Albus entrou para a aula desejando intensamente ter ficado na cama. Mesmo que soubesse que mais uma falta fosse lhe render uma dor de cabeça enorme, ele começava a achar que talvez fosse mais vantajoso isso a ter que passar tempo próximo de Scorpius. Pelo menos não quando Scorpius estivesse sendo impossível quando aquela situação como estava.

Suspirando profundamente, Al deu uma olhada nos lugares vagos em sala. Apesar e ter acordado cedo, acabara se enrolando entre tomar banho e tomar café e terminara no limite de tempo para entrar em sala de aula. Devido a isso, quase todos os lugares estavam ocupados.

Exceto um. Ao lado de Scorpius.

Albus quase revirou os olhos para o destino e seus clichês. Claro que o único lugar vago na sala inteira tinha que ser ao lado da única pessoa que ele esteva tentando com afinco evitar. Quem quer que fosse responsável pela vida dos pobres mortais como Albus, tinha um senso de humor muito sacana. Resignado, Al foi arrastando os pés até a cadeira e se largou com cara de poucos amigos. Com sorte, Scorpius entenderia o recado e ficaria na dele. Al suprimiu uma risadinha ao pensar isso; Scorpius era tudo menos conhecido por sua sensibilidade.

Por sorte ou não, o professor de Aritmancia escolheu o momento seguinte para entrar em sala, prevenindo uma conversa nada bem vinda entre Al e Scorpius. Ainda assim, Al podia sentir os olhos de Scorpius Se desviando do quadro negro de tempos em tempos para roubar uma olhadela de seu rosto, buscando uma brecha para que pudesse dizer algo. Se fosse completamente franco consigo mesmo, Albus admitiria que estava, em parte, gostando da atenção que Scorpius estava dando. Era estranhamente interessante vê-lo correndo atrás de Al depois de todos aqueles acontecimentos. Por mais que não se permitisse ilusões, Albus não conseguia suprimir pensar o que aquilo poderia significar. Sacudiu a cabeça, tentando espantar aqueles pensamentos. A última coisa que precisava era continuar se iludindo. Remexeu a bolsa atrás de uma pena para escrever o que o professor estava passando no quadro, quando notou que tinha deixado seu livro e estojo com penas e tinta no dormitório da Grifinória, numa das noites em que dormira por lá. Gemeu baixinho, irritado consigo mesmo.

Olhou de esguelha para Scorpius, que encarava a frente com um ar resoluto. Al olhou de relance para o professor e para seu pergaminho em branco. Ele precisava anotar a matéria. Talvez não tanto a ponto de ter que puxar assunto com o Scorpius. Mordeu a boca, indeciso. A quem ele estava querendo enganar, no fundo, ele queria falar com Scorpius. Ele só não queria falar sobre aquele assunto.

Respirou fundo. Pedir uma pena emprestada parecia seguro o bastante.

"Hey, Scorpius?" sussurrou Al.

Scorpius não se moveu. Continuou olhando para frente e, em seguida, anotou alguma coisa em seu próprio pergaminho. Al aguardou alguns segundos, em dúvida se Scorpius não o havia escutado ou estava terminando de anotar algo essencial para depois respondê-lo.

Depois que os segundos se tornaram minutos, Al percebeu que não tinha sido ouvido. Aproximou-se ligeiramente do amigo, na esperança de se fazer ouvir mais facilmente sem precisar elevar a voz.

"Score?"

Novamente Scorpius não o respondeu, tampouco deu qualquer sinal de que havia escutado. Albus franziu o cenho, ligeiramente incomodado. Não era possível que o amigo estivesse assim tão concentrado na aula que não estivesse escutando-o. Lambeu os lábios, sentindo a boca seca por razão nenhuma. Inclinou-se um pouco mais, tão perto que sua respiração estava fazendo os fios de cabelo na têmpora de Scorpius se moverem levemente.

"Oi, Scorpius?" disse um pouco mais alto.

Scorpius não se moveu. Seu olhar continuava fixo a frente, fixo até demais. E era impossível que o garoto não o tivesse escutado. Albus tinha certeza. Sua certeza foi confirmada quando professor o encarou mal humorado e alguns alunos o olharam.

"Senhor Potter, eu peço que restrinja conversas paralelas a quando não estiverem em minha classe."

Al arregalou os olhos, surpreso e envergonhado, se aprumou na cadeira e murmurou desculpas. O professor o olhou mais longamente.

"Onde está seu material?"

Al se encolheu. Esperava que ausência do livro passasse em branco, mas, obviamente, a sorte não estava ao seu lado por aqueles tempos.

"Eu... Esqueci."

"Esqueceu.", professor comentou, numa voz morta. "Senhor Potter eu tenho algo que avivará sua memória: detenção hoje, em minha sala, às sete horas."

Al abaixou a cabeça, sentindo-se ligeiramente trêmulo. A detenção era ruim o bastante, mas não era isso que estava fazendo Albus se sentir irritado a ponto de suas mãos tremerem. Se o professor, na frente da sala de aula, o havia escutado, sem dúvida alguma Scorpius, a pouquíssimos centímetros, também o havia ouvido. Mordeu o lábio, tentando conter raiva. Estava sendo ignorado. Isso era claro. Mas porque estava sendo ignorado era um mistério. Nunca antes Scorpius tinha fingido que Al não existia. E Albus não sabia como lidar com aquilo.

O restante da aula transcorreu num misto de confusão e raiva. Ele estava profundamente zangado, em grande parte, consigo mesmo por ter cedido e tentado falar com Scorpius. Se ao menos tivesse ficado quieto em seu canto, não teria uma detenção para cumprir. Estava tão absorto em remoer o que tinha acontecido que mal notara que a aula havia terminado. Pôs a mochila no ombro de qualquer jeito e se levantou abruptamente da cadeira, pretendo sair da sala o mais rápido que suas pernas pudessem leva-lo. Porém antes de cumprir seu intento, sentiu uma mão em seu braço.

Al sabia de quem era mão, mas naquele instante, nenhuma outra presença era menos desejada do que aquela. Num impulso enraivecido, Albus desvencilhou o braço com violência e deu apenas uma olhada por cima do ombro, a hostilidade clara em seu rosto.

Scorpius soltou uma exclamação de surpresa, se pelo puxão ou pela olhada Albus não sabia, tampouco se importava. Não parou de andar, nem mesmo quando Scorpius chamou seu nome, nem mesmo quando a expressão chocada do garoto parecia ser a única coisa que conseguia ver a sua frente.


O Grande Salão já estava começando a encher de alunos famintos quando Al entrou esbaforido. Albus mal deu dois passos em direção à mesa da Lufa-Lufa viu Fred emparelhar com ele, parecendo relaxado como de habitual.

"Opa, e aí, priminho?"

Al não conseguiu responder, apenas deu um sorriso trêmulo que mais parecia um mostrar de presas como resposta. Fred só ergueu as sobrancelhas e acenou para James, que vinha chegando logo atrás do ruivo.

"Ah, almoço, segunda melhor hora do dia, só perdendo para a janta! Vamos comer, irmãozinho." James disse, passando a mão pelos ombros de Al sendo quase escoltado pelos dois até a mesa da Lufa-Lufa.

Os três sentaram-se lado a lado, Albus no meio, completamente incapaz de dizer o que quer que fosse, enquanto James e Fred aparentemente preenchiam sua parte na conversa. Não sabia se o primo e o irmão não haviam notado que ele não estava bem; de certa forma, nem sabia se queria que fosse notado. Estava tão cansado, que tudo o que Al queria era um pedaço de bolo bem grande e poder ir para sua cama.

"Não sei você, James, mas eu cansei de esperar o Al abrir a boca." Fred disse casualmente, tanto que Albus mal registrara o que ele dissera.

James deu de ombros.

"Eu vou adivinhar: Scorpius aprontou alguma, Al está mal com isso."

"Vai à merda, James." Al disse, se levantando. Seu estômago estava roncando, mas preferia ir pra cama a ter que ouvir besteira. James deu uma risadinha descrente que não ajudou em nada. A ideia de dar um cascudo em James passou brevemente pela cabeça de Albus, mas havia anos que os dois não brigavam sério e, se ele bem se lembrava, na última vez em que isso acontecera, ele tinha saído com um olho roxo e um dente de leite solto.

"Oi, senta aí." Fred disse, sério. Al franziu o cenho, olhou o primo de esguelha, mas se sentou. A verdade era que, na última briga dele com James, seu olho roxo e dente solto tinham sido cortesia de Fred. Assim como a boca sangrando e hematomas de James. Havia um bom motivo para ninguém querer brigar perto de Fred: isso em geral significava ambos os lados apanhando do garoto. "Sossega. Você nem pode bancar o ofendido, porque a gente sabe que foi isso que aconteceu."

"E daí, isso dá direito de vocês zoarem?"

James ergueu as mãos, num gesto de rendição.

"Eu não estava zoando."

"Sei. 'Qual foi' do comentário então?"

James suspirou e olhou para Fred, num pedido mudo de socorro.

"Acho," começou Fred, pondo um pedaço de empadão no prato de Al. "que eu posso falar por nós dois quando digo que 'tá meio cansativo ver você desse jeito."

Albus explodiu. Ou melhor, implodiu. Sua raiva e frustração não encontraram um caminho para fora; Al já não tinha mais ideia de como devia reagir àquela bola de confusão, angústia e raiva que sua vida tinha se tornado. Por que não podia ser como todos os outros garotos se sua classe e estar, como estava há pouco tempo, mais preocupado em perder sua virgindade do que estar apaixonado por quem não gostava dele? E por que Fred e James tinham escolhido justamente aquele dia para pegarem no pé dele. Albus desabou sobre a mesa, por pouco não aterrissando de cabeça no prato de empadão. Ficou ali, debruçado a centímetros do empadão e se perguntando se esticasse a língua, conseguiria lambê-lo.

Ele sentiu a mão de Fred em seu ombro.

"Ei, ei, não precisa também tentar se matar no empadão, okay?" Fred puxou Al pelo ombro até que ele estivesse de certa forma sentado. Ao menos sua cabeça não estava mais entre o almoço. "Vai, come, certo? Você vai se sentir melhor."

Al se pôs a comer, exaurido demais até para discutir. Ele estava inimaginavelmente cansado daquelas preocupações idiotas, de Scorpius sendo idiota, dele próprio ser idiota. Suspirou profundamente e pôs o prato de comida de lado.

"Eu acho que vou para o dormitório cochilar." Al disse, numa voz pastosa, sem forças até para falar.

James franziu a testa.

"Você tem aula ainda. E antes que você diga algo, não, eu não vou deixar você matar aula".

Al gemeu, olhou pra Fred em busca de apoio, mas só viu o primo dar de ombros com um meio sorriso nos lábios.

"Não fica assim, assiste as aulas que no final do dia eu tenho uma surpresa legal para você." Fred disse. Al meio assentiu com a cabeça, meio deu de ombros, num movimento que mais pareceu que ele estava tendo espasmos.

Al estava quase terminando sua segunda fatia quando viu Scorpius se sentar à mesa da Lufa-Lufa, apenas poucos pratos de distância. Sentiu seu coração dar um pulo engraçado dentro do peito, que o fez soltar o garfo e desejar intensamente que tivesse ido dormir. Scorpius provavelmente o tinha visto e ainda o estava ignorando, fazendo uma cena em não olhar na direção de Albus em momento nenhum. Empurrou seu prato para longe, subitamente sem fome, vendo Scorpius conversar em uma voz alta e animada com os companheiros de Casa a sua volta. Era pura atuação e era falso, mas estava surtindo o provável efeito desejado por Scorpius: incomodar Al. Estava pronto para fugir do Grande Salão mais rápido do que um kappa persegue um banhista desavisado quando viu Scorpius se virar e olhar em sua direção. Al congelou.

"Weasley, você poderia me passar o purê de batata, por favor".

Al percebeu, cada vez mais cansado, que Scorpius estava fazendo a mais absoluta questão de fingir que o espaço entre Fred e James estava vazio. Encolheu-se no banco, pensando seriamente em se deixar escorregar para baixo da mesa, se enroscar e dormir. Por um ano.

"Mas que-" Fred começou, olhando feio para Scorpius de um jeito absolutamente hostil, tanto que Albus achou estranho. Scorpius, por sua vez, parecia tudo menos abalado com o olhar de Fred e meramente apontou para a travessa de purê de batata.

"Me passe, por favor, Fred?" Pediu, com aquele ar falso que estava fazendo Albus começar a ter dor de cabeça.

Fred fechou ainda mais a cara, hesitou com a mão sobre a travessa, mas, por fim, a passou para Scorpius. Por dois segundos, Al teve a nítida impressão de que o primo viraria a travessa na cabeça de Scorpius, mas, por sorte, aquilo não aconteceu. Scorpius agradeceu – sorrindo e começou a comer como se fosse absolutamente normal. Fred se levantou e Al ficou em alerta: alguma coisa no jeito de Fred se movimentar dizia que Scorpius tinha grandes chances de terminar com o almoço enfiado violentamente narina à dentro. Ou em lugar pior. James se levantou às pressas em seguida, ficando atrás de Fred, pronto para contê-lo.

Fred ficou parado encarando Scorpius, de modo tão ameaçador que o sorriso falso do garoto derreteu e se tornou uma carranca nervosa. A conversa em volta deles lentamente morreu, enquanto os alunos esperavam o que Fred iria fazer. Não era como se Fred tivesse uma má fama, mas todos sabiam que era melhor não contrariar o geralmente relaxado garoto.

"Curta o almoço, Malfoy".

Scorpius o olhou de esguelha, antes de esboçar um sorriso trêmulo.

"Obrigado, Weasley."

"Eu espero que seu purê esteja ótimo." E se abaixou, parando tão próximo de Scorpius que, do ângulo que Al estava, parecia que eles estavam se beijando. "Cortesia minha."

Al arregalou os olhos, bem como Scorpius, que cuspiu o dito purê de volta no prato e o afastou, apavorado. Albus se levantou às pressas, sem saber se devia ir até Scorpius e acudi-lo do que quer que Fred tivesse feito ou ir atrás do primo para efetivamente saber o que ele tinha aprontado. Por fim, sua indecisão foi solucionada por Fred, que acenou para que ele o seguisse, enquanto uma pequena comoção surgia na mesa da Lufa-Lufa, com Scorpius esganiçando que tinha sido envenenado.

"O que você fez?" Al perguntou, exasperado. Fred não respondeu e apenas acelerou o passo. Olhou para trás, tentando ver o que estava se passando com Scorpius, mas nada conseguia ver, pois alunos da sua Casa se amontoavam em volta do garoto.

"Eu já aviso que não vou pra detenção com ninguém e sou completamente inocente." Disse James, com um ar irritado.

"Fred? Fred! Fred, é sério, o que você-"

"Eu só espero que não tenha sido ilegal!" James disse, num tom que pretendia ser desinteressado, mas estava acelerado demais para enganar alguém. "Eu juro pela minha honra grifinória que eu não vou visitar ninguém em Azkaban!"

Fred não se deu ao trabalho de responder a nenhum dos dois e continuou marchando em direção à saída. Albus estava tão nervoso que achava que nem mesmo uma barra de chocolate de um quilo poderia diminuir sua ansiedade.

Mal puseram os pés fora do Grande Salão, Fred brecou seu avanço, fazendo Al e James quase colidirem com o garoto. Ele se virou para os dois com um sorriso enigmático.

"Nada."

James e Al piscaram lentamente para o primo.

"Como assim nada?" James inquiriu.

"Nada. Eu não fiz nada com a comida do Malfoy."

"Mas você disse..." Al começou, confuso.

"Sim, eu sei. Eu só disse. Eu não fiz. Eu sabia que o besta ia entrar em pânico, dar chilique e... Era só isso que eu queria."

"Uh, 'tá me dizendo que você a piada é ele se estressar com... Nada?" James perguntou, gesticulando amplamente como que para ilustrar a grande complexidade de compreender o que Fred dizia.

"Exatamente."

James encarou Albus, que encarou o irmão de volta. Os dois se viraram simultaneamente para encarar o primo, que sorria amplamente. Voltaram a se encarar.

E riram tanto que James anunciou que ia urinar perna abaixo de tanto, porque já estava sem forças e o incidente só não ocorreu, porque Fred jurou que se ele fizesse xixi no corredor onde estavam, ele iria bater em James.

Al foi para sua aula com o coração um pouquinho mais leve depois disso.


Notas e um pouquinho de falação

Huzza! Desculpem pela demora! Eu tava um megaboga ocupada esses últimos tempos, tive dor de dente (uuuuh terrível! TERRÍVEL!) e, como estou revisando coisas no plot da fic (uff, dilemas e mais dilemas! Eu culpo vocês aí! É, vocês! Ficam aí me dando um milhão de ideias de par, ó meu coração partido de não poder colocar todos na fic! Huff /brinks), acabei demorando bem mais do que eu previa pra parir esse capítulo! Mas aqui está, meu recém-nascido! Há!

E ele tá completamente sem o mínimo de betagem. Se tiver alguma coisa muito bizarra, me avisem pra eu consertar!

Então, quem quer mandar o Scorpius ir praquele lugar levanta a mão! o/ AHAHAHAHHAHA Ok, ok, parei.

Obrigada pelas reviews, meu povo! Se eu esqueci de alguém, please, do tell me.

Aliás, alguém aí já leu o livro "Let the Right One In" (ele deu origem a um filme sueco de mesmo nome e a um filme americano chamado "Let Me in"/"Deixe-me Entrar"? É muuuuuito legal! Super, super recomendo, teehee!

Atééée o próximo capítulo (prometo que ele demora menos)!