Capítulo 10 – Tensão
Mais estranho do que regressar a Terra junto com Samuel Winchester, após três meses no Inferno – a fim de salvar outro anjo –, era a sensação de estar próximo ao Mundo Celestial. As coisas não lhe pareciam diferentes ali. Conseguia, com a visão aguçada que possuía, verificar como tudo estava lá dentro. E a sensação era muito indefinida, mas presente; lembrava-se, com exatidão, dos momentos de felicidade e de glória que vivera no Solo Sagrado; recordava-se, com um pesar incompreendido por si, da extrema importância que os irmãos lhe davam; todos confiavam nele, no potencial que tinha, na habilidade que desenvolvera com tamanha rapidez. Nada disso, porém, serviu para que continuasse no Reino do Todo-Poderoso. Ele falhou, se rebelou. Pela primeira vez, a violenta carga emocional de um ato tão distante e sem qualquer relevância aparente lhe subia pelo peito, lhe queimava por dentro. Sentia, com mais força do que a minutos, um nó se formar na garganta e, assim, o impedir de falar acerca do difícil tema.
Lúcifer aguardava, ansioso, que Azrael retornasse do Céu com a famosa espada que aniquilaria Kasbeel – a perigosa ameaça à humanidade. Ele percebeu, uma vez mais, uma intensa sensação de incômodo em seu interior; ajudar aqueles que tanto desprezou, que tanto detestou e atacou, era, no mínimo, contraditório o bastante; a questão, entretanto, não era tão simples assim. Castiel significava muito para ele. E mal se dera conta de tal fato durante o curso dos trágicos momentos do Apocalipse; estava obcecado pela vingança e pelo rancor. Somente atentou para os sentimentos nobres que ainda preenchiam seu coração, quando, na luta contra o Arcanjo, viu os olhos do irmão que deveria ter protegido e que era sumariamente torturado.
– Droga, não a achei. Rafael e os outros provavelmente sumiram com a arma – comentou o anjo, que pousara em frente ao rebelde.
– O que faremos agora? Tem alguma idéia em mente?
– A única saída é confrontá-los. Não vejo outra alternativa plausível.
– Ora... isso é loucura! Estamos em menor número e não teremos a mínima chance. Seremos esmagados no primeiro combate.
– Acalme-se; talvez tenhamos – Azrael tocou na asa esquerda de Samael, e ambos foram parar em uma rua próxima à residência de Bobby.
Vislumbraram, satisfeitos, que o Chevy Impala de Dean já estava estacionado em frente a casa. Era um indício de que os irmãos e Cass já se encontravam por lá.
– Então, o que quer sugerir? Sei que pensa fazer algo... – o anjo o olhou, intrigado.
– Preciso que você fale com Samuel. Ele poderá nos auxiliar, se for bem preparado.
– Quer que eu o instrua para lutar contra os inimigos? E o que direi para Dean?
– Nada. Deixe que eu me entendo com o cabeça dura do Winchester – o rebelde sorriu; sabia que Azrael tinha um modo peculiar e, até certo modo rude, de lidar com o loiro.
– Ok então – respondeu, após suspirar. – Conversarei com Sam, mas não sei se ele aceitará essa possibilidade um tanto arriscada.
– Bem, que eu saiba, o jovem nunca foi de fugir da luta quando utilizou os poderes; a diferença é que o fará por um bom motivo: defender um amigo. Dean também tem tal característica, até porque o problema envolve nosso irmão. Só precisa expor os pontos corretos a Samuel; não lhe esconda nada, certo?
– Sim, pode deixar. Vou chamá-lo aqui fora, acho melhor para dialogarmos sem interferências.
– Espere aí – Azrael pousou a mão no ombro do aliado. Depois de pensar, prosseguiu: – Posso fazer isso. Digo a Samuel que você precisa conversar com ele, o que acha?
– Pode ser então.
O anjo entrou na moradia, cumprimentou Bobby, foi até onde Castiel estava, verificou que ele dormia e pediu ao Winchester mais novo que se dirigisse à rua; alguém importante queria conversar com o rapaz.
– Quem? – perguntou ele, curioso com a novidade.
– Lúcifer – respondeu, o tom firme de sempre.
– O que? Esse cretino de merda nos ajudou só para fisgar o meu irmão e atraí-lo para uma armadilha convincente, é? – questionou Dean.
– Vá, Samuel, por favor. Não há tempo hábil para maiores discussões – pediu Azrael, após ter se aproximado do jovem, em um claro sinal de que ignorou, ao menos por alguns instantes, o comentário sem sentido do loiro.
O Winchester mais novo se levantou com lentidão; esperava que o irmão fizesse mais algum comentário, desaprovando-o a respeito da decisão que tomava de ir até a rua. E ele o teria feito se não fosse Bobby falar:
– Vamos ver o que está acontecendo, para depois julgarmos; é melhor agirmos dessa maneira, certo, Dean?
O Winchester mais velho bufou, contrariado. Não gostava nadinha de saber que Lúcifer e Sam conversariam, ainda mais depois dos fatos ocorridos há meses. A desconfiança era uma tônica na vida do caçador, que sempre teve de zelar pelo irmão, que jamais deixava de crer no que lhe era dito.
