A/N: Olá gente!! Desculpem pela demora! Mas 43 páginas no Words não é rápido de traduzir O.o hehe. Mas aí está o capítulo 10 de Checkmate! Qualquer ingrediente de Poções que vocês não souberem o que significa, podem pesquisar no google que lá explica tudo! A maioria são ingredientes específicos do mundo da JK Rowling. Por favor comentem! E Feliz Natal!!!!

CHECKMATE

PARTE II – O JOGO

Capítulo 10

One of these days, and it won't be long, he'll know more about me
Than he should
All my dreams will be understood

Um dia desses, e não vai demorar muito, ele saberá mais ao meu respeito

Do que deveria

Todos os meus sonhos serão compreendidos

Letras de "Heaven Help My Heart" de Chess por Benny Anderson, Tim Rice e Björn Ulvaeus


Um pouco depois, Harry estava sentado em meio a um silêncio bem companheiro com Draco, uma tábua equilibrada em seu colo, picando cogumelos negros em pedacinhos. Os dois garotos estavam sentados de pernas cruzadas no chão em frente à lareira, encarando lados opostos, para que pudessem se encostar um nas costas do outro. Harry estava de meias, e Draco descalço, e os dois pares de sapatos estavam alinhados, lado a lado, em frente à porta. O kit portável de poções estava espalhado ao redor deles. O fogo baixo queimava com um som agradável, e Harry se sentia confortavelmente aquecido, uma grande melhora após a subida pelas escadas frias da torre.

Harry olhou para Draco por cima de seu ombro, altamente entretido com a situação e com sua confusão ao que Draco se referiu como "algo mais divertido." Draco estava lendo com seriedade um livro massivamente grosso e pesado que havia retirado de sua prateleira. Era intitulado Poções Através dos Tempos: Uma Enciclopédia Histórica. Harry suspeitava, julgando pela expressão suave de estar perdido no livro, que Draco realmente estava lendo, como havia dito, por diversão.

Harry observou aquela face por vários momentos, aproveitando a chance de ver o outro garoto nesse raro momento não guardado. A luz do fogo criava pinceladas delicadas e prazerosas de rosa em sua pele e cabelo. "Ei," Harry chamou com um ar provocador, enquanto cutucava Draco com seu cotovelo, "eu não acho que usar sua vez no xadrez para me fazer cortar ingredientes de poções vai de acordo com as regras do jogo."

Draco levantou o olhar após um segundo e sorriu para ele. "Você sabe que eu nunca jogo de acordo com as regras, Harry. E além do mais," ele adicionou, "nós temos N.E.W.T.s se aproximando, e tenho certeza que Snape vai nos testar com essa poção segunda-feira."

"Ah que droga, Draco," Harry gemeu. "Isso quer dizer que terei que refazer tudo isso na segunda. E segunda é o último dia de aula antes do feriado."

"E é exatamente por isso," Draco respondeu suavemente, "que tenho certeza que ele irá nos testar. Você sabe que ele sempre faz isso. E essa Poção de refletir maldições é a mais difícil que já estudamos, então com certeza será a que ele vai escolher."

Harry rolou os olhos. "Você está começando a me lembrar da Hermione."

Draco levantou uma sobrancelha com uma expressão de vaga afronta. "Eu não me sinto tão ofendido como me sentiria a um tempo atrás, mas você pode manter essa opinião para si mesmo," ele respondeu, voltando à sua leitura.

Harry riu. "É que isso era a última coisa que eu imaginava fazer em uma sexta à noite," ele falou. "Quando você disse 'algo mais divertido' isso não foi exatamente o que veio à minha mente."

Draco virou uma página em seu livro, olhando para Harry com um sorriso enigmático nos cantos de seus lábios. "Eu não disse que estava planejando fazer isso a noite inteira," ele disse. O loiro observou Harry com uma curiosidade entretida em seus olhos. "Sei que estarei interessado no que você tem em mente. Nós podemos parar com isso por hoje, se quiser."

Harry olhou todas as coisas que Draco tinha retirado. "Não, tudo bem," ele disse com um sorriso. "Contanto que não demore muito. . . e," ele adicionou com um tom derrotado, "se você acha que Snape vai nos testar segunda-feira, eu com certeza posso usar o treino. Estou apenas te provocando por chamar isso de divertido." Harry parou por um momento para considerar o que estava sentindo agora – e ficou surpreso ao perceber que estava se divertindo. "Mas não é tão ruim," ele disse. "Eu sempre odiei quando Snape nos fazia trabalhar juntos, e você tentava me forçar a fazer todo o trabalho manual por você, mas agora, é. . . bem. . . é bem. . . legal, na verdade." Harry sentiu sua face corar com a admissão.

Draco riu baixinho. "Não deixe Snape ouvir você dizendo isso – ele pode ter um derrame." Pausou por um segundo, sua cabeça um pouco inclinada, pensando. "Você faz um bom argumento, no entanto," ele disse, "sobre o movimento de xadrez. Eu pedi que você fizesse algo, mas não foi nada pessoal. Talvez eu devesse mudar minha pergunta."

"Ah não, você não pode." Harry disse com um sorriso. "Você já usou a sua vez, mesmo que de maneira ruim. Agora sou eu."

Draco sorriu como se estivesse esperando por essa resposta e estava feliz com ela. "Vá em frente, então," ele disse levemente, voltando sua atenção ao livro. "Nós podemos continuar jogando enquanto trabalhamos nisso."

Harry colocou a tábua de lado, virou-se e ficou de joelhos para que pudesse ver a mesa atrás de si. Muito cuidadosamente, ele levantou o tabuleiro de xadrez da mesa e o colocou no chão entre eles. Voltou à sua posição de pernas cruzadas, dessa vez encarando Draco do outro lado do tabuleiro. Draco ainda estava na direção do fogo, então sentado de lado para Harry, obviamente concentrado no livro.

Harry estudou as posições de suas peças de xadrez por alguns minutos, hesitando. Ele não tinha decidido o que perguntar ainda; havia tantas coisas sobre as quais queria conversar. Mas enquanto seus olhos escaneavam as peças, sua atenção foi atraída aos pés descalços de Draco, que estavam aparecendo por baixo do joelho dele, perto da ponta do tabuleiro. As coisas sérias podiam esperar. Ele moveu seu Rei e sua Torre ao mesmo tempo, trocando o lugar deles no tabuleiro. "Encastelei," anunciou. Observou aquele pé exposto por mais um segundo e então levantou o olhar com um sorriso malicioso. "Draco," ele perguntou, tentando manter um ar de completa inocência, "você tem cócegas?"

Draco levantou o olhar de se livro e soltou um ronco proposital. "Não seja ridículo," ele respondeu, voltando à sua leitura como se o assunto fosse muito inconseqüente para ser discutido. "Você acabou de desperdiçar o seu movimento agora."

Harry quase riu, no entanto, quando Draco se moveu sutilmente e seu pé despareceu por baixo de seu joelho. "Ninguém nunca tentou te fazer cócegas antes, não é?" Harry persistiu.

"É claro que não," Draco respondeu com um tom insultado. "Ninguém se atreveria."

Harry soltou um sorriso malicioso. "Eu me atreveria," ele disse. "Eu acho que você tem."

Draco voltou a encarar Harry, escandalizado. "E eu estou bem certo de que não tenho. Eu nunca me permitira ter algo tão... tão... indigno."

Isso fez Harry rir alto. "Bem, teremos que ver então, não é?"

"Ei, ei, espera lá!" Draco disse, fechando o livro violentamente. "O que vai fazer?"

"Ainda não sei," Harry disse, ainda sorrindo. "Eu definitivamente planejo testar minha teoria... mas não agora. Você está a salvo – por enquanto."

"Você só vai me deixar bravo, sabe, se tentar," Draco disse. Ele rapidamente voltou ao seu livro, abrindo em uma página qualquer no meio.

"Ah, não sei não," Harry disse. Observou Draco se esconder atrás das páginas de seu livro gigantesco, mas não antes de perceber aquela face pálida corar. Levantou-se de joelhos e cuidadosamente colocou suas mãos ao lado do tabuleiro, inclinando para frente, perto de Draco. Ele gentilmente acariciou a orelha de Draco com seu nariz e sentiu um tremor correr pelo outro garoto. "Você pode gostar," Harry sussurrou na orelha agora muito rosa. "Pode gostar muito."

Draco utilizou um braço para empurrar Harry. "Você não devia estar cortando cogumelos?" ele disse, tentando parecer irritado. Mas estava sorrindo agora contra sua vontade.

Harry voltou a se sentar com um largo sorriso, feliz por ter feito Draco sorrir. "Vou te deixar em paz por enquanto," ele disse, rindo. "Mas quando menos esperar... então veremos quem não tem cócegas."

Draco sorriu em resposta, agora parecendo gostar da piada. "Tudo que veremos será quem perdeu seu tempo," ele replicou.

Harry apenas riu e voltou a apanhar a tábua. "É, veremos," ele disse. Ele cutucou a pilha de cogumelos picados com a faca. "Assim tá bom?" perguntou.

Draco lançou um olhar rápido à pilha, gesticulando sua aprovação com a cabeça. "Está ótimo," ele disse. Passou uma das garrafas vazias de seu kit para Harry. "Coloque-os aqui por enquanto. Nós temos que ter todos os ingredientes preparados antes de começarmos." Ele virou algumas páginas do livro por um momento, até encontrar o local correto novamente, enquanto Harry empurrava os cogumelos na garrafa. "Hmm," ele disse, lendo a página, "vamos precisar de ferrões secos de gira-giras a seguir. Eu tenho um pouco nesse kit, em algum lugar."

Eles reviraram os pacotes no chão até encontrarem o que estavam procurando. "Não temos muito," Harry disso. "Vai dar?"

Draco examinou o pacote criticamente. "Sim," ele disse, "mas por pouco. Então seja cuidadoso."

Harry depositou o conteúdo do pacote na tábua, observando os ferrões pontiagudos nos insetos azuis berrantes com receio. "Espero que eles sejam cuidadosos comigo," ele murmurou.

"Aqui," Draco disse, alcançando para demonstrar. "Segure-os pela cabeça, desse jeito... e corte o ferrão do outro lado. Use a faca para puxar o ferrão para um canto da tábua para que não precise tocar. Apenas tenha cuidado de onde coloca seus dedos e ficará bem."

Harry suspirou. Alguns ingredientes dessa poção o deixavam decididamente nervoso. "Tá bom," ele disse, cautelosamente pegando um dos insetos azuis brilhantes. "Mas se você me vir flutuando no teto depois, será toda sua culpa."

Draco riu. "Agora isso," ele disse, "seria engraçado."

Harry riu. Ele tinha que admitir que seria bem engraçado. Mas... não estava planejando passar por essa experiência se pudesse evitar. Inclinou-se na tábua, concentrando em sua tarefa. Após cortar quatro ou cinco ferrões com sucesso, ele relaxou. Realmente não era tão difícil. Pausou por um momento e olhou para Draco, surpreso ao ver que este o estava observando, seus olhos cinza calorosos. Harry sorriu para ele. "Que foi?"

"Só pensando," Draco disse. "É a minha vez." Draco retirou mechas de cabelo de sua testa com uma mão antes de alcançar o tabuleiro. "Rainha para G4," ele disse, movendo sua Rainha e apanhando o Cavalo de Harry. "Eu sei que prometi não perguntar, mas já que me contou sobre isso essa manhã... Eu queria saber mais a respeito dessa cura que você consegue fazer."

Harry franziu as sobrancelhas, um gesto direcionado mais à perda de seu Cavalo do que à pergunta. Na verdade, sentiu-se bem disposto a falar sobre seu assunto preferido, agora que Draco já sabia a respeito. "Eu acho que começou quando eu decidi freqüentar as aulas de Medicina Mágica da Madame Pomfrey ano passado," ele começou. "Não tenho certeza por que eu quis, já que nunca refleti muito sobre o assunto, mas sabia que não queria fazer Adivinhação ou Aritmancia Avançada e não tinha grandes outras opções. Mas quando parei para pensar, interessei-me. Parecia algo útil para se fazer, algo realmente necessário, com a guerra se aproximando e tudo mais, ao invés de -" Harry pausou brevemente, como se reconsiderando algo que estava prestes a dizer. "Achei que talvez eu pudesse achar um modo diferente de me envolver," ele continuou suavemente. "Passado metade do termo, a Madame Pomfrey fez uma prova a todos os alunos para nos testar em nossos potenciais em cura mágica. Eu acho que é algo ético e corrente na profissão, porque ela disse que qualquer pessoa que quisesse atuar em medicina mágica tinha que ter uma classificação válida."

Draco concordou com a cabeça como se nada disso fosse novidade para ele.

"O meu resultado foi classe-sete," Harry disse, sem jeito, ainda envergonhado em dizer.

"No primeiro teste?"

"Sim," Harry disse.

Draco assobiou suavemente, genuinamente impressionado. "Aposto que ela não esperava isso. É a nota mais alta que você pode ter, não é?"

"Sim," Harry disse novamente, então sorriu, envergonhado. "Ela me chamou privadamente para anunciar meu resultado, e o Professor Dumbledore estava lá, e ambos estavam tão sérios. Achei que tinha falhado inteiramente e eles me mandariam desistir da aula. Quando disseram que a minha nota era sete, eu achei que isso era ruim."

Draco inclinou a cabeça levemente e lançou a Harry um sorriso brincalhão. "Você é tão Trouxa às vezes, Harry."

Harry sorriu e deu de ombros. "Como eu poderia saber? Nunca tinha ouvido falar dessas coisas antes." Ele se inclinou na tábua e cortou mais dois ferrões antes de continuar. "Eu terminei aquele ano fazendo praticamente o que todos os outros faziam, mas agora a Madame Pomfrey está trabalhando comigo sozinho."

"Poucas pessoas conseguem curar sem uma varinha, sabia."

"A Madame Pomfrey diz que varinhas são instrumentos, ou pontos de foco," Harry respondeu, "para facilitar o uso de magia. Quando você começa a aprender mágica, elas são muito importantes e necessárias. Se você consegue focar a mágica sozinho, não precisa delas. A maioria das pessoas não tentam aprender e continuam sempre dependentes de suas varinhas."

"É isso que está aprendendo, então?" Draco perguntou, olhando para baixo, distraidamente virando as páginas de seu livro. "Aprendendo a fazer mágica sem varinha?"

"Apenas com cura," Harry disse rapidamente. "Eu duvido que consiga fazer com qualquer outra coisa. Mas nesse momento," ele adicionou com a voz cheia de entusiasmo, "estou estudando auras mágicas e como perceber o que há de errado com uma pessoa através do reconhecimento de texturas de luz e cores em sua aura."

Draco olhou para Harry, um interesse ávido iluminando seus olhos. "Você consegue ver auras mágicas?"

"Sim," Harry disse, envergonhado novamente. "Quando eu me concentro de certa maneira, consigo. Mas a Madame Pomfrey possui um instrumento chamado Aurascópio. Parece bastante com onióculos. Com ele, qualquer um consegue vê-las. Geralmente eu trabalho com isso, mas ela está fazendo eu praticar vê-las sozinho."

"E ninguém mais sabe disso tudo?" Draco perguntou. "Nem mesmo Weasley e Granger?"

"Não," Harry disse. "Apenas a Madame Pomfrey e o Professor Dumbledore – e agora você." Harry encontrou os olhos de Draco, repentinamente sério. "Eu não quero que mais ninguém saiba, Draco."

"Harry," Draco disse em um tom que implicava que se sentia um pouco insultado. "Nem mesmo tortura com colheres Trouxas pode arrancar seu segredo de mim." Então ele riu quietamente da expressão esperançosa de Harry. Draco alcançou através do tabuleiro e descansou sua mão na nuca do outro, gentilmente acariciando o ponto atrás da orelha com seu dedão. "Eu já te disse," ele disse com calma e sinceridade, "o que você me diz fica apenas entre nós. Não vou sair contando para os outros. É... bem... muito pessoal para mim. E eu confio que você fará o mesmo."

"Farei," Harry disse, sentindo uma onda de gratidão. Durante toda a sua vida ele desejou por privacidade. Apesar de ter passado muitas, muitas horas preso sozinho na casa dos Dursleys, ele sempre teve o pressentimento de estar sendo constantemente observado. Esse sentimento apenas aumentou em dez vezes quando entrou no mundo mágico. Até mesmo com Rony e Hermione, não havia nada que podia contar para um sem que o outro ficasse sabendo quase que imediatamente. É verdade que, por enquanto, Hermione estava guardando segredo de seu relacionamento com Draco, pois ela entendeu que era Harry quem precisava contar a Rony. Mesmo assim, Harry duvidava que ela guardasse o segredo por muito tempo se ele falhasse em contar para Rony o rápido suficiente para satisfazê-la. Mas Draco era diferente, em todos os sentidos. Harry estava maravilhado com esse novo conceito – que havia coisas privadas e confidenciais a serem divididas apenas entre os dois. "Obrigado," ele adicionou em um tom baixo. "Isso significa muito para mim."

Draco se inclinou na direção de Harry, puxando-o para perto ao mesmo tempo, e Harry o encontrou no meio do caminho para selar a promessa com um beijo bem por cima do tabuleiro. Harry retirou sua mão da tábua em seu colo para segurar Draco, mas quando se inclinou um pouco mais para frente, a tábua escorregou de seu colo e caiu no chão, espalhando os gira-giras em várias direções.

Harry se afastou do beijo, deu uma olhada aos ferrões de gira-giras no chão e soltou um palavrão. "Ah droga, Draco. Eu não sei por que você quis que eu fizesse isso pra começar." Suspirou profundamente. "Estava destinado à catástrofe de alguma maneira." Passou a mão por seu cabelo, fazendo uma parte arrepiar na parte de trás.

Draco apenas balançou a cabeça, mas seus olhos brilhavam com diversão, afeição e os efeitos do beijo. Harry era um babaca adorável. Ele revirou sua caixa de acessórios em miniatura e retirou uma pinça. "Você não arruinou tudo," ele disse, passando-a para Harry junto com um pequeno recipiente. "Apenas encontre os ferrões e apanhe-os."

Enquanto Harry procurava no chão pelos gira-giras, Draco se ocupou em preparar alguns outros ingredientes. Quando Harry terminou de coletar todos os ferrões, Draco tinha medido mais quatro ingredientes: seiva de hera estranguladora, bile de tatu, muco de verme-cegos e um olho de salamandra.

Harry adicionou o recipiente de ferrões à crescente fila de jarras. "Tá bom," ele disse com alívio. "Encontrei todos. Do que mais precisamos?"

Draco consultou seu livro monstruoso, correndo seus dedos sofisticados pela lista de ingredientes na página, antes de fechá-lo e o colocar de lado. "Apenas mais quatro coisas. Eu posso preparar os ovos de farosutil e a pele em pó de manticore. O foxglove e a neoplasma de murtisco conservado em salmoura têm de ser cortados."

Harry fez careta para os tentáculos molengos dos murtiscos, grato por precisarem de uma pequena quantidade. Quando terminou, sentou-se por um momento considerando a posição de suas peças de xadrez, suas mãos pairando indecisamente acima do tabuleiro. "Torre para E8", ele disse finalmente. Draco observou enquanto Harry movia sua Torre. Harry encarou os curiosos e intrigados olhos cinza. "O que você planeja fazer depois de se formar?" ele perguntou.

Os olhos de Draco arregalaram por um segundo, então ele voltou a medir os ovos de farosutil. "Eu não sei," ele disse após um curto silêncio.

Harry esperou Draco dizer mais, mas quando o outro apenas continuou a trabalhar em silêncio, ele suspirou. Ainda havia muitos pontos de interrogação entre eles. Harry tinha esperança de fazer Draco falar sobre a possibilidade de ficar ensinando em Hogwarts, imaginando se Draco sabia que Dumbledore estava considerando essa possibilidade para ele. "Mas e – " começou a perguntar, mas Draco colocou a pequeno jarra de ovos de farosutil no chão, cortando-o.

"Não estou planejando fazer nada," ele disse friamente. E antes que Harry pudesse pedir que explicasse, Draco alcançou o tabuleiro.

Harry estudou Draco atentamente enquanto o loiro considerava seu próximo movimento. Draco pareceu ansioso para evitar a pergunta. Harry não tinha certeza por que Draco queria contornar o assunto, mas não queria pressioná-lo a respeito. Pelo menos ainda não. Harry pegou o pacote de foxglove ao mesmo tempo em que Draco selecionou seu Bispo.

"Bispo para H6," Draco disse sobriamente, movendo a peça diagonalmente em dois espaços. "Mesma pergunta, Harry. O que você quer fazer quando se formar?" Virou-se para Harry, uma sobrancelha levantada delicadamente. "Bem?" ele perguntou com sentimento em sua voz, quando Harry apenas continuou sentado e encarando. "Com certeza você tem planos."

Harry sentiu uma pequena faísca de ressentimento dentro de si. "Não," ele disse sem emoção após um momento. "Eu não posso ter planos, Draco." Harry despojou uma flor de foxglove na tábua e começou a separá-las dos caules o mais cuidadosamente possível, apesar de ser difícil porque se sentia perturbado, quase bravo. Agora que as mesas haviam virado, não sabia se queria responder a pergunta também. A verdade é que se sentia preso em um futuro muito cinza. Será que Draco se sentia assim também? Seria por isso que ele havia evitado a pergunta? Harry se lembrou do que Dumbledore dissera. "Ele tem um futuro muito incerto."

Assim como eu, Harry pensou. Assim como eu. Fizera uma pergunta estúpida. Mas quando Harry levantou o olhar, pronto para se desculpar, encontrou Draco o encarando com olhos cinza nublados com perguntas a serem feitas, e repentinamente havia palavras que ele precisava dizer a alguém, sem nunca ter o feito.

Engolindo a dor em sua garganta, Harry começou a falar. "O que eu posso fazer?" ele perguntou com uma voz resignada. "Para onde eu iria?" Sua faca fez um corte na pétala e ele a soltou, temporariamente desistindo de cortar. "Enquanto Voldemort continuar se escondendo e não soubermos de seus planos, Dumbledore não me deixará partir. Então," ele disse, "vou ficar aqui – trabalhando com a Madame Pomfrey no hospital e ajudando a Madame Hooch com as aulas de vôo. Ficarei preso aqui indefinidamente até me chamarem para bancar o Grande Herói do Mundo Mágico." Ele pausou por alguns segundos, adicionando com uma voz baixa e tensa, "Eles acham que é isso que eu quero, ainda por cima." Até mesmo colocar essas palavras para fora deixavam um gosto quase ácido em sua boca. Ele levantou os olhos da tábua e encarou as chamas por um momento. "Mas eles estão errados, Draco," ele continuou. "Eles estão todos errados. Não é isso que quero fazer. E não vou fazer – não se eu puder dizer algo a respeito." Harry pegou a faca novamente e começou a fatiar as flores que separara dos caules. Seus cortes eram um pouco trêmulos, mas determinados.

Draco terminou de despejar a pequena quantidade de pele de manticore em pó que precisavam em uma jarra, e a colocou de lado com os outros ingredientes. Então ele se virou até encarar Harry, cotovelos descansando nos joelhos, dedos entrelaçados levemente. "Não quer fazer o que?" ele perguntou quietamente, seus olhos estudando a face de Harry.

"Eu não quero lutar Voldemort novamente," veio a resposta quieta, porém firme. Harry manteve seus olhos abaixados. Ele parecia atento ao seu trabalho com a faca, mas sua voz tremulou ligeiramente quando continuou a falar. "O que aconteceu no Torneio Tribruxo foi muito... muito horrível. Eu estava sozinho lá... e então Cedrico morreu..." Harry parou de falar novamente por um momento, parecendo estar concentrado em cortar os ingredientes. "Eu assisti ele morrer, Draco," ele disse finalmente, continuando com um tom sussurrado. "Não acho que consigo passar por algo do gênero novamente – isso ainda me assombra."

Draco mordeu seu lábio inferior e permaneceu quieto. Abaixou a cabeça, olhando para suas mãos. Luzes das chamas se refletiam em seu cabelo loiro enquanto este caía em sua testa e escondia a expressão de sofrimento em sua face. "Então é por isso que você queria estudar medicina?" ele perguntou finalmente.

"Sim," Harry concordou, solenemente. "Mas apenas porque eu estava – estou – esperando poder atuar com outro papel. Não porque acho que poderia ter salvado Cedrico. Ninguém pode curar outra pessoa da Avada Kedavra, nem mesmo um medibruxo classe sete." Harry pausou e olhou para Draco pela primeira vez desde que começara a falar, seus olhos verde brilhando com um tipo de raiva desesperançosa. "Você já o viu, Draco? Já viu Voldemort?"

Draco levantou a cabeça e encontrou os olhos de Harry. "Não."

"Ele é como um pesadelo andante. Horrendo. E você sabe o que ele disse? Ele disse, 'Matem o outro.' A vida de Cedrico era apenas... nada... para ele. Me enoja só de pensar. E a pior parte de tudo é que..." Harry parou.

Draco esperou, mas quando Harry não continuou, ele perguntou suavemente, "O que?"

Harry respirou fundo e liberou um suspiro forçado. "A pior parte é... que ninguém vai me perguntar o que eu quero, e eu não vou dizer nada a respeito. Eu vou apenas fazer o que eles querem, porque mesmo que eu não queira, não posso suportar desapontá-los. Eu serei o maldito Grifinório valente que eles querem que eu seja, irei lá quando chamado, e morrerei." Harry apanhou a última jarra que Draco tinha separado e depositou nela as pétalas de foxglove. "Eu não quero lutar nessa guerra, Draco. Estou morrendo de medo – as expectativas que todos têm – porque não posso fazer o que eles querem – não sozinho. Às vezes quero apenas gritar para me deixarem em paz." Harry olhou para Draco novamente e os olhos dos dois se encontraram. Havia algo misterioso, quase como névoa naqueles olhos cinza. Harry abaixou o olhar, quebrando o contato. "Eu sei que isso deve parecer extremamente infantil," ele disse com tom de desculpa. Distraidamente pegou o caule da foxglove, agora já sem suas flores, e jogou-o no fogo.

"Não, não parece," Draco disse. Ele estudou o perfil perturbado de Harry por um momento, então desviou o olhar para o fogo, observando o caule da flor encurvar no calor e então finalmente acender em chamas. "Eu entendo o que está dizendo," ele disse suavemente. "Nenhum de nós tivemos muitas opções em nossas vidas."

Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos. Harry alcançou a pôs sua mão em cima da de Draco no joelho do loiro. Draco virou sua palma para cima, entrelaçando seus dedos, e eles seguraram mãos por um momento, um pequeno gesto de conforto para ambos.

"Foi uma pergunta idiota," Harry disse, "considerando nossas situações. E eu não sei o que fez com que eu desabafasse tudo isso – eu geralmente guardo esses pensamentos para mim."

Draco apenas deu de ombros. "Eu perguntei," ele disse. "Você devia estar precisando conversar."

Com um aperto gentil Harry liberou a mão que segurava e apontou para a longa fila de ingredientes de poções que haviam preparado. "Já temos tudo pronto?"

"Sim, já temos," Draco disse, bem mais animado. "Podemos começar a mistura agora."

Harry sorriu, sentindo-se animado também pela óbvia excitação de Draco pelo projeto. "O que primeiro?" ele perguntou.

"Primeiro," Draco disse, recolhendo seu livro e folheando as páginas até a parte correta, "é... vejamos... combinar todos os ingredientes líquidos." Ele apoiou o livro no lado da cadeira atrás de si para facilitar a consulta. "Isso será complicado, Harry," ele continuou enquanto movia mais perto do fogo e colocava o pequeno caldeirão à sua frente. "Tudo tem que ser adicionado na ordem correta, então dependerá de nós dois para dar certo."

Harry concordou com um gesto da cabeça, e juntou-se a Draco ao lado do caldeirão, pronto para seguir instruções. Havia três líquidos, a seiva de hera, o muco de verme-cegos e a bile. Harry pegou dois deles e Draco o terceiro.

"Pronto," Draco sussurrou quando as três mãos estavam acima do caldeirão. "Já!" Draco mexeu enquanto depositavam simultaneamente. Quando terminaram, olhou para Harry e sorriu com aprovação. "Você fez isso perfeitamente," ele disse.

Harry sorriu em resposta, sabendo que devia ter corado levemente. Perguntou-se se algum dia iria superar o efeito de calor que todo elogio inesperado de Draco tinha sobre ele.

Eles cuidadosamente adicionaram mais quatro ingredientes e Draco utilizou a pinça para pendurar o caldeirão acima do fogo. "Vamos deixar ferver, e então apagamos o fogo antes de adicionar o resto," ele explicou. Draco voltou a se sentar e virou para Harry. Sem uma palavra, eles se moveram para sentar lado a lado, Harry colocando seu braço ao redor da cintura de Draco, observando as chamas dançarem e tocarem o fundo do caldeirão. Após alguns momentos, Draco encostou sua cabeça na de Harry e falou. "E se não tivesse guerra," ele perguntou quietamente, "- sem Voldemort? E se você pudesse fazer qualquer coisa que quisesse? O que faria então?"

Vários minutos passaram até Harry responder. "Eu... bem, eu acho que iria querer continuar estudando medicina mágica, e quando ficasse bom o suficiente, abriria um consultório."

Draco levantou a cabeça e lançou um olhar questionador a Harry. "E como isso é diferente do que você vai fazer se ficar aqui e continuar a estudar com a Madame Pomfrey?"

"Er," Harry disse, vagarosamente. "Bem, acho que não tem muita diferença."

"Idiota," Draco disse suavemente, com um pequeno sorriso em seus lábios.

Harry sorriu também, envergonhado, sentindo-se um pouco bobo, como aquele sorriso de Draco sempre o fazia sentir. Mas também se sentia repentinamente mais leve, como se pudesse respirar mais livremente. Percebeu que não se sentia mais tão preso. "Eu nunca pensei desse jeito," ele disse. Então sorriu. "Draco, você é brilhante."

Draco apenas sorriu com orgulho e deu de ombros. "É claro que sim," ele disse.

E com uma rajada Harry sabia exatamente qual pergunta gostaria de fazer a seguir no jogo.

Draco se retirou do abraço de Harry e apanhou a pinça. Cuidadosamente, ele removeu o caldeirão quente do fogo e o colocou no chão de pedra. Começou a adicionar calmamente os ovos de farosutil, dois de cada vez, enquanto mexia a mistura.

Harry se virou para alcançar o tabuleiro atrás de si. Moveu o Peão em frente do seu Rei um espaço para frente. "Peão para G6," ele disse quietamente, escondendo sua esperança e ansiedade. Essa pergunta poderia significar tudo. "Draco," ele disse, começando hesitantemente. "Eu... eu sei quão incerto tudo é... mas, se vencermos essa guerra, se Voldemort for derrotado... e se... nós sobrevivermos..." Deus, quantos 'se'... Harry engoliu seco – isso era tão importante. "Você consideraria... trabalhar comigo?"

Draco terminou de mexer os ovos no caldeirão e não respondeu. As palavras de Harry caíram e se derreteram como se em um espaço distante de tempo, deixando um silêncio suspenso a ser preenchido apenas pelo estalar do fogo.

Após vários segundos desse silêncio agonizante, Harry falou novamente, rápido em seu nervosismo para preencher o vazio. "Você disse ontem que medibruxos tem que ser bons mestres de Poções, ou têm que trabalhar com um. E você sabe que nunca serei bom com essas coisas," ele disse, balançando a mão para indicar os ingredientes de poções que os rodeavam. "Nós podíamos ser parceiros. Seria ótimo..." Draco olhou para ele então, e Harry perdeu a voz devido ao olhar abalado na face de Draco. Harry não sabia o que pensar. Estava errado em presumir que Draco gostaria da sugestão?

Draco encarou Harry por outro longo momento de silêncio. "Você realmente gostaria de fazer isso?" ele perguntou finalmente. Sua voz era baixa, quase um sussurro. "Comigo?"

"É claro, com você," Harry disse, quieto e confuso. "Agora quem está sendo idiota?" Ele adicionou gentilmente.

Draco abaixou o olhar, quebrando o contato entre eles. Sentou-se com os olhos fechados, suas mãos cerradas em punhos em seu colo.

"Draco?" Harry questionou muito suavemente. Ele alcançou e tentativamente tocou o ombro do outro garoto. "O que foi?"

Draco respirou fundo, olhando para a face de Harry por um momento, e então desviando o olhar novamente. "É só que..." ele disse vagarosamente. "... apenas algumas noites atrás eu tinha certeza que você nunca iria desejar qualquer tipo de futuro comigo, e agora... eu..." Ele olhou para cima e dessa vez encontrou os olhos preocupados de Harry com firmeza; "São tantos 'se', Harry." ele disse, ecoando os pensamentos de Harry apenas um momento atrás. "Você sabe que é improvável que venha a acontecer."

"Eu sei," Harry concordou com a voz baixa. Ele mergulhou profundamente na tristeza que preenchia os olhos nebulosos de Draco. "Mas, se desse," ele perguntou "você gostaria?"

"Se eu pudesse," Draco disse com calma e solenidade, "seria a coisa mais perfeita que eu poderia possivelmente fazer."

O coração de Harry se revirou. "Para mim também," ele sussurrou.

Draco olhou para baixo por um momento, estudando o tabuleiro. Quando voltou a olhar para Harry, seus olhos estavam brilhando. "Na verdade," ele disse quietamente, "seria a segunda coisa mais perfeita que poderia fazer."

"A... segunda?" Harry perguntou com incerteza, despreparado com a aparente repentina mudança de opinião de Draco.

Mas Draco não deixou Harry dizer mais, apenas moveu seu último dragão branco. "Cavalo para F3," ele disse. A luz das chamas criou um brilho dourado e caloroso em sua face, seus olhos segurando os de Harry em um olhar hipnotizante. "Tem uma coisa que seria ainda mais perfeita," ele disse. Hesitou, então colocou sua mão em cima da de Harry. "Quer passar essa noite comigo?"

Ah. Harry quase se esqueceu de respirar. Não tinha como desentender as intenções de Draco dessa vez. Harry engoliu seco. Seu coração estava batendo forte agora, e ele sabia que o calor que subiu ao seu rosto não foi devido ao fogo. "Sim," ele disse suavemente. "Eu adoraria."

Houve uma pausa quente, e então Draco lançou um sorriso adorável, e Harry se viu sorrindo também, e por um momento nada mais existia para nenhum dos dois além desse entendimento sorridente e a antecipação pulsante que estava correndo como fogo por suas veias. "Vem cá, então," Draco disse com entusiasmo verdadeiro, ainda sorrindo. Ele apertou a mão de Harry antes de soltá-la e gesticulou na direção da poção meio-completada na frente deles. "Vamos terminar isso. Como eu disse, não quero passar a noite inteira praticando Poções."

"Então, diga-me o que colocar a seguir," Harry disse com uma risada. "Estou mais do que pronto para terminar."

"A pele de manticore, acho." Draco folheou seu livro por um momento, o qual havia fechado, tentando encontrar a página certa. Encontrou-a e balançou a cabeça. "Não, espere," ele disse. "Errei, é o olho da salamandra."

"Tarde demais," Harry disse, ajoelhado à frente do caldeirão, segurando a garrafa vazia que momentos atrás continha a pele de manticore.

Draco o encarou, um olhar de crescente alarme em seu rosto. "Harry!" ele gritou. "Afaste-se!"

Mas Harry não teve tempo de reagir. A poção deu um borbulhar trêmulo e então FOOMP! A poção explodiu, a meleca verde caindo na cabeça, rosto, ombro e peito de Harry.

"Que merda, Draco! Eca! Tira essa merda de mim!"

Draco se levantou em um instante. Harry estava prestes a limpar a meleca de seu rosto com a mão, mas Draco a agarrou. "Não! Não toque nada, Harry. E não abra seus olhos. Apenas se levante e me siga." Ele puxou Harry de pé e para longe da lareira. "Só tem um jeito de tirar essa coisa."

"Eu não consigo ver onde estou indo," Harry protestou. "E está queimando."

"Eu sei," Draco disse. Ele estava tentando permanecer calmo, mas a meleca estava começando a soltar fumaça. "Harry, tem que se apressar. Venha!"

Draco urgentemente guiou e arrastou Harry pelo quarto, até o banheiro. Rapidamente ele abriu a cortina e a torneira do chuveiro, e ficou vastamente grato quando Harry não discutiu mais. Ele apenas ficou ali, rígido de choque devido à água congelante, seus olhos fechados firmemente e seus dentes cerrados, permitindo que Draco o virasse em várias direções. Quando Draco teve certeza que havia lavado toda a poção da pele, cabelo e roupas de Harry, ele removeu os óculos dele, lavando-os na água jorrando do chuveiro, e os deitou cuidadosamente na beira da pia. Finalmente satisfeito, Draco disse, "Tá bom. Acho que tirei tudo. Mas você precisa lavar seu cabelo direito, assim que a água esquentar."

Harry saiu da água, a qual estava começando a esquentar. Inclinou-se no lado oposto do chuveiro e limpou a água de seus olhos com uma mão. Então ele se abraçou e fixou Draco com um olhar negro.

Draco tentou evitar, mas realmente não conseguiu, parcialmente devido ao alívio por Harry estar bem, e também por causa da figura que Harry estava posando, parado ali, cabelo preto colado na cabeça e água pingando em seu rosto – ele começou a rir. "Deus, Potter," ele disse entre risinhos, "você parece um gato afogado!"

Harry o olhou feio. "É mesmo?" ele respondeu. Sem aviso, e como se estivesse apanhando o Pomo-de-ouro, Harry se jogou para frente e apanhou a frente da camisa de Draco.

Houve um segundo em que Draco percebeu a intenção de Harry. "Ah não, Harry," ele respirou horrorizado, "não nas minhas -"

Harry o puxou para baixo d'água.

" - roupas," Draco terminou enquanto a água o encharcava da cabeça aos pés.

Foi a vez de Harry de rir, enquanto Draco saía do chuveiro, seu cabelo também molhado e pingando das mechas que caíam em seus olhos. "Eu digo, Malfoy," Harry disse, muito divertido e imitando o tom prévio de Draco, "você parece um rato afogado!"

"Não tem graça, Harry," Draco disse, desligando a água, puxando a frente de sua camisa encharcada longe de seu peito. "Eu gostava muito dessa camisa. Agora está provavelmente arruinada," ele adicionou tristemente. "Está toda... molhada."

Harry rolou os olhos. "E o que você acha que acontece quando ela é lavada, seu besta?"

Draco olhou para Harry e franziu as sobrancelhas. "Lavada?" ele repetiu sem acreditar. "Tipo molhada e cheia de sabão? Não seja mongo. Você sabe tão bem quanto eu que os elfos-domésticos levam nossas roupas e as limpam com feitiços. Tenho certeza que eles não as molham."

Harry jogou sua cabeça para trás, fechou os olhos por um segundo e conseguiu apenas parcialmente segurar sua risada, lembrando-se das toneladas de roupas que havia lavado para Tia Petúnia. Mas quando olhou para Draco, sentiu-se mal por rir, sua irritação por ter sido jogado no jato frio de água esquecida. Draco estava franzindo as sobrancelhas para ele por trás de uma franja encharcada e parecia muito desconsolado. "Ei," ele disse, segurando o pulso de Draco e o puxando para perto, "vem, vamos tirar isso de você e pendurá-la. A camisa vai secar, e os elfos-domésticos vão cuidar de tudo. Tenho certeza que vai dar tudo certo."

Draco ainda parecia cético, mas deixou Harry desabotoar sua camisa e o ajudar a retirá-la.

Harry tinha que admitir que era uma ótima camisa. Esperava estar certo e que tudo desse certo. Infelizmente se lembrou que havia coisas de melhor qualidade que sua tia sempre mandava lavar a seco.

Enquanto Harry cuidadosamente espremia o excesso de água do tecido e pendurava a camisa no chuveiro, estava ciente de que Draco o observava de perto, como se a camisa fosse um bicho de estimação preferido passando por uma cirurgia de vida ou morte. Mas quando Harry arrumou a camisa, ficou aliviado em ver que Draco parecia mais feliz, evidentemente assegurado pela aparente habilidade de Harry em lidar com situações tão traumatizantes e delicadas como camisas molhadas.

Draco moveu mais perto de Harry e gentilmente tocou a face dele onde a poção havia respingado. A pele estava um pouco vermelha, mas não obviamente. "Dói?" ele perguntou.

"Não muito, só um leve sentimento de queimado."

Draco acenou com a cabeça. Parecia muito sério. "Você sabe o que podia ter acontecido se não tivéssemos retirado tão rápido?"

"Não," Harry disse.

"Teria acendido em chamas," Draco disse honestamente. "Estava começando a soltar fumaça quando estávamos entrando no banheiro."

Antes que Harry pudesse responder a isso, encontrou-se sendo forçado gentilmente, mas ainda firmemente contra a parede do chuveiro quando um par insistente de mãos começou a desfazer os botões de sua camisa. Ele olhou nos olhos de Draco e corou com a intensidade que viu ali. Harry sentiu as mãos do loiro escorregarem dentro de sua camisa, ao redor de sua cintura, trilhando até seus ombros. Então Draco estava encostando-se a ele, pressionando-o de um modo que fez perder o fôlego.

Respirando fundo, Draco descansou sua testa na de Harry. "Droga, Harry," ele disse com a voz baixa, "você me matou de susto."

A afeição implicada naquelas palavras e implícita no tom de Draco foi direto ao coração de Harry, derretendo-o da cabeça aos pés. Formou-se um bloqueio em sua garganta. "Desculpe," ele disse, voz baixa com emoção. "Eu não tinha idéia..." Ele colocou seus braços ao redor de Draco, segurando-o apertado. "E desculpe... por ter molhado sua camisa."

"Quem liga," Draco disse suavemente, dando de ombros, com a expressão ainda séria. "Você está bem... é o que importa." Ele fechou os olhos, seus cílios longos e loiros colados juntos devido à ameaça de lágrimas. Ele relaxou em Harry, contente em apenas ser abraçado e descansar no conforto que o outro garoto proporcionava. Após alguns momentos, ele levantou a cabeça, e com a boca a um centímetro do rosto de Harry, tocou sua língua a uma gota de água na bochecha do moreno.

Foi o breve toque de molhado em molhado, mas um tremor excitado correu por Harry, sua atenção tomada pelas sensações que sentiu enquanto a boca de Draco se movia para baixo, ainda não o tocando, apenas sua respiração passando pela sua pele gelada, descendo até Draco correr sua língua vagarosamente pelo lábio inferior de Harry. Harry abriu sua boca ligeiramente, deixando sua língua tocar a de Draco e então se retirar – um convite. O contato sedoso preencheu seu estômago com faíscas e ele apertou seus braços ao redor de Draco em resposta, no momento em que Draco aceitou seu convite. O sonserino o beijou profundamente, possessivamente, mas com uma gentileza intensa que deixou ambos tremendo.

Draco se afastou para olhar para Harry, seus olhos ganhando uma qualidade sonhadora.

Harry olhou nos olhos de Draco, os quais estavam a alguns centímetros dos seus, e se perdeu no veludo cinza que o encarava. E soube sem qualquer dúvida, naquele momento, que estava passando sem esforço de estar se apaixonando para apaixonado, e que queria essa pessoa de todas as maneiras possíveis. "Draco..."

"Shh," Draco disse suavemente. "Apresse-se e venha. Venha para a cama."

Ah, Harry pensou, mas... Harry alcançou e empurrou uma mecha loira para longe dos olhos de Draco, sua memória voltando mais uma vez. Ele hesitou por um momento porque seu coração estava martelando, e então disse, solenemente, com um sussurro, "Temos que conversar sobre algo antes."

"Eu não esqueci," foi a resposta igualmente quieta. Draco inclinou sua cabeça e beijou Harry novamente, um beijo leve e breve. "O xampu e o sabonete estão ali em cima," ele disse, indicando com um gesto da cabeça uma pequena prateleira na parede acima de suas cabeças. "Rápido." Ele se enrolou por mais um momento, seus olhos refletindo a afeição e o desejo que estavam nos de Harry, antes de virar e sair do chuveiro, fechando a cortina atrás de si e deixando Harry sozinho.

O repentino abandono fez Harry fechar os olhos e permanecer imóvel, possuído de desejo por alguns segundos. Então ouviu o som de um zíper sendo desfeito do outro lado da cortina, seguido do som de jeans molhados sendo retirados, e sua face ficou quente. "Apresse-se." Harry girou a torneia. A água não estava gelada dessa vez, mas ainda não quente o suficiente para ser considerado confortável, então ele se afastou do jato enquanto retirava suas próprias roupas molhadas e colantes com dificuldade, espremendo-as e as pendurando uma por vez ao lado da camisa de Draco.

A água estava quente quando terminou de se despir, e com um suspiro irritado ele alcançou o xampu. Seu cabelo era sempre um pesadelo de nós depois de lavar e essa seria a segunda vez nessa noite que o fazia. Quando terminou de retirar o produto, desligou a água, removendo o cabelo molhado de seus olhos, e repentinamente lhe ocorreu que tudo que tinha trazido consigo essa noite estava molhado. Camisa, jeans, meias, cueca – tudo encharcado. Não tinha nada para vestir, e nenhuma toalha. "Draco," ele chamou.

"Hmmm?"

A resposta foi ligeiramente abafada. Um segundo depois Harry ouviu água correndo e o som de uma escova de dente sendo batida na beira da pia. Harry cuidadosamente abriu a cortina do chuveiro o suficiente para colocar sua cabeça para fora. A vista um pouco borrada que encontrou seus olhos foi tão inesperada que ele não resistiu sorrir, e completamente esqueceu-se de seu predicamento. Draco estava de pé na beira da pia, colocando sua escova de dente no armário, vestindo nada mais do que uma toalha em sua cintura, com uma segunda toalha enrolada em sua cabeça como um turbante. E quando os olhos de Harry desceram, apesar de estar sem seus óculos, sua visão não era tão ruim que não podia afirmar que Draco tinha pernas formidáveis. Harry se via a cada dia mais atraído a Draco; e mais, nunca tinha imaginado que apenas ver as pernas de alguém poderia ter esse tipo de efeito nele, como se fosse difícil de respirar por cima do líquido quente de desejo que estava preenchendo seu peito, fazendo seu coração contrair.

Draco se virou e olhou para Harry. "Terminou?" ele perguntou.

"Sim," Harry disse, encontrando sua voz após alguns segundos.

"Bem, venha então," Draco disse enquanto desfez a toalha em sua cabeça. Ele se inclinou ligeiramente e esfregou seu cabelo vigorosamente com a toalha, então se endireitou, balançou a cabeça, e seu cabelo caiu perfeitamente contra seu rosto.

Harry estava estupefato. "É só isso que você tem que fazer?" ele perguntou, pasmado. "O meu demora séculos e mesmo assim não se comporta."

Draco olhou para o cabelo de Harry, ao mesmo tempo entretido e intrigado com a informação, tendo decidido há muitos anos que Harry simplesmente não penteava seu cabelo. "Você provavelmente meche muito nele, então," ele disse. "Saia."

"Er..." Harry disse, esperando não estar corando muito, sabendo que provavelmente estava. "Eu preciso de uma toalha. E eu posso... emprestar uma cueca, ou pijamas? A não ser que você conheça um feitiço para secar as roupas – tudo que eu tenho está encharcado."

Draco olhou todas as roupas penduradas na cortina do chuveiro e sorriu de modo malicioso. "O único feitiço que conheço é o que uso para secar coisas para os ingredientes de poções," ele disse com uma luz travessa em seus olhos. "Ele tende a encolher tudo, então tenho certeza que não é uma boa escolha para roupas." Ele retirou uma toalha limpa da prateleira e a segurou fora do alcance de Harry, apenas tempo o suficiente para ver Harry ficar um adorável tom de vermelho. Então deu um passo à frente e a colocou na cabeça do moreno. "Aqui está a toalha," ele disse enquanto um Harry aliviado desaparecia por trás da cortina. "Mas tem duas coisas que eu não divido," ele continuou seriamente. "Escovas de dente e roupas de baixo."

"Não estou pedindo para emprestar sua escova," Harry disse após alguns momentos, enquanto saía do chuveiro, a toalha em volta de sua cintura. "Mas, você deve ter alguma coisa para eu vestir enquanto minhas roupas secam."

"Hmmm," Draco disse. "Eu não sei." Ele inclinou a cabeça para o lado e lançou um olhar observador a Harry. "Eu até que gosto de como está vestido."

Harry não sabia se Draco estava brincando ou não, e estava começando a pensar que seu rosto adquiriria um vermelho permanente. "Draco, por favor -" ele começou, e Draco sorriu para ele.

"Não posso prometer anda," ele disse seriamente, uma sobrancelha levantada em especulação. "Mas vou dar uma olhada."

Enquanto Draco se retirava para encontrar algo que pudesse vestir, Harry extraiu seu jeans da cortina, pegando a pequena escova de dente e o pente de um bolso, e sua varinha de outro. Felizmente, a Capa da Invisibilidade ainda estava na cadeira do quarto de Draco e não tinha molhado. "Draco," ele chamou enquanto se aproximava da pia. "Posso pegar um pouco de pasta de dente?" Ele murmurou o feitiço que fez sua escova e pente voltarem aos tamanhos originais, então colocou sua varinha e o pente na beira da pia ao lado de seus óculos.

Draco apareceu na porta vestindo calças de malha cinza-escuras, ligeiramente grandes, carregando algo feito de um tecido preto em uma mão. Ele entrou a tempo de ver Harry abrir o armário. Por um segundo, sentiu uma pontada de alarme, até se lembrar que havia escondido a jarra da poção em outro local.

"Pasta de dente?" Harry repetiu. "Você se importa que eu use um pouco da sua?"

"Não me importo em dividir pasta de dente," ele disse, rapidamente recuperando sua compostura abalada ao lembrar-se da poção, e rapidamente a perdendo novamente ao ver que Harry havia trazido sua própria escova de dente. "Está na segunda prateleira," ele adicionou com uma pequena falha em sua voz ao perceber o que isso implicava – que Harry havia vindo preparado para passar a noite, que ele queria ficar até mesmo antes de Draco pedir. Ele ficou ali e observou Harry começar a escovar seus dentes. Então não pôde conter o sorriso que desabrochou em sua face. Harry acalma-coração Potter estava ali no banheiro de Draco, escovando seus dentes, vestindo nada mais do que uma toalha. A familiaridade e intimidade o deixaram um pouco bobo de felicidade. Quando Harry se inclinou para cuspir a pasta de dente na pia, Draco riu.

"O que?" Harry perguntou, lançando um olhar inquisitivo por cima de seu ombro.

"Nada," Draco disse, ainda sorrindo.

Harry voltou para a pia para enxaguar a boca. "Parecia que você estava rindo de mim."

Draco deu um passo à frente para ficar bem perto de Harry. "Não, eu não estava," ele disse. Seus dedos massagearam a nuca de Harry e sua pele fria, seguindo a curva de seu ombro, então descendo pelas suas costas, vindo a descansar por um momento onde começava a toalha. Então sua mão escorregou em volta da cintura de Harry e ele se inclinou no outro garoto, descansando sua testa na nuca dele e escondendo sua face nas mechas do cabelo negro ainda molhado. "Eu não estava rindo de você," ele sussurrou. "Só estou feliz por você estar aqui."

Harry se virou no abraço, pente em mão, uma luz duvidosa em seus olhos verdes. Mas o olhar cinza que o encontrou não escondia gozação, apenas afeição calorosa. "Tem certeza que não estava rindo da magreza da minha bu-... er, pernas?" ele perguntou com um sorriso envergonhado.

Draco se engasgou um pouco, e sorriu em resposta, achando difícil não rir de Harry agora. "Não estava," ele repetiu. "Mas agora posso estar." Ele retirou um braço da cintura de Harry e retirou o pente de suas mãos. Após pentear profissionalmente o cabelo molhado de Harry, ele colocou o pente na pia e deu um passo para trás para apreciar seu trabalho. Ainda sorrindo, ele balançou a cabeça, alcançando e bagunçando o cabelo de Harry com sua mão. "Impossível," ele disse. "Deixe-o assim," ele adicionou com um sorriso quando Harry alcançou o pente. "Eu acho que não importa o que você faz com ele." Ele apresentou o item preto que estava segurando em sua outra mão. "Aqui," ele disse, "foi só o que consegui encontrar."

Harry pegou a peça oferecida e a segurou. Era uma cueca preta de seda com o timbre da Família Malfoy em uma perna. Harry rolou os olhos. Mas não estava em posição de reclamar, e julgando pelo sorriso entretido na face de Draco, ele sabia disso também.

"Eu quase nunca uso essa," Draco disse. "Minha mãe comprou – Deus sabe o que ela estava pensando – é horrível. Então não a quero de volta. Pode ficar se quiser – considere um presente de Natal adiantado."

"Que tocante, Malfoy," Harry disse, amassando a cueca horrível em uma mão. "Exatamente como os presentes que ganhava em casa. Feias... usadas... indesejáveis... cuecas."

Isso foi demais até mesmo para Draco. Ele soltou um ronco e então caiu em gargalhadas. Harry se juntou a ele um segundo depois, e então Draco colocou seus braços em volta do pescoço de Harry e eles estavam se abraçando, ainda rindo. Então Draco estava beijando o rosto de Harry, e o moreno virou sua cabeça para capturar os lábios de Draco com os seus. Não foi um beijo longo, mas afastou um pouco o humor deles e fez renascer o desejo que ambos sentiram tão fortemente no chuveiro. Draco se afastou primeiro. "Eu só posso te dar seu verdadeiro presente daqui a alguns dias," ele disse, falando suavemente contra a boca do outro.

Harry ficou completamente surpreso. Afastou-se para olhar para Draco. "Você me comprou um presente de Natal? De verdade?"

Draco sorriu. "É claro que sim," ele disse, e se inclinou para beijar Harry suavemente mais uma vez. "E é algo bem legal... não é cueca." Soltou-se dele e deu um pequeno passo para trás. "Vou arrumar as coisas de poções," ele disse, uma sobrancelha levantada e um tom de comando brincalhão em sua voz, "e você..." Ele foi até a porta, e se virou. "Você vai se vestir e -" Riu. "Vai trazer essa bunda magricela aqui fora em cinco minutos." Ele pulou para fora da porta quando Harry jogou a cueca em sua direção.

Harry estava sorrindo enquanto apanhou a cueca do chão. Draco o comprou um presente de Natal! Anos sem receber praticamente nada o deixaram continuadamente surpreso ao ver que outras pessoas poderiam querer lhe dar presentes de verdade, mas o fato que Draco comprou fez com que ficasse bem abalado. E tocado. E animado. Ele repentinamente se sentia como um menino de cinco anos ficando ansioso por causa dos presentes de Natal.

Agora ele estava bem animado com o prospecto do Natal, de passá-lo com Draco. Rony e Hermione iriam passar o feriado primeiro na Toca e depois na casa dos Grangers para anunciar o noivado, e seus outros colegas todos iriam para casa também. Havia uma grande chance de que eles iriam praticamente ter o castelo todo para eles.

Sorrindo, ele se apressou até a pia e pegou seus óculos. Checou seu cabelo no espelho e ficou maravilhado ao descobrir que seja lá o que Draco fez havia funcionado – não estava apontando mais para todos os lados. Finalmente ele segurou a cueca ofensiva, lançando-lhe um olhar seco, retirou a toalha e a colocou. Pelo menos servia. Definitivamente uma melhora das roupas de baixo que ganhava dos Dursleys.

Encontrou Draco perto do fogo apanhando os últimos traços do experimento desastroso, as cinzas e marcas de queimado deixadas no chão pela poção derramada testemunhas da escapada de Harry. Draco já tinha colocado o tabuleiro de xadrez na mesa, e seu livro gigante de Poções tinha sido devolvido ao seu local apropriado na estante de livros. "Precisa de ajuda?" Harry ofereceu, apesar de que na verdade preferia mesmo ficar ali observando os movimentos suaves das mãos de Draco e estudando o jeito com que o fogo fazia sua pele brilhar. O cordão das calças de Draco estava amarrado frouxamente, o que fazia a calça escorregar um pouco para baixo em seus quadris, e fazia a barra arrastar um pouco no chão aos seus pés, algo que Harry achou incrivelmente charmoso.

Draco levantou o olhar, suas mãos cheias de pacotes de ingredientes de poções. Ele os colocou na caixa e fechou. "Não," ele disse de maneira quase triste. "É uma pena que explodiu, no entanto. Estava quase pronta."

"Pelo menos vamos lembrar-nos de não cometer esse erro na aula," Harry disse, querendo pensar em algo melhor para dizer para melhorar o humor de Draco.

"Foi um erro," Draco disse enquanto levantava, sua caixa de ingredientes em uma mão e o pequeno caldeirão em outra. Ele olhou para Harry de canto de olho com um sorriso pequeno, triste, e ainda assim meio evocativo, a cor de seu rosto um pouco mais rosa do que o normal. "Eu estava... bem... um pouco distraído... com certos planos dessa noite." Ele sorriu quando Harry corou também. "É sua vez, Harry," ele disse, indicando o jogo de xadrez. "Já volto."

Harry observou Draco andar até o banheiro, então virou para estudar o tabuleiro, o tom leve dos últimos minutos perdidos ao perceber a seriedade do que estava prestes a fazer. Ouviu Draco abrir e fechar uma gaveta em seu armário, ouviu-o um momento depois abrir a torneira na pia do banheiro para lavar o caldeirão. Harry realmente não precisava de tempo para pensar. Sabia seu movimento, e sabia o que precisava dizer. Mas apesar de já ter tentado contar a Draco anteriormente, algo fez com que se tornasse ainda mais difícil essa noite. Por algum motivo, nesse tarde, lá fora embaixo do céu vasto e frio do inverno, o que tinha a dizer parecia algo pequeno. Ele poderia ter dito tudo rapidamente e deixar o vento frio e amargo soprar tudo para longe. Agora, aqui, na intimidade e calor da lareira, agora que estavam próximos e sozinhos, havia afeição, e pressão, e parecia algo gigante para se dizer. Ele podia sentir o peso sufocante apertando sua garganta.

Harry respirou profundamente quando ouviu os passos suaves de Draco voltando. Não tinha como enrolar mais, e ele realmente não queria. É só que... Deus, ele sabia que seria muito difícil. Um braço foi ao redor de sua cintura, e um corpo quente encostou-se ao seu enquanto colocou seu braço esquerdo ao redor de Draco. "Peão para E5," disse, movendo uma de suas fadas pretas um espaço à frente. "Draco," ele disse suavemente, virando sua cabeça para encarar o outro garoto, encontrando aqueles olhos cinza com resolução. Ele disse o mais firmemente que pôde, "Quando você me perguntou se eu era virgem naquela manhã no corredor, e eu disse primeiro que não era... aquela era a verdade. Eu não sou." Ele abaixou o olhar dos olhos de Draco e engoliu o aperto em sua garganta. "Eu menti depois... porque eu não queria falar a respeito. Eu não queria ter que te contar quem foi." Ele pausou novamente, então se atreveu a olhar no rosto de Draco. "Ela me fez sofrer muito... e eu... eu não conseguia te contar naquele momento."

"Eu sei," Draco disse quietamente, apertando seu braço na cintura de Harry, puxando-o mais para perto. "Ou eu imaginei que fosse algo do gênero."

Por alguns momentos, Harry ficou sem palavras. "Você sabe?" ele disse finalmente. Encarou Draco, o sentimento de pressão sufocante que estava sentindo evaporando em alívio e confusão. "Como?"

Draco o lançou um sorriso pequeno, indulgente, e afetuoso. "Você é um péssimo mentiroso, Harry. A primeira coisa que você disse foi obviamente uma reação tão rápida que tinha que ser verdade, e por causa disso, eu acreditei na sua história a respeito de todas aquelas garotas a princípio. Mas depois que você disse que não dormiu com nenhuma delas, e eu repeti a pergunta, percebi que você estava mentindo novamente. Foi aí que criei a regra da penalidade." Draco pausou, estudando Harry por alguns momentos antes de continuar com um tom mais sério. "Mas eu também pensei que devia ser um tópico que você queria evitar, se teve que mentir a respeito."

"Ele era," Harry disse, sentindo-se envergonhado por Draco conseguir entendê-lo tão facilmente, mas também feliz e grato – porque Draco entendeu tanto, até mesmo o motivo de ter mentido, e nunca o pressionara para falar a respeito. Ele realmente não devia estar surpreso, por Draco ser tão perceptivo, mas... "Deus, Draco," ele disse. "Quem me dera saber disso. Eu estive muito preocupado em te contar."

"Então é isso a 'coisa importante' que você queria me contar?"

"Sim," Harry disse. Ele procurou os olhos de Draco, procurando por alguma raiva ou sofrimento e encontrou apenas calma. "Você não se importa, então?" ele disse finalmente. "Que teve outra antes de você."

Draco deu de ombros levemente. "Sim," ele disse suavemente. "... um pouco. Mas eu também entendo não querer falar sobre certas coisas." Ele olhou para o tabuleiro. Após um momento de hesitação, Draco moveu a Rainha branca um espaço para frente. "Rainha para G3," ele disse, enquanto se virava para encontrar os olhos de Harry com uma pergunta. "Eu quero saber a história completa, Harry. Você está pronto para me contar tudo? O que aconteceu?"

Harry concordou com um aceno da cabeça. "Acho que sim... Acho que preciso falar sobre isso agora."

Com um braço ainda firmemente ao redor da cintura de Harry, Draco alcançou com uma mão e cuidadosamente retirou os óculos de Harry e os colocou na mesa, antes de colocar seu outro braço ao redor de Harry também, envolvendo-o em um abraço completo. Seus olhos se fecharam por um momento enquanto os braços do outro garoto foram ao redor de seus ombros e seus corpos se juntaram. Sua boca encostou-se à orelha de Harry com um beijo leve. "Então venha para a cama comigo," ele disse com a voz baixa. "Conversaremos primeiro, mas quero que fique a noite inteira. Quero você aqui comigo de manhã quando eu acordar."

Harry encostou sua face no lado da cabeça de Draco e fechou os olhos, profundamente afetado pela força do desejo que sentia, precisando consolar e proteger, tocar, amar. Querendo ser consolado e protegido em retorno, querendo ser tocado, e mais do que tudo, ser amado. "Eu não vou a lugar algum," ele sussurrou enquanto beijava o lado da face de Draco.

Draco sorriu e se retirou dos braços de Harry, apanhando a mão do outro e o puxando com uma insistência gentil até o outro lado do quarto.

Harry não conseguiu disfarçar seu sorriso, mesmo que ainda tivesse preocupações acerca da conversa que estava prestes a ter, pois não tinha dúvida de como Draco queria que a noite terminasse, sem dúvidas de que Draco ainda o desejava. E Harry desejava Draco também. Tanto, tanto, tanto. Ele se permitiu ser levado até a cama de Draco, e quando o loiro afastou as cobertas, Harry se aconchegou, arrastando-se para o lado para que Draco coubesse também. Draco pausou por um momento para desligar as lâmpadas, então retornou sua varinha à mesa de cabeceira e caiu na cama, deixando as cortinas abertas para que pudessem se enxergar com a luz do fogo que ainda queimava na lareira.

Eles deitaram lado a lado, encarando-se por um minuto, um embaraço momentâneo recaindo sobre eles. Então Harry se sentou, inclinando na direção de Draco. "Draco, posso... você poderia..." Ele começou a sentença antes de pensar, então parou, percebendo que se sentia envergonhado de dizer o que almejava.

Draco esperou, mas quando Harry parecia muito envergonhado para continuar, virou-se de costas e alcançou Harry com uma mão, puxando o outro garoto para que deitasse ao seu lado. Ele colocou seus braços ao redor de Harry, suas mãos escorregando levemente pelas costas macias dele. "Poderia o que?" ele perguntou quietamente.

Harry suspirou, ajeitando-se no abraço de Draco, sussurrando, "Poderia fazer isso."

Draco riu suavemente enquanto Harry se aconchegava nele. Um segundo depois, ele quase se sentou em choque. "Meu Deus," ele ofegou. "Seus pés estão congelando!"

Foi a vez de Harry de rir. "Não é minha culpa," ele respondeu, segurando Draco firmemente, como se temesse que o outro pudesse tentar escapar. "Foi você que ligou a água gelada em cima de mim, me fez ficar um tempão só com uma toalha, e até mais tempo em nada mais do que essa cueca Malfoy horrível. O mínimo que você pode fazer é me ajudar a esquentá-los." Harry acariciou o pescoço de Draco com seu nariz. "Você está sempre tão quente..."

"Ah, entendi," Draco disse, fingindo estar insultado. "Isso tudo foi só um plano para me usar como um aquecedor de pés."

Harry soltou uma risada curta e quieta. "Não," ele disse, então continuou com um tom mais sério. "Isso vai ser difícil para mim... eu não quero falar com você lá do outro lado."

Draco correu uma mão pelas costas de Harry até que seus dedos estavam passando gentilmente pelo cabelo na nuca de Harry. "Está tudo bem," ele murmurou. "Eu não queria você lá do outro lado também." Ele correu seus dedos para baixo novamente, pelo ombro de Harry e até seu braço, arrancando outro suspiro de Harry. "Venha, Potter," ele disse com um tom baixo, afetuoso, mas brincalhão. "Não fique muito confortável aí. Não vou esquentar seus pés em troca de nada." Ele pausou por meio segundo. "Então quem foi a malvada sedutora que me roubou a sua virtude?"

Harry sorriu com a presunção, e então apanhou a mão de Draco quando os dedos chegaram ao seu pulso, segurando-a e entrelaçando seus dedos. Ele respirou profundamente. "Cho Chang," ele disse suavemente. "Eu tive uma queda por ela por muito tempo."

"Eu me lembro dela," Draco disse pensativamente. "Apanhadora da Corvinal. Não muito ruim em uma vassoura. Formou-se ano passado." Ele pausou. "Você não a levou ao Baile Anual no último Natal?"

"Sim," Harry disse. "Eu a convidei para o primeiro Baile Anual, no quarto ano, durante o Torneio Tribruxo, mas ela estava saindo com o Cedrico. E depois que ele foi morto... eu não tinha certeza se poderia falar com ela novamente, se conseguiria encará-la depois de tudo.

"Mas quando voltamos para a escola no quinto ano, ela agiu amigavelmente, esforçando-se para conversar comigo. Nós fizemos algumas coisas juntos – tudo foi bem esquisito no começo, e quase nada aconteceu naquele ano. Ela saiu com outros caras também, e eu comecei a pensar que iríamos acabar apenas como amigos. Finalmente, bem no final do ano, nós conversamos sobre Cedrico, e ela chorou muito. Quando fomos embora para o verão eu estava certo que isso era tudo que ela queria de mim – alguém para conversar sobre o que aconteceu com Cedrico – e isso não era o que eu queria.

"Então ela me mandou uma carta durante o verão, e isso mudou tudo. Ela disse que realmente queria ficar comigo, mas queria evitar toda a atenção que ser minha namorada traria. E eu entendi isso e não me importei – na verdade, concordei. Eu também não queria a atenção, então nós mantivemos nosso relacionamento em segredo. Apenas os meus amigos próximos e os dela sabiam a respeito. Sabendo o que eu agora sei, no entanto, parece que ela tinha outro motivo para querer esconder tudo."

Harry virou de costas, sua cabeça no ombro de Draco, e cruzou os braços. Era aqui que o conto ficava difícil e ele sentia aquela dor que ele agora-detestava-mas-ah-tão-familiar em sua garganta. Draco se moveu ligeiramente ao seu lado, encostando sua cabeça na de Harry e colocando seus braços ao redor dele, seus braços e mãos deitados em cima das do grifinório. O conforto desse gesto fez a dor na garganta de Harry diminuir um pouco e ele continuou. "Nós nos encontrávamos em vários lugares," ele disse, continuando a história com uma voz mais apertada do que anteriormente, "lugares em que não seríamos vistos, ou apenas passávamos o tempo juntos no quarto dela. A colega de quarto dela sabia da gente, é claro, e nos deixava sozinhos na maioria das vezes. Nós conversávamos, beijávamo-nos bastante, mas ela nunca me deixou ir muito longe. E eu estava totalmente preso em todo o joguinho. Ela disse que me amava, e eu fui estúpido o suficiente para acreditar."

"Você a amava?" Draco perguntou muito quietamente, quando Harry parou de falar e não continuou.

"Eu não sei. Achava que sim," Harry disse com um suspiro após um momento. "Eu pensei em muitas coisas, como em me casar, até em ter filhos. Mas isso não importa agora. Ela não me amava – foi tudo uma grande mentira... tudo foi... errado. Ela sabia que não podíamos ficar juntos. Deus, Draco, eu não sei como ela pôde ter feito o que ela fez. Nada faz sentido.

"Nas últimas semanas de aula, eu estava chateado que ela ia se formar, que iríamos nos separar durante o verão, e eu queria saber quando poderíamos nos ver novamente, mas ela se tornou muito distante, como se não tivesse mais certeza do nosso relacionamento, e não respondia minhas perguntas. Na última semana antes das férias, ela me chamou até o quarto dela, e eu esperava que ela finalmente fosse falar comigo sobre tudo. Ao invés disso, haviam velas acendidas em todos os cantos e ela disse que a amiga dela ficaria fora a noite inteira. Então ela trancou a porta, e... eu pensei... eu pensei que isso queria dizer que ficaríamos juntos... que ela tinha certeza. E depois, ela me deixou deitar ali com ela como um idiota e falar sobre todos os meus planos para nós.

"Eu fui embora aproximadamente à meia noite e disse que voltaria de manhã para ajudá-la a levar as malas até o trem. Ela ficava me beijando e agindo como se não quisesse que eu fosse embora, e eu estava tão feliz naquela noite." Harry pausou e se sentou, trazendo os joelhos para seu peito, braços cruzados em cima deles, cabeça abaixada. "De manhã," ele disse com amargura, "quando voltei, ela me disse a verdade. Que nunca mais poderíamos nos ver."

Draco também se sentou. "Ela disse por quê?"

"Ah, sim," Harry disse, levantando a cabeça para olhar para Draco por cima de seu ombro, "ela me disse por quê. Iria se casar." Ele se virou, cotovelos nos joelhos, e colocou a cabeça em suas mãos.

"Casar?" Draco repetiu. Ele pareceu estupefato por um segundo, então seus olhos se estreitaram e sua boca se firmou em uma linha reta e pensativa, como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer que fizesse sentido.

"Isso mesmo," Harry disse. "Dali a uma semana." Ele inspirou profundamente e soltou com um longo suspiro. "Eu estava tão chocado, sei lá, acho que corri. De algum jeito eu acabei no escritório de Dumbledore. Tudo que podia pensar era que eu não tinha nem dezessete anos ainda e a minha vida já estava arruinada, que eu ficaria sozinho para sempre e não consegui agüentar. Naquele momento eu não conseguia me imaginar com outra pessoa. Sentia-me tão traído e estúpido. Acabei implorando para que Dumbledore me deixasse ficar em Hogwarts nas férias. Eu não podia subir no trem. Não podia encarar ninguém. Ele finalmente concordou que eu ficasse. Então veja, ela me fez de idiota, fingiu me amar, dormiu comigo, e o tempo todo ela sabia que não iríamos ficar juntos."

Draco ficou em silêncio por vários minutos. "Acho que você está errado, Harry," ele disse finalmente.

Harry levantou a cabeça e se virou para encarar Draco novamente, seus olhos verdes estavam escuros e cheios de uma mistura de perguntas doloridas e raiva. "Como assim, estou errado?"

"Quero dizer que eu a vi no trem naquela manhã," Draco disse firmemente. "Eu fui, como sempre, ver onde você estava no trem, e Dumbledore estava lá explicando para Weasley e Granger que você ficaria em Hogwarts durante o verão. Ele disse que decidiu de última hora que seria muito perigoso você ficar com seus parentes Trouxas. Eu me virei para ir embora e ela estava logo atrás de mim, evidentemente ela tinha escutado tudo também. Por alguns momentos ela parecia congelada, como se não pudesse me ver, e então ela percebeu que eu estava a encarando e ela virou e correu novamente para o corredor."

"Isso não quer dizer nada," Harry disse, virando sua face na direção contrária de Draco.

"Ela estava chorando, Harry," Draco disse suavemente. Ele colocou uma mão no ombro de Harry, massageando a tensão ali com seu dedão. "Talvez você tenha escapado antes que ela pudesse contar tudo."

"Eu não sei o que mais ela poderia ter dito que faria alguma diferença. Ela iria se casar, pelo amor de Deus."

"E talvez ela não soubesse a respeito," Draco pressionou. "Você já ouviu falar de casamento arranjado? Eles ainda são praticados nas famílias bruxas mais antigas, e a tradição é que a noiva não é informada até seu aniversário de dezoito anos."

Harry se virou em choque, lutando para entender esse novo e espantoso conceito, procurando os olhos de Draco pela verdade e a encontrando nos olhos cinza calmos e honestos que o encaravam. Passou-se um longo momento antes que conseguisse falar. "Meu Deus, Draco," ele disse finalmente, sua voz um pouco acima de um sussurro. "O aniversário de dezoito anos dela foi três semanas antes das férias. Foi por isso que fiquei chateado com ela – porque depois disso ela começou a agir tão distante, mas sem querer falar a respeito."

"Pronto," Draco disse. "Deve ser esse o motivo. Ela não sabia quando vocês começaram a namorar."

"Mas como ela pôde... ela devia ter me contado! Eu não teria... feito o que fiz."

"E imagino que ela sabia disso. Já te ocorreu que talvez ela quisesse que você fosse a primeira vez dela, e não um estranho? Talvez até mesmo pensou que conseguiria mudar a idéia dos pais dela, adiando ter de terminar com você até o último momento. Eu acho que ela te amava, Harry, e queria ficar com você o máximo que pudesse antes de... ter que desistir..." Draco parou e sua face repentinamente ficou muito pálida, sua expressão congelada em um momento de percepção.

Mas Harry não percebeu. Ele colocou seu rosto nos joelhos. "Ah não."

Houve um silêncio assustado e entendido. Draco ficou sentado muito parado, movido pela realização iniciada por suas próprias palavras, e pela inesperada dor profunda que essa realização trouxe ao seu coração. "Ela te amava," ele disse finalmente. Então fez a pergunta que sabia não querer a resposta. "Mas você se arrepende de ter dormido com ela?"

"Sim." Foi o sussurro. "Muito. Eu não teria, se soubesse que não poderíamos ficar juntos."

Eles ficaram em silêncio por um longo, longo momento. "Aquela noite que eu te encontrei no corredor, você estava devastado por causa disso, não é? É esse o motivo porque você mentiu para mim?" Draco perguntou com a voz constrita. "Isso machucou você tanto assim?"

"Sim."

Draco se virou e colocou os pés fora da cama. "Preciso pensar," ele disse, levantando-se.

Harry foi arrastado de seu casulo. "Draco...?" Ele observou Draco andar para longe dele, sentando-se em uma cadeira na frente da lareira. O quarto estava escuro, mas Harry conseguia ver a silhueta do outro garoto na luz do fogo. Draco sentou com seus braços em cima do encosto da cadeira, mãos segurando os cantos, seu rosto virado para o outro lado, encarando o fogo. Harry o observou com um sentimento de vazio, seu coração em sua garganta, mente rodando da astuta e muito provavelmente correta observação que Draco fez a respeito de Cho e desse abandono abrupto e inesperado. Mais cedo, quando Harry descobriu que Draco sabia o tempo todo de sua mentira e havia compreendido, pensou que o pior já tinha passado, que tudo voltaria ao normal, mas agora... agora, ele não sabia mais o que pensar.

Draco se moveu, trazendo seus pés para a cadeira, e abraçando suas pernas. Ele colocou sua cabeça nos joelhos, sua face ainda virada na direção oposta de Harry.

Harry se sentia doente. Sentou-se por um momento e encarou o teto. Draco esperava que ele fosse atrás dele? Ele tinha consolado Draco na noite passada, tinha o perseguido novamente nessa manhã para saber o que estava errado, e simplesmente não iria fazê-lo novamente. Não dessa vez, não quando ele estava sofrendo tanto. Ele precisava saber, e saber agora, se esse relacionamento seria só do lado dele. Draco seria capaz de confortá-lo quando necessário, ou seria sempre Harry que teria que dar o braço a torcer, teria que dar os primeiros passos entre eles? Harry escorregou para dentro do cobertor e virou para o outro lado. Parte dele queria intensamente que Draco viesse atrás dele dessa vez, parte dele admitia que não importava – que ele queria mesmo era ficar com Draco. Ele queria isso mais do que jamais quis algo ou alguém em sua vida.

Mas, oh Deus, Cho. Ele conseguia ver em sua mente o que Draco deve ter visto no trem, os suaves olhos castanhos derramando lágrimas. Sua face dourada pálida virada para cima, mechas soltas de cabelo moldando sua face. Memórias que havia enterrado retornaram. O longo rabo de cavalo negro que era tão grosso e suave em sua mão. Seu sorriso sorridente quando ele usava aquelas mechas para fazer cócegas no nariz dela. O jeito como a cabeça dela cabia embaixo de seu queixo quando a abraçava. O jeito como ela se inclinava nele quando eles voavam juntos, o jeito como ela se pressionava nele quando ele a amou. Ele nunca disse adeus. Queria abraçá-la e desejá-la felicidades. Queria saber se ela estava bem. Angústia se apoderou dele ao pensar em como deixou tudo terminar, em como ela deve ter se sentido tendo que começar sua vida com outra pessoa, e seus olhos se encheram de lágrimas. Ele soluçou e engoliu em seco, lutando contra a dor em sua garganta. Era para ele já ter superado isso.

Draco encarou o fogo sem realmente vê-lo, abraçando seus joelhos, pensando no que Harry acabara de dizer, tentando chegar a uma conclusão acerca do que deveria fazer. Ouviu as cobertas mexendo e levantou o olhar para ver que Harry tinha deitado e virado para o outro lado. Draco o observou por muito tempo. Até mesmo a curva do ombro e costas nu que apareciam por cima do cobertor, a curva vulnerável no pescoço de Harry que Draco ainda não tinha beijado, mas queria, a mecha de cabelo preto que estava arrepiada no local em que a cabeça encontrava o travesseiro, todas essas coisas o preenchiam com um desejo tão intenso que doía. Só tinha mais quatro dias até o momento em que teria que ir passar o Natal em casa, apenas quatro dias para ficar com Harry antes de ter que começar seu plano para seu pai, e ele já estava se negando tanto. Sentiu-se mal quando pensou em Harry perguntando se ele gostaria de trabalhar com ele. Ele honestamente não podia imaginar algo que preferiria fazer do que ser o mestre de Poções do medibruxo Harry; isso o envolveria em tantos níveis no assunto que mais amava, com a pessoa que amava.

Seria perfeito.

E era perfeitamente impossível. Ele sabia quão duvidoso era que poderia ter esse futuro, e já aceitara as coisas que nunca poderia ter. Mas ele não tinha a intenção de se negar tudo. Você se arrepende de ter dormido com ela? Ele havia perguntado, e a resposta quebrou seu coração. "Sim. Muito. Eu não teria, se soubesse que não poderíamos ficar juntos." Ele não queria se negar isso também. Ah Deus, não isso também.

Draco tinha desejado que Harry o amasse sem ter nunca realmente acreditado que poderia acontecer. Afinal de contas, ele não se deixava levar por puras fantasias. Mas ainda assim tinha desejado. Desejado intensamente, desejado com egoísmo, sem pensar nas conseqüências para Harry. Também não tinha previsto a profundidade de seus sentimentos agora que estavam envolvidos. Quando tinha feito o plano, com Harry apenas como um desejo inalcançável, algo que nunca teria, tinha sido mais fácil desistir dele. Desistir de algo que você nunca realisticamente pensou que possuiria, quão difícil é isso? Mas agora, Draco sentia como se sua alma fosse ser arrancada se separada de Harry. E claramente o outro garoto sentia o mesmo, ele havia dito isso nessa manhã. Draco havia aceitado a verdade indiscutível nas palavras ditas por Harry. "O que eu quero é que fiquemos juntos, mais do que tudo." Era impensável agora, que o que planejava fazer iria certamente separá-los para sempre, e não havia outro caminho. Mas o impensável era fato, e, portanto, pelo bem de Harry, ele não deveria permitir que se aproximassem ainda mais.

Ele suspirou, fechando os olhos por um momento, resolvendo fazer justamente isso. Harry não havia se movido desde que se deitou, então Draco deduziu que devia estar dormindo. Draco cobriu seu rosto com as mãos novamente. Tudo bem, ele podia dormir nessa cadeira, e eles poderiam conversar mais de manhã. Então Harry soluçou, e Draco ouviu, e foi igual àquela primeira noite no corredor, aquele suave soluço derreteu sua resistência, borrando a clareza sobre o que não devia fazer. Ele foi movido por preocupação, e não pôde resistir o desejo que o trouxe aos seus pés, levando-o de volta a Harry.

Draco voltou à cama e escorregou ao lado de Harry para deitar atrás dele, colocando um braço ao redor dele e o trazendo para perto. Então ele beijou o local suave na nuca do moreno. "Pensei que estava dormindo," ele sussurrou enquanto deitou seu rosto na parte de trás da cabeça de Harry.

Harry continuou parado por um momento, alívio e então quieta exultação recaindo sobre ele com a presença e o toque de Draco. Seus medos de que Draco não fosse confortá-lo agora pareciam completamente infundados. Ele tinha voltado, estava segurando-o, beijando-o, obviamente não chateado. Ele se virou para encará-lo, e uma lágrima desceu pela sua bochecha. Limpou-a impacientemente. "Desculpe," ele sussurrou, e soluçou novamente. "Parece que hoje é a minha vez de chorar."

"Uma lágrima, Potter," Draco disse de maneira tenra. "Isso mal parece uma vez comparada com a inundação que eu causei noite passada."

Harry sorriu. "Eu fiz isso com Dumbledore. Por isso que ele me deixou ficar aqui no verão passado."

"Você chorou no escritório de Dumbledore?"

"Baldes," Harry disse suavemente.

"Meu Deus, Harry. Acho que isso conta."

Harry enxugou os olhos. "Eu realmente pensei que já tinha superado isso," ele murmurou, respirando profundamente. "Eu já superei," ele disse firmemente. Colocou uma mão no ombro de Draco e gentilmente empurrou o outro garoto para que ficasse de costas, então se sentou um pouco, inclinando-se em um cotovelo. "Por favor, acredite em mim," Harry disse ansiosamente, encarando os olhos cinza do garoto que estava prestes a virar seu amante, "eu não sinto nenhum remorso por estar tudo terminado com ela. Eu não a quero de volta. Nunca foi certo... não desse jeito." Os braços de Draco foram ao redor dele, trazendo-o para perto. Harry colocou suas mãos embaixo dos ombros de Draco, trocando o peso de seu corpo para seus cotovelos para que estivesse praticamente deitando em cima do outro. "O que eu sentia por ela não é nada comparado com o que eu sinto por você – até mesmo na primeira vez que você me beijou," ele disse suavemente. "Eu não quero ficar com mais ninguém."

Ele pausou. Draco estava olhando para ele de um jeito que tornou difícil se lembrar do que ainda precisava dizer. "É só que depois do que me disse hoje," ele disse após um momento, "eu me senti mal por ter deixado as coisas daquele jeito. E o que ela fez realmente me fez sofrer. Eu achei..." Ele perdeu o fôlego quando as mãos de Draco trilharam por suas costas e os braços apertaram em volta de si. "Eu achei que iria ser para sempre," ele terminou quase em um sussurro. Então ele não podia falar mais nada porque Draco estava o puxando para baixo para um beijo e ele podia sentir o coração do loiro batendo embaixo de si como um eco de seu próprio coração. Ele havia dito tudo que podia com palavras, de qualquer jeito. O que ainda precisava ser dito entre eles, e ainda havia muitas coisas, eram coisas que podiam ser ditas sem palavras, mas sim com mãos gentis e respiração acelerada, com suspiros trêmulos e com beijos. Não podia fazer nada então a não ser desistir e cair, cair na boca suave e quente que estava se levantando para encontrá-lo. Ele beijou Draco profundamente, e se perdeu no sentimento de como aquilo era certo, na paixão crescente que sentia, em saber que não havia mais segredos entre eles.

Draco se segurou em Harry com firmeza, deixando-se perder também só dessa vez, permitindo a si mesmo e a Harry um momento longo, quase interminável de paixão, apreciando o sentimento de Harry em seus braços, da pele macia embaixo de suas mãos, do peso de Harry o pressionando para baixo, segurando-o decididamente no local em que o queria. Quando Harry finalmente, vagarosamente se afastou do beijo, Draco olhou naqueles olhos esmeralda e soube que nunca mais poderia deixar isso acontecer. Eles estavam muito próximos, muito perto da beira de não conseguir mais parar. "Você ainda acredita no que disse?" ele perguntou com uma voz sem fôlego. "Em significar para sempre?"

"Eu não sei," Harry sussurrou. "Eu esperaria que sim." Harry abaixou a cabeça e pressionou seus lábios na garganta de Draco. Sua língua se esticou para provar o pulso acelerado que batia atrás da pele quente de Draco. "Com você, é o que eu quero." Sentiu os braços de Draco se apertarem ao redor de si e uma mão se levantar para acariciar seu cabelo.

"Se isso acontecer entre nós, Harry, se dormirmos juntos" Draco disse muito quietamente, "eu prometo que vai significar para sempre pra mim."

Harry beijou a curva delicada do pescoço de Draco, então levantou sua cabeça, incrédulo quando as palavras de Draco se registraram em sua mente. "O que quer dizer.... se?" disse com apreensão.

Draco hesitou, sentindo como se as próximas palavras que diria teriam que ser arrancadas à força de sua boca antes que as dissesse. Mas tinha que fazer isso. Alcançou para afastar uma mecha de cabelo da testa de Harry, e correu a ponta de seu dedão levemente pela cicatriz ali. Finalmente, encarou aqueles olhos verdes que tanto adorava, olhos que estavam cheios de desejo misturado com confusão. "Quero dizer, que acho que devemos esperar," disse finalmente.

Harry voltou seu olhar para Draco, lutando com as palavras totalmente inesperadas que foram ditas, sem conseguir compreender a reviravolta total das intenções de Draco. Aqueles olhos cinza-prateados seguravam algo que não conseguia decifrar. "Isso definitivamente não é o que você achava antes," ele disse, dor subindo à sua garganta. Ele se mexeu com o intuito de se afastar, mas Draco apertou seus braços ao redor dele, não deixando que escapasse.

"Eu só quero esperar," Draco repetiu, "até o final do jogo."

Harry olhou para ele, ainda com dor e perplexo, tentando entender. "Diga-me por que – por que você mudou de idéia?"

Draco não respondeu imediatamente.

"É porque eu -"

"Não." Draco o cortou com um tom de voz encurtado, porém final.

Harry colocou seu rosto na curva do ombro de Draco. A intimidade intensa de como o corpo de Draco cabia embaixo do seu estava interferindo em sua respiração. "Eu te quero," ele sussurrou.

"Eu te quero também," foi a resposta sussurrada em seu ouvido. "Mas... nós não podemos... ainda."

Harry virou seu rosto para o lado contrário de Draco, tentando respirar normalmente. Tentando pensar. Draco estava acariciando seu cabelo novamente, e isso era confortável e calmante, mostrando afeição sem reservas. Ele tentou pensar em todas as coisas que dissera sobre Cho – tinha que ser algo que tinha dito que fez com que Draco mudasse de idéia. O que tinha dito antes de Draco se levantar? Ele estava muito confuso com várias emoções para chegar a uma conclusão agora. Tudo que podia fazer era respeitar o pedido de Draco, mesmo sem entender o porquê, e oferecer o mesmo nível de consideração que Draco havia o dado há pouco tempo atrás em não pressioná-lo a falar a respeito.

Mas não havia chance alguma de que fosse voltar para seu próprio quarto. "Eu não quero ir embora hoje, Draco," ele disse com determinação. "Quero ficar com você." Ele sentiu Draco respirar profundamente, como se em alívio, e os braços que o estavam segurando aliviaram levemente.

"Eu não disse nada em ir embora, disse?" Draco perguntou suavemente no cabelo de Harry.

Harry suspirou e se afastou um pouco de Draco para encará-lo, seus olhos fazendo a óbvia pergunta, precisando estar certo da resposta.

Draco colocou uma mão atrás da cabeça de Harry e o puxou para um beijo gentil. "Quero que você fique," ele disse firmemente.

"Tá bom?"

"Tá bom."

Com outro pequeno suspiro para aliviar a frustração, Harry aceitou o convite e a limitação, ficando confortável ao lado de Draco com sua cabeça no ombro do outro garoto. Braços firmes o envolveram, e após um momento, o ritmo da respiração de Draco começou a relaxá-lo e acalmá-lo. Ele pôde sentir a tensão em Draco começar a sumir também, e os sentimentos mais quietos e tranqüilos que sentiu quando tinha segurado Draco enquanto dormia na noite anterior começaram a ressurgir. As mãos de Draco estavam correndo de cima a baixo em seu braço, então por cima de seu ombro, até seu pescoço e sua nuca – como se Draco estivesse traçando linhas e curvas nele, como se todo contorno e toda carícia estivesse sendo gravada em uma memória de toques. O sentimento era confortável e incrivelmente gentil. Harry nunca tinha sido tocado desse jeito antes.

Deitou-se sem se mexer, observando o movimento da mão de Draco por olhos pesados, mergulhando no prazer, odiando ter que dormir. Mas as carícias e movimentos relaxantes estavam o deixando com sono, e sentiu-se escorregando, caindo de cabeça no sentimento íntimo de ser apenas uma pessoa com o garoto que o segurava. A vibração de um murmúrio baixinho e a queda de muralhas que experimentou na noite passada voltaram, familiares e bem-vindos agora, envolvendo-o em um estado de consciência alterado, um local de profunda segurança e paz. Desse estado, antes de cair no sono, Harry viu a vista mais encantadora. Pequenas faíscas translúcidas brancas como cristais de luz ascendiam e apagavam, trilhando um brilho radiante, rodando, e então desaparecendo, seguindo o movimento da mão de Draco. Ele suspirou novamente, contente, e caiu no sono com um pequeno sorriso.

Draco se moveu um pouco, ficando confortável em volta do corpo que repentinamente ficou pesado em seus braços, percebendo que Harry havia pegado no sono. Vá a merda, Harry Potter, ele pensou, não pela primeira vez, mas nunca antes com essa mistura de afeição e tristeza. Por que você tem que fazer isso ser tão maravilhoso? Por que tem que tornar tudo tão difícil? Por um longo momento ele estudou a face de Harry, uma face que durante o sono parecia infantil e forte ao mesmo tempo, e oh tão adorável. Ele sorriu um pouco quando se lembrou das palavras de Harry dessa manhã. Eu me pergunto se você tem alguma idéia de quão adorável você é quando dorme? Ele pensou.

Ele ficou acariciando Harry, deixando sua mão correr levemente pela pele do outro garoto, suas costas, pelo seu cabelo, braços, nunca tocando o suficiente. Sua mão então parou, vindo a descansar em um ombro macio. Segurar Harry desse jeito o estava enchendo com um sentimento de intimidade, como se cada barreira entre eles tivesse caído. Era surpreendente para Draco que pudesse se sentir assim; era completamente inesperado ele poder se sentir satisfeito, até mesmo completo, apenas em segurar essa pessoa adormecida em seus braços, sabendo que é capaz de se sentir unido a alguém desse jeito, que podia sentir esse nível intenso de pertencimento e amor. Ele queria tudo, mas nunca acreditou que conseguiria.

E então entendeu algo a respeito de Harry que nunca tinha antes, que Harry tinha estado tão desesperado para pertencer a alguém quanto ele, que nem toda atenção e fama no mundo, nem mesmo seus amigos, próximos como eram, poderiam preencher completamente o espaço vazio na alma de Harry, assim como nada tinha completado a de Draco. Ninguém o fazia se sentir como Harry, nunca tinham o tocado emocionalmente e fisicamente como Harry. Não havia mais ninguém que podia aceitar como seu igual, ou se dar sem reservas. E da mesma forma, Harry havia dito hoje – ninguém fazia Harry sentir como Draco. Draco sabia que se as coisas fossem diferentes, que iria querer afundar na alegria desse conhecimento.

O garoto adormecido se mexeu um pouco em seus braços e Draco alcançou para arrumar uma mecha de cabelo negro espetado. Ele amava tocar Harry desse jeito. Queria todos os momentos remanescentes possíveis com ele – era tudo que poderia ter, tudo que tinha, e ele ainda era egoísta, sabendo que não podia se negar absolutamente tudo pelo bem de Harry. Odiava o que teve de fazer hoje, tanto por si quanto por Harry. Tinha machucado tanto, tinha tomado cada pingo de determinação para se segurar de se entregar totalmente a Harry essa noite. Ele doía por dentro de tanto desejá-lo. Mas Harry tinha aceitado sua mudança, e Draco resolveu manter-se firme nesse ponto. Ele não tinha intenção alguma de deixar o jogo de xadrez terminar antes de voltar para casa no Natal, nenhuma intenção de machucar Harry ainda mais por virar seu amante quando sabia certamente como tudo iria terminar. Mas tinha visto a dor naqueles olhos esmeralda essa noite e não podia suportar o pensamento de negá-lo qualquer outra coisa.

Ele ainda tinha quatro dias. E Draco decidiu agora, que por esses quatro dias ele iria dar a Harry tudo que pudesse. Iria colocar suas preocupações com o futuro de lado e viver como se fossem ficar juntos para sempre. Iria dar isso a Harry e segurar a esperança de que quanto tudo terminasse, Harry fosse eventualmente entender e não odiá-lo, talvez até perdoá-lo. Arrependimento profundo beirava em sua mente, mas o ignorou. Tentaria não pensar muito nessas coisas, não iria arruinar os últimos dias deles juntos com tentativas inúteis de mantê-los separados, ou permitir que Harry visse suas dúvidas e dor. Se ele era quem estava sofrendo agora, não importava, porque depois seria Harry, e isso importava. Deus, tão logo, seria Harry. E ele se perguntava como tudo podia ir de tão certo a tão errado em tão pouco tempo.

Draco descansou sua bochecha no cabelo preto macio. Não, ele não iria se preocupar com nada ruim agora. Essas coisas viriam em seu próprio tempo, logo. Por enquanto, Harry era seu – estava aqui em seus braços, e o desejava. Ele beijou o topo da cabeça de Harry, puxou os cobertores em volta deles e então fechou os olhos e se deixou cair no vasto sentimento de paz e pertencimento que sempre parecia aparecer dentro de si quando calava sua mente e se deixava deitar parado com esse garoto que amava. E se algum dia teve a menor dúvida de que estava apaixonado por Harry Potter, não existia mais lugar para dúvidas. A emoção que o preenchia nesse momento, antes de cair no sono, era profunda e absoluta. Ele respirou fundo e puxou Harry mais para perto, entregando-se a ele com toda sua alma.

Quando Harry abriu os olhos, estava olhando para baixo, e parecia que um vapor fantasmagórico, preenchido com pontos de luz, estava rodando por seus pés. Após um momento, sua visão clareou e ele viu que pequenos flocos de neve estavam sendo carregados no vento, passando por seus tornozelos, passando em uma névoa branca, brilhando com incerteza gélida, refletindo a luz fraca que o rodeava. O vento estava extremamente frio e Harry apertou sua capa em seus ombros. Ele tremeu ligeiramente, então se assustou violentamente quando o céu se abriu em volta de uma luz brilhante com um barulho estridente – CA-RACK! O ar foi preenchido com o ar pungente de eletricidade. Um trovão ensurdecedor rolou das nuvens pesadas e escuras. Olhou em volta, seu coração martelando, tentando entender onde estava, tentando se lembrar de como chegara ali, de por que estava sozinho.

O local em que estava era duro e desconfortável. Rochas pontiagudas e cortantes, escuras com gelo liso, apontavam para o céu e o rodeavam. Era um local alto, e percebeu repentinamente que podia ver a paisagem abaixo. E o que emergiu da plácida névoa branca captou seu coração em um punho de gelo em seu peito. Ele tentou voltar a respirar, incredulidade e horror ameaçando tomar conta de si.

Legião por cima de legião de forças negras se espalhavam à sua frente, o exército do Lorde das Trevas revelado. A cicatriz em sua testa estava latejando de dor enquanto uma figura encapada foi à frente, cercado dos dois lados por filas de Comensais da Morte com suas máscaras sem faces. Dementadores estavam atrás deles, filas das criaturas odiáveis seguindo-os. O Lorde das Trevas levantou seus braços e um assustador grito saiu da massa de gargantas horrendas, raspando e lamentando, carregado pelo vento gelado.

Harry ficou imóvel, entorpecido e desolado, congelado naquele local com desespero. Havia tantos deles e ele estava tão, tão sozinho. Ele não poderia, nunca, ir contra isso. Como esperavam que ele... sequer tentasse? Engasgou-se em um gemido. Mas ele não tinha escolha, não é? Todos estavam contando com ele. Ele sozinho. Lutando contra esse medo crescente, juntando os pedaços de sua desesperança em uma fina linha de desespero, ele alcançou por sua varinha... e uma mão escorreu na sua, quente, sofisticada, firme e tranqüilizadora. Por um momento muito breve ele se apossou de uma onda de poder, uma onda exultante de força e confiança –

"Harry. . . ."

"Harry..." Uma mão sofisticada escorregou com calma na sua, outra o segurando firmemente, com gentileza, pelo ombro, chacoalhando-o levemente. "Harry, acorde. Acorde. Você está sonhando."

Harry acordou com um susto, ainda vagamente em pânico, seu coração acelerado, mas sabendo imediatamente da familiaridade do agora bem-vindo toque daquela mão que estava a salvo. Respirou profundamente com alívio enquanto o calor da cama em que deitava se transformava em realidade, e abriu os olhos. Ainda era noite, percebeu, porque a não ser pela fraca luz do fogo que apagava, o quarto estava quase completamente escuro. Podia ver apenas Draco, olhos sonolentos e cabelo desarrumado, inclinando-se em um cotovelo, observando-o com uma face repleta de preocupação.

"Estava tendo um sonho," Draco repetiu suavemente.

"Estava tendo um pesadelo," Harry o corrigiu, coçando a cicatriz que ainda pulsava de maneira desconfortável.

"Isso acontece muito?" Draco perguntou enquanto voltava a se deitar.

"Não," Harry disse. "Não já faz algum tempo." Draco estava encarando o teto e não respondeu. "Desculpe tê-lo acordado," Harry adicionou, sentindo-se miserável por atrapalhar o outro garoto.

Draco fechou os olhos. Após um momento ele disse. "Você quer conversar a respeito?"

"Era..." Harry começou, então parou ao perceber que a maioria da visão estava desaparecendo, deixando apenas uma memória confusa de gelo e medo e figuras escuras encapadas. "Era... o exército de Voldemort... eu estava sozinho... é só o que me lembro."

Draco ficou em silêncio por um momento. Harry estava começando a acreditar que Draco tinha voltado a dormir quando o loiro falou. "Eu queria esquecer os meus com a mesma facilidade," ele disse quietamente.

"Você tem pesadelos?" Harry perguntou com a voz baixa.

"Não tive muitos esse ano. Ano passado foi bem ruim." Draco virou a cabeça para encarar Harry. "Foi assim que Snape descobriu o que o meu pai estava fazendo comigo. Crabbe e Goyle correram até ele na primeira noite que aconteceu. Ele me forçou a contar o sonho. No dia seguinte, ele me deu uma poção para dormir sem sonhos, que ajudou bastante, mas me deixava sonolento o resto do dia então eu não tomava todas as noites."

"Era a Maldição Crucio?"

"Sim."

"Meu Deus, Draco," Harry disse com uma voz baixa e resignada. "Eu acho que seu pai devia ser trancado em Azkaban por fazer isso com você."

"É," Draco disse, quase inaudível, sua voz tão fria e dura como gelo. "Ele devia." E não tinha mais nada a se dizer depois disso.

Eles acordaram no fim da manhã, deitando juntos praticamente na mesma posição torta que em que tinham adormecido depois do pesadelo de Harry. Eles nunca fecharam as cortinas da cama, então os raios de sol estavam adentrando a janela ao lado da cama de maneira quase irritante.

Draco se desenrolou dele e se levantou, esticando-se. "Ei," ele murmurou, correndo uma mão por seu cabelo.

Harry o observou e decidiu que Draco-amanhecido, sem camisa e com o cabelo todo desarrumado era um visual que ele gostava muito, muito mesmo. "Ei," ele respondeu quietamente, um pouco incerto de como as coisas seriam entre eles de manhã. "Que horas são?"

"Tarde," Draco disse, parecendo incapaz de dizer mais de uma sílaba por vez.

"Não perdemos o café da manhã, não é?" Harry perguntou, levantando-se também.

"Não."

Harry olhou para Draco com um brilho entretido em seus olhos verde. "Você é sempre tão animado de manhã?" perguntou.

Draco retornou o olhar e lançou um sorriso malicioso para Harry. "Nem sempre," ele disse. "Às vezes sou bem curto e grosso."

"Hmm," Harry disse com um pequeno sorriso, sentindo-se tranqüilizado pelo tom brincalhão na resposta de Draco. "Não gosta muito das manhãs, hein?" Ele se encostou à cabeceira e fechou os olhos. "Bem, somos dois então."

"Engraçado," Draco disse, virando e se sentando de pernas cruzadas na frente dele. "Eu achei que você fosse gostar."

"Não, não eu," Harry disse com um suspiro. "Se não fosse o Rony eu perderia o café-da-manhã todos os dias." Ele abriu os olhos, olhando para Draco e os olhos deles se encontraram em entendimento. "Você sabe que eu preciso contar para ele da gente," Harry disse. "Hoje – durante o café-da-manhã." Ele pausou. "E eu quero contar para meus outros colegas de quarto também... se você não se importar."

"Acho que não me importo," Draco disse vagarosamente, "se você acha que eles precisam saber."

Harry se sentou. Ele alcançou e gentilmente afastou a franja loira da testa de Draco, colocando-a atrás da orelha do outro garoto. "Não é que eles precisam saber," Harry disse suavemente. Deixou seus dedos trilharem o cabelo sedoso até a nuca de Draco e se inclinou para beijar o loiro levemente, docemente, na boca. "Eu quero que eles saibam," ele disse seriamente. "Eu quero que eles saibam que eu estou com você." Harry pausou, olhando nos olhos de Draco. "Queria que você estivesse comigo quando eu contasse."

"Se você me quer lá, estarei lá," Draco disse quietamente, retornando o beijo com outro, feliz e tocado pelas palavras de Harry. Então, com um pequeno sorriso envergonhado, ele adicionou, "Tenho certeza que será muito engraçado." Ele beijou Harry mais uma vez, efetivamente cortando qualquer resposta a esse último comentário. "O que mais estamos planejando fazer hoje?" ele perguntou finalmente, quando se separaram.

Harry o lançou um olhar ligeiramente preocupado. "Eu estava planejando há faz várias semanas ir a Hogsmeade hoje," ele disse, pausando. "Eu preciso ir sozinho, no entanto," continuou com um pouco de remorso. "Vou fazer as compras de Natal. Mas nós podemos nos encontrar depois – almoçar juntos no Três Vassouras se quiser."

"Na verdade, isso é perfeito," Draco disse. "Eu também tenho algumas tarefas pessoais que tenho que fazer nessa manhã." Então seus olhos brilharam. "Mas ei – por que não posso ir às compras com você?"

"Bem, porque..." Harry disse, corando ligeiramente, "veja bem..."

"Aha!" Draco disse, colocando seus braços ao redor do pescoço de Harry. "Então essa excursão de compras inclui um presente para mim?"

"Sim," Harry disse com uma risada.

Draco sorriu aquele sorriso genuíno que sempre fazia o coração de Harry pular várias batidas. "Vou deixar você ir, então," ele disse. "Dessa vez."

Harry sorriu para ele, percebendo como aquele sorriso podia transformar seus ossos em gelatina, e repentinamente teve uma idéia. "Draco," ele disse. "É a minha vez no jogo de xadrez, não é?"

"Sim. Por quê?"

"Guarde meu lugar aqui," Harry disse, ainda sorrindo enquanto saía do abraço de Draco. Levantou-se da cama e foi até o tabuleiro. "Peão para D4," ele disse enquanto movia a peça. Ele pegou o Peão capturado de Draco e o segurou com um sorriso malicioso para que Draco pudesse ver. "Você consegue sorrir desse jeito de novo?" ele perguntou.

"Acho que sim," Draco disse, inclinando sua cabeça de maneira confusa. "Se eu estiver olhando para você."

Harry jogou a fada no ar e a capturou com habilidade. Colocou-a na mesa, e então se apressou até a cama, indo embaixo das cobertas ao lado de Draco. "Então eu tenho um plano," ele disse, explicando o que tinha em mente. "Mas nós teremos que chegar bem atrasados no café-da-manhã, para que apenas meus amigos estejam no salão. Eu não acho que queremos uma audiência maior." Ele pausou por um momento. "Você faria isso?"

"Sim," Draco disse, rolando a idéia em sua mente. "Mas se vamos chegar tão atrasados, o que o faz pensar que seus amigos ainda estarão lá?"

"Eu não voltei para o dormitório ontem à noite," Harry disse. "Eles estarão lá."

Draco riu e se deitou na cama, alongando-se com os braços acima da cabeça, e fechou os olhos. "Ah," ele disse com compreensão. "É por isso que nós... Eles estarão esperando para ver com quem você chega."

"Exatamente," Harry disse, voltando a deitar de lado, encarando Draco. "Eles realmente são tão previsíveis." Bem clandestinamente, ele levou sua mão até Draco embaixo da coberta.

Draco murmurou suavemente. "Eu costumava achar isso de você."

Harry sorriu. Seus dedos se conectaram levemente com a pele nua de Draco logo acima de sua calça. "Mudou de idéia, então?" Harry vagarosamente trilhou seus dedos pelas costelas de Draco.

"Sim." As palavras foram meio uma inalação repentina e meio um suspiro assustado. Mas Draco não moveu um músculo.

O sorriso de Harry aumentou. Aquele suspiro provavelmente foi a coisa mais adorável que já tinha ouvido. Mas agora Harry estava determinado a fazer Draco admitir que tinha cócegas. Trilhou seus dedos novamente até a cintura de Draco e então em seu estômago.

Draco virou a face para o outro lado, mas Harry pôde ver que ele estava mordendo o lábio inferior. Ainda, ele não deixou qualquer outra reação se mostrar. Na verdade, parecia como se Draco estivesse segurando a respiração. Harry percebeu que para ganhar essa batalha, teria que aumentar a intensidade do ataque. Excitado com sua própria ousadia, os dedos de Harry voltaram ao lado da cintura de Draco, então muito vagarosamente foram até a beira de sua calça, até o osso de seu quadril.

Repentinamente Draco se levantou e agarrou a mão de Harry. "Deus, Harry," ele suspirou. "Pare! Eu desisto."

Harry voltou a se deitar de costas, rindo. "Admita," ele disse com triunfo.

"Tá bom," Draco disse, colocando a mão de Harry firmemente, mas de modo brincalhão, no peito do moreno, como se para colocá-la o mais longe possível dele. "Eu admito que sou um pouquinho sensível à cócegas."

Harry riu novamente. "E o que mais?"

Draco soltou uma risada baixa e provocante. Deitou-se de bruços ao lado de Harry e se apoiou em seus cotovelos. "Eu absolutamente me recuso a dizer que gostei," ele disse com o tom de alguém cuja dignidade fora profundamente ofendida, mas o sorriso em sua face dizia o contrário. Então sua voz e expressão se molificaram. "Mas eu gosto disso," ele disse. "De acordar ao seu lado."

Harry estudou o calor naqueles olhos cinza pensativamente, hesitando em fazer a pergunta que estava em sua mente durante a manhã inteira e que as últimas palavras de Draco trouxeram à tona. "Quer dizer que podemos fazer isso novamente amanhã?" ele perguntou quietamente após um momento. "Posso ficar com você essa noite?"

Draco retornou o olhar de Harry com seriedade, um pouco surpreso com a pergunta. Ele na verdade esteve temeroso de que Harry fosse ficar bravo com ele essa manhã e não quisesse passar a noite por uma segunda vez. "Mesmo depois da bagunça que eu fiz de tudo na noite passada?" ele perguntou finalmente.

Harry corou levemente, mas encontrou os olhos de Draco com firmeza. "Eu queria que você me contasse o que aconteceu na noite passada. Eu sei que foi algo que eu disse... e sei que se conversarmos a respeito..." Suas palavras falharam quando Draco olhou para baixo, quebrando o contato visual entre eles.

"Desculpe, Harry," Draco disse suavemente, com tristeza, "pelo que aconteceu ontem. Eu só quero esperar mais um pouco... e não posso explicar ainda."

"Não se preocupe," Harry disse, muito confuso pela atitude de Draco, mas feliz por terem pelo menos conversado um pouco a respeito. "Eu não quis te pressionar. Se quiser esperar até o final do jogo de xadrez, tudo bem. Isso não muda meus sentimentos por você, ou o fato de que quero ficar com você." Ele colocou uma mão no braço de Draco. "Gostaria de ficar com você essa noite – se você quiser."

Draco levantou o rosto, seus olhos claros e brilhantes, como o céu depois da chuva. "Eu quero," ele disse simplesmente. "Muito."

"Tá bom, então," Harry disse com um sorriso ansioso e caloroso. "Mas nada de treinar Poções," ele adicionou, brincando gentilmente, aliviando a pequena tensão que a conversa anterior deixou entre eles. "E nada de banhos gelados!"

"Mas Harry," Draco disse com um sorriso e uma pequena risada, "aquilo foi divertido."

Harry riu também. "Venha, você," ele disse. "Se não nos apressarmos, vamos perder o café-da-manhã completamente."

Eles se levantaram da cama e se arrumaram rapidamente. Harry, graças aos elfos-domésticos do castelo, encontrou todas as suas roupas secas e dobradas meticulosamente em cima do baú de Draco na frente da cama. E Draco, para sua alegria, encontrou sua amada camisa pendurada em seu guarda-roupa em condição perfeitamente restaurada. Harry retomou sua varinha da pia do banheiro, então coletou seus óculos e a Capa de Invisibilidade da mesa e cadeira em frente à lareira. "Pronto?" ele chamou Draco que ainda estava no banheiro, enquanto colocava seus sapatos.

"Pronto," Draco disse, saindo e encontrando Harry na porta, gesticulando afirmativamente com a cabeça à pergunta nos olhos de Harry acerca do que estavam prestes a fazer. Então repentinamente, sua expressão clareou e ele soltou um sorriso.

"O que?" Harry perguntou, olhando-o com suspeição.

"Eu acabei de perceber que maravilhosa manhã esta é," Draco disse. "Primeiro eu acordo com você e agora posso atormentar Weasley e os Grifinórios durante o café-da-manhã. E depois posso tentar adivinhar o que você comprou para mim de Natal."

"Não, não pode," Harry disse firmemente. "E você não vai atormentar ninguém."

"Harry," Draco disse, levantando uma sobrancelha, sua expressão a figura de inocência. "Não estarei atormentando intencionalmente. Mas o que você acha que vai acontecer quando contar com quem você passou a noite?"

Harry fez uma careta. "Eu sei," ele disse. "Apenas me prometa que não vai piorar as coisas. Especialmente com Rony. Se você se mantiver calmo, e não reagir ao que ele falar, tudo será mais fácil."

"Hmm," Draco respondeu com um olhar duvidoso. "Eu não sei de nada que pode tornar isso mais fácil, mas vou tentar." Ele colocou as mãos na cintura de Harry e se inclinou para beijá-lo. "Para dar sorte," ele disse. "Vou te seguir."

"Tá bom," Harry disse, sentindo-se esperançoso e ansioso e bastante excitado ao mesmo tempo. Draco o soltou e ele se cobriu com a Capa da Invisibilidade. "Te vejo lá embaixo," ele disse com um sorriso, então saiu quietamente do quarto. E apesar de prometer ser um drama, Harry estava animado.

Harry entrou no Salão Principal ansioso para que a verdade fosse contada. Ele honestamente não acreditava que um de seus amigos fosse ser completamente contra seu novo relacionamento com Draco, nem mesmo Rony. Ele com certeza esperava que Rony ficasse furioso, mas concordou com a conclusão de Hermione acerca de seu melhor amigo, que Rony eventualmente aceitaria a situação. Se Harry estivesse feliz – e ele estava feliz. Quase riu quando percebeu que estava certo – seus quatro colegas de quarto, além da Hermione e da Gina, estavam sentados em um grupo na mesa da Grifinória, esperando. O resto do salão estava praticamente deserto, como havia planejado. Sentou-se casualmente em seu local usual ao lado de Rony, tentando muito não sorrir, mas falhando completamente, o que estragou a grande imagem de despreocupação que queria atingir.

Várias vozes exclamaram ao mesmo tempo. "Harry!"

Seamus, sentado do outro lado da mesa entre Dean e Neville, o lançou um olhar pontiagudo. "E onde exatamente você estava a noite inteira?"ele provocou. "E não venha nos dizer que estava jogando xadrez dessa vez." Todos olharam para Harry com expectativa, até mesmo Hermione, apesar de ela ter um sorriso eu-sei-o-segredo estampado em seus lábios. Rony estava sério, e Gina, Neville e Dean pareciam que quebrariam em risinhos a qualquer momento.

Harry deu de ombros e com muita calma começou a encher seu prato. Ele queria ter a atenção completa de todos para que Draco pudesse entrar sem ser percebido. Estava ganhando tempo até que os outros poucos estudantes no salão terminassem e saíssem do Salão Principal. "Eu estava jogando xadrez," ele disse, após um minuto agonizante depositando geléia em suas panquecas. Ele deu uma mordida e mastigou pensativamente. "Mas não a noite inteira."

Seamus rolou os olhos.

Rony cruzou os braços. "Então vai nos contar agora ou não?" ele perguntou, um pouco grosso.

Harry viu Draco entrar pela porta e sentar-se à mesa Sonserina. "Sim," ele disse, virando-se para encarar Rony, dando-o uma resposta séria. "Vou contar. Contarei tudo, mas me deixe comer primeiro."

"Tudo?" Seamus perguntou, sorrindo, inclinando-se para frente por cima da mesa na direção de Harry. "Isso será bom - ! Ai!" Ele se sentou e alcançou para massagear a pele dolorida. "Quem me chutou?"

Gina riu e Hermione sorriu inocentemente.

Seamus sorriu para elas. "Vocês meninas não me enganam," ele disse com convicção. "Vocês querem saber de tudo também. Assim como o resto de nós."

Harry comeu mais algumas mordidas de seu café-da-manhã, e observou duas meninas do quinto ano da Corvinal se levantarem de seus lugares. Elas eram as últimas duas estudantes no salão, então ele esperou até saírem, sucumbindo a todos os olhares impacientes que estava recebendo e limpando a garganta. Sentiu borboletas no seu estômago, nervosismo e excitação tomando conta de si agora que o momento da verdade chegara. "Tá bom," ele disse, tentando parecer sério, mas ainda sem conseguir segurar seu sorriso completamente. "Isso será surpreendente para todos..." Ele olhou em volta a todas as faces atentas e esperançosas de seus amigos. "Eu... bem... eu acabei de descobrir algo a meu respeito... algo que nunca teria imaginado..." Harry pausou novamente, então continuou com um tom mais baixo e confidencial. Seus amigos se inclinaram para ouvir. "Pelo jeito... eu tenho um poder mágico secreto," ele disse, "e estive louco para testá-lo a manhã inteira."

Todos o encararam, completamente perplexos.

Hermione falou primeiro. "Do que está falando, Harry?"

"Parece enrolação para mim," Seamus reclamou.

"Sim, parece," Rony concordou. "ou ele ficou louco de novo."

"Não, agora escutem," Harry disse. "Isso será bom. Só preciso testar em alguém." Ele deixou seus olhos irem até a mesa da Sonserina. "Aha," ele disse com uma voz baixa e conspiradora, olhando firmemente até o outro lado do salão. "Perfeito."

Dean, Seamus e Neville viraram em seus lugares e todos agora encararam Draco Malfoy. O Sonserino loiro estava comendo café-da-manhã, calmamente lendo o Profeta Diário, parecendo completamente ignorante dos sete pares de olhos Grifinórios grudados nele.

"Quando ele entrou?" Rony murmurou.

"Harry?" Hermione murmurou, obviamente confusa com o comportamento de Harry. "O que está acontecendo?"

"Apenas uma pequena demonstração," Harry replicou. "Acredito que posso fazer Malfoy fazer algo que nenhum de vocês já o viram fazer, daqui."

Hermione franziu as sobrancelhas. "Harry, você não pode enfeitiçar os outros alunos," ela disse com sua melhor voz de Garota-Monitora. "Você sabe que não é permitido."

Harry simplesmente sorriu. "Eu disse que era mágica. Não disse que era um feitiço." Ele se virou para olhar para Draco. "Apenas observem," ele disse. "Pode demorar alguns minutos. Eu preciso esperar que ele olhe para cima – isso exige contato visual..."

Alguns segundos passaram enquanto todos os Grifinórios seguravam a respiração, esperando que Malfoy parasse de ler...

Draco virou a página. Escaneou aquela página por um momento, então virou mais uma, e mais algumas. Finalmente ele fechou e dobrou o jornal. Colocou-o ao lado de seu prato e finalmente levantou o olhar. Diretamente para Harry.

Harry sorriu para ele.

Draco virou a cabeça para o lado. Então ele sorriu em resposta. Seu sorriso mais real, genuíno e de parar o coração.

Todos seguram o ar coletivamente na mesa da Grifinória

.

"Não é a coisa mais adorável e de tirar o fôlego que vocês já viram," Harry disse suavemente, mesmerizado.

"Santo Anjo e Mãe de Deus!" Seamus sussurrou.

"O que?" Rony demandou.

"Não acredito!" Seamus disse, ainda chocado. "Harry derreteu o Rei do Gelo!"

Fim do Capítulo 10