedo demais.
"Não gosta deste restaurante?" – franzi a testa e dei a última garfada na minha comida para depois pegar o guardanapo no meu colo e limpar a boca.
"Gosto, ele é legal. Pequeno e discreto. Boa comida. Bem legal" – ela olhou para o ambiente – "Só que isso me faz lembrar bastante dos primeiros encontros que tive com o Tom."
"Aquele ricaço que te 'ajudou'?" – gesticulei as aspas. Izabella não tinha pudores em dizer que passou um tempo com o ricaço só por causa do dinheiro dele. Foi uma troca: ela dava para ele, e ele a presenteava com jóias, tal como se deve fazer com a amante. Sujo, mas foi com a grana das jóias que Izabella vai terminar a universidade, uma vez que ela perdeu a bolsa de estudos da primeira vez.
"Tom me levava em restaurantes assim porque sabia que eles são desses que preservam ao máximo o cliente e os executivos podem levar suas respectivas amantes."
"Você não é minha amante, Iza" – revirei os olhos – "Para isso eu teria de estar num relacionamento."
"Ainda assim, a gente nunca saiu tanto quanto agora, assim como nunca transamos em bases regulares antes."
"Bases regulares?"
"Duas vezes por semana me parece bem regular, Santana. Diga que depois daqui você não iria me levar a um hotel para transar já que você não quer mais me levar para a sua casa por causa da bronca que a sua irmã te deu na última vez em que você me levou para lá... para quê mesmo? Oh sim, me ajudar com as planilhas da aula de movimento de bolsa, mesmo sabendo que eu faço arquitetura."
"Se quiser, a gente pode ir para o seu dormitório. Ando com saudades do campus da Columbia" – forcei um sorriso que desapareceu do meu rosto, dada era a seriedade de Izabella. Droga, ela sabia como pressionar – "pensei que você fosse minha amiga e que a gente tivesse se divertindo" – de repente o bordado do guardanapo ficou interessante.
"Embora eu goste de transar contigo, você é boa de cama."
"Obrigada" – a interrompi rapidamente por causa do elogio.
"De nada, mas embora a gente tenha química na cama, San, preciso saber que tipo de relacionamento é esse?"
"Somos amigas e nos divertimos" – disse com certa impaciência.
"Diversão implica em sair, dançar, contar piadas, tomar uma cerveja com os amigos. Não ligações que parecem mais convocações e jantares em restaurantes em que executivos levam as amantes."
"Por essa cobrança agora? E se está reclamando, porque atendeu ao meu pedido naquela vez, para começar?" – cruzei os braços. A última coisa que precisava era discutir a relação com alguém, principalmente Izabella.
"Porque se quiser uma amante para curar a sua dor de cotovelo, então me diga que a gente passa a se tratar de acordo."
Fiquei em silêncio por um instante e terminei o meu vinho. Olhei para o garçom e pedi outra. Por que Izabella tinha de estragar o meu barato e a minha noite? Verdade que desde que eu liguei para ela com o claro intuito de transar porque me sentia mal, gostei do trato que ela me deu. Foi carinhosa e eu precisava de um alento, de um colo depois que vi Johnny com outra mulher. Pior, com aquela assistente de editor metida a intelectual, mas que não sabe distinguir Michael Chabon de Junot Diaz, isso para ficar só na parte literária contemporânea.
Tudo bem que passei a ligar para Izabella com freqüência após aquela noite. Para ela e para Andrew. Gostava do sexo com Izabella: era bom e não tinha envolvimento emocional, pelo menos da minha parte. Andrew ia para minha casa aos fins de semana para jogarmos vídeo-game, vermos filmes e essas coisas lúdicas nerds que gostávamos de fazer. Às vezes me perguntava por que nunca consegui amar Andrew? Não como Brittany, não como Johnny boy. Mesmo depois de terminamos, e após o afastamento natural, ele continuou presente na minha vida. Diferença é que já não tínhamos mais o elemento sexual. Essa parte era com Izabella, porque eu não gostava dela como gostava de Andrew e sabia de todo o histórico. Além disso, nos conhecíamos há alguns anos e eu sempre a respeitei e a tratei bem mesmo sabendo que ela foi stripper e praticamente se prostituiu por esse tal de Tom. Às vezes me perguntava se era por isso mesmo que passei a ligar para ela. Talvez precisasse de uma quase profissional com a esperança de não ser cobrada pelos serviços. Até Rachel interpretou dessa forma e era por isso mesmo que ficava furiosa quando sabia que deliberadamente procurava Izabella para sexo ou a convidava para "jantar". Ainda assim e cima de tudo: ela era a minha amiga. Olhei para Izabella. Ela merecia a minha sinceridade.
"Eu não sei o que somos neste exato momento, Iza, mas eu passei a te procurar não só para esquecer Johnny, como para não sair por baixo. Entende? Se ele anda se divertindo com namoradinha nova, porque eu tenho de curtir minha dor de cotovelo com castidade?"
"Não vai me dizer que você jogou esse nosso lance na cara dele?"
"Johnny sabe de nada. Ou talvez saiba por alguma coisa que Mike possa ter contado. Sei lá." – rodei a taça de vinho nova que o garçom havia me servido a pouco – "Desculpe se tudo isso te deixou desconfortável ou se eu faltei com o respeito de alguma maneira. Não foi minha intenção."
Ela me encarou como se tivesse tentando ler minha alma ou algo assim.
"Desculpas aceitas" – ela disse e jogou o guardanapo dela em cima da mesa – "Uma pena que isso descarta outra alternativa não dita."
"O que é?"
"Você me pedir em namoro" – colocou um sorriso falso no rosto e eu forcei outro como resposta. Não seria uma idéia ruim se tudo não tivesse começado de maneira errada. A questão era que a única ligação que sentia por ela era física. As possibilidades de um aprofundamento emocional, que sinceramente não estava preparada para ter, eram mínimas naquele momento.
"Então? Como será? Eu pago nosso jantar e a gente dá um tempo em nossos encontros até que a gente volte a nos ver nos raros encontros do nosso grupo de amigos da Columbia?"
"Será melhor para nós duas. Não gosto de ser usada, Santana, já enfrentei muita coisa e me tornei doutora em malícia humana e segundas intenções. Sei que você não agiu de má fé, mas você me usou e eu gosto muito de você a ponto de isso me ferir um pouco."
"Me desculpe, mais uma vez. Minha cabeça está uma bagunça agora" – continuei a brincar com a taça de vinho – "Acho que isso acontece quando se trai o homem que mais amo com a mulher que mais amo. Isso até perceber que não estava tanto assim mais na da mulher que mais amo e que tinha cometido um erro terrível. Tenho gastrite nervosa, sabe? Venho tendo crises desde então a ponto de eu não saber mais se tudo que eu quero é o meu amor de volta ou curar meu estômago."
"Que droga" – ela disse faceira, lembrando a velha Izabella que conheci na Columbia quando era uma caloura. Como se de um segundo para outro as coisas voltassem à normalidade – "Deus me livre de estar na sua pele, San."
"É..." – parei de brincar com a taça e bebi o vinho de uma vez.
"Posso te fazer uma pergunta?"
"Manda!"
"Alguma vez você voltou a procurar o Johnny?"
"Liguei algumas vezes. Não quis parecer desesperada."
"Mas você está! Seu orgulho é que ferra tudo."
"Johnny tem uma namorada" – suspirei – "Rachel disse que eu deveria procurá-lo para conversar mais uma vez, para ao menos estabelecer um cenário entre nós. Um não tão esquisito."
"Sua irmã é uma diva controladora assustadora, mas ela tem um ponto. Você deveria procurá-lo para conversar. Posso dizer que essa incerteza está te matando. Você até chorou um dia."
"Você... eu... não..." – estava oficialmente constrangida. Eu chorei de raiva de mim mesma na ocasião, porque me sentia um lixo por usar Izabella. Porque tudo estava errado. Depois de fazer sexo com ela pela primeira vez num quarto estranho de hotel, virei para o lado e chorei baixinho. Não pensei que ela tivesse percebido.
"O lance, San, é que você não vai resolver o seu problema comigo. Meu pai costumava dizer que era melhor ficar vermelho uma vez do que amarelo pelo resto da vida."
Paguei a conta e o táxi de Izabella. Prometi a ela que ligaria sem a pretensão de sexo, como uma amiga. Não terminou do meu jeito, mas foi melhor assim. Precisava de uma opinião sensata que não fosse as posições pré-estabelecidas da minha família. Já sei o que cada um pensa. Também não iria querer conversar com Brittany. Seria como fazer reunião do AA numa adega. A questão era que ainda me faltava coragem. Ainda precisava de um tempo para me preparar para encontrá-lo sabendo que ele estava num relacionamento. Entrei sozinha próximo ao restaurante em que estava. Pedi vinho e sentei no balcão. Um homem se aproximou e tentou paquerar. Não estava no clima. Ao menos ele me deixou em paz depois do primeiro fora. A questão é que achava patético encher a cara sozinha num bar. Minha filosofia era ficar bêbada em boa companhia porque ao menos se teria alguém para te amparar no final. Desisti do bar. Deixei o dinheiro no balcão e fui embora.
Quando cheguei em casa, a encontrei aparentemente vazia. Entrei no meu quarto, mas recuei ao escutar um barulho vindo do quarto de Rachel. Era do chuveiro. Minha irmã estava em casa. Olhei para o relógio. Era quase onze horas. Procurei fazer o mesmo. Tirei as roupas de trabalho e entrei debaixo do meu chuveiro quentinho. Vesti um pijama confortável e saí do meu quarto com a intenção de desejar boa noite à minha irmã.
"Ei" – ela me chamou do quarto dela. Estava sentada na cama com uma caneca de chá em mãos – "Você disse que não dormiria em casa."
"Mudei de idéia" – disse à porta – "Como foi a peça hoje?"
"Normal. Poucos lugares vazios. Público receptivo. Sem acidentes. Ninguém desafinou."
"Bom. Isso é bom..." – ia dar meia volta e ir para o meu quarto.
"Vai passar um documentário sobre antigos musicais" – dei meia volta – "Quinn vai trabalhar madrugada adentro e vai voltar pela manhã. Então estou aqui sozinha para assistir um documentário de musical tomando meu chá. Você gosta de documentários."
"Nem tanto de musicais."
"Assiste só um pouco" – ela bateu no colchão ao lado dela – "Pra me fazer companhia e ouvir um pouco de Fred Astaire, Gene Kelly, Judy Gaillard, Frank Sinatra."
"Barbra Streisand?"
"Ela não é tão antiga."
Sorri e deitei-me ao lado de Rachel. Na tela passava uma cena em que Fred Astaire dançava com uma cadeira. Era magnífico. Encostei-me a minha irmã e Rachel se permitiu servir de travesseiro. Não fez perguntas sobre onde estava o que era bom. Nada de julgamentos, nada de perguntas. Só eu e minha irmã vendo televisão tarde da noite numa cama quentinha. Acho que precisava mais disso do que de sexo. As imagens ficaram turvas. Adormeci com facilidade numa noite em que pensava que teria insônia.
