Capítulo 10:
No dia seguinte da noitada de descobertas e realizações, ambos voltaram ao castelo por volta das seis horas da manha. Snape já estava com seu humor habitual e Sulis... bom, Sulis era Sulis, sempre quieta e lunática. Despediram-se com um "tchau" por parte dela e um aceno de cabeça em resposta. Cada um rumou ao seu próprio quarto.
Eram duas horas da tarde quando Sulis acordou da soneca que começou as sete da matina. Começou a latejar em seus pensamentos o que aconteceria a eles a partir de agora. Afinal, ele já ajudara, acabara de acontecer aquele momento tão bom e tão esperado. Ela não tinha mais desculpas nenhuma para ter algo a mais que a relação aluna-professor. Sentiu um vazio dentro de si. Uma verdadeira dor de alguém que sente quando perde algo valioso. Deu-se conta que o perdeu. Começou a sentir um nó na garganta, falta de ar e derramar lágrimas, a sentir um profundo desespero.
Quatro horas antes de Sulis acordar, um recuperado Severus bate à porta de Dumbledore:
- Entre Severus.
- Bom dia, Alvo.
- A noitada foi boa? – Dumbledore brincou sem ter muita noção do iminente perigo que descrevia os olhos de Severus.
- Por favor, Alvo. Haja como um adulto e diretor. Vim dizer-lhe que a tarefa foi cumprida. Se me der licença eu vou me...
- Espere Severus. – Agora falou sério. – Como está a senhorita Scathach?
Snape fez cara de indiferença e deu de ombros, o que deu uma irritada no velho a sua frente.
- Acaba de ter relações, veja bem, sua primeira relação com uma mulher, que o ama, até onde sei, e você está nem aí para ela?
- Não diga bobagens. O que aconteceu, aconteceu! Ela quem quis. Não está ferida então deve estar bem.
- Como ficará a situação de vocês?
- Como sempre foi: ela minha aluna e eu seu professor.
- Não sentes nada por ela? – perguntou com um olhar de incredulidade.
- E por que deveria? Apenas lhe fiz um favor, Alvo. Só a você e por tabela a ela. Até mais ver.
Dumbledore achava que conhecia realmente o homem à frente, mas estava enganado: ele nunca admitiria a um diretor que estava gostando de uma aluna. Ele próprio chegou a essa conclusão de manha, que ele realmente estava envolvido com ela, porém, não iria dizer a ninguém. Era incabível ele, um homem velho e professor se apaixonar por uma bela jovem que ainda era aluna.
Às margens do Lago, Sulis enfiava se sentava na fria grama, observando alguns passarinhos tentando pegar alguma coisa. Ela estava triste, teria de fazer algo para chamar atenção de Severus novamente, e fisgá-lo, como aqueles passarinhos tentavam com seus peixes. Resolveu que iria falar com ele em suas masmorras hoje à noite, e perguntar-lhe o que a noite significou a ele. Porém não foi preciso.
Enquanto ela estava deliberando tais assuntos, Snape que a procurava deu uma leve tossida anunciando sua presença. Logo, desajeitadamente, colocou-se de pé.
- Ah, olá. – Sorriu um pouco sem jeito.
- Vim lhe esclarecer, senhorita Scathach, que nossas relações, a partir de agora, voltam a ser normalizadas: você aluna, eu professor. Não me procure mais. Não conte a ninguém o que ocorreu. Adeus.
- Espere! – falou desesperada. Mesmo de costas a ela, ele parou. – E o que eu faço com aquele você me proporcionou algo incrível? Ou não volte às formalizações? O que eu faço com as lembranças de ontem, lembranças divinas que eu e você tivemos? E o que, em nome de Merlin, eu faço com o que eu sinto por você?
Pairou um silêncio sobrenatural. Ele ainda de costas falou muito baixo, porém, audível:
- Esqueça tudo isso. Nunca dei margens para pensar que eu gosto de você. O algo incrível que você me proporcionou foi... – agora se virara defronte a ela – foi apenas sexo, algo que eu consigo com qualquer outra pessoa. Boa tarde.
Aquilo não podia estar acontecendo. Sulis estava desfalecida por dentro. Suas pernas ligeiramente ficaram bambas. Sentiu sua alma esvair-se. Infelizmente uma voz interior insistira bem naquele momento ser racional dizer-lhe que ele estava certo: nunca dera a entender que ele sentia algo por ela. Sentou-se novamente às margens do lago e começou a chorar como nunca chorou. Era um choro silencioso, porém, a quantidade de lágrimas era imensa e farta. Quem a olhasse no momento veria uma expressão de... aliás, não veria expressão alguma.
Horas mais tarde a nossa triste personagem permanecia sentada à beira do Lago, ainda chorava, mesmo já quase sem lágrimas. Lamentava. Passou pela sua cabeça o quanto havia sido burra. Ela mesma havia dito a si própria, uma tarde ali naquele mesmo lago, que bastava ela o amar, mesmo que nunca o tivesse. Bastava saber que o amava mesmo que tal amor nunca fosse correspondido. Entretanto, quem disse que o amor também não prega suas peripécias? Quem disse que é algo que se planeja e se tem controle total sobre ele? Mas ainda assim doíam as duras palavras dele. E pensando bem, no fundo ela já esperava algo assim desde o momento em que ele concordou em ajudá-la. Sabia que seus minutos de glória seriam somente aqueles. Decidiu voltar para seus aposentos, tentar esquecer tudo aquilo e viver sua vida solitária como sempre foi. Viver apenas para si, por si e por um amor transcendente, isso já lhe bastava.
Em alguns dias voltaram os outros alunos e as aulas. Daqui uns cinco meses acabariam as aulas de uma vez por todas. Acabaria aquele sétimo ano tão maravilhoso e terrível. A cada dia que se passava, a bruxa estava cada vez mais hermenêutica, cada vez mais em seu próprio mundo. Às vezes até se esquecia de comer, porém ninguém reparou em tais mudanças, haja vista que ninguém a conhecia tão bem assim.
As aulas de Severus Snape eram torturantes. Vinha-lhe à mente lembranças de um passado recente que lhe parecia tão distante. Lembrava de um olhar luxurioso, um olhar negro desejoso e até mesmo apaixonante, e quando voltava à realidade, via os mesmo olhos, porém agora frios. Apenas frios. Tinha vontade de chorar, às vezes de rir alto e chamar-lhe para mais uma noite juntos, às vezes de dar-lhes uns empurrões e mandar-lhe amá-la ou perguntar-lhe porque não a deixou morrer. Mas diante de tais pensamentos, Sulis limitava-se apenas em fazer seus exercícios, anotar alguma coisa aqui e ali ou olhar para o caldeirão à sua frente.
Snape reparara o quão ela estava mais pálida que o normal, havia emagrecido também? Ela já não possuía aquele olhar cintilante que sempre o olhava nas aulas desde o dia em que teve sua primeira aula. Nunca mais viu um sorriso naqueles lábios que um dia beijara, mesmo que isso nunca tivesse acontecido com freqüência. Ninguém sabia e nem ele queria admitir, mas, todas as noites após o dia dois de janeiro do presente ano, 1991, ele passara a sonhar com ela. Sem exceção, todas as noites. E acordava nas manhãs ora saudoso, ora excitado, ora amargo. Não admitia, mas inconscientemente chegara à conclusão que a queria, que a amava. Às vezes parava pra pensar o quão foi duro com ela naquele dia no Lago, não precisava ter falado que sexo conseguiria com qualquer um. Tanto é mentira o que dissera por que ele perdeu a virgindade aos trinta anos. Mas ele teria de aprender a conviver com isso e esquecê-la. Ela também.
Capítulo 11:
"Perdido em sua escuridão eu vejo você lá. O que você vê além de seu olhar? E você acredita que ninguém pode saber? O que é esta coisa que você mantém dentro de si, envolvido em orgulho, sempre com medo que um dia isso será mostrado? Eu manterei seus segredos, eu segurarei seu chão e quando a escuridão começar a cair, estarei lá esperando, enquanto seus sonhos estão se apagando.
Saiba que neste momento, eu estarei lá com você. O que são essas vozes que você ouve? Elas estão tão longe, ou tão perto? O que são essas coisas que ecoam do passado? O que você vê à noite? Eu estarei ao seu redor, quando não existir razões para continuar. Sei que todo sonho que você teve já se foi, e a escuridão é profunda e negra, sem som. Saiba que também vivo assim
SS".
Snape estava estarrecido ao ler esse bilhete assinado por Sulis Scathach. Já eram mais de meia-noite, do dia 24 de fevereiro, e ele ainda estava corrigindo uma pilha de pergaminhos do primeiro trabalho do segundo semestre. Ainda faltava um monte, porém, mesmo assim, se deteve naquele pergaminho de Sulis, lendo linha por linha, palavra por palavra várias vezes. O que ele sentiu? Ele não sabia o que pensar ou sentir... Mas ao lê-lo pela quarta vez dobrou-o, levou ao seu quarto e colocou em uma escrivaninha. Mesmo sem entender direito o porquê daquele bilhete, guardara-o.
Ora, era mês de fevereiro quando Sulis, como sempre em seus devaneios e deliberações, chega à conclusão: se ela vivia por si, para si e pelo amor que sentia por Snape, então deveria fazer algo por aquele se único amor, mesmo que nunca haveria resultado, afinal, estava em seus últimos dias de Hogwarts. Porém não tinha a menor idéia do que fazer, não sabia realmente; chamar a atenção estava fora de suas cogitações. Pensou e pensou até lembrar-se de como ela e Severus se aproximaram no ano passado: através de um pergaminho.
Na primeira oportunidade, ou seja, quando Snape passou uma lição de casa, resolve ela colocar juntamente com o trabalho um anexo. Tal anexo era uma carta a ele.
Quando ela pegou seu pergaminho para escrever, não fazia a menor idéia do que escrever. Um poema? Declarações? Isso não fazia muito do seu feitio, mas, dizer-lhe o que ela sentia e o que pensava, era um bom começo. Ela não sabia, mas seu plano deu certo, ao menos na questão de fazer Severus pensar nela. Ele, como supracitado, não havia entendido muito a situação, ficara uns três dias pensando no ocorrido com certo estupor, mas o que mais o intrigava era o conteúdo do bilhete: como ela aprendera a conhecê-lo assim?
E ele, como era, resolveu entrar no jogo, sem ela saber, claro. Em vez de devolver-lhe outro, em resposta, passara mais trabalho em pergaminho para a turma do sétimo ano. Queria saber se ela iria mandar outro bilhete, o que ela iria dizer agora? Já no início de março, pede outra tarefa. Dessa vez Sulis ficou hesitante em mandar ou não outro, pois, após ter enviado o primeiro, ele parecia mais duro e inflexível em suas aulas.
"Sinto a escuridão sorrir, cada noite é como estar morrendo, o silêncio é refinado e cada pensamento está em seu coração. O silêncio tece o destino fervente a cada noite que sangro; totalmente sozinha no escuro... só no escuro. Mas na noite, a escuridão respira, veja, diante dos seus olhos, a música morre, mas sempre a quer ouvir e então sente-se sozinho, e as cartas estão embaralhadas com a escuridão. O único som que vais ouvir estás em seu coração. Alguém está sussurrando suavemente pra mim coisas das sombras, aquelas que ninguém pode ver, elas estão além daquilo que você quer que sejam, que você quer que as sombras sejam... Mas na noite, a escuridão respira, veja, diante dos seus olhos, a música morre, mas sempre a quer ouvir e então sente-se sozinho, e as cartas estão embaralhadas com a escuridão. O único som que vais ouvir estás em seu coração
SS".
Ela resolveu jogar. Snape lera mais uma vez aquelas palavras tão profundas, misteriosas e ao mesmo tempo tão claras, escritas com uma bela letra, por uma bela mulher. Ao ler aquela carta, Snape não sabia como se sentia, não sabia se Sulis se referia a ele ou a ela, ou ambos. Ela era como ele, uma criatura das trevas, não no sentido de bem ou mau, mas apenas trevas, e isso estava mais que provado. Entendia como era sua solidão, entendia como era viver num mundo onde ele não tinha lugar, não era entendido e nem queria ser entendido, num mundo que repudiava e era repudiado. Mas porque simplesmente não ir até a jovem e resolver tudo? Mandar-lhe esperar até que terminassem as aulas, em julho, e então estariam livres para se amarem. Por que não o fazer? Porque o sentimento humano é complicado, e um sentimento humano acompanhado de trevas, sentido por alguém que não foi feito por amar, não é nada simples.
Será que ela continuaria a escrever? Será que ainda continuaria a desvendar seus mistérios? Ele não sabia. Mas desejava que ela o fizesse. Porém, como supracitado, o sentimento de uma pessoa que possui tal caráter como de Severus, que muitas vezes já foi descrito nessa presente história, não é tão fácil de entender. Em uma noite qualquer de abril, Snape simplesmente resolvera que uma aluna mandar-lhe cartas sentimentais não era eticamente correto. Na terceira vez em que ela entregara-lhe o pergaminho em sala, como o tal anexo, ele simplesmente, na frente de todos, disse-lhe que tinha um pedaço a mais no dever. Entregou-lhe e ainda retirou cinco pontos da própria casa pela ignorância da aluna.
Aviso ao leitor que então, inicia-se o fim dessa história. Começa desenrolar-se o desfecho desse trágico romance. Como já disse, em meados de abril, Snape simplesmente rompe o joguinho que começara com Sulis, e agora descrevo o que se deu com a mesma.
Com o rompimento de envios de cartas à Severus Snape, depois daquela aula em que ele deixara bem claro (entre linhas, pois os alunos não notaram nada), Sulis perdera totalmente as esperanças de ter qualquer tipo de relação com o mestre de poções. Até mesmo de aluna. Não se sentia mais uma aluna em suas aulas e nem o via como professor.
No início de todo seu sofrimento, Sulis sentia-se como se estivesse sangrando o tempo todo, como se fosse uma ferida aberta ensangüentada que nunca parava de doer. Aos poucos aquela dor cicatrizara-se, mas não em um sentido bom, ora, Sulis tornara-se como uma pedra. Provavelmente isso doía mais, pois, no início, tudo era irracional, era cheia de devaneios e esperanças, agora, não lhe restara nada. No início ela sentia-se viva, ainda tinha sangue pra sangrar, não? Mas agora, nem isso lhe restara. Era como uma morta-viva. Racionalmente perdera a vontade de viver. Em suas trevas, maquinava não mais em como conquistá-lo, mas sim, em como fugir dali, como morrer. Às vezes sentia que não conseguiria suportar continuar no castelo até junho. Porém, nossa personagem estava tão desprovida de qualquer vontade, que mal conseguia bolar um bom plano suicida e pô-lo em prática. Estava realmente pior que um zumbi.
