Capítulo X – Cuidados
Narrado por Brian
Sentei –me no sofá com o coração batendo acelerado no peito. Algo me dizia que eu não iria gostar daquela conversa. Tia Rose se sentou diante de mim com o semblante preocupado.
_ Brian, eu acho que vocês terão que adiar a viagem para a Califórnia. – ela disse séria.
_ O que está acontecendo, tia? O que há de errado? – eu perguntei angustiado.
Tia Rose coçou nervosamente a cabeça e me olhou nos olhos antes de responder:
_ Mel vai precisar de tratamento médico por uns tempos e eu quero que ela fique aqui perto de mim para que eu possa controlar tudo pessoalmente. – ela disse.
Meu coração parecia que ia rasgar o meu peito, tamanha a força e a velocidade com que batia. Mel estava doente?
_ Tratamento médico? – eu perguntei, minha voz saindo duas oitavas acima. – O que ela tem, tia?
Levantei-me do sofá, meu corpo se recusava a ficar parado. Quando dei por mim, já estava andando de um lado para o outro no meio da sala, a angústia e o medo tomando proporções insuportáveis. Tia Rose levantou-se do sofá e veio em minha direção segurando-me pelos ombros.
_ Não é nada grave, Brian! Ela está com uma anemia moderada, é só isso! Mas você sabe que ela sempre teve a saúde mais frágil e eu só pedi para que vocês adiassem a viagem por precaução! Eu só quero ter a minha filha sob os meus olhos para ter certeza de que ela vai se alimentar como deve! – ela acariciava meus braços tentando me acalmar.
_ Anemia? Tia, com a Mel nada é tão simples assim! Eu me lembro muito bem de como um simples resfriado conseguia derrubá-la quando éramos menores! – eu dizia assustado.
_ E é exatamente por isso que eu prefiro que vocês adiem essa viagem, Brian! Eu quero acompanhar de perto o tratamento dela para que essa anemia moderada não se torne aguda de um dia para o outro! – ela ponderou.
Não havia o que discutir. Se a saúde de Mel estava em jogo, a viagem estaria certamente adiada por tempo indeterminado. Só me restava dizer a Seth e Sofia para que eles fossem sozinhos. Mel e eu iríamos depois que ela estivesse recuperada.
_ Onde ela está, Brian? – tia Rose perguntou me tirando dos meus pensamentos.
_ Está dormindo! Eu ia chamá-la para irmos ao cinema, mas quando a vi, percebi que seu rosto estava pálido e ela me parecia realmente cansada. Achei melhor deixá-la descansar. – respondi sem conseguir deixar de me sentir angustiado.
_ Ela precisa se alimentar, Brian! Por favor, suba e diga a ela para descer! Eu preciso ter uma conversa com ela. Se você quiser pode participar também! – ela disse se encaminhando para a cozinha.
Subi novamente as escadas e entrei em seu quarto. Ela permanecia na mesma posição em que eu a havia deixado quase uma hora antes. Sentei-me novamente na beirada da cama e fiquei observando seu rosto por alguns minutos. Um medo enorme começou a me dominar. Medo de que ela caísse gravemente doente, medo de não ser capaz de ajudá-la e, acima de tudo, medo de perdê-la. Meu coração batia apertado no meu peito. Uma vontade enorme de pegá-la no colo e fugir com ela dali ameaçava tomar conta de mim. Mas não iria adiantar. O perigo não vinha de fora, estava dentro dela. Invisível. Intocável. Mas não invencível.
Mel suspirou profundamente e abriu os olhos ao sentir minha mão acariciando seu rosto. Piscou algumas vezes como se achasse que ainda estava dormindo. Um sorriso doce brotou em seus lábios assim que se deu conta de que eu realmente estava ali. Não pude deixar de sorrir de volta diante da imagem do seu rosto feliz só por me ver. Ela se sentou em silêncio sem desviar seus olhos dos meus, aproximou o rosto do meu e beijou brevemente meus lábios com doçura. Meus braços instantaneamente a puxaram para mais perto. Ela doloroso ficar tão próximo sem poder tocá-la.
_ Como você está se sentindo? – perguntei baixinho em seu ouvido.
Ela apertou-se mais em meus braços e beijou o meu pescoço antes de responder:
_ Eu estou nos braços do homem que eu amo! Eu não poderia estar menos do que ótima!
Não pude deixar de sorrir diante da sua resposta. No entanto, a minha preocupação não havia diminuído. Ela ainda me parecia pálida demais, frágil demais.
_ É bom saber disso, docinho! Mas eu quero saber se você não está sentindo nada de errado! – eu perguntei esperando não assustá-la.
Mel afastou a cabeça do meu peito e me olhou com o cenho franzido, visivelmente confusa com a minha pergunta.
_ Por que você está me perguntando isto, bebê? – ela perguntou observando a minha expressão preocupada.
_ Responda a minha pergunta, por favor, docinho! Você está realmente se sentindo bem? – insisti.
Mel se separou totalmente de mim, a expressão confusa e desconfiada. Ficou observando meu rosto por algum tempo antes de me responder:
_ Eu estou bem, amor! – ela disse sorrindo enquanto seus dedos alisavam a minha testa tentando desfazer a ruga de preocupação que havia se formado entre meus olhos – Eu só estou um pouco cansada, mas estou bem!
_ Sua mãe me pediu que fizesse você descer. Ela quer conversar com você, docinho! – eu disse ainda preocupado. Mel me parecia ainda mais pálida.
Ela me olhou com uma expressão preocupada. Levantou-se da cama em um pulo e cambaleou logo em seguida.
_ MEL! – eu a peguei antes que ela caísse – O que você está sentindo?
Meu coração voltava a bater descontrolado, a adrenalina queimando o meu peito pelo susto. Ajudei-a a se sentar novamente na cama enquanto ela tentava recobrar o controle do corpo.
_ Eu só senti uma vertigem, bebê. Fique tranquilo! Acho que me levantei da cama rápido demais! – ela sorriu constrangida, a mão delicada sobre a testa tentando recuperar o equilíbrio.
_ Vem comigo, docinho! Você precisa se alimentar! – eu disse tomando-a nos braços e saindo do quarto em direção à sala de jantar.
_ Brian, me ponha no chão, amor! Eu posso andar! – ela pedia enquanto eu descia as escadas com ela no colo.
_ Shhh ... quietinha, amor! Eu sei que você pode andar, mas vai ficar quietinha no meu colo. Relaxa e aproveita o passeio! – eu brinquei tentando descontrair.
Ela riu e se agarrou ainda mais em meu pescoço deitando a cabeça em meu peito.
_ Eu posso me acostumar com isso, sabia? Depois não vou querer mais sair daqui! – ela brincou de volta.
_ Eu estou contando com isso, docinho! – respondi satisfeito dando-lhe um beijo na pontinha do nariz.
O jantar já estava servido. Tio Emmett já estava em casa e considerando o seu olhar preocupado para a filha, tia Rose já deveria ter falado com ele. Mel se alimentou bem e durante todo o jantar manteve um sorriso lindo nos lábios. Anna e Valentina falavam sem parar sobre uma apresentação de balé em que ambas tomariam parte. Estavam empolgadas com o fato de serem as protagonistas da peça. Pelo que pude entender a peça era uma adaptação de "O cisne negro". Só não sabiam ainda qual papel caberia a cada uma.
Mel sorria satisfeita com a alegria das irmãs. Participava animadamente da conversa fazendo diversas perguntas e dando sugestões. Tio Emmett, embora sorrisse diante da empolgação das filhas, não conseguia disfarçar a preocupação com a saúde de Mel. Nas repetidas vezes em que seu olhar pousava sobre ela seu sorriso sempre esmaecia. Sua angústia era evidente.
Mais tarde naquela noite, tia Rose, tio Emmett e eu nos reunimos no escritório de tio Emmett para conversarmos com Mel. Era fácil perceber a apreensão nos olhos do tio Emmett, talvez ela fosse um espelho da angústia que se projetava nos meus. Tia Rose explicou para todos como seria feito o tratamento de Mel deixando bem claro que a alimentação controlada era uma parte importante do processo. Embora Mel não tenha tentado convencer a mãe a deixá-la viajar, era evidente em seu rosto a decepção pelo adiamento da nossa viagem. Eu podia ver em seus olhos que ela tinha ficado triste e apesar de também não ter gostado de ver nossos planos frustrados, eu sabia que era por um bem maior.
_ Não fique assim, docinho! – eu disse acariciando seu rosto. Estávamos na varanda da frente da casa de Mel, depois de conversarmos com tia Rose.
_ Eu queria tanto poder ir viajar com você, bebê! Eu sei que é mais importante eu me tratar, mas ainda assim não consigo deixar de me sentir frustrada! – ela disse com o rostinho triste, a cabeça encostada em meu peito.
_ Amor, o fato de nós não viajarmos agora, não quer dizer que nós não iremos mais! A nossa viagem só foi adiada, não cancelada! – eu disse tentando animá-la.
Mel não disse mais nada. Apenas deu um suspiro profundo e se agarrou ainda mais a mim. Percebi que não importava o que eu dissesse, ainda assim ela não se sentiria melhor. Decidi permanecer calado, apenas abraçado a ela acariciando os seus cabelos. Uma brisa fria a fez estremecer e achei melhor entrarmos antes que ela se resfriasse. Ela já estava sonolenta novamente por causa da anemia. Subi com ela nos braços até seu quarto e a deitei delicadamente em sua cama. Ficamos ali, em um silêncio confortável até que ela adormecesse. Minha vontade era ficar ali com ela, velando seu sono, cuidando dela até que ela voltasse a acordar, mas eu não poderia abusar da compreensão do tio Emmett. Por mais que ele soubesse que eu não iria fazer nada de errado com sua filha, passar a noite na cama com ela seria demais para a cabeça de um pai ciumento e zeloso como ele. Adiei a minha saída o máximo que o bom senso permitia. Desci para a sala e me despedi dos meus tios antes de ir para casa.
Meus pais me esperavam na sala de casa assim que entrei. Eles já sabiam e estavam preocupados com a minha reação. Conhecendo-me como ninguém mais me conhecia, eles tinham certeza de que eu não estaria tranquilo. Conversamos por mais de uma hora antes que eu subisse para o meu quarto. Apesar de saber que Mel estava sob a supervisão médica da mãe, eu não conseguia deixar de me preocupar com ela.
Os primeiros dias de tratamento foram torturantes. O organismo delicado de Mel não reagia bem ao medicamento. Enjôos, tonturas, sonolência e, para o meu total desespero, desmaios tornaram-se frequentes. Tia Rose já havia explicado que os desmaios eram comuns porque, com o corpo debilitado, a quantidade de oxigênio levada ao cérebro era menor do que a necessária. Ainda assim, vê-la tão frágil e tê-la inconsciente em meus braços me deixava a beira do desespero.
Mesmo depois de um mês de tratamento em que todos ficamos de olho na alimentação de Mel, ela ainda não dava sinais de recuperação. Apesar da alimentação adequada e da medicação apropriada repondo a quantidade de ferro insuficiente em seu organismo, seus exames continuavam apresentando o mesmo resultado. Vários outros exames já haviam sido feitos e todos estavam normais. Já não sabíamos mais onde procurar e eu podia sentir que Mel estava ficando cansada daquilo tudo. Por diversas vezes, ela se mostrou irritada, em outras, deprimida. Segundo Tia Rose, essas mudanças de humor eram uma reação ao medicamento, mas isso, de certa forma, contribuía para que ela parecesse ainda mais debilitada. Eu passava todo o tempo ao seu lado e às vezes sentia uma vontade incontrolável de chorar. Não era fácil vê-la tão fraquinha e ter que fingir que tudo estava bem. Muitas vezes, ao chegar em casa depois de deixá-la dormindo, eu me deitava em minha cama e chorava por horas. Eu sabia que aquela reação era irracional, mas não conseguia controlar o medo de perdê-la. Às vezes, ela se sentia tão fraca que passava o dia todo na cama. Em outras, as dores abdominais e os vômitos causados pelo efeito colateral do remédio a deixavam totalmente prostrada e vê-la assim me matava por dentro. Por muitas vezes eu desejei trocar de lugar com ela.
No segundo mês de tratamento, Mel começou a apresentar alguma melhora. Ainda assim nós não nos descuidamos. Sua alimentação era rigorosamente controlada e os medicamentos eram tomados nas horas certas. Mais dois meses se passaram até que os exames retornassem ao normal. A palavra alívio não seria suficiente para descrever o que sentimos ao ver os resultados dos exames de sangue. Na verdade, não conseguíamos encontrar uma palavra que fizesse justiça ao que sentíamos naquele momento. Mais algumas semanas e poderíamos retomar nossas vidas em um ritmo normal. Só mais algumas semanas e poderíamos retomar os planos de viagem.
Nas semanas seguintes, Mel parecia totalmente recuperada. Talvez isso tenha se dado devido à expectativa da nossa viagem. Havíamos retomado os planos para ir à Califórnia. Seth e Sofia tinham decidido adiar a viagem e esperar até que Mel pudesse ir comigo. A amizade das duas era algo impressionante. Eu nunca tinha visto duas amigas tão unidas quanto elas e a cumplicidade que existia entre as duas era invejável.
Mel e eu voltávamos de um passeio no Park Yost. Havíamos passado parte da manhã deitados na grama sob o sol fraco de Edmonds. Momentos simples como aquele, em que eu a tinha ali, deitada juntinho a mim com a cabeça descansando em meu peito, me faziam sentir que a minha vida não teria sentido se ela não estivesse comigo. Não sei como nem quando me tornei tão dependente da presença daquela menina, mas o fato é que eu não sabia nem mesmo respirar se ela não estivesse ao meu lado. Tudo era mais fácil na presença dela.
_ Em que você está pensando, bebê? – a voz doce da minha menina me tirou dos meus pensamentos.
_ Estava pensando em como a minha vida não tem sentido sem você! – respondi sorrindo ao ver o brilho em seus olhos.
Mel ergueu a mão e acariciou meus cabelos na altura da minha nuca. Meu corpo se arrepiou instantaneamente ao seu toque.
_ Eu também não consigo me imaginar vivendo sem você! – ela disse baixinho e eu pude perceber uma nota de tristeza em sua voz.
Olhei para ela assustado a tempo de ver uma lágrima rolar pelo seu rosto. Parei o carro no acostamento, preocupado com o seu choro e a puxei para o meu colo.
_ Hey, amor! O que foi que aconteceu? Qual é o motivo dessas lágrimas, hein? – eu secava seu rosto, mas outras lágrimas voltavam a molhá-lo rapidamente.
_ Eu sinto tanto medo de perder você, bebê! – ela respondeu enterrando o rosto em meu pescoço.
_ Por que isso agora, docinho? Você sabe que eu não vivo sem você! Não fica assim, por favor? – eu tentava afastá-la para olhar em seus olhos, mas ela se agarrava a mim com mais força ainda.
_ Eu tenho medo que um dia você se canse de mim. Eu sou tão complicada, bebê! Olha quanto tempo eu levei pra me curar de uma simples anemia! – sua voz saía entrecortada por soluços. - Eu tenho medo que um dia você perceba que eu não sou boa o suficiente pra você e vá embora!
_ Mel, olha pra mim! – eu disse sério.
Ela percebeu a diferença em meu tom de voz e afastou o rosto para me olhar nos olhos. Enxuguei mais uma vez as lágrimas que molhavam a pele branquinha e macia do seu rosto de anjo antes de falar:
_ Eu. Amo. Você! – pontuei cada palavra para que ela me ouvisse. – Não fique pensando essas bobagens, amor! Se alguém não é bom o suficiente aqui, este alguém sou eu! – ela tentou negar com a cabeça, mas eu a impedi – Você não precisa sentir medo de me perder simplesmente porque isso nunca vai acontecer, me entendeu? Nunca!
Não esperei que ela me respondesse. Agarrei seu rosto e a beijei quase com violência. Mel precisava acreditar que eu jamais conseguiria deixá-la. Ela precisava perceber que era eu quem tinha medo de que ela me deixasse. Eu a apertava contra o meu corpo em um abraço esmagador. Suas mãos agarravam meus cabelos enquanto ela retribuía ao meu beijo com a mesma sede com que eu a beijava. Era ali o meu lugar, nos braços daquela mulher, cativo daquele coração cujas batidas marcavam de forma irreversível o rumo da minha vida.
