Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre os protagonistas: dois caras. Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.
Aí vai mais um capítulo. Minhas impressões sobre ele seguem no fim da página!
Enjoy your flight!
- Que horas são agora?
- Passaram só cinco minutos. Relaxa.
Shura acenou com a cabeça, pedindo desculpas. Os dois estavam sentados na entrada da casa de câncer, debaixo de um céu ainda escuro. Carlo girava o velho relógio de bolso pela corrente, ocasionalmente apanhando-o a meio caminho de completar uma volta para conferir seus ponteiros. Shura estava ao seu lado, mirando o céu pensativo. Ainda podiam ver algumas estrelas brilhando ao longe.
Carlo parecia essencialmente entediado em sua armadura de ouro reluzente, nova em folha. Nem parecia que dali a algumas horas estaria em meio a uma batalha sangrenta, lutando, em nome de Atena, contra os impostores que haviam insuflado pequenas revoluções naquele país pacato do sudeste asiático.
Shura olhou para seu amigo de lado, mordiscando a mão que usava para apoiar a cabeça. Ele fora encarregado de assistir a partida do cavaleiro de câncer em sua primeira missão de extermínio. Não estava nem um pouco satisfeito com a decisão do Grande Mestre de mandar Carlo sozinho para aquela batalha sangrenta. Por que não podiam esperar só mais alguns dias, até que Aiolos voltasse das negociações nos Estados Unidos? Então ele poderia ir junto com Carlo para o Vietnã. E, se Saga estivesse melhor até lá, ele poderia ir no lugar de Carlo. Afinal, era mais experiente.
- Você ainda tá pensando besteira? – Shura sentiu uma leve pressão num ponto da sua testa e percebeu que seu amigo lhe apontava o indicador – Já não falei que não precisa?
Shura fechou os olhos quando sentiu uma mecha dos seus cabelos negros levantar com o peteleco aplicado por Carlo. O espanhol afastou a mão do italiano, arrumando os cabelos com a outra. Na verdade, não importava quantas vezes Carlo bagunçasse sua franja, ela sempre voltaria para seu lugar.
- Estou um pouco preocupado. Acho que Saga não vai chegar a tempo, no final das contas.
Carlo voltou a fitar o horizonte. A lua já não era mais nem remotamente visível àquela hora.
- Não vai e nem precisa chegar. Eu não sou um cavaleiro de ouro? Tenho tanta capacidade de dar conta do recado quanto o Saga. Você não me subestime, 'ovelha' – Carlo provocou, ganhando um soco de mentira de Shura.
- Não sei como você consegue, mas essa sua segurança me inspira – Shura disse com um sorriso que Carlo logo retribuiu.
- Eu sou muito bom mesmo – ele completou, com falsa modéstia.
- Eu vou ser o próximo, sabe? – os olhos de Shura brilharam – Agora consigo entender minhas razões para me tornar um cavaleiro de verdade.
- Que lento você é – Carlo fez cara de reprovação, ainda que sorrisse da pretensa irritação do capricorniano diante de mais essa afronta. Mais sério, ele acrescentou – Que razões são essas, então?
Shura encolheu os ombros.
- Basicamente? Quero me tornar cavaleiro pra proteger as pessoas que me ajudaram a chegar onde eu cheguei. Quero me tornar um cavaleiro por essas pessoas, que fizeram a diferença pra mim.
Shura ficou envergonhado por dizer tais coisas. Podia ser uma razão nobre, mas dita daquela forma, parecia apenas brega. Ele encarou seu amigo, esperando uma gozação, mas ela não veio. Carlo o observava sério, como se refletisse sobre o que o espanhol acabara de lhe contar.
- É...? – ele fez, fitando o relógio entre os dedos entrelaçados – Pra mim, você foi o único aqui que me ajudou a chegar onde eu estou agora.
Carlo levantou os olhos cheios de significado para Shura. O espanhol apenas sorriu-lhe em resposta.
Alguma coisa muito suave tocava o rosto de Shura, fazendo-lhe cócegas. Ele fez um muxoxo – daquele sonho ele não queria acordar de maneira alguma. O toque na sua bochecha, entretanto, persistia em importuná-lo. Shura abriu os olhos resignada e vagarosamente, apenas para fechá-los em seguida.
A primeira coisa que notou foi a dor em todo o seu corpo. Em seguida, percebeu a superfície lisa e fria do chão onde aparentemente adormecera. Seus músculos, rijos, demandaram alguns segundos antes de obedecer aos seus comandos. Lentamente, o cavaleiro se levantou sobre os cotovelos, a perna esquerda levemente flexionada. Alguém estava chamando o seu nome, mas seus ouvidos ainda estavam despertando, então não conseguiu reconhecer o bem-feitor. Para evitar a luz do sol, estreitou os olhos e estendeu uma mão a fim de bloquear a claridade. Seus dedos se emaranharam em uma madeixa de fios dourados no meio do caminho.
- Auch – Shura ouviu, enfim, a pessoa reclamar, puxando os fios para longe de seu alcance – Cuidado!
De todas as pessoas que podiam tê-lo encontrado adormecido no chão da casa de sagitário, era Afrodite quem o encarava naquele momento! Shura se sentou repentinamente, mas se arrependeu: foi acometido por uma tontura incômoda.
- Bom dia – cumprimentou o capricorniano, as mãos massageando as têmporas.
Afrodite suspirou de olhos fechados e acenou com a cabeça.
- Dormir na casa de sagitário é outro dos seus rituais agora? – o pisciano perguntou, agachando-se ao lado do companheiro, seus belos olhos parecendo curiosos – Será que não ficou doente?
Shura tentou lembrar por que achava que deveria estar zangado com Afrodite – o cavaleiro era geralmente reservado e inofensivo, se deixado em paz. Contudo, quando abriu os olhos e focalizou o rosto do belo sueco, seu olhar deslizou até uma marca roxa em seu pescoço, e Shura franziu o cenho, olhando para o lado. Acabara de se lembrar por que a presença daquele cavaleiro o irritava.
- Eu estou bem – ele murmurou apático – Eu posso fazer alguma coisa por você?
Afrodite levantou as sobrancelhas, levemente surpreso, mas não perdeu a classe.
- Eu ia descer para a cidade hoje, mas senti um cosmo na casa de sagitário enquanto passava – explicou o sueco na sua voz melodiosa – Resolvi dar uma conferida. Às vezes aparecem uns servos depravados por aqui, achando que podem fazer o que quiserem só porque o templo está vazio. E eis que eu encontro esse belo espécime de espanhol dormindo no chão.
Sua voz denotava brincadeira, mas seus olhos se estreitaram na direção de Shura. O garoto enfrentou o olhar do pisciano como se estivesse prestes a rosnar para ele.
- Eu sinto muito por preocupá-lo – Shura disse, sem parecer sentir coisa alguma – Vou voltar para o meu templo agora.
O garoto se levantou, olhou uma última vez para o ramalhete no chão e partiu. Ficou bastante irritado quando ouviu passos leves atrás de si.
- Você não tinha que ir até a cidade? – Shura perguntou sem olhar para trás.
- Eu tenho tempo – Afrodite respondeu, subindo a escadaria atrás de Shura – É que eu fiquei curioso. Você tava dormindo com uma cara tão tranqüila. Com quem você tava sonhando?
Shura se voltou para o outro, um tanto apreensivo.
- Por que, eu disse alguma coisa?
Afrodite parou sua marcha, olhando Shura com atenção.
- Não... – fez ele desconfiado.
O espanhol exalou o ar, sentindo-se aliviado.
- Então, não – estava prestes a retomar a caminhada, quando a voz de Afrodite chamou sua atenção.
- Pensando bem, devo ter ouvido alguma coisa – ele comentou capciosamente, observando as reações do cavaleiro de capricórnio – Acho que você tava chamando o –
Num ímpeto, Shura agarrou a frente das vestes do cavaleiro, empurrando-o até uma pilastra tombada. Imediatamente, soltou-o, não acreditando no que acabara de fazer. Estava agindo de forma completamente irracional por conta do que Afrodite dizia.
- Não estou errado, não é mesmo? – Afrodite indagou, sem se levantar – É por isso que age feito um ignorante comigo. Não gosta do fato de ser eu a pessoa que se deita com ele.
Shura xingou em espanhol, enquanto Afrodite se levantava sem se abalar.
- Por que não admite logo? – ele continuou, como quem está cansado de ver uma criança tentando alcançar algo numa prateleira muito alta – É triste só de ver. Faça um favor a si mesmo, a não ser que você queira que eu continue dormindo com ele no seu lugar.
Shura deu um passo em direção ao pisciano, muito corado.
- Fique longe dele – disse, antes que pudesse se conter. Como Afrodite ainda parecesse confuso, acrescentou em voz baixa, um pouco constrangido – Máscara da Morte. Fique longe dele a partir de agora.
Para sua surpresa, Afrodite sorriu.
- É a primeira vez que alguém diz isso – ele explicou – Pelo menos, é a primeira vez que alguém diz isso por outra razão que não o medo.
Shura se manteve calado. Sentia que já dissera o bastante para ter de se envergonhar ainda mais na frente do cavaleiro de peixes.
- Você podia passar na casa de câncer hoje à noite – Afrodite sugeriu, aproximando-se do espanhol, a voz baixa – Eu não sou como algumas pessoas que têm ciúmes e descontam nos outros. Se você for, eu tenho certeza de que vai ser muito bem vindo.
Talvez Shura tivesse passado uma impressão bastante intimidadora, a julgar pelo seu semblante sério e inflexível, não fosse o fato de continuar bastante ruborizado. O que era bastante compreensível para alguém com o mínimo de pudor que vivesse rodeado de gente que não se importa muito com a própria privacidade.
Mas Afrodite tinha razão. Era preciso tomar logo uma atitude a respeito dessa fixação pelo cavaleiro de câncer, antes que acabasse fazendo mais alguma coisa idiota. Ele detestava aquela sua atitude irresoluta diante do pisciano, mas tinha de admitir que precisava colocar em pratos limpos os próprios sentimentos, nem que para isso tivesse que se abrir com Máscara da Morte. E se a sua determinação não fora abalada pelas suas outras decisões, com certeza seria testada pela perspectiva de se abrir com o cavaleiro mais maligno do Santuário.
Parecia que não havia saída fácil de qualquer ângulo que se observasse a situação. Shura olhou Afrodite nos olhos, desta vez lhe falando com menos hostilidade.
- Não sei que tipo de relação você tem com ele – o espanhol começou a dizer como se tirasse um peso das próprias costas – Mas imagino que tenha exigido bastante esforço da sua parte vir me dizer isso tudo.
O sueco suspirou novamente, o olhar oblíquo, como se considerasse a afirmação. Pouco depois, surpreendeu Shura com o sorriso mais encantador que já lhe dirigira.
- Acho que vale a pena – ele disse, um discreto tom de desânimo na voz – O Santuário anda precisando de alguns motivos pra se rejubilar esses tempos.
Ok, aquilo estava ficando estranho.
Era normal que Shura estivesse sentindo o coração apertar só por causa da expressão no rosto do seu companheiro? Ou que tivesse a repentina sensação de que deveria abraçar o garoto até que sua tristeza se dissipasse?
- Ahn... Desculpe... se eu estiver interrompendo alguma coisa...
Ambos Shura e Afrodite viraram a cabeça para deparar com o cavaleiro de escorpião, que os observava meio desconfiado, meio apreensivo.
- Não está interrompendo nada – o pisciano deu de ombros.
- Está tudo bem – Shura disse, ao mesmo tempo em que Afrodite.
Eles se olharam, surpresos, e sorriram discretamente.
- Era só isso que eu queria te ouvir dizer – Afrodite virou as costas, começando a descer os degraus e cumprimentando Milo com um aceno – Espero que dê tudo certo pra vocês.
Shura levou uma das mãos aos cabelos, meio sem jeito, enquanto Milo olhava dele para a figura de Afrodite, que se afastava aos poucos. Parecendo ligeiramente preocupado, perguntou:
- Ele não tava falando de nós dois, certo?
Shura levantou as sobrancelhas para o escorpião, que o mirava ansioso.
- Pode ter certeza que não.
Milo nunca lhe parecera tão aliviado.
O fato é que o cavaleiro de escorpião subira até aquele nível das doze casas justamente para falar com o espanhol. Tinha de ir ao Cazaquistão dali a dois dias, mas precisava de alguém para substituí-lo nos treinos da semana seguinte, quando pretendia visitar o cavaleiro de aquário na Sibéria.
- Por favor, Shura – Milo praticamente implorou – Uma semana. Eu te cubro quando você precisar.
- O que é que tem na Sibéria, fora aquele monte de gelo, pra você querer tanto ir pra lá? – Shura indagava, pasmo. Nunca fora homem de inverno.
- Aqui está chato – ele respondeu, chutando inconscientemente uma pedra, enquanto subiam até capricórnio.
Shura bem sabia o quão apegados Milo e Camus se tornaram ao longo dos anos, e sempre se admirava do esforço que ambos depreendiam para manter a amizade forte. De acordo com o próprio escorpião, Camus queria que ele fosse para lá também (e disso Shura duvidava um pouco). De todo modo, os dois não perdiam o contato nem mesmo durante a ausência de um ou de outro. "É como Mu, Aldebaran... e Aiolia", o espanhol ponderou.
Durante suas viagens, quando pensava no Santuário, Shura sentia alívio e tristeza ao mesmo tempo. Alívio porque dessa forma conseguia colocar em ordem as próprias emoções. Tristeza porque sempre parecia ter deixado uma parte de si na Grécia. Ele pensava que fosse a parte correspondente a Aiolos, mas pensando bem, não era só isso. Era um conjunto de saudades de pequenas coisas que deixara para trás – o sabor da comida mediterrânea, o vento que trazia a maresia, seus servos tão gentis, as pessoas da cidade, Saga, Shion e todos os seus companheiros...
E um em especial.
Shura parou de repente. Sempre atribuíra toda aquela saudade, aquela tristeza à falta que sentia de seu querido amigo. Não havia pensado nas coisas separadamente até então. "Estou sendo tão burro!", ele pensou, começando a correr escadaria abaixo. É certo que sentiu falta de várias pessoas, vários amigos. Só que analisando melhor seus sentimentos, percebeu que havia uma pessoa com quem gostaria de ter mantido contato em suas jornadas. Uma pessoa a quem teria recorrido sempre que se sentiu sozinho ou deprimido, uma pessoa em quem pensava quando estava feliz, e cujo paradeiro lhe interessava saber.
"Será que ele também pensou em mim em algum momento?", Shura quis saber, mas sacudiu a cabeça. Não importava. Saber aquilo agora não era prioridade. Shura passara tempo demais sem saber o que era aquele sentimento, sempre o carregando para onde quer que fosse, nunca conseguindo se desfazer dele. Agora ele entendia. Agora que sabia, não queria perder mais um segundo com preocupações secundárias. Queria, tinha que chegar à casa de câncer e falar com Máscara da Morte.
Tão concentrado nos próprios pensamentos, teve a impressão de que chegara mais rápido do que de costume ao quarto templo. A tarde caíra rapidamente, e já se podiam ver algumas estrelas no céu. Ele apoiou as mãos nos joelhos, mordendo o lábio, o som do seu coração acelerado em seus ouvidos. Passou pelo portal da casa com os passos mais lentos, deixando fluir o cosmo, de maneira que sua presença fosse facilmente notada pelo guardião do templo. Não demorou muito, Máscara da Morte apareceu sem camisa à porta, o olhar definitivamente confuso correndo de Shura para a escadaria de onde viera.
- Que diabos...?
Máscara da Morte se calou. Shura, ainda recuperando o fôlego, estendera uma mão pedindo silêncio.
- Eu fui egoísta – ele disse, inspirando o ar com força – Senti sua falta.
DM: *stare*
SHURA: Quit that.
DM: Quit what? *stare*
SHURA: This "I told you-look" you have right now. Stop it. It's annoying.
DM: But I told you…
SHURA: I know that much already! *jumps DM kissing him nonstop*
DM: V ( * 3 * )
Só pra constar: "ovelha" é uma piada interna dos dois. Todos sabemos a diferença entre uma cabra, uma ovelha e um carneiro... (na verdade, eu sei o básico para não errar).
Não sei dizer por que cargas d'água 'ovelha'. Sei que estava sem muita criatividade e queria um apelido que ficasse só entre eles. Talvez um dia eu tenha uma idéia e escreva uma side story explicando, mas ainda não sei.
Enfim, a título de curiosidade, esse foi o capítulo de que menos gostei até agora, por alguma razão.
Aviso desde já: próximo capítulo tem conteúdo caliente. Quem for puritano ou simplesmente não for into yaoi, pule-o, sem problemas. Tentarei fazer com que o próximo capítulo, fora esse próximo capítulo (...), seja uma continuação normal para quem não curte muito slash. Tentarei...
