GUIADOS PELO AMOR

Por Andréa Meiouh

Capítulo Dez: A Escolhida

No imenso jardim da mansão Li, Sakura caminhava devagar, pensando nos últimos acontecimentos. Depois que Yelan dissera que era a 'escolhida'de Syaoran, todos passaram a tratá-la com reverência. A única que não parecia se importar com o que fazia era Meiling. A jovem chinesa ainda lançava olhares irados à Sakura e mantinha uma certa distância. Recordou-se de uma conversa que tivera, a poucos momentos atrás, com a matriarca do clã.

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"Não se preocupe com Meiling, minha cara. Ela pode ser um tanto barulhenta e fazer birra... Mas sei que ela será uma amiga fiel depois que o coração dela aceitar o destino". As duas estavam sentadas em confortáveis poltronas nos aposentos preparados para a jovem doceira.

"Sra. Li, eu tenho tantas perguntas... Que história é essa de 'escolhida'? E por que a senhora fala do meu namoro com seu filho como se fosse algo predestinado?", Sakura indagou, olhando para a mulher à sua frente com olhos confusos.

"Para que você possa entender, minha jovem, terei que explicar algumas coisas a respeito de minha família", respondeu Yelan. "O clã Li descende de um homem, chamado Lead Clow, que foi um poderoso mago. Ele era temido por seus inimigos e adorado por seus seguidores, pois com toda sua magia, ele se tornara invencível. Após a sua morte, as pessoas imaginaram que seu poder havia desaparecido, porém não foi isto o que aconteceu. A magia dele foi transmitida a uma criança, Shan-Yun* Li. E assim, começou o legado de nossa família. No entanto, os inúmeros casamentos consangüíneos enfraqueceram nosso dom. A cada geração que se passava, a magia se tornava mais fraca... Até o nascimento de Xiao Lang. Meu filho nasceu sob o signo da sorte. Nele, os poderes mágicos foram fortalecidos. E quando eu estava prestes a dar a luz, tive uma visão. Vi meu filho, já adulto, ao lado de uma mulher, escolhida por ele próprio, trazendo o esplendor de volta ao clã, pois ela era possuidora de uma força tão grande quanto a dele. Juntos, eles renovariam a magia da família Li".

"E a senhora acha que eu sou a mulher de sua visão?", Sakura sentiu um calafrio.

"Não, querida", disse a mulher. "Eu tenho certeza".

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Respirando fundo, Sakura sacudiu a cabeça para clarear os pensamentos. Ela não podia ser a mulher da visão de Yelan... Ela sequer tinha magia, tinha? Subitamente, fatos de sua infância também vieram a sua mente, como se estivesse assistindo um filme. Lembrou-se de quando pressentira a morte da mãe, de como podia intuir os sentimentos das pessoas, de seus sonhos estranhos que, muitas vezes, lhe mostrava o futuro... Lembrou-se de como se sentira quando seus olhos se encontraram com os de Syaoran pela primeira vez. Era como se um fio invisível os ligasse no mesmo instante. Isso era magia? Talvez isso explicasse o porquê daquela vontade louca de ficar com o chinês e cuidar dele, não deixá-lo partir... Mas, e seu amor? Essa 'magia' o afetara de alguma forma?

Quando levantou os olhos, Sakura se viu numa antiga construção. Sem perceber, havia se afastado da mansão e fora parar numa espécie de templo, que assim como a casa, parecia ter saído de um filme de cinema. Era uma edificação num formato hexagonal onde, em cada vértice, havia uma grossa coluna vermelha. Inúmeros dragões de pedra ornamentavam a sala e na parte do fundo, Sakura pôde ver as tábuas dos ancestrais da família Li.

Em forma de respeito, a jovem acendeu um incenso e ajoelhou-se para orar. Pedir proteção a seu amado guerreiro. Ela parou de rezar quando sentiu uma sombra lhe cobrir. Virando a cabeça lentamente, deparou-se com um homem alto, cabelos presos numa trança, vestido com uma túnica vermelha.

'O homem que pegou Syaoran!', o coração dela disparou. Ele falou algo que ela não entendeu, mas pode sentir que ele estava satisfeito por vê-la. Mas por que? Sakura levantou-se o mais rápido que pôde e tentou sair correndo, mas ele a agarrou e a apertou contra o peito, enquanto colocava um pano no nariz dela. A visão da jovem foi escurecendo e seu último pensamento claro foi que saíra da mansão sem avisar ninguém.

* * *

Tomoyo também aproveitara seu tempo para passear pela propriedade. Era um lugar tão tranqüilo e reconfortante, apesar de toda confusão que ocorria. Sentou num dos bancos do jardim interno e estava apreciando o silêncio, olhando as carpas, quando viu Eriol e Yelan se aproximarem rapidamente.

"Tomoyo, você sabe onde está Sakura?", ele perguntou.

"Ela não está no quarto?", a jovem percebeu a preocupação dos recém chegados.

"Não... Ela não está na casa".

"Precisamos encontrá-la", Yelan falou, ligeiramente aflita. "Estou com um péssimo pressentimento".

Os três se dirigiram para a biblioteca. A mãe de Syaoran mandou reunir todos os empregados, a fim de saber alguma notícia da jovem japonesa.

"Eu a vi caminhando em direção ao templo", uma jovem arrumadeira comentou, assim que foi questionada.

"Vamos até lá!", sugeriu Tomoyo, sendo seguida por Yelan, Eriol e Meiling.

Quando já estavam de saída, notaram uma pequena comoção. Viram um homem, vestido com o uniforme dos seguranças, se aproximar correndo e falar com a patroa. Ele falava rápido e agitava as mãos, parecendo bem nervoso. Tomoyo notou pelas caras de Eriol e Meiling que a informação trazida não era das melhores.

"Eriol, o que foi? O que ele está dizendo?", ela indagou.

O empresário ajeitou os óculos e a fitou diretamente nos olhos. Tomoyo sentiu um arrepio descer-lhe a espinha.

"Chian Yu foi visto na propriedade", disse ele, depois de alguns segundos.

"Onde?", de alguma forma, ela sabia que tinha algo a ver com sua prima.

"No templo".

* * *

Quando acordou, Sakura demorou a perceber onde estava. Sentia-se nauseada, provavelmente por causa do clorofórmio que havia no lenço de Chian Yu. Sentou-se na cama e respirou fundo, tentando conter a vontade de vomitar. Depois que acalmou seu corpo, ela olhou a seu redor. Estava num imenso quarto, tão bonito quanto aquele que lhe fora reservado na mansão Li.

Levantou-se devagar e foi em direção ao grande espelho, que decorava uma das paredes do aposento. A imagem refletida era sua, mas havia alguma coisa diferente. Os cabelos castanhos estavam levemente assanhados. Havia olheiras debaixo dos olhos verdes. E suas roupas...

"O quê?!", ela exclamou, notando que estava usando um quimono de seda vermelho, com belas estampas de flores de cerejeira. A larga faixa que lhe amarrava a cintura era branca, com detalhes em vermelho e dourado.

"Espero que esteja gostando de seus aposentos", disse uma voz atrás dela.

Pelo reflexo do espelho, Sakura viu um homem, já de idade, vestido com túnica e calças pretas. Ele teria uma aparência bem agradável se não fossem os olhos, que irradiavam frieza e maldade. E Sakura sabia muito bem quem era aquele senhor. Wing Li.

"Onde está o Syaoran?", ela perguntou, sem se virar.

"Oh, que comovente!", ele riu. "A primeira coisa que ela quer saber quando acorda é sobre o namoradinho...".

"Onde ele está? E cadê as minhas roupas?".

"Você quer saber onde estão aqueles trapos imundos que você chama de roupa?", ele parecia estar se divertindo muito com a raiva de Sakura. "Mandei queimar". Ao ver a expressão chocada dela, ele riu outra vez. "Se está preocupada com sua 'virtude', não se preocupe. Foi uma das minhas criadas quem a trocou. Nem eu nem Chian encostamos um dedo em você, muito embora meu fiel empregado esteja com muita vontade de fazer isso. E eu não posso culpá-lo". Enquanto falava, Wing ia se aproximando, até parar atrás dela e encará-la pelo reflexo. "Tenho que admitir que Xiao Lang tem bom gosto... Você é uma garota muito, mas muito bonita".

Finalmente, Sakura virou-se e enfrentou o olhar do ancião, apesar de querer sair correndo dali. "O que quer de mim?".

"Você viu demais, minha cara", ele respondeu. "E eu não posso me dar ao luxo de deixá-la solta por aí. Não quero que você fique espalhando mentiras ao meu respeito".

"Agora é tarde demais...", ela falou, sentindo-se melhor em saber que tivera tempo de avisar Yelan sobre aquele homem.

Wing grunhiu e agarrou o pulso dela com uma incrível força para um homem de idade tão avançada. O aperto era tão forte e de tal jeito que Sakura se viu caindo de joelhos. Mordeu o lábio inferior para não gritar de dor.

"Você é uma idiota!", ele rugiu. "Seria melhor se tivesse ficado calada".

Pensando que iria apanhar, Sakura encolheu-se, no entanto uma coisa estranha aconteceu. Ela viu Wing ficar sério. E os olhos dele mudaram, de repente. E como um flash, a jovem sentiu o homem invadir sua mente, sua alma, num ataque doloroso e silencioso. Lágrimas escorreram por suas bochechas.

"Que brincadeira é essa?!", ele exclamou, soltando o braço dela de supetão e fazendo-a cair no piso. "QUE RAIOS DE BRINCADEIRA É ESSA?!".

Ofegante, Sakura levantou os olhos para encará-lo, mas não respondeu.

Wing Li sentia que estava perdendo o controle. Sentia-se sufocar com todo aquele nervosismo que o assolava. Aquela mulher... Ela era a 'escolhida'. Aquela que traria a glória e o esplendor de volta ao clã.

Os anciões sabiam da visão que Yelan tiveram. Fora uma predição tão forte que desencadeara o trabalho de parto dela. Depois que o menino nascera, a esposa de Shang procurara o conselho e lhes revelara o que vira. Seu filho e uma mulher, de fora da família, escolhida por ele, Juntos, eles fortaleceriam a família.

Esse foi o principal motivo que levou Wing a matar Shang e afastar Xiao Lang da mãe. Se pudesse controlar o garoto, poderia evitar que a premonição acontecesse e assim, continuaria no controle da família. Mas o destino lhe pregara uma peça. Xiao Lang, mesmo longe, se tornara um rebelde, não aceitando as ordens do conselho de anciões. E para piorar, ele fugira, acabando por encontrar a sua alma-gêmea. A 'escolhida' da visão.

Agora, ele teria que matá-la.

* * *

A noite ia se aproximando. Yelan, Eriol, Tomoyo e Meiling caminhavam, apressados, em direção a mansão. Eles tinham ido até o templo e encontraram apenas um sapato de Sakura. Estavam todos preocupados, tentando encontrar um jeito de ajudar os amigos desaparecidos.

"Temos que ir até a casa de Wing!", exclamou Tomoyo. "Precisamos resgatá-los!".

"Você está louca, é?", rebateu Meiling. "Nem temos certeza de que Wing está envolvido com tudo isso! Talvez Chian esteja trabalhando sozinho...".

"Quem você está querendo enganar?", perguntou a jovem de olhos violeta, erguendo uma sobrancelha. "É óbvio que Wing está por trás de tudo isso e se você prefere manter a imagem do ancião perfeito e ver seu primo morrer, por mim tudo bem. Mas eu vou atrás da minha prima e nada vai me impedir".

A chinesa já ia responder, quando Eriol a segurou pelo braço. "Ela tem razão, Meiling. Eu irei até a casa de Wing buscar meu amigo".

"Vou com você", disse Tomoyo prontamente.

"Meiling, se você quiser, pode vir conosco", sugeriu o homem. "Sua ajuda será bem vinda".

"Tia?".

"Vá com eles, Meiling. Você conhece muito bem a casa de Wing e pode ajudar", respondeu Yelan. "Eu ficarei aqui e convocarei uma reunião familiar. Todos devem saber o que está acontecendo. Wing já foi longe demais".

"Contate as autoridades, Sra. Li. Envie-os até lá assim que puder".

"Pode deixar, Eriol".

"Agora vamos, pois já não temos tempo a perder".

* * *

Syaoran estava tentando soltar-se das cordas novamente, quando ouviu barulho do lado de fora de sua cela. Viu a porta ser aberta e Wing apareceu, arrastando um fardo vermelho. Ele entrou apenas o necessário para jogar o que trazia para dentro. E quando aquele monte de seda vermelha bateu no chão, o guerreiro percebeu que era uma pessoa. Aliás, não era uma pessoa qualquer, era Sakura.

"SAKURA!", gritou Syaoran. "Seu monstro! O que fez com ela?!".

"Aproveite seus últimos momentos com sua namorada, Xiao Lang", disse o ancião, antes de sair.

"Sakura!", desespero tomava conta do jovem. "Sakura, por favor, fale comigo! Acorde, por favor!".

Passou-se alguns minutos até que a doceira reagisse. Ela se mexeu, abrindo os olhos lentamente.

"Sakura! Você está bem?".

Virando na direção da voz, a jovem avistou o amado. "Syaoran...", falou ela, com voz fraca. Levantando-se como pôde, ela foi à direção dele e o abraçou. "Oh, Syaoran...".

"Sakura...", ele murmurou contra os cabelos dela. Queria tanto estar com os braços livres para poder retribuir o abraço.

Afastando-se, Sakura o fitou. "Olha só o que fizeram com você". Ela tocou de leve no rosto machucado. Syaoran tinha o olho direito fechado, de tão inchado que estava. O supercílio direito estava aberto, mas já não sangrava mais e ela tinha a impressão que o nariz dele estava quebrado também.

No entanto, Syaoran não estava preocupado com seus ferimentos e sim com os machucados dela. O lado esquerdo da face dela tinha uma marca vermelha intensa, sinal de que alguém a esbofeteara ali. O tapa fora bem forte, pois também causara um pequeno corte na maçã do rosto. E no braço que ela erguera para tocá-lo, Syaoran notou uma luxação, que já estava ficando roxa, no formato de dedos.

"Ele te bateu", disse ele, com fúria contida.

"Eu estou bem, não se preocupe comigo...", ela acariciou a parte do rosto dele menos machucada. Os dois ficaram por um momento apenas se olhando, absorvidos um no outro.

"Por que você está aqui", ele perguntou por fim.

Sakura então contou tudo o que acontecera desde que ele fora atacado do lado de fora da confeitaria, até o seu passeio pelos jardins da mansão e seu encontro com Chian no templo. Quando ela falou sobre a visão de Yelan e sobre a história da 'escolhida', Syaoran finalmente entendeu por que ela estava ali. Wing ia matá-la.

"Sakura", falou Syaoran, tentando parecer calmo, para não assustá-la. "Você tem que me soltar. Tente desfazer este nó, por favor".

Ela concordou com a cabeça e quando viu o estado dos pulsos dele, soltou uma exclamação. "Syaoran! Seus braços!".

"Esquece isso, Sakura. Rápido, me solte".

Sakura tentava desatar o nó, mas este fora bem apertado. O sangue de Syaoran não colaborava muito, pois umedecera a corda, dificultando ainda mais o trabalho. "Eu não consigo, Syaoran...", ela choramingou, aflita.

"Continue tentando, Sakura", ele a apressou. "Não pare, por favor!".

E a jovem continuou seu trabalho nas cordas, empenhada em soltar o namorado. Quando conseguiu afrouxar um pouco mais, a porta da cela se abriu e Yu entrou. O desprezível comparsa de Wing tinha um brilho estranho nos olhos, que estavam fixos em Sakura.

"Eu vim me divertir um pouco com sua garota, Xiao Lang, antes que mestre Wing venha matá-la", disse ele em cantonense.

"Deixe-a em paz!", berrou Syaoran.

Sakura não entendeu nada do que eles estavam falando, porém percebeu as intenções do mau caráter quando ele a agarrou pelo braço e a jogou num canto do cubículo onde estavam presos.

"SYAORAN!".

"SAKURA!".

* ~ * ~ *

E o final já se aproxima! Faltam apenas dois capítulos. O que é uma pena, pois eu estou adorando escrever esta história...

Vocês devem estar se perguntando: 'Mas que escritora confusa é essa? Primeiro, ela diz que o fic é sem magia e agora ela coloca magia no meio...'

Bem, deixe-me explicar direitinho. Tomei a decisão de colocar magia na trama, apenas para dar mais emoção. Mas não haverá cenas com o báculo e as cartas, pois eles não pertencem a Sakura. Nossa heroína tem poderes mágicos, mas eles ainda estão latentes nela. Quem usará magia (no próximo capítulo) será Syaoran. Ele tem os mesmos poderes do anime/mangá e precisará usá-los em breve.

Aí vocês me perguntam: 'Se Syaoran tem magia, por que ele não se soltou sozinho?'.

Pelo o que eu sei da história do Clamp, para o personagem do Syaoran fazer sua magia, é preciso que ele esteja com a espada e os ofudas** (aqueles papéis amarelos). Como ele não tem nem um, nem outro, não pôde usar os elementos para se soltar.

Agora que está tudo explicado, vou terminando por aqui, dedicando este capítulo a todos que me mandaram e-mails e que deixaram comentários. Em especial a Cat Angel_Wing, nossa amiga de Portugal. Você estava certa a respeito do "mau", Cat. Eu escrevi errado mesmo, desculpe.

Muito obrigada pelos elogios e pelo incentivo. Um grande beijo e até o próximo capítulo!

* Qualquer semelhança com o personagem de Guerreiras Mágicas de Rayearth não é mera coincidência. Inspirei-me nele mesmo.

** Não tenho certeza se o nome daqueles papéis é este mesmo. Se estiver errado, por favor, me corrijam.